O Partido Republicano, agora dominado por um Trump que tornou cativa a sua base, opõe-se à continuação da ajuda à Ucrânia porque quer afectar o dinheiro à «verdadeira defesa da América»: a «guerra contra a imigração» e a «segurança da fronteira sul». A questão da imigração entrou, assim, no debate sobre a guerra. Os mesmos republicanos erguem-se agora, antecipadamente, contra a possibilidade de os palestinianos que escaparam ao massacre encontrarem refúgio nos Estados Unidos! Numa entrevista a um blogue racista, Trump acrescentou mais uma camada de teoria medieval: «Os imigrantes estão a envenenar o sangue do nosso país.»
As multidões, crianças e velhos, mulheres e homens, actualmente nos caminhos do exílio, em busca de condições de sobrevivência, são um dos aspectos mais violentos da presente decadência do capitalismo. As guerras e as crises climáticas, as destruições, os massacres, as catástrofes e os colapsos políticos estão na origem da ruína das sociedades. Nos Estados Unidos, tal como na Europa, em África e na Ásia, os poderes estabelecidos, co-responsáveis por estas catástrofes, tentam encontrar uma saída isolando-se. Rejeitando o Outro. Os muros, as separações de todo o género, são a expressão do pensamento político mais primário. Sabemos que as separações não protegem nada nem ninguém, aumentam o sofrimento e não impedem o movimento das populações que nada têm a perder, porque já perderam tudo, excepto a esperança de sobreviver. Políticas que, além do mais, beneficiam as máfias e os bandos que «rentabilizam» o comércio de seres humanos. A actual administração democrata prima pela hipocrisia. Depois de ter feito promessas demagógicas, Biden prossegue as mesmas políticas que os seus antecessores, deportando pessoas a todo o momento e continuando a construir o muro entre o México e os Estados Unidos, enquanto afirma que o muro «é ineficaz» e que não é uma solução séria para o problema! A catástrofe está a alastrar e o fluxo de pessoas que fogem para a «terra prometida» não pára de crescer. Desde 2021, um recorde de dois milhões de pessoas atravessaram a fronteira sul (The Boston Globe, 6/10/23). Só em 2023, mais de 400 000 pessoas já entraram no país, 200 000 em Setembro, e todos os dias há, em média, 8000 novos pedidos de asilo. Nos últimos anos, o colapso de um grande país como a Venezuela agravou esta tendência. A fraude do socialismo bolivariano atirou centenas de milhares de pessoas para o exílio. Quase meio milhão de venezuelanos já se encontram nos Estados Unidos. Representam uma grande parte dos recém-chegados. Depois da classe média, são agora os proletários que tentam atravessar a pé a selva, a caminho do Norte. A actual administração acaba de criar um estatuto especial para os venezuelanos, mas também para os cubanos e os haitianos, que, por sua vez, fogem de um país onde os bandos substituíram o Estado. O objectivo é conceder-lhes uma autorização de residência temporária com direito a trabalhar, a fim de aliviar os centros de acolhimento.
Uma América onde «o sonho» se desfez, onde a pobreza branca também se generaliza. Os recém-chegados são confrontados com esta nova realidade, encontrando-se em concorrência com outros pobres.
As pequenas cidades fronteiriças do Sul dos Estados Unidos não conseguem fazer face à vaga de refugiados. Em Eagle Pass (Texas), uma pequena cidade de 28 000 habitantes, chegam mais de 10 000 pessoas por semana. O único abrigo para imigrantes está sobrelotado e as organizações de ajuda não têm recursos. O presidente da Câmara declarou o estado de emergência… (Wall Street Journal, 22/09/23). Nas grandes cidades da Costa Leste, para onde a maioria dos imigrantes se dirige na esperança de encontrar refúgio, trabalho e alojamento, bem como apoio para os seus filhos, os serviços sociais estão sobrecarregados. Os autarcas estão a pedir recursos adicionais ao governo federal. Com efeito, a lei determina que as cidades são obrigadas a dar abrigo aos imigrantes que se registam.
Em todos os Estados Unidos, a população imigrante é já omnipresente no funcionamento da sociedade, dos serviços à construção, da agricultura à indústria. Os proletários da América Central, e agora também da América do Sul, mantêm a máquina económica a funcionar. Uma América onde «o sonho» se desfez, onde a pobreza branca também se generaliza. Os recém-chegados são confrontados com esta nova realidade, encontrando-se em concorrência com outros pobres. Por sua vez, para a classe capitalista, a imigração continua a ser uma dádiva de Deus, um factor económico de rentabilidade. A aspiração de «sobreviver» transforma os recém-chegados em presas fáceis de explorar, enquanto os «pobres autóctones» estão, na maior parte das vezes, demasiado destruídos para trabalhar. A classe política voga na indecência, fazendo equilibrismo entre o sofrimento dos que já não podem viver e o dos que querem viver. Durante uma sua visita ao México, o presidente da Câmara de Nova Iorque tentou demolir a miragem do sonho americano, avisando os futuro imigrantes de que uma vida de miséria os esperava no Norte. Sugere mesmo que o afluxo de imigrantes cria um «ambiente de desespero» e tem «um impacto no roubo de lojas» (NYT, 19/10/23). Não é certo que isso seja suficiente, há graus de miséria mais ou menos suportáveis. Depois de uma refeição bem regada, o homem foi discursar num Fórum Empresarial Americano-Mexicano, convidando as startups mexicanas a deixarem a Cidade do México e a instalarem-se em Nova Iorque! Os maus e os bons imigrantes.
Ilustração [em destaque] deAndré Lemos
Artigo publicado no JornalMapa, edição #42, Julho|Setembro 2024.
Quem conheceu Varela Gomes sabe que ele usava um endereço de correio electrónico com o nome «franco atirador». Não terá sido por acaso que escolheu essa designação, pois conhecia bem essa função. Muitos lhe reconheciam esse papel. Foi um homem que escolheu a liberdade, a autonomia, e os riscos de agir solitariamente contra o inimigo, sabendo que fazia parte de uma força mais ampla dos que lutam contra o capitalismo.
Como libertário à antiga, ou seja, como anarquista, não me identificava com muitas das suas posições políticas, o que para mim não chega a ser um problema, pois reconheço o direito à diferença; mas uma coisa é certa, admirava-lhe a coragem, o destemor, a honradez e a coerência. Qualidades pouco comuns na nossa paróquia e mais ainda entre os militares e revolucionários que viveram o PREC.
O seu destemor valeu-lhe, depois daquele final de ano de 1961, em Beja, a prisão e expulsão do Exército. Mais tarde, apesar da reintegração militar após o fim da ditadura, nunca lhe perdoaram a independência e coragem e o facto de ter sido revolucionário antes de Abril e de se ter atrevido a tentar derrubar a ditadura na hora certa, na década de 60. Com o 25 de Novembro de 1975, teve de se exilar, e no regresso não se calou. Nunca. Escreveu artigos e livros, bateu feio nos pais do regime, em Mário Soares e no PS, no homem da CIA, Carlucci, e seus apaniguados, nos militares do Grupo dos Nove, em Eanes e Otelo, o inconstante, nos trânsfugas e oportunistas esquerdalhos, como lhes chamava. Denunciou todos os golpistas, impostores e a «contra-revolução de fachada socialista». Tornou-se um dos poucos franco-atiradores da sua geração numa época de partidos e de homens partidos de que falava Drummond de Andrade no poema “Nosso Tempo”.
A sua definição da revolução portuguesa como o «maior cagaço que as classes dominantes tiveram em Portugal no século XX» ficou-me para sempre na memória.
Foi assim que o conheci. Quando trabalhava na Ler Devagar, onde ele ia irregularmente, ouvia os seus comentários irónicos e sarcásticos sobre alguns militares de Abril que por lá andavam, como o inevitável Vasco Lourenço. Um dia ouvi-lhe uma tirada exemplar sobre um conhecido ex-revolucionário, Antunes, já então convertido aos negócios: «quando o vejo levo sempre a mão à pistola…». A sua definição da revolução portuguesa como o «maior cagaço que as classes dominantes tiveram em Portugal no século XX» ficou-me para sempre na memória como a melhor definição da nossa revolução impossível. Numa época de negócios florescentes, políticos corruptos, burocratas novos-ricos, vivia modestamente no seu pequeno apartamento e andava de eléctrico. Está tudo dito.
Depois começou a visitar-me regularmente, já na Letra Livre, na Calçada do Combro, de tantas memórias da luta social na Primeira República, já que aí esteve sediada a CGT e o jornal A Batalha, e acabámos por editar juntos, em 2011, a antologia de artigos Memória Ideológica no Centenário da República, acalentando ainda outros projectos editoriais que ficaram pelo caminho.
O percurso contestatário e antifascista de Varela Gomes foi exemplar e os seus textos são do melhor que se escreveu sobre a Revolução Impossível; a Contra-Revolução de Fachada Socialista, de 1981, continua a ser um documento único sobre o PREC, que agitou Portugal no final dos anos 70. Quando algum leitor de uma nova geração lê os seus livros, não fica indiferente, descobre neles uma análise apaixonada, mas documentada, do tempo vivido pelo autor e, ao contrário do que acontece com os livros necrológicos e académicos sobre o 25 de Abril, logo percebe que as revoluções se fazem com paixão. Varela Gomes foi, certamente, um homem que amou a Revolução.
Texto de Eduardo Sousa | Editor e Livreiro Legenda da fotografia [em destaque]: Varela Gomes durante o PREC
Artigo publicado no JornalMapa, edição #42, Julho|Setembro 2024.
Nota: Este artigo foi originalmente publicado no El Salto em 11 de dezembro. A situação atual na Síria é bastante critica e está em constante mudança. O regime Sírio caiu e o futuro da região é incerto. O projeto político no Nordeste do país está sob ameaça do Estado turco e mais uma vez a lutar ferozmente para defender o seu território e as suas comunidades. A região autogerida de Manbiji foi ocupada nos últimos dias pelas forças jiadistas patrocinadas e apoiadas pelo Estado turco. Cerca de 200 mil pessoas tiveram de fugir das suas casas na região de Shehba a norte de Alepo, onde agora as forças apoiadas pela Turquia levam a cabo uma limpeza étnica. Estas 200 mil pessoas vivem agora em condições precárias e o seu futuro é incerto. Esta situação está a criar uma grave e séria crise humana no Nordeste da Síria que não deve ser ignorada. Os bairros de maioria curda na cidade de Alepo, com cerca de 100 mil pessoas, estão cercados pelas forças do HTS/ENS e vivem sob ameaça diária. A atenção mediática novamnete dada ao conflito da Síria, que nunca terminou ao longo dos últimos treze anos de guerra civil, tem-se focado apenas nos desenvolvimentos e na voz dos chamados «rebeldes». Qualquer solução pacífica e verdadeiramente democrática para o conflito da Síria não pode acontecer sem incluir a Administração Autónoma do Nordeste da Síria e a questão curda. Daí a importância de informar sobre este conflito e os seus últimos desenvolvimentos, e também de tentar entender a proposta que a Administração Autónoma do Nordeste da Síria apresenta para a resolução deste conflito. Para isto, e para aqueles que desejem informar sobre este conflito, aconselhamos o contacto com a Plataforma de Solidariedade com os Povos do Curdistão, que é capaz de criar pontes de contacto com os atores no terreno e as organizações da Administração Autónoma do Nordeste da Síria. Podem contactar a Plataforma através do seu Instagram (@plataformacurdistao) ou e-mail (portugal4rojava@gmail.com).
O quebra-cabeças sírio que rebentou em Alepo
O novo cenário sírio surgiu com a intervenção implacável da Turquia, patrocinadora do Exército Nacional Sírio (ENS) e de outros grupos jiadistas que travam a guerra de Erdogan contra o povo curdo.
A vida de Noh Muhammad Rasho brilhou durante apenas quatro meses. A sua morte, depois de a sua família ter viajado três dias do norte de Alepo para Raqqa, transformou-se numa viagem mortal. Na terça-feira, 3 de dezembro, sob um frio intenso, a pequena criança fechou os olhos para sempre, rodeada pela família.
A família Rasho era originária da cidade de Bulbul, na zona rural de Afrin, o cantão curdo no Norte da Síria ilegalmente ocupado desde 2018 pelo ENS, apoiado pela Turquia. Os mercenários e jiadistas do ENS são os mesmos que hoje tentam romper as defesas curdas para chegar à cidade de Manbij ou invadir os bairros curdos de Sheikh Maqsoud e Ashrafiyeh em Alepo.
Noh e a sua família já tinham sido deslocados de Afrin pelos parceiros jiadistas do Estado turco. A agência de notícias North Press resumiu o infortúnio da família Rasho da seguinte forma: «A sua árdua viagem foi feita em condições difíceis, sem refúgio nem recursos adequados.»
Na quarta-feira, 4 de dezembro, a Synergy/Hevdesti Association, um grupo de defesa dos direitos humanos no Nordeste da Síria, documentou a execução de Amina Hanan, uma mulher curda de quarenta anos com necessidades especiais, pelas facções do ENS quando estas tomaram o controlo da cidade de Tel Rifaat, no Norte de Alepo. A associação denunciou igualmente a detenção de muitos civis que optaram por permanecer nas suas casas na região de Shehba, outra zona crítica desde 27 de novembro, quando o Hay’at Tahrir al-Sham (HTS) e o ESN lançaram operações militares contra Alepo e o cantão de Shehba-Afrin.
Por trás das mortes, das detenções e das violações dos direitos humanos cometidas por ambos os grupos está, como um marionetista implacável, Recep Tayyip Erdogan.
***
O que está a acontecer atualmente na Síria era de esperar e tem que ver com a forte interferência da Turquia através de grupos jiadistas e mercenários. A situação na província de Idlib, controlada pelo HTS, e em áreas de Rojava — como Afrin, Serekaniye e Al Bab — também ocupadas ilegalmente pelo ENS, foram o terreno fértil para esta nova implosão no país.
Nem as exigências do extinto regime sírio para que a Turquia se retire das regiões que ocupa com grupos proxies, nem as exigências da Administração Democrática Autónoma do Norte e Leste da Síria (ADANLS) — encabeçada pelos curdos, mas na qual participam arménios, assírios, turcomanos e outras nacionalidades — para que o Estado turco devolva as terras ocupadas e pare com os bombardeamentos quase diários da região, foram ouvidas em pormenor pelas potências internacionais ou por organismos como a ONU.
Dar à Turquia carta branca para organizar, financiar e apoiar grupos como o ENS tem consequências muito graves, como estamos a ver agora.
O bairro Curdo Sheikh Massoud em Alepo, Siria, 2022. Fotografia de Mauricio Centurión.
***
O Centro de Informação de Rojava (RIC) publicou na semana passada um relatório sobre a situação no Norte da Síria. O RIC, que está sediado na região, apresentou um panorama pormenorizado dos últimos acontecimentos:
— Nas regiões da ADANLS há «uma escassez crítica de bens essenciais, alimentos, água, medicamentos e abrigos para os deslocados».
— Foi confimado que, em apenas alguns dias, o ENS cometeu «ataques, roubos, detenções e extorsões contra civis curdos que ainda se encontravam em Shehba ou que tentavam sair».
— O Crescente Vermelho Curdo apelou a que fossem feitos donativos tendo em conta a grave situação humana.
— O ENS apoderou-se de casas de civis curdos nas aldeias e cidades em que entrou, e revistou e confiscou os pertences dos aldeões curdos que regressavam a Afrin.
— De acordo com o RIC, «prosseguem as negociações das Forças Democráticas Sírias (SDF) e da ADANLS com o HTS. Os representantes das SDF afirmam que os habitantes decidirão se querem sair ou ficar» nas zonas ocupadas ou atacadas.
— Registou-se um ataque de um avião não tripulado turco a um carro perto da estação de autocarros na cidade de Derik que matou dois civis e feriu outros dois. «Este é o segundo ataque turco com aviões não tripulados no Nordeste da Síria na última semana, após o ataque de há três dias em que Aziz Sheikho, de 20 anos, foi morto. Foi atingido quando conduzia na estrada entre Qamishlo e Heseke», informou o RIC.
O governo turco sempre afirmou publicamente que um dos seus principais objetivos na Síria era acabar com a experiência política, social e democrática da ADANLS.
***
O governo turco sempre afirmou publicamente que um dos seus principais objetivos na Síria era acabar com a experiência política, social e democrática da ADANL
O avanço do HTS e do ENS sobre Alepo e a sua subsequente conquista de Damasco estão ligados, primeiramente, aos planos turcos de expansão territorial. Também a crescente instabilidade no Médio Oriente, com o genocídio que Israel comete em Gaza e no Líbano. Neste contexto, a Turquia está a tornar-se cada vez mais pragmática e feroz. O governo do presidente Erdogan está a tentar, por todos os meios, posicionar a Turquia como um fator de desestabilização no Médio Oriente.
O governo turco sempre afirmou publicamente que um dos seus principais objetivos na Síria era acabar com a experiência política, social e democrática da ADANLS. Na ideologia de Erdogan e dos seus ministros, é inconcebível que o povo curdo consiga criar regiões autónomas e autogovernadas. Ao mesmo tempo, há pelo menos um mês que o governo turco intervém ilegalmente nos municípios que o partido pró-curdo Igualdade e Democracia (DEM) venceu nas eleições de março passado. O governo interveio em municípios importantes, como a cidade de Dersim, enviando forças de segurança, expulsando os presidentes de câmara e de assembleias municipais e nomeando funcionários estatais, em violação das leis nacionais e internacionais. Face a esta situação, o povo curdo da Turquia mobiliza-se contra estas medidas ditatoriais.
Erdogan tem duas linhas muito claras: crescer como potência e expandir-se territorialmente, e resolver as suas crises internas com mais repressão, muitas vezes desencadeando operações militares contra as regiões curdas.
***
O HTS é uma cisão da Al Qaeda, que partilha a ideologia deste grupo terrorista. O ENS é semelhante, com apoio aberto da Turquia, e envolve muitos antigos membros do Estado Islâmico (ISIS ou Daesh). Nos últimos dias, foram vistos vídeos de mercenários do ENS a usar emblemas negros com o símbolo do Daesh nos seus uniformes militares.
Após a tomada de Alepo, o HTS emitiu uma declaração afirmando que respeitaria os direitos do povo curdo e das minorias religiosas da região. Confiar nestas palavras é colocar a vida das comunidades sob a ameaça de um escorpião. Embora a maior parte dos meios de comunicação social os descreva como «rebeldes», os antecedentes do HTS e do ENS mostram-nos como mercenários que cometem crimes impiedosos. Nestes dois grupos existe algo semelhante ao que aconteceu quando os talibãs tomaram o poder no Afeganistão em 2021: uma urgência em «limpar» os registos das forças responsáveis pelas mais diferentes violações dos direitos humanos.
Se os grupos ligados à Turquia consolidarem novos territórios sob o seu controlo, assistiremos ao que se vê nas zonas ilegalmente ocupadas por grupos apoiados por Ancara no Curdistão sírio (Rojava): repressão, raptos de civis, violações dos direitos humanos, retrocesso dos direitos conquistados, pilhagem de casas. Em regiões ocupadas como Afrin, sob controlo do ENS desde 2018, a lira turca foi implementada como a moeda oficial, falar curdo foi proibido, o sistema educativo implementado é em turco e com o seu plano de estudos, e em todo o lado há imagens e cartazes com a figura de Erdogan.
***
O governo de Damasco nunca teve a intenção de ouvir os apelos da ADANLS para uma resolução pacífica e democrática da crise síria.
A queda do exilado Bashar al-Assad ocorreu num contexto em que os seus principais aliados, a Rússia e o Irão, estão concentrados noutras guerras, como a da Ucrânia e a invasão de Gaza por Israel. O HTS ou o ENS fomentam o ódio étnico contra os curdos, razão pela qual os apelidam de «porcos de Qandil», em referência às montanhas do Curdistão iraquiano onde as guerrilhas do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) têm as suas bases.
Há já algum tempo que existiam diálogos de baixo e médio nível entre a Síria e a Turquia, com o objetivo de restabelecer relações. Bashar al-Assad exigia que a Turquia se retirasse dos territórios que ocupa; Erdogan recusou sempre. O governo de Damasco nunca teve a intenção de ouvir os apelos da ADANLS para uma resolução pacífica e democrática da crise síria. Simultaneamente, o Estado turco demonstrou um pragmatismo grosseiro a nível internacional: ora aliado dos Estados Unidos, ora parceiro «fundamental» da Rússia. No caso da União Europeia (UE), além das intenções turcas de aderir ao bloco, Ancara recebe milhares de milhões de euros para funcionar como barreira para impedir que migrantes cheguem ao continente europeu.
A Turquia também tem poder económico e militar: vende armas a quem as quer, sem grandes considerações. Apesar de ser o segundo maior exército da OTAN, a Turquia de Erdogan quer apresentar-se como apoiante da causa palestiniana ou como um polo anti-imperialista. Isso é, sem dúvida, uma fachada. Apesar das declarações públicas de Erdogan sobre o genocídio na Faixa de Gaza, Ancara mantém relações comerciais estreitas com Israel.
***
Um dos principais objectivos do ENS é ocupar os bairros de Sheikh Maqsoud e Ashrafiyeh, em Alepo, onde vive uma maioria curda. Ambos os bairros têm uma população estimada em 100 mil pessoas. Até agora, o que está a acontecer em ambos os locais é contraditório: obter informações actualizadas não é fácil. Algumas fontes indicam que a vida continua numa tensa normalidade; outras dizem que os bairros já estão sob o controlo do HTS e do ENS.
Sheikh Maqsoud e Ashrafiyeh tornaram-se uma ilha depois de 2012, quando a população do Norte da Síria, liderada por organizações político-militares curdas, declarou a autonomia da região. Nestes bairros, existem governos autónomos sob o paradigma do confederalismo democrático, teorizado pelo líder curdo Abdullah Öcalan — preso desde 1999 na ilha-prisão de Imrali, na Turquia — e promovido pelo Movimento pela Libertação do Curdistão.
Em Sheikh Maqsoud e Ashrafiyeh, existem assembleias de bairro, o conceito de libertação das mulheres é aplicado e, com o tempo, tornaram-se locais seguros para os deslocados internos. Nos últimos anos, os dois bairros não têm estado isentos do assédio do HTS e do ENS e do governo de Damasco. O regime de Assad — tal como a Turquia de Erdogan — não concebe a proposta de democratização e autonomia apresentada pelos povos do Nordeste da Síria. Até agora, a convergência entre os dois regimes foi sempre esta: o enfraquecimento da experiência social e política conduzida pela ADANLS. Em Assad e Erdogan, o pensamento do Estado nacional que nega o outro permanece inalterado.
No início desta semana, a Administração Autónoma tinha recebido 100 mil pessoas deslocadas de Alepo e do cantão de Afrin-Shehba.
***
As SDF afirmaram que, ao mesmo tempo que defenderão os seus territórios, irão deslocar a maior parte possível da população para zonas seguras. Não há números concretos, mas estima-se que entre 200 mil e 400 mil pessoas possam estar a ir das áreas de Alepo controladas pelas SDF para as regiões da ADANLS. Até ao início da semana, a Administração Autónoma tinha recebido 100 mil pessoas deslocadas de Alepo e do cantão de Afrin-Shehba. A chegada destes refugiados foi tortuosa: o ENS perseguiu-os e atacou-os, cortou as estradas para que não pudessem deslocar-se, ao que se somou um clima extremamente frio. Os refugiados foram colocados em centros de acolhimento nas cidades de Tabqa e Raqqa e em localidades dos cantões do Eufrates e Cizre.
O chefe do Departamento de Migração da ADANLS, Şêxmûs Ehmed, disse à agência de notícias ANHA que é urgente «coordenar com a ONU a criação de campos especiais». Embora tenha afirmado que a situação é «trágica», observou que muitos habitantes da ADANLS abriram as suas casas para acolher os refugiados ou juntaram-se ao trabalho de ajuda humanitária nas escolas criadas para as pessoas deslocadas.
A cidade de Shehba, habitada por curdos e árabes deslocados pela guerra, 2022. Fotografia de Mauricio Centurión.
***
No domingo passado, o ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Hakan Fidan, reconheceu o que o seu chefe, o presidente Erdogan, tinha confirmado alguns dias antes: que a interferência da Turquia na Síria foi fundamental para a queda do regime.
Fidan, um negociador experiente dos bastidores dos serviços secretos turcos, afirmou que os grupos que compõem o HTS e o ENS devem unir-se e «trabalhar de forma ordenada para que haja um bom período de transição, que acabe por incluir todas as partes dentro da Síria».
Embora o ministro dos Negócios Estrangeiros turco tenha assegurado que o seu governo procura preservar a integridade territorial da Síria, a realidade é diferente: as zonas ocupadas por Ancara estão a sofrer um intenso processo de «turquificação» há anos.
Mas o mais importante para o Estado turco é repelir a influência curda, razão pela qual Fidan voltou a comparar o ISIS às SDF, que associou ao PKK. «Estamos atentods para garantir que o Daesh e o PKK não se aproveitem desta situação», alertou.
Numa altura em que o Governo turco afia as presas para devorar uma parte da Síria, na semana passada, o partido DEM, o Partido das Regiões Democráticas (DBP, também pró-curdo), e o Movimento das Mulheres Livres (TJA) encabeçaram uma manifestação na fronteira do distrito de Suruç, em Urfa, que faz fronteira com a cidade histórica de Kobane, em Rojava. A ação teve como objetivo protestar contra o que está a acontecer na região curda da Síria e mostrar solidariedade com a população da ADANLS.
Num discurso proferido no local, a copresidente do partido DEM, Tülay Hatimoğulları, declarou que a luta do povo curdo continuará até que «a paz, a tranquilidade e a fraternidade entre os povos» sejam estabelecidas na região. A dirigente manifestou que «já vimos este filme antes» e recordou que a guerra na Síria começou em 2011, «o ISIS e as suas ramificações, que foram praticamente criadas por potências estrangeiras, foram implantadas na Síria». «As organizações derivadas do ISIS mudaram agora o seu nome para HTS ou Exército Nacional Sírio», denunciou a integrante do partido DEM. «Todas elas provêm da mesma fonte, do mesmo poder.»
Esse poder de que fala Hatimoğulları reside no Palácio Branco, em Ancara, onde o presidente Erdogan sonha constantemente em tornar-se o líder de um império otomano do século xxi.
Legenda da fotografia [em destaque]: Fotografia de arquivo de um jovem a correr nas ruas destruídas de Sheeba. Uma das cidades sob ataque na actual guerra siría. Fotografia deMauricio Centurión
A Tigre de Papel abriu em 2016 como livraria independente e espaço de programação regular e diversa.
Mais do que uma livraria para coleccionadores, a Tigre de Papel parece privilegiar livros que são pensados para circular. Esse conceito foi pensado?
Uma decisão que tomámos desde o início foi a de equiparar os livros em segunda mão com os livros novos, seja em termos da selecção ou da sua arrumação na livraria. No início repetíamos bastante a frase de um colega nosso, «os livros não se gastam». Talvez hoje precisasse que são os textos que não se gastam, e que o livro, enquanto meio privilegiado, ainda que não exclusivo, de circulação dos textos tem a vantagem de se fazer ver, de nos sussurrar ao ouvido, de nos gritar na cara, de nos acariciar as mãos. Uma espécie particular de técnica de engate que tanto coloca o leitor no lugar de quem vê como no lugar de quem é visto. Daí que para lá da lógica coleccionista, talvez acrescentasse uma outra, mais interessante e própria do que pode ser o papel de uma livraria: a lógica da composição. Juntar livros relacionando-os de um modo particular é também um modo de ler.
Como chegaram à edição e distribuição?
Começou por ser uma resposta a um interesse particular nosso – a reedição e edição de inéditos da poeta Salette Tavares, com cuja obra sempre tivemos uma proximidade estética forte, bem como a sorte de uma ligação familiar de um dos nossos colegas. É também uma forma de nos relacionarmos com alguns amigos e os seus projectos – por exemplo, o livro A Vida entre Edifícios, do Jan Gehl, que publicámos em parceria com a Cicloficina dos Anjos, ou o livro Gravidez, da Júlia Barata, de quem viemos depois a publicar outros livros. E durante algum tempo as coisas foram sendo um pouco assim, de acolhimento e aproximação a propostas que nos chegavam. Esse modo não desapareceu, mas começámos entretanto a tentar sistematizar um pouco melhor a nossa proposta editorial, e os últimos títulos já reflectem um pouco isso – por exemplo, o livro Habitação Para Além da “Crise”, do Simone Tulumello, que resultou de um desafio feito pela editora ao autor. Quanto à distribuição, foi mais um problema de ordem prática. Como fomos montando um pequeno circuito de distribuição por pequenas livrarias e um método de organização e de logística, a dada altura propusemos a algumas outras pequenas editoras nossas amigas aproveitarmos esse trabalho que já estava feito.
Ao contrário da grande maioria das livrarias independentes, a Tigre de Papel também vende livros escolares. Porquê?
Todo o modelo pedagógico dos manuais escolares precisa de um debate sério… Mas a razão principal para uma livraria como a Tigre de Papel os ter à venda é de natureza sobretudo económica, a que poderíamos acrescentar um papel de assistência às pessoas que são obrigadas a obter os manuais – isto é particularmente relevante para as famílias imigrantes que são confrontadas com um sistema complexo, que ninguém lhes explica, mas a que estão sujeitas se querem colocar os filhos na escola com as mesmas condições das restantes famílias. A razão principal, então, para passarmos três meses do ano agarrados a uma actividade infernal, em que o Estado empilha calhamaços às costas das crianças ao mesmo tempo que alimenta o negócio de empresas privadas, é porque esses três meses permitem um resultado económico que facilita o que fazemos nos restantes nove meses. Digamos que o fazemos com a mesma falta de inocência com que passamos quase três semanas no hipermercado da Feira do Livro de Lisboa.
Se alguém entrar na livraria para comprar o Jornal MAPA, o que lhe propõem para completar o menu?
Por preguiça, com alguma sorte, olho para o lado e topo com Os Cantos de Maldoror, do Conde de Lautréamont, um daqueles aristocratas decadentes da nossa preferência. Talvez sugerisse este livrinho, pela virtuosa intersecção poética, política e existencial que, creio, ressoa na perfeição com a coragem e a loucura de um projecto como o MAPA.
LIVRARIA TIGRE DE PAPEL RUA DE ARROIOS, 25, LISBOA
Artigo publicado no JornalMapa, edição #42, Julho|Setembro 2024.
Sergio Maraschin fala-nos da voracidade energética do Complexo Industrial de Sines e de como é viver numa Zona de Sacrifício.
A nova vaga industrial de Sines resulta num aumento planeado de megaprojectos fotovoltaicos e eólicos do litoral à planície alentejana. Associados a interesses económicos que desvirtuam a almejada Transição Energética, surgem Zonas de Sacrifício que desconsideram problemas de escala, localização e impactos cumulativos. A pegada energética da nova expansão de Sines, em contraponto com projectos ditos «verdes», resultará numa adição energética centralizada no pólo industrial de aproximadamente sete a oito vezes os actuais consumos, o que equivale a 17,5 % da energia eléctrica gerada em 2023.
Nas lutas ambientalistas é difícil não nos cruzarmos com Sergio Maraschin, de naturalidade brasileira. A viver numa quinta em São Luís, Odemira, trabalhou como geólogo e conselheiro ambiental corporativo ao longo de mais de 40 anos para empresas mineiras e petrolíferas. Conhecedor dos diferentes lados das barricadas, em 2008 veio a concluir o mestrado de Ciências Holísticas no Schumacher College, Universidade de Plymouth. É actualmente membro do grupo Transição São Luís e tem marcado presença em diversos movimentos como o Juntos pelo Cercal que se opõe à construção da central fotovoltaica da Central Power. Falamos acerca dos conflitos gerados por estes megaprojectos.
Perante o novo paradigma industrial de Sines, de que Transição Energética estamos a falar?
O objectivo declarado seria uma “descarbonização”, mas na realidade esconde várias estratégias políticas com o objectivo de um crescimento económico contínuo e acelerado. Nós vivemos na periferia de um país periférico, uma coisa que dói para aceitar. As estratégias vêm de cima: do Olimpo de Bruxelas e por via de consequências mais globais, dos conflitos geoestratégicos nos quais a Europa quer assegurar a sua situação num novo paradigma que não vai ser muito sustentável. Temos aqui uma expansão industrial centralizada num paradigma chamado “verde”, um eufemismo infeliz e que é implementada à medida dos interesses económicos corporativos e com a benesse das autoridades competentes e representantes políticos. É lógico que tudo isso não vai servir o bem público. Um neoliberalismo implementado a ferro e fogo e que chega próximo de um capitalismo selvagem, quase um neocolonialismo, como estivéssemos a ser colonizados por nós próprios, pelos filhos e vizinhos. O pior de tudo é que isso é uma réplica do modelo dos combustíveis fósseis: não há consideração pelos bens comuns, pelos limites ecológicos aqui na região e no planeta.
Se não estamos a falar da necessária Transição Energética, para quem serve verdadeiramente esta transição?
Vamos ser mais explícitos: quem lucrará com isso? Grandes corporações onde temos vários actores, como as grandes empresas petrolíferas que agora têm sempre um braço de renováveis e coisas como empresas de capital, como a famigerada Aquila Capital baseada em Hamburg, com um portfolio de energias renováveis e projectos verdes. O real interesse destes bancos de investimento é implementar estes megaprojectos numa escala considerável, levando-os ao ponto de comprovada capacidade operacional para depois transaccionar (vender, comprar, consolidar) esses assets [activos económicos]. E continuamente capitalizando-os em termos de créditos de carbono, essa grande falácia, e da Net Zero [mercado de créditos de carbono]. O capital de uma Aquila Capital (que fundada em 2001 gere mais de 15 mil milhões de euros em renováveis e imobiliário) é baseado em créditos de carbono e para esses big players do momento é um mercado fantástico. É a nova corrida ao petróleo e ao gás, só que agora nas energias renováveis. E por cima dessas empresas operacionais há o Banco de Investimento Europeu que participa em várias delas. Toda uma estrutura montada para um sistema centralizador e não democrático.
Depois, a escala aqui é fundamental. Se pudéssemos pulverizar pequenas unidades fotovoltaicas na escala apropriada, no terreno apropriado, que não seriam zonas agrícolas, mas descentralizadas em terrenos e áreas artificializadas, acho que essa seria uma premissa para uma transição energética mais justa e mais democrática. Mas não é isso que está acontecendo.
Mas em Sines falamos de um aumento energético que se torna complicado. Não estamos a criar energia renovável apenas para suprir as comunidades, há aqui um outro cliente em jogo.
Esse grande cliente é todo o conglomerado de Sines e em Portugal será também Matosinhos. Em Sines, perante os projectos de expansão previstos, estamos a falar de um incremento de sete a oito terawatts/hora por ano. Só o Data Center são quase 5000 GWh anuais. Em 2021, o consumo anual em Sines rondava os 1201 GWh anuais, pelo que calculando somente a energia necessária ao Data Center (4769,8), ao projecto de Hidrogénio da Galp (770) e do Green H2 (495) e a fábrica de baterias de Lítio (450), chegaremos a um gasto expectável mínimo de 7696 GWh/ano. Estamos a falar de um incremento de sete a oito vezes mais e que continua a expandir-se. Qualquer coisa num raio de 70 quilómetros ou mais em termos de produção energética ligada à rede vai cair em Sines. A imagem que uso é a de um buraco negro onde não sabemos qual o horizonte de eventos, o ponto de não retorno.
Qual é essa geografia das zonas de sacrifício de que estamos a falar?
Em Sines como nó da rede eléctrica nacional, há claramente a intenção de fazer o abastecimento por todos esses mega projectos, como esse infeliz nomeado Parque Solar Fernando Pessoa em Vale de Água e São Domingos (o poeta deve estar-se virando na cova…) e o projecto do Cercal por exemplo. Todos eles feitos em função de três factores estratégicos. Um é a proximidade aos pontos de intercepção à Rede ou implicando uma Linha de Muita Alta Tensão até à Subestação de Sines; o segundo é a utilização de grandes áreas de terrenos planos, evidentemente agrícolas, ou com montado ou eucaliptos; o terceiro é a estrutura do domínio da terra que reflecte um passado do Alentejo: grandes proprietários que vão lucrar – e nem moram aqui – com essa tal transição energética. Nós estamos a copiar exactamente o mesmo modelo extractivista e feudal, até. Os lucros são absurdos, estão a oferecer algo como 2000 euros por hectare de renda por ano.
E depois há aqui um outro factor, temos cada vez menos pessoas que possam reclamar outra vivência para esses territórios.
E aí temos um efeito interligado. Esses projectos vão esvaziar ainda mais o território. Impõem não termos uma voz activa, não termos massa crítica. Imagina se fossem fazer um megaparque em Monsanto, ao lado de Lisboa…
Comparando Vale de Água e São Domingos e o Cercal, esta última parece beneficiar de alguma massa critica neo-rural que motiva uma reacção.
A resposta é muito simples: vê a vila do Cercal e vê as aldeias de São Domingos e de Vale de Água… Depois tem outro aspecto. O que me surpreendeu e continua me surpreendendo é um receio muito grande em ambas as comunidades de sair à tona. Pessoalmente dizem-nos que estamos certos, mas “o meu primo e o meu filho trabalham na Câmara ou tem um alojamento local financiado pela Câmara”. Toda uma rede de dependência e de subsídios que é inata à rede social daqui. Há uma grande dose de receio em ser visto como um oponente.
Qualquer coisa num raio de 70 quilómetros ou mais em termos de produção energética ligada à rede vai cair em Sines.
Voltando a Sines, um outro confronto que surge resulta da vivência industrial que se separou da ruralidade. Se as pessoas têm consciência dos custos, no tema da poluição e das nocividades do trabalho industrial, já hoje parece difícil comunicar a quem trabalha no Complexo de Sines a urgência destas lutas a partir das novas zonas de sacrifício rurais, perdida a memória e solidariedade entre si.
É essa mesma malha de dependência económica que distancia as pessoas que aí trabalham dos efeitos desse tipo de trabalho nas áreas circundantes. Tocas numa coisa importante que são as externalidades desse mundo e do novo monstro de Sines. Essa área de sacrifício é também a área onde as nuvens de partículas finas e gases descem desde Sines. Daquelas chaminés, a sua distribuição é um cone a jusante do vento e todas as partículas e gases atingem o solo 30 a 50 quilómetros de distância. Há uma zona de sacrifício em termos de saúde ao redor de Sines, como também dentro nas próprias instalações. O número de cancros e aberrações genéticas, perdas de parto, é já bastante elevado em Sines e na região circundante. Esse estudo não está feito porque não há vontade de o fazer. Não há uma avaliação estratégica ambiental, social e de saúde pública do impacto da nova expansão. Mas há uma necessidade de saber de onde vêm essas fontes difusas e qual é a carga adicional que esta expansão vai causar. Há sinergias, efeitos cumulativos dessas indústrias, e tudo isso tem um impacte muito maior do que aqueles pequenos impactes minimizados nos Estudos de Impacte Ambiental, omissos, pré-aprovados e dentro de um processo viciado em que as autoridades competentes fecham um olho ou dois.
E como se ultrapassa a dicotomia ambiente/ trabalho?
Na dicotomia trabalho/ambiente e saúde pública é a velha história: não se faz uma omelete sem quebrar ovos. Somos todos responsáveis como consumidores ou produtores, nesta sociedade globalizante. Não é um paradoxo, mas uma relação directa. No nosso sistema de vida, os nossos padrões de consumo, as nossas expectativas, ultrapassam largamente o que a nossa comunidade natural, digamos assim, pode aguentar, pelo que vamos sofrer as consequências, fechando o círculo que isto é.
Qual seria então o território que haveríamos que construir?
A pergunta fundamental. Eu não vejo Sines como algo a ser fechado e destruído, mas para ser remodelado em termos sociais, ambientais e tecnológicos. Se estivéssemos num avião poderíamos ir numa trajectória planeada e com uma aterragem suave, ou como tem sido, planamos até cairmos bruscamente numa catástrofe. Estou a falar do óbvio, mas como poderíamos contribuir para uma aterragem mais suave? Vê como estou evitando o termo decrescimento, mas é isso mesmo. O decrescimento planeado seria uma solução. Mas teríamos de passar por uma mudança de valores muito grande e não vejo muito bem como o vamos fazer. A nossa posição pessoal perante tudo isto é também a incoerência. Somos parte integrante e ao olharmos nos olhos dos nossos filhos e netos vamos ver uma realidade muito incómoda. Existe uma opção fácil? Não. O decrescimento planeado é politicamente impossível, não tenho grandes esperanças de que a descida seja suave.
Se olharmos ao nosso redor num círculo de 70 km, temos uma tempestade perfeita. Uma transição energética que não é transição, mas uma adição de energia ao que já existe, duplicando sete a oito vezes sua escala, ou mais. A expansão industrial, com todo esse pesadelo sobre os recursos, impactes ambientais, sociais, etc. Depois, questões como a falta de água e os projectos de agro-indústria que se multiplicam por todo o lado; projectos turísticos de luxo; novas minas, todo um novo cenário de minerais críticos para a Europa. Só falta um elemento para a tempestade perfeita: o nuclear. E a pressão do nuclear vai aumentar, porque estas estratégias políticas dependem de uma aceleração muito grande da questão da energia. Todo este discurso de crescimento infinito vai desembocar aí, com as suas consequências. Estamos a ser levados por uma falsa narrativa, sem pensar muito em consequências e sem termos alternativas de momento.
E não estamos a falar em Sines como se fosse um sistema único, estamos dentro de um sistema muito grande. A geoestratégia de recursos, desde metais a fontes de energia, a trabalho barato, etc., todo um cenário de conflitos inevitável.
É difícil ser optimista, mas algo te move a ti e aos jovens também, que são valores que nos tocam, como a natureza, a solidariedade…
É por aí. Não temos uma crise de recursos naturais, temos uma crise de valores. Uma crise de valores interna, de comunidade e pessoal. E aqui vem a noção de Gaia, onde a base comum seria a reverência à natureza, essa conexão profunda com os valores naturais. E até lá, continuar a construir comunidades saudáveis e solidárias num ambiente saudável.
Infografias de Ana Farias
Artigo publicado no JornalMapa, edição #42, Julho|Setembro 2024.
Quando a vaga de trabalhadores migrantes, a precarização dos salários e a falta de habitação ecoam nas ruas, podemos falar em Sines de um cenário de conflitos sócio-ambientais?
Nos artigos anteriores [1][2], traçámos a identidade industrial de Sines e falámos de como a demanda energética recentra os impactes ambientais na sua periferia. Mas qual é a dimensão social e conflituante presente neste devir industrial que se trasveste de transição verde?
Antonio Maria Pusceddu, antropólogo do CRIA-ISCTE, tem trabalhado na história e na transformação das regiões industriais, incluindo as novas «geografias da energia» nos contextos da Transição. Em Itália, interessou-se pelo complexo petroquímico de Brindisi e o gerar de «ambientalismos operários» no cruzamento da fábrica com os movimentos ambientalistas. Por cá, encontrámo-nos em Sines para uma conversa. Desde logo, Pusceddu refere uma diferença crucial (já apontada também na entrevista a Sergio Marashin): «enquanto em Brindisi toda a questão de saúde se tornou uma ferramenta muito forte em todo o movimento ambiental, em Sines nada. Os estudos epidemiológicos foram feitos pelas autoridades sanitárias públicas na relação entre a poluição ambiental e um conjunto de cancros. Em Sines, numa primeira impressão, parece que se trata de uma área pacificada. Não é de todo certo que não exista, há as suspeitas…, os colegas que no passado podem ter morrido por causa da exposição à toxidade, mas a imagem fabricada é que Sines é a coisa mais sofisticada e limpa do mundo».
Pesquisando as memórias pós 25 de Abril em Sines, Pusceddu de imediato anotou uma «luta pela sobrevivência da cidade, em que no plano original as pessoas seriam deslocadas para Santo André e Sines seria, como dizia o primeiro director do Gabinete da Área de Sines, o Cais do Sodré do Alentejo». Apesar do movimento popular até à Greve Verde, «ainda agora, numa conferência dos 50 anos de Abril, se apontou essa ideia canónica de que havia coisas mais urgentes a pensar do que o ambiente, reduzindo-o àquela visão burguesa da defesa da natureza e ignorando tudo aquilo que desencadeia.» Assim, acerca das questões ambientais, não hesita em afirmar não haver actualmente «uma grande preocupação em relação ao que está a acontecer [na região], para lá de um conjunto de pessoas que fazem parte de uma rede que vai para além de Sines».
Trabalho, Ambiente e Transição
Uma dessas pessoas é Bruno Candeias, natural das Ermidas do Sado, trabalhador e sindicalista na REPSOL, membro do Bloco de Esquerda e uma das vozes activas dos movimentos ambientalistas do litoral alentejano. Ser delegado sindical e activista ambiental «não é fácil! É um exercício diário, tentar encontrar soluções, narrativas que permitam defender o trabalhador na transição justa. O que não é fácil porque entramos num patamar de suposições e para os trabalhadores as suposições são nada; precisam sim de soluções concretas, no momento. Por outro lado, é difícil dialogar com os trabalhadores e com as comunidades, porque vivem dessas indústrias, e os próprios sindicatos no seu geral são muito recuados em relação a isso. O SIEAP, Sindicato das Indústrias, Energias, Serviços e Águas de Portugal, a que pertenço, é um sindicato pequeno que ainda vai falando sobre isso, mas na maior parte das vezes há mesmo contradições.
Neste ponto, é obrigatório falar do fecho da Central Termoeléctrica a carvão de Sines. Para Bruno Candeias, se este «foi um contributo essencial, o problema é que existem coisas que se tornam difíceis para todos aqueles que defendem esse caminho do encerramento. Uma, é agora importar de Espanha ou de Marrocos energia que vem do carvão ou do nuclear, o que é uma hipocrisia. O segundo aspecto é que, de 400 trabalhadores, 300 foram para o fundo de desemprego. Não houve um planeamento sério para fazer disto um exemplo nacional, para que todos pudessem ver que sim, é possível encerrar indústrias poluentes sem que ninguém perca os seus direitos e os seus postos de trabalho. No entanto, não foram vistos como trabalhadores penalizados pela transição, mas entregues à selvajaria do mercado de trabalho. Foi muito mau.»
«No caso da Central, se o nosso Sindicato dizia que não vale a pena andar para trás, temos é de encontrar soluções; tínhamos a CGTP à porta da fábrica a dizer que era urgente que não fechasse, a apelar à produção nacional e à nacionalização de sectores estratégicos. A perspectiva é sempre a mesma e a questão ambiental é secundarizada. Desde que seja estratégico do ponto de vista económico para o Estado, a questão do carvão é pouco relevante. Um tipo de discurso que não ajuda muito na própria comunidade local onde, com essas entropias, não há entendimento.»
António Pusceddu prefere enquadrar o discurso da CGTP na «reconfiguração que começou há vinte anos para fazer de Sines uma porta de entrada no circuito global de mercadorias, mais do que um lugar de produção. Daí terem um discurso sobre a soberania nacional e defesa das capacidades produtivas. Discurso que perdurou no encerramento da Central. Este foi um daqueles casos exemplares em que tudo é alimentado para aquele tipo de conspiração à volta da Transição. Alguém diria “conspiração”, mas é realmente um caso claro desta grande reestruturação do Capital na dita Transição verde. A acção do Estado, da Câmara, revelou falta de capacidade de resposta e que a EDP poderia fazer o que quisesse. Em nome da Transição. O discurso da soberania nacional e da defesa produtiva levanta um paradoxo que não é de resposta fácil e é partilhado por muitos: daqueles que podem ter posições negacionistas aos que tenham uma clara posição de defesa da necessidade de uma Transição, questionando contudo se é possível ter uma Transição Energética nacional. Qual é o contributo oriundo de uma migalha, como Portugal, numa dimensão global? É evidente que esse discurso levanta questões. E depois, enfim, encerra-se a Central e aumenta o volume do tráfico marítimo do Porto de Sines, responsável pelas maiores emissões. Um conjunto de paradoxos e, claramente, de contradições».
Migrantes, Salários e Habitação
Ambiente à margem, em Sines há outras preocupações. Diz-nos António que «há mais uma preocupação com o efeito que está a ter esta expansão industrial, em termos de um grande número de força de trabalho, na sua maioria de comunidades migrantes, em condições bastante complicadas, e uma série de fricções que se estão a agudizar em relação aos salários. Porque esta sobreabundância de mão de obra resulta em dumping salarial e está a criar uma situação bastante explosiva em relação às formas regressivas que estes salários podem ter. Acho que as preocupações são mais nesse sentido. Há um conjunto de transformações que já aconteceram no sentido de uma maior precarização, como se vê pelo número de agências de trabalho temporário, que em Sines é absurdo, ou quando no Porto de Sines se cria uma empresa onde em 1200 estivadores nem 100 são directos. Daí a grande preocupação com a deterioração das condições de vida, com o grande afluxo de trabalhadores, a falta de habitação e a questão salarial. Dentro destas questões não vejo haver grande preocupação por parte dos trabalhadores sobre a questão ambiental, nem climática.»
O investigador recorda o movimento pela justiça climática, como alguma preocupação da Climáximo numa aproximação a Sines. «Mas no feedback que continuo a ter de pessoas que estão de alguma forma alinhadas com as mesmas estratégias, a percepção é de desacordo profundo com as modalidades e a ingenuidade em trazer modelos de acção mais metropolitanas, que num contexto de Lisboa e Porto têm possibilidade de crescer, mas num contexto mais pequeno, onde a questão laboral é muito mais forte, correm o risco de ter o efeito contrário.»
Bruno Candeias sabe que está perante «um apego ainda muito grande às concepções vindas do socialismo real, digamos assim, da industrialização e do progresso. Aquela lógica do progresso a favor dos trabalhadores, que é a história de Sines. A lógica de esquerda aqui criada a seguir ao 25 de Abril ou a que existe actualmente, uma lógica totalmente de mercado, é igual. Só muda a cor da bandeira. Emprego, emprego, emprego e o resto não interessa. Quando foi da operação Influencer, mais do que o estrito caso, a nível local todos vieram a partilhar uma mesma linha fundamental: os projectos não podem parar, queremos desenvolvimento. Por outro lado, em São Domingos ou no Cercal, geraram-se pequenos movimentos de cidadãos que têm feito um trabalho imenso, porque há a consciência da destruição da identidade rural que os levou a viver ali. Aí é possível chegar próximo das pessoas e ser compreendido porque há de facto uma fractura. Aqui o grande desafio é como conseguirmos criar uma narrativa que seja aceite e consiga disputar o espaço público desta identidade e dependência industrial. Há uma incapacidade muito grande de quem defende os caminhos alternativos em derrubar a barreira da comunicação.»
Hortas do bairro Amílcar Cabral. Fotografia de António Pusceddu
O que mobiliza?
«A percepção da transição permanece muito no campo teórico académico», acaba por nos dizer António Pusceddu. «Poderemos falar de muitas respostas, como a reindustrialização noutro sentido, mas qual é o sujeito que transportará as respostas? Não é apenas elaborar as respostas, mas qual é essa massa crítica. O facto de não existir talvez advenha desta ser uma cidade constrangida em termos de dimensão, apesar de agora não sabermos exactamente quantas pessoas estão a morar em Sines. Moro no bairro Amílcar Cabral, onde há uma associação que funciona como apoio aos migrantes, que estão a aumentar. A conjuntura é super favorável para o capital, com milhares de trabalhadores à disposição, sem nenhuma responsabilidade em termos de emprego numa selva de empreiteiros.»
Bruno contrapõe a ideia de uma reindustrialização apelando ao papel do Estado e aos empregos para o clima. «É obviamente muito difícil voltarmos à ideia da pequena aldeia, até porque há uma identidade industrial aqui que não pode ser desvalorizada. Pelo que se quisermos fazer uma reindustrialização adaptada à nossa realidade e aos novos desafios, nomeadamente à questão climática, que tenha uma perspectiva social agregada, temos de pensar que tipo de indústrias faz sentido existirem.»
Intersectando a linha condutora deste raciocínio, António, antropólogo à escuta, liga a omnipresente visão trabalhista com «essa ideia do senso comum, banal, mas recorrente, de que “as pessoas só pensam no trabalho”. E aí vês as dimensões de vida a esvaziarem-se, da vida cultural, da vida em comunidade. Os sítios de referência da cidade abandonados, como se esta fosse somente uma reserva da força de trabalho.»
Chegamos ao fim da conversa e para Bruno Candeias «a propaganda que é feita, muito forte e difícil de combater, é de que Sines vai se transformar radicalmente num pólo industrial verde. Essa é a falácia. E não há uma conexão entre as pessoas que aqui vivem e as pessoas dos territórios que vão ser sacrificados aqui ao lado. Propositadamente. Pelo que há que tentar conseguir criar um elo entre tudo isto.»
Para António Pusceddu «fica a pergunta em cima da mesa: como é que essa articulação consegue ir além da pequena obrigação do indivíduo, ou seja, qual é o motivo mobilizador? A defesa do ambiente, a justiça climática, concordamos todos, mas há que aumentar a parada. O discurso climático é “o” discurso, logo subordinado à justiça climática algo que me parece politicamente um bocado míope. Podemos todos concordar, mas aqui a mobilização está a fazer-se para quê, exactamente? Parece-me demasiado evanescente. Não quer dizer que a questão climática não seja um problema, mas será um motivo socialmente mobilizador fora de alguns contextos?».
Legenda da fotografia [em destaque]: Central Termoeléctrica de Sines, 2007 | Fotografia deJoão Campos (CC 2.0]
Artigo publicado no JornalMapa, edição #42, Julho|Setembro 2024.