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Lendo: A praga do planeta Terra

A praga do planeta Terra

A praga do planeta Terra


A Vida Não é Útil é o primeiro livro de Ailton Krenak publicado em Portugal. É um acontecimento a assinalar. Divide-se em quatro partes, eloquentíssimas: «Ninguém come dinheiro», «Sonhos para adiar o fim do mundo», «A máquina de fazer coisas» e «O amanhã não está à venda».

O título mostra desde logo que esta voz vem de uma dimensão outra, de culturas ancestrais que no Brasil – e noutros lugares do mundo – prosseguem a luta pela afirmação da vida, iniciada contra a sua destruição há mais de quinhentos anos. A existência humana e dos restantes seres foi reduzida a meras utilidades pela cultura que, desde a conquista das Américas, se impôs, em particular, graças à guerra bacteriológica «espontânea» e organizada que desencadeou junto dos povos ameríndios, causando pandemias que levaram ao seu holocausto. Ailton cita uma comunicação do guia lakota Wakya Un Mani (Vernon Foster) a propósito da crise pandémica, em que este declara: «Para nós, indígenas, isto é uma repetição da história. A única diferença é que desta vez não estamos sozinhos.»

Ailton Krenak.

Há nas palavras de Ailton Krenak uma sabedoria que vem de um extenso passado de sofrimento causado pelo contacto com a civilização do homem branco. Partes dessa sabedoria foram captadas ao longo dos séculos por alguns brancos dissidentes, como Jean de Léry, autor de Viagem à Terra do Brasil (1578), livro onde registou um célebre diálogo com um índio tupinambá, no qual este lhe diz, surpreso pelas longas viagens e canseiras a que os brancos se entregavam só para acumular riquezas: «Não será a terra que vos nutriu suficiente também para alimentar os vossos filhos?»

Logo de início, Ailton sublinha: «Quando falo de Humanidade, não falo apenas do Homo sapiens. Refiro-me a uma imensidão de seres que excluímos desde sempre: caçamos baleias, cortamos barbatanas de tubarão, matamos leões e penduramo-los na parede para mostrar que somos mais bravos do que eles. Além da matança de todos os outros humanos que julgámos nada terem, que existiam só para nos suprir com roupa, comida, abrigo. Somos a praga do planeta, uma espécie de amiba gigante.»

As questões são expostas perspectivando um mundo holístico, que necessariamente (em prol da vida da Terra e na Terra) tem de opor-se à hierarquização despótica assente no deus Economia, que coisifica tudo, que converte tudo em coisa útil, incluindo a humanidade reduzida a recursos, a material descartável.

«Poderíamos colocar todos os dirigentes do Banco Central num cofre gigante e deixá-los lá, a viver com a economia deles.» E a respeito da incessante destruição do planeta: «Acredito que esta ilusão de uma casta de humanóides que detém o segredo do Santo Graal, que se entope em riqueza enquanto aterroriza o resto do mundo, pode acabar por implodir.» Lembrando os bilionários que estão a construir uma plataforma fora da Terra, «para irem viver, sei lá, em Marte», propõe: «Deveríamos todos dizer: “Vão depressa e deixem-nos aqui!” Deveríamos dar-lhes um livre-passe, aos donos da Tesla e da Amazon.»

Este livro, tal como Ideias para Adiar o Fim do Mundo (2019), é uma bela dádiva para a meditação política que urge impor-se-nos. Um elevadíssimo acto de pensamento para ler em silêncio ou em voz alta.

 

A Vida Não é Útil – Ideias para Salvar a Humanidade,
pesquisa e organização de Rita Carelli,
Objectiva | Penguin Random House, Lisboa, 2020, 104 pp.

 


Recensão por  Júlio Henriques

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