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  • Felizmente continua a haver luar (Abril/Junho 2024)

    Felizmente continua a haver luar (Abril/Junho 2024)

    Álbum Americano.

    Acerca do sindicalismo em tempos soturnos

    Andamos às voltas em Somerville, um subúrbio de Boston, à procura da rua onde há um restaurante português que nos haviam recomendado. Chove a cântaros. Num terminal de autocarros, abordo um motorista, um jovem afro-americano com um sorriso simpático. ‒ «Mano, não faço a mínima ideia. Nem sequer sei onde estamos! Vou começar o meu turno, mas deixámos de estar fixos numa carreira. Estamos entregues ao acaso. De manhã, não sei onde me põem e, à noite, quando acabo o meu turno, não sei onde estou. É tudo uma questão de flexibilidade, pá! Já não sabemos os nossos percursos, já não vemos os clientes habituais desta ou daquela linha. É muito cansativo, dia após dia, uma tensão constante. Não vou aguentar muito tempo. Já estou farto. Destruíram o serviço. E depois põem um cartaz a dizer: Help wanted (Estamos a contratar).» Um discurso bem conhecido, que reflecte a generalização das formas de exploração no capitalismo global.

    Sim, o Help wanted está visível em todo o lado. Mas nunca se fala dos salários ou das condições de trabalho. Ao mesmo tempo, vêem-se pessoas a vaguear pela rua, a mendigar, pessoas que não trabalham, que nunca vão trabalhar, dessocializadas, perdidas. Visto de fora, o mundo do trabalho surpreende pela sua despreocupação, com uma abundância de empregados nos estaleiros, nos serviços, nas lojas e na rede de transportes. Salários baixos, claro! Depois da «Grande Demissão», veio a grande desilusão. Em Nova Iorque, os controlos no metro são mais do que raros; em Boston, também no metro, os trabalhadores precários vagueiam sem entusiasmo nas plataformas, com coletes vermelhos onde se lê: «Embaixadores do serviço de transportes ao vosso serviço». Ainda em Boston, quando nos preparávamos, já atrasados, para apanhar o comboio para um encontro em Salem com uma bruxa conhecida, foi o próprio controlador de bilhetes que nos abriu as portas da plataforma ‒ que se lixe o bilhete, pagam da próxima vez. Num restaurante em Greenfield Massachussets, algumas palavras em espanhol e o rapaz da Guatemala muda a sua atitude distante: «Este é um país de loucos e eles querem tornar-nos a todos loucos. Por isso, amigo, tranquilo, tranquilo». Alguns dias depois, em Manhattan, ao balcão de um bar em frente ao Hudson, em Battery Park, onde nos refugiámos para encontrar um café barato por 5 dólares (!), o empregado argentino fala-nos da batalha perdida pela reforma aos 62 anos (!): «Que pena, teria sido um bom exemplo para nós. Aqui, vou ter de trabalhar até morrer!» Um cliente sentado ao nosso lado interpela-nos: «Somos o país mais rico do mundo, devíamos deixar de trabalhar aos 40 anos e é exactamente o contrário». E oferece-nos o café.

    Não vamos generalizar, mas o facto é que, cinco anos após a nossa última visita, sentimos uma falta de motivação entre as pessoas que trabalham, não respeitam as regras, adaptam-se sem acreditar nelas. Assistimos ao fim de uma era, está tudo a ir por água abaixo, é um salve-se quem puder. As violentas disparidades de rendimentos e a coexistência da pobreza e da riqueza parecem ser o único horizonte prometido. E a questão social está de novo na ordem do dia.

    Existe um fosso entre a força colectiva e a capacidade de auto-organização.

    Um amigo meu observou que, nos últimos anos, voltámos a utilizar a linguagem de classe. Falar de capitalismo, exploração e classe já não choca muita gente. Agora, os trabalhadores do sector automóvel entraram no debate. A sua greve está nas primeiras páginas do Wall Street Journal e do New York Times. E a fotografia de Shawn Fain, o novo presidente do sindicato, com uma t-shirt com o slogan de Occupy, «Comam os ricos», chocou as pessoas respeitáveis. Depois da greve de Hollywood, num contexto de sucessivos conflitos muito duros ‒ como, em Outubro, a greve de 75 000 trabalhadores do grupo privado de saúde Kayser ‒ a greve do sector automóvel adquiriu uma importância considerável. Reflecte, sobretudo, a radicalização da atitude de alguns trabalhadores face às forças capitalistas, num contexto de empobrecimento generalizado e de aumento violento das desigualdades sociais.

    Como em toda a parte nas sociedades do velho capitalismo, o sindicalismo está em crise na América do Norte. Após anos de concessões e de sacrifícios à custa de promessas nunca cumpridas pelos capitalistas, as forças sindicais enfraqueceram. O espaço de negociação diminuiu: negociar o quê? O empobrecimento? Burocracias gigantescas revelaram-se máquinas de corrupção, cada vez mais separadas da base sindical. Actualmente, a taxa média de sindicalização é de cerca de 10%, dos quais 6% no sector privado. A indústria automóvel é um bom exemplo. Apesar da tendência permanente para a desindustrialização, este sector tinha mantido uma mão-de-obra estável em relação ao conjunto dos operários da indústria, tendo mesmo o número de empregos no sector automóvel aumentado 40%. A taxa de sindicalização, por sua vez, registou uma queda vertiginosa, passando de 59% em 1983 para 16% em 2022. Tudo isto reflecte a reestruturação da indústria e a deslocalização de novas fábricas (com capitais alemães, chineses e coreanos) de produção de automóveis eléctricos para os Estados do Sul, onde os salários são baixos e a mão-de-obra menos combativa. Os sindicatos são raros e as convenções colectivas não se aplicam. Actualmente, apenas 50% dos automóveis produzidos nos Estados Unidos são fabricados por trabalhadores abrangidos pelo acordo colectivo do UAW (United Auto Workers). Os salários baixaram 20% nas últimas duas décadas e as condições de trabalho estão a piorar, com uma percentagem significativa da mão-de-obra em empregos precários, recebendo salários 50% inferiores aos dos trabalhadores sindicalizados. A longo prazo, esta é uma evolução mortal para o sindicato. A corrupção, alimentada pela cultura da negociação, corroeu a máquina. Em 2021, o governo federal foi obrigado a intervir juridicamente para limitar a corrupção. A facção da oposição dentro do sindicato, o UAWD (D de democrático), ganhou o direito a uma votação directa para eleger a nova liderança. Até então, a nova direcção tinha sido eleita dentro da própria máquina, por delegados e funcionários apoiantes da direcção. Foi assim que Shawn Fain, o homem que nos encoraja a comer os ricos, foi eleito presidente do UAW em Março de 2023. Antigo electricista da Chrysler (hoje Stellantis) e opositor ferrenho da política de concessões, Fain tornou-se uma figura nacional popular. Oriundo de um meio protestante de esquerda, utilizou um discurso de classe combativo, de influência bíblica, centrado no igualitarismo e na crítica aos ricos e poderosos. Os patrões, preocupados com esta mudança de atitude, estão a tentar reposicionar-se e contra-atacar. Os patrões das três grandes empresas (Ford, GM e Stellantis) recorreram à chantagem, acusando os grevistas de estarem a fazer o jogo dos seus concorrentes, Toyota e Tesla, ao mesmo tempo que minimizavam o carácter radical da retórica de Fain. Para o patrão, William Clay Ford Jr., «uma parte desta retórica é teatro, ou seja, uma forma de a nova direcção manter uma base descontente». E acrescentou: «Fazemos todos parte da mesma equipa. Conheço pessoalmente alguns dos negociadores do sindicato. Jogamos hóquei juntos e considero-os amigos chegados» (New York Times, 22/10/23). Basicamente, o que é importante e novo, de contornos incertos, é o estado de espírito sobreexcitado da base da classe trabalhadora. O próprio Trump, durante uma rápida visita eleitoral a uma pequena fábrica ‒ não sindicalizada, claro ‒sentiu-se obrigado a elogiar Fain de forma paternalista: «O vosso novo chefe é um bom tipo.» E acrescentou: «Tudo o que os vossos líderes sindicais têm de fazer é apoiar-me e, assim que for eleito, tratarei do resto!» (NYT, 29/09/23). Ao mesmo tempo, voltou a bater na tecla absurda de que os carros eléctricos (e, portanto, os defensores do clima…) são responsáveis pela crise da indústria automóvel americana e pelo desemprego dos trabalhadores. Biden e os democratas, por outro lado, apresentaram o argumento oposto para justificar políticas proteccionistas.

    Andre Lémos

    Esta greve, que durou mais de um mês, pode ser vista como um sinal forte da renovação do sindicalismo americano (Entrevista com Clément Petitjean, por Romaric Godin, no Mediapart, 30/09/23). Mais do que uma renovação, trata-se de uma primeira consolidação face a um declínio contínuo. No final da greve, no início de Novembro, temos de reconhecer que os ganhos obtidos foram substanciais e raros, tendo em conta as relações de classe em geral. Incluíam um aumento salarial de 25% em 4 anos, o regresso à indexação dos salários à inflação, a conversão de contratos a prazo em contratos por tempo indeterminado, com aumentos salariais substanciais no espaço de alguns anos, e o controlo sindical sobre o encerramento de fábricas e os investimentos futuros. Este é o preço que os empregadores, sob pressão da concorrência, estão dispostos a pagar para travar o movimento. Para o sindicato, a vitória tem de ser consolidada. Para que a situação penda a favor dos trabalhadores, a adesão ao sindicato deve aumentar e, sobretudo, estender-se às outras empresas que dominam o mercado dos novos automóveis eléctricos, da Mercedes à Tesla. Os trabalhadores dos Estados do Sul devem aceitar a presença sindical do UAW. Isto está longe de ser um dado adquirido. É claro que a vitória desta greve é estimulante, mostra que a luta colectiva pode dar frutos. Alguns construtores já estão a aumentar os salários para minar o apelo da sindicalização. Coisa que não desagrada aos três grandes.

    Nos Estados Unidos, na indústria automóvel como noutros sectores, as greves são hoje mais duras e a determinação é mais forte, face ao empobrecimento geral, à violência das condições de vida das classes trabalhadoras e à arrogância indecente da riqueza que cresce a olhos vistos. A inflação galopante está constantemente a corroer o nível de vida. Os dirigentes sindicais corruptos estão a dar lugar a outros mais empenhados, e as tendências de esquerda nos sindicatos estão muito presentes e são ouvidas.

    Nos Estados Unidos, na indústria automóvel como noutros sectores, as greves são hoje mais duras e a determinação é mais forte, face ao empobrecimento geral, à violência das condições de vida das classes trabalhadoras e à arrogância indecente da riqueza que cresce a olhos vistos.

    Do ponto de vista da força colectiva dos trabalhadores, da sua capacidade de autonomia, o quadro é mais obscuro. Nos Estados Unidos, o empenhamento dos trabalhadores nas lutas, a sua participação nos piquetes de greve e, inversamente, o seu respeito pelos piquetes de greve dos outros trabalhadores, são evidentes. Em contrapartida, esta energia quase nunca se encontra nas formas de auto-organização, continuando a ser regra o respeito pelo modo de funcionamento do sindicato. Existe um fosso entre a força colectiva e a capacidade de auto-organização. Ocasionalmente, a actividade autónoma ou independente pode ser vista nas redes de apoio logístico aos grevistas. Foi o que aconteceu durante as greves dos professores, em que se assistiu muitas vezes à solidariedade dos colectivos de pais. A submissão aos aparelhos e aos seus funcionários, os «organizers», como são chamados, continua a ser um facto marcante. Por altura desta greve no sector automóvel, falou-se nas grandes greves de 1936-37 em Flint, no Michigan, que se caracterizaram pela ocupação (Sit-Down Strikes) das fábricas da General Motors. Este movimento tinha permitido que o UAW conseguisse uma implantação forte no sector. No espaço de um ano, o número de membros do UAW passou de 30 000 para meio milhão. Desta vez, a greve não apelou à auto-organização, nem sequer à acção dos grevistas, para além da formação dos piquetes. O modo de acção manteve-se burocrático. As decisões de fazer greve de surpresa, nesta ou naquela fábrica ‒ inegavelmente muito eficazes ‒ foram tomadas pelo aparelho sindical sem consultar os trabalhadores. Estes eram informados (por SMS), por vezes apenas algumas horas antes da greve. O sindicato continua a ser o horizonte último, e as lutas permanecem dentro dos limites do mundo tal como ele é e tal como se reproduz. A ausência de actividade colectiva de base não permite o desenvolvimento de novas relações sociais. A esquerda sindical, a esquerda socialista ‒ que está a fazer «entrismo» na velha máquina do Partido Democrata, com Bernie Sanders à cabeça ‒ estão a colocar todo o seu empenho no reforço das tendências reformistas dos sindicatos. Dão mais vida à actividade sindical de base, mas continuam a funcionar de acordo com princípios políticos hierárquicos, com a energia da comunidade em luta canalizada para o aparecimento de novos líderes. É este, de momento, o estado de consciência dos trabalhadores, tal como está expresso na vaga de greves nos EUA.

    ***

    Num restaurante tibetano em Courtelyou Rd, em Brooklyn, uma jovem está a conversar com uma amiga. Tem vestida uma T-shirt que diz «No more Police». Olhares cúmplices. Poderíamos levar uma mensagem como esta para as ruas e restaurantes de uma cidade francesa ou europeia? A afirmação de ideias no espaço público é comum. Não são raros os cartazes «Black Lives Matter». Por vezes também «Support the Police»… Estes estão certamente mais difundidos no Sul e no Centro-Oeste conservadores do que nas ruas das cidades da Costa Leste. Mais arrepiante é o cartaz afixado à entrada de uma quinta no norte rural do Vermont: «A melhor maneira de encontrar Deus é através da oração, a maneira mais rápida é tentar invadir a nossa propriedade!» Para bom entendedor… Um amigo que nos acompanha assinala um segundo cartaz que exalta a qualidade biológica da carne produzida. Nobody is perfect!

    Apesar de tudo, são tempos difíceis para a polícia! Vejam-se as perigosas condições de trabalho dos agentes dos serviços secretos que protegem o Presidente da maior democracia do mundo. Mordidos gravemente, em duas ocasiões, por um cão descontrolado, o cão do Sr. Biden! Perante o perigo, a administração afastou o animal da Casa Branca. A polícia de Nova Iorque, um dos maiores exércitos do mundo, pensa ter encontrado uma solução. Eis o K5, um robô policial «totalmente autónomo» que em breve estará de serviço na estação de Times Square. Dotado de quatro câmaras e repleto de dispositivos de segurança de alta tecnologia, o robô, já em serviço em hospitais e casinos, é o queridinho de Adams, o presidente democrata da Câmara Municipal, ele próprio um antigo polícia. Este elogia o desempenho e o baixo custo do espécime: «O K5 custa-nos 9 dólares por hora. É menos do que o salário mínimo, não vai à casa de banho, não faz pausas para comer» (NYT, 23 de Setembro). Mas nem todos partilham do seu entusiasmo. Há quem se preocupe em saber se o K5 tem bons travões, se pode impedir ser empurrado para os carris.

    Estamos a viver uma época «fantástica», mas, nestes tempos sombrios, o futuro não está garantido.

     


    Ilustraçōes de  André Lemos


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #41, Abril|Junho 2024.

  • Frontex «repreendida» pela Autoridade Europeia para a Proteção de Dados

    Frontex «repreendida» pela Autoridade Europeia para a Proteção de Dados

    A Autoridade Europeia para a Proteção de Dados (EDPS, na sua sigla em inglês) «repreendeu» a Frontex por transmitir ilegalmente dados pessoais à Europol.

    Em Outubro de 2022, a AEPD realizou uma auditoria às actividades da Frontex, centrando-se nos interrogatórios realizados pela agência fronteiriça a pessoas interceptadas na passagem das fronteiras externas e na utilização posterior das informações assim recolhidas.

    Durante esses interrogatórios, a EDPS percebeu que a Frontex estava a recolher informação sobre alegados suspeitos de crimes transfronteiriços, baseando-se apenas nos testemunhos das pessoas interrogadas, e estava depois a partilhar essas informações duma forma activa e sistemática com a Europol, sem se dar ao trabalho de avaliar a sua veracidade. Tendo em conta os enormes riscos que isto acarreta para as pessoas sinalizadas como suspeitas e tendo em conta que não há sequer uma verificação da fiabilidade ou da exactidão das informações recolhidas, a EDPS decidiu abrir uma investigação.

    No início de Janeiro, a Autoridade Europeia para a Proteção de Dados «constatou que a Frontex infringiu o Regulamento (UE) 2019/1896 (Regulamento Frontex), uma vez que não estava a avaliar se a partilha de informações com a Europol sobre pessoas notificadas como suspeitas de crimes transfronteiriços era estritamente necessária para que a Europol cumprisse o seu mandato, tal como exigido pelo artigo 90.º, n.º 2, alínea a), desse regulamento».

    Apesar de considerar esta uma «violação grave», a EDPS decidiu «limitar o exercício dos seus poderes à emissão de uma repreensão», sobretudo porque a Frontex parece ter parado com esta prática em Maio de 2023 e está em discussões com a Europol para definir critérios para avaliar se as informações recolhidas são estritamente necessárias para que a força policial cumpra o seu mandato e regras pormenorizadas para a partilha dessas informações.

    Não se sabe quantas pessoas que não deviam ser alvo de interesse pela Europol acabaram, ainda assim, no seu sistema. Mas, como diz Wojciech Wiewiórowski, da EDPS, «o tratamento de dados numa base de dados duma força policial da UE pode ter consequências profundas para as pessoas envolvidas, que correm o risco de serem indevidamente associadas a uma actividade criminosa em toda a UE, com todos os danos potenciais que isso implica para a sua vida pessoal e familiar, liberdade de circulação e profissão».

    Para todas essas pessoas, o mal está feito: a vida foi-lhes extraordinariamente dificultada, sem remissão, já que a Europol não anunciou, nem o deverá fazer, que vai apagar essas informações dúbias ilegalmente obtidas nem os ficheiros pessoais a que as associou. Para a Frontex, a responsável pela destruição de todas essas vidas, uma reprimenda. Esta é também uma das medidas da violência fronteiriça.

  • Barroso: 18 de Janeiro – o tempo de servidão acabou

    Barroso: 18 de Janeiro – o tempo de servidão acabou

    A Savannah recebeu luz verde governamental para invadir terrenos privados e baldios. As populações locais apelam à solidariedade e marcaram uma manifestação para 18 de Janeiro.

    Há uns meses, a Savannah Resources solicitou à Direcção-Geral de Energia e Geologia uma «servidão administrativa» que lhe conferisse o direito legal de entrar e trabalhar em terrenos privados e baldios para novas prospecções. A resposta positiva do governo foi dada no dia 6 de Dezembro de 2024, por um período de um ano.

    Em reacção, A Sachola, um espaço localizado na antiga escola primária de Covas do Barroso, lançou um apelo às suas redes de solidariedade e apoio para que não deixem cair a luta, seja organizando sessões de angariação de fundos, seja mantendo o tema na ordem do dia, com debates, filmes, cartazes, faixas, autocolantes.

    Também a Associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso (UDCB) se apressou a reagir, convocando uma manifestação para o dia 18 de Janeiro. Depois de sete anos em que a sublevação da população a proibiu de aceder a terrenos baldios, a Savannah não perdeu tempo e, de acordo com a UDCB, «contra a vontade das proprietárias, avançou com as máquinas e começou a aplanar a Serra para colocar plataformas de prospecção».

    Ainda nas palavras desta associação, «50 anos após o 25 de Abril, o Estado continua a impor projectos à força, indiferente à realidade e às vontades das pessoas, chamando a tudo isto um “procedimento normal”». Por isso, e porque «não somos nem seremos meros territórios de extração», «a única coisa normal aqui é resistir».

    Assim, no dia 18 de Janeiro, «os lobos voltam a uivar na Serra» e «as alcateias reúnem-se no Largo do Cruzeiro de Covas do Barroso às 11h00 para rejeitar o despacho ministerial de obediência. O tempo da servidão acabou!»

  • Bairro do Aleixo – Para que serve uma consulta pública?

    Bairro do Aleixo – Para que serve uma consulta pública?

    Várias pessoas a título individual e algumas entidades colectivas, entre as quais a Campo Aberto, assinaram uma Carta Aberta, dirigida ao Presidente da Câmara Municipal do Porto (CMP) e aos membros da Assembleia Municipal, que incide sobre os projectos de construção de um novo Bairro do Aleixo, já não para pobres, mas agora para os muito ricos.

    A carta começa por informar que a CMP conclui que «da ponderação das participações recebidas no âmbito do procedimento de discussão pública da proposta de delimitação da UE 1 – Aleixo, não resulta a necessidade de realizar qualquer alteração à proposta inicial (…).»

    Saliente-se que esta consulta teve 25 participações, sendo que a vasta maioria foi de crítica ou recusa pura. A conclusão camarária revela, de acordo com os signatários, uma «soberana impermeabilidade» à opinião dos portuenses e «interpela-nos num ponto essencial: para que serve uma discussão pública se nenhum dos contributos dirigidos à substância da proposta foi acolhido? Para que serve uma discussão pública se dela se conclui que a proposta inicial, blindada contra qualquer argumentação ou questionamento, era afinal definitiva?». A missiva continua: «Uma discussão pública desta sensibilidade pressupõe abertura e boa-fé na auscultação dos cidadãos. Os seus argumentos, as suas sugestões ou objecções fundadas, não podem ser simplesmente ignorados, sob pena de a discussão pública ser subvertida no seu propósito e se transformar numa farsa».

    Para além desta questão, tão recorrente para quem acompanha estes processos de consulta pública, há questões técnicas, jurídicas e políticas que a carta realça. Por um lado, «a proposta prevê, só para a área do proprietário B [CMP], a edificação de cinco edifícios, dois de 9 pisos e três de 12 pisos, com uma área de edificação total de 38 281 m2, muito superior à das antigas cinco torres do Aleixo juntas, que era de cerca de 30 000 m2. Além disso, implantadas a uma cota mais alta do que a das antigas torres do Aleixo, as novas edificações terão um impacto arquitectónico, visual e paisagístico ainda maior». Juntando esse terreno ao do «proprietário C» (privado), «o resultado é um conjunto urbanístico desmesurado, frio, desconexo, de edifícios não comunicantes».

    Em relação à parcela do proprietário privado, dá-se o caso de o projecto prever um total de 41 583 m2 de área edificável. Ora, «sucede que dos 28 919 m2 de área dessa parcela, 17 295 m2 estão classificados como “área inundável”», pelo que o «direito de edificação, que condiciona decisivamente o volume edificável da parcela e da UE [Unidade de Execução] no seu todo, só é executável numa área sobrante de cerca de 11 620 m2».

    «Nesta operação urbanística há um elefante na sala: o incompreensível direito de edificação de 41 583 m2 para um terreno de 28 919 m2 dos quais 17 295 m2 são área inundável – logo, não aedificandi (…). Como pôde um tal volume de construção ter sido judicialmente “homologado” para um terreno cuja área edificável de facto é de 11 624 m2? Esta pergunta exige uma resposta», pode ainda ler-se na Carta Aberta.

    Se o espaço falta ao nível do solo, a solução que se encontra é construir em altura: «Os quase 80 000 m2 de edificação propostos face aos cerca de 30 000 m2 das demolidas torres do Aleixo dizem tudo sobre a barbaridade anunciada». Se a proposta afirmava pretender «libertar mais áreas de solo, garantindo áreas mais permeáveis», a  verdade é que «a opção pela construção em altura resultou unicamente da escassez de área edificável na parcela».

    De seguida, a Carta Aberta conclui: «No seu estado actual, que o Relatório sobre a discussão pública dá como irreversível, o projecto apresentado para o Aleixo no seu todo, e em particular para a parcela do proprietário C, é um atentado urbanístico». E, no final de contas,o interior de um quarteirão outrora verde e saudável, em corredor ecológico, zona inundável e com cursos de água importantíssimos será ocupado por torres de apartamentos de luxo, de forma ilegal e sem que se possa fazer nada quanto a isso.

  • Deligny e os putos ineducáveis

    Deligny e os putos ineducáveis

    «Gostávamos muito deles. Não nos ensinavam nada ou bem pouco»[ref]Émile Copfermann, Prefácio (1970), em Fernand Deligny (2018). Os vagabundos eficazes – operários, artistas, revolucionários: educadores. n-1 edições, página 133.[/ref]. É assim que Émile Copfermann, órfão que viveu a experiência dos albergues de juventude da Grand Cordée, se refere aos educadores de Fernand Deligny, um dos principais pedagogos libertários do século XX. Na França do pós-guerra, judeus alemães e intelectuais sem identidade fugidos «dos esgotos do gueto de Varsóvia» aliaram-se às crianças e adolescentes «difíceis»[ref]Fernand Deligny (1949). La grande cordée. In: Enfance, tome 2, n.° 1, pp. 72-76. Acessível em https://www.persee.fr/doc/enfan_00137545_1949_num_2_1_2173[/ref] que ingressavam em lares de jovens e outras instituições, não para as amar, mas para as ajudar. Deligny: escreve «o amor virá em seguida, e essa não é a recompensa»[ref]Fernand Deligny (2020). Semente de Crápula. Conselhos aos educadores que gostariam de cultivá-la. n-1 edições, página 23.[/ref]. Para entendermos a recompensa que buscava, temos de seguir o rastro que nos deixou.

    Deligny permanece na companhia de crianças e jovens autistas na aldeia de Graniès, que nunca mais deixará até à sua morte em 1996.

    Deligny conta-nos que é filho de um oficial morto na Primeira Guerra Mundial e que levou uma vida pequeno-burguesa da qual procurou constantemente escapar.[ref]Fernand Deligny, Prefácio escrito para a reedição de 1955, não publicado à época, em Fernand Deligny (2020). Semente de Crápula. Conselhos aos educadores que gostariam de cultivá-la. n-1 edições, páginas 76-86.[/ref] A mãe era funcionária do Banco de França, e os seus privilégios deixavam-no desconfortável. Os operários pareciam-lhe «homens de outra raça», mas não conseguia viver como eles porque necessitava de «ver a luz do céu». Procurou afastar-se da «sua tribo» e extirpá-la da cabeça, e para isso escolheu o sítio mais longe possível, um longe não geográfico mas sim mental: por volta de 1934 refugiou-se no asilo de Armentières que ficava a poucos quilómetros de onde cresceu, em Lille, onde seria educador especial após adaptar a pedagogia libertária do casal Freinet ao ensino de crianças «atrasadas».

    Deligny abomina os castigos que levam a uma escalada de violência nos reformatórios que termina na colocação das crianças em solitárias onde morrem à fome para deixar os funcionários em paz, «o cúmulo da adaptação social»

    O asilo não foi a primeira tentativa de abandonar a tribo: antes tinha-se filiado no Partido Comunista, mas não era feito «da mesma massa da qual são feitos os comunistas», era feito de carne. Estes procuravam as palavras de ordem para mudar o mundo, mas Deligny está convencido de que as palavras são a escolha de quem não sabe o que viver. Ele quer cortar ardentemente as amarras que o prendem à tribo pequeno-burguesa sem abandonar os outros e procura pontos de vista diferentes para a mudança social. Em Armentières acompanha os asilados que se arrastam pelos corredores, sem mover nada além de si. Será com eles que aprenderá a ser profundamente crítico das instituições. Observou que estes «doentes mentais», quando saíram do asilo devido à mobilização do pessoal hospitalar para a Segunda Guerra Mundial, sobreviveram à guerra e à sociedade. De regresso ao asilo pôs fim ao regime de sanções e organizou atividades com os asilados e os vigias. Em 1943 sai do asilo tendo aprendido o que a psiquiatria tinha para oferecer: janelas que não abrem e um ambiente estéril desprovido de experiências essenciais à vida, que descreve no livro Pavillon 3.[ref]Fernand Deligny (1944). Pavillon 3, Éditions de l’Opéra.[/ref] No mesmo ano, no final da Ocupação Nazi, foi destacado para trabalhar com crianças, adolescentes e adultos delinquentes, e abre nos bairros antigos de Lille uma pequena rede de lares de prevenção em casas decretadas inabitáveis, onde os educadores das crianças são os próprios vizinhos. Em 1945 cria o primeiro Centro de Observação para crianças inadaptadas da região de Lille, que será fechado pela administração cerca de um ano depois. Põe em prática o que aprendeu com os asilados: retira as sanções disciplinares e procura criar circunstâncias para os jovens se envolverem em trabalhos e atividades. No livro seminal «Semente de Crápula – conselhos aos educadores que gostariam de cultivá-la»[ref]Fernand Deligny (2020). Semente de Crápula. Conselhos aos educadores que gostariam de cultivá-la. 93 páginas.[/ref], Deligny expõe em aforismos os princípios da sua pedagogia: abomina os castigos que levam a uma escalada de violência nos reformatórios que termina na colocação das crianças em solitárias onde morrem à fome para deixar os funcionários em paz, «o cúmulo da adaptação social»[ref]Fernand Deligny (2020, citado acima), página 28.[/ref], ironiza. Continua a não acreditar no poder das palavras e dos sermões e procura outras formas de intervenção, fazendo-as cantar, rir e dançar. A sua postura não é romântica: «onde estão, belos rudes delinquentes, anarquistas, olhos negros, corpos cálidos dilacerados por cicatrizes? Aqueles que verá serão glutões e bajuladores, e desmaiarão se os vacinar»[ref]Fernand Deligny (2020, citado acima), página 29.[/ref]. A forma de Deligny chegar às crianças é sem armas nem couraça, sem castigos nem recompensas. Se vos atacarem, mudem de profissão, recomenda aos educadores. Sugere-lhes que abandonem os modelos morais do escutismo e as expectativas sobre aquilo em que as crianças se poderão tornar. O trabalho do educador é de prudência, organização e de perguntar a que se vai brincar, não é corrigir os defeitos das crianças para serem como o resto do mundo: «Deus sabe como é feio o mundo e aí está o seu ideal».

    O trabalho do educador é de prudência, organização e de perguntar a que se vai brincar, não é corrigir os defeitos das crianças para serem como o resto do mundo.

    A experiência do Centro de Observação de Lille é contada no livro «Os vagabundos eficazes – operários, artistas, revolucionários: educadores».[ref]Fernand Deligny (2018). Os vagabundos eficazes – operários, artistas, revolucionários: educadores. n-1 edições. 156 páginas.[/ref] A sua voz contra a ordem social podre está mais forte: detesta as administrações burguesas e burocráticas que infetam as crianças miseráveis com desejos de obediência civil e conformismo. Enfrenta a tecnologia médico-jurídico-social que nasce para corrigir a juventude «anormal» ou «desviante» e insiste em manter as crianças vivas e não castradas. Os seus métodos suscitam o ceticismo da administração, que questiona acima de tudo o caráter moral dos educadores, que são operários: «Se digo: “as crianças são como os pais as fizeram e as educaram…”, deparo-me com o consentimento universal. Se prossigo: “os pais são como a atual sociedade os força a ser. Seria preciso ver como mudar realmente as condições de vida”, fecham-me a boca e o Centro que dirijo, sob o pretexto de que alguns dos seus operários não têm o aspeto, que coisa!, de verdadeiros educadores».[ref]Fernand Deligny (2018, citado acima), página 118.[/ref] Deligny criou circunstâncias de vida e o seu Centro tornou-se num bairro em miniatura, onde circulavam cigarros e cerveja: «O serviço administrativo decidiu que cerveja num centro para jovens delinquentes é um luxo inútil e muito caro. Ora, beber água é, para as crianças, um dos sinais sensíveis de miséria social, e um lanche com pão seco, sinónimo de prisão. O que faz o educador que encontra jarros de água na mesa? Leva todas as crianças ao tasco e envia a conta à administração. Não há absolutamente nenhuma outra solução».[ref]Fernand Deligny (2018, citado acima), páginas 72-73.[/ref]

    Deligny prefere ver o Centro fechado do que sujeitar-se às regras morais da administração. Após o fecho, educadores e jovens partem em debandada e, em 1948, Deligny dedica-se a uma nova aventura em Paris, a Grand Cordée, desta vez com um aliado e amigo, Henri Wallon, psicólogo de desenvolvimento e ativista marxista. O propósito era criar uma rede de estadias experimentais para a cura livre das crianças fora dos asilos e lares especializados. As estadias tinham lugar em albergues de juventude – estalagens abertas por pequenos grupos de alberguistas sem dinheiro que acolhiam jovens, operários e estudantes que organizavam colónias de férias e «transformavam tudo em coisa comum». Mais uma vez fracassará, não por falta de mérito pedagógico, mas porque não tem a flexibilidade necessária para conseguir contratos com a segurança social, subsídios ou subvenções familiares de uma administração que lhe causa arrepios, composta por almas caridosas, escuteiros e psiquiatras abusivos. A relação com o Partido Comunista também é tensa, pois Deligny não alinha no catecismo pedagógico que a filiação exige, e tampouco se subordina aos especialistas, preferindo grupos e movimentos a psicólogos. O seu triplo inconformismo – político, institucional e pedagógico – será fatal para a Grand Cordée.

    Deligny e os seus colaboradores começaram a seguir seus companheiros autistas à medida que avançavam pelo terreno rochoso de Cévennes, fazendo desenhos de linhas rudimentares para indicar a direção do seu movimento através do acampamento rural e na natureza selvagem circundante.

    Após o fim da rede, Deligny opta por viver afastado das cidades, mas não é esquecido. Nos anos 60, convidam-no para trabalhar na clínica La Borde que é gerida pelos «pacientes» junto com a equipa médica e restantes funcionários, onde se encontra Félix Guattari. Deligny mantém-se à margem das terapias e análises, e dedica-se a outras atividades como um cineclube onde exibe filmes ativistas. Encaminham-lhe os pacientes «incuráveis» com quem a equipa não sabe o que fazer, e no final de 1966 conhece uma criança autista de 12 anos, Janmari, que o fascina por não ter linguagem verbal. Deligny pretende explorar abordagens que vão além da linguagem e da comunicação verbal subjacentes à prática clínica de La Borde, e muda-se para as montanhas Cévennes, em Monoblet, onde Guattari tem uma propriedade[ref]Sandra Alvarez de Toledo. Pédagogie poétique de Fernand Deligny. In: Communications, 71, 2001. Le parti pris du document. pp. 245-275, acessível em https://www.persee.fr/doc/comm_0588-8018_2001_num_71_1_2087[/ref], para criar na aldeia vizinha de Graniès uma rede que acolhe pessoas autistas, tendo em vista a vida comunitária. A rede é composta por agricultores e assistentes sociais não especializados e sobrevive sem apoio público através da criação de cabras e de doações ocasionais, como as da banda Pink Floyd[ref]Marlon Miguel (2022). Camering: Fernand Deligny on Cinema and the Image. Leiden University Press, acessível em https://www.lup.nl/wp-content/uploads/ToC-Camering-Fernand-Deligny-on-Cinema-and-the-Image.pdf[/ref]. Entre 1972 e 1975 documenta a experiência no filme Ce gamin, là[ref]https://youtu.be/j6juwHZO4DI?si=1ehlxorIaxuV9ZhW[/ref], que se tornará num emblema da luta contra a institucionalização e o confinamento. Será uma das referências para a criação da rede Lugares de Vida que existe em França até hoje – pequenas estruturas médico-sociais que oferecem acolhimento e apoio a crianças em dificuldades familiares e psicológicas. Mas Deligny permanece na companhia de crianças e jovens autistas na aldeia de Graniès, que nunca mais deixará até à sua morte em 1996. Lá escreveu diversos livros e artigos para revistas, e a sua obra atraiu o interesse de Gilles Deleuze, que se inspirou nele para pensar o rizoma, a territorialização e a desterritorialização.

    Deligny não procurou curar estas crianças. Certamente que o seu passado lhe permitiu estar bem com a ausência de expectativas. Ao não impor nada, dedicou-se a ajudá-las a florescer, procurando entender a sua forma de ser. Analisou os movimentos das pessoas autistas ao longo do tempo e traçou mapas com os seus trajetos. Escreveu «O aracniano»[ref]Fernand Deligny (2015). O aracniano e outros textos. n-1 edições, 288 páginas.[/ref], onde refletiu sobre as redes que existem fugazmente e desaparecem quando os planos e os projetos se impõem, expandindo simultaneamente o conceito de linguagem e de ser humano para lá do simbólico e do querer. Suspeito que Deligny encontrou junto das pessoas autistas a recompensa que buscava: uma maneira de conviver radicalmente distinta da sociedade burguesa, que lhe permitiu continuar a ver o céu. As suas obras merecem ser recordadas não só pelos académicos que estudam a sua filosofia, mas pelos que poderão continuar o seu trabalho.

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    Texto de Borboleta Azul, publicado no Jornal MAPA nr. 43 [Out. – Dez. 2024]

  • «Somos a última geração que pode travar a crise climática»

    «Somos a última geração que pode travar a crise climática»

    A convite da Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, o Jornal MAPA sentou-se com activistas da Climáximo e da Greve Climática Estudantil (GCE), no dia 25 de janeiro de 2024, para uma conversa aberta ao público. Depois de termos noticiado algumas das acções da Climáximo e da GCE em edições passadas do Jornal, interessava agora promover uma conversa aprofundada sobre o que essa acções representam, sobre o que se imagina como futuro desejável e sobre as estratégias a adoptar para chegar a esse futuro.

    Martim Bernardes começou por apresentar a GCE como um «colectivo horizontal, criado em 2018 pelo movimento Fridays for Future de Greta Thunberg e que, nesse ano e no seguinte, organizou várias marchas com centenas de milhar de pessoas um pouco por todo o mundo». Beatriz Xavier, também da GCE, acrescentou que este é um «colectivo de estudantes para estudantes, para o qual a escola é o espaço de organização». Sobre essas primeira marchas, Beatriz recorda que não eram suficientes – «percebemos entretanto que isso não estava a resultar – que continuávamos a caminhar cada vez mais para o colapso. É aí que surgem novas campanhas e outras acções, como o End Fossil Ocuppy, que lançámos em 2022. Desde então, tem havido várias – muitas – ocupações de escolas secundárias e faculdades, em Portugal como em todo o mundo».

    Sobre o Climáximo, Inês Teles, diz ser um «colectivo que existe desde 2015, aberto, horizontal e anti-capitalista, que esteve muito envolvido nas lutas para parar os furos de petróleo na costa alentejana e a prospecção de gás na Bajouca, lançou a campanha Empregos para o Clima e tem vindo, ao longo dos anos, a praticar todo um leque de possibilidade de acções de protesto». Inês acrescenta que o Climáximo «se tem focado muito na acção directa e na desobediência civil» e que teve «um impulso importante, em 2019, com o surgimento da GCE, ou melhor do Fridays for Future, e da Extinction Rebellion, a nível global, o que, obviamente, criou um ambiente bastante diferente dentro da luta climática e que também afectou a acção do Climáximo».

    «No ano passado», prossegue, «tivemos uma grande acção – Parar o Gás, um bloqueio do terminal de gás liquefeito em Sines. Foi também no ano passado que percebemos que o que estávamos a fazer há tanto tempo não estava a resultar, que as coisas estavam a ficar piores, não só a nível climático mas também a nível social e político. Decidimos mudar radicalmente a forma como nos estávamos a relacionar com a luta e inaugurámos, mais ou menos em Setembro do ano passado, esta fase em que afirmamos que as empresas e os Estados nos declararam guerra, no sentido em que as emissões continuam a aumentar, e os governos, um pouco por todo o mundo, continuam a procurar novas possibilidades de exploração de gás, de petróleo, de combustíveis fósseis, e continuam a construir novas infraestruturas que irão causar mais emissões. Decidimos, então, que temos de colocar a crise climática no centro do debate político e, nesse sentido, mudar as nossas tácticas e as nossas estratégias. Já nesta fase, fizemos 21 acções nos últimos meses do ano passado».

    Climáximo

    Descarbonizar

    O que entendem estes colectivos por «descarbonização» e o que é necessário fazer para chegar a uma «descarbonização» efectiva? Para Beatriz Xavier «é preciso o fim do fóssil até 2030, um prazo ditado pela ciência», ainda que reconheça que «neste sistema económico, a descarbonização é impossível, uma vez que os governos irão sempre proteger o lucro fóssil das empresas».

    Para Inês Teles, «esta questão vem de encontro ao programa político que o Climáximo apresentou, o Plano de Desarmamento e Plano de Paz, que começa exactamente por parar todos os projectos que estão em processo de aprovação ou execução e que vão aumentar emissões – por exemplo, novos aeroportos, a expansão de terminais de gás, etc. – e também parar com todo o consumo que é completamente supérfluo, como jactos privados ou iates». Para Inês, descarbonizar é «parar imediatamente a queima de combustíveis fósseis. Isso é a base de tudo». Uma segunda fase do plano «é desactivar todas as infraestruturas emissoras que existem. E isso passa pelo sector agrícola, pelo da aviação, e passa, naturalmente, pelo sector da energia e dos transportes. Para isso, avançámos com uma série de medidas que visam uma transição justa e que não deixa ninguém para trás». O Plano de Paz proposto pela Climáximo «é uma coisa que tem de ser construída com outros actores da sociedade. Estamos a falar com outros grupos, a pedir feedback, de forma a podermos desenhar algo em conjunto dentro das ideias feministas, de cuidados, anti-racistas, anti-coloniais».

    Que futuro?

    Quisemos perceber melhor como é que a implementação de um «programa político» como o Plano de Paz evita a concentração de poder – algumas das propostas são tão complexas que parecem impraticáveis sem Estados e outras instituições. Poderá a transição ser feita de cima para baixo? Inês Teles considera que «temos de admitir a posição em que estamos. E estamos a perder redondamente. É verdade que, mesmo dentro da esquerda, existem tensões, nomeadamente esta questão do Estado. Muitas das nossas medidas são de base e descentralizadas. A “democracia energética” visa precisamente um controlo democrático sobre o sector da energia que esta esteja ao serviço das comunidades e gerido pelas próprias comunidades. Depois existem questões que são tão grandes que, de facto, quase inevitavelmente, têm de ter um certo grau de centralização. Temos muito pouco tempo para fazer essas mudanças. A abordagem é uma espécie de mistura entre medidas que permitam democratizar ao máximo todos estes processos e algum controlo que acaba por ter de ser centralizado». Movida pelo sentido de urgência, Inês acrescenta que «é por isso que, enquanto não houver garantia de futuro, vamos continuar a perturbar a paz e a chatear toda a gente. Porque não fazer nada é que não pode ser, inviabiliza vida. As emissões continuarão, com milhares de pessoas mortas ou deslocadas (até 2050, prevêem-se mais de mil milhões migrantes climáticos, ou seja uma em cada nove pessoas no mundo)».

    Inaugurámos, mais ou menos em Setembro do ano passado, esta fase em que afirmamos que as empresas e os Estados nos declararam guerra.

    Lutas próximas que andam longe

    Globalmente, a «transição energética» é uma estratégia fracturante. Movimentos como o dos agricultores que cortam estradas por toda a Europa, ou como o dos coletes amarelos, em França, são instrutivos – as populações que mais sofrem com as alterações climáticas são também as que mais parecem sofrer com a transição. Se não questionarmos a transição verde como uma nova concentração de poder e de capital, como uma mera transferência dos lucros que eram dos combustíveis fósseis para outros sectores, não irão estas pessoas continuar a ver qualquer transição como um ataque directo às suas vidas?

    Beatriz Xavier concorda que a «transição» é «uma palavra de moda a que as empresas se agarram para tentar conservar os seus lucros e privilégios. Quando falamos para fora, dizemos que esta “transição energética” não pode ser feita no quadro do sistema económico actual, porque, para acontecer, o lucro não pode estar acima da vida. Em Portugal, por exemplo, vemos trabalhadores a serem despedidos de refinarias sem outra opção de emprego…».

    Inês Teles acrescenta que «a ideia de capitalismo verde é uma falácia total. Nós opomo-nos a todo esse greenwashing que as empresas fazem para dar a entender que é possível fazer uma transição positiva e, ao mesmo tempo, continuar com o seu modelo de negócio. Na verdade, mais do que uma transferência de lucros, há uma tentativa de expansão das várias oportunidades de negócio. As empresas não estão sequer a abandonar os combustíveis fósseis. Tiveram, aliás, nos últimos dois anos, os maiores lucros da história das empresas de combustíveis fósseis. Empresas como a GALP tentam passar a ilusão de que estão preocupadas e que são líderes da transição, enquanto continuam a explorar combustíveis fósseis, nomeadamente no Sul Global. Obviamente que isto é uma farsa total. Coisas como impostos sobre o carbono fazem parte desta farsa, uma outra forma de greenwashing. São coisas que tentamos transmitir quando comunicamos. Fazemos o mesmo com a injustiça: o 1% mais rico do planeta tem mais emissões do que os dois terços mais pobres da população mundial. Tornar muito claras estas discrepâncias e estas injustiças é uma das pontes eventuais com as pessoas de baixo que se sentem ameaçadas por esta transição». Beatriz Xavier (GCE) lembra que «a campanha Empregos para o Clima, que tanto o Climáximo como a GCE apoiam, pretende ajudar a que esta transição, desde que posta dentro dos moldes da vida acima do lucro, crie 200 mil novos postos de trabalho».

    Sermos a geração que já nasceu em crise climática e também termos a consciência de que somos a última que a pode travar, é algo muito forte.

    Estratégia

    Foi em 2018 que a GCE começou com a organizar manifestações com milhares de jovens. Na altura, grande parte das pessoas simpatizava com essas mobilizações mas, de repente, as formas de luta tornaram-se mais aguerridas, passou a haver mais acção directa e um discurso de guerra – de estado de excepção. Como diz Beatriz Xavier, «tínhamos muito mais apoio institucional em 2018/19, porque não tínhamos reivindicações concretas. Dizíamos “não há planeta b”, e achavam-nos fofinhos. E fomos percebendo que, apesar de termos visto centenas de milhar de pessoas nas ruas, as coisas estavam a piorar. Estavamos a ser vistas como jovens que iam para as ruas mas que não metiam medo a ninguém. As emissões continuavam a aumentar, as COP [Conferências das Partes] – que existem há mais tempo do que eu existo – continuavam a prometer-nos coisas que nunca aconteciam ou a decidir coisas que não estavam em consonância com os relatórios do IPCC [Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas]. E chegámos à conclusão de que era preciso ser disruptivo, porque nunca qualquer movimento social teve vitórias apenas através de manifestações, procurando consensos com o poder. Tínhamos de romper a normalidade. Sermos a geração que já nasceu em crise climática e também termos a consciência de que somos a última que a pode travar, é algo muito forte».

    No caso do Climáximo, a alteração de estratégia não foi tão profunda. Inês Teles confirma-o: «Já fomos mais fofinhos, mas nunca fomos tão fofinhos como a GCE e já estamos a fazer este tipo de acção directa e desobediência civil há muito mais tempo. Esta mudança de que falei há pouco, em que dizemos que estamos em guerra, foi precisamente por reconhecermos que as formas de luta normais não estavam a resultar. Isso não significa que temos a resposta mágica sobre o que é preciso fazer. Não! Sabemos apenas que temos de fazer outras coisas. É nesse sentido que fazemos estas acções de disrupção pública, em que vamos perturbar a circulação, bloquear ruas. Ao mesmo tempo, estamos a tentar desafiar o resto do movimento social a pensar da mesma forma, a olhar à sua volta e tentar perceber se o que anda a fazer está a resultar. E claramente não está. Temos de tentar de formas diferentes. E avaliar. E tentar de novo de formas diferentes».

    Para Beatriz Xavier, «isto não é uma questão de consciência, é mesmo uma questão de poder. E quem o tem está a enviar-nos directamente para o colapso. Olhando para os governos e instituições, apesar de se dizerem democráticos, não são democráticos quando não defendem o direito à vida. Se é uma questão de poder, temos de ganhar o poder pelas nossas próprias mãos. Se a vida da maioria de nós não está a ser garantida por quem a deveria proteger, temos de o fazer nós mesmos».

    Exigir mudanças a governos que têm de agradar a liberais e negacionistas não pode, de facto, ser uma estratégia vitoriosa. Para além disso, como lembra Beatriz, «a crise climática está a apertar cada vez mais os seus prazos» e a rapidez da transição é um factor fundamental para que se cumpram alguns dos objectivos da GCE e do Climáximo, o que, neste ambiente político que se vai fechando, se torna cada vez mais difícil. A certa altura, a ciência poderá dizer que já passámos determinado ponto de não retorno – paradoxos que nos fazem perder o sono? Inês Teles prefere dormir bem e utilizar as hora acordadas a «construir a ideia de que é possível lutar para fazer a transição – em oposição a essa ideia de que já não é possível, que é, de facto comum a muitas pessoas. Temos de mostrar que o poder popular existe e que é possível denunciar e desafiar o sistema em que vivemos. Obviamente que não é fácil e é por isso que desfiamos toda a gente a fazer o mesmo. Temos de adoptar novas formas de luta, operar em solidariedade e tentar, por vários lados, atingir o capitalismo onde dói. Demonstrar-lhes que temos força e fazer o medo passar para o lado deles. A questão é que não vale a pena fingir. As coisas estão más e só vão ficar piores. Não resistir não é sequer uma opção».

    Climáximo

    Ligações

    Que existem pontes entre os dois colectivos presentes não é difícil de adivinhar. O Climáximo foi, nas palavras de Beatriz, «um dos grandes auxílios para a criação do movimento climático estudantil» e andaram sempre bastante ligados, até porque «são colectivos que partilham uma visão política». Mas quisemos também saber como é a ligação com outros colectivos, com outras geografias, mesmo com outras lutas.

    Beatriz lembra que a GCE actua sobretudo nas escolas, mas que as conversas que organizam lembram sempre que as lutas não se travam isoladamente. Nos tempos mais recentes, a GCE tem, aliás, andado bastante activa também na denúncia do genocídio israelita. «Temos feito várias acções com o Colectivo pela Libertação da Palestina, e também fazemos parte da marcha Casas para Viver, Planeta para Habitar. Acreditamos que todas estas lutas têm uma causa comum – o capitalismo – e, portanto, sabemos que a justiça climática não vem dissociada da justiça social».

    Inês conta-nos que, «durante muito tempo, o Climáximo apostou muito na construção de plataformas e na articulação com outros colectivos. Nesta transformação recente, desinvestimos um pouco de colocar muita energia na criação de plataformas e de alianças, nomeadamente com colectivos que não colocam as coisas das forma que nós colocamos. Os nossos esforços de alianças estão mais virados para colectivos nos quais nos reconhecemos, como acontece com a Habita ou a Stop Despejos, exactamente por considerarmos – todos – que estamos perante uma emergência e que é preciso alterar as formas de luta tradicionais».

    Quanto às relações com lutas mais distantes, como a que está viva no Barroso contra a exploração mineira, Inês explica que «houve várias tensões com o movimento contra a prospecção de lítio, mas acho que resultaram de mal-entendidos e de falta de comunicação entre os dois lados. Acho que eles têm a ideia de que nós queremos uma espécie de capitalismo verde, o que é completamente errado. Há algum tipo de tensão ainda, sim, mas temos toda a vontade de a desfazer, até porque consideramos que todos estes contratos de exploração de lítio são completamente inaceitáveis».

    Decrescer, acrescer e desenergizar

    Da assistência de cerca de três dezenas de pessoas saltaram também algumas questões. As primeiras assinalaram a ausência de um discurso que ponha em causa os níveis de consumo de energia e que problematize a transição digital como forma de manter ou aumentar esse consumo de forma exponencial. Mais à frente, alguém diria que «a questão não é apenas a descarbonização, é a “desenergização”», enquanto outras pessoas falariam em «decrescimento». Para Inês Teles, não há dúvida de que o descrescimento faz parte das propostas do Climáximo, mas confessa que «a ideia de descrescimento não é muito mobilizadora, porque se queremos falar com as pessoas que estão na mó de baixo e lhes falamos de decrescimento, elas podem pensar que lhes queremos tirar ainda mais. Ou seja, duma perspectiva teórica faz todo o sentido, mas utilizar o conceito para mobilizar, parece-me uma coisa de classe média».

    Coincidência ou não, havia pelo menos uma pessoa da Rede para o Decrescimento entre a assistência que lembrou que «Serge Latouche, no último livro, que está traduzido nas Edições 70, introduz a palavra “acrescimento”, que, se calhar, ainda é mais complexa. Mas, de facto, o decrescimento não vende. Dito isto, acho que se notou alguma falta de imaginação sobre o complexo futuro que queremos. Porque a economia e a sociedade… isso não existe. Não há “uma” sociedade, nem nós queremos “uma” sociedade. A sociedade é um complexo de estruturas. Eu resido numa vila no concelho de Santarém e não me revejo – entendo, claro, mas não me revejo – no que aqui ouvi. O que eu ali vivo não é igual ao que vocês vivem nos contextos onde habitam. Não há crise de habitação na minha vila, por exemplo. Nem em grande parte do mundo rural. A falta de imaginação para imaginarmos mais colectivamente os futuros – e as bitolas, as traves mestras do futuro que queremos mais justo e mais equilibrado – é uma conversa na qual vale sempre a pena insistir».

    Isto não é uma questão de consciência, é mesmo uma questão de poder. E quem o tem está a enviar-nos directamente para o colapso.

    Beatriz coloca a urgência em primeiro lugar. Para ela, «antes de se construir um futuro, temos de ter um presente garantido. Se não travarmos a crise climática, estes agricultores, as pessoas que vivem no meio rural, não vão ter processos democráticos de escolha sobre o futuro». Inês segue uma linha semelhante e refere que «a campanha Empregos para o Clima implica exactamente isso de ir conversar com os trabalhadores directamente afectados pela transição. Mas, de facto, é um processo que se tem demonstrado extraordinariamente lento. Não abandonámos a ideia, claro, mas se tivermos de convencer toda a gente antes de travarmos a crise climática, as coisas vão correr muito mal».

    Linguagem

    «Romper a normalidade», «intensificar o conflito», um discurso estrategicamente pensado como pertencendo a um «tempo de guerra», é algo que na plateia alguém classificou como assustador. «O que é que vem a seguir? Se não resultar, o que vem a seguir à guerra?», questionava-se. «A extinção», foi a resposta imediata de Inês Teles. Ao que Beatriz Xavier acrescentou: «a questão é que a actualidade é mesmo assustadora. A ciência di-lo há anos e as petrolíferas sabem há muito mais tempo do que todos nós: temos prazos. E têm estado a ocultar factos e a causar, coordenadamente, a nossa destruição. Isto, sim, é guerra». Para Inês, o discurso bélico é útil também para «percebermos o nosso papel e o que devemos fazer. A minha bisavó lutou contra o fascismo. É uma inspiração quase todos os dias, pensar que, na altura, ela decidiu que aquilo era o que a vida dela tinha de ser, porque não havia opção senão resistir».

    Ainda na plateia, continuaram as queixas sobre o discurso ambientalista, «sobrecarregado de expressões que confundem muito. Há palavras que, no seio do movimento, não querem dizer a mesma coisa que para outras pessoas. Fala-se cada vez mais de transição energética quando, empiricamente, não há nenhuma transição a acontecer. Não há transição, há expansão. O que o mito da transição possibilita não é um planeta melhor, é mais lucros fósseis, agora pintados de verde». «Os grandes responsáveis pelos caos climático são exactamente quem nos propõe as soluções. É o capitalismo a fazer o seu trabalho», ouviu-se. Mais à frente, outra pessoa retomaria esta ideia: «o capitalismo está, de facto a fazer o seu trabalho quando nos diz que, desde que todos tenhamos um Tesla, acabam as emissões de carbono».

    Beatriz assegura que «a nossa noção de transição energética é bastante diferente da dos governos ou das empresas». Inês afirma que, no Climáximo, «colocamos sempre muito ênfase no carácter sistémico, na questão da acção colectiva e no facto de que a individualização destes problemas não vai mudar nada de substancial. Temos de operar em várias frentes. Desmisificar e insistir. Constantemente. Insistir. Insistir. Insistir. Dizer a mesma coisa vezes sem conta. O que a GCE fez, ao atirar tinta aos ministros, calculo, foi exactamente isso de dizer, de forma muito clara e mediática, que isto não é transição nenhuma».

    Climáximo

    Repressão

    Se, no início, alguns actos de desobediência ou bloqueio eram vistos com condescendência paternalista, agora, com o desenvolvimento de acções mais incomodativas e com a perda de simpatia por parte de mais camadas populacionais, a reacção das autoridades também tem escalado. O Estado parece, também ele, ter assumido a existência duma guerra e iniciou o afã de identificações, detenções e abusos com que historicamente persegue os movimentos sociais inorgânicos mais activos.

    Inês afirma que «a nossa determinação não é abalável por essa repressão, que já existe há muito no Sul global e nos bairros marginalizados. A resposta do Estado é natural. Eles irão sempre tentar defender o seu próprio sistema e irão sempre atacar-nos e colocar-nos como se fossemos criminosos, quando os criminosos são eles. E a nossa resposta tem de ser a solidariedade e o apoio mútuo para fazer frente a esta repressão, às multas que nos impõem como resultado disto». Solidariedade e apoio mútuo, sim, principalmente, porque, como alguém disse: «A Terra tem apenas 12 mil quilómetros de diâmetro e somos todos seus filhos. O planeta é uma criança, é muito pequenino, devia provocar sentimentos de ternura. Agora eles andam a fazer furos até ao útero do planeta».

     


    Texto de  Guilherme Luz e  Catarina Leal
    Ediçã0 de  Teófilo Fagundes e  Sandra Faustino
    Fotografias de  Climáximo


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #41, Abril|Junho 2024.