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Lendo: Uma paisagem em transformação

Uma paisagem em transformação

Uma paisagem em transformação


Uma fotografia das novas e velhas feridas abertas do Alentejo

André Paxiuta deparou-se com a acelerada transformação da paisagem alentejana pela primeira vez enquanto guia de natureza no litoral alentejano. A fotografia acompanhou desde muito cedo a vida deste geógrafo de formação, hoje com 38 anos de idade. Daí nasceria o projeto de ensaio fotográfico Oil Dorado, que testemunha as transformações da agricultura intensiva no sul de Portugal. Este acabou por se centrar na expansão agroindustrial do olival do interior alentejano do Baixo Alentejo, menos mediatizado do que as estufas do litoral, com o propósito de proceder ao retrato ambiental e social da indústria do azeite em Portugal, centrado na degradação sem precedentes da paisagem, na poluição de recursos naturais e no contexto de escravatura moderna que afeta milhares de trabalhadores migrantes que trabalham nos campos do Alentejo.


Um crowdfunding foi agora lançado para possibilitar a edição em livro com data de lançamento prevista para Fevereiro de 2022. Livro em capa dura de 200 páginas, contendo 90 fotografias e contributos escritos em português e inglês de Pedro Horta do Movimento Alentejo Vivo, Fátima Mourão e Rosa Dimas da aldeia das Fortes, Alberto Matos da Solidariedade Imigrante de Beja e Tumbul Kamara, migrante que relata o seu percurso do litoral da Gâmbia a Beja. Coube ao autor destas linhas contribuir com o texto inicial, resultado do cruzamento, ao longo destes 4 anos (2017-2020), de André Paxiuta com o Jornal MAPA e das conversas tidas à volta do «território prometido do Alqueva».


Voltámos a falar com o fotógrafo André Paxiuta, sobre o culminar destes anos de trabalho fotográfico que documentou a mutação silenciosa gerada pela corrida ao “Oil Dorado”…

©Apaxiuta_OilDorado

 

Filipe Nunes: Que objectivos tinha este projecto e que novas metas eventualmente lhe acrescentaste no seu decorrer?

André Paxiuta: O objectivo inicial foi documentar a transformação do território. Mas, com o avançar do trabalho, rapidamente me apercebi da complexidade dos processos e da sua inter-relação. Ficou nesse momento clara a necessidade de tocar as diversas consequências ambientais e sociais que se desenvolvem a partir da permissividade instalada de exploração industrial da paisagem.   

FN: De quatro anos a percorrer o Alentejo em torno de uma paisagem em acelerada transformação, resultou um retrato ambiental e social da paisagem. Por que motivo as questões ambientais da terra (degradação solos, perda de biodiversidade, etc.) não puderam ser separadas, enquanto processos de luta, das questões sociais da terra (a posse da terra, quem nela manda e quem e como a trabalha)? 

AP: Quando falamos de abordagens megalómanas de transformação territorial, como é o caso do Alqueva e da agroindustrialização que se seguiu, encontramos por norma a elas associadas uma linguagem profética de revolução regional, que coloca os procedimentos adoptados como a panaceia para todos os problemas do mundo rural.  No espectro das relações de causa-efeito que se seguiram, basta percorrer os 50 kms de estrada entre Ferreira do Alentejo e Serpa para, com uma ou duas paragens obrigatórias, perceber a dissonância entre a profecia e a realidade experimentada no terreno. Esta noção ganha particular importância quando reconhecemos que a raiz de muitas das feridas abertas ao longo da história do Alentejo partilha o mesmo solo que as problemáticas a que hoje se assiste, ambas instaladas num regime de propriedade ainda fortemente concentrado.  Não há, por esse motivo, espaço para a dissociação de fenómenos. Falar do Alentejo e de agricultura é falar de posse da terra e dos impactos que sucedem dos modelos implementados.

©Apaxiuta_OilDorado

FN: Nas fotografias de Oil Dorado há uma forte presença humana, de quem sofre as consequências deste modelo económico monocultural do azeite. Adivinhado por entre o semblante das sombras de uma das fotos, teríamos o rosto de quem negoceia e explora essas vidas. Mas, por entre esses actores opostos, talvez possamos enquadrar o cenário numa multitude de pessoas em silêncio. Quem aqui é enraizado, aqui nasceu ou vive, e percorre o dia-a-dia com uma indiferença difícil de explicar, como que afastado de uma questão que lhes diz respeito, julgando-a uma mera disputa entre ambientalistas, associações de migrantes, donos dos olivais e o governo público. Tive já ocasião de comentar contigo esta impressão em os «Olhares de Catarina». Da tua parte, o que te suscita?

AP: Vivemos tempos de polarização e não esperava encontrar nesta temática algo de diferente. Mas penso que esta dualidade de compromisso perante a realidade experimentada tem origem na sensibilidade, nos laços que cada interveniente possui com o território. No essencial, esta dinâmica explica-se pela apropriação do território por agentes externos, cuja preocupação assenta na maximização a curto prazo da produção, ao serviço de uma visão mercantilista da agricultura. Os restantes intervenientes, levados pela sede de uma terra produtiva e pela maravilha da narrativa económica, optam pelo caminho da justificação, da alusão ao bem maior, do compromisso que se exige para atingir os fins esperados. É uma forma de cegueira selectiva. Espanta-me, no entanto, o silêncio e a inércia de muita gente perante casos dramáticos como aquele que se vive nas Fortes… ou nas situações de exploração humana que ocorrem pelo território. 
Mas há igualmente uma dimensão do meu trabalho que me leva a dizer que não acredito que as imagens que recolhi sejam portadoras de uma verdade absoluta. Sinto, no entanto, que estas acarretam uma visão honesta sobre um território que se apregoa renascido, mas em cujas entrelinhas da narrativa económica e tecnológica se encontram feridas antigas por sarar e o acumular de erros que comprometem a aceitação generalizada das visões proféticas que colocam as novas formas de superprodução agrícola no pedestal das soluções para todos os problemas do mundo rural. Isto está a acontecer. O que se segue a partir desta exposição fica na mão do leitor.  

FN: Considerando que a defesa da paisagem que é lançada em Oil Dorado alerta, mais do que para uma transformação desta, para a perda irreversível de factores naturais e da sua capacidade de regeneração, qual é o olhar sobre a paisagem que mais te magoa veres desaparecer?

AP: Reporto-me aqui à definição formulada por Orlando Ribeiro na sua obra Portugal, Mediterrâneo e Atlântico, em que refere que «a paisagem é um produto do passado». Ao longo destes quatro anos fui levado a questionar esta afirmação. Assistimos a uma implementação cumulativa de processos transformativos do território, inicialmente agrícolas e agora energéticos, como a febre do fotovoltaico, que empurram a paisagem como a conhecemos, a biodiversidade e o património cultural, para o plano do esquecimento e da memória, eliminando as ligações visíveis e sensoriais à realidade que a precedeu. Neste processo, sinto que, sem necessidade, delegamos de forma consciente à história, à antropologia e, em circunstância última, à arqueologia, o papel futuro de reconstruir o que não soubemos valorizar e proteger. 
Questiono-me aqui que tipo de paisagem queremos preservar e criar. E a imagem que retenho e que melhor responde a esta questão é aquela que captei na praia de Cinco Reis. Em Cinco Reis, um dique separa a praia fluvial do imenso olival intensivo que se estende em todas as direcções. Este é apenas visível para quem chega ou abandona o local. Famílias, amigos, turistas, trabalhadores rurais reúnem-se junto à água para fugir ao calor de Agosto. Temos aqui o culminar do processo de transformação a que assistimos na região. A reboque do regadio, reformulou-se o paradigma agrícola. Criam-se, agora, paisagens artificiais ao serviço do povo, apelando a uma re-apropriação da paisagem e a uma renovação do vínculo com o território industrializado. Envolta numa redoma recreativa, Cinco Reis desenha um novo conceito de paisagem onde a cultura que lhe deu propósito fica, estrategicamente, ocultada. Não há, aqui, neste modelo, sequer espaço para o orgulho pelas paisagens que se criam.

Apaxiuta_Oildorado


Fotografias de André Paxiuta


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Filipe Nunes

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