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  • Beyond Molotovs

    Beyond Molotovs

    «O autoritarismo pode ser desafiado e derrotado: esta é a lição mais importante deste livro. Em todo o mundo, inúmeras pessoas, coletivos e movimentos desenvolvem estratégias poderosas e criativas para se oporem às forças nacionalistas, racistas, classistas e anti-feministas. Grande parte destas estratégias vão muito para além de uma definição restrita de “defesa da democracia” ou de “resistência”. Não defendem o status quo catastrófico contra a extrema-direita, mas propõem formas diferentes, mais justas e mais democráticas de estarmos juntos. Estas estratégias e lutas transportam ideias, emoções e práticas que são as sementes de um outro mundo.» – escrevem Aurel Eschmann e Börries Nehe na introdução do manual que reúne mais de 50 relatos em primeira mão de movimentos antiautoritários, ativistas, artistas e académicos de todo o mundo, centrando-se na dimensão sensorial e emocional das suas estratégias. Os/as editores/as por detrás do International Research Group on Authoritarianism and Counter-Strategies e o kollektiv orangotango são: Aurel Eschmann, Börries Nehe, Nico Baumgarten, Paul Schweizer, Severin Halder, Ailynn Torres Santana, Inés Duràn Matute e Julieta Mira.

    A criação de coleções globais de práticas de ativismo já não é uma novidade na história do orangotango – coletivo de educação popular e protesto criativo. O livro This is not an Atlas, publicado em 2018, recolheu contra-cartografias de muitos lugares do mundo. Será por isso que o livro Beyond Molotovs começa com uma contra-cartografia que mostra as localizações dos contributos. Mas para que servem as coleções globais de estratégias? No meu entender oferecem um espaço para contar outras narrativas e arquivar as práticas, não necessariamente para escrever história, mas com uma lente mais focada no presente, para inspirar a ação coletiva “aqui e agora”, onde quer que seja. O índice do livro está organizado não só por ordem das entradas, mas também por categorias que representam diferentes estratégias: expor-acusar-recordar / subverter-desviar-atrapalhar / disruptar-retomar – transfigurar / explorar-transcender-desejar / sentir-transmitir-agregar / ligar-tecer-nutrir. Verbos que descrevem diferentes maneiras, às vezes pouco visíveis ou reconhecidas, de desafiar o poder.

    Um manual como este serve também como ponto de encontro: as revisões, apresentações e oficinas que nascem a propósito do livro podem criar espaços de convergência, partilha de ferramentas, reflexão conjunta, e fomentar novas alianças. Beyond Molotovs não é um livro para ler de uma vez; é mais um lugar de inspirações para visitar quando nos falta fôlego. O livro defende a importância do sensorial e emocional e isso reflete-se no seu formato: está cheio de imagens, com descrições simples que nos transportam a contextos desconhecidos ou a mundos imaginados. Apesar disso, não lhe falta análise, integrando textos que incitam à reflexão e demonstrando sempre a preocupação estética de os destacar entre capítulos.

    Seria um exercício bastante ingrato qualquer tentativa de resumir o conteúdo deste livro ou retirar grandes conclusões sobre as práticas que descreve. Beyond Molotovs é como se colocássemos óculos coloridos que afinam o nosso olhar para ver e celebrar a resistência em todos os lados. Algumas das estratégias que aparecem no livro são bem conhecidas em Portugal, como, por exemplo, a iniciativa Rua Marielle Franco. O livro Beyond Molotovs ensina-nos que tudo pode ser estratégia antiautoriária, se assim quisermos: o mapeamento descolonial da história de um país, desenhar e imaginar a resistência, uma banda sonora da revolta, uma bandeira de melancia, um jogo de tabuleiro antiautoritário ou apoiar os movimentos sociais através da produção de cerveja. Aprendemos, assim, que nada disto é banal, mas sim oportunidades para nos organizarmos e reconhecermos: somos muitas, somos criativas.

    Exemplo disso, é o partido «Cão de Duas Caudas» (MKKP), na Hungria, que sendo eu húngara não posso deixar de mencionar. É composto por um grupo de ativistas que ao longo do tempo se transformou num verdadeiro partido, conhecido por fazer intervenções satíricas nas ruas e nas redes sociais, sobretudo mediante memes cómicos, expondo dessa forma a sua visão para um mundo melhor, um mundo que abre espaço para a subversão e questionamento do poder político. Zombando do poder, conseguem expor as suas falhas e também rir de si próprios. As gargalhadas coletivas criam aliança e pertença. Prova disso é o partido MKKP, que se refere a si mesmo como «o único partido que faz sentido», já ter 4 vereadores em Budapeste.

    Além da inspiração que podem trazer, algumas práticas descritas neste livro, mais ou menos relevantes ou adaptáveis ao contexto português, podem inspirar-nos de outra maneira. Ajudam-nos a perceber que somos muitas e somos diversas, mas nessa diversidade antiessencialista podemos reconhecer-nos e unirmo-nos para nos convertermos na maioria. Em Lisboa com certeza não faltam lutas importantes contra o autoritarismo e o capitalismo que parecem devorar a nossa cidade. Talvez ainda nos seja difícil ver e reconhecer a capacidade de criar outros mundos possíveis aqui e agora e de aprender de formas criativas e afetivas. Em Lisboa e Portugal convivem muitos mundos, de onde surge uma pluralidade de estratégias de resistência. Será que podemos colocar os nossos óculos para vê-las melhor? Gostaria de pensar que o Jornal MAPA também é um manual de estratégias antiautoritárias e, portanto, um ponto de encontro e valorização dessas práticas.

    Mas daqui emerge um desafio: sem retirar importância aos espaços que conferem a sensação de aliança a quem luta por uma mudança, pergunto-me como é que alguém que nunca viveu algo parecido poderá aprender essas estratégias? Espero que o livro e as páginas deste jornal possam ser o começo de muitas conversas e fazeres coletivos em busca de tais respostas.


    Beyond Molotovs

    Beyond Molotovs – A visual handbook of anti-authoritarian strategies
    International Research Group on Authoritarianism and Counter-Strategies / kollektiv orangotango (org.) Editora: transcript, 2024 | Livro disponível em: https://bit.ly/4di1OwX


    Texto de  Kitti Baracsi
    Ilustração [em destaque] de  Moses März


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #43, Outubro|Dezembro 2024.

  • Livraria Aberta

    Livraria Aberta

    A Livraria Aberta é o mais recente espaço de venda do Jornal MAPA na cidade do Porto. Obra do casal Paulo Brás e Ricardo Braun, situa-se nos números 297 e 299 da Rua do Paraíso e funciona de segunda a sábado, entre as 10h00 e as 13h30 e entre as 14h30 e as 19h00. Afirma-se uma livraria queer e não se limita a vender livros, zines e o Jornal MAPA: desde 2021, quando abriu, a Livraria Aberta acolhe sessões à volta de livros e de outras artes que se deixam contaminar pela literatura.

    Tendo em conta o ano em que as portas da livraria se descerraram, o nome «Aberta» é uma vingança contra a Covid-19, um grito de raiva contra eventuais atrasos, um «contra tudo e contra todos» ou uma declaração de princípios?

    A ideia nasceu, de facto, durante o primeiro confinamento, na primavera de 2020, quando nos vimos em casa, ainda que a trabalhar, sem grande ideia do que teríamos à nossa espera quando voltássemos. No segundo confinamento, no inverno de 2021, já tínhamos tudo pensado e só tivemos de esperar para poder abrir a empresa, alugar o espaço e começar a trabalhar. Decidimos abrir a 28 de junho, o dia da revolta de Stonewall, em 1969, e abrimos assumidamente em construção, sem festa, com as estantes meio vazias e sem conhecermos uma única das pessoas que hoje ocupam a casa como clientes e amigos.

    O nome «Aberta» pode ser lido como entenderem, mas partiu da nossa vontade de criar um catálogo verdadeiramente inclusivo. O nome diz ao que vimos. De todas essas opções, por isso, parece-nos uma declaração de princípios.

    A Livraria Aberta, apesar de presente em algumas redes sociais, ainda não tem sequer um site em funcionamento. Percebe-se algum distanciamento em relação ao mundo não palpável da vida electrónica. A prioridade é toda dada, claro, ao livro enquanto objecto físico. Acham importante não se desistir do papel? O livro é mesmo fundamental na era dos e-books?

    Apesar de termos pensado em criar um site desde o primeiro dia, não o fizemos ainda, dois anos e meio depois, porque tudo o que criamos tem de servir o trabalho da livraria, tem de nos apoiar, e ainda não descobrimos uma forma de ter uma loja virtual que nos satisfaça. Fazem-nos na mesma encomendas à distância, através das redes sociais e do email, por isso até hoje não sentimos que a nossa menor presença online nos prejudique, muito pelo contrário. De resto, temos até vindo a reduzir essa presença. Em vez de fazer mais, de ter mais redes e mais botões para clicar, temos tentado fazer melhor e, acima de tudo, à nossa maneira. Pensámos em estratégias para que a conversa possa ser o mais profunda possível com quem a quiser ter. O facto de termos uma newsletter semanal, que nem serve propriamente para falar das novidades literárias, serve-nos melhor do que termos uma montra digital. Nelas falamos de livros, de filmes e dos temas em que andamos a pensar semanalmente, muitas vezes fruto dos eventos que acontecem na livraria.

    Porque também sabemos como é difícil fazer investigação em Portugal, partilhamos sempre com os nossos amigos as versões digitais dos livros e artigos que já não é possível arranjar. Não estamos aqui a falar de uma economia que já existe, mas de uma forma de suprir lacunas importantes. Por isso, a relação da livraria com esta geração de pessoas que andam a fazer investigação, esta partilha do que se pode e do que já não se pode vender, vê-se já em algumas teses de mestrado e doutoramento defendidas no último ano e meio. As editoras portuguesas ainda não apostaram nos formatos eletrónicos como o fazem outros países, e por isso, felizmente para a livraria, para a grande maioria dos livros que vendemos não há como fugir do papel.

    O que é uma livraria queer? Que espaço não ainda ocupado por outras livrarias vem a Livraria Aberta ocupar?

    Para nós, em 2021, o termo «queer» fazia mais sentido para o que queríamos: porque é estranho, porque é ambíguo e, consequentemente, mais lato. No norte global, há livrarias como a nossa, no mínimo, desde 1967. Claro que as palavras vão mudando, e já houve quem comunicasse o seu espaço como sendo uma livraria gay ou LGBT, sobretudo nas últimas décadas do século XX. Esses espaços faziam o que o nosso também faz, eram lugares seguros para quem lê e davam destaque a determinados livros, mas cumpriam outras funções que a internet veio, em grande parte, substituir. E, na verdade, para muita gente, a nossa livraria não parece sequer uma livraria. Perguntaram-nos muitas vezes se éramos um projeto temporário, porque não temos a quantidade de livros que outras livrarias têm.

    Na prática, quem nos procura, ou nos encontra ao acaso, vai encontrar um catálogo interseccional de autoria ou representação LGBTQIAP+ e racializada, teoria feminista, estudos de género, e histórias de discriminação e resistência. Temos ainda uma grande área cinzenta, feita daqueles livros que permitem ou pedem uma leitura queer, independentemente das intenções de quem os escreveu. Não nos interessa definir ou fechar conceitos e, por isso, organizamos os livros por ordem alfabética de autoria e nunca por tema ou género literário. Temos ainda uma pequena secção infantil e juvenil, com livros que servem para que as crianças e os adultos possam começar a falar destas questões.

    É importante salientar ainda que, apesar de sermos a primeira livraria queer a existir no Porto, somos a segunda em Portugal, depois de Jó Bernardo ter gerido a Esquina Cor-de-Rosa, em Lisboa, de setembro de 1999 a fevereiro de 2005.

    Quando se criam projectos deste tipo, há sempre objectivos, expectativas, caminhos que se esperam percorrer em direcção a qualquer coisa. Que balanço fazem destes dois anos e meio de abertura?

    Enquanto negócio sustentável, por um lado, e enquanto projeto que conseguiu marcar o seu espaço do ponto de vista estético e curatorial, por outro, a livraria tem-se provado a si mesma e não precisa da nossa defesa. Claro que é difícil explicar como é importante que exista uma livraria queer. As pessoas não podem sentir falta de algo que nunca tiveram, e a maior parte do nosso público não chegou a conhecer a Esquina Cor-de-Rosa. Além disso, há ainda a nossa forma de termos uma livraria temática. Outras pessoas fariam algo completamente diferente e que seria igualmente válido. A livraria podia ser mais virada para o público turista, ter mais coisas à venda para além dos livros, estar menos envolvida com as associações ativistas e os espaços comunitários da cidade. Mas esta é a livraria que escolhemos abrir.

    Por isso, o nosso balanço nesta fase só pode ser positivo, a vários níveis. Criámo-lo do zero e temos o privilégio de poder dar ao negócio tempo para vê-lo crescer, o que obrigou a sacrifícios da nossa parte, evidentemente. E não podíamos tê-lo feito sem as pessoas que têm decidido ajudar-nos a construir a casa, as pessoas que estão presentes, que participam das nossas conversas, que nos sugerem livros e que partilham connosco o bom e o mau das suas vidas.

    Se alguém chegar à Livraria aberta e pedir para ler o MAPA, o que lhe aconselhariam, assim à laia de menu, para acompanhar essa leitura?

    Os ensaios de Ailton Krenak (tanto as edições brasileiras como o único título publicado em Portugal, A vida não é útil: ideias para salvar a humanidade, ed. Objetiva) ou Bichxs de merda: Aristóteles, fêmeas e outros monstros de-generativos de P. Feijó (ed. maio maio); as antologias de poesia Queer Nature (ed. Autumn House) ou We Want It All: An Anthology of Radical Trans Poetics (ed. Nightboat Books); os romances A charca de Manuel Bivar (ed. Língua morta) ou As malditas de Camila Sosa Villada (ed. BCF, tradução de Helena Pitta). Aconselharíamos ainda qualquer concerto, exposição, publicação ou performance a que consigam deitar a mão da Odete ou do coletivo The Cursed Assembly.

     


    Versão alargada da entrevista publicada no JornalMapa, edição #40, Janeiro|Março 2024.

  • À conversa com a descrença, sobre deus e o estado

    À conversa com a descrença, sobre deus e o estado

    Veremos aparecer nos próximos meses uma nova edição de “Deus e o Estado”, texto escrito em 1871 pelo anarquista e filósofo russo Mikhail Bakunin (1814-1876), que será também a estreia da editora Descrença. Conversámos com os editores, Ricardo e António, acerca de Bakunin, da religião, da sua relação umbilical com o poder do Estado, dos abusos sexuais na Igreja e da autoridade da ciência.

    Em relação à anterior publicação em língua portuguesa de “Deus e o Estado”, o que traz esta edição de novo?
    R – O que nós conhecemos como “Deus e o Estado” é apenas um extracto de umas primeiras cartas que foram editadas ainda em pleno século XIX, inclusive numa edição portuguesa reduzida de 1895 (“O sentido em que somos anarquistas”). Na altura não se conhecia a totalidade da obra de Bakunin, existiam uma série de cartas que estavam perdidas e que só foram recuperadas e editadas no início do século XX, por Max Netlau. Há uma edição traduzida para português pela Assírio e Alvim, de 1976, a partir de uma edição francesa incompleta e com uma diferente organização de conteúdos. Esta nossa edição inclui agora outros dois documentos: “O Império Knuto-Germânico e a Revolução Social” e “O Princípio Divino”. Este conjunto nunca foi editado na sua versão integral em português. Mas são tudo cartas. Bakunin só editou um livro: “Estatismo e Anarquia”. Tudo o resto são cartas.
    A – Cartas às vezes não acabadas. Numa parte deste livro, há uma carta que não acaba.
    R – E há partes nas cartas que estão ilegíveis. E outras que nunca se encontraram, que estão perdidas.

    O Estado é, como diz Bakunin, o filho da religião.

    Para quem escreve Bakunin?
    R – Ele tem muitos correspondentes. Estamos a falar de uma correspondência que ele mantém com amigos, com sociedades e alianças operárias.
    A – São sociedades secretas.
    R – São, no fundo, os começos da AIT (Associação Internacional dos Trabalhadores), da primeira Internacional. Escreve para congressos operários, para outros companheiros. E depois ele não parou no mesmo sítio. Ele foi exilado, esteve na prisão desterrado na Sibéria, escapou, foi até ao Japão, esteve em Nova Iorque, esteve em Londres, esteve em Itália, em França…
    A – E na Itália, há uma carta que ele escreve «aos companheiros de Itália» contra o Mazzini – o Mazzini era republicano e queria também matar o rei, mas tinha um pensamento religioso, era um defensor de Deus de alguma maneira.
    R – Ele entra num diálogo também a dada altura acerca de Proudhon – e sabe-se da diferença entre o pensamento de Proudhon e o pensamento de Bakunin – em que ele diz que o Proudhon, filosoficamente, é como um artesão, tem um pensamento um pouco limitado em relação à dimensão do anarquismo. Enquanto em Bakunin é uma coisa muito ampla, ele tem uma ideia muito concreta de que como isto se pode montar.
    A – Também porque as ideias de Proudhon eram mais teóricas… Enquanto que, com Bakunin, começam a transformar-se em acção. Há revoltas em toda a Europa e ele quer levar a revolta a todos os países.
    R – E onde ele participa. Nas revoltas de 1848 contra as monarquias europeias, ele participa nas insurreições. Esteve nas barricadas. Essa é uma crítica feita ao Marx: que nas revoltas era o primeiro a sair. Enquanto isto, Bakunin está lá nas barricadas e é preso. Em 1849 lutou com o Richard Wagner em Dresden, por exemplo, e até dizem que na ópera de Wagner, “O Anel do Nibelungo”, existe um personagem baseado em Bakunin (Siefried).

     

    Religieuse

    Proudhon também era mais conservador, por exemplo em relação às mulheres. Defendia que elas deviam ficar em casa. Bakunin teve uma posição muito mais libertadora. Essa posição aparece em “Deus e o Estado”?
    R – Acho que não directamente. Mas quando ele fala em emancipação, é total. Não é apenas para os homens. Mas não há uma direcção nesse sentido, como o que vemos depois com a Emma Goldman. Falo nela porque ela é uma das militantes anarquistas que segue o pensamento de Bakunin, principalmente no que é o ateísmo anarquista. No “Mother Earth” ela publica incessamentente as cartas de Bakunin. Mas, na altura, já o Most, o Johann Most falava na «peste religiosa», um texto básico anti-religioso.
    A – … E a filha de Bakunin, que ficou em Nápoles – porque o Bakunin esteve lá um tempo, ele pensava que o povo italiano era um povo revolucionário e tentou também organizar uma revolta em Bolonha que falhou… e muita gente diz que ele foi obrigado a escapar vestido de padre, não sei se é verdade – mas, voltando atrás, a filha do Bakunin era cientista, o que no final do século XIX não era comum. Portanto acho que a sua emancipação terá tido alguma influência do pai.
    R – E diz-se que ele era apaixonado pela irmã. Essa questão da influência feminina na vida dele é muito forte.

    Voltando ao livro, ele fala mais sobre o pensamento religioso do que sobre o Estado?
    R – Como são cartas, ele fala de muita coisa. Não é um livro com um pensamento estruturado. Ele fala também sobre a ciência, sobre a dicotomia idealistas/materialistas, e de muitas tangentes que estão relacionadas com a própria época, com os poderes instituídos da segunda metade do século XIX, da existência de impérios, do início de algumas revoltas, do grande poder tripartido – militar, estatal e religioso – que estava então muito fincado. As burguesias industriais estão no início, a revolução industrial está no início…
    A – Há sociedades que não começaram ainda a revolução industrial, como a Rússia, por exemplo.
    R –Mas os princípios que ele aborda nas cartas, principalmente no que são as divergências com o marxismo, são transversais na obra total dele. Ele faz uma série de previsões: ele prevê o Estalinismo. De como um grupo autoritário dentro da revolução se irá intitular a vanguarda da revolução, tomar o poder e criar modelos autoritários que depois irão explorar o povo.
    A – Faz a previsão de um Estado socialista. E fala muito sobre personagens da bíblia.
    R – É uma coisa muito abrangente. E fala também do poder da academia… Esta é uma coisa interessante. A autoridade é exercida de várias formas. Há a autoridade do Estado perante o povo; a autoridade que é dada aos militares para proteger os interesses do Estado contra o povo, e a autoridade da Igreja exercida para rebaixar e manter o povo na ignorância. Mas ele fala também de um outro aspecto, que é o da autoridade dos técnicos e dos cientistas. Uma coisa que se nota naquela época é o aparecimento da descrença religiosa nos círculos científicos, a subida do darwinismo e da teoria da evolução que entra em conflito com os dogmas criacionistas da Igreja. Sabemos que os cientistas não são isentos da sua existência social. Qual é o papel dos intelectuais nisto? Primeiro, ele não faz distinção – o papel dos intelectuais, dos operários ou do povo é um só. É a rejeição total da autoridade. E isso quer dizer que a ciência se quer manter neutra. Mas não só neutra com relação ao que é o seu exercício de autoridade sobre terceiros, mas também perante o poder instituído. Não pode exercer o seu saber para criar e manter posições de poder. Ele tem um diálogo mais ou menos caricato, como quando diz algo como: não quer dizer que eu não aceite a autoridade do sapateiro para fazer os meus sapatos. Eu vou-lhe perguntar como podem ser feitos os sapatos, mas eu detenho em mim a escolha de como é que eu os quero. O saber não se pode tornar um dogma. Hoje é complexo porque a ciência depende dos impostos do Estado ou dos fundos de corporações. Aí existem já grandes problemas. Porque não se pode falar contra os patrocinadores, acaba-se por exercer uma força a favor dos patrocinadores. Isto nota-se no que se passou durante a pandemia. Houve muita coisa durante a pandemia que foi completamente questionável, não só do ponto de vista da falta de escolha, como da imposição que não era baseada em factos concretos. Como quando se começou a falar da vacinação das crianças com zero evidências. E aqui há um abuso da autoridade da ciência. É disto que o Bakunin fala: eu posso ouvir… Mas a escolha é minha.
    A – Por outro lado, ele também fala da ciência como um momento importante para libertar as pessoas da superstição, porque a ciência poderia libertar o povo da ignorância e da escuridão.
    R – Ele sentia que os intelectuais tinham a responsabilidade de iluminar o povo, de educar, rejeitando o poder. É esse o grande conflito com os marxistas. A ciência deve despir-se de autoridade para entregar o saber a quem não o tem. E deve indicar que a religião está dentro do que é surreal. E nós vivemos num mundo palpável, num mundo de substâncias. A religião quer estar sempre entre um lugar e o outro, fazendo com que o surreal domine sobre o mundo material. E nós não aceitamos isto porque não tem lógica. Hoje em dia existe muita literatura ateia dentro do modelo clássico republicano, o que não acontecia há 100 anos atrás.
    A – Havia o modelo republicano francês, que rejeita a religião e se ocupa de coisas materiais. Faz a divisão entre Igreja e Estado, mas é o Estado que se transforma em Deus.
    R – Uma das críticas que ele faz é que isto é um factor cultural, porque se nasceres em Portugal estás embebido numa cultura católica, mas se nasceres no Iémen estás embebido numa cultura islâmica.

    Em Almada, nos últimos anos, num raio de 2 quilómetros apareceram cerca de 20 Igrejas evangélicas. Estas pessoas são muito militantes, são católicos com asteróides.

    E havendo guerras religiosas, a busca de poder político torna-se evidente.
    A – Ainda há, guerra em nome de Deus.
    R – Aqui na Europa, a religião católica (e também a protestante) sempre se colocou ao lado dos fascistas, o que é muito revelador do ponto de vista social e político. E quando vês os fascismos que transitaram para a América Latina, vês que duplicaram o mesmo modelo. As ditaduras militares foram suportadas também pela religião.
    A – O Vaticano ajudava os nazis a escapar para países como a Argentina.
    R – Uma das coisas que os religiosos dizem é que Hitler era um ateu. É mentira. Havia uma concordata com o Estado hitleriano… E o aniversário do Hitler foi celebrado do púlpito pelo Vaticano. O exército SS tinha insígnias católicas. Basicamente, não há qualquer Estado autoritário na Europa que não tenha tido laços profundos, quer com a Igreja católica, quer com a religião.
    A – Como no exemplo clássico da revolução Francesa, os Estados que recusaram a religião queriam a razão como a Deusa, o Estado com os seus rituais, as suas festas laicas… Não há um Deus, mas não podes ir contra o Estado. É um Deus que não está no céu, está na terra, é mais material, mas há sempre condenação, se não é o inferno, é a prisão.

    Religieuse

     

    É como um tipo de comportamento religioso que existe separado da religião enquanto instituição?
    R – E alicerçado na própria religião. Transportado dos mesmos princípios, para depois criar as premissas do Estado. Não reconhece a autoridade de Deus mas reconhece a autoridade do Estado. Não temos o tribunal da inquisição, mas temos os nossos tribunais de justiça. Não pecaste contra Deus, mas pecaste contra as leis do Estado e vais preso.

    E se olharmos para a religião como um fenómeno cultural, significa que está mesmo em todo o lado.
    R – Porque é benéfico. O Estado percebe a função que a religião desempenha em manter as populações ignorantes. E precisa disso. E isso é muito claro na forma como funcionou o Estado Novo. Nos 16 anos que durou a primeira república, o projecto republicano sempre foi de educar e de alfabetizar. Esse projecto parou com o Estado Novo. E um dos alicerces foi exactamente a Igreja. Não é necessário que as pessoas saibam; é necessário que as pessoas saibam o mínimo para começarem a trabalhar e para se manterem o mais ignorantes possível. Um monocultivo do saber, partilhado pelo Estado Novo e alicerçado na Igreja católica. Um só Deus.
    A – Nunca tens que ter outros deuses além de mim. É o primeiro mandamento, pelo menos na tradição dos monoteísmos.

    A reacção do Estado português aos abusos sexuais dos padres, para não falar nas Jornadas da Juventude… revela essa resiliência do catolicismo no Estado?
    R – Isto é muito suis generis do tipo de sociedade que existe em Portugal. Há duas concordatas entre Portugal e a Igreja, a primeira de 1940 e a segunda de 2004. Não existem muitas diferenças entre uma e outra, as únicas diferenças são constitucionais. E o que existe ali é uma total abdicação dos princípios do Estado, principalmente da sua laicicidade. Há uma promiscuidade incrível no que são os assuntos de justiça, de propriedade, de fiscalização… Tudo isso em prol do funcionamento da Igreja. No caso dos abusos sexuais – que é um fenómeno social estranho, mas que não é de agora nem apenas da Igreja – eles sempre existiram no seio da Igreja…

    E os padres serem julgados por um sistema judicial paralelo ao estatal, gerido por padres, é bizarro.
    A – A Igreja Católica é um Estado dentro do Estado, é uma multinacional dentro do Estado, com protecção. Sem fiscalização. Tem muitas propriedades, tem escolas… na Itália, houve muita polémica porque as estruturas da Igreja não pagam imposto sobre a propriedade.
    R – Como em Portugal. Em relação aos dinheiros, duvido que haja noção da quantidade de dinheiro que é transferido para a Igreja – peditórios, festas religiosas, donativos – porque a própria concordata indica que não pode haver fiscalização sobre esses dinheiros. E não são só elementos anti-clericais que dizem que a concordata é competamente absurda do ponto de vista de uma república laica. Isto é uma coisa dita, por exemplo, por membros do Partido Socialista. Não é a «extrema-esquerda» (risos), é o mainstream político.

    Não há uma defesa dos princípios do Estado, nem pelo próprio Estado.

    E a população portuguesa ainda é profundamente católica?
    R – Há o reconhecimento de que a Igreja é um motor de «bem comum», sobretudo nas populações sobre as quais a Igreja mais exerce influência. Como houve – numa terriola qualquer que já não lembro o nome – quando o padre foi acusado de abusos sexuais e a população saiu em auxílio do padre. A outra questão é que não me parece que os órgãos do Estado tenham dado uma moção de confiança ao relatório. Nem sinalizaram a criminalidade ali descrita, nem a necessidade de se transitar estes casos para o civil para serem julgados. Apesar de a comissão ter encaminhado os casos que não prescreveram, o Estado não expressou a nível social essa confiança. Não há uma defesa dos princípios do Estado laico. Sobre o relatório… é apenas a ponta do iceberg. É horrível, não sei se já leste. Não é muito comprido, e a parte final são apenas relatos em primeira mão. E é inacreditável.
    A – Acho que isto tem a ver com a repressão sexual dentro da religião, pelo menos das monoteístas. A repressão das mulheres, que só são aptas para reprodução, e a repressão dos padres que estão obrigados ao celibato. Há uma profunda repressão sexual – não podes cometer actos impuros, nem desejar a mulher dos outros… há pelo menos 2 mandamentos que falam directamente sobre repressão sexual. São 20% dos mandamentos.

    Com o catolicismo, o desvio é para ser silenciado. Tipo «entre marido e mulher não se mete a colher». Mas não haverá também gente silenciada que está refém desse poder – económico, psicológico… – que a Igreja tem, sobretudo em meios pequenos?
    A – São 1500 anos de segredos.
    R – É um trauma social. Todas as religiões perpetuam o trauma social. E quem tem fé, quem é crente e militante, não descansa enquanto tu não pertenceres à claque. O trabalho é de missão e é de monocultivo mental. Todas as pessoas têm de pertencer à mesma claque. É o fim último. E quando há domínio mental, há domínio prático.
    A – Por isso é que os hereges foram queimados, e os filósofos, porque pensavam e escreviam, levavam o caos contra a Igreja. Pelo que a Igreja não querer pessoas livres.
    R – E é exactamente disso que Bakunin fala. Nós somos a favor do questionamento. Queremos pessoas pensantes. E o Estado, os militares e a religião não só são contrários a isto, como combatem isto diariamente. É por isso que estamos de lados diferentes da barricada.
    Embora ele reconheça o papel libertador da ciência, acontece que a ciência também leva a esse pensamento monolítico. Hoje as pessoas podem até ter uma educação pró-ciência, mas do que ele fala, e do que nós falamos, é de emancipação. Estes poderes ajudam a manter as pessoas como crianças, atreladas. E o funcionamento do Estado Social é exactamente assim. Perpetua essa ideia de que as pessoas não se conseguem governar a elas próprias, são crianças selvagens, e se não houvesse Estado, matavam-se e comiam-se umas às outras.
    A – É a ideia do Hobbes e do Estado Leviatã, que é uma figura bíblica, o Leviatã.
    R – O Estado é, como diz Bakunin, o filho da religião. A religião é a primeira tentativa de emancipação, de explicação dos fenómenos naturais, do mundo, da criação. Depois disso, existe uma sistematização de certas observações e a criação de hipóteses e teorias que se tornaram em ciências. E com isso há uma nova emancipação, onde a religião embate.

    Pois, mesmo quando desistimos de uma certa história do mundo, estamos a substituí-la por outra. Há sempre novas religiosidades a aparecer, não é?
    R – Em Portugal as Igrejas estavam mais ou menos vazias, faltavam padres, não havia vocação, os seminários meio vazios… Grande parte das pessoas pensa-se como um «católico não praticante». Há um divórcio natural que surge desta emancipação, a Igreja fica vazia e o edifício bonito passa a ter uma história por trás. Pensava-se que a evolução natural da sociedade conduziria a isto. Mas existem outras forças aqui pelo meio. Essas forças estão dentro da política, da economia, elas coexistem, digamos assim, com o espírito do corporativismo. Surgem novas forças muito militantes – não admira que o Chega esteja muito interessado nos evangélicos, por exemplo. Há um crescimento enorme das igrejas evangélicas em Portugal. Em Almada, nos últimos anos, num raio de 2 quilómetros apareceram cerca de 20 Igrejas evangélicas. Estas pessoas são muito militantes, são católicos em esteróides. É uma força quase talibã.
    A – Os talibãs surgiram como uma resposta à Uniao Soviética, e estas são também respostas à ciência e tecnologia, que também têm um papel totalitário.
    R – Isto a que estávamos habituados, ao jesuíta culto, ao padre culto…
    A – Que estudam muitos anos…
    R – Os evangélicos não têm nada a ver com isso.
    A – Inculto no culto.
    R – Os aspectos teológicos não são nada bem desenvolvidos. Continuam a defender o criacionismo e os princípios da direita fascistóide autoritária. E são proletários. São pessoas do povo. É um fenómeno popular, que nasce em locais despidos de vida comunitária organizada e de auxílio estatal.
    A – As ligações comunitárias não resistem como antes, e dessa forma estes cultos, evangélicos ou jeovás, usam a psicologia.
    R – E a auto-ajuda.
    A – Há sempre uma exploração da fragilidade, da solidão das pessoas, da pobreza, da miséria. Há um papel psicológico na ideia de criar uma grande família para que não te sintas sozinho. Para estares protegido e menos atomizado. Entram nesse vazio que existe.

    Há sempre condenação, se não é o inferno, é a prisão.

    O Estado é também um projecto de «sociedade» desse género, que consegue com sucesso manter gente na miséria.
    A – O Estado não cumpre com o Estado Social e as diferentes religiões fazem esse apoio aos pobres.
    R – É o papel «positivo» da caridade. Mas é também a manutenção de uma moralidade obrigatória, de um código de conduta. Uma coisa interessante na religião cristã é a luta entre o substancial e o imaterial, onde este mundo não é válido. Este mundo é o sofrimento, e o que nos cabe é sofrer para no próximo sermos felizes.

    Submetam-se, rezem e trabalhem.
    A – Que logo se vê…

     


    Texto de  L. Silva


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #38, Junho|Setembro 2023.

  • A Civilização posta a descoberto

    A Civilização posta a descoberto

    Em conversa com Júlio Henriques

    Contra o Leviatã, Contra a Sua História, de Fredy Perlman, traça a longa história da Civilização e de como o processo civilizador destruiu as comunidades que haviam constituído a humanidade até ao advento das formas estatais.

    Coube ao clássico livro de Fredy Perlman as honras da primeira edição dos Livros Flauta de Luz (distribuição da Antígona). Falámos com Júlio Henriques, o tradutor e escritor que edita anualmente a revista Flauta de Luz a partir dum recanto campestre entre Portalegre e Castelo de Vide. A edição foi feita em cumplicidade com Pedro Morais, o tradutor da mesma e que já antes havia traduzido de Perlman A reprodução da vida quotidiana e outros escritos (Textos Subterrâneos, 2015).

    Para Júlio Henriques a escolha de Contra o Leviatã, Contra a Sua História resulta deste «corresponder a uma síntese da orientação geral da revista: uma visão crítica da História a partir da existência, na história humana, de comunidades não hierárquicas, consubstanciando, simultaneamente, a crítica do Estado (ou Leviatã) como instituição organizativa do todo social e como narrativa canónica censória daquilo que não são relações estatais.»

    Fredy Perlman (1934-1985) radicado desde muito jovem nos Estados Unidos «é uma figura muito inspiradora». «Dissidente da universidade estado-unidense, levou a cabo, apesar da sua morte prematura aos 50 anos, um trabalho de grande fôlego na renovação do pensamento anarquista. De origem judaica, fugiu com os pais do seu país natal antes da invasão nazi da Checoslováquia. Teve desde criança uma vida atribulada, mas que lhe alargou horizontes. Exilados primeiramente na Bolívia, Fredy teve ali como segunda língua “materna” o espanhol e um primeiro conhecimento in loco das realidades indígenas americanas (o povo quíchua), que nele exercerão um impacto duradouro. Mudando-se depois para os Estados Unidos com os pais, aos onze anos, adquiriu ali uma terceira língua “materna”, implicando-se a breve trecho, como estudante, na acção política, em plena “caça às bruxas” movida pelo histérico nacionalismo estado-unidense contra a oposição de esquerda.»

    Having little, being much (Ter pouco, ser muito)

    «Fredy Perlman congrega na sua pessoa uma inspiração anarquista de ampla paleta: europeia, pela sua origem e pelas experiências que teve em Itália, em França (no Maio de 68) ou na Jugoslávia da “autogestão”; norte-americana, pelo anticolonialismo, baseado na apreensão das culturas ameríndias como a cultura clássica estado-unidense, pelo anti-industrialismo, assente numa visão radicalmente contestatária do capitalismo mais avançado e mais profundamente destruidor, e também pelas influências directas de anarquistas exilados nos Estados Unidos, nomeadamente espanhóis e italianos. Nessas múltiplas confluências da contestação, a sua vida foi exemplo de uma obstinada coerência, resumível no que poderia ser considerado o seu lema: Having little, being much (Ter pouco, ser muito)».

    De acordo com Júlio Henriques «a actualidade de Contra o Leviatã, Contra a Sua História parece ser total, no sentido em que a visão crítica do autor adquiriu entretanto, desde a primeira publicação deste livro em 1983, uma maior abrangência. A noção que ele formula do capitalismo como doença, em parte inspirada numa visão ameríndia resultante do contacto com os invasores europeus, tornou-se entretanto mais presente e tem uma maior amplitude, dado que a patologização da vida quotidiana abarca aspectos cada vez mais amplos da existência humana (trabalho, vida familiar, práticas religiosas, lazeres, tempos livres, imaginários, criatividades). Neste livro, resultado de um estudo extenso que incluiu arqueologia, a primeira instância é o lugar ocupado pela História. A História que nos é transmitida desde o berço é a da superioridade dos impérios; e só esta é canónica, só esta pode estar presente. Disto resulta o notório imaginário de superioridade do que se convencionou chamar Civilização, com maiúscula, que na verdade se reduz, prosaicamente, à civilização capitalista, esta que nos obriga a interiorizar a mercadoria como única relação possível e realista, e, por conseguinte, a considerar legítima a existência de todas as relações como relações mercantis. Fredy Perlman traça a longa história da Civilização como a constituição do Estado e de todas as brutalidades e devastações que lhe são inerentes, das mais explícitas às mais recônditas e íntimas, pondo assim a nu as qualidades do chamado processo civilizador e os modos como este processo, para avançar, destruiu as comunidades que haviam constituído a humanidade até ao advento das formas estatais. A visão de Fredy Perlman revela assim em contraponto, pela sua exposição da História Dele (His-Story, ou seja, do Leviatã, do Estado, mas também do Patriarcado), aquilo que se tornou urgente e fundamental pensar nos nossos dias: a emergência de instituições não estatais, comunitárias, de dimensão humana, tendentes ao autogoverno, capazes de pôr em causa o tamanho incontrolavelmente faraónico das instituições vigentes e a concomitante alienação que as relações impostas pelo capital reproduzem».

     

     

     

     

     

     

     

    Contra o Leviatã, Contra a Sua História
    Fredy Perlman
    Livros Flauta de Luz, 2021
    352 páginas

     


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #32, Outubro|Dezembro 2021.

  • A praga do planeta Terra

    A praga do planeta Terra

    A Vida Não é Útil é o primeiro livro de Ailton Krenak publicado em Portugal. É um acontecimento a assinalar. Divide-se em quatro partes, eloquentíssimas: «Ninguém come dinheiro», «Sonhos para adiar o fim do mundo», «A máquina de fazer coisas» e «O amanhã não está à venda».

    O título mostra desde logo que esta voz vem de uma dimensão outra, de culturas ancestrais que no Brasil – e noutros lugares do mundo – prosseguem a luta pela afirmação da vida, iniciada contra a sua destruição há mais de quinhentos anos. A existência humana e dos restantes seres foi reduzida a meras utilidades pela cultura que, desde a conquista das Américas, se impôs, em particular, graças à guerra bacteriológica «espontânea» e organizada que desencadeou junto dos povos ameríndios, causando pandemias que levaram ao seu holocausto. Ailton cita uma comunicação do guia lakota Wakya Un Mani (Vernon Foster) a propósito da crise pandémica, em que este declara: «Para nós, indígenas, isto é uma repetição da história. A única diferença é que desta vez não estamos sozinhos.»

    Ailton Krenak.

    Há nas palavras de Ailton Krenak uma sabedoria que vem de um extenso passado de sofrimento causado pelo contacto com a civilização do homem branco. Partes dessa sabedoria foram captadas ao longo dos séculos por alguns brancos dissidentes, como Jean de Léry, autor de Viagem à Terra do Brasil (1578), livro onde registou um célebre diálogo com um índio tupinambá, no qual este lhe diz, surpreso pelas longas viagens e canseiras a que os brancos se entregavam só para acumular riquezas: «Não será a terra que vos nutriu suficiente também para alimentar os vossos filhos?»

    Logo de início, Ailton sublinha: «Quando falo de Humanidade, não falo apenas do Homo sapiens. Refiro-me a uma imensidão de seres que excluímos desde sempre: caçamos baleias, cortamos barbatanas de tubarão, matamos leões e penduramo-los na parede para mostrar que somos mais bravos do que eles. Além da matança de todos os outros humanos que julgámos nada terem, que existiam só para nos suprir com roupa, comida, abrigo. Somos a praga do planeta, uma espécie de amiba gigante.»

    As questões são expostas perspectivando um mundo holístico, que necessariamente (em prol da vida da Terra e na Terra) tem de opor-se à hierarquização despótica assente no deus Economia, que coisifica tudo, que converte tudo em coisa útil, incluindo a humanidade reduzida a recursos, a material descartável.

    «Poderíamos colocar todos os dirigentes do Banco Central num cofre gigante e deixá-los lá, a viver com a economia deles.» E a respeito da incessante destruição do planeta: «Acredito que esta ilusão de uma casta de humanóides que detém o segredo do Santo Graal, que se entope em riqueza enquanto aterroriza o resto do mundo, pode acabar por implodir.» Lembrando os bilionários que estão a construir uma plataforma fora da Terra, «para irem viver, sei lá, em Marte», propõe: «Deveríamos todos dizer: “Vão depressa e deixem-nos aqui!” Deveríamos dar-lhes um livre-passe, aos donos da Tesla e da Amazon.»

    Este livro, tal como Ideias para Adiar o Fim do Mundo (2019), é uma bela dádiva para a meditação política que urge impor-se-nos. Um elevadíssimo acto de pensamento para ler em silêncio ou em voz alta.

     

    A Vida Não é Útil – Ideias para Salvar a Humanidade,
    pesquisa e organização de Rita Carelli,
    Objectiva | Penguin Random House, Lisboa, 2020, 104 pp.

     


    Recensão por  Júlio Henriques

  • Transumano Mon Amour. Volume II

    Transumano Mon Amour. Volume II

    Em 2020 Andrea Mazzola publicou Transumano Mon Amour – Notas sobre o Movimento H+ reunindo textos inéditos e outros publicados no Jornal MAPA. Neste início de 2022 Mazzola prossegue agora num segundo volume de Transumano Mon Amour, uma vez mais ilustrado por Tidi, a história do movimento transumanista (H+) e a sua configuração contemporânea. 

    …/ Com novos meios «personalizados» de manipulação de massas, como se ao progresso da inteligência artificial correspondesse um proporcional desenvolvimento da estupidez humana, às formas tradicionais de propaganda acrescenta-se o universo das redes sociodigitais, a Propaganda 2.0. Neste tipo de circunstâncias, também podemos destacar o aniquilamento tipicamente H+ das pessoas, convertidas em artefactos, e a desumanização da existência humana, desanimada pelo uso político da tecnociência, que de modo desolador tem transformado a vida num objecto técnico. Tanto os meios quanto os fins são partilhados dos dois lados do Atlântico, e talvez sejam uma bagagem ideológica comum aos dirigentes de todas as nações. O cibertotalitarismo iminente — o golpe de Estado infomilitar —, com a sua atmosfera saturada de um fanatismo caça-heréticos, segundo o modelo institucionalizado pelo tribunal da Inquisição, fala todas as línguas, tem todos os tons de pele e fascina todas as igrejas e todos os governos (independentemente da narração das respectivas comunidades imaginadas).

    in Transumano Mon Amour – Volume II

    Mapa, 254 pp., 2021

     

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