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Lendo: Pontos do MAPA: Insensato, um café-livraria em Tomar

Pontos do MAPA: Insensato, um café-livraria em Tomar

Pontos do MAPA: Insensato, um café-livraria em Tomar


Qual é a história do Insensato e como é que a ideia de criar um café literário se materializa?

Eu (Gabriel) e a minha esposa (Selma) vivíamos na zona de Lisboa e ambos tínhamos empregos na área da comunicação/marketing, mas há algum tempo que acalentávamos o sonho de ter um negócio próprio que aliasse a minha paixão por livros e a dela por comida. Fomos alimentando essa vontade ao longo da pandemia e, em 2021, quando muitas das restrições à liberdade das pessoas foram levantadas decidimos que era altura para avançar. Sou de Tomar e essa cidade surgiu-nos como a opção mais lógica, uma vez que não queríamos apenas uma mudança profissional, mas também uma mudança de vida, neste caso indo para uma cidade mais pequena. Não escondo que o salto foi arriscado, já que, ao despedirmo-nos, ficámos expostos ao risco, daí o nome do espaço: Insensato. Foi uma decisão algo irracional, repentina e, porque não, insensata, pois decidimos abrir o estabelecimento ainda durante a pandemia e ainda para mais um café-livraria. Sabe-se como as livrarias – as pequenas independentes – são hoje em dia quase como peças de museu. Todos os meses lemos nas notícias sobre mais uma que fechou ou que foi absorvida pelos grandes grupos. E sabemos o quão pouco os portugueses lêem. E é um negócio com uma margem de lucro muito pequena. Tudo junto tornou esta viagem assustadora, mas entusiasmante. Entretanto, e ao longo do tempo, fomos explorando cada vez mais a vertente da comida, nomeadamente com opções vegetarianas, vegan ou sem glúten e, apesar de ainda nos chamarmos Insensato Café-Livraria, na verdade somos actualmente sobretudo um restaurante-livraria.

Como é que o vosso espaço se enquadra na cidade de Tomar e no seu dinamismo cultural?

Tal como no que respeita à comida, enquanto livraria o nosso objectivo é simples: oferecer o que não existe na cidade e redondezas. Tentamos que os pratos que servimos sejam únicos. O mesmo quanto aos livros: no Insensato encontram-se livros que não se vendem noutras livrarias da região. Temos livros novos e usados, primeiras edições, livros esgotados e livros de editoras independentes. O Insensato não é o sítio para se comprar o mais recente best-seller. O nosso foco é a literatura de qualidade e o ensaio. Enquanto livreiro, o meu papel é filtrar o bom e o mau (sabendo o quão subjectiva essa missão pode ser). Tento ler, ou pelo menos folhear, todos os livros que chegam à livraria. Se considerar que um livro não é bom devolvo-o, não o vendo. Sei que estou a trabalhar para um nicho de mercado (como sucede com a nossa oferta de comida), mas é nesse nicho que quero apostar e servir bem. Quem vem ao Insensato já sabe o que vai encontrar e sabe que não me desvio dos padrões de qualidade que defini. Assim sendo, e respondendo directamente à pergunta, considero que o nosso espaço tem um papel importante no dinamismo cultural de Tomar, disponibilizando à população da cidade uma oferta com que, deixando de lado falsas modéstias, poucas cidades no país podem contar.

Se alguém se aproximasse da caixa registadora com um MAPA na mão e vos pedisse um conselho de leitura, que livro aconselhariam? Porquê?

O livro que mais tenho recomendado é A Charca, do escritor português Manuel Bívar. É um livrinho da editora Língua Morta e é para mim o mais pertinente e corrosivo texto publicado nos últimos anos sobre a sociedade actual. O autor leva tudo à frente. Critica o nosso modo de vida nas cidades, nas aldeias, no campo. Muitas pessoas procuram a literatura para validarem as suas ideias e encontrarem o que já conhecem. Prefiro ser abanado e mesmo atacado, que é o que Bívar faz neste livro. Ser atacado faz-nos questionar as nossas opções e, na minha opinião, esse deve ser um dos papéis da literatura. Leio um excerto para que se perceba o tipo de temas que Bívar aborda: «A negação do futuro era de tal forma que ninguém se queria mais reproduzir e esse momento ia sendo lançado para outro tempo e chegava agora ao cúmulo de ser lançado para depois da morte. E enquanto isto capavam-se os cães e os gatos com obsessão. Era puro desejo de controlo. A gaiola do canário na cozinha, que não era mais do que o trazer da selva para dentro de casa, não a domesticando e mantendo-a distante, horrorizava os que cortavam as unhas e vestiam os cães. Pobres bichos que não se reproduziam, capados por donos que também não se reproduziam e congelavam esperma, que viviam rodeados da ideia de sexo, mas que não se tocavam porque ninguém fazia sexo. Medicados, rodeados de robôs sexuais que espancavam, deprimiam-se, drogavam-se… Não pensavam em mais nada que não sexo e não tinham sexo. Tudo se tornava um japãozinho. Era ali que se podia ver o clarão do futuro».

Entrevista publicada no Jornal Mapa nr. 47 [Out. – Dez. 2025]

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