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  • Guerra na Ucrânia: Dez Lições da Síria

    Guerra na Ucrânia: Dez Lições da Síria

    Exilados sírios falam sobre como a sua experiência pode inspirar a resistência à invasão

    Em Março de 2011, eclodiram protestos na Síria contra o ditador Bashar al-Assad. Assad virou todo o poder dos militares contra o movimento revolucionário subsequente; no entanto, durante algum tempo, parecia possível conseguir derrubar o seu governo. Depois, Vladimir Putin interveio, permitindo a Assad permanecer no poder com um tremendo custo em vidas humanas e assegurando uma posição para o poder russo na região. No texto que se segue um coletivo de exilados sírios e seus companheiros pensam em como as suas experiências na Revolução Síria podem informar os esforços para apoiar a resistência à invasão na Ucrânia e o movimento antiguerra na Rússia.

    Tanta atenção tem sido focada na Ucrânia e na Rússia neste ultimo mês que é fácil perder a noção do contexto global desses eventos. O texto que se segue oferece uma reflexão valiosa sobre o imperialismo, a solidariedade internacional e a compreensão das nuances de lutas complexas e contraditórias.

    Assinado pelo colectivo The Syrian Canteen of Montreuil e L’équipe des Peuples Veulente, originalmente publicado em CrimethInc.com, encontrando-se aqui ligeiramente reduzido e adaptado para português de Portugal. O texto completo pode ser lido completo em Português do Brasil em: https://pt.crimethinc.com/2022/03/07/war-in-ukraine-ten-lessons-from-syria-syrian-exiles-on-how-their-experience-can-inform-resistance-to-the-invasion

    Dez Lições da Síria

    Sabemos que pode ser difícil posicionar-se num momento como esse. Entre a unanimidade ideológica dos grandes meios de comunicação e as vozes que transmitem sem escrúpulos a propaganda do Kremlin, pode ser difícil saber a quem dar ouvidos. Entre uma NATO de mãos sujas e um regime russo vil, já não sabemos contra quem lutar, quem apoiar.

    Como participantes e amigos da revolução síria, queremos defender uma terceira opção, oferecendo um ponto de vista baseado nas lições de mais de dez anos de revolta e guerra na Síria.

    Deixemo-lo claro desde logo: hoje ainda defendemos a revolta na Síria, como revolta popular, democrática e emancipatória que foi, principalmente os comités de coordenação e os conselhos locais da revolução. Embora muitos se tenham esquecido de tudo isso, sustentamos que nem as atrocidades e propaganda de Bashar al-Assad, nem as dos jihadistas, podem silenciar essa voz.

    1. Ouçamos as vozes das pessoas imediatamente impactadas pelos eventos.

    Em vez de especialistas em geopolítica, devemos ouvir as vozes daqueles que viveram a revolução em 2014 e viveram a guerra; devemos ouvir aqueles que têm sofrido sob o governo de Putin na Rússia e noutros lugares ao longo de vinte anos. Convidamos-te a favorecer as vozes e as organizações que defendem os princípios da democracia direta, o feminismo e o igualitarismo dentro desse contexto. Compreender a sua posição na Ucrânia e as suas exigências para os que estão fora dela irá ajudar-te a chegar à tua própria opinião informada.

    Ter aplicado essa abordagem à Síria teria elevado – e talvez apoiado – as impressionantes e promissoras experiências de auto-organização que floresceram por todo o país. Além disso, ouvir as vozes quem vêm da Ucrânia lembra-nos que todas essas tensões começaram com a revolta de Maidan. Por mais imperfeito ou “impuro” que ela tenha sido, não cometamos o erro de reduzir a revolta popular ucraniana a um conflito de interesses entre grandes potências, como alguns fizeram intencionalmente para obscurecer a revolução síria.

    2: Cuidado com a geopolítica de tasca.

    É certamente desejável compreender os interesses econômicos, diplomáticos e militares das grandes potências; ainda assim, contentar-se com um enquadramento geopolítico abstrato da situação pode deixar-nos com uma compreensão abstrata e desligada do terreno. Essa forma de compreensão tende a ocultar as protagonistas comuns do conflito, aquelas que se assemelham a nós, aqueles com os quais podemos nos identificar. Acima de tudo, não esqueçamos: o que facto se irá passar é que as pessoas sofrerão por causa das escolhas de governantes que vêem o mundo como um tabuleiro de xadrez, como um reservatório de recursos a serem saqueados. É assim que os opressores veem o mundo. Isso nunca deve ser adotado pelos povos, que devem concentrar-se em construir pontes entre si, em encontrar interesses comuns.

    Isso não significa que devamos negligenciar a estratégia, mas significa criar estratégias nos nossos próprios termos, a uma escala na qual possamos agir nós mesmas – não discutir se devemos mover divisões de tanques ou cortar as importações de gás.

    3: Não aceitemos qualquer distinção entre exilados “bons” e “maus”.

    Vamos ser claros: longe de ser o ideal, a receção de refugiados sírios na Europa foi muitas vezes mais acolhedora do que a receção oferecida a refugiados da África Subsaariana, por exemplo. As imagens de refugiados negros rejeitados na fronteira Ucrânia-Polónia e os comentários nos meios de comunicação corporativa que privilegiam a chegada de refugiados ucranianos de “alta qualidade” em detrimento de bárbaros sírios são a prova de um racismo europeu cada vez mais desinibido. Defendemos o acolhimento incondicional dos ucranianos que fogem dos horrores da guerra, mas recusamos qualquer hierarquia entre os refugiados.

    4: Desconfiemosdos meios de comunicação corporativos.

    Se, como na Síria, estes fingem defender uma agenda humanista e progressista, a maioria desses veículos tende a limitar-se a um retrato que vitimiza e despolitiza os ucranianos no terreno e no exílio. Eles só terão a oportunidade de falar sobre casos individuais, pessoas em fuga, medo de bombas e afins. Isso impede que os espectadores entendam os ucranianos como atores políticos de pleno direito, capazes de expressar opiniões ou análises políticas sobre a situação do seu próprio país. Além disso, esses meios de comunicação tendem a promover uma posição descaradamente pró-ocidente, sem nuances, profundidade histórica ou investigação sobre os interesses dos governos ocidentais, que são apresentados como defensores do bem, da liberdade e de uma democracia liberal idealizada.

    O olhar dos retratos de Putin e Assad, à medida que soldados armados patrulham as ruínas da Síria
    O olhar dos retratos de Putin e Assad, à medida que soldados armados patrulham as ruínas da Síria.

    5. Não retratemos os países ocidentais como o eixo do bem.

    Mesmo que não invadam diretamente a Ucrânia, não sejamos ingénuos em relação à OTAN e aos países ocidentais. Devemo-nos recusar a apresentá-los como os defensores do “mundo livre”. Lembre-se, o Ocidente construiu o seu poder sobre o colonialismo, o imperialismo, a opressão e a pilhagem da riqueza de centenas de povos ao redor do mundo – e continua todos esses processos nos dias de hoje.

    Para falar apenas do século XXI, não nos esqueçamos dos desastres infligidos pelas invasões do Iraque e do Afeganistão. Mais recentemente, durante as revoluções árabes de 2011, em vez de apoiar as correntes democráticas e progressistas, o Ocidente preocupou-se principalmente em manter a sua dominação e os seus interesses económicos. Ao mesmo tempo, continua a vender armas e a manter relações privilegiadas com ditaduras árabes e monarquias do Golfo. Com a sua intervenção na Líbia, a França acrescentou a mentira vergonhosa de uma guerra por razões económicas disfarçada como um esforço para apoiar a luta pela democracia.

    Além desse papel internacional, a situação nesses países continua a deteriorar-se à medida que o autoritarismo, a vigilância, a desigualdade e, acima de tudo, o racismo continuam a intensificar-se.

    Hoje, se acreditamos que o regime de Putin representa uma ameaça maior à autodeterminação dos povos, não é porque os países ocidentais de repente se tornaram “bonzinhos”, mas porque as potências ocidentais já não têm mais tantos meios para manter a sua dominação e hegemonia. E continuamos a suspeitar dessa hipótese – porque se Putin for derrotado pelos países ocidentais, isso irá contribuir para conferir-lhes mais poder.
    Portanto, aconselhamos os ucranianos a não contarem com a “comunidade internacional” ou com as Nações Unidas – que, como na Síria, demonstram uma evidente hipocrisia e tendem a aliciar as pessoas a acreditar em quimeras.

    6: Lutemos contra todos os imperialismos!

    Campismo” é a palavra que usamos para descrever uma doutrina de outra época. Durante a Guerra Fria, os adeptos desse dogma sustentavam que o mais importante era apoiar a URSS a todo custo contra os estados capitalistas e imperialistas. Essa doutrina ainda persiste na fação da esquerda radical que apoia a Rússia de Putin na invasão da Ucrânia ou que relativiza a guerra em curso. Como fizeram na Síria, usam o pretexto de que o regime russo ou sírio encarnam a luta contra o imperialismo ocidental e “atlanticista” [isto é, pró-NATO]. Infelizmente, esse anti-imperialismo maniqueísta, que é puramente abstrato, recusa-se a ver o imperialismo em qualquer ator que não seja o Ocidente.

    No entanto, é necessário reconhecer o que os regimes russo, chinês e até iraniano têm feito há anos para cá. Têm estendido a sua dominação política e económica em certas regiões, alienando as populações locais da sua autodeterminação. Deixemos que os “campistas” usem a palavra que quiserem para descrevê-lo, se “imperialismo” lhes parece inadequado, mas nunca aceitaremos qualquer desculpa para infligir violência e dominação sobre populações em nome de uma precisão pseudo-teórica.

    Pior ainda, tal posição leva essa “esquerda” a reproduzir a propaganda desses regimes a ponto de negar atrocidades bem documentadas. Falam de “golpe de estado” quando descrevem a revolta de Maidan ou negam os crimes de guerra perpetrados pelo exército russo na Síria. Essa esquerda chegou ao ponto de negar o uso de gás sarin pelo regime de Assad.

    7: Não atribuamos o mesmo grau de responsabilidade à Ucrânia e à Rússia.

    Na Ucrânia a identidade do agressor é conhecida por todos. Se a ofensiva de Putin é, de certa forma, uma resposta à pressão da NATO, é sobretudo a continuação de uma ofensiva imperial e contrarrevolucionária. Depois de invadir a Crimeia, depois de ter ajudado a esmagar as revoltas na Síria (2015-2022), Bielorrússia (2020) e Cazaquistão (2022), Vladimir Putin já não tolera o atual clima de protestos – encarnado pelo derrube do presidente pró-Rússia na revolta Maidan – dentro dos países sob sua influência. Ele deseja esmagar qualquer desejo emancipatório que possa enfraquecer seu poder.

    Também na Síria não há dúvidas sobre quem é o responsável direto pela guerra. O regime sírio de Bashar al-Assad, ao ordenar à polícia que atirasse, prendesse e torturasse os manifestantes desde os primeiros dias de protesto, optou unilateralmente por iniciar uma guerra contra a população. Gostaríamos que aqueles que defendem a liberdade e a igualdade fossem unânimes ao se posicionarem contra tais ditadores que declaram guerras contra o povo. Gostaríamos que esse tivesse sido o caso em relação à Síria.

    Se entendemos e nos juntamos ao apelo para acabar com a guerra, insistimos que devemos fazê-lo sem qualquer ambiguidade quanto à identidade do agressor. Nem na Ucrânia, nem na Síria, nem em qualquer outro lugar do mundo, as pessoas comuns podem ser culpadas por empunharem armas para tentar defender as suas próprias vidas e as das suas famílias.

    De um modo mais geral, aconselhamos as pessoas que não sabem o que é uma ditadura (mesmo que os países ocidentais se estejam a tornar mais abertamente autoritários) ou o que é ser bombardeado a absterem-se de dizer aos ucranianos para não pedirem ajuda ao Ocidente — como alguns disseram aos sírios ou Hong Kong — ou não desejarem uma democracia liberal ou representativa como sistema político mínimo. Muitas dessas pessoas já estão cientes das imperfeições desses sistemas políticos — mas a sua prioridade não é manter uma posição política impecável, mas sim sobreviver aos bombardeios do dia seguinte, ou não acabar num país em que uma palavra descuidada pode condená-lo vinte anos na prisão. Insistir nesse tipo de discurso purista demonstra a determinação de impor a sua análise teórica num contexto que não é o seu.

    Em vez disso, vamos ouvir as palavras dos camaradas ucranianos que disseram, citando Mikhail Bakunin: “Acreditamos firmemente que a república mais imperfeita é mil vezes melhor do que a monarquia mais esclarecida”.

    8: Compreendamos que a sociedade ucraniana, como na Síria e na França, é atravessada por diferentes correntes.

    Estamos familiarizados com o procedimento em que um governante designa uma ameaça séria para afugentar potenciais apoiantes. Isso inclui a retórica sobre “terrorismo islâmico” que Bashar al-Assad usou desde os primeiros dias da revolução na Síria; da mesma forma, hoje Putin e seus aliados brandem o “nazismo” e o “ultranacionalismo” para justificar sua invasão da Ucrânia.

    Se, por um lado, reconhecemos que essa propaganda é deliberadamente exagerada e que não devemos legitimá-la sem questionamento, por outro, a nossa experiência na Síria incita-nos a não subestimar as correntes reacionárias dentro dos movimentos populares.

    Na Ucrânia, nacionalistas ucranianos, incluindo fascistas, desempenharam um papel importante nos protestos de Maidan e na guerra que se seguiu contra a Rússia. Além disso, como o Batalhão Azov, eles beneficiaram dessa experiência e tornaram-se parte legítima do exército regular da Ucrânia. No entanto, isso não significa que a maioria da sociedade ucraniana seja ultranacionalista ou fascista. A extrema-direita obteve apenas 4% dos votos nas últimas eleições; o presidente ucraniano, judeu e de língua russa foi eleito por 73%.

    Na revolta na Síria, os jihadistas começaram como atores marginais, mas ganharam importância crescente, em parte graças ao apoio externo, permitindo-lhes impor-se militarmente em detrimento do movimento civil e dos participantes mais progressistas. Em toda parte, a extrema-direita ameaça a expansão das democracias e das revoluções sociais; tal acontece hoje na França, sem dúvida. Na França, essa mesma extrema-direita tentou se impor durante o movimento dos Coletes Amarelos. Se ela foi derrotada naquele momento, foi por causa da presença de posições igualitárias e da determinação de ativistas antiautoritários e antifascistas, não pelo tagarelar de sábios.

    Tenha em consideração que defender a resistência popular (tanto na Ucrânia quanto na Rússia) contra a invasão russa também não deve significar ser ingênuo em relação ao regime político que emergiu de Maidan. Não se pode dizer que a queda de Yanukovych tenha resultdo em numa expansão real da democracia direta ou no desenvolvimento da sociedade igualitária que desejamos para a Síria, para a Rússia, para a França e para todo o mundo.

    Usando uma expressão que nos é bem conhecida, alguns ativistas ucranianos chamam o pós-Maidan de “revolução roubada”. Além de conceder um lugar importante aos ultranacionalistas, o regime ucraniano foi restabelecido por oligarcas e outros que se preocupavam em defender os seus próprios interesses económicos e políticos e estender um modelo capitalista e neoliberal de desigualdade.

    Um regime neoliberal e elementos fascistas são ingredientes encontrados em todas as democracias ocidentais. Embora esses oponentes da emancipação não devam ser subestimados, isso não é motivo para não defender a resistência popular a uma invasão. Pelo contrário, como gostaríamos que outros tivessem feito durante a revolução síria, pedimo-vosque apoiem as correntes auto-organizadas mais progressistas dentro dessa defesa.

    9. Apoiemos a resistência popular na Ucrânia e na Rússia.

    Como as revoluções árabes, os Coletes Amarelos e os Maidan provaram, as revoltas do século XXI não serão ideologicamente “puras”. Embora entendamos que é mais confortável e estimulante identificar-se com atores poderosos (e vitoriosos), não devemos trair os nossos princípios fundamentais. Convidamos a esquerda radical a tirar os seus velhos óculos conceituais para confrontar as suas posições teóricas com a realidade. Essas posições devem ser ajustadas de acordo com a realidade, e não o contrário.

    É por essas razões que, a respeito da Ucrânia, pedimos que as pessoas priorizem as iniciativas de apoio que vêm da base: as iniciativas de autodefesa e de auto-organização que florescem atualmente. Podemos descobrir que, muitas vezes, as pessoas que se organizam defendem, de facto, conceções radicais de democracia e de justiça social – mesmo que não se chamem de “esquerdistas” ou “progressistas”.

    Além disso, como muitos ativistas russos disseram, acreditamos que uma revolta popular na Rússia poderia ajudar a acabar com a guerra, tal como em 1905 e 1917. Quando consideramos a extensão da repressão na Rússia desde o início da guerra – mais de dez mil manifestantes presos, censura dos meios de comunicação, bloqueio de redes sociais e talvez em breve a internet – é impossível não esperar que uma revolução possa levar à queda do regime. Isso acabaria, de uma vez por todas, com os crimes de Putin na Rússia, na Ucrânia, na Síria e noutros lugares.

    Este é também o caso da Síria, onde, após a internacionalização do conflito, longe de ficarmos ressentidos com os povos iraniano, russo ou libanês, as revoltas desses povos podem fazer-nos acreditar novamente na possibilidade de que Bashar al-Assad também caia.

    Da mesma forma, queremos ver convulsões radicais e extensões radicais da democracia, justiça e igualdade nos Estados Unidos, na França e em todos os outros países que baseiam o seu poder na opressão de outros povos ou de parte de sua própria população.

    10. Construamos um novo internacionalismo a partir de baixo.

    Embora nos oponhamos radicalmente a todos os imperialismos e a todas as formas modernas de fascismo, acreditamos que não podemos limitarmo-nos apenas a posturas anti-imperialistas ou antifascistas. Mesmo que sirvam para explicar muitos contextos, também correm o risco de limitar a luta revolucionária a uma visão negativa, reduzindo-a à reação, à resistência permanente sem caminho a seguir.

    Faixa-na-cidade-síria-de-Kafranbel
    Faixa na cidade síria de Kafranbel.

    Acreditamos que continua a ser essencial fazer uma proposta positiva e construtiva como o internacionalismo. Isso significa vincular revoltas e lutas pela igualdade em todo o mundo.

    Existe uma terceira opção existe além da NATO e de Putin: o internacionalismo de baixo para cima. Hoje, um internacionalismo revolucionário deve convocar as pessoas de todo o mundo para defender a resistência popular na Ucrânia, assim como convocá-las para apoiar os conselhos locais sírios, os comités de resistência no Sudão, as assembleias territoriais no Chile, as rotundas dos Coletes Amarelos e a intifada palestina.

    Enquanto esperamos o surgimento de novas organizações revolucionárias baseadas em iniciativas auto-organizadas locais, defendemos um internacionalismo que apoie as revoltas populares e acolha todas as pessoas exiladas. Também nesse sentido estamos a preparar o terreno para um verdadeiro retorno ao internacionalismo, que, esperamos, um dia voltará a representar um caminho alternativo distinto dos modelos das democracias capitalistas ocidentais e do autoritarismo capitalista, seja russo ou chinês.

    Tal conceção do que estávamos a fazer na Síria teria certamente ajudado a revolução a manter uma cor democrática e igualitária. Quem sabe, teria até contribuído para que alcançássemos a vitória. Portanto, somos internacionalistas não apenas por uma questão de princípio ético, mas também como consequência de uma estratégia revolucionária. Defendemos, portanto, a necessidade de criar vínculos e alianças entre forças auto-organizadas que trabalham pela emancipação de todas as pessoas, sem distinção.

    Isso é o que chamamos de internacionalismo de baixo, o internacionalismo dos povos.

  • Porque não se calam?  Porque somos Mães e Filhos/as!

    Porque não se calam? Porque somos Mães e Filhos/as!

    Num dia húmido e chuvoso que acompanhou as encharcadas famílias das três últimas vítimas mortais do sistema prisional e todos/as aqueles/as que apareceram para as apoiar, as bocas estavam secas de gritar e de repetir os apelos à justiça pelos que morreram e por aqueles/as que estão a passar pela dor de quem perdeu uma parte de si. Os corações ferviam exigindo respostas, responsabilidades e o fim da violência de estado, deparados com o comportamento frio dos representantes da instituição prisional, da justiça, do governo e da comunicação social, nos seus escritórios com ar condicionado. 

    As mães querem saber porque lhes mataram os filhos. Qual a razão pela qual jovens saudáveis são medicados com fortes fármacos que os debilitam, enquanto detidos? Os filhos e filhas de várias idades choram a revolta de não perceber porque lhes mataram os pais. Por que razão a diretora da prisão, representantes do governo e guardas prisionais se mantêm atrás do muro físico dos seus locais de trabalho, protegidos pela cerca social farpada da indiferença, da exclusão, do racismo e da xenofobia, esperando trepar na pirâmide de classes, onde uns têm direito a «pijamas» de pinho – condenados e executados sem direito a tempo de antena – e outros acesso a pijamas de seda e a uma «novela» em todos os órgãos de comunicação social, onde são vítimas e vilões, com direito a indignações e a exigências de pedidos de desculpa, pela publicação de fotografias em situações humilhantes.

    De microfone na mão, Alice Santos (mãe de Danijoy Pontes); à sua direita na fotografia Luísa dos Santos (mãe de Daniel Rodrigues) e Joel Cesteiro (filho de Miguel Cesteiro). Foto de Mariana Carneiro.

    A mãe de Danijoy ainda não tem explicação para o facto de o seu filho de 23 de anos, jovem e saudável, ter sido encontrado morto na sua cela, a 14 de Setembro, e a sua morte ter sido declarada como «natural, possivelmente consequente a patologia cardíaca», após a autópsia.  A Mãe de Daniel só quer a verdade e justiça para poder explicar à sua neta porque não pode mais estar com o pai, e que quem lhe fez mal não poderá voltar a fazer o mesmo. Daniel e Danijoy morreram no EPL no mesmo dia, com minutos de diferença, e a autópsia revelou a presença dos mesmos medicamentos nos corpos dos dois (ansiolíticos, antiepilépticos e metadona). Nos relatórios clínicos de ambos, não existia nenhuma patologia que justificasse o uso destes medicamentos.

    Joel, filho de Miguel, que não acredita em ataque cardíaco, quer saber quem provocou as marcas de violência no corpo do seu pai. E sabe que o seu pai jamais se suicidaria. Quer justiça. 

    Enquanto temos vindo a falar de sentimentos, o sistema prisional expressa-se em números. 

    Enquanto todos souberam o que comiam José Sócrates e Filipe Vieira em directo na televisão, estes três homens são algumas das mais recentes vítimas de um sistema assassino que contabiliza 303 mortes nos últimos cinco anos em estabelecimentos prisionais em Portugal. 

    A crítica ao sistema prisional não se ficou pela violência de estado, falou-se da sobrelotação; da exploração laboral; da falta de acesso a cuidados de saúde e da medicação excessiva com recurso a fortes antipsicóticos e ansiolíticos; do sistema de exploração de cantinas e bens de primeira necessidade e, principalmente, do completo falhanço do sistema prisional em proteger, apoiar, valorizar e reintegrar as pessoas por lá passam, pedindo-se o seu fim. 

    O argumento inicial usado para defender as casas de correção e estabelecimentos prisionais era que todos mereciam oportunidades para alterar o seu comportamento moral e social perante a sociedade. Mas tornaram-se cópias dos mosteiros onde se encerravam doentes mentais, «possuídos» e deficientes profundos que não podiam ser abatidos – por ser imoral – nem circular nas ruas, tidos como um perigoso para a sociedade e como prova viva das falhas de deus, que tudo criava. Hoje a moral não conta e a desumanização de quem é detido torna social e eticamente defensável as instituições estatais e os seus representantes, que agridem e matam impunemente. Estes três condenados à morte, tal como outros reclusos, entraram na prisão para passar a corresponder a um número. Os seus nomes pouco ou nada valem dentro dos muros e as suas histórias são escritas por quem os detém, como uma propriedade, ou útil ou dispensável, porque o trabalho liberta e o Estado nunca falha.   

    Daniel, Danijoy e Miguel foram as caras da manifestação, as suas famílias as que tiveram a palavra, mas todos/as estavam lá pelos/as que morreram dentro de muros, para que no futuro isso não volte a acontecer e principalmente para que nenhuma família se sinta abandonada pela sociedade. A energia que manteve todos à chuva não vinha só da dor e revolta destas três mortes, mas também do acumular de violência estatal que se vive nos bairros, nas escolas, nas fronteiras, nas guerras, nos locais de trabalho, que torna mais difícil a «integração social» daqueles que pouco ou nada têm, e impossível uma vida estável e saudável em comunidade.

    No dia 12 de Março, em frente ao Estabelecimento Prisional de Lisboa, mostrou-se revolta, empatia, equidade, resiliência e apoio para que o amor entre nós mantenha a esperança no meio de toda a violência que nos divide como sociedade. A tempestade que agita os corações daquelas e daqueles que estiveram três horas à chuva em frente ao campo de extermínio situado no centro da capital tem de chegar aos gabinetes das instituições responsáveis pelas pessoas detidas à sua custódia, onde se assuma a responsabilidade pelos actos de violência e morte cometidos sobre todas as pessoas encarceradas.

  • Relatos dispersos de organização popular formam uma frente conjunta de esperança.

    Relatos dispersos de organização popular formam uma frente conjunta de esperança.

    A oposição interna na Rússia, a resistência das pessoas na Ucrânia e a solidariedade mundial com os refugiados desta guerra, que já são mais de 2 milhões de pessoas.

    No 16º dia da invasão da Ucrânia por parte da Rússia, interessa-nos divulgar notícias e comunicados vindos de vários partes que dão conta de diferentes exemplos de como as pessoas estão a resistir à guerra e a responder com solidariedade à destruição causada. Estas ações populares, fora da regulação institucional e das habituais lógicas de poder, são uma inspiração que vem de dentro e contra este conflito entre impérios.

    Começando pela Rússia, apesar de assistirmos ao endurecer das leis do Kremlin contra manifestantes e contra meios de comunicação independentes, são vários os relatos de resistência e dissidência. Segundo os números mais recentes avançados pela OVD-Info, russas e russos continuam a manifestar-se nas ruas contra esta “operação militar especial” na Ucrânia, tendo a polícia russa detido cerca de 13915 pessoas até agora em protestos contra a guerra. A censura nos meios de comunicação russos e nas redes sociais tem endurecido, causando o fecho de várias sucursais russas dos principais meios de comunicação mundiais, tais como a CNN, o El País ou a Bloomberg.

    Estes e outros meios de comunicação internacionais suspenderam as suas atividades no país, um dia após o regime russo ter imposto uma lei que prevê penas de prisão de até 15 anos a quem publicar “fake news”. Segundo o que se pode ler em vários artigos, usar a palavra “guerra” ou transmitir no país imagens das cidades ucranianas bombardeadas são considerados exemplos de notícias falsas.

    Naturalmente, os meios de comunicação russos de oposição ao regime também estão a interromper as suas atividades ou a ser bloqueados. Um dos casos mais difundidos tem sido o fecho da TV Rain, que interrompeu as suas transmissões e cujo website já não é possível visitar, sendo possível ver ainda Youtube a sua última transmissão que termina com toda a equipa no ar, um “no pasarán” e um “não à guerra”.

    Consultando canais de informação russos, observa-se que o clima identitário está a tomar proporções históricas e vemos como o símbolo “Z”, marca da propaganda militar nos tanques russos, é agora exibido com orgulho ultra-nacionalista por apoiantes do regime, além de aparecer em propaganda do governo. Mas também sobre este assunto se encontra oposição, havendo denúncias e petições contra o símbolo “Z”, acusando-o de ser propaganda de ódio.

    É certo que não sabemos que consequências terá o shock económico que os países do ocidente estão a impor à Rússia, que já fez com que multinacionais como a Visa, o Youtube ou o Google Play tenham interrompido os seus serviços, dificultando assim a vida às populações. Tudo indica que, como na maioria das guerras, os mais vulneráveis já estão a ser os mais atingidos, mas também são elas e eles quem tem reagido e quem continua desobedecer apesar da dureza da repressão e recessão económica. Por isso mesmo, parece-nos que a esperança está nesta oposição interna vinda do povo russo.

    Quanto às redes sociais, no dia 10 de março, a Meta, empresa que detém o Facebook, anuncia em newsletter enviada a utilizadores de alguns países que irá permitir discursos de ódio contra a Rússia nas suas plataformas:

    “We are issuing a spirit-of-the-policy allowance to allow T1 violent speech that would otherwise be removed under the Hate Speech policy when: (a) targeting Russian soldiers, EXCEPT prisoners of war, or (b) targeting Russians where it’s clear that the context is the Russian invasion of Ukraine (e.g., content mentions the invasion, self-defense, etc.),” (retirado da Reuters)

    Depois de ter fechado as suas sucursais na Rússia, a Meta irá também permitir elogios a paramilitares neonazistas da Ucrânia, desde que estes lutem contra a Rússia, segundo um artigo do The intercept- Brasil.

    Entretanto, na Ucrânia, são vários os exemplos de resistência popular, com ou sem armas, que se encontram nas redes sociais e nos media ao longo destes 16 dias: centenas de pessoas saem à rua em protesto contra os ocupantes em Kherson, região controlada pelo exército russo; Pelo menos 3 vídeos diferentes mostram agricultores ucranianos a puxarem tanques russos com os seus tratores; multidões desarmadas que tentam impedir o acesso de tropas russas à central nuclear Zaporizhzhia, em Enerhodar; grupos de resistência auto-organizada fora da lógica militar que se defendem do autoritarismo de Putin; Restaurantes em Kiyv abrem para servir comida gratuita a quem precisa… Estes são apenas alguns dos exemplos de organização autónoma que está a marcar o rumo deste conflito.

    Não abordaremos aqui as atrocidades em Mariupol ou os cercos criminosos a outras cidades ucranianas, nem os bombardeamentos a todo o tipo de edifícios que o exército russo está a levar a cabo, pois esse não é o intuito desta pequena compilação de notícias. Qualquer pessoa pode aceder aos relatos e imagens e discernir por si o que está a acontecer.

    Não sabemos se o regime russo esperava inicialmente ser mais bem recebido nesta ofensiva, tal como afirmam alguns artigos de análise, mas entendemos que os exemplos de determinação e resiliência das pessoas na Ucrânia têm marcado alguma da informação que é difundida nos media e nas redes sociais, deixando bem clara ao mundo a sua vontade.

    Residentes tentam bloquear acesso de tropas russas à central nuclear de Enerhodar a 2 de março.

    Por último, a auto-organização de base para acolher os refugiados ucranianos é a única anestesia possível para a dor das imagens dos deslocamentos forçados que vemos. Ainda que sintamos a disparidade de tratamento que a Europa mostra a refugiados de outras nações, não esquecemos como no passado as populações no norte da europa se auto-organizaram para apoiar a crise humanitária na Síria. Agora, uma vez mais, as pessoas não esperam que organizações públicas ou privadas façam a gestão desta gigante crise- juntamente com ong’s, apoios governamentais e iniciativas privadas, são os milhares de voluntários civis quem está a garantir bens essenciais às pessoas que chegam a países como a Polónia, Roménia ou Moldávia, mostrando que a solidariedade entre povos é possível.

    Mesmo quem está longe tem encontrado soluções para apoiar: o caso da Air b’n’b na Ucrânia é um dos melhores exemplos. Além de a empresa multinacional ter oferecido alojamento gratuito a 100.000 refugiados (não sabemos por quanto tempo), várias pessoas começaram a marcar e pagar alojamentos locais na Ucrânia, não porque vão de férias, mas sim como forma de apoiar financeiramente e mostrar solidariedade aos ucranianos donos daquelas casas.

    Outras ações espontâneas semelhantes ocorreram com lojas online de pequenos produtores, como a Etsy, além dos inúmeros eventos de angariação de fundos e grupos informais de recolhas de bens para os centros de refugiados.

    E ainda que muita da solidariedade a que assistimos seja só mediática, como os inúmeros posts de personalidades ou de empresas poderosas, os exemplos que aqui deixamos são talvez pequenos-grandes atos de coragem de quem se manifesta contra esta guerra, mostrando que este não vai ser um caso de um conflito longínquo num país de leste entregue à sua sorte. Ainda que o discurso mediático generalizado não o demonstre, vemos que a solidariedade entre povos é a resposta possível aos discursos e guerras que nos pretendem dividir. E quando este conflito afetar a segurança alimentar no Sul Global com a escassez na distribuição de alimentos já prevista, esperemos que a solidariedade popular se continue a estender e que também ninguém possa esquecer.

     

     

    Quem andamos a seguir:

    No_borders_team: equipas de voluntári@s auto-organizados nas fronteiras. Inclui listas de recursos para pessoas LGBTQ+ e estrangeiros que tenham sido alvo de discriminação e racismo.

    The Kyiv Independent: um dos jornais ucranianos mais seguido nestes momentos, publica no Twitter atualizações regulares sobre o que se está a passar nas principais cidades ucranianas.

    Максим Кац: canal de Youtube de blogger russo com legendas em inglês cujos vídeos mostram, por exemplo, a destruição causada pelos bombardeamentos na Ucrânia, episódios de protestos em programas de televisão russos e análises sobre os “mitos russos” que a propaganda do regime difunde.

    @VagrantJourno: Ativista e jornalista na Ucrânia que publica regularmente informação sobre ações de resistência popular em inglês

     

    O que andamos a ler:

    “Grappling with environmental risks in the fog of war”, artigo no site Bulletin of the Atomic Scientists sobre os desastres ambientais que os conflitos nestas regiões estão a causar desde 2014 e preocupações com a atual situação nas centrais nucleares ucranianas.

    “The War That Russians Do Not See”, artigo de análise do The New Yorker sobre os media e a repressão na Rússia.

    O Coletivo Libertário de Évora reuniu várias análises e comunicados que interessam não só a anarquistas, como aquele que fala dos protestos contra a guerra, chamado Rússia: a primavera está a chegar

    A Crimethinc compila e traduz para várias línguas textos de grupos de apoio a presos na Rússia, comunicados de grupos de resistência na Ucrânia e informação sobre como ajudar refugiados. Acabam de lançar um podcast com testemunhos das manifestações contra a guerra na Rússia.

    (Os recursos aqui partilhados não refletem necessariamente a opinião de quem assina este artigo. Usa a tua discriminação quanto aos conteúdos. Usamos muitas vezes tradutores automáticos para aceder a informação específica, alguma dela citada nas fontes deste artigo. Tendo em conta a importância de boas traduções, fica aqui uma menção ao coletivo Translators Without Borders, cujo trabalho voluntário, tão necessário neste momento, pode ser apoiado de várias maneiras)

     

     

    Nota: a imagem de destaque deste artigo é um Graffiti na Holanda em homenagem aos agricultores ucranianos que apreenderam tanques russos.

     

  • Manifestação dia 12 de Março!   Justiça para Daniel, Danijoy e Miguel

    Manifestação dia 12 de Março! Justiça para Daniel, Danijoy e Miguel

    Daniel Rodrigues e Danijoy Pontes morreram – com minutos de diferença – no dia 15 de setembro de 2021, na mesma ala do Estabelecimento Prisional de Lisboa (EPL). Poucos meses depois, a 10 de janeiro, Miguel Cesteiro morreu no Estabelecimento Prisional de Alcoentre. Ao contrário do que diz a própria lei, nestes três casos a Polícia Judiciária (PJ) não foi chamada ao local, com a agravante de todos os casos apresentarem circunstâncias suspeitas. Se é verdade que não nos convencem as autópsias, também não nos servem somente inquéritos internos. Além do mais, note-se como o Ministério Público se apressou a arquivar os inquéritos pelas mortes de Daniel e Danijoy, reabertos posteriormente na sequência da pressão dos movimentos sociais. O de Miguel Cesteiro encontra-se também a decorrer.

    A impossibilidade de aceder às autópsias, como acontece no caso de Daniel, em que a família aguarda há mais de 5 meses; a demora no acesso das famílias ao corpos, tanto no caso de Daniel como de Danijoy; e, em geral, a desproporcionalidade das taxas de encarceramento, da duração das penas face ao tipo de crime; o inacesso generalizado às condicionais; o uso da solitária (manco) e a supressão de acesso ao pátio como punições acrescidas; a exploração laboral – em que uma jornada de trabalho de um recluso vale pouco mais de 2 euros por dia; e o racismo e sexismo das prisões, são exemplos paradigmáticos das condições objetivas do sistema prisional português.

    A insensibilidade por parte das autoridades na comunicação dos óbitos às famílias, insensibilidade essa que vem na sequência de um histórico de desumanização das pessoas em situação de reclusão, mas também das famílias aquando das visitas, é regra e não exceção.

    A administração de fármacos perigosos para a vida das pessoas – como anti-psicóticos, ansiolíticos e metadona – e sem qualquer diagnóstico são centrais nos três casos, e demostra uma cumplicidade tácita entre as prisões e os profissionais de saúde. Nas prisões portuguesas, o pleno direito à saúde e à saúde mental não estão garantidos.

    Reduzidos e reduzidas à categoria de “presos e presas” estas pessoas são pessoas, são mães, são pais, são filhas e filhos, são família.

    Estes três casos são exemplo da violência das prisões portuguesas, evidente nas mais de 300 mortes nos últimos 5 anos. Se isto é “reinserção” o que será a “punição”?

    As mortes de Daniel, Danijoy e Miguel são exemplo de como as cadeias servem para punir pessoas ciganas, negras e brancas pobres, fazendo da classe e da raça essenciais à sua existência. Por isso, famílias negras, ciganas e brancas juntam-se em protesto.

    No dia 12 de Março estaremos, às 14h, em frente ao EPL, numa manifestação em solidariedade com os familiares de Daniel, Danijoy, Miguel e de todas as vítimas do sistema prisional.

    Do luto à luta!

  • As suas guerras. Os nossos mortos.

    As suas guerras. Os nossos mortos.

    Queremos acreditar que as nossas posições sobre o que se está a passar na Ucrânia serão claras para a maioria d@s leitor@s do Jornal MAPA, mas, para o caso de não serem, aqui vão:

    Estamos contra esta guerra. Nem Putin, nem Nato. Antimilitaristas, não tomamos campo entre quem bombardeia, seja o exército ucraniano sobre Donbass, sejam os mísseis e tanques de Moscovo sobre a Ucrânia. Tomamos partido, sim, por quem sofre a força bruta dos nacionalismos, por quem sai à rua com a coragem para deixar claro que os povos têm outra maneira de se relacionar.

    Pessoas na Ucrânia, antiautoritárias, antifascistas, ativistas LGBT, algumas das quais mantêm projetos de media independentes, pedem a nossa solidariedade enquanto combatem a invasão nas ruas. E ao mesmo tempo sempre disseram #FckZouaves #FckAzov #FckImperialism. Para os que escrevem que «os movimentos da praça de Maidan em 2014 foram de extrema-direita, financiados pela CIA», aconselhamos a leitura do texto “Guerra e Anarquistas: Perspectivas Antiautoritárias na Ucrânia”, escrito em coletivo e publicado no CrimethInc. pela primeira vez a 15 de fevereiro de 2022, que dá conta da complexidade e da participação de antifascistas nas lutas que derrubaram o governo da altura. Rejeitamos a propaganda de que «são todos nazis», como afirmam Putin e os seus simpatizantes. Essa que diz que «o meu imperialismo é melhor que o teu».

    Repetimos hoje as palavras que William Sands escreveu para o Jornal MAPA em 2015: «Simplificar a guerra actual na Ucrânia, ou como uma batalha entre os interesses democráticos ocidentais e as aspirações imperiais pós-soviéticas, ou como movimentos políticos neo-fascistas e lutas de libertação nacional, não ajuda à compreensão das verdadeiras causas desta guerra.».

    Distanciamo-nos de quem diz coisas como «a Rússia foi provocada e tem direito a retaliar». Afirmações como esta sugerem um processo de desculpabilização de ações inaceitáveis. O atual governo russo, que desenvolve há anos um projeto imperialista, pretende agora subjugar outro país – bastante rico em matérias-primas como urânio, carvão, gás natural, e grandes produções agrícolas –, ao mesmo tempo que reprime constantemente as vozes dissidentes internas.

    Estes mesmos recursos interessarão também a Joe Biden, cujas políticas imperialistas são igualmente reconhecidas. No entanto, ser contra o imperialismo norte-americano não pode significar que se desculpe outro imperialismo. Tal como escrito no texto do CrimethInc.: «O imperialismo russo moderno baseia-se na percepção de que a Rússia é a sucessora da URSS – não no seu sistema político, mas em termos territoriais. O regime de Putin vê a vitória soviética na Segunda Guerra Mundial não como uma vitória ideológica sobre o nazismo, mas como uma vitória sobre a Europa que mostra a força da Rússia.»

    Neste momento, seguimos com atenção as situações de Chernobyl e de outras centrais nucleares da Ucrânia, atos bélicos próprios de quem não olha a meios para atingir os seus fins.

    A lei marcial imposta na Ucrânia obriga a que todos os homens entre os 18 e os 60 estejam proibidos de sair do país. São aconselhados a pegar em armas e a defender a sua «pátria». A guerra evidencia que o patriarcado, expresso de forma natural nos nacionalismos e nas disputas pelo poder de Estado, é uma brutalidade para todas as pessoas.

    Estamos solidárias com todas as pessoas na Ucrânia que foram apanhadas por uma guerra que não compraram, bem como com a diáspora ucraniana espalhada por vários países. Sabemos que os imigrantes ucranianos que vivem em Portugal se têm encontrado em vigílias nas cidades de Lisboa, Porto e Faro e estamos atentas. Possíveis refugiados/as serão bem-vind@s.

    Rejeitamos ainda qualquer russofobia. Expressamos toda a nossa solidariedade com o povo russo, que irá sofrer uma crise sem precedentes, e estamos a seguir organizações de apoio aos detidos em manifestações contra a guerra que tiveram lugar imediatamente em território russo (a imagem em destaque neste texto é mostra a Polícia antimotim russa a prender uma manifestante cuja máscara diz “Não à guerra”.). Ao longo dos próximos dias, iremos partilhar informação sobre projetos de base em vários países da região, que nos inspiram com as suas ações de solidariedade e de resistência.

    Esperamos que as nossas palavras não sejam confundidas com outros discursos que acabam por legitimar esta guerra. Após 10 anos de jornal Mapa, queremos que as nossas posições sobre os interesses das classes dominantes e das elites e oligarquias políticas, o militarismo, a Nato e a Europa-fortaleza estejam claras.

     

  • Mobilidade justa: Viajar com os pés na Terra

    Mobilidade justa: Viajar com os pés na Terra

    A redução das viagens aéreas desde o início da pandemia de Covid-19 travou temporariamente a vontade da multinacional Vinci e do governo português de procederem com o projeto faraónico da expansão do aeroporto de Lisboa.

    Se as elites políticas e económicas anseiam regressar ao crescimento do tráfego aéreo, do turismo e da destruição ecológica, multiplicam-se os apelos e os espaços por uma mudança radical e fascinante na forma como nos deslocamos pelo planeta.

    “Viajar com os pés na Terra está a tornar-se uma obrigação moral para aqueles que estão conscientes do que está a acontecer com o clima, ecologia, cultura, tecido social, economia, política”. Com a sua partilha na sessão “Mobilidade justa – Viajar com os Pés na Terra” organizada pela campanha ATERRA no Umundu Lx 2021 – Festival coletivo para a transformação sustentável, o académico e ativista mexicano Miguel Valencia propõe-nos refletir sobre como chegámos até aqui – e repensar o lugar que o transporte motorizado, e o avião em particular, ocupam no mundo.

     

    Durante centenas de milhares de anos, os seres humanos têm viajado com os pés na Terra. Na Idade da Pedra, os caçadores-coletores nómadas viajavam pelo mundo com os pés na Terra até há cerca de 5 mil anos, quando alguns grupos de seres humanos começaram a usar o cavalo, e aparece a figura do guerreiro. Com o uso do cavalo, grupos crescentes de seres humanos alcançaram uma maior velocidade na sua mobilidade e nas suas viagens. A velocidade do cavalo provou ser de grande utilidade na guerra.

    O cavalo facilitou conquistas, a criação de estados e impérios e levou ao aparecimento de reis e sacerdotes que começaram a criar castas e hierarquias e a viajar sem os pés na Terra. Desde então, a velocidade tornou-se a face oculta do poder e da riqueza. Os poderosos do mundo começam a viajar mais rápido do que os outros. Até às guerras napoleónicas, a maior velocidade que uma pessoa podia alcançar era a de um cavalo a galope [ref]The Chronophages, The Age of Time-Devouring Transports, Jean Robert, p. 95[/ref].

    Praticamente toda a população humana tem viajado com os pés na Terra, a uma velocidade de 3 km/h, até a algumas décadas atrás, como nómadas ou migrantes em direção a outros lugares e continentes, ou em peregrinações para visitar santuários, ou para fazer comércio nas terras distantes da Rota da Seda. Nas Américas, os impérios Inca e Asteca conseguiram, sem cavalos, estabelecer o sistema de correio mais rápido do mundo antes da ferrovia, à velocidade prodigiosa de 100 km por dia, por meio de estafetas [ref]Ibid, p. 96[/ref].

    Há mais de 200 anos coincidiram na Inglaterra as circunstâncias necessárias para o nascimento da revolução industrial e, simultaneamente, a revolução dos transportes que desde então iniciaram o seu reinado. Por volta de 1840, os primeiros comboios em França mal conseguiram igualar os três dias de viagem de que necessitavam as diligências entre Paris e Lyon, mas apenas 20 anos mais tarde, em 1860, Napoleão III pôde gabar-se de ter atingido a velocidade de 100 km/h na rota Paris-Marselha [ref]Ibid, p. 96[/ref].

    Com o nascimento da indústria e dos transportes, surgem na Europa Ocidental a ideia moderna de economia e a preocupação da maioria dos seus habitantes de encontrar em qualquer negócio ou atividade o método absolutamente mais eficiente para os realizar. A tecnologia começa a criar as próteses que servem para aumentar a velocidade, dar poder e dinheiro a quem as pode pagar, e desta forma fazer crescer a indústria e os mercados.

    A velocidade torna-se central nos países colonialistas, à custa da desnaturalização do tempo e dos territórios daqueles que sofrem com ela. Os lugares tornam-se abstratos, tornam-se espaços, e as viagens tornam-se deslocamentos sem ver a paisagem. Os fluxos de pessoas são vistos como se fossem líquidos: começa o Mundo Líquido de que fala Bauman.

    Como consequência do crescimento do transporte motorizado, os tempos tradicionais também se deslocalizaram: não há mais estações, idades, períodos, horários de refeição, horas de dormir, dias de descanso. Vivemos fora do tempo e fora do solo.

    Protesto contra o projeto de novo Aeroporto Internacional do México, junto ao lago Texcoco, durante os dias de ação global contra a aviação da rede Stay Grounded, em outubro de 2018.

    Antes do final do século XIX, a bicicleta surgiu como um produto maravilhoso do engenho e da mecânica populares, e o carro como produto do progresso técnico da indústria, a fim de dominar a mobilidade no território e, se possível, reduzir ao mínimo outras formas de mobilidade.

    O imaginário social dos países europeus e dos Estados Unidos começa a ser colonizado por sonhos ou pesadelos de transportes cada vez mais rápidos e de territórios e ares invadidos por vários tipos de transportes que poderiam dar superioridade militar às potências, ou servir para revolucionar a existência dos seus habitantes através de viagens diárias para lugares distantes, por trabalho ou comércio.

    No início do século XX, um sonho antigo (Daedalus e Icarus) começou a tornar-se possível: voar com um certo grau de segurança para lugares além do horizonte, e assim alcançar ainda mais velocidade e viajar mais longe e com mais frequência.

    O século XX viu o início do culto à velocidade, que mais tarde se tornou o espetáculo da velocidade. Viu também o paradoxo de que quanto mais viajamos, mais rápido viajamos, mais somos superados pelo sentimento de falta de tempo: somos destruídos pelo tempo. O slogan tempo é dinheiro coloniza as mentes dos habitantes das nações que estão em progresso e a fabricar modernidade.

    O transporte motorizado cria uma pirâmide, de acordo com as diferentes velocidades médias que pode oferecer. Pela sua velocidade entre dois pontos em linha recta, o avião colocou-se no topo e tornou-se o emblema das viagens modernas por excelência, enquanto os voos para o espaço não se tornem comerciais.

    Devido à acessibilidade que permite a qualquer parte do território, o transporte motorizado cria continuamente fluxos de pessoas e bens para os lugares mais remotos da Terra. Assim, aldeias, bairros, vilas e cidades passam periodicamente por grandes mudanças na sua economia e costumes, que por sua vez provocam grandes migrações, e envolvem-se assim na guerra económica dos ricos contra os pobres.

    As migrações de todo o tipo induzidas pelo transporte motorizado, especialmente as viagens aéreas, vão desde a migração diária entre lares e locais de trabalho, um fenómeno conhecido como mobilidade pendular ou pendularidade, que devora até 5 horas por dia aos trabalhadores nos países do Sul global, até à migração em larga escala entre países. Estas migrações em terra são uma consequência do surgimento e crescimento da aviação.

    A velocidade transfere privilégios daqueles que trabalham para uma minoria que beneficia do trabalho de outros. Muitos milhões de pessoas em todo o mundo têm de perder mais de mil horas por ano no seu trajeto diário para o trabalho, para que uns poucos possam fazer anualmente até cem voos por ano, ou viajar mais de cem mil quilómetros, ou viajar algumas horas para o espaço.

    A urbanização é transformada pelos efeitos diários do transporte motorizado, de modo que o transporte motorizado se torna a principal forma de mobilidade em superfícies públicas, criando muitas dificuldades para caminhar nas ruas da cidade e em áreas rurais. Quanto mais rápido se pode chegar a um lugar, mais longe estão os lugares ou destinos a que se quer ou tem de chegar com frequência. Graças à aviação, as terras virgens do mundo praticamente desapareceram e toda a vida selvagem foi deixada em grande parte desprotegida.

    Por outro lado, a aviação significa que os bens podem mover-se mais rapidamente pelo mundo e que a grande maioria da população é cada vez mais forçada a perder diariamente muito tempo para chegar aos seus empregos. A revolução das vedações (que impedia as pessoas de caminhar no campo em linha reta até ao rio ou ao mar), que começou por volta do século XVI, não terminou: o transporte cria novas vedações e obstáculos para chegar ao outro lado da rua, da cidade ou do país.

    A aviação simboliza o desprezo absoluto de uma pequena minoria da humanidade pelos fundamentos da existência das plantas e animais que tornam possível a existência humana na Terra. É a atividade que permite ao maior número de pessoas levar a cabo a maior devastação climática e ecológica no espaço de poucas horas.

    A aviação e outros transportes motorizados levaram ao desenraizamento permanente, à migração ou deslocalização de seres humanos, espécies vegetais e animais, minerais, terras raras e produtos da indústria, incluindo os seus resíduos. Toda a matéria viva e morta na superfície da Terra está sujeita à ameaça de deslocamento ou relocalização iminente causada pelo crescimento da aviação e do transporte motorizado.

    Como consequência do crescimento do transporte motorizado, os tempos tradicionais ou vernáculos também se deslocalizaram: não há mais estações, idades, períodos, horários de refeição, horas de dormir, dias de descanso. Vivemos fora do tempo e fora do solo. Trabalhamos e produzimos 24 horas por dia, sete dias por semana. Os “homens de ação”, os ricos e poderosos, a classe média dos países altamente tecnológicos, naturalizam as próteses que são usadas para se mover em alta velocidade, como o carro, o avião e o comboio de alta velocidade. Tempos curtos dominam sobre tempos lentos. A velocidade aniquila a existência humana e os territórios e as atmosferas do mundo.

    Em particular, a aviação simboliza o desprezo absoluto de uma pequena minoria da humanidade pelos fundamentos da existência das plantas e animais que tornam possível a existência humana na Terra. A aviação é a atividade que permite ao maior número de pessoas levar a cabo a maior devastação climática e ecológica no espaço de poucas horas.

    Alienada pela produção e pelo consumo excessivo, uma boa parte da população humana não vê a possibilidade de “Outro Mundo” muito diferente daquele em que vivemos, com menos aviação, automóveis, autocarros, reboques, turismo, comércio livre, indústria agropecuária, e sem crescimento económico ilimitado.

    No entanto, o transporte motorizado, especialmente a aviação, tem enfrentado obstáculos crescentes ao seu crescimento há algumas décadas: aumenta a consciência social do fim da Era do Petróleo Barato ou com a entrada na Era do Petróleo Não Convencional, que implica um petróleo com custos climáticos, ambientais, sociais, económicos e políticos mais elevados na sua extração do que o Petróleo Convencional.

    O relatório do Painel 1 do IPCC, publicado em agosto de 2021, confirma que se o consumo de gás, carvão e gasolinas não for reduzido pela metade até 2030, o aumento da temperatura global não será contido a 1,5°C e poderá aumentar mais rapidamente, ameaçando a existência da humanidade neste século.

    O transporte motorizado está por detrás do colapso do clima e da ecologia, devido à sua enorme produção de emissões. Aviões, carros e comboios de alta velocidade são grandes inimigos do clima e do meio ambiente. As Nações Unidas decretaram um Alerta Vermelho Global, devido ao colapso do clima.
    Os eventos climáticos extraordinários dos últimos anos, como os incêndios florestais nos Estados Unidos, Sibéria e outros países, as inundações na Alemanha, Bélgica, Estados Unidos ou China, o aumento do número de lugares e dias com temperaturas acima de 50°C, combinados com os registos climáticos dos últimos anos, mostram que as mudanças climáticas se estão a acelerar.

    Viajar com os pés na Terra está a tornar-se uma obrigação moral para aqueles que estão conscientes do que está a acontecer com o clima, ecologia, cultura, tecido social, economia, política e os axiomas sobre os quais se baseia a sociedade industrial e de crescimento ilimitado.

    A causa dos migrantes pertence a todos: é intolerável viajar com os pés na Terra em total desamparo, como acontece nos países do Sul Global e muitas vezes no Norte Global, devido à velocidade dos aviões, comboios rápidos, carros, autocarros e reboques.

    É urgente limitar severamente o uso desses transportes para mitigar o sofrimento e a desgraça que produzem e abrir a possibilidade de criar Um Outro Mundo, respeitoso da dignidade humana, do clima e da diversidade biológica e cultural.

    O regresso à viagem com os pés na Terra é uma das formas que mais pode contribuir para a criação de comunidades ecológicas, conviviais, autónomas, menos dependentes dos mercados globais e das decisões centralizadas de grupos políticos e económicos muito poderosos; para a mitigação do colapso ecológico e para a criação de Um Outro Mundo, o mundo pós-desenvolvimento, pós-industrial, pós-petróleo.

    Pode também começar a tornar-se o sonho, a esperança de setores sociais como os povos indígenas, camponeses, artesãos, desempregados, defensores da natureza e os amantes da cultura e das culturas, que podem ver nesta grave limitação do transporte motorizado o caminho para sobreviver com dignidade.

    Esperamos que os crescentes esforços das organizações sociais para aumentar a consciência climática e ecológica, juntamente com as catástrofes que se podem prever nos próximos anos, nos ajudem a tornar em breve as viagens com os pés na Terra uma realidade jurídica universal. Muitas mobilizações sociais são necessárias para mudar o sistema económico e político global.

    O possível regresso à viagem com os pés na Terra pode ser visto já como uma boa notícia: é uma das formas que mais pode contribuir para a criação de alimentos, ambientes e estilos de vida saudáveis, de comunidades ecológicas, conviviais, autónomas, menos dependentes dos mercados globais e das decisões centralizadas de grupos políticos e económicos muito poderosos. É uma das actividades que mais pode contribuir para a mitigação do colapso ecológico e para a criação de Um Outro Mundo, o mundo pós-desenvolvimento, pós-industrial, pós-petróleo.

    A viagem com os pés na Terra facilita-nos uma boa relação com o solo, a água e o ar do deserto, a floresta, a selva, a savana, a costa, as montanhas, as nascentes, as plantas, os animais e outros seres humanos.

    A viagem com os pés na Terra dá sentido à existência humana, permite-nos apreciar o nascer do sol, o pôr do sol, a Primavera, o Verão, o Outono e o Inverno, os vales, os picos, os abismos, as outras formas de cultivar, comer, dançar, viver e celebrar, de outros povos.

    Mas a viagem ao mundo das viagens com os pés na Terra não será fácil: teremos de descolonizar o imaginário social das imagens e conceitos económicos, economistas e economicistas que nos impõe o consumo de produtos e serviços industriais desde a infância, a escola, os meios de comunicação, a publicidade, a Internet e a urbanização.

    Teremos de relocalizar a produção e o consumo, cultivando os nossos próprios alimentos e, sobretudo, sair da religião económica e do culto da ciência e da tecnologia. Teremos que desconstruir a ideia de velocidade; teremos que fazer uma nova política da velocidade e do transporte motorizado.

    A aviação deve ser combatida em todas as frentes possíveis: pelo que ela destrói na atmosfera, território, culturas, comunidades, famílias, economias, leis, instituições, histórias, geografias, certezas, epistemologias, filosofias, esperanças e limites que o ser humano deve ter.

    É indispensável recuperar a lentidão em todos os aspectos da vida. Dar prioridade aos tempos lentos sobre os tempos curtos, aos tempos naturais sobre os tempos mecanizados. Comer em horários fixos, eliminar ao máximo o trabalho noturno. Habitar o tempo e pensar ao ritmo dos nossos passos, por meio da Vida Lenta.

     


    Texto de  Miguel Valencia Mulkay – Engenheiro químico, académico e ativista, participa ativamente em encontros e fóruns sociais ou populares. Coordenador da ECOMUNIDADES, Red Ecologista Autónoma de la Cuenca de México  e autor do blogue Descrecimiento México.

    Fotos de rede Stay Grounded