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  • Agilizar os repatriamentos mantendo-os em segredo

    Agilizar os repatriamentos mantendo-os em segredo

    Num documento oficioso [non-paper] de 29 de Abril de 2022, a Comissão Europeia admitia que os acordos informais de repatriamento [readmission] são preferíveis aos formais, por variadas razões, incluindo a «possibilidade de manter o acordo secreto». Em 2023 o agilizar dos processos de expulsão e repatriamento permanece no topo do «secretismo» da agenda da UE.

    A União Europeia (UE) tem 18 acordos de readmissão com Estados terceiros, que criam obrigações para ambas as partes de readmitir os seus nacionais (e potencialmente cidadãos de outros Estados) sujeitos a remoção forçada ou «voluntária» pela outra parte contratante.

    Estes acordos são tratados internacionais e implicam, portanto, a aprovação do Parlamento Europeu para entrarem em vigor. No entanto, nos últimos anos a UE levou a cabo aquilo a que se refere como «acordos de readmissão juridicamente não vinculativos», que não requerem qualquer controlo parlamentar. Estes foram concluídas com o Afeganistão, Guiné, Bangladesh, Etiópia, Gâmbia e Costa do Marfim.

    O documento oficioso refere que a percepção de deportações e de retornados por parte da opinião pública e da sociedade «pode ter influência na qualidade da cooperação», sugerindo o secretismo como regra a cumprir e como vantagem a segurar.

    O documento apresenta ainda uma lista adicional de benefícios dos acordos não vinculativos:
    «As negociações dos acordos são mais simples do que as dos acordos de readmissão, devido à sua natureza não vinculativa, maior flexibilidade para incorporar compromissos políticos (por exemplo, sobre reintegração), a ausência das disposições sobre a obrigação de readmitir nacionais de países terceiros, a aceitação do documento de viagem da UE, abordagem personalizada, procedimentos de aprovação menos complicados no país terceiro.»

    O documento de 29 de Abril, escrito no âmbito da discussão interna no Grupo de Trabalho IMEX (Integração, Migração e Expulsão) do Conselho, tem principalmente a ver com a adopção de uma nova abordagem às negociações sobre readmissão com Estados não pertencentes à UE: «A UE e os Estados-Membros poderiam considerar novas abordagens, incluindo sobre alguns elementos que abrandaram as negociações passadas e representam um desafio nas negociações em curso: (1) incentivos e alavancagens insuficientes ou não devidamente escolhidos ou orientados, (2) necessidade de uma posição mais coerente e coordenada da UE, (3) rigidez dos mandatos, (4) formato complexo do acordo».

    Se é notório que a UE quer agilizar os processos de expulsão e repatriamento e, para isso, todas as novidades parecem bem vindas, por outro, há coisas, talvez mais estruturais, que não mudam. A estratégia do pau e da cenoura é a mesma de sempre: «Com base numa avaliação das negociações anteriores, bem como do nível de implementação dos acordos de readmissão existentes, uma conclusão preliminar indicaria que quanto mais elevado for o nível de incentivos da UE face aos países parceiros, mais eficaz será o nível de cooperação, tanto em termos de rápida conclusão de acordos/arranjos, como em termos de implementação efectiva do acordo».

    O tom colonial do documento é-lhe dado quando se incentiva que sejam exploradas as «relações privilegiadas» por parte dos Estados-Membros que as tenham.

     


    Fotografia [em destaque] de  Leonhard Lenz.

  • Nuvens negras sobre Vincenzo Vecchi

    Nuvens negras sobre Vincenzo Vecchi

    Uma decisão judicial de 29 de Novembro parece ter a intenção de colocar no Tribunal da Relação de Lyon a tarefa de extraditar Vincenzo Vecchi para Itália, onde o espera uma pena de 12 anos e meio de prisão. Recentemente o Comité de Apoio lançou um apelo de apoio financeiro.

    As mobilizações de Génova contra o G8, em 2001, foram alvo duma repressão enorme, inclusivamente condenada pelo Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, que comparou as acções policiais a «actos de tortura» e que condenou o Estado italiano por não ter sequer identificado os responsáveis e os protagonistas da violência policial. As rusgas aos locais de abrigo e centros de média dos manifestantes (as Escolas Pertini e Diaz) ficaram famosas pela sua brutalidade, mas talvez a maior marca desse terror oficial tenha sido o assassinato de Carlo Giuliani. Nessa sua saga repressiva, o Estado italiano não se poupou em violências e detenções.

    Vincenzo Vecchi, um anarquista italiano, foi uma das vítimas desse processo e foi condenado, já em 2009, a doze anos e meio de prisão pelo crime de «devastação e pilhagem», crime introduzido pelo Código Rocco de 1930, que permite a condenação sem necessidade de prova de culpa concreta: basta estar presente no local onde decorre a manifestação para que a condenação seja possível, mesmo sem qualquer prova de participação directa nos actos pelos quais se é acusado.

    Vincenzo foi condenado apenas por se encontrar «na proximidade» de um banco e de um veículo vandalizados.

    Dois mandados de detenção europeus (MDE) pendiam sobre Vincenzo. Um pela tal manifestação de Génova, de 2001, e outro, sujeito a uma pena de 4 anos, relacionado com a participação numa manifestação antifascista contra o partido Fiamma Tricolore, em Milão, em 2006. Vincenzo foi condenado apenas por se encontrar «na proximidade» de um banco e de um veículo vandalizados e, para evitar cumprir essas penas, procurou refúgio em França (em 2011).

    No dia 8 de Agosto de 2019, foi detido pela polícia francesa e levado para o centro de detenção de Vezin-le-Coquet, perto de Rennes, onde deveria esperar extradição para Itália. Durante meses, o tribunal de Rennes não outorgou essa extradição, considerando que os documentos fornecidos pelo Estado italiano eram insuficientes ou deficientes. Finalmente, a 15 de Novembro, o Tribunal da Relação de Rennes (Cour d’appel de Rennes), ao detectar «irregularidades no processo de execução» em França do MDE emitido pela Itália, decidiu que Vincenzo Vecchi deveria ser posto em liberdade. Como houve recurso, esta decisão teria de passar para o Supremo Tribunal de Justiça (Cour de cassation). Mas, para já, Vincenzo Vecchi estava fora da prisão. «Saí, mas não estou livre» foram as suas palavras premonitórias.

    De facto, a 18 de Dezembro de 2019, o Supremo Tribunal anulou a sentença do Tribunal de Rennes e Vincenzo teve de se apresentar novamente a julgamento, no dia 2 de Outubro de 2020, em Angers. Aí, já a 4 de Novembro, o Tribunal da Relação recusou extraditá-lo, por julgar não poder executar o MDE emitido pela Itália, uma vez que a pena principal de 10 anos de prisão em que Vincenzo incorria, por «devastação e pilhagem», não tem equivalente em França. Dias depois da aparente vitória de Vincenzo Vecchi, o procurador de Angers decidiu recorrer da decisão com base no delito de «organização criminosa», uma acusação que não constava do MDE emitido pela Itália.

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    A 26 de Janeiro 2021, o Supremo Tribunal rejeitou o recurso do procurador, validando assim o facto de a defesa ter, desde o início, colocado questões pertinentes e legítimas, como havia já sido confirmado pelos Tribunais da Relação (cours d’appel) de Rennes e Angers. Por outro lado, acabou por solicitar ajuda ao Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) por causa da complexidade jurídica do caso e adiou uma sentença definitiva.

    O dia 14 de Julho de 2022 trouxe más notícias para Vincenzo. Nesse dia, o TJUE considerou que os MDE emitidos por Itália deveriam ser executados. De acordo com o TJUE, o facto de uma parte (neste caso, de longe, a maior parte) do crime pelo qual Vincenzo foi condenado em Itália ser estranha à lei francesa não deve ser tido em conta pelo sistema judicial desse país. Um novo «julgamento final» ficava, assim, marcado para 11 de Outubro, no Supremo Tribunal de Justiça (cour de cassation), em Paris. Nesse dia, Paul Mathonnet, na alegação de defesa, colocou uma QPC (Questão Prioritária de Constitucionalidade), lembrando que «o país que executasse o Mandado de Detenção Europeu caucionaria uma lei mussoliniana». A decisão ficou marcada para 29 de Novembro, altura em que o Tribunal decidiu rejeitar a QPC e reenviar o assunto para um terceiro Tribunal da Relação, desta vez de Lyon.

    Em reacção, o Comité de Solidariedade com Vincenzo Vecchi, escreveu o seguinte: «o Supremo Tribunal alinha-se com o TJUE, não aproveita a oportunidade para iniciar um debate com este último e para dar a oportunidade ao Conselho Constitucional de exercer a sua jurisdição. Torna, assim, obsoleto o acórdão de Angers de Novembro de 2020 e, implicitamente, deixa ao Tribunal da Relação de Lyon a responsabilidade de executar o MDE e, consequentemente, a entrega de Vincenzo a Itália».

    Uma discussão sobre a não existência dum estatuto de «refugiado político» entre estados-membro da União Europeia vê uma oportunidade perdida. Do mesmo modo, os fundamentos dos MDE, cujo único objectivo parece ser acelerar o processo de repressão em detrimento das liberdades individuais, ficaram por discutir. A possibilidade de uma lei fascista de um Estado poder irromper abruptamente no espaço de outros Estados ficou também fora de agenda. E, pior, Vincenzo, em fuga duma sentença injusta desde 2009, num ping-pong desumano desde a sua detenção em França, em 8 de Agosto de 2019, vê a sua vida continuar em suspenso, ensombrada por nuvens bem negras.

    Actualização:
    Já no início deste ano, o Comité de Apoio a Vincenzo Vecchi antecipava o arrastar do processo e lançava um apelo de auxílio financeiro que permita continuar a acompanhar e defender Vincenzo: «Não sabemos quando se realizará a audiência, mas será nas próximas semanas. O que sabemos quase de certeza é que, se este Tribunal de Recurso decidir a favor de Vincenzo Vecchi, tal como os dois tribunais anteriores (Rennes e Angers), e decidir não o entregar às autoridades italianas, o procurador recorrerá desta decisão; inversamente, se o Tribunal de Lyon decidir contra Vincenzo, iremos recorrer para o Supremo Tribunal. Estas duas sessões jurídicas em perspectiva serão dispendiosas e as vossas possíveis contribuições financeiras serão mais do que bem-vindas».

    As contribuições podem ir de duas formas:
    – Enviar um cheque a Mme. COAT Michelle ou a Mme. REBILLAT Danielle para:
    Café de la Pente – 9 rue du vieux bourg – 56220 Rochefort en Terre, France.
    Por favor, escreva no verso do cheque CSV (para Comité de Soutien à Vincenzo).
    – Se tiver uma conta PAYPAL, faça uma transferência para um dos dois endereços de correio electrónico seguintes:
    d.rebillat@gmail.com ou coatmichelle@wanadoo.fr


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #36, Dezembro 2022|Fevereiro 2023.


    Notícias anteriores:
    As revoluções não se fazem com ramos de flores

    Liberdade para Vincenzo

    Justiça Francesa recusa extraditar Vincenzo Vecchi

    Caso Vecchi: o folhetim continua

    Vincenzo Vecchi: Tribunal Europeu manda executar os mandados de detenção europeus
    29 de Novembro – mais uma data fundamental para Vincenzo Vecchi

  • Apoio mútuo em tribunal

    Apoio mútuo em tribunal

    
Em plena pandemia, um grupo de meia centena de pessoas ocupou um edifício abandonado em Lisboa e transformou-o em Centro de Apoio Mútuo. Um mês depois, os proprietários, armados de seguranças privados e protegidos pelas forças policiais do Estado, despejaram-no à força. Neste momento, seis das pessoas identificadas nesse despejo estão acusadas de usurpação de imóvel e arriscam uma pena de dois anos de prisão.

    Depois de comprado por um fundo imobiliário (Spark Capital – que, além de serviço imobiliário, gere vistos gold) para ser lançado à fúria especulativa, o número nove do Largo de Santa Bárbara, em Lisboa, esteve abandonado durante quase dois anos, até que um grupo de pessoas decidiu ocupá-lo para o transformar em centro de solidariedade e apoio mútuo. O grupo incluía cerca de 50 vizinhos e vizinhas, maioritariamente de Arroios. Chamaram-lhe Seara – Centro de Apoio Mútuo de Santa Bárbara e abriram-no a 9 de Maio de 2020.

    seara

    Em plena pandemia, na decorrência do súbito corte nos salários, da burocratização e demora dos apoios institucionais, bem como da inexistência de estruturas habitacionais facilmente disponíveis para quem delas carecia, perante o aprofundar de precariedades antigas e o surgimento de novas, a Seara foi, durante o mês que a deixaram existir, um local de encontro e partilha que se afirmava como arma contra um mundo higienizado, narcotizado pelo medo, onde se assumia que toda a gente tinha uma casa onde deveria obrigatoriamente ficar. Na Seara, as pessoas, incluindo sem-abrigo, podiam satisfazer necessidades do dia-a-dia, como usar a casa de banho, tomar banho, lavar a roupa, ter acesso a pontos de electricidade e internet, jogar às cartas, sentar-se para comer uma refeição quente, ou simplesmente sentir calor humano perante o isolamento instituído.

    A 8 de Junho de 2020, o fundo imobiliário enviou uma força privada de segurança para um despejo que não poderia nunca, aos olhos da lei, decorrer daquela forma. A polícia, no entanto, como sempre, tomou o lado dos proprietários, assistindo e protegendo a operação. No final do dia, algumas das pessoas foram identificadas e a Seara, juntamente com outros dois edifícios, passava a estar emparedada, vazia e inútil. A resposta popular, mesmo que não tenha conseguido impedir o despejo, serviu para mediatizar as violências a que as pessoas estão sujeitas, o papel da polícia e, portanto, do Estado, na defesa da propriedade sobre o direito à vida, para trazer de novo a público a discussão sobre a legitimidade da ocupação e para agregar solidariedades.

    Neste momento, a antiga Seara está a transformar-se num complexo de apartamentos modernos, demasiadamente caros, destinados a uma classe bastante acima da média, com a qual se quer, aqui como em muitos outros locais de Lisboa e de outras cidades, expulsar os velhos, os esfarrapados, os migrantes, os sujos.

    Também neste momento, seis das pessoas identificadas no despejo da Seara enfrentam um processo judicial que começou com uma «denúncia apresentada pelos proprietários do imóvel (…) desejando procedimento criminal contra as pessoas» que ali «se introduziram (…) sem qualquer tipo de autorização do legítimo proprietário», nas palavras da acusação.

    A procuradora Margarida Godinho Silva afirma, sem qualquer tipo de prova, que «os arguidos (…) removeram e destruíram as taipas de madeira que ali haviam sido colocadas e, desse modo, introduziram-se naquele imóvel, que se encontrava vedado ao público». A defesa contrapõe que o edifício «não tinha quaisquer taipas ou emparedamentos, à exceção de um bocado de uma das janelas do piso térreo».

    seara«Eu não tenho experiência em ser acusado, mas esta acusação surpreende-me pelos termos usados porque fala de coisas impossíveis de provar porque não aconteceram. Por exemplo: nós não arrombámos nada, não destruímos nada para entrar. E avisámos as autoridades do que íamos fazer», garantiu ao Expresso Bernardo Álvares, uma das seis pessoas acusadas. «O que eu espero do julgamento é que pelo menos sirva para discutir a política de habitação da cidade», rematou.

    Estas pessoas arriscam uma pena de dois anos de prisão e, como último toque de ironia, ainda poderão ter de pagar o que a imobiliária gastou em segurança privada e no emparedamento do edifício: cerca de 30 mil euros.

    Independentemente dos resultados do julgamento, é necessário angariar fundos para as custas judiciais destes processos. Nesse sentido, está a ser organizada uma série de eventos para os próximos meses, o primeiro dos quais decorreu no bar Damas, em Lisboa, com concertos de Luís Severo e Filipe Sambado e dj sets de Caroline Lethô e Giulio Giulia meets DJ Pena Suspensa. Os próximos, já em 2023, estão planeados para 10 de Fevereiro, no Arroz Studios, em Marvila, e 15 de Abril, na Recreativa dos Anjos (RDA 69). Mais informações vão sendo divulgadas na página de fb da Seara.

     


    Fotografias de  Outros Ângulos

  • Sem chave não saio!

    Sem chave não saio!

    Resistência auto-organizada no bairro do 2º Torrão responde ao primeiro passo do anunciado «princípio do fim» do histórico bairro da Trafaria, em Almada.

    Entre o rio e o pinhal

    Localizado entre o estuário do Tejo e o pinhal da Trafaria há mais de meio século, o 2º Torrão vê-se encurralado entre uma vala pluvial, a crescente pressão da especulação imobiliária e autoridades locais cujo modus operandis se encontra no ponto de (des)equilíbrio entre o dissimulado e o predatório. A comunidade de mais de 2500 pessoas, que chama de casa a este bairro de autoconstrução em Almada, não é alheia a coações relativas a despejos e a demolições. Ora sob o pretexto de ocupação de terrenos privados, ora do risco de segurança e saúde pública, diferentes gerações se recordam dos recorrentes momentos em que, durante décadas, a sombra do fim iminente do 2º Torrão foi surgindo.

    Com o decorrer das últimas décadas, um outro fator foi ganhando forma na vida da comunidade e em toda a cidade, tal como no resto do país: no espaço de 5 anos, a especulação imobiliária levou o preço das casas em Almada a duplicar, tornando-a na quinta cidade portuguesa com os valores de arrendamento mais elevados.

    Verificamos atualmente um aumento artificial e totalmente desproporcional, não só relativamente à evolução do rendimento das famílias, mas também ao real valor das propriedades em si. Isto é severamente óbvio se tivermos em consideração que mais de 3000 famílias almadenses vivem em condições indignas, das quais 40% vivem em habitação pública (segundo dados da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa).

    É no meio deste cenário que o relatório de 2019 dos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento de Almada (SMAS), até há pouco tempo escondido do público em geral, veio reportar que a extensa vala pluvial de drenagem que passa pelo 2º Torrão, sobre a qual várias habitações foram construídas pelos moradores, está obstruída e que existe a hipótese de colapso e de inundação de todo o bairro, o que coloca a vida de dezenas de famílias em risco.

    Ao ter em suas mãos estas informações, o executivo da Câmara Municipal de Almada (CMA) decidiu nada fazer nos anos de 2019, 2020 e 2021. Pelo menos assim o foi até que, após uma nova visita dos SMAS ao local da vala pluvial, em março de 2002, e após novo relatório, em setembro − documento também não publicitado pela edilidade − foi acionado o Plano Municipal de Emergência de Proteção Civil e declarada a Situação de Alerta para o bairro, entre 22 de setembro e 31 de dezembro do corrente ano.

    A 1 de outubro começaram as demolições, sem que a população afetada fosse informada atempadamente. Durante os seis dias que duraram as demolições, instalou-se a confusão, os receios e o clima de intimidação por parte da Câmara de Almada.

    Demolindo casas, demolindo vidas

    Em junho, a CMA fez uma reunião coletiva, numa escola da Trafaria, com as pessoas que viviam em casas sobre a vala para discutir o seu realojamento e, posteriormente, reuniões individuais com cada família. As soluções variaram de família para família, desde o enquadramento no programa Porta de Entrada (que se aplica às situações de necessidade de alojamento urgente) a outros programas vinculados ao Instituto de Habitação e Reabilitação Urbana (IHRU). Em 1 de outubro começaram as demolições, sem que a população afetada fosse informada atempadamente. Durante os seis dias que duraram as demolições, instalou-se a confusão, os receios e o clima de intimidação por parte da CMA.

    Existia um mapa com indicação das casas a demolir e com a respetiva data de demolição, que nunca foi dado à população. As equipas de intervenção iam de casa em casa para avisar da demolição e propor soluções de realojamento. Estas equipas, à exceção da Proteção Civil, não tinham identificação e, em muitos casos, apresentavam documentos sem assinaturas nem carimbos da edilidade; davam informação contraditória às pessoas e pressionavam-nas para abandonarem as suas casas e aceitarem as propostas de realojamento. Houve casos de pessoas informadas no próprio dia que a sua casa ia ser demolida. Outras pessoas foram informadas de uma data para a demolição da sua casa que foi depois alterada, sem aviso. Outras foram informadas que as casas iam ser demolidas mas, afinal, não faziam parte da lista final. Outras foram chamadas a reuniões com os diferentes serviços sociais longe do bairro na hora em que as suas casas iam ser demolidas, para coibir a resistência. Alguns acordos de realojamento foram apenas verbais, sem prova escrita.

    Os dados sobre as casas a demolir/ demolidas, e os agregados familiares afetados, variam nos dados oficiais da CMA e nos levantamentos realizados. Estima-se que há cerca de 65 famílias afetadas e 73 casas demolidas.

    Os/as moradores/as encontram-se em situações diferentes:
    − Pessoas que foram realojadas em casas camarárias ou do IHRU, em diferentes locais (Barreiro, Almada, Seixal, Lisboa). Não se sabe quantos são; o que se sabe é que muitas destas casas não têm condições de segurança e de habitabilidade (p. ex.: fugas de gás).
    − Pessoas com soluções temporárias, que não sabem para onde irão a seguir, nem por quanto tempo poderão ficar ali alojadas. Nove famílias estão alojadas num hostel, em Campo de Ourique (Lisboa): uma família por quarto e uma casa de banho para todas. Partilham na cozinha uma placa elétrica. Não têm máquina de lavar roupa nem internet para que as crianças possam entregar os trabalhos escolares. Outras famílias foram alojadas em bungalows no parque de Monsanto (também em Lisboa), local sem transportes públicos nem serviços básicos, como mercados para comprarem comida.
    − Pessoas que não foram consideradas elegíveis por parte da CMA – que alegou que não viviam no bairro ou que tinham outras casas – e recusaram deixar as suas casas, interpondo providências cautelares.
    − Duas pessoas que ficaram de fora de qualquer processo de realojamento.
    Os danos na vida destas pessoas são incontáveis. Na sua saúde, no seu trabalho (muitas perderam empregos e fontes de rendimento, porque tinham de estar no bairro, faltando ao trabalho), na escola (as crianças foram afetadas emocionalmente, cortaram as suas rotinas) e na relação com animais de estimação. De um momento para o outro, tiveram que enfrentar a perda de casa, do seu lugar de vida e do seu trabalho. Foram expostas a diversos perigos: o recinto das demolições nunca foi cintado; os escombros ficaram no bairro durante semanas, incluindo materiais de amianto. E foram, sobretudo, expostas a várias formas de coação e humilhação. Após a caída de uma parte de um alçapão que integra a vala, a CMA culpabilizou as pessoas que interpuseram providências cautelares pelas possíveis consequências, escusando-se de qualquer responsabilidade. A CMA acusou ainda as pessoas e associações, inclusive as/os as/advogados pro bono que se solidarizaram com os/as moradores/as, de os/as instigarem a recorrerem à justiça, ou seja, a exercerem os seus direitos.

    A CMA desalojou pessoas, deixou-as na rua, num processo de cima para baixo e pouco transparente, sem lhes propor alternativas dignas. Acionou um plano de emergência sem acautelar respostas integradas. Tudo isto com a desculpa dos impactos da previsível subida da água do mar. O que justifica efetivamente esta remoção à força? Que planos tem a CMA para o bairro? Sobre isto nada se sabe. Neste momento, são 9 as famílias num hostel, 4 em bungalows, 2 pessoas sem nenhuma solução e 10 ainda no 2.º Torrão, que estão na resistência.

    2torrao

    Histórias da resistência

    Desde o início do processo de desalojamento e demolição que os/as habitantes envolvidos/as têm estado unidos/as e a resistir, apesar da situação extrema em que estão a ser colocados/as por parte da CMA. Optaram por uma abordagem também legal. Essa decisão foi apoiada pelos/as advogados/as que se solidarizaram com a causa e que têm estado a prestar auxílio no terreno. Apesar de o aparato policial no bairro ter sido visível durante as demolições e de as respostas municipais terem sido pouco humanas e nada dignas na maior parte das situações, a resistência nunca excedeu o contexto legal. A grande maioria das 65 famílias manteve-se unida, apoiando-se e lutando pela sua situação mas também pela dos seus vizinhos e vizinhas.

    «Sem Chave não saio! Não vamos abandonar as nossas casas sem a garantia de ter outra para morar» foi o mote para a concentração no dia 13 de outubro na Cova da Piedade. O cartaz foi construído coletivamente pelos/as moradores/as, e vários/as habitantes do 2º Torrão deslocaram-se para apoiar as mais de 60 famílias e protestar contra o que tem sido a abordagem da CMA. Os/as habitantes do 2º Torrão vivem um clima de total incerteza quanto ao seu futuro.

    No dia 19 de outubro foi convocada uma assembleia municipal extraordinária sobre habitação, em Almada, onde foi exigido por parte de um deputado do PCP um levantamento do número de habitações demolidas e de famílias desalojadas. Também foi pedido um levantamento dos espaços onde estão a ser feitos os realojamentos, visto esta informação não estar acessível. O atual executivo foi questionado sobre qual será a abordagem para o futuro em matéria de habitação condigna por parte da CMA. Até à data, ainda nenhuma resposta foi tornada pública.

    Houve duas reuniões entre a Secretária de Estado da Habitação e os/as moradores/as com a finalidade de fazer o ponto de situação, de permitir esclarecimentos sobre as medidas cautelares e apresentar pedidos de informação. Foi uma das ferramentas de luta utilizadas pelos/as habitantes na tentativa de pressionar e obter respostas que continuam a tardar em aparecer.

    Neste momento, são 9 as famílias no hostel, 4 em bungalows, 2 pessoas sem nenhuma solução e 10 ainda no 2.º Torrão, que estão na resistência.

    Ao dia 28 de novembro – dia de fecho desta peça – não existiam sentenças face às providências cautelares interpostas. A maioria das famílias em resistência no território têm propostas de habitação, mas que não correspondem às suas necessidades.

    Os processos de auto-organização mantêm-se e têm sido construídos pelos/as moradores/as e por gente que se solidarizou com a causa. Atualmente, existe uma rede de autoajuda com o objetivo de colmatar os problemas criados ao nível do acesso à alimentação e à saúde por todo este processo violento a nível económico e emocionalmente catastrófico para as famílias envolvidas. Não foram criadas respostas integradas por parte do poder local, deixando as pessoas envolvidas completamente desamparadas. Foram também lançadas duas petições e uma carta aberta contra os despejos (esta última em conjunto com outros bairros do país que sofrem situações similares) como forma de dar visibilidade à situação. Neste momento, visto que as respostas continuam a não ser favoráveis para os/as moradores que se mantêm na zona de demolição, está marcada pela assembleia de resistência do 2º Torrão uma manifestação para 5 de dezembro, às 14h, na praça São João Baptista, em Almada. A CMA continua a considerar dois dos agregados como não-elegíveis e desconsideram parte das restantes famílias, não dando respostas à altura das necessidades reais.

    Os/as habitantes continuam focados/as em resistir, conscientes também das palavras recentes de Inês de Medeiros, presidente da Câmara de Almada, que referiu que «demore o tempo que demorar, será o princípio do fim do 2.º Torrão». Quem vive no bairro sente que está a ser desestruturada uma grande família, sem existir sequer uma abertura ao diálogo por parte da CMA. O impacto de todas estas decisões na vida de grande parte dos/as moradores/as do 2º Torrão é profunda, pois as redes de relações e de proximidade são fundamentais para enfrentar as dificuldades do dia-a-dia e para colmatar as carências económicas de uma comunidade maioritariamente precarizada. Desmantelar estas redes de segurança é condenar estas famílias a uma situação ainda mais débil.


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    Texto de 2º Coletivo
    Fotografias de Renata Camargo


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #36, Dezembro 2022|Fevereiro 2023.

  • Está nas ruas mais uma edição do Jornal MAPA (edição 36 – Dez/Fev)

    Está nas ruas mais uma edição do Jornal MAPA (edição 36 – Dez/Fev)

    Para terminar 2022, fomos de encontro aos novos trilhos do cooperativismo e da economia solidária a propósito do 1.º Fórum das Cooperativas Integrais, o que levou a revisitar o comunitarismo do nosso mundo rural, em torno das “conversas com gentes da terra” nas aldeias e baldios da Serra d’Arga. Uma vez mais ecoa nas nossas páginas o exasperar migrante com o relato de uma médica portuguesa, na fronteira da Sérvia com a Hungria. E no que igualmente toca aos direitos humanos, insistimos em publicar na primeira pessoa cartas de presas das cárceres portuguesas. E porque a habitação é um campo de batalha, falamos da resistência aos despejos no bairro do 2º Torrão (Almada) e dos movimentos em Lisboa pelo direito à habitação.
    Das ruas da capital conta-se ainda a história das “Manas”, pessoas utilizadoras de drogas, migrantes, trabalhadoras sexuais ou moradoras de rua, que se reúnem em coletivo rompendo contra a sua invisibilidade. De outras temáticas se faz ainda este MAPA, escrevendo Joana Martins, enquanto antropóloga, feminista, pagã e bruxa, sobre o neopaganismo em Portugal. Há ainda espaço para uma crónica sobre o delírio e as ilusões coletivas da mais recente edição do Web Summit e para os testemunhos da guerra e da migração recolhidos num encontro de ativistas europeus. Entre propostas de leituras diversas, assinalamos o documentário “As Brigadas Revolucionárias na Luta Contra a Ditadura (1971-1974)”. Sem deixar de fora apontamentos às escolas ocupadas em Novembro reivindicando o fim dos combustíveis fósseis, entre outras matérias mais que poderão ser lidas nesta edição do Jornal MAPA.
     
    Esta edição encerra uma década de Jornal MAPA, um projeto de informação crítica que nasceu em 2012 durante o ciclo de crise social e económica iniciado em 2008 e se mostra pronto para novamente ligar pontos no mapa durante a próxima crise que se avizinha. Para festejar tudo isto haverá festa, concertos, petiscos e debates no próximo dia 17 de Dezembro na SMUP da Parede (Linha de Cascais) https://www.facebook.com/events/463203939301615?ref=newsfeed
     
    Como não podia deixar de ser necessitamos de todo o apoio para cá continuarmos e, concretamente, da vossa assinatura. Basta ir a https://www.jornalmapa.pt/assinatura-do-jornal/
  • Festa dos 10 anos de Informação Crítica – Jornal MAPA 2012|2022

    Festa dos 10 anos de Informação Crítica – Jornal MAPA 2012|2022

    No dia 17 de dezembro celebramos 10 anos de Jornal MAPA na Cultura no Muro / SMUP na Parede (ao lado da estação dos comboios). Haverá conversas, um leilão de ilustrações, bancas de livros e publicações, petiscos e concertos.

     
    Entrada até às 21h: 5€ | a partir das 21h: 7€
     
    PROGRAMA
     
    15:30
    “Vozes que atravessam muros: Conversa com o colectivo Vozes de Dentro e leitura de cartas de presas”.
    >> Somos um grupo de pessoas presas e pessoas que do outro lado dos muros acompanham e participam, de diferentes formas, nas lutas de presxs e suas famílias. As pessoas privadas de liberdade e especialmente as pobres, racializadas, mulheres, transgéneros e crianças enfrentam condições desumanas, violência física e psicológica nas prisões. Na prisão as discriminações, violências e a exploração persistem e são exacerbadas remetendo as pessoas presas para invisibilidade, abandono social e marginalização. O objetivo deste grupo é visibilizar a realidade obscurecida das prisões através das vozes de dentro e coletivamente desenvolver ações de apoio para quem está dentro.
    @vozes_dedentro
    https://vozesdedentro.noblogs.org/
     
    16:30
    Conversa “Informação libertária e outras cosmologias” (com o Jornal MAPA, editora Antígona, revista Flauta de Luz, jornal A Batalha, e outres por confirmar*)
    >> Que cogumelos nascem na sombra do colapso? Para além de registar as crises das sociedades industrializadas/ocidentais, a informação libertária tem também registado os nossos cruzamentos com outras cosmologias: outras formas de pensar o mundo para além da cultura hegemónica em que somos socializadas. No passado recente tornaram-se especialmente importantes, nas nossas páginas, as filosofias zapatistas, ameríndias e curdas. Estas dialogam, inevitavelmente, com as resistências fragmentadas que surgem nas rachas do capitalismo: os movimentos anti-minas, a contracultura feminista e Queer, projetos comunitários de agroecologia, coletivos anti-carcerários, o afrofuturismo das periferias, entre tantos outros. Como se constrói hoje esta relação entre a informação crítica e outras cosmologias?
     
    18:30
    Cerca de 30 impressões catitas de ilustrações publicadas no Jornal MAPA, de diferentes números e diferentes autorxs, estarão a leilão! São elxs:
    Alexandre Esgaio, Ana Farias, Ana Moura, André Lemos, Beatriz Fonseca, Bruno Borges, Bruno Caracol, Catarina Leal, Catarina Santos, Daniel Melim, Daniela Rodrigues, Dr. Urânio, Emma Andreetti, Gonçalo Duarte, Inês Xavier, Irene Loureiro, João Massano, José Smith Vargas, Laura Marques, M.C., Manuel Buíça, Maria Lis, Miguel Carneiro, Rita Neves, Tidi
     
    21:00
    Concertos
    NEX SUPREMO & OFG
    VIBRATION MATTERS
    SHARP KNIVES
    TRASHBAILE
    MARLON RUIVO