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Lendo: Agir não em resposta ao vírus, mas ao agravamento dos problemas do sistema económico

Agir não em resposta ao vírus, mas ao agravamento dos problemas do sistema económico

Agir não em resposta ao vírus, mas ao agravamento dos problemas do sistema económico


Este artigo faz parte da série #PandemiaSolidária.

 

As cantinas solidárias são uma das mais expressivas iniciativas locais de solidariedade e apoio mútuo que surgiram nas cidades com vista a fazer face às consequências sociais e económicas trazidas pela pandemia da Covid-19. O espaço Provisório emprestou a sua sala e cozinha a um grupo informal de moradores nas freguesias de Arroios, Penha de França e São Vicente, em Lisboa, e daí nasceu uma cantina solidária temporária que à data continua a fornecer cerca de 80 refeições gratuitas diariamente.

 

A partir de quem partiu a iniciativa e o que a motivou?
Somos um grupo informal de pessoas que já se conhecem há algum tempo porque partilhamos os mesmos circuitos sociais e culturais, onde temos desenvolvido cumplicidades e práticas coletivas.

Perante a pandemia da Covid-19 e a crise, não somente sanitária mas sobretudo económica e social, que atingiu toda a gente e ainda mais as pessoas que já se encontravam antes numa condição maior de fragilidade, quisemos juntar-nos e organizar-nos para agir perante este abalo e pensar em iniciativas que pudessem aliviar o peso das necessidades mais essenciais.

Às competências organizacionais e materiais desenvolvidas no passado em experiências partilhadas acrescentou-se a possibilidade de acesso ao Provisório, um espaço com uma cozinha grande e actividade mais regular onde alguns de nós estão envolvidos.

Sobre estas bases decidimos então montar uma cantina gratuita, que se somou às iniciativas de outros grupos, como as cantinas solidárias do RDA, do Disgraça, da Mula, ou as Brigadas de Bairro, e a diversas acções individuais que têm surgido neste contexto de crise.

A quem é dirigida? E como tem corrido? Há muita procura?
O serviço de refeições gratuitas é dirigido a todos e não estabelecemos quaisquer condições para os interessados. Tem corrido bem. Estamos a servir neste momento aproximadamente 80 refeições por dia, havendo pessoas que levam para o jantar ou para entregar aos vizinhos. Além das pessoas que têm vindo para o serviço de refeições, há um interesse e disponibilidade particular de pessoas conhecidas ou não, que se têm oferecido para participar das mais variadas formas, seja para cozinhar, divulgar o projecto, entregar refeições a vizinhos que não podem ou não conseguem sair de casa ou ajuda com toda a logística necessária. Tivemos também apoio dos comerciantes da zona que nos ofereceram bens alimentares e reduzem os preços dos produtos, de pessoas que nos deram comida, caixas, luvas, gel desinfectante, etc.

Percebemos ainda que uma boa parte das pessoas com quem temos contactado, para além de carências financeiras acentuadas pela crise, está também a sentir-se isolada emocional e afectivamente, encontrando um certo conforto na aproximação e na participação nesta acção colectiva.

Como se organizam?
 Esta cantina partiu de um grupo de pessoas que já se conheciam e faziam coisas juntos, havendo por isso relações pessoais de confiança que tornaram o processo de discussão e organização mais fácil.

Desde o início, em 16 de abril, a cantina tem funcionado em regime de takeaway, todos os dias, das 13h às 15h. Para além dos cuidados habituais a ter quando se trabalha no processamento e confecção de alimentos, seguimos os protocolos extra de saúde, higiene e limpeza que a situação exige. Os turnos feitos a partir de uma escala semanal são compostos por três pessoas, com um regime de rotatividade em que cada dia um de nós fica responsável pela elaboração do menu e pela gestão do espaço.

Durante o serviço, uma pessoa está à porta e trata de receber as caixas que as pessoas trazem, outra enche as caixas e uma terceira continua a cozinhar o que for preciso. As limpezas são feitas pelo turno de cada dia, deixando o espaço limpo e preparado para o dia seguinte. Além dos turnos de cozinha, existem turnos de compras, inventário e contabilidade, bem como de gestão da comunicação.

Temos reuniões uma vez por semana para coordenar e decidir o que vai sendo necessário.

Têm mantido alguma relação com as demais cantinas solidárias na zona de Lisboa?
 Algumas das organizações com cantinas sociais são espaços que frequentávamos antes da pandemia e alguns de nós estão a participar e a acompanhar as actividades desenvolvidas (na cantina do RDA, por exemplo). Esta relação próxima permitiu-nos trocar informação e partilhar certos recursos e necessidades logísticas, o que foi importante para começar a nossa actividade. Além dos colectivos que organizam cantinas solidárias, o GAIA disponibilizou-nos material para cozinhar, o Provisório emprestou o seu espaço e cozinha, bem como os seus meios de comunicação online. A associação dos Amigos da Quinta do Ferro ajudou na divulgação e o grupo das Brigadas de Bairro ajuda com o seu sistema de entrega de refeições ao domicílio.

 

Têm tido algum problema por causa das restrições impostas pelo estado de emergência?
 Na zona onde estamos e em relação à nossa actividade com a cantina, o controlo tem sido reduzido e até agora não tivemos qualquer problema com as autoridades.

Como é que o projecto (Cantina Solidária Temporária) está a subsistir nestes tempos incertos?
A Cantina Solidária Temporária é um projecto recente que funciona com trabalho voluntário e donativos privados. Recebemos donativos que vão permitir-nos estender o seu funcionamento até 16 de Maio. A flexibilidade laboral ou a suspensão de trabalho forçada de muitos de nós proporciona o tempo e a disponibilidade para continuarmos. Estamos também a pensar como este projecto poderia existir para além deste período de pandemia, tendo perfeita consciência do carácter excepcional do momento e de que perenizar esta actividade levanta um conjunto de questões complexas.

E como temos vindo a perguntar a outras Cantinas Solidárias, numa tentativa de desambiguar o significado de «solidariedade», tantas vezes confundida com «caridade» e assistencialismo, o que é para vocês ser solidária?
Entendemos a solidariedade como uma estrutura de relações interdependentes de apoio mútuo dentro de uma comunidade, radicalmente diferente da caridade que, em sentido contrário, reforça e perpetua as dependências e hierarquias existentes entre uns e outros.

Então, quando pensámos e construímos a nossa cantina solidária neste contexto de crise, quisemos sustentá-la nos gestos e vontades de todos os que se têm envolvido de diferentes maneiras. Desde o início, a nossa ideia foi a de que não estávamos a agir em resposta ao vírus, mas ao agravamento dos problemas do sistema económico no qual vivemos, baseado em desigualdades fortes e relações de poder assimétricas. Neste sentido, esforçámo-nos por evitar repetir nos nossos gestos as estruturas que reproduzem essas desigualdades e por desenvolver as nossas acções de forma mais horizontal e colaborativa.

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Como se pode apoiar?

Este projecto implica custos e depende dos donativos de todos que podem ser feitos por:
– Transferência bancária (NIB : 0023 0000 45486038990 94)
– MBWAY (924284442)
– Directamente em mão no local das 10h às 15h, todos os dias (Rua Leite Vasconcellos 48ª)
Aceitamos também doações de alimentos secos, vegetais, fruta e iogurtes, caixas e talheres para o takeaway, bem como luvas e gel desinfectante.

 

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Written by

Filipe Nunes

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