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  • Mandar recursos ao ar, ou pôr os pés na Terra?

    Mandar recursos ao ar, ou pôr os pés na Terra?

    Hoje sento-me no banco dos réus para saber a minha sentença. Fui julgado por denunciar um crime, enquanto o crime fica por julgar.

    Como um aviãozinho de papel, lanço-te um apelo, na esperança de verter por estas linhas alguma da ânsia de justiça que por mim corre.

     

    Falo de uma justiça bem distante desta sala do Juízo Local Criminal de Lisboa, com as suas caricatas vestimentas, hierarquias e formalidades, onde o estado me obriga a vir pela quarta vez.

    Ao cabo dum mês de julgamento e dum processo judicial de quase três anos, sinto pena e raiva, sinto ansiedade e cansaço. Sinto-me incrédulo com a quantidade de recursos mandados ao ar. Sinto-me, sobretudo, cercado de apoio e solidariedade. E sinto-me exatamente onde escolhi estar.

    Este julgamento convida-me a estar presente com um dos temas mais importantes na minha vida, e um dos mais importantes do nosso tempo: a forma como nos deslocamos sobre a Terra.

    Ação “Içar as velas pelo estuário do Tejo – não ao aeroporto do Montijo!”, em 2018

     

    Descolagem

    Quando, em 2018, soube que o governo português chegara a acordo com a multinacional Vinci para expandir o aeroporto de Lisboa, não pude acreditar. Depois, não pude dormir.

    O objetivo anunciado era ter um avião a sobrevoar a cidade a cada 50 segundos, e receber 50 milhões de passageiros aéreos a cada ano. Isto é dez vezes mais do que o número de passageiros de 2004. E é cem vezes mais do que o número de habitantes de Lisboa – uma cidade a rebentar pelas colinas de turistas e de sem abrigo.

    O transporte aéreo tornou-se um exemplo fundamental para entendermos até que altitude pode chegar a demência capitalista.

    Trata-se da fonte de gases com efeito de estufa que mais rápido cresce: em apenas vinte anos as emissões da aviação dispararam 70%. De todos os transportes, é aquele que mais polui e aquele que menos impostos paga, o que permite voos a preços fantasiosamente baixos. Também é o mais injusto e elitista. A nível mundial, 90% da população nunca pôs os pés num avião. Serve uma minoria privilegiada de pessoas, enquanto as mais vulneráveis não voam e são as primeiras a sofrer com as alterações climáticas. E metade das emissões da aviação são provocadas somente pelos 1% mais ricos do planeta.

    Curiosamente, a pandemia da Covid conseguiu algo notável para a saúde pública e planetária: aterrar grande parte dos aviões. Só que, em vez de aproveitarmos para os manter em terra, está tudo a acontecer ao contrário.

    O governo suspende a única forma ecológica de sair e regressar ao país – os históricos comboios noturnos Lusitania e Sud Express – e isola Portugal da rede ferroviária europeia. Em 133 anos, só aconteceu na Primeira Guerra Mundial e na Guerra Civil espanhola.

    As elites políticas e económicas juntam-se pela 26ª vez numa cimeira do clima onde negoceiam e assinam acordos para reduzir emissões. Depois, voltam nos seus aviões e jets privados e prosseguem provocando o aumento de emissões.

    Os estados usam o dinheiro público para resgatar as empresas da aviação – as mesmas que andam a voar isentas de impostos e fizeram fortuna com a destruição ecológica – sem sequer pôr contrapartidas ambientais.

    As companhias aéreas usam esse dinheiro para operar dezenas de milhares de voos fantasma, sem levar um só passageiro e provocando toneladas de emissões, só para manter slots nos aeroportos.

    Quantos recursos mandados ao ar?

    A badalada “retoma da aviação” não seria “voltar ao normal”. Seria voltar a esta loucura:

     

    25 de julho de 2019 entrou para a história por dois recordes: mais de 230 mil voos num só dia (a grande maioria sobre os céus dos países mais ricos), e as temperaturas mais altas alguma vez registadas no Reino Unido Alemanha, Luxemburgo, Bélgica e Países Baixos. Imagem: Flightradar24

    Felizmente, a solução permanece simples e suave:

    menos avião e mais imaginação.

     

    Ponto de não retorno

    Numa noite de primavera de 2019, dirigi-me ao palco onde discursava o primeiro-ministro, enquanto participava numa ação de denúncia audaz, divertida e absolutamente necessária.

    Lá em cima, descobri-me ofuscado por luzes e câmaras. Tantos meios de comunicação encavalitando-se para cobrir o mesmo discurso político banal, que um só poderia cobrir e partilhar! Quantos recursos mandados ao ar? Felizmente, desta vez, puderam registar de ângulos ligeiramente diferentes aviões de papel esvoaçando em frente a um primeiro-ministro boquiaberto e um “capitão tofu” a tentar ler um comunicado.

    Para ser eleito Presidente da Câmara de Lisboa, António Costa propôs desativar o aeroporto da Portela e criar ali um “pulmão verde” da cidade. Anos mais tarde, chefiava o governo que aumentava em 33% a capacidade da Portela, contra a vontade das lisboetas e fugindo à obrigação de uma avaliação ambiental.

    Para impor um segundo aeroporto, em pleno estuário do Tejo, parece valer tudo: afirmar à partida que o projeto será “irreversível” e que “não há plano B”, mudar leis democráticas, inquinar estudos ambientais. E perseguir ativistas.

    Intimidar defensoras de direitos humanos e da Terra através de processos legais é uma prática comum por parte de grandes empresas, conhecida em inglês por SLAPP. São acusações legal e moralmente descabidas – o objetivo da empresa nem é vencer o caso, mas silenciar a crítica, mantendo as ativistas de mãos atadas enquanto se arrasta o processo.

    A Vinci, multinacional com um sinistro historial de crimes contra as pessoas e o planeta, conforme descobri e revelei numa investigação para o jornal Mapa, acusou por exemplo de difamação as associações que denunciaram as condições de escravatura em que os seus trabalhadores construíram os estádios para o Mundial do Qatar.

    O estado português parece seguir a mesma estratégia. Para além deste meu caso, decorre um processo legal contra 29 pessoas que participaram na ação “Em Chamas”, junto ao Aeroporto da Portela, para defender três coisas: menos aviação, mais ferrovia e uma transição justa.

    A elite política adota a prática e o discurso da elite económica e ameaça com um novo aeroporto, mas também com mais minas, centrais solares e monoculturas.

    A demência capitalista caracteriza-se por estar viciado em mega projetos e em crescimento económico mesmo que isso signifique destruir a casa comum. Por mastigar a beleza do mundo e cuspir dinheiro. Por alegar constantemente preocupações ambientais e constantemente cometer crimes ambientais. Por rodear-se de privilégios ao ponto de perder a capacidade de sentir o mundo e de sentir os outros.

    As pessoas que dela sofrem surgem frequentemente à frente de empresas, de instituições públicas e de câmaras de televisão. Precisam do nosso apoio. Mas, antes, precisam de ser travadas. Como tiraríamos uma caixa de fósforos das mãos de uma pessoa que sofre de piromania – é fundamental tirarmos das pessoas que sofrem de demência capitalista qualquer instrumento de poder. O microfone é um deles.

     

    Aterragem

    Passei uma grande parte da minha vida a calcorrear o nosso planeta, numa demorada e misteriosa coreografia com as estrelas. Fazer a escolha de viajar com os pés na Terra aproximou-me de vivências que, chegada a minha hora de morrer, me recordarão como viver valeu a pena.

    Do último voo que apanhei, recordo o prazer nervoso percorrer-me a espinha. Lá fora: a doçura do céu. Dentro de mim: a vontade de gritar “estamos a voar!”. Nos assentos em meu redor: a apatia e o aborrecimento…

    O avião é uma tecnologia preciosa que pode estar ao serviço, não de “bullshit flights”, mas do bem-estar de toda a humanidade e das espécies com quem coabitamos.

    O capitalismo vendeu-nos a ideia de que tínhamos o direito de voar em qualquer momento, por qualquer razão, a qualquer destino do mundo, mas escondeu os seus impactos. Pode ser duro abdicar desse conforto. Pode ser maravilhoso.

    Algumas de nós têm a escolha maravilhosa de abdicar de um voo (por exemplo, um casal que iria gozar um fim de semana numa capital distante) para permitir a outras fazê-lo (por exemplo, uma pessoa migrante visitar um familiar doente).

    O relatório “Decrescimento da aviação”, que em 2020 a campanha ATERRA apresentou ao público e aos deputados da Assembleia da República, aborda sete passos simples e sábios para uma mobilidade mais justa.

    Mudar a forma como nos deslocamos é parte de uma transformação maior e fascinante do sistema em que vivemos – da energia à alimentação. Seja qual for o teu contexto, a tua responsabilidade ou o teu poder, venho pedir-te que, perante “o meio de transporte mais rápido para fritar o planeta”, faças o teu melhor para não seres cúmplice, para resistires e para recriares a realidade.

    Peço-te que denuncies os hábitos de viagem dos super ricos.

    Peço-te que dês o primeiro passo para a mudança da política de transportes do teu clube, empresa, cooperativa, universidade, partido ou município – evitando reembolsar viagens de avião, preferindo videoconferências e viagens em comboio.

    Peço-te que te mobilizes pelo regresso do Lusitania e do Sud Express, para que, como já está a acontecer em vários recantos da Europa, possa haver na Ibéria cada vez mais pessoas a escolher o comboio noturno em detrimento do avião.

    Peço-te que espalhes esta maravilhosa notícia aos teus vizinhos, aos media, aos empresários do turismo, ao novo governo: não vai haver nenhum aeroporto no Montijo, nem mais nenhum aumento da capacidade aeroportuária.

    Peço-te que me ajudes a dar o meu melhor. Que assumamos juntas o nosso poder e a nossa liderança, para  sonhar e construir um futuro de viagens menos frequentes, menos distantes e muito mais ricas. Um futuro que nos leve a apaixonar pelas histórias, comunidades e ecossistemas de que somos parte. Em que as Covas do Barroso, o castelo de Mértola ou a rua de cima são lugares mais apetecíveis do que Barcelona, Bali ou Berlim. Em que os pés, os pedais e os carris nos levam por novos e velhos recantos. Em que milhares de veleiros se libertam das docas do luxo e embarcam todo o tipo de pessoas e bens até todo o tipo de destinos. Em que a arte nos leva a viajar, a bordo de antigos aviões convertidos em salas de cinema.

    Sim, os recursos do planeta que permitem propulsar um avião têm limites. Mas a nossa imaginação não.

    Convido-te a fazermos a maior viagem das nossas vidas:

    Pôr os pés na Terra e deixar a imaginação voar.

     

     


    Texto de  Francisco Colaço Pedro – jornalista e ativista da ATERRA – campanha pela redução do tráfego aéreo e por uma mobilidade justa e ecológica


  • A Prisão no feminino

    A Prisão no feminino

    Em Portugal, a percentagem de mulheres presas nunca ultrapassou os 10% da população total encarcerada. Contudo, nas últimas décadas, Portugal é dos países na Europa com as mais altas taxas de encarceramento feminino. Por serem em menor percentagem, mas não só, as mulheres nas prisões são relegadas para a invisibilidade e para o silenciamento, permanecendo obscurecidas as suas experiências de encarceramento, bem como as das dezenas de crianças (até aos 3 anos e, em casos especiais, até aos 5 anos) que habitam nas prisões junto das mães. As condições a que são sujeitas, desde a péssima alimentação; a falta de acesso a cuidados dignos de saúde, a produtos de higiene, a fraldas e a produtos essenciais para bebés e crianças; a sobrelotação; as celas frias e degradadas e, e tal como nos foi relatado desde uma prisão feminina no último mês de Novembro, a falta de água quente, são acrescidas de maior violência e abusos, em parte, devido aos estereótipos de género e raciais que legitimam a dupla/tripla punição exercida através de um maior controlo e repressão pela imposição de regras mais estritas, maior aplicação de sanções disciplinares, medicalização e violências sexuais e raciais. De referir que esta dupla/tripla punição (em função do «crime», do «género» e da «pertença étnico-racial») é também exercida pelos tribunais que tendencialmente condenam as mulheres a penas maiores e lhes aplicam menos medidas de flexibilização. Consideremos também os castigos a que são mais sujeitas dentro da prisão, que as impedem de ter acesso a mais saídas precárias e ou a sair a meio da pena, entre outros direitos que lhes são negados.
    As mulheres presas são também mais relegadas ao abandono e ao esquecimento por parte das famílias e das organizações de apoio a pessoas presas, quer durante o encarceramento, quer no período pós-prisão, o que torna ainda mais difícil a reconstrução das suas vidas em liberdade. Muitas mulheres, mesmo presas, continuam a desempenhar o papel de cuidadoras e provedoras de recursos para as suas famílias, com todas as dificuldades e adversidades que a prisão provoca nas suas vidas, nas das suas famílias e das comunidades. Há um número significativo de crianças institucionalizadas devido ao encarceramento das mães, quando são estas as suas únicas cuidadoras.
    Os processos de criminalização são, muitas vezes, expressão da continuidade da violência machista a que já eram sujeitas nas suas vidas e que é perpetuada dentro da prisão. Isto porque muitas mulheres presas resistiram nas suas vidas a vários tipos de abuso e de violência de género, sendo comum que os seus crimes estejam diretamente relacionados com a obtenção de recursos para a sobrevivência, como é exemplo o tráfico de droga.
    Há um número muito significativo de mulheres racializadas e migrantes nas prisões portuguesas. O Direito, a Justiça e a Prisão são a expressão direta da institucionalização do patriarcado colonial que, há séculos, castiga mais duramente as mulheres, as crianças e outras dissidentes.

    Publicamos duas cartas de mulheres presas que denunciam a falta de condições e os abusos de poder a que se encontram sujeitas quotidianamente. Estas cartas foram transcritas tal como nos chegaram.

    «Cela disciplinar, vulgo manco»

    [Esta carta foi escrita por uma mulher presa, durante isolamento em cela disciplinar. Castigada pela revolta e desesperada com a dificuldade em manter a relação com os filhos menores, afastados pela prisão. Após provocações e violências exercidas por guardas, foi altamente medicada e encarcerada 23h no «manco» asfixiante, uma gaiola de cimento de 3 metros por 2 metros com apenas um colchão fino sobre a pedra, o «buraco» (sanita) e o chuveiro. Despojada de praticamente tudo a não ser a própria roupa, com direito a 1h por dia no pátio vazio. Esta carta é um grito de resistência à desumanização que se vive na prisão. Um grito pela dignidade, a recusa da submissão, o protesto e a reivindicação de si no enfrentamento da tortura.]

    Hoje por volta das sete horas da noite foi dada uma ordem do comissário e do tal chefe cabrão J. Covarde. Eu relutante disse «eu não vou entrar». «Ai não?» – eles disseram – «porquê?». E eu disse «não fiz nada para estar aí». Ele, chefe J., me disse «você quer passar o resto da sua vida aqui?». E eu disse «Eu? Tá doido?». Ele vem debochado e ria. Eu dizia «olhe nos meus olhos e não se acovarde, diga a verdade, você viu meus filhos, lhe contaram a verdade, você vai se omitir, perante a verdade? Diga fala olhando nos meus olhos que eu estou mentindo, diga». E ele, olhando para mim, dizia: «você vai entrar, você vai». E todo o tempo com voz ameaçadora dizendo «eu estou ordenando». Eu por diversas vezes perguntei «você me está ameaçando?». Ele sorria. Eu vi nos olhos dele um monstro sem sensibilidade, sem coração. Eu tenho a certeza que aqui as pessoas ficam nessas situações quando não jogam o jogo deles, eu já ouvi e vi situações em que presas relatam coisas horríveis, ninguém merece ficar nessa situação. Mas eu gostaria muito de dizer às autoridades que olhem para o presídio, porque aqui está tendo muita maldade para com as presas, e eu estou fazendo greve de fome para que eles, os órgãos brasileiros, ajam o mais rápido possível. Adoro quando eles vêm aqui e tentam tirar onda com a minha cara. Agora mesmo veio uma guarda perguntar se quero ir ao recreio – «para quê?» (risos), sou uma pessoa iluminada, saberei lutar de uma forma que jamais lutei para isso passar. Dizem as más línguas que o ponto crucial da vida é dar ouvidos aos bobos. O mundo dá voltas, também dou as minhas. Tenho tido mesmo mal momento. Às vezes digo que poderei mas não poderei, sou assim de mal a pior.
    As guardas são ruins de verdade, exceto algumas – eu pude ver com meu próprios olhos a humanidade que a senhora R. tem, realmente eu fiquei impressionada com tamanha humanidade, e também de uma senhora chamada dona M., essas mulheres ganharam meu total respeito e admiração. Elas me respeitaram, foram humanas, carinhosas e eu sei que por elas nunca eu estaria aqui neste buraco. Eu vejo na cara de algumas que ficam satisfeitas em nos ver enclausuradas, elas pensam que nos humilham (risos), eu acho que não sabem elas que nos fortalecem cada vez mais. Agora mesmo eu disse «tragam os meus queques de chocolate e açúcar» e elas disseram «não pode nada disso». Então eu disse «ok, vou dizer à Dra. A. pois se comprei aqui no EP tenho todo o direito de os levar para comer». Eu não sei se essas pessoas têm sensibilidade, elas estavam rindo. Agora mesmo uma tal de M.A. veio aqui toda debochada dizer que não, que eu só podia comer a comida do EP, comida essa que não presta para nada. Ah!, que ódio que sinto, se pudesse eu matava elas. Juro a Deus que eu sinto vontade mesmo de matá-las e depois cortar aos pedaços e jogar aos porcos. Como diz o meu Pai, é gente ruim mas dá para aproveitar os órgãos e ainda se ganha uma boa grana. Porra de cadeia é essa, gostaria que essas energúmenas estivessem no Brasil para a gente poder mandar picar elas e colocar no micro-ondas (risos). Aqui também dá para fazer isso mas é uma pena estar presa senão pedia um favorinho ao meu amiguinho do EP, para dar só uma bombadinha nelas. Eu não sou má mas esse tipo merece o pior pelo deboche. Mas também não vale a pena falar com elas, tem que deixar elas. Elas estão cultivando o próprio futuro. Eu sinto é pena delas por serem assim, mas que horror Jesus! Mas saúde para elas, só não quero deboches.

    Sábado. Aqui.
    Hoje por volta da hora do jantar veio mais uma vez gritando comigo, como sempre. Hoje, sábado, gritou e se incomodou pelo fato de eu estar só de leggings e top. Que não era obrigada a me ver assim, uma vez que trabalho na cozinha, e me diz que temos que respeitar as guardas, e eu disse «está vendo eu desrespeitando alguém?». Ela acabou. Eu então disse «cuide da sua vida», eu respeito mas essa Senhora A. não respeita, só chega gritando dizendo que não é empregada de ninguém. A Senhora I. disse «não toques mais à campainha que aqui não é hotel». Eu ia tocar a campainha para pedir talher, pois como eu iria comer? Ela passou o dia dizendo «está aí porque não respeitou a minha colega». Eu quero só que esse inferno termine pois eu já não aguento grito dessa mulher. Quando ela gritou eu disse «pára de gritar, que não sou sua filha». A pessoa está trancada há dias, daí vem uma senhora dessas e diz coisas horríveis todo o dia. Não, ninguém merece, nem eu, não sou cadeira para entender tudo o que tem que ser. A mulher parece que não aguenta o ambiente e desconta nas pessoas, não é a primeira vez que ela tem essa atitude para comigo e não sei qual é o problema dela, uma senhora que não sabe se respeitar. Agressiva, doida ela, terá o que merece na hora certa, meu jejum não foi em vão, gostaria que deus todo poderoso visse essa ação. Agora eu gostaria que nunca se faça com ela o que ela está fazendo comigo. Eu não sei como reagir com esse tipo de cara, mas hoje eu já fui insultada muitas vezes, eu sou uma pessoa muito respeitadora mas o que elas estão fazendo é demais, depois querem respeito. Não, não se dá o que não se cultiva, só se colhe o que se planta, é assim a vida. Às vezes Deus nunca dorme e ele sabe o que está guardado para mim.

    23 a 31 de julho de 2019, F.

    «Carta Portadora da Voz do Povo»

    Venho por meio Desta Relatar Fatos desconhecidos da População Portuguesa e da Direção-Geral do Sistema Prisional. Venho relatar o Sistema Prisional.
    Aqui quem Vos Relata é uma Prisioneira que ainda faz parte Deste Sistema Horrendo e Deplorável e que infelizmente está longe de Ser um Sistema Adequado de Ressocialização. Venho Vos Relatar que o Sistema Prisional, Afinal, Realmente somente Aprisiona e esquece que quem está de fato pagando pelo seu Crime com a Sociedade precisa de Ajuda. E não precisa Somente Ser Taxado de Marginal perante a Sociedade ou Ser Mais um Número em Cárcere. O tratamento que Recebemos No Estabelecimento Prisional é Desumano e Deplorável. AS IRREGULARIDADES SÃO GROTESCAS E TOTALMENTE CONTRÁRIAS AOS DIREITOS HUMANOS.
    Vamos Começar falando Pela Comida que Nos é oferecida em Refeitório. Primeiro, a Comida por Muitas e Muitas Vezes está estragada, sem o Cozimento Necessário, e mesmo Assim nos é ofertada em refeitório. Segundo, a Quem está na Dieta, a Maioria Das Vezes na Semana Somente é ofertado Peixe na Janta, ao Almoço vem frango ou Carne. Terceiro, no Geral, é ofertada uma quantidade Minúscula de Comida. Quarto, Quem é Vegetariana Diz não aguentar mais. Obs: existem Dietas Normais. Dieta sem Peixe – Que come a Mesma coisa que a Vegetariana. Existem Dietas de que Algumas pessoas precisam, porque necessitam de Alimentação Adequada, e não é fornecida. Existem pessoas que têm Anemia Crónica, Existem pessoas que Sofrem de Cancro, que precisam de Comida que Contém ferro e, Mesmo assim, eles Não fornecem. Mesmo Prescrita por um Médico do Hospital. O que Vivemos aqui é Desumano. Sem falar na quantidade que nos é ofertada, e na Comida Extremamente gelada.
    O Pequeno Almoço é servido às 8:20, 8:30 e às 9:00, com 2 Pães, Café+Leite+Doce, ou Manteiguinha, ou queijo Fatiado, o que é muito Raro (servir Manteiga ou queijo fatiado), e o leite e o Café já Vem gelado. É inconsumível. Eu Tenho a Mania de Falar para as guardas que quando fizerem um Rastreio de Prevenção Contra a Diabete, 90% da População Prisional já estará com a Diabete. Porque às Vezes, no Pequeno Almoço, só Nos Dão Doce para passar no Pão e no Reforço pela Noite Também.
    Agora Vamos Relatar o que acontece na Verdade na Administração. Quando Entramos para Cumprir uma Sanção, Logicamente que Sabemos que Viveremos Sob um Regimento de Sistema Prisional, Mas Nem imaginamos o que acontece por Dentro Dos Portões e grades. Quando chegamos passamos por uma «Revista», para Verificarem se não trazemos nada ilícito para Dentro da Prisão, como Drogas, etc… Depois Vamos para o Escritório, onde se encontra a chefe de turno, + 2 guardas Prisionais. Lá Recolhem as Nossas Coisas de Valores, Dinheiro, e fazem a escolha Dos Pertences que podem entrar Connosco. O Restante Dos Pertences que Não podem entrar Connosco são Colocados em Nossas Malas ou em um «Saco Preto», que é Mandado para um Departamento chamado «Arrecadação». Mas, tem um (porém); essas Coisas Somem e somente Damos Conta Do Acontecido quando estamos para ir embora. Simplesmente os Nossos Pertences que ficaram na Responsabilidade de guardas que são Responsáveis do Departamento da ARRECADAÇÃO somem, Desaparecem e Simplesmente nos dão a Resposta «Olha Lá Não tem nada teu».
    É Simples Assim.
    Sobre os Carregamentos de Dinheiro. Primeiro, os Carregamentos são feitos Dia 10 e 25 de Cada Mês. Mas quem Toma Conta Dos Carregamentos é Dona I.C., a quem é DESIGNADA A RESPONSABILIDADE DOS CARREGAMENTOS. E assim não a faz Corretamente. Todos os Meses há inúmeros erros Absurdos, ou o Carregamento de Várias pessoas não é feito, ou o Dinheiro Dos reclusos Some, ou vai para o Nome de outros Reclusos, e quando é feita a Reclamação do acontecimento simplesmente as guardas falam que Vão tentar Resolver e Nada é Resolvido. Há vários Reclusos que estão há Vários Meses com problemas De Carregamento e nada é feito e nem solucionado.
    Sofremos De preconceitos, Xenofobia, Racismo, Homofobia, Abuso De Poder e Abuso de confiança. No Sistema Prisional não é ofertado Nenhum Tipo De Ressocialização. Tem a Escola, mas Simplesmente é-nos ofertado Português a quem tem Nacionalidade Portuguesa. O que a meu ver é errado. Porque todos somos iguais, perante a Lei e a Sociedade em geral. São ofertados os Cursos, mas na Realidade só é ofertado no «Papel», e são Escolhidas as Pessoas a «Dedo». Se assim Houver. Para os Trabalhos que são ofertados Nos Pavilhões também são escolhidas as Pessoas a «Dedo» e fora que é escasso.
    Os Pedidos são feitos à Educadora, Mas Isso de Dizerem que as Educadoras Ajudam é só balela, porque Não fazem Nada e se o fazem é porque foram com a tua «Cara», porque Não Deduzem pelo Teu bom Comportamento e Sim por indicações. E Simplesmente as Pessoas passam os Dias a Não fazerem nada o Dia inteiro. Se não tiverem um Psicológico firme enlouquecem e Vivem em Constante Depressivas e Dopadas De Medicações, para que os dias passem, sem Permissão à Vista Dos olhos.
    Dentro do Sistema Prisional há um Excesso de Abuso de Poder, As Celas são Extremamente Mixadas, o que a meu Ver é errado. Estamos aqui para Cumprir a Nossa Sanção, Não para Lidar com as Deplorações dos outros. Nas Celas as Pessoas são Misturadas, Aqui existem todos os tipos de Crime. Colocam pessoas extremamente Higiénicas com pessoas que fazem até xixi na Cama. Pessoas que tomam Medicação para poder tirar a Droga do Corpo, e Ressacam: o que é Muito Complicado para as pessoas que tentam ter uma Vida Meramente Normal aqui Dentro. Há Pessoas que Roubam umas às outras, as guardas sabem e não fazem Nada.
    Realmente, Sofremos Com Tudo Aqui Dentro. Algumas guardas nos tratam Como Animais enjauladas. Para Algumas guardas somos Apenas mais um Número. Esquecem que Somos Seres Humanos, que Cometemos um erro na Vida, mas que já estamos a pagá-lo perante a Lei. Espero que um Dia esse Sistema Prisional Acorde e pense um Pouco Mais em Ressocializar, em Valorizar o Ser Humano. E dê o que a Vida Lá fora não deu, que é o Valor Da Ressocialização! Fico Por Aqui, a Torcer Que um Dia Haja Mudanças!

    3 de novembro de 2021, T.

     
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  • Um relógio suíço de indecência

    Um relógio suíço de indecência

    Janeiro acabou em polvorosa no que diz respeito à luta contra a mineração. Invisibilizada no debate eleitoral, desenrolou-se nas ruas com uma potência, uma diversidade e uma abrangência geográfica inauditas. Dois dias depois das eleições, o governo anunciava que os resultados da Avaliação Ambiental Estratégica do Programa de Prospecção e Pesquisa de Lítio significavam o avanço do plano mineiro em mais seis zonas.

    No dia 22 de Janeiro, centenas de pessoas, vindas um pouco de todo o lado, acorreram à manifestação organizada pela Associação Povo e Natureza do Barroso e pelo Movimento Não às Minas – Montalegre.

    Poucos dias depois, a 28, «em mais de uma dezena de pontos do território» português, do Minho ou do Barroso até ao Alentejo e mesmo de geografias mais distantes – do Reino Unido, da Irlanda, da Sérvia, da Alemanha e do México –, «ecoaram vozes de resistência» contra o plano de fomento mineiro, «com mensagens espalhadas pelas ruas e montes, pinturas de faixas e acções de protesto e sensibilização», conforme se pode ler e ver no apanhado feito pelo Guilhotina.Info.

    No dia das eleições, Ana Andrade, uma das habitantes da aldeia de Morgade, em Montalegre, manifestou-se em frente à Junta de Freguesia contra a exploração das minas de lítio naquela localidade. «Estive sozinha na manifestação. Sei que há pessoas com a mesma opinião mas que não se chegaram para o pé de mim, preferiram não se manifestar muito, se calhar por medo de represálias», afirmou. Ana Andrade colocou vários cartazes de protesto junto à sede da junta de freguesia na tentativa de sensibilizar a população para o problema.

     

    Quando a esmola é pequena

    Entretanto, as eleições desenrolaram-se, resultaram numa maioria absoluta do partido que já estava no governo e quaisquer ilusões que houvesse sobre a possibilidade de evitar a mineração pela via parlamentar esgotam-se, agora, definitivamente. Estamos, na verdade, perante uma versão mais incontrolável do mesmo governo que colocara a Avaliação Ambiental Estratégica (AAE) em consulta pública dois dias após as eleições autárquicas e que, desta vez, repete a indecência, com a fiabilidade de um relógio suíço. De facto, o anúncio de que a DGEG concluira a AAE surgiu a 1 de Fevereiro, as mesmas 48 horas depois das eleições legislativas.

    No relatório agora divulgado, foram analisadas oito áreas do Norte e Centro do país: Arga (Viana do Castelo), Seixoso-Vieiros (Braga, Porto e Vila Real), Massueime (Guarda), Guarda – Mangualde (4 áreas: «C», «E», «W», «NW») e Segura (Castelo Branco). A conclusão aponta para que, em seis dos locais analisados, há condições para avançar com a exploração de lítio, para já na sua fase de prospecção e pesquisa. De fora, ficaram Arga e Segura.

    A área Barroso–Alvão, por seu lado, já não tinha sido «acolhida» na consulta pública da AAE, uma vez que, «estando em curso procedimentos de Avaliação de Impacte Ambiental das concessões mineiras “Mina do Barroso” (Boticas) e “Romano” (Montalegre) e não se conhecendo as respectivas conclusões à data da presente AAE às áreas potenciais de lítio, considerou-se que a área potencial em causa, nessa região, não deveria ser acolhida nesta AAE», explicou fonte da DGEG à agência Lusa. Um «não acolhimento» que não livra a zona, portanto, da actividade mineira.

    De acordo com esta AAE, Arga e Segura ficaram fora do concurso porque «as restrições ambientais inibem a prospecção e consequente exploração». No caso da Arga, pela «expectável classificação como Área Protegida», que faz com que «mais de metade da superfície [seja] considerada interdita ou a evitar». No caso da Segura, pela redefinição de limites da Zona de Protecção Especial do Tejo Internacional, que está prevista para breve.

    Uma boa notícia, que não deve fazer esquecer que o concurso para exploração de lítio pode avançar nas restantes áreas. E, de acordo como o Ministério do Ambiente e Acção Climática, tal acontecerá «nos próximos 60 dias». Ameaçar oito zonas e, depois, atacar apenas seis pode não ser mais do que uma manobra de relaxamento, diversão e desunião, e não deve ser encarada como vitória.

    Até porque, como foi dito, a Mina do Romano (Montalegre) e a Mina do Barroso (Boticas) não estarão neste concurso pelas piores razões (já existe contrato de exploração). E, é bom não esquecer, mantêm-se de pé os 14 contratos de exploração mineira que o governo aprovou à pressa um dia depois do chumbo do orçamento de estado, ou seja, antes de se colocar em posição de poder perder eleições. Entre esses contratos, destaquem-se o da Argemela (Covilhã, Fundão), da Borralha (Montalegre), de Vila Seca – Santo Adrião (Armamar), da Bajoca (Vila Nova de Foz Côa), de Alagoas (Almeida), ou do Circo (Macedo de Cavaleiros, Mirandela, Vinhais). Um olhar a estes 14 contratos, se outra coisa não demonstrar, dá para ver bem que o que se procura não é só lítio, um metal que é referido em apenas dois deles.

     

    Reacções

    Depois do anúncio das intenções do governo, Sérgio Fernando da Silva Costa, presidente da CM da Guarda (Independente – Movimento pela Guarda) reagiu, prometendo que «o município da Guarda e as suas populações irão estar muito atentos àquilo que nos vai ser proposto nos próximos tempos» e confirmando que vai recolher todos os pareceres técnicos para evitar que avance a prospecção de lítio. «Há 180 anos, toda esta zona foi fustigada com a pesquisa e a prospecção, à época, de urânio, volfrâmio e de rádio e o Estado português gastou milhões e milhões de euros com a remediação ambiental dessas minas antigas e nós não queremos que isso volte a acontecer», acrescentou.

    Da Câmara de Mondim de Basto chegava também a resposta, a propósito da área Seixoso/Viveiros, «onde está inserido o concelho de Mondim de Basto». Referindo que a Câmara participara na consulta pública com uma rejeição da prospecção de lítio, o presidente Bruno Moura Ferreira (PSD) queixa-se: «não nos deram ouvidos». Num território «condicionado com 80% de Reserva Ecológica Nacional, 72% de Área Submetida a Regime Florestal, 63% de Rede Natura e (…) o Parque Natural do Alvão», Bruno Ferreira promete «não baixar os braços».

    O circo continuará em frente em todas estas áreas. No tal prazo de «60 dias», o concurso será lançado. Após o procedimento concursal, iniciar-se-á a fase de prospecção e, posteriormente, a exploração de lítio, sendo que cada um dos projectos será sujeito a Avaliação de Impacto Ambiental. As Câmaras poderão desempenhar algum papel positivo tanto a nível de mobilização como de ferramentas burocrático-legais que atrasem o início do processo. Mas, no final, não será a burocracia nem a lei a salvar os territórios da voracidade extractivista. Se ilusões havia quanto a essa possibilidade, a recente maioria absoluta do PS e este «não dar ouvidos» sequer às Câmaras Municipais vieram desfazê-las totalmente.

    É por isso que é relevante ler, nas páginas de movimentos ligados à defesa de territórios que deixaram estar sob ameaça, frases como: «Hoje estamos felizes e festejamos a nossa vitória, merecemos. Amanhã continuamos a solidariedade, que sempre tivemos, com todas as áreas que continuam sob ameaça, seja do concurso público como dos outros projectos».

     

    O ardil da consulta pública

    O caso da Consulta Pública da Avaliação Ambiental Estratégica do Programa de Prospecção e Pesquisa de Lítio é o último exemplo de que a retórica à volta da participação cidadã é apenas isso mesmo: retórica. Ou seja, apesar de 95,7% dos milhares de pessoas que decidiram enviar as suas considerações terem declarado de forma inequívoca a sua oposição ao plano mineiro, o governo declarou que este é para prosseguir (quase) como se nada fosse.

    Por outro lado, o relatório da Consulta Pública insiste em encobrir que a abertura do processo de prospecção implica, obrigatória e necessariamente, uma futura exploração mineira e, nesse sentido, recusa todos os argumentos que passam pela protecção do território nessa fase do negócio. A artimanha é tão simples quanto eficaz: neste momento, alertar para os perigos da extracção mineira é «prematuro» (porque, afinal, está a falar-se «apenas» de prospecção e pesquisa); na próxima fase, a de consulta pública relativa à extracção de minério, esses alertas irão demasiado tarde, uma vez que, depois de feita a pesquisa e a prospecção, não há forma de impedir a mineração.

    Quem participou na Consulta Pública

    1361 particulares
    11 abaixo-assinados (973 pessoas)
    8 empresas privadas
    38 Associações, ONG, Movimentos ou Partidos
    60 órgãos autárquicos
    4 entidades da Administração Central/Regional

    Como participou

    95,7% manifestaram discordância em relação ao presente Programa de Prospecção e Pesquisa de Líti
    1,1% enviaram reclamações
    0,7% enviaram sugestões
    1,3% demonstraram concordância

    Resultado Final

    A DGEG anunciou (1 Fevereiro) que o Programa de Prospecção e Pesquisa de Lítio vai avançar.

  • Mapa 33 nas ruas!

    Mapa 33 nas ruas!

    Jornal MAPA, edição #33 (Fev-Abr 2022)

    Nesta edição, a primeira do ano em que celebramos o 10º aniversário, lançamos um olhar às práticas utópicas concretas de projectos que desafiam a regra capitalista através de uma conversa com o antropólogo João Carlos Louçã, em torno da memória de espaços de resistência no Porto, projectando uma etnografia de esperança que procura os futuros possíveis. Igual sentido percorre a entrevista feita a três membros do Congresso Nacional Indígena na sua passagem por Portugal como parte da Viagem pela Vida organizada pelo movimento zapatista. Do quotidiano dos migrantes, enquanto ferramentas de trabalho ou armas de geopolítica, unem-se relatos do Alentejo, a outros da Suíça e da fronteira leste da UE. Sobre os quotidianos escondidos das prisões portuguesas, partilhamos cartas que denunciam a desumanidade do sistema prisional. E, em entrevista com a Habita e a Stop Despejos, sublinhamos que ocupar casas é um direito à habitação.

    Um olhar ao antes e depois de Abril é lançado a partir das leituras de livros de Mário Dionísio e Fernando Oliveira Baptista, assim como em notas sobre a região (pós) industrial de Setúbal. Nesta edição, publicamos também crónicas em torno das alterações climáticas depois de mais uma «última oportunidade» – a COP de Glasgow; reflexões sobre o desenvolvimento rural, ou sobre o fetichismo e a ilusão de naturalidade do valor, assim como sobre a luta contra as minas em clima (pré) eleitoral. Trazemos também a terceira entrevista da série testemunhos do capitalismo verde, desta vez a um activista judicial das comunidades indígenas no centro da exploração de lítio, no Chile. Por fim, com poesia, banda desenhada e em crónica, reflectimos sobre a polarização perigosa que cola automaticamente o selo de «negacionista» a quem se atreva a destoar do coro oficial da pandemia.

    Nota final para a explosão dos custos de impressão, que nos obriga à redução do número de páginas (das 48 para as 40), ao aumento do PVP do jornal para 2 euros e a um ligeiro aumento das assinaturas em 5€. Só assim nos conseguimos manter à tona da água, lutando pela vida deste projecto de informação crí­tica, feito de forma voluntária, auto-gerida, totalmente autónoma e independente. E é aqui que devemos agradecer o apoio inestimável de quem é assinante e garante da nossa continuidade. Junta-te a esse apoio em https://www.jornalmapa.pt/.

  • Transumano Mon Amour. Volume II

    Transumano Mon Amour. Volume II

    Em 2020 Andrea Mazzola publicou Transumano Mon Amour – Notas sobre o Movimento H+ reunindo textos inéditos e outros publicados no Jornal MAPA. Neste início de 2022 Mazzola prossegue agora num segundo volume de Transumano Mon Amour, uma vez mais ilustrado por Tidi, a história do movimento transumanista (H+) e a sua configuração contemporânea. 

    …/ Com novos meios «personalizados» de manipulação de massas, como se ao progresso da inteligência artificial correspondesse um proporcional desenvolvimento da estupidez humana, às formas tradicionais de propaganda acrescenta-se o universo das redes sociodigitais, a Propaganda 2.0. Neste tipo de circunstâncias, também podemos destacar o aniquilamento tipicamente H+ das pessoas, convertidas em artefactos, e a desumanização da existência humana, desanimada pelo uso político da tecnociência, que de modo desolador tem transformado a vida num objecto técnico. Tanto os meios quanto os fins são partilhados dos dois lados do Atlântico, e talvez sejam uma bagagem ideológica comum aos dirigentes de todas as nações. O cibertotalitarismo iminente — o golpe de Estado infomilitar —, com a sua atmosfera saturada de um fanatismo caça-heréticos, segundo o modelo institucionalizado pelo tribunal da Inquisição, fala todas as línguas, tem todos os tons de pele e fascina todas as igrejas e todos os governos (independentemente da narração das respectivas comunidades imaginadas).

    in Transumano Mon Amour – Volume II

    Mapa, 254 pp., 2021

     

    Pedidos para geral@jornalmapa.pt  | 12 € +1.50 € (portes de envio) | 9,5 € para assinantes. 
  • “Pandemia Solidária” do Jornal MAPA com menção honrosa no Prémio Cooperação e Solidariedade António Sérgio

    “Pandemia Solidária” do Jornal MAPA com menção honrosa no Prémio Cooperação e Solidariedade António Sérgio

    A série Pandemia Solidária do Jornal MAPA, da autoria de Sara Moreira, Catarina Leal, Filipe Nunes 1, foi distinguida com uma menção honrosa na edição de 2021 do Prémio Cooperação e Solidariedade António Sérgio na categoria de Trabalhos Jornalísticos.

    O Prémio Cooperação e Solidariedade António Sérgio, criado em 2012 pela Cooperativa António Sérgio para a Economia Social (CASES), destina-se a homenagear as pessoas singulares e coletivas que, em cada ano, mais se tenham distinguido em domínio relevantes para a Economia Social. O prémio da categoria de Trabalhos Jornalísticos foi este ano atribuído a Cecília Malheiro (LUSA) pelo trabalho “Covid-19: Centro de Apoio ao Sem-abrigo do Porto triplica refeições entregues semanalmente”, tendo sido igualmente atribuída uma menção honrosa a Nuno Guedes (TSF) pela reportagem radiofónica “O diário da nossa pandemia”.

    Em resposta à crise sanitária, económica e social trazida pela COVID-19, surgiu um “surto de apoio mútuo” de Norte a Sul do país. Entre Abril e Maio de 2020, o Jornal Mapa entrevistou um conjunto de associações, cooperativas e coletivos informais que deram corpo e voz à série Pandemia Solidária. Cantinas autogeridas, redes de distribuição de alimentos e bens essenciais e apoio a pessoas e animais vulneráveis são algumas das iniciativas que vão bem além da assistência e caridade e que demonstram a concretização da solidariedade na prática.

    Num contexto em que as medidas de confinamento levaram à redução drástica do apoio garantido por entidades formais da Economia Social, importou identificar iniciativas que, com diferentes meios e recursos, implementaram redes de apoio com impacto significativo, e com a rapidez e agilidade que não foram possíveis em contextos institucionais. Assim, nesta série, o Jornal MAPA viu expandida a noção de Economia Social para um conjunto de práticas que se verificam em diferentes esferas sociais e de acordo com diferentes modelos organizacionais.

    Relê as diversas reportagens:

    1 O prémio visava trabalhos publicados entre 30 de abril de 2020 e 29 de abril de 2021, o que deixou de fora artigos da série publicados em data anterior, nomeadamente uma entrevista de Francisco Colaço Pedro à Caldeira Negra, publicada a 14 de Abril de 2020.