Categoria: Destaque

  • Exposição-leilão do jornal MAPA – 2022 – SMUP

    Exposição-leilão do jornal MAPA – 2022 – SMUP

    Cerca de 30 impressões catitas de ilustrações publicadas no Jornal MAPA, de diferentes números e diferentes autorxs, estarão a leilão, na grandiosa festa dos dez anos do Jornal MAPA!

    São elxs:
    Alexandre Esgaio, Ana Farias, Ana Moura, André Lemos, Beatriz Fonseca, Bruno Borges, Bruno Caracol, Catarina Leal, Catarina Santos, Daniel Melim, Daniela Rodrigues, Dr. Urânio, Emma Andreetti, Gonçalo Duarte, Inês Xavier, Irene Loureiro, João Massano, José Smith Vargas, Laura Marques, M.C., Manuel Buíça, Maria Lis, Miguel Carneiro, Rita Neves, Tidi.

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  • Declaração de Alfredo Cospito. Turim, 5 de dezembro de 2022.

    Declaração de Alfredo Cospito. Turim, 5 de dezembro de 2022.

    Declaração de Alfredo Cospito* na audiência de recurso para o recalculo das sentenças no âmbito do julgamento de Scripta Manent (Turim, 5 de dezembro de 2022).

     

    Vou ler apenas quatro linhas. Antes de cair definitivamente no esquecimento sob o regime de 41 bis, deixem-me dizer algumas coisas e depois me calarei para sempre. O sistema judicial da república italiana decidiu que, sendo muito subversivo, eu não poderia mais ter a possibilidade de ver as estrelas novamente, a liberdade. Enterrado definitivamente com prisão perpétua, que não tenho dúvidas que me darão, com a absurda acusação de ter cometido um “massacre político”, por dois ataques de denúncia no meio da noite, em locais desertos, que não deviam e não podiam ferir ou matar ninguém e que de fato não feriram nem mataram ninguém. Não satisfeitos, para além da prisão perpétua sem benefícios, visto que desde a prisão continuei a escrever e a colaborar na imprensa anarquista, foi decidido calar-me para sempre com a mordaça medieval do 41 bis, condenando-me a um limbo sem fim à espera da morte. Eu não o aceito e não vou desistir, e continuarei a minha greve de fome pela abolição do 41 bis e da prisão perpétua até ao meu último suspiro, para tornar conhecidas ao mundo essas duas abominações repressivas deste país. Somos 750 neste regime e também por isso luto. Ao meu lado estão os meus irmãos e as minhas irmãs anarquistas e revolucionárias. Estou habituado à censura e às cortinas de fumo mediáticas, estas últimas com o único propósito de transformar em monstros qualquer adversário radical e revolucionário.

    Abolição do regime de 41 bis.

    Abolição da prisão perpétua.

    Solidariedade com todos os prisioneiros anarquistas, comunistas e revolucionários do mundo.

    Sempre pela anarquia,
    Alfredo Cospito

     

    * Alfredo encontra-se em greve de fome desde 20 de Outubro resistindo à aplicação do regime 41 bis ao qual a justiça italiana o quer submeter.

    Ver também: Solidariedade com Alfredo Cospito

  • A WEB SUMMIT E O DELÍRIO COLETIVO DE QUE TODAS PODEMOS SER MILIONÁRIAS

    A WEB SUMMIT E O DELÍRIO COLETIVO DE QUE TODAS PODEMOS SER MILIONÁRIAS

    Quem passa pela WebSummit em 2022 assiste a uma performance de optimismo que (mal) esconde a ansiedade das elites tecnológicas que tentam desesperadamente convencer a audiência, e o mundo, de que a recessão é uma “oportunidade maravilhosa”.

    No primeiro dia, a abrir o palco dedicado ao Marketing, uma coach aconselha-nos a estabelecer uma intenção para o nosso dia: reflectir sobre o que queremos melhorar em nós próprias e como aumentar a nossa autenticidade. À nossa volta, todos os produtos são verdes, rodeados pela apaziguante “estética à Galp” de stands forrados com relvado sintético. Até ao final do evento, irá pairar no ar um optimismo doentio de que tudo vai ficar bem, desde que sejamos fortes e produtivos enquanto o mundo colapsa. É self-care e ver as crises como uma oportunidade. Se a crise é sem dúvida uma oportunidade para os seus arquitectos, não o é para a larga maioria da população mundial, nem tão pouco para as milhares de jovens empreendedoras que encheram a FIL e que, enfatuadas pelo romance capitalista da trabalhadora que passa as noites no escritório, esperam também tornar-se milionárias.

    QUEM QUER SER CEO?
    O formato TED Talk domina as intervenções dos mais de 40 palcos que debitam dicas rápidas para o sucesso. As apresentações duram entre 10 a 20 minutos, estão belissimamente ensaiadas e nunca ultrapassam o tempo previsto. O formato permite fundir um tom aparentemente científico com um sales-pitch, temperado com entretenimento suficiente. A linguagem é empresarial, quase evangélica, e frequentemente dedicada a vender um produto. Como acontece com toda a publicidade, isto lança frequentemente uma visão do mundo completamente desligada da realidade. As frases curtas fazem lembrar o tweet perfeito, conciso e pertinente, que a audiência certamente irá partilhar nas redes sociais – tweet it if you want Beyoncé to see it.
    Pode dizer-se que o grande arco temático das intervenções é a demonstração de como as oradoras, e as suas empresas, conseguem lucrar no atual contexto das crises múltiplas do capitalismo. Em cima do palco estão as CEO’s milionárias, na audiência estão as jovens start-ups que querem enriquecer. Desfilam receitas para vingar que incluem os ingredientes mais picantes, da ecologia à justiça social – sobre a “diversidade” dentro das equipas de trabalho, por exemplo, saiba-se que “as equipas diversas são mais lucrativas”.
    As verdadeiras gladiadoras do formato TED Talk são aquelas que, nos Palcos Pitch, apresentam a sua ideia em 3 minutos a um painel de investidores, tipo shark tank, num gigante concurso que irá culminar numa ideia vencedora anunciada no último dia. Como dita a lei do pitch, uma rapariga começa por lançar uma pergunta à audiência: ‘Sabem qual é o emprego mais stressante do mundo?’. Depois de alguns segundos responde “organizadora de eventos”, numa afirmação tão refém do acto publicitário quanto disconectada da realidade.

    A EUROPA ESTÁ DE VOLTA!
    Não é de estranhar que a WebSummit seja uma expressão apurada da cultura ocidental e da sua devoção ao capital, assim como das relações neocoloniais que o Ocidente mantém com o resto do mundo. Ouviu-se frequentemente falar de outros continentes como “mercados de fronteira”, onde os produtos saturados de utilizadores ocidentais têm outros biliões de utilizadores à espera de ser “monetizados”. Do outro lado, o Ocidente sempre engendrou criativamente novos recursos para predar. O ministro francês para a transição digital bem lembrou os tempos de glória da Europa como berço de importantes invenções, como a impressão, a democracia ou as vacinas. A Ásia e os EUA são hoje uma ameaça ao imperialismo europeu, mas o ministro garantiu que a Europa irá retomar a dianteira – o Macron já o está a fazer, baixando os impostos e atraindo investimento estrangeiro – e terminou, de braço no ar, “A Europa está de volta! E a França está de volta!”

    UNS COMEM OS FIGOS E A OUTROS REBENTA-LHES A BOCA
    Os Estados também têm os seus stands onde vendem as suas jurisdições. Concorrem, com as suas diferentes regulações e incentivos, para atrair investimento privado estrangeiro, nómadas digitais e outros indicadores de modernidade. Ao contrário do que apregoam os mais exagerados defensores do mercado livre, os Estados não são dispensáveis no cenário do capitalismo futuro: sem legislador, juiz ou polícia, quem assegura o direito à propriedade? Os Estados têm assim dois importantes papéis a cumprir: ser o braço militarizado do capital, que assegura a defesa dos seus bens; ser o braço financiador do capital, onde se revela fundamental a capacidade de saquear fiscalmente a população.
    A WebSummit é um desses affairs promíscuos entre despesa pública e lucro privado. De acordo com o contrato assinado em 2018, o evento recebe do estado português cerca de 8 milhões de euros por cada edição até 2028. Desses, 3 milhões saem do orçamento da Câmara de Lisboa, que irá ainda assumir os custos da expansão da área expositiva da FIL para 90 mil metros quadrados. Para compor o ramalhete, Carlos Moedas acaba de lançar uma “Fábrica de Unicórnios” (um unicórnio é uma empresa avaliada em mais de 1 bilião) no Hub Creativo do Beato, onde a Câmara de Lisboa vai enterrar mais cinco milhões de euros (pelo menos). No primeiro dia do evento, o ministro da economia anunciou ainda 90 milhões de euros em vouchers para start-ups, e outros 20 milhões de euros para incubadoras. Ao mesmo tempo que a esmagadora maioria da população se vê incapaz de pagar por habitação digna, ou até por latas de atum, o governo anuncia vistos para nómadas digitais, fazendo explodir ainda mais os preços do imobiliário. Será que as fantasias de crescimento eterno irão sobreviver “nesta economia”?

    O INVERNO ESTÁ A CHEGAR
    No palco dedicado à finança, descobre-se como sobreviver ao “inverno” da recessão global, um termo emprestado pelo crypto-winter, que identifica os períodos (como agora) em que as criptomoedas estão em baixa. É necessário renovar a fé dos agentes de mercado e portanto repetem-se frases como “a crise é uma oportunidade maravilhosa”, “é o momento de consolidar a posição no mercado” ou “se consegues fazer dinheiro no inverno, farás toneladas de dinheiro depois”. Não se chega a perceber bem como fazê-lo, mas certamente terá a ver com a intervenção divina da famosa mão invisível do mercado. Entre aquelas que foram tocadas pela mão invisível está Anne Boden, fundadora e CEO do Starling Bank, um banco digital, sem balcões, que se fartou de fazer dinheiro durante a pandemia. Hoje, o banco tem cerca de 2,7 milhões de utilizadores ativos no Reino Unido e é descrito como um multi-unicórnio. A história de Boden encaixa no típico conto de fadas: a filha de um metalúrgico que saiu de um bairro humilde e acabou milionária à frente de um banco. Depois de se formar em ciências da computação, trabalhou em meia dúzia de bancos, ingleses e internacionais, onde aprendeu os truques do ofício. Como em centenas de filmes de Hollywood, um dia decide lançar o seu próprio banco: arregaça as mangas e senta-se a uma secretária, disparando telefonemas para angariar investidores. Em 2015, depois de angariar uma dívida de 1 milhão e de ser abandonada pelo resto da equipa, a sorte – ou melhor, o bilionário – bateu-lhe à porta. Como conta o The Guardian [ref](1) ‘It’s crazy, but I started my own bank!’: the story behind Starling, em https://www.theguardian.com/business/2020/nov/08/its-crazy-but-i-set-up-my-own-bank-the-story-behind-starling-anne-boden-ceo-interview.[/ref]:

    “[Boden] foi convocada às Bahamas para conhecer o bilionário Harald McPike, que estava interessado em investir no mercado bancário «alternativo». Durante três dias – alguns deles no seu iate – ele fez-lhe uma série de perguntas (…). Quando Boden regressou a casa, já tinha um apoio de 48 milhões de libras. Em julho de 2016, o Starling conseguiu a sua licença bancária”.

    Galeria da Sotheby’s no metaverso da Decentraland.

    TRENDS: A WEB3 E O METAVERSO
    Nesta WebSummit fizeram-se vários apelos para que se deixe de falar em blockchain, o protocolo descentralizado que se popularizou com a Bitcoin. A tecnologia é demasiado complexa para a população leiga e assim os produtos não vendem. O que as pessoas querem é uma app que funcione, independentemente do protocolo que a suporta. Em substituição, fala-se na Web3: a internet descentralizada. Em vez de dados centralizados nos mega-servidores da Google ou do Facebook, como acontece na atual Web2, os dados ficam armazenados de forma distribuída pelos vários computadores que operam a rede. Como dizia uma marketeer, enquanto que na Web2 as empresas sequestram os nossos dados, na Web3 as empresas terão de pedir delicadamente por eles. Na Web3 seremos “livres” para vender os nossos dados, tal como somos “livres” para vender a nossa força de trabalho no mundo analógico.
    O metaverso é a grande tusa da Web3. O metaverso é o mergulho total – experiências imersivas, como realidade virtual ou realidade aumentada. Todas garantem que o metaverso não é de ninguém; a infraestrutura é aberta e livre – já que funciona em cima de um blockchain, mas isso não interessa. O que interessa é que em cima da infraestrutura livre podem funcionar apps proprietárias e é isso mesmo que os gigantes tecnológicos se propõem fazer: colonizar a Web3, a próxima fronteira exótica da Internet como a conhecemos hoje.
    Uma experiência já em curso no metaverso é o jogo Decentraland, uma espécie de Sims com uma wallet, em que as jogadoras podem comprar e vender coisas. No Decentraland, podes comprar propriedade – slots de superfície no mapa do jogo. Quem comprou um slot foi a americana Sotheby’s, uma sociedade de vendas de obras de arte por leilão. Nesse lote, a Sotheby’s abriu uma galeria de arte digital que as jogadoras podem visitar e organizou um leilão que teve mais gente do que é costume na galeria que a Sotheby’s tem em Nova Iorque. Hoje a Sotheby’s; amanhã, quem sabe, o Pingo Doce, a Uber e uma loja do cidadão.

    YOU ARE THE BEST, PADDY!
    A sessão de encerramento aconteceu no pavilhão da Altice Arena. A lotação ficou praticamente esgotada para ouvir o Noam Chomsky que, com 94 anos, fez uma intervenção sobre os últimos avanços na área da Inteligência Artificial. O Chomsky não falou enquanto filósofo anti-imperialista que muitas conhecem, mas sim na qualidade de linguista, cuja abordagem estruturalista lhe vale o título de “pai da linguística moderna”. A sua crítica foi, por isso, de tom científico, brando e tecnicista. Mas logo a seguir, em doses intoxicantes, foi reposto o ambiente de show televisivo, com o anúncio da start-up vencedora do concurso de pitches, com muitos confettis e uma empreendedora à beira das lágrimas. Para encerrar o evento, o palco recebeu Marcelo Rebelo de Sousa que entrou em palco na galhofa, com a audiência em êxtase, a gritar “7 years! Congratulations, Paddy! You are the best, Paddy! He is the best!” Varreu a audiência à procura do Carlos Moedas e, depois de o encontrar algures nas primeiras filas, apontou-lhe o dedo e fê-lo prometer ali mesmo que a Câmara de Lisboa avançaria para o ano com as obras da FIL. A arena iluminada em tons de catedral viu confirmadas nas palavras do presidente que, perante os vários desafios que o mundo enfrenta, só o “digital” salvará as nossas vidas. Ainda bem, nesse caso, que a WebSummit acontece em Lisboa, território santo, onde culmina a peregrinação anual das milionárias do futuro.

     


    Texto de L. Silva

  • Pelo fim ao fóssil: ocupa!

    Pelo fim ao fóssil: ocupa!

    Desde o dia 7 de novembro que 6 escolas em Lisboa se encontram ocupadas por estudantes que exigem o fim ao fóssil.

     

    Duas escolas secundárias – Liceu Camões e António Arroio – e quatro faculdades – Faculdade de Ciências, Faculdade de Letras, o Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa e a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa – são os seis espaços que se encontram ocupados há quase uma semana.

    Em entrevista ao Jornal MAPA, Inês Esteves, estudante do 11º ano do Liceu Camões, declarou que, para si, «As manifestações não estão a funcionar, os nossos apelos não estão a funcionar, as nossas greves não estão a funcionar. (…) Se a crise climática está a escalar acho que também devemos escalar com as nossas acções.»

    Para além de Inês, outras duas estudantes – Frederica Carrilho e Sofia Vale – explicaram as suas reivindicações: exigem o fim da exploração de combustíveis fósseis em Portugal até 2030; a demissão imediata do Ministro da Economia e do Mar, António Costa e Silva, antigo CEO da empresa petrolífera Partex Oil and Gas e, de acordo com elas, uma pessoa «muito aberta à exploração mineira e de combustíveis fósseis»; «o fim à mineração em Portugal e em todo o mundo» e, no caso daquela escola, «o fim à obrigatoriedade dos exames nacionais».

    Estes protestos surgem também no contexto do movimento internacional «pelo fim ao fóssil», que lançou um apelo para que, entre setembro e novembro de 2022, estudantes de todo o mundo ocupassem escolas e universidades. Em Portugal, os protestos estão a acontecer paralelamente à COP27 no Egito, e são dinamizados por jovens da pela Greve Climática Estudantil e do Climáximo.

    Nos últimos meses as estudantes participaram em várias reuniões para preparar as ocupações, bem como um programa paralelo às aulas. Como exemplos, a ocupação do Camões recebeu a visita de pessoas envolvidas na luta contra as minas no Barroso, para uma conversa sobre «Mineração é transição verde?» e acolheu um concerto do Coro da Achada.

    As estudantes contaram que, para dormir, ocuparam o ginásio e, para cozinhar, têm ido a associações vizinhas como a Disgraça ou a Recreativa dos Anjos (RDA). Estão solidárias com as estudantes da vizinha António Arroio, que se barricaram na escola esta quinta-feira dia 10 de novembro. Nesse dia, foram as estudantes do Camões que cozinharam para as outras.

    Dia 12 de novembro, dia mundial pela Justiça Climática, irão todas à manifestação «Unir Contra o Fracasso Climático», marcada para as 14h da tarde no Campo Pequeno, em Lisboa.

     

  • Solidariedade com Alfredo Cospito

    Solidariedade com Alfredo Cospito

    A 20 de Outubro, o anarquista Alfredo Cospito, durante a audiência que teve lugar no tribunal de Sassari, tentou ler uma declaração em que anunciava que começou uma greve de fome contra o regime penitenciário 41 bis no qual se encontra actualmente, e contra a pena de cadeia perpétua (ergastolo), sem possibilidade de ser revista. Uma batalha que Alfredo não tem intenção de parar até à sua morte. O companheiro, que se encontra no regime 41 bis desde 5 de maio por um decreto assinado por aquela que na altura era ministra da justiça, Marta Cartabia, está actualmente encarcerado na prisão de Bancali, Sardenha. Também o companheiro Juan Sorroche preso na prisão de Terni, decidiu avançar com a mesma forma de luta em solidariedade com Alfredo.

    Alfredo Cospito é um anarquista que luta desde final dos anos oitenta, período no qual esteve preso por insubmissão ao serviço militar obrigatório, e que depois de ser detido em 2012 pelo atentado contra Roberto Adinolfi a 7 de maio em Génova, durante o julgamento, reinvidicou e assumiu-se como autor do disparo.

    Alfredo esteve sempre activo na defesa dos companheiros golpeados pela repressão em cada esquina do mundo. A sua luta afecta objectivamente todos os presos, entre os quais recordamos especialmente, os três militantes das Brigadas Vermelhas, Nadia Lioce, Roberto Morandi e Marco Mezzasalma, encerrados desde há mais de 17 anos em regime 41 bis. Em 2009 a companheira Diana Blefari, da mesma organização, suicidou-se, depois de se tornar insuportável a permanência neste duríssimo regime prisional.

    Alfredo passou os últimos 10 anos presos ininterruptamente nas secções de alta segurança do estado italiano, até a sua transferência para o 41 bis. Em 2016 foi também um dos objectivos da operação Scripta Manent[ref]Scripta Manent foi o nome dado a um dos mais importantes processos contra o movimento anarquista em Itália. Vinte e três pessoas foram acusadas de ter criado a FAI-FRI, sigla com a qual foram reivindicados, entre 2013 e 2016, diversos atentados com pequenos artefatos explosivos, contra políticos, esquadras da polícia e jornalistas. O processo acabou com a condenação de cinco pessoas e a absolvição de dezoito.[/ref], acusado de associação subversiva com finalidade de terrorismo e de múltiplos ataques explosivos. Depois da setença definitiva emitida pela Corte de Cassação em julho deste ano, reformolou-se a pena para Alfredo e Anna Beniamino a “massacre político”, delito que prevê unicamente a condenação a prisão perpétua[ref]O Ergastolo (pena perpétua) é a pena máxima prevista a nível jurídico em Itália. A pena é efectivamente perpétua, no entanto depois de 26 anos a pessoa condenada pode pedir a liberdade condicional por boa conduta, sendo que no caso da pessoa condenada estar submetida ao 41 bis a pena perpétua torna-se irreversível.[/ref]. O estado italiano, que sempre protegeu os fascistas perpetradores de verdadeiras matanças (atentado na Piazza Fontana em Milão, em 1969, que provocou 17 mortos; e o atentado na estação de Bolonha em 1980 que matou 85 pessoas) quer agora condenar por “massacre” dois anarquistas por um ataque que não provocou nem vítimas nem feridos.

    Desde há vários anos que Alfredo contribui com artigos, projectos editoriais e propostas para o debate entre anarquistas a nível internacional. Por esta razão, mais de uma vez foi objecto da censura na sua correspondência e foi-lhe proibida a comunicação com o exterior, tendo sido condenado pela publicação do folheto “KNO3” e a última edição de “Croce Nera Anarchica”, e estando actualmente em investigação publicações no jornal anarquista “Vetriolo”. No passado mês de maio foi-lhe aplicado o regime 41 bis, e foi transferido desde a prisão de Ternoi para a de Bancali, em Sassari, Sardenha. Desta maneira foi-lhe negado qualquer tipo de contacto com o exterior.

    O 41 bis serve para isolar completamente o/a preso/a. Esta medida é aplicada e renovada cada 4 anos, e a única forma para sair deste regime é através do arrependimento e da colaboração com as forças repressivas. Noutras palavras, o 41 bis é tortura, na medida que está planeado para induzir sofrimento com a intenção de extorquir confissões ou declarações.

    O 41 bis significa uma hora de visita por mês, com vigilância electrónica e gravação de áudio e vídeo. Se os familiares não têm possibilidade de assistir à visita mensal, como alternativa está prevista uma chamada de dez minutos por mês, mas para fazê-la o familiar tem de se deslocar a uma esquadra dos carabinieri (polícia italiana), ou ao interior de uma outra prisão. Para além disto só está permitida uma hora de pátio e outra hora de convívio dentro do módulo, que é feita num grupo mínimo de duas pessoas e um máximo de quatro, a distribuição de que presos se podem juntar durante essa hora parte directamente dos escritórios de burocratas em Roma e demora alguns meses.

    O 41 bis é um regime carcerário destinado a aniquilar completamente a pessoa presa, já que está estudado para provocar daos físicos e psicológicos através de técnicas de privação sensorial; trata-se de uma setença de morte política e social, que procura quebrar qualquer forma de contacto com o exterior. O tratamento reservado a Alfredo lembra-nos as palavras atribuídas a Mussolini sobre Gramsci: é necessário impedir que este cérebro funcione por vinte anos.

    Um bom exemplo do buraco negro em que se cai depois de entrar no 4 bis é precisamente o que ocorreu no passado dia 20 de outubro durante a audiência no tribula de vigilância de Sassari. Foi impedida a entrada na sala de pessoas solidárias, o companheiro encontrava-se conectado através de videoconferência e quando tentou ler a sua própria declaração, cortaram-lhe a voz simplesmente carregando num botão. A declaração está selada pelos juízes e não pode ser publicada, se os advogados a difundissem arriscar-se-iam a uma pesada condenação a nível penal.

    O que está a acontecer com o companheiro Alfredo Cospito mistura-se com um clima repressivo sempre mais obscuro em Itália. Mais além do movimento anarquista, assistimos a uma repressão cada vez mais opressiva contra operários, estudantes e movimentos sociais. Mencionamos o caso mais expressivo, no verão o tribuna de Piacenza abriu uma investigação contra alguns sindicalistas acusando-os de “extorsão” porque pediam, mediante uma luta “radical” (piquetes e cortes de estrada) um aumento de salário.

    Queremos também que se perceba no estrangeiro que os avanços repressivos que está tomando o estado italiano afecta a todos na primeira pessoa, já que um precedente desta magnitude no coração da Europa pode ser o presságio de novos saltos repressivos noutras latitudes. Tudo isto ocorre enquanto a crise social e militar internacional se agrava cada dia. Sabemos que este é o contexto ideal para as derivas autoritárias dos governos. Temos algumas semanas para salvar a vida de Alfredo Cospito, para evitar o seu assassinato, mas sobretudo para dar um sinal de contra-ataque ao que se está a passar. O estado é responsável pela vida e pela saúde do nosso companheiro. Mobilizemo-nos em todo o mundo, pressionemos o estado italiano para que Alfredo possa sair do 41 bis.

    Companheiros e companheiras
    25 de Outubro de 2022

     

     

  • Coimbra: uma metáfora esquisita num país esquisito: o massacre de 663 árvores à vista de todos

    Coimbra: uma metáfora esquisita num país esquisito: o massacre de 663 árvores à vista de todos

    As obras do Metro Mondego, um elétrico articulado que se propõe circular na cidade de Coimbra e chegar a Semide, passando por Ceira, Miranda do Corvo e Lousã, ameaçam abater 663 árvores no seu trajeto. O mesmo trajeto que um comboio assegurou durante dezenas de anos e que, sem ser articulado, não precisou de abater árvores nenhumas.

    No dia 9 de julho de 2022, Coimbra atingiu um recorde notável: ultrapassou os limites de ozono que podem causar sérios problemas de saúde aos seus habitantes. Podia ler-se no Jornal Público que «a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Centro informou que na estação do Instituto Geofísico do concelho de Coimbra foi registada uma concentração média horária de 188 microgramas por metro cúbico de ozono no ar, afetando quem se encontra nas freguesias de Almedina, Santa Cruz, São Bartolomeu, Sé Nova, Eiras, Santa Clara, Santo António dos Olivais e São Martinho do Bispo», isto é, na maior parte da cidade. Arredondando levemente o problema, aconselhavam a que não se fizesse exercício físico ao ar «puro» (que é como quem diz!). Afinal, não eram só os «vulneráveis» que estavam em perigo, como dizia o comunicado da CCDR do Centro. Repentinamente tornámo-nos todos vulneráveis: éramos todos velhos, crianças e portadores de doenças graves. Isto não é novo numa cidade virada exclusivamente para o automóvel que é dono e senhor das vias apertadas e das avenidas onde se acelera muito para além dos 40 ou 50 km/h, em que os peões são tidos por inimigos e os ciclistas são vistos como seres anormais que devem ser apertados e apartados das estradas e vias urbanas. Por isso apita-se, insulta-se e manobra-se contra o peão e o ciclista. As ciclovias, com alguns troços partilhados com peões, são um perigo porque se partilham igualmente com automóveis em dois sentidos, têm curvas a 90 graus e escorredores pluviais onde se enfaixa com facilidade um pneu de bicicleta. Azar para o ciclista! Tal como o estacionamento: caótico é pouco para o descrever como, aliás, pode atestar quem conduz um carrinho de bebé, uma cadeira de rodas, seja ela mecânica ou elétrica, ou mesmo os estudantes com os carrinhos fanados nos supermercados completamente ébrios de praxe e de álcool marado.

    O ICNF e os massacres de inverno e de verão

    No início de 2021, a senhora responsável pelo ICNF convoca os jornalistas para a Mata do Choupal. Eles comparecem. Logo a seguir a senhora fala e eles ouvem. Proclama, na sua pusilanimidade, o vigoroso Plano de Recuperação da Mata do Choupal que, para admiração de muitos dos seus utentes, não necessitava de plano nenhum, muito menos de recuperação. Mas, sendo um espaço verde e havendo o dinheiro do PDR para gastar, havia que solucionar um problema inexistente. Anunciam-se 98 mil euros e a plantação de 5000 árvores cujas espécies a senhora não soube identificar, nem tampouco a sua numerosa comitiva. Até hoje não se sabe que espécies eram, mas plantaram-se em março, mesmo com avisos sérios de que as árvores não iam aguentar serem plantadas em plena primavera. Hoje o Choupal mirrou. As plantas secaram e a erva rasteira vingou abafando as plantadas. Ficaram as canas espetadas que as haviam de suportar e grandes clareiras. Por falar em canas, outra das matas mais conhecidas de Coimbra, Vale de Canas, também teve a sua intervenção podando à toa, desmatando e, até certo ponto, impedindo a sua regeneração natural. Aliás, as podas de árvores completamente dementes são um ex-libris das autarquias da região de Coimbra, ainda que obriguem a regas e enormes gastos de água que não aconteceriam de outra forma. Também os relvados caríssimos e de regas constantes pertencem a um novo-riquismo conimbricense que, como é evidente, não se revê em ervas naturais que não necessitam de água e que alimentam abelhas e outros insetos que não são nocivos. Sobre este aspeto, leia-se o agrónomo Vasco Paiva que tem denunciado sistematicamente a política incompetente das várias câmaras da região de Coimbra: «Em Coimbra existiam muitas plantas espontâneas de sabugueiro que foram erradamente eliminadas em ajardinamentos públicos. Chega-se ao disparate de se eliminarem muitas plantas e flores silvestres espontâneas porque acham que é preciso limpar… Exemplos de espécies nativas para os nossos jardins? Aqui vão alguns: alecrim, alfazema, erica, madressilva, medronheiro, murta, pascoinhas, pilriteiro, rosmaninho, sabugueiro e tantas outras. Já imaginaram os cheiros, as cores, as pequenas aves que se vão alimentar dos seus frutos?».
    É evidente que para o poder autárquico isto é completamente absurdo. Os relvados e os vasos de flores com as cores da bandeira em rotundas da cidade são muito mais tocantes na psique dos automobilistas e dos funcionários da câmara.

    No dia 9 de julho de 2022, Coimbra atingiu um recorde notável: ultrapassou os limites de ozono que podem causar sérios problemas de saúde aos seus habitantes. (…) Arredondando levemente o problema, aconselhavam a que não se fizesse exercício físico ao ar «puro» (que é como quem diz!).

    Entra em cena a novel Câmara de Coimbra

    A Câmara de Coimbra tem como presidente José Manuel Silva, que capitaneou a coligação «Juntos Somos Coimbra». Logo antes das eleições, um terço dos seus membros independentes saíram para dar lugar a um verdadeiro albergue espanhol que já apontava, por isso mesmo, para uma espécie de ditadura pessoalista e presidencialista. A coligação tem apoios do PSD, CDS, Nós Cidadãos, RIR, PPM, Aliança e Volt. Sete partidos que na maior parte não conheciamos nem tinhamos ouvido falar e que arredaram um PS arrogante, igualmente pessoalista e incompetente. Mas não nos fixemos na política partidária, embora ela explique esta propensão do senhor ex-bastonário da ordem dos médicos para se olhar a si próprio como imprescindível na corrida para uma cidade em vias de sufocar ainda mais.
    Vale a pena fixarmo-nos no Diário de Coimbra de 23 de setembro (o abate de árvores iniciou-se a 12!) para conhecer os autos de consignação e o protocolo de todas as obras do Metro Mondego inseridas no Sistema de Mobilidade do Mondego (SMM), em que a Metro Bus apresentará um «elétrico articulado» que irá «servir» a cidade e que chegará a Semide, passando por Ceira, Miranda do Corvo e Lousã, tal como um comboio o fez durante dezenas de anos, servindo populações diariamente até interesses inconfessáveis o terem banido, levantando as linhas e deixando as populações à mercê de um serviço rodoviário com estradas repletas de centenas de curvas e muito mais morosas! A verdade é que, nessa ocasião, se constituiu uma empresa durante perto de 30 anos que serviu para nada fazer em prol das pessoas, mas mais que pródiga em ordenados chorudos de ceo’s que se iam alternando conforme os interesses partidários.
    Ora, o presidente da câmara de Coimbra resolveu apresentar o plano no único barco turístico do Mondego como o nome muito acertado de «Basófias» (!!), chamando os jornalistas com pompa e circunstância, não fosse o facto anedótico de o barco encalhar em plantas aquáticas invasoras que se meteram no sistema de propulsão do barco! A planta (qual metáfora embainhada a tempo) é a elódea-africana que coloca em risco toda a biodiversidade autóctone do rio e das margens. Mas o projeto não encalhou, tal como a dobragem do Cabo Bojador. O abate de árvores não estava comprometido, portanto.

    O massacre dos plátanos

    No dia 6 de setembro, o Jornal Público noticiava que Coimbra iria abater 5 plátanos centenários junto ao Parque Manuel Braga, no centro da cidade. Esse corte aconteceria seis dias depois. Imediatamente, algumas dezenas de cidadãos protestaram no local apresentando um plano alternativo a um «elétrico articulado» cujo traçado abateria não só os 5 plátanos centenários, alguns de 30 metros, mas também 663 árvores no novo traçado até Semide, na chamada Linha da Lousã. Veríamos, mais tarde, que já se tinha perdido a conta às árvores abatidas dentro da cidade e por todo o lado. As pessoas perguntavam-se por que razão um elétrico que é articulado necessitava de massacrar tal hecatombe de árvores, quando anteriormente um comboio não articulado nunca tinha estado em conflito com qualquer árvore nesse mesmo traçado. A resposta aos cidadãos que apresentaram à SMM um plano que evitaria este verdadeiro crime (não sabemos ainda, nesta fase, se é ou não um crime ambiental) foi abismal, segundo o mesmo jornal: «A Sociedade Metro Mondego (SMM) olhou para a proposta de quem queria evitar o abate de cinco árvores de grande porte na avenida Emídio Navarro, estudou uma alternativa e concluiu que nada muda em relação ao plano inicial.» A SMM «olhou» e disse «não!». Mais tarde, com uma contestação fraca e muito localizada, estando já em campo a ClimAção Centro, a empresa pública dá mais umas achegas: é «facilmente constatável» que a proposta do movimento resultaria em «externalidades e implicações que se traduzem no abaixamento expressivo dos padrões de qualidade do projecto». Não se percebendo de imediato o que é «facilmente constatável», as «externalidades» eram tão só a interferência com uma estação de gasolina no local e com uma estação elevatória das Águas do Centro Litoral em construção. Já antes, no dia 6 de setembro, a Agência Lusa tinha dado conta das verdadeiras razões da recusa da SMM, que jurava a pés juntos que queria um traçado verde mas que era obrigada ao abate. Qual a razão? «Alterar projetos consignados e em fase de execução tem implicações extremamente penalizantes em termos de financiamento, as quais podem levar à sua inviabilidade e encerramento definitivo». Portanto, o caso que acredito ter chocado e até comovido milhares de cidadãos ao ver, no dia 12, as motosserras a cortar os primeiros cinco plátanos de muitos que hão de vir ao chão, é que as prioridades financeiras estão à frente de qualquer motivo verde, ainda por cima com as alterações climáticas existentes e que nos levam a temperaturas recorde.

    A ClimAção tenta agir

    Pode dizer-se que a ClimAção Centro tem sido a única entidade em Coimbra que se opõe a esta verdadeira desgraça, a um crime que ainda não está configurado e a que os responsáveis se esquivam de uma maneira canhestra, ora dizendo que a responsabilidade é da SMM, da presidência da câmara ou da Infraestruturas de Portugal. Afiançamos aos leitores que cada uma destas instituições fala por si, ou astutamente combinadas, e, de facto, a ClimAção que tenta uma oposição eficaz conflitua com esta fuga à responsabilidade por parte de quem é culpado desta hecatombe arbórea.

    Coimbra cidade-dormitório. Ela dorme, o capitalismo verde sossega-a.

    Coimbra não contesta. Coimbra é uma enorme cidade-dormitório. Literalmente. Coimbra não tem estudantes contestatários, embora de vez em quando clamem por Greta Thunberg. Preocupam-se com as praxes, mais do que com os crimes que lhes passam pelos olhos. Os conimbricenses olham pelo seu umbigo, levando o seu corpo a ginásios que se multiplicam, pela sua imagem, pela sua cátedra e pelos seus serviços públicos e privados. Coimbra é a sua universidade fechada e menoscabada. Coimbra preocupa-se com os seus automóveis e com as pistas de velocidade em que transformaram as vias rodoviárias. Coimbra expulsou os operários das suas fábricas. Agora expulsa a natureza. Coimbra exulta a sua decadência.
    Chega a ser comovente ver a desmotivação dos que mais ativamente se opõem a esta ação da SMM, do presidente e da IP, não reparando sequer que a oposição institucional da Câmara vai apelando aqui e ali para que não se faça o abate indiscriminado de 663 árvores. O papel da oposição institucional é exercer esse combate, ténue é certo, mas o mais importante, e é isso que muitos ingénuos e ingénuas não compreenderam ainda, é ver o Metro a andar! Com árvores abatidas ou sem elas, o importante é que em 2024 o Metro Bus, esse «elétrico articulado» que não se consegue articular com as árvores, comece a funcionar. Estaremos nas vésperas de mais umas eleições autárquicas e a coisa tem de render votos, puxando para si o «progresso» baseado no capitalismo verde.

    O caso que acredito ter chocado e até comovido milhares de cidadãos ao ver, no dia 12, as motosserras a cortar os primeiros cinco plátanos de muitos que hão de vir ao chão, é que as prioridades financeiras estão à frente de qualquer motivo verde.

    Uma câmara maoísta?

    Lembrar-se-á a campanha levada a cabo por Mao e que acabou mal – «Que mil flores desabrochem! Que mil escolas de pensamento floresçam!» -, mas o comunicado de 5 de agosto de 2022 da coligação camarária é de um mau gosto e de uma demagogia que configura inclusive uma impossibilidade real em que só os mais incautos podem acreditar. Esse comunicado promete que a CM de Coimbra e a SMM chegaram a um acordo: por cada árvore abatida, três florescerão! As contradições são tantas que não podem caber no espaço deste artigo, mas sobressaem estas, socorrendo-me agora de algumas perguntas que o agrónomo Vasco Paiva coloca na sua página de Facebook a 10 de setembro: «Outra falácia é de que vão substituir cada árvore abatida por três novas! Claro que uma árvore adulta (algumas centenárias) de elevado porte e de larga copa não é substituível por jovens plantas ou árvores que, no máximo, terão 2 ou 3 metros de altura. Quantas décadas serão necessárias para atingirem a mesma dimensão e cumprirem os meus serviços ambientais (despoluição, fixação de carbono, sombra, abrigo para pássaros ou outros animais)? Outra falácia: Segundo foi afirmado na comunicação social, e não desmentido, está previsto o abate de cerca de 600 árvores. No Plano, apresentado pela “Metro Mondego” à Assembleia Municipal, intitulado “Plano para o Reforço da Estrutura Arbórea”, está prevista a plantação de 1.326 árvores, sendo 151 em 2022; 575 em 2023 e 600 em 2024. Alguém me explica como é que 3 x 600 não são 1.800?»

    As razões da anestesia conimbricense e o modo sempre pacífico de a contrariar: o bystander effect!

    Perante a pobre contestação que se tem vindo a observar, a universidade socorre-se da Psicologia, não fosse Coimbra propagandeada como a cidade do conhecimento! No dia 19 de setembro, no site CoimbraCooletiva, e adivinhando já a desmotivação e abandono da contestação ao crime que se evidencia cada vez mais, a Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra coloca aos cidadãos as seguintes perguntas: «Por que é que as pessoas boas ficam paradas e não lutam a favor do que defendem? Como é que deixamos que se destrua património, como zonas verdes, lamentando e criticando mas não fazendo nada? A psicologia chama-lhe efeito do espectador e tem cura»; e ainda «o bystander effect é o fenómeno onde a difusão da responsabilidade («os outros fazem…») e o medo do risco envolvido (ficar mal visto, perder emprego, ser criticado, ser preso…) leva à inação por parte de pessoas que poderiam rectificar a situação». Qual é a cura, então? A resposta que vai levantar em peso a população conimbricense é esta: «É para contrariá-lo que o InterDito se junta hoje à Secção Experimental de Yoga da Associação Académica de Coimbra, ao Encontro da Paz e a quem na comunidade também estiver preocupado com o abate de árvores no centro da cidade numa manifestação pacífica, sob a forma da criação de cordão humano».
    É evidente que a cidade está perdida, as suas árvores estarão condenadas a morrer pelo crime de existirem e colidirem com interesses financeiros públicos, privados e de fundos europeus. No entanto, quer-nos parecer que a anestesia de uma franja muito significativa da população da cidade que vira literalmente as costas a este crime, ainda que com algumas lágrimas (de crocodilo?), tem um carácter local muito vincado. Fica por perceber como é que não houve providências cautelares contra o abate enquanto se apresentavam alternativas concretas, assim como mais apoios no país e mesmo na cidade, ganhando com isso tempo inestimável. Se este facto ocorresse em algumas outras cidades ou vilas portuguesas as coisas não seriam assim, e seria mesmo impensável numa qualquer cidade europeia. Mas, em Coimbra, é sempre possível a aventura do capitalismo verde!

     


    Texto de  António Luís Catarino | Imagens de António Barros