Desculpa, mas não encontramos nada.
Desculpa, mas não encontramos nada.
Lendo: Entrevista a Black Book Distro
A Black Book é uma biblioteca anarquista de Catmandu, Nepal, que, desde 2020, trabalha para difundir a ideia e a prática anarquistas num espaço que pretende criar comunidade e organização, através de conversas, oficinas, projecção de documentários e um pequeno espaço de encontro livre do consumo capitalista. Nesta entrevista, contam-nos como viveram os dias da revolta e os esforços para que as velhas estruturas não regressem ao poder.

Como (e quando) é que o colectivo Black Book começou e quais são as suas principais actividades?
A Black Book Distro começou em 2020, depois de alguns de nós termos decidido criar uma biblioteca anarquista pública, em vez de permanecer na clandestinidade. As nossas principais actividades são organizar conversas sobre diferentes questões políticas e sociais, fazer oficinas e compartilhar experiências com outros activistas sobre como nos organizarmos. Também oferecemos um local comunitário para nos reunirmos e comunicarmos entre nós sem a troca capitalista de ter que comprar um café ou comida cara, como temos de fazer quando nos encontramos em algum café.
O protesto da Geração Z tem origem no movimento Enough is Enough (Já Basta) de 2019. Nos anos seguintes, havia a sensação de que as coisas estavam prestes a explodir, como aconteceu em 9 de Setembro?
Depois do movimento Enough is Enough em 2019, havia uma atmosfera de tempestade a caminho, mas não sabíamos quando. Houve muitos momentos em que pensámos que iria começar uma revolta. Mas, no primeiro dia da revolta da Geração Z (Gen Z), sabíamos que o governo iria ruir devido à forma como retaliou contra os manifestantes pacíficos. Nunca tantos manifestantes tinham morrido num único dia na história do Nepal. Por isso, naquela noite, preparámo-nos para a insurreição que se avizinhava para o dia seguinte. E, no dia seguinte, a nossa raiva e tristeza encontraram uma bela forma de expressão.
Podes descrever resumidamente quais foram os principais grupos organizados durante as manifestações de 8 e 9 de Setembro e de que forma os grupos de anarquistas se organizaram nas ruas?
Havia muitos grupos organizados durante os dias 8 e 9. Havia o grupo de coordenação Gen Z, que era o principal organizador, com o qual nós e até mesmo a Hami Nepal estávamos em contacto. Havia também diferentes celebridades e activistas famosos que divulgaram a notícia do protesto.
Estávamos organizados em grupos de afinidade próximos. Nem todas as pessoas nos grupos se identificavam como anarquistas, mas os anarquistas estavam lá. Estávamos mais preocupados com as crianças que tinham vindo aos protestos, por isso tentávamos dizer às crianças para ficarem em segurança enquanto lutávamos na linha da frente. E, na linha da frente, tentávamos organizar uma defesa estratégica para que a polícia não pudesse atirar sobre nós tão facilmente.
O centro do poder de Catmandu foi totalmente destruído pelo fogo, em Pokhara houve alguns ataques a casas de políticos e saques, mas como foram vividos esses dias nas aldeias mais pequenas e, considerando que o Nepal ainda é um país predominantemente rural, qual é a expressão dessa revolta nas áreas não urbanas? E como é que os anarquistas estão presentes nessas áreas?
As aldeias estavam, na sua maioria, tranquilas. Embora, em algumas delas, se tenha assistido a manifestações contra membros corruptos das juntas de freguesia ou políticos locais, a revolta principal ocorreu nas cidades, desde Catmandu e Pokhara até muitas cidades da região de Terai. Embora nas aldeias não se tenha assistido a revoltas, a maior parte do país concordou que era altura de a maioria desses políticos corruptos ver a raiva do povo, que se acumulava há muito tempo.
Os anarquistas não estão muito presentes nas áreas rurais, uma vez que a maioria dos jovens vai para as cidades à procura de educação e trabalho. Os anarquistas chegam às aldeias quando voltam para as suas terras ou quando viajam. No passado, os anarquistas realizaram programas de saúde nas aldeias.
Numa resposta à entrevista da Crimethinc, disseram: «No entanto, esta revolta não estava totalmente preparada para o que se seguiria». Partindo do princípio de que poucas revoltas o estão, como estão vocês a lidar com o pós-revolta e onde têm centrado os vossos esforços?
Depois da revolta, temos estado activos principalmente a tentar explicar às pessoas que a solução agora não é voltar à monarquia, como algumas pessoas querem. Por outro lado, também temos tentado informar que escolher outro político corrupto só porque ele nunca foi primeiro-ministro não é o caminho a seguir, mas sim que precisamos de novos rostos radicais e de um movimento que possa desafiar a velha estrutura de poder. A velha esquerda no Nepal falhou. Por isso, queremos ver e estamos a trabalhar para a criação de uma nova luta de esquerda.
Por fim, de que forma podemos, a partir de Portugal, apoiar a Black Book e outros movimentos anarquistas e populares de base que continuam a resistir aos novos governos que virão?
Só o facto de nos fazerem estas perguntas e de quererem conhecer-nos já é um grande sentimento de solidariedade para nós. O facto de esta opinião ser publicada aí e de as pessoas conhecerem a nossa luta também é uma grande ajuda. Se os velhos políticos voltarem ao poder aqui, saibam que estaremos nas ruas. Além disso, se no futuro precisarmos de fundos para realizar programas ou ajudar camaradas aqui, não importa quanto, será uma solidariedade internacional. Até lá, viva a revolução, camaradas. Um dia, este inferno capitalista e imperialista entrará em colapso e, aí, formar-se-á a nossa sociedade livre.
entrevista publicada no Jornal MAPA nr. 48 [Jan. – Mar. 2026]
0 People Replies to “Entrevista a Black Book Distro”