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  • «Somos a última geração que pode travar a crise climática»

    «Somos a última geração que pode travar a crise climática»

    A convite da Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, o Jornal MAPA sentou-se com activistas da Climáximo e da Greve Climática Estudantil (GCE), no dia 25 de janeiro de 2024, para uma conversa aberta ao público. Depois de termos noticiado algumas das acções da Climáximo e da GCE em edições passadas do Jornal, interessava agora promover uma conversa aprofundada sobre o que essa acções representam, sobre o que se imagina como futuro desejável e sobre as estratégias a adoptar para chegar a esse futuro.

    Martim Bernardes começou por apresentar a GCE como um «colectivo horizontal, criado em 2018 pelo movimento Fridays for Future de Greta Thunberg e que, nesse ano e no seguinte, organizou várias marchas com centenas de milhar de pessoas um pouco por todo o mundo». Beatriz Xavier, também da GCE, acrescentou que este é um «colectivo de estudantes para estudantes, para o qual a escola é o espaço de organização». Sobre essas primeira marchas, Beatriz recorda que não eram suficientes – «percebemos entretanto que isso não estava a resultar – que continuávamos a caminhar cada vez mais para o colapso. É aí que surgem novas campanhas e outras acções, como o End Fossil Ocuppy, que lançámos em 2022. Desde então, tem havido várias – muitas – ocupações de escolas secundárias e faculdades, em Portugal como em todo o mundo».

    Sobre o Climáximo, Inês Teles, diz ser um «colectivo que existe desde 2015, aberto, horizontal e anti-capitalista, que esteve muito envolvido nas lutas para parar os furos de petróleo na costa alentejana e a prospecção de gás na Bajouca, lançou a campanha Empregos para o Clima e tem vindo, ao longo dos anos, a praticar todo um leque de possibilidade de acções de protesto». Inês acrescenta que o Climáximo «se tem focado muito na acção directa e na desobediência civil» e que teve «um impulso importante, em 2019, com o surgimento da GCE, ou melhor do Fridays for Future, e da Extinction Rebellion, a nível global, o que, obviamente, criou um ambiente bastante diferente dentro da luta climática e que também afectou a acção do Climáximo».

    «No ano passado», prossegue, «tivemos uma grande acção – Parar o Gás, um bloqueio do terminal de gás liquefeito em Sines. Foi também no ano passado que percebemos que o que estávamos a fazer há tanto tempo não estava a resultar, que as coisas estavam a ficar piores, não só a nível climático mas também a nível social e político. Decidimos mudar radicalmente a forma como nos estávamos a relacionar com a luta e inaugurámos, mais ou menos em Setembro do ano passado, esta fase em que afirmamos que as empresas e os Estados nos declararam guerra, no sentido em que as emissões continuam a aumentar, e os governos, um pouco por todo o mundo, continuam a procurar novas possibilidades de exploração de gás, de petróleo, de combustíveis fósseis, e continuam a construir novas infraestruturas que irão causar mais emissões. Decidimos, então, que temos de colocar a crise climática no centro do debate político e, nesse sentido, mudar as nossas tácticas e as nossas estratégias. Já nesta fase, fizemos 21 acções nos últimos meses do ano passado».

    Climáximo

    Descarbonizar

    O que entendem estes colectivos por «descarbonização» e o que é necessário fazer para chegar a uma «descarbonização» efectiva? Para Beatriz Xavier «é preciso o fim do fóssil até 2030, um prazo ditado pela ciência», ainda que reconheça que «neste sistema económico, a descarbonização é impossível, uma vez que os governos irão sempre proteger o lucro fóssil das empresas».

    Para Inês Teles, «esta questão vem de encontro ao programa político que o Climáximo apresentou, o Plano de Desarmamento e Plano de Paz, que começa exactamente por parar todos os projectos que estão em processo de aprovação ou execução e que vão aumentar emissões – por exemplo, novos aeroportos, a expansão de terminais de gás, etc. – e também parar com todo o consumo que é completamente supérfluo, como jactos privados ou iates». Para Inês, descarbonizar é «parar imediatamente a queima de combustíveis fósseis. Isso é a base de tudo». Uma segunda fase do plano «é desactivar todas as infraestruturas emissoras que existem. E isso passa pelo sector agrícola, pelo da aviação, e passa, naturalmente, pelo sector da energia e dos transportes. Para isso, avançámos com uma série de medidas que visam uma transição justa e que não deixa ninguém para trás». O Plano de Paz proposto pela Climáximo «é uma coisa que tem de ser construída com outros actores da sociedade. Estamos a falar com outros grupos, a pedir feedback, de forma a podermos desenhar algo em conjunto dentro das ideias feministas, de cuidados, anti-racistas, anti-coloniais».

    Que futuro?

    Quisemos perceber melhor como é que a implementação de um «programa político» como o Plano de Paz evita a concentração de poder – algumas das propostas são tão complexas que parecem impraticáveis sem Estados e outras instituições. Poderá a transição ser feita de cima para baixo? Inês Teles considera que «temos de admitir a posição em que estamos. E estamos a perder redondamente. É verdade que, mesmo dentro da esquerda, existem tensões, nomeadamente esta questão do Estado. Muitas das nossas medidas são de base e descentralizadas. A “democracia energética” visa precisamente um controlo democrático sobre o sector da energia que esta esteja ao serviço das comunidades e gerido pelas próprias comunidades. Depois existem questões que são tão grandes que, de facto, quase inevitavelmente, têm de ter um certo grau de centralização. Temos muito pouco tempo para fazer essas mudanças. A abordagem é uma espécie de mistura entre medidas que permitam democratizar ao máximo todos estes processos e algum controlo que acaba por ter de ser centralizado». Movida pelo sentido de urgência, Inês acrescenta que «é por isso que, enquanto não houver garantia de futuro, vamos continuar a perturbar a paz e a chatear toda a gente. Porque não fazer nada é que não pode ser, inviabiliza vida. As emissões continuarão, com milhares de pessoas mortas ou deslocadas (até 2050, prevêem-se mais de mil milhões migrantes climáticos, ou seja uma em cada nove pessoas no mundo)».

    Inaugurámos, mais ou menos em Setembro do ano passado, esta fase em que afirmamos que as empresas e os Estados nos declararam guerra.

    Lutas próximas que andam longe

    Globalmente, a «transição energética» é uma estratégia fracturante. Movimentos como o dos agricultores que cortam estradas por toda a Europa, ou como o dos coletes amarelos, em França, são instrutivos – as populações que mais sofrem com as alterações climáticas são também as que mais parecem sofrer com a transição. Se não questionarmos a transição verde como uma nova concentração de poder e de capital, como uma mera transferência dos lucros que eram dos combustíveis fósseis para outros sectores, não irão estas pessoas continuar a ver qualquer transição como um ataque directo às suas vidas?

    Beatriz Xavier concorda que a «transição» é «uma palavra de moda a que as empresas se agarram para tentar conservar os seus lucros e privilégios. Quando falamos para fora, dizemos que esta “transição energética” não pode ser feita no quadro do sistema económico actual, porque, para acontecer, o lucro não pode estar acima da vida. Em Portugal, por exemplo, vemos trabalhadores a serem despedidos de refinarias sem outra opção de emprego…».

    Inês Teles acrescenta que «a ideia de capitalismo verde é uma falácia total. Nós opomo-nos a todo esse greenwashing que as empresas fazem para dar a entender que é possível fazer uma transição positiva e, ao mesmo tempo, continuar com o seu modelo de negócio. Na verdade, mais do que uma transferência de lucros, há uma tentativa de expansão das várias oportunidades de negócio. As empresas não estão sequer a abandonar os combustíveis fósseis. Tiveram, aliás, nos últimos dois anos, os maiores lucros da história das empresas de combustíveis fósseis. Empresas como a GALP tentam passar a ilusão de que estão preocupadas e que são líderes da transição, enquanto continuam a explorar combustíveis fósseis, nomeadamente no Sul Global. Obviamente que isto é uma farsa total. Coisas como impostos sobre o carbono fazem parte desta farsa, uma outra forma de greenwashing. São coisas que tentamos transmitir quando comunicamos. Fazemos o mesmo com a injustiça: o 1% mais rico do planeta tem mais emissões do que os dois terços mais pobres da população mundial. Tornar muito claras estas discrepâncias e estas injustiças é uma das pontes eventuais com as pessoas de baixo que se sentem ameaçadas por esta transição». Beatriz Xavier (GCE) lembra que «a campanha Empregos para o Clima, que tanto o Climáximo como a GCE apoiam, pretende ajudar a que esta transição, desde que posta dentro dos moldes da vida acima do lucro, crie 200 mil novos postos de trabalho».

    Sermos a geração que já nasceu em crise climática e também termos a consciência de que somos a última que a pode travar, é algo muito forte.

    Estratégia

    Foi em 2018 que a GCE começou com a organizar manifestações com milhares de jovens. Na altura, grande parte das pessoas simpatizava com essas mobilizações mas, de repente, as formas de luta tornaram-se mais aguerridas, passou a haver mais acção directa e um discurso de guerra – de estado de excepção. Como diz Beatriz Xavier, «tínhamos muito mais apoio institucional em 2018/19, porque não tínhamos reivindicações concretas. Dizíamos “não há planeta b”, e achavam-nos fofinhos. E fomos percebendo que, apesar de termos visto centenas de milhar de pessoas nas ruas, as coisas estavam a piorar. Estavamos a ser vistas como jovens que iam para as ruas mas que não metiam medo a ninguém. As emissões continuavam a aumentar, as COP [Conferências das Partes] – que existem há mais tempo do que eu existo – continuavam a prometer-nos coisas que nunca aconteciam ou a decidir coisas que não estavam em consonância com os relatórios do IPCC [Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas]. E chegámos à conclusão de que era preciso ser disruptivo, porque nunca qualquer movimento social teve vitórias apenas através de manifestações, procurando consensos com o poder. Tínhamos de romper a normalidade. Sermos a geração que já nasceu em crise climática e também termos a consciência de que somos a última que a pode travar, é algo muito forte».

    No caso do Climáximo, a alteração de estratégia não foi tão profunda. Inês Teles confirma-o: «Já fomos mais fofinhos, mas nunca fomos tão fofinhos como a GCE e já estamos a fazer este tipo de acção directa e desobediência civil há muito mais tempo. Esta mudança de que falei há pouco, em que dizemos que estamos em guerra, foi precisamente por reconhecermos que as formas de luta normais não estavam a resultar. Isso não significa que temos a resposta mágica sobre o que é preciso fazer. Não! Sabemos apenas que temos de fazer outras coisas. É nesse sentido que fazemos estas acções de disrupção pública, em que vamos perturbar a circulação, bloquear ruas. Ao mesmo tempo, estamos a tentar desafiar o resto do movimento social a pensar da mesma forma, a olhar à sua volta e tentar perceber se o que anda a fazer está a resultar. E claramente não está. Temos de tentar de formas diferentes. E avaliar. E tentar de novo de formas diferentes».

    Para Beatriz Xavier, «isto não é uma questão de consciência, é mesmo uma questão de poder. E quem o tem está a enviar-nos directamente para o colapso. Olhando para os governos e instituições, apesar de se dizerem democráticos, não são democráticos quando não defendem o direito à vida. Se é uma questão de poder, temos de ganhar o poder pelas nossas próprias mãos. Se a vida da maioria de nós não está a ser garantida por quem a deveria proteger, temos de o fazer nós mesmos».

    Exigir mudanças a governos que têm de agradar a liberais e negacionistas não pode, de facto, ser uma estratégia vitoriosa. Para além disso, como lembra Beatriz, «a crise climática está a apertar cada vez mais os seus prazos» e a rapidez da transição é um factor fundamental para que se cumpram alguns dos objectivos da GCE e do Climáximo, o que, neste ambiente político que se vai fechando, se torna cada vez mais difícil. A certa altura, a ciência poderá dizer que já passámos determinado ponto de não retorno – paradoxos que nos fazem perder o sono? Inês Teles prefere dormir bem e utilizar as hora acordadas a «construir a ideia de que é possível lutar para fazer a transição – em oposição a essa ideia de que já não é possível, que é, de facto comum a muitas pessoas. Temos de mostrar que o poder popular existe e que é possível denunciar e desafiar o sistema em que vivemos. Obviamente que não é fácil e é por isso que desfiamos toda a gente a fazer o mesmo. Temos de adoptar novas formas de luta, operar em solidariedade e tentar, por vários lados, atingir o capitalismo onde dói. Demonstrar-lhes que temos força e fazer o medo passar para o lado deles. A questão é que não vale a pena fingir. As coisas estão más e só vão ficar piores. Não resistir não é sequer uma opção».

    Climáximo

    Ligações

    Que existem pontes entre os dois colectivos presentes não é difícil de adivinhar. O Climáximo foi, nas palavras de Beatriz, «um dos grandes auxílios para a criação do movimento climático estudantil» e andaram sempre bastante ligados, até porque «são colectivos que partilham uma visão política». Mas quisemos também saber como é a ligação com outros colectivos, com outras geografias, mesmo com outras lutas.

    Beatriz lembra que a GCE actua sobretudo nas escolas, mas que as conversas que organizam lembram sempre que as lutas não se travam isoladamente. Nos tempos mais recentes, a GCE tem, aliás, andado bastante activa também na denúncia do genocídio israelita. «Temos feito várias acções com o Colectivo pela Libertação da Palestina, e também fazemos parte da marcha Casas para Viver, Planeta para Habitar. Acreditamos que todas estas lutas têm uma causa comum – o capitalismo – e, portanto, sabemos que a justiça climática não vem dissociada da justiça social».

    Inês conta-nos que, «durante muito tempo, o Climáximo apostou muito na construção de plataformas e na articulação com outros colectivos. Nesta transformação recente, desinvestimos um pouco de colocar muita energia na criação de plataformas e de alianças, nomeadamente com colectivos que não colocam as coisas das forma que nós colocamos. Os nossos esforços de alianças estão mais virados para colectivos nos quais nos reconhecemos, como acontece com a Habita ou a Stop Despejos, exactamente por considerarmos – todos – que estamos perante uma emergência e que é preciso alterar as formas de luta tradicionais».

    Quanto às relações com lutas mais distantes, como a que está viva no Barroso contra a exploração mineira, Inês explica que «houve várias tensões com o movimento contra a prospecção de lítio, mas acho que resultaram de mal-entendidos e de falta de comunicação entre os dois lados. Acho que eles têm a ideia de que nós queremos uma espécie de capitalismo verde, o que é completamente errado. Há algum tipo de tensão ainda, sim, mas temos toda a vontade de a desfazer, até porque consideramos que todos estes contratos de exploração de lítio são completamente inaceitáveis».

    Decrescer, acrescer e desenergizar

    Da assistência de cerca de três dezenas de pessoas saltaram também algumas questões. As primeiras assinalaram a ausência de um discurso que ponha em causa os níveis de consumo de energia e que problematize a transição digital como forma de manter ou aumentar esse consumo de forma exponencial. Mais à frente, alguém diria que «a questão não é apenas a descarbonização, é a “desenergização”», enquanto outras pessoas falariam em «decrescimento». Para Inês Teles, não há dúvida de que o descrescimento faz parte das propostas do Climáximo, mas confessa que «a ideia de descrescimento não é muito mobilizadora, porque se queremos falar com as pessoas que estão na mó de baixo e lhes falamos de decrescimento, elas podem pensar que lhes queremos tirar ainda mais. Ou seja, duma perspectiva teórica faz todo o sentido, mas utilizar o conceito para mobilizar, parece-me uma coisa de classe média».

    Coincidência ou não, havia pelo menos uma pessoa da Rede para o Decrescimento entre a assistência que lembrou que «Serge Latouche, no último livro, que está traduzido nas Edições 70, introduz a palavra “acrescimento”, que, se calhar, ainda é mais complexa. Mas, de facto, o decrescimento não vende. Dito isto, acho que se notou alguma falta de imaginação sobre o complexo futuro que queremos. Porque a economia e a sociedade… isso não existe. Não há “uma” sociedade, nem nós queremos “uma” sociedade. A sociedade é um complexo de estruturas. Eu resido numa vila no concelho de Santarém e não me revejo – entendo, claro, mas não me revejo – no que aqui ouvi. O que eu ali vivo não é igual ao que vocês vivem nos contextos onde habitam. Não há crise de habitação na minha vila, por exemplo. Nem em grande parte do mundo rural. A falta de imaginação para imaginarmos mais colectivamente os futuros – e as bitolas, as traves mestras do futuro que queremos mais justo e mais equilibrado – é uma conversa na qual vale sempre a pena insistir».

    Isto não é uma questão de consciência, é mesmo uma questão de poder. E quem o tem está a enviar-nos directamente para o colapso.

    Beatriz coloca a urgência em primeiro lugar. Para ela, «antes de se construir um futuro, temos de ter um presente garantido. Se não travarmos a crise climática, estes agricultores, as pessoas que vivem no meio rural, não vão ter processos democráticos de escolha sobre o futuro». Inês segue uma linha semelhante e refere que «a campanha Empregos para o Clima implica exactamente isso de ir conversar com os trabalhadores directamente afectados pela transição. Mas, de facto, é um processo que se tem demonstrado extraordinariamente lento. Não abandonámos a ideia, claro, mas se tivermos de convencer toda a gente antes de travarmos a crise climática, as coisas vão correr muito mal».

    Linguagem

    «Romper a normalidade», «intensificar o conflito», um discurso estrategicamente pensado como pertencendo a um «tempo de guerra», é algo que na plateia alguém classificou como assustador. «O que é que vem a seguir? Se não resultar, o que vem a seguir à guerra?», questionava-se. «A extinção», foi a resposta imediata de Inês Teles. Ao que Beatriz Xavier acrescentou: «a questão é que a actualidade é mesmo assustadora. A ciência di-lo há anos e as petrolíferas sabem há muito mais tempo do que todos nós: temos prazos. E têm estado a ocultar factos e a causar, coordenadamente, a nossa destruição. Isto, sim, é guerra». Para Inês, o discurso bélico é útil também para «percebermos o nosso papel e o que devemos fazer. A minha bisavó lutou contra o fascismo. É uma inspiração quase todos os dias, pensar que, na altura, ela decidiu que aquilo era o que a vida dela tinha de ser, porque não havia opção senão resistir».

    Ainda na plateia, continuaram as queixas sobre o discurso ambientalista, «sobrecarregado de expressões que confundem muito. Há palavras que, no seio do movimento, não querem dizer a mesma coisa que para outras pessoas. Fala-se cada vez mais de transição energética quando, empiricamente, não há nenhuma transição a acontecer. Não há transição, há expansão. O que o mito da transição possibilita não é um planeta melhor, é mais lucros fósseis, agora pintados de verde». «Os grandes responsáveis pelos caos climático são exactamente quem nos propõe as soluções. É o capitalismo a fazer o seu trabalho», ouviu-se. Mais à frente, outra pessoa retomaria esta ideia: «o capitalismo está, de facto a fazer o seu trabalho quando nos diz que, desde que todos tenhamos um Tesla, acabam as emissões de carbono».

    Beatriz assegura que «a nossa noção de transição energética é bastante diferente da dos governos ou das empresas». Inês afirma que, no Climáximo, «colocamos sempre muito ênfase no carácter sistémico, na questão da acção colectiva e no facto de que a individualização destes problemas não vai mudar nada de substancial. Temos de operar em várias frentes. Desmisificar e insistir. Constantemente. Insistir. Insistir. Insistir. Dizer a mesma coisa vezes sem conta. O que a GCE fez, ao atirar tinta aos ministros, calculo, foi exactamente isso de dizer, de forma muito clara e mediática, que isto não é transição nenhuma».

    Climáximo

    Repressão

    Se, no início, alguns actos de desobediência ou bloqueio eram vistos com condescendência paternalista, agora, com o desenvolvimento de acções mais incomodativas e com a perda de simpatia por parte de mais camadas populacionais, a reacção das autoridades também tem escalado. O Estado parece, também ele, ter assumido a existência duma guerra e iniciou o afã de identificações, detenções e abusos com que historicamente persegue os movimentos sociais inorgânicos mais activos.

    Inês afirma que «a nossa determinação não é abalável por essa repressão, que já existe há muito no Sul global e nos bairros marginalizados. A resposta do Estado é natural. Eles irão sempre tentar defender o seu próprio sistema e irão sempre atacar-nos e colocar-nos como se fossemos criminosos, quando os criminosos são eles. E a nossa resposta tem de ser a solidariedade e o apoio mútuo para fazer frente a esta repressão, às multas que nos impõem como resultado disto». Solidariedade e apoio mútuo, sim, principalmente, porque, como alguém disse: «A Terra tem apenas 12 mil quilómetros de diâmetro e somos todos seus filhos. O planeta é uma criança, é muito pequenino, devia provocar sentimentos de ternura. Agora eles andam a fazer furos até ao útero do planeta».

     


    Texto de  Guilherme Luz e  Catarina Leal
    Ediçã0 de  Teófilo Fagundes e  Sandra Faustino
    Fotografias de  Climáximo


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #41, Abril|Junho 2024.

  • As pessoas só pensam no trabalho

    As pessoas só pensam no trabalho

    Quando a vaga de trabalhadores migrantes, a precarização dos salários e a falta de habitação ecoam nas ruas, podemos falar em Sines de um cenário de conflitos sócio-ambientais?

    Nos artigos anteriores [1][2], traçámos a identidade industrial de Sines e falámos de como a demanda energética recentra os impactes ambientais na sua periferia. Mas qual é a dimensão social e conflituante presente neste devir industrial que se trasveste de transição verde?

    Antonio Maria Pusceddu, antropólogo do CRIA-ISCTE, tem trabalhado na história e na transformação das regiões industriais, incluindo as novas «geografias da energia» nos contextos da Transição. Em Itália, interessou-se pelo complexo petroquímico de Brindisi e o gerar de «ambientalismos operários» no cruzamento da fábrica com os movimentos ambientalistas. Por cá, encontrámo-nos em Sines para uma conversa. Desde logo, Pusceddu refere uma diferença crucial (já apontada também na entrevista a Sergio Marashin): «enquanto em Brindisi toda a questão de saúde se tornou uma ferramenta muito forte em todo o movimento ambiental, em Sines nada. Os estudos epidemiológicos foram feitos pelas autoridades sanitárias públicas na relação entre a poluição ambiental e um conjunto de cancros. Em Sines, numa primeira impressão, parece que se trata de uma área pacificada. Não é de todo certo que não exista, há as suspeitas…, os colegas que no passado podem ter morrido por causa da exposição à toxidade, mas a imagem fabricada é que Sines é a coisa mais sofisticada e limpa do mundo».

    Pesquisando as memórias pós 25 de Abril em Sines, Pusceddu de imediato anotou uma «luta pela sobrevivência da cidade, em que no plano original as pessoas seriam deslocadas para Santo André e Sines seria, como dizia o primeiro director do Gabinete da Área de Sines, o Cais do Sodré do Alentejo». Apesar do movimento popular até à Greve Verde, «ainda agora, numa conferência dos 50 anos de Abril, se apontou essa ideia canónica de que havia coisas mais urgentes a pensar do que o ambiente, reduzindo-o àquela visão burguesa da defesa da natureza e ignorando tudo aquilo que desencadeia.» Assim, acerca das questões ambientais, não hesita em afirmar não haver actualmente «uma grande preocupação em relação ao que está a acontecer [na região], para lá de um conjunto de pessoas que fazem parte de uma rede que vai para além de Sines».

    Trabalho, Ambiente e Transição

    Uma dessas pessoas é Bruno Candeias, natural das Ermidas do Sado, trabalhador e sindicalista na REPSOL, membro do Bloco de Esquerda e uma das vozes activas dos movimentos ambientalistas do litoral alentejano. Ser delegado sindical e activista ambiental «não é fácil! É um exercício diário, tentar encontrar soluções, narrativas que permitam defender o trabalhador na transição justa. O que não é fácil porque entramos num patamar de suposições e para os trabalhadores as suposições são nada; precisam sim de soluções concretas, no momento. Por outro lado, é difícil dialogar com os trabalhadores e com as comunidades, porque vivem dessas indústrias, e os próprios sindicatos no seu geral são muito recuados em relação a isso. O SIEAP, Sindicato das Indústrias, Energias, Serviços e Águas de Portugal, a que pertenço, é um sindicato pequeno que ainda vai falando sobre isso, mas na maior parte das vezes há mesmo contradições.

    Neste ponto, é obrigatório falar do fecho da Central Termoeléctrica a carvão de Sines. Para Bruno Candeias, se este «foi um contributo essencial, o problema é que existem coisas que se tornam difíceis para todos aqueles que defendem esse caminho do encerramento. Uma, é agora importar de Espanha ou de Marrocos energia que vem do carvão ou do nuclear, o que é uma hipocrisia. O segundo aspecto é que, de 400 trabalhadores, 300 foram para o fundo de desemprego. Não houve um planeamento sério para fazer disto um exemplo nacional, para que todos pudessem ver que sim, é possível encerrar indústrias poluentes sem que ninguém perca os seus direitos e os seus postos de trabalho. No entanto, não foram vistos como trabalhadores penalizados pela transição, mas entregues à selvajaria do mercado de trabalho. Foi muito mau.»

    «No caso da Central, se o nosso Sindicato dizia que não vale a pena andar para trás, temos é de encontrar soluções; tínhamos a CGTP à porta da fábrica a dizer que era urgente que não fechasse, a apelar à produção nacional e à nacionalização de sectores estratégicos. A perspectiva é sempre a mesma e a questão ambiental é secundarizada. Desde que seja estratégico do ponto de vista económico para o Estado, a questão do carvão é pouco relevante. Um tipo de discurso que não ajuda muito na própria comunidade local onde, com essas entropias, não há entendimento.»

    António Pusceddu prefere enquadrar o discurso da CGTP na «reconfiguração que começou há vinte anos para fazer de Sines uma porta de entrada no circuito global de mercadorias, mais do que um lugar de produção. Daí terem um discurso sobre a soberania nacional e defesa das capacidades produtivas. Discurso que perdurou no encerramento da Central. Este foi um daqueles casos exemplares em que tudo é alimentado para aquele tipo de conspiração à volta da Transição. Alguém diria “conspiração”, mas é realmente um caso claro desta grande reestruturação do Capital na dita Transição verde. A acção do Estado, da Câmara, revelou falta de capacidade de resposta e que a EDP poderia fazer o que quisesse. Em nome da Transição. O discurso da soberania nacional e da defesa produtiva levanta um paradoxo que não é de resposta fácil e é partilhado por muitos: daqueles que podem ter posições negacionistas aos que tenham uma clara posição de defesa da necessidade de uma Transição, questionando contudo se é possível ter uma Transição Energética nacional. Qual é o contributo oriundo de uma migalha, como Portugal, numa dimensão global? É evidente que esse discurso levanta questões. E depois, enfim, encerra-se a Central e aumenta o volume do tráfico marítimo do Porto de Sines, responsável pelas maiores emissões. Um conjunto de paradoxos e, claramente, de contradições».

    Migrantes, Salários e Habitação

    Ambiente à margem, em Sines há outras preocupações. Diz-nos António que «há mais uma preocupação com o efeito que está a ter esta expansão industrial, em termos de um grande número de força de trabalho, na sua maioria de comunidades migrantes, em condições bastante complicadas, e uma série de fricções que se estão a agudizar em relação aos salários. Porque esta sobreabundância de mão de obra resulta em dumping salarial e está a criar uma situação bastante explosiva em relação às formas regressivas que estes salários podem ter. Acho que as preocupações são mais nesse sentido. Há um conjunto de transformações que já aconteceram no sentido de uma maior precarização, como se vê pelo número de agências de trabalho temporário, que em Sines é absurdo, ou quando no Porto de Sines se cria uma empresa onde em 1200 estivadores nem 100 são directos. Daí a grande preocupação com a deterioração das condições de vida, com o grande afluxo de trabalhadores, a falta de habitação e a questão salarial. Dentro destas questões não vejo haver grande preocupação por parte dos trabalhadores sobre a questão ambiental, nem climática.»

    O investigador recorda o movimento pela justiça climática, como alguma preocupação da Climáximo numa aproximação a Sines. «Mas no feedback que continuo a ter de pessoas que estão de alguma forma alinhadas com as mesmas estratégias, a percepção é de desacordo profundo com as modalidades e a ingenuidade em trazer modelos de acção mais metropolitanas, que num contexto de Lisboa e Porto têm possibilidade de crescer, mas num contexto mais pequeno, onde a questão laboral é muito mais forte, correm o risco de ter o efeito contrário.»

    Bruno Candeias sabe que está perante «um apego ainda muito grande às concepções vindas do socialismo real, digamos assim, da industrialização e do progresso. Aquela lógica do progresso a favor dos trabalhadores, que é a história de Sines. A lógica de esquerda aqui criada a seguir ao 25 de Abril ou a que existe actualmente, uma lógica totalmente de mercado, é igual. Só muda a cor da bandeira. Emprego, emprego, emprego e o resto não interessa. Quando foi da operação Influencer, mais do que o estrito caso, a nível local todos vieram a partilhar uma mesma linha fundamental: os projectos não podem parar, queremos desenvolvimento. Por outro lado, em São Domingos ou no Cercal, geraram-se pequenos movimentos de cidadãos que têm feito um trabalho imenso, porque há a consciência da destruição da identidade rural que os levou a viver ali. Aí é possível chegar próximo das pessoas e ser compreendido porque há de facto uma fractura. Aqui o grande desafio é como conseguirmos criar uma narrativa que seja aceite e consiga disputar o espaço público desta identidade e dependência industrial. Há uma incapacidade muito grande de quem defende os caminhos alternativos em derrubar a barreira da comunicação.»

    sines
    Hortas do bairro Amílcar Cabral. Fotografia de António Pusceddu

    O que mobiliza?

    «A percepção da transição permanece muito no campo teórico académico», acaba por nos dizer António Pusceddu. «Poderemos falar de muitas respostas, como a reindustrialização noutro sentido, mas qual é o sujeito que transportará as respostas? Não é apenas elaborar as respostas, mas qual é essa massa crítica. O facto de não existir talvez advenha desta ser uma cidade constrangida em termos de dimensão, apesar de agora não sabermos exactamente quantas pessoas estão a morar em Sines. Moro no bairro Amílcar Cabral, onde há uma associação que funciona como apoio aos migrantes, que estão a aumentar. A conjuntura é super favorável para o capital, com milhares de trabalhadores à disposição, sem nenhuma responsabilidade em termos de emprego numa selva de empreiteiros.»

    Bruno contrapõe a ideia de uma reindustrialização apelando ao papel do Estado e aos empregos para o clima. «É obviamente muito difícil voltarmos à ideia da pequena aldeia, até porque há uma identidade industrial aqui que não pode ser desvalorizada. Pelo que se quisermos fazer uma reindustrialização adaptada à nossa realidade e aos novos desafios, nomeadamente à questão climática, que tenha uma perspectiva social agregada, temos de pensar que tipo de indústrias faz sentido existirem.»

    Intersectando a linha condutora deste raciocínio, António, antropólogo à escuta, liga a omnipresente visão trabalhista com «essa ideia do senso comum, banal, mas recorrente, de que “as pessoas só pensam no trabalho”. E aí vês as dimensões de vida a esvaziarem-se, da vida cultural, da vida em comunidade. Os sítios de referência da cidade abandonados, como se esta fosse somente uma reserva da força de trabalho.»

    Chegamos ao fim da conversa e para Bruno Candeias «a propaganda que é feita, muito forte e difícil de combater, é de que Sines vai se transformar radicalmente num pólo industrial verde. Essa é a falácia. E não há uma conexão entre as pessoas que aqui vivem e as pessoas dos territórios que vão ser sacrificados aqui ao lado. Propositadamente. Pelo que há que tentar conseguir criar um elo entre tudo isto.»

    Para António Pusceddu «fica a pergunta em cima da mesa: como é que essa articulação consegue ir além da pequena obrigação do indivíduo, ou seja, qual é o motivo mobilizador? A defesa do ambiente, a justiça climática, concordamos todos, mas há que aumentar a parada. O discurso climático é “o” discurso, logo subordinado à justiça climática algo que me parece politicamente um bocado míope. Podemos todos concordar, mas aqui a mobilização está a fazer-se para quê, exactamente? Parece-me demasiado evanescente. Não quer dizer que a questão climática não seja um problema, mas será um motivo socialmente mobilizador fora de alguns contextos?».

     


    Legenda da fotografia [em destaque]: Central Termoeléctrica de Sines, 2007 | Fotografia de  João Campos (CC 2.0]


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #42, Julho|Setembro 2024.

  • Sines, a megalomania triunfante

    Sines, a megalomania triunfante

    O Porto e o Complexo Industrial de Sines permanecem como a promessa nacional de um crescimento infinito.
    Esta é uma história em curso de conflitos sócio-ambientais.

    A vida em Sines mudou drasticamente em 1971, quando, por decisão do Estado Novo, se impôs a criação do Complexo Industrial de Sines. Tão pouco o 25 de Abril travou a forja de uma identidade industrial da qual não há volta atrás. O quotidiano das populações alicerçou-se numa ideia da modernidade e progresso que subjaz à dicotomia entre «trabalho» e «ambiente». Entre uma indústria que fixa as populações, lhes aumenta os rendimentos e os níveis de consumo e uma acelerada perda da qualidade de (e da) vida em todos os seus elementos básicos – no ar, na terra e na água –, geram-se lutas pelo território. A «competitividade nos mercados internacionais», assim decretava Marcello Caetano e todos os que se lhe seguiram, ditava o porto de águas profundas como porta de entrada europeia de energias fósseis, acoplada a uma vasta área industrial petroquímica.

    Adentro que vamos no século XXI e o crescimento portuário de Sines surge a par de dois novos paradigmas industriais: a economia dos dados digitais e a transição energética «verde». A demanda energética necessária ao novo figurino industrial de Sines faz escalar o conflito territorial a toda a região alentejana, que reclama novas zonas de sacrifício para Centrais Solares, Eólicas e Linhas de Alta Tensão. Tomemos o fio à meada da história recente de um território que em permanente ecocídio se foi – assinalemos a contrariedade do verbo – naturalizando como território industrial.

    Obra industrial centralista, Sines é hoje um concelho onde metade do território é propriedade estatal.

    O devir industrial

    O devir industrial de Sines é inaugurado pela transformação da cortiça, ainda no século XIX. Entre 1890 e 1960, para além da indústria corticeira, desenvolvia-se a indústria conserveira e o sector marítimo: pescadores e estivadores. Assim chegou o caminho-de-ferro. Em 1911, as fábricas já ocupavam um terço da população activa de Sines. Entre 1911 e 1950 a população de Sines duplicava de 4794 para 9490 habitantes. Apesar disso, a vila mantinha as suas actividades artesanais e práticas «vindas do fundo dos tempos», nas palavras de Sandra Patrício, do Arquivo Municipal de Sines.

    A doença do gigantismo

    Quando Marcello Caetano decreta, em 1971, o grande complexo portuário e industrial, nada mais será igual. Apesar da crise do petróleo de 1973, o Gabinete da Área de Sines (GAS) – «uma espécie de Estado dentro do próprio Estado fascista», dizia o comunista Américo Leal (1922-2021) – irrompia em Sines e Santiago do Cacém, impondo a expropriação das terras. «O momento da “modernização” da burguesia industrial e da tecnocracia havia chegado», como disse a socióloga Teresa Patrício, num artigo de 1991.

    O desígnio de Sines será confirmado, após o 25 de Abril, pelo III Governo Provisório de Vasco Gonçalves, que mantém a zona de actuação directa do GAS «para o prosseguimento da realização do complexo urbano-industrial». Américo Leal recorda como, de imediato, uma Comissão de Redenção do Povo de Sines veio exigir o saneamento do GAS. Nesse Agosto quente de 1975, Afonso Cautela (1933-2018) relata, no jornal O Século, como camponeses, rendeiros e pequenos proprietários resistiam ainda ao avanço industrial até chegarem os carros militares do R11 de Setúbal para «restabelecer a ordem» em nome do «bom andamento dos trabalhos, com graves prejuízos para a economia do país», cedendo as terras aos novos donos industriais. Este percussor do movimento ecologista português diagnosticava a «doença do gigantismo» do projecto de Sines: um «plano de megalomania triunfante» para «realizar à vontade o Ecocídio sistemático». O socialista Artur Costa Pina, num testemunho apelidado de “História Trágico-Industrial”, recorda Sines como uma «enorme “residencial” com uma população flutuante de milhares de pessoas com alto poder aquisitivo que implicou por reflexo um alto custo de vida», tendo a autarquia chegado ao 25 de Abril numa «situação de quase rotura do tecido social». Por tudo isso, em Fevereiro de 1975, operava um Grupo de Trabalho de Informação da População que, em plena Revolução, não se esquivava à tarefa de fazer cumprir o sonho capitalista de Marcello Caetano.

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    Manif
    Manifestações em Sines: Em 1982 na Greve Verde e em 2023 na acção Parar o Gás

    Expropriações e terrenos ao abandono

    Numa faixa de mais de 35 quilómetros e cerca de 41 mil hectares, surgia um novo porto, um complexo industrial e uma cidade de raiz: Vila Nova de Santo André, projectada para 100 mil habitantes, onde vivem hoje cerca de 11 mil, e que, junto com Sines e Santiago do Cacém, acolhia a nova população industrial, de migração interna e da vaga de retornados.

    Em 1978 tinha início a laboração da refinaria da Petrogal e a Companhia Nacional Petroquímica, actual REPSOL, e, em 1979, a Central Termoeléctrica a Carvão da EDP. O novo porto torna-se a porta de abastecimento energético do país (petróleo e derivados, carvão e gás natural). Entre 1972 e 1981, a população de Sines cresce 92% e o centro urbano 94%. O nível médio de rendimentos aumenta significativamente, mas os pescadores e pequenos proprietários agrícolas são prejudicados, uns pela contaminação do peixe, outros pelas expropriações. Até 1984, 80% de quase 22 mil hectares previstos inicialmente são expropriados. Na memória de “Lavradores e Ceifeiros, entre a Lagoa de Santo André e o Vale do Sado” (2021), Dina Calado diz-nos, sobre os montes alentejanos que hoje vemos em ruínas, que «não foram as actividades industriais que preencheram o espaço antes ocupado pela agricultura, permanecendo os terrenos ao abandono, por cultivar até à extinção do Gabinete da Área de Sines, anos oitenta dentro, justamente toda a área que fora expropriada invocando fins de utilidade pública, o que deixou acesa até hoje tensão social».

    Obra industrial centralista, Sines é hoje um concelho onde metade do território é propriedade estatal: 5,7% de órgãos da administração local; 44% de órgãos da administração central, frente a 49% de particulares e sociedades comerciais.

    Se no final dos anos 80 apenas 15% da área total industrial estava ocupada, à entrada do novo século assiste-se a um novo fôlego vindo de várias empresas nacionais e estrangeiras. Sines, que somava cerca de 12 000 residentes nas décadas de 80 e 90, chega aos censos do século XXI com 14 000. Em 1988 fora finalmente extinto o GAS, hoje substituído pela AICEP Global Parques, gestora da Zona Industrial e Logística de Sines, a maior área do tipo em Portugal. A Zona Atividades Logísticas de Sines, na zona intra-portuária, é gerida pela Administração dos Portos de Sines e do Algarve. Outras três zonas de indústria ligeira encontram-se sob gestão municipal, restando destas ainda uma zona para a instalação de novas indústrias.

    Poluição, o custo a pagar

    A década de 1980 põe em evidência o custo a pagar. A poluição. Constantes derrames dos efluentes da refinaria e das novas fábricas do complexo petroquímico nas linhas de água. Ausência de estações de tratamento de águas e um fedor nos campos e na praia. A refinaria faz descargas através do tubo submarino a uma milha da Costa do Norte, onde também os petroleiros lavam os tanques, cujo crude acosta às praias de São Torpes e Sines. Do impacte sobre a pesca resultará, em Janeiro de 1982, aquela que foi apelidada a primeira «greve verde» em Portugal, controlada pelo executivo autarca comunista, que celebra vitória com a abertura de uma ETAR. O problema estava, porém, longe de terminar. Em 1987 dá-se o derrame do petroleiro Nisa; em 1989, do petroleiro Marão. Em Maio de 2011, é interdita a pesca na zona da Costa do Norte por ser o pescado impróprio para consumo. Em terra, a Central Termoelétrica a Carvão da EDP era quem mais poluía a atmosfera em Portugal. No projecto de Sines, refere Teresa Patrício, «a noção de irreversibilidade, genericamente aceite pelo Estado e impondo uma intervenção persistente, tornou-se no princípio da “absoluta irreversibilidade”. Quanto à participação das “massas democráticas”, esta tem vindo a aumentar mas sempre subserviente à lógica imposta pelo plano inicial».

    Em Janeiro de 1983, o poeta Al Berto escrevia da sua casa na Rua do Forte, em Sines: «Anoiteceu. A vila está cercada por pipelines, luzes indecifráveis, chaminés gigantescas, máquinas que corroem a terra, traçam acessos rodoviários, fazem tudo o que se lhes depara pelo caminho. (…)

    Dentro de pouco tempo será insuportável viver aqui. O vento e as águas chegarão contaminados. A praia será um areal negro, um pesadelo sem nome, onde morrem as palmeiras, que ali plantaram. Os barcos serão os nossos fantasmas vagueando sobre as águas sujas de óleo, e uma gaivota perder-se-á no veneno da alba. Em mim nunca mais fará claro, nunca mais amanhecerá. Nem será preciso acender qualquer luz de vigia… eu morro com as paisagens».

    Da praia ao resort

    A velha tradição veraneante da praia de Sines foi sendo contrariada como opção de desenvolvimento turístico. Ainda assim, com vista à conservação de habitats de elevada biodiversidade, é criada em 1988 a Área de Paisagem Protegida do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina e, em 1995, o Parque Natural que se inicia em São Torpes, a sul de Sines.

    A aplicação de normas e avaliações ambientais, a partir da década de 1990, não impediu a crescente facilitação do licenciamento industrial ou dos «resorts» no eixo Tróia-Melides e, a sul de Sines, a partir de Porto Covo. Em Outubro do ano passado, e novamente no 25 de Abril deste ano, diversos colectivos da região marcharam em Sines e Lisboa reclamando justiça social e ambiental no litoral alentejano, e exigindo a voz das populações locais nos processos de decisão.

    O discurso politicamente correcto anuncia uma nova vaga industrial, assente, em primeiro lugar, numa reconfiguração da base energética – do fóssil aos biocombustíveis, à energia eólica e solar, e à instalação de projectos na área do hidrogénio verde.

    Crescimento do Porto de Sines

    O crescimento do Porto de Sines avança. O terminal de contentores XXI do Porto de Sines, a funcionar desde 2003, em concessão por 30 anos à PSA – multinacional estatal da Autoridade Portuária de Singapura – emprega cerca de 1.200 trabalhadores em modo precário através da subsidiária Laborsines. Para lá dos portos de pesca, recreio e serviços, e do Terminal XXI, somam-se o terminal petroquímico, o de granéis líquidos, o de granéis sólidos e o Terminal GNL de Gás fóssil liquefeito da REN Atlântico, este movimentando mais de 50% do gás natural consumido em Portugal.

    Em 2021 teve início a expansão da 3ª fase do Terminal XXI, com consequências na Praia de São Torpes. A conclusão está prevista para 2030, com um aumento da movimentação anual de 2,3 para 4,1 milhões de TEU (contentores de 20 pés). Eis que Sines entra na disputa pelos maiores porta-contentores. Com mais de 4000 comboios por ano a sair do porto, à expansão associa-se o novo Corredor Ferroviário Internacional Sul, que fechará o Corredor Atlântico da Rede Transeuropeia de Transportes e encurtará a ligação à fronteira com Espanha em 140km, quando concluído o troço Évora-Elvas em 2025. Apesar disso, está também anunciada nova ligação Sines-Grândola (para lá do troço existente Sines/Ermidas do Sado/Grândola) no Plano Nacional de Investimentos 2030, que tem vindo a ser contestado pelos impactes no montado, na Serra de Grândola, em ecossistemas lagunares e na proximidade às populações.

    Nova vaga industrial − resistência à vista

    Na actual revisão do PDM, é declarado que a cidade de Sines «está preparada para lutar contra um excesso de indústrias que possam vir a estiolar Sines e a prejudicar as suas condições de vida e ambientais». Não negando «a vocação que foi imposta a Sines e que continua a fazer sentido para o desenvolvimento do Alentejo e do País», projeta-se «Sines a renascer das cinzas e dos fumos e efluentes poluídos, à procura de um espaço humano e economicamente positivo, com os seus símbolos e convicções».

    O discurso politicamente correcto anuncia uma nova vaga industrial, assente, em primeiro lugar, numa reconfiguração da base energética – do fóssil aos biocombustíveis, à energia eólica e solar, e à instalação de projectos na área do hidrogénio verde; em segundo lugar, no Sines TECH – Innovation & Data Center Hub, que prevê um centro de processamento de dados (data center), usufruindo do cabo submarino EllaLink de transmissão de dados que liga Fortaleza (Brasil) a Sines e do projectado Olisipo que ligará Sines-Lisboa, onde se encontram os cabos 2Africa e Medusa com ligação a Carcavelos.

    Os anos 20 do século XXI apresentam-se como novo capítulo desta história industrial num palco feito de diferentes zonas de sacrifício, quer naturais, quer humanas. Mas anunciam-se também a resistência e recusa da «absoluta irreversibilidade» desta ideia de progresso.

     


    Legenda da fotografia [em destaque]: Sines, anos 1970. Fotografia de  J. M. Cavalinho no blog Cabo de Sines


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #42, Julho|Setembro 2024.

  • Atrapalhar o gás

    Atrapalhar o gás

    No passado sábado, dia 13 de maio, um grupo de cerca de 200 pessoas juntou-se numa ação de desobediência civil para impedir a chegada de um novo carregamento de gás ao Terminal de Gás Liquefeito do porto de Sines. Divididos em quatro grupos, conseguiram bloquear, durante sete horas, diversos pontos de acesso ao Terminal e adiar a chegada de gás para a madrugada do dia seguinte.

    Muitas das pessoas que participaram na ação chegaram a Sines em autocarros que partiram às 5h da manhã do Porto, às 6h30 de Coimbra e às 7h30 de Lisboa. Perto de Sines, uma operação STOP da GNR de Grândola parou os veículos e, com o auxílio de cães, revistou pessoas e malas, inspecionou os documentos do autocarro e do motorista, entre outras ações de intimidação que atrasaram em cerca de duas horas a chegada destas pessoas ao centro de Sines.

    Após este atraso, as manifestantes reuniram-se no Jardim da Praça da República da cidade. Depois de se vestirem com macacões brancos – evocando os Tute Bianche, movimento social italiano dos anos 90 – partiram, pelas 12h, numa manifestação de cerca de três quilómetros até ao Terminal. Tendo chegado pelas 13h30, diferentes grupos bloquearam, durante toda a tarde, três portões da infraestrutura.

    O primeiro bloco parou em frente ao portão principal do Terminal, por onde passam habitualmente os veículos que transportam o gás que chega ao porto de Sines. Muito rapidamente, um grupo de cerca de dez participantes bloqueou aquela entrada formando uma barreira humana. Os seus elementos estavam unidos pelos braços através de tubos. Uma das pessoas prendeu-se às grades do portão com um cadeado de bicicleta ao pescoço. Outras permaneceram neste local a manifestar-se ou a prestar apoio – dando água, comida ou sombra – a quem bloqueava aquela entrada, incluindo o grupo Ritmos de Resistência, cuja insistente percussão e palavras de ordem continuavam a canalizar a energia entre os presentes após horas de protesto.

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    A força que move o protesto

    O Jornal MAPA entrevistou três pessoas que se encontravam a bloquear este portão: Inês, Pedro (nomes fictícios) e Danilo. Inês, secretária na área da Cultura, e Pedro, doutorando em Física, acordaram às 3h30 da manhã para participarem no protesto e fazem parte do núcleo do Porto da plataforma «Parar o gás». No final de março de 2023, participaram na invasão da Central de Ciclo Combinado da Tapada de Outeiro, em Gondomar, uma das mais poluentes infraestruturas portuguesas que recorre à queima de gás para a produção de eletricidade. Nessa ocasião, entraram no local em protesto contra o consumo de gás fóssil, colocando faixas numa das torres da Central com as frases «Parar o gás» e «Vossos lucros = Nossa pobreza».

    Pedro nunca tinha participado numa manifestação até se envolver com coletivos climáticos: «Nunca tinha participado em nenhuma manifestação ou algo do género, mas no ano passado vi um poster do acampamento climático que o Climáximo ia fazer e decidi ir, para fazer alguma coisa. Estava farto de ser um bocado filósofo de café.» Desde essa experiência, ambos participaram já noutras ações climáticas e começaram a dinamizar diversas atividades no Porto, como debates, sessões de cinema, pinturas de murais, entre outras, com o intuito de mobilizar pessoas para participarem na manifestação e nas ações projetadas para aquele dia em Sines. A propósito deste protesto, Inês sublinhou a importância de organizar ações consideradas disruptivas para conseguir chegar à comunicação social e transmitir a mensagem que o grupo pretende divulgar ao maior número de pessoas possível: «É sempre também com o intuito de chamar a atenção aos outros, porque é muito difícil chegar aos media, é muito difícil que as coisas passem na televisão.»

    Um grupo de pessoas entrou nas instalações do gasoduto da REN, perto de Melides, e fechou a torneira de emergência do gasoduto.

    Ao lado destas duas pessoas, também com os braços presos com tubos, estava Danilo, que vinha de Lisboa e é presidente do Sindicato dos Trabalhadores de Call Centers. Segundo nos conta, Danilo decidiu juntar-se ao protesto porque sempre se preocupou com questões ambientais. Constatando que os termos assinados no Acordo de Paris em 2015 eram manifestamente insuficientes, decidiu juntar-se a grupos ecologistas, como o Climáximo, a campanha Empregos para o Clima, o Extinction Rebellion e o movimento contra a mineração: «Na minha opinião, nem gás nem lítio.» Danilo entende que existem soluções alternativas e que é preciso colocá-las em prática o quanto antes. Já reuniu com grupos parlamentares, mas afirma que estes encontros não se provaram profícuos: «Já tivemos discussões com os grupos parlamentares. Eles escutam-nos, mas, de fato, não fazem nada. É uma hipocrisia brutal, porque tanto a União Europeia como Portugal dizem que estão preocupados, mas a questão é que fazem coisas completamente contrárias ao que dizem fazer. Estamos preocupados com o aumento da temperatura, mas continuam-se a celebrar contratos ruinosos.»

    Inês acrescentou que estão a protestar em Sines porque aquele é o principal ponto de entrada de gás em Portugal – «chamado natural, mas que não é natural: é um gás fóssil» -, e que existem planos para aumentar a sua infraestrutura. «Não podemos fazê-lo. O aumento dessa infraestrutura é para ir buscar gás de países como a Nigéria, e a outros países que estão a ser expropriados das suas terras há 20 anos. As populações continuam a lutar e não são ouvidas por nós.» A jovem recorda ainda que há planos para duplicar a extração de gás e de petróleo no Brasil, Angola e Moçambique, países marcados por uma história de colonização. Danilo corrobora as afirmações da companheira, sublinhando o exemplo de Moçambique, um país com poucos recursos: «Acabam por se reiterar novas formas coloniais. Os países supostamente mais desenvolvidos, que são os que mais poluem, extraem os recursos destes países.»

    De acordo com a informação fornecida no site da plataforma Climáximo, o gás utilizado em Portugal provém atualmente sobretudo da Nigéria, dos Estados Unidos, do Qatar e da Rússia. Segundo dados da Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG), em fevereiro de 2023, cerca de um ano após o início da guerra na Ucrânia, o Porto de Sines recebeu 102.217 toneladas de gás dito «natural», oriundo da Rússia. Além do presente cenário, as empresas que exploram o gás em Portugal – Galp, EDP, REN e Trustenergy – querem expandir a produção e aumentar a importação de gás vindo do Brasil, Angola e Moçambique.

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    Quando a Máquina ficou sem fôlego

    Durante a tarde, outros dois portões do Terminal foram bloqueados: um segundo portão nas traseiras, onde foram penduradas faixas com as mensagens: «Somos a natureza em autodefesa» e «Gás é andar para trás»; e um terceiro portão, onde se podia ler: «Se abril já passou, a luta é agora».

    A meio da tarde, alguns membros da Greenpeace e apoiantes da plataforma «Parar o Gás» bloquearam a entrada do porto de Sines por mar, com recurso a barcos, a caiaques e aos seus próprios corpos, mergulhando na água e lá permanecendo, com coletes salva-vidas. A polícia marítima interveio e travou a entrada destas pessoas no terminal.

    Por fim, ao final da tarde, um grupo de pessoas entrou nas instalações do gasoduto da REN, perto de Melides, e fechou a torneira de emergência do gasoduto, impedindo a saída de gás do terminal por esta via.

    No final do dia, um grupo mais pequeno ponderou pernoitar no local para bloquear a entrada do primeiro carregamento de gás natural durante a madrugada. Porém, as manifestantes acabariam por retirar-se, pelas 20h, considerando que a ação cumpriu os seus objetivos: interromper o normal funcionamento da instalação portuária, travando o fluxo de gás fóssil no Terminal, por terra, por mar e através do gasoduto.

     


    Texto de  Catarina Leal e  Filipe Olival


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #38, Junho|Setembro 2023.

  • O hidrogénio «verde» e a sobrevivência das petrolíferas

    O hidrogénio «verde» e a sobrevivência das petrolíferas

    O hidrogénio (H2) trata-se do elemento mais leve e abundante no Universo, o primeiro da Tabela Periódica, estando presente num sem número de moléculas, desde a água (H2O), até vários hidrocarbonetos, constituídos por átomos de carbono e de hidrogénio, como o metano (CH4). O H2 pode ser facilmente produzido através da electrólise da água, num processo que consome energia, sendo reunido mais tarde com moléculas de oxigénio (O2), num processo que liberta energia (embora menos do que a que foi gasta inicialmente). Como tal, o H2 não é uma fonte de energia, mas sim uma mera forma de armazenar energia temporariamente, sem muitos dos problemas ambientais que as baterias à base de lítio e outros materiais apresentam. Se a energia utilizada para produzir H2 for de origem renovável, este é apelidado de «verde».

    Depois, esta energia pode ser utilizada em transportes, sobretudo comboios, autocarros, camiões, como já acontece na Alemanha e no Japão, oferecendo uma possível alternativa às baterias de lítio. Já existe inclusive uma empresa portuguesa, a CaetanoBus, que fabrica autocarros movidos a H2, com uma larga carteira de encomendas internacionais. Além disso, o H2 pode ainda ser utilizado em alguma indústria pesada, incluindo a metalurgia, vidro e cerâmica, contribuindo para reduzir as suas emissões de carbono. Ao longo dos anos, o H2 tem vindo a ser referido como passível de acelerar a transição para uma economia mais sustentável. Mas só recentemente as tecnologias associadas começaram a atingir um ponto de maturidade e baixo custo em que a sua implementação em larga escala é já uma possibilidade muito real.

    É neste contexto que o Ministério do Ambiente e Ação Climática (MAAC) lançou recentemente a sua «Estratégia Nacional para o Hidrogénio» (EN-H2). Também a Comissão Europeia apresentou em julho uma «estratégia de hidrogénio para uma Europa climaticamente neutra», promovendo o investimento de dezenas de milhares de milhões de euros nesta área. Mas, apesar de tudo o que foi dito atrás, existem muitas razões para desconfiar destas estratégias. Assim, logo no sumário executivo da EN-H2 pode ler-se que «Na Europa e em Portugal, o ano de 2019 foi de intensificação do compromisso de descarbonização, mas foi também o ano de discussão pública das propostas iniciais do Plano Nacional de Energia e Clima (PNEC), que estavam muito assentes na eletrificação pura, o que mereceu algumas bolsas de resistência no sector do gás e em alguma indústria. O mercado assinalou a existência de uma falha que pode ser eficientemente suprida pela produção de hidrogénio.» Qual será então a natureza destas «bolsas de resistência»? Serão elas de natureza tecnológica, ideológica, económica, ambiental? E será que existem atas das reuniões que o MAAC teve com estas empresas do sector do gás? Seria interessante saber o que lá foi discutido…

    Do rol de medidas anunciadas até 2030 nesta EN-H2 encontra-se a possível injeção de até 15% de H2 na rede existente de gás fóssil, dito «natural» (constituído por cerca de 90% metano, um dos mais perigosos gases com efeito de estufa, e o que maior volume de emissões tem, a seguir ao dióxido de carbono). Ao substituir algum deste gás por H2, é possível que as emissões nacionais de CO2 sejam ligeiramente reduzidas, mas muito maior redução viria de substituir a curto e médio prazo a maior parte destes equipamentos por alternativas eléctricas e de zero emissões, além de procurar racionalizar e reduzir os consumos. Tudo indica, pois, que o H2 poderá estar a ser utilizado como desculpa para manter, senão mesmo prolongar, a duração de uma série de infraestruturas fósseis altamente poluidoras. Sendo que a maior parte do consumo de gás em Portugal se encontra na indústria e nas centrais termoeléctrias, a EN-H2 vem também «recordar-nos» que as centrais de gás fóssil estão previstas funcionar até pelo menos 2040.

    a electricidade que antes era gerada via carvão vai ser em boa parte substituída pela maior importação de gás fóssil (…) gás extraído via fraturação hidráulica (ou fracking) da América do Norte, Austrália, etc., com uma pegada de carbono ainda maior que a do carvão.

    Outra das medidas anunciadas é um megaprojeto industrial de produção de H2 em Sines, onde se encontra já a maior concentração de indústrias poluidoras em território nacional. Com o encerramento iminente da central termoeléctrica a carvão, o MAAC volta-se agora para a produção de H2, com vista à sua exportação (com a Holanda a mostrar muito interesse), anunciando a instalação de cerca de 1GW de solar fotovoltaico e eólica, para alimentar exclusivamente uma central de produção de H2 «verde». O problema é que isto vai contra tudo o que seria uma utilização racional e sustentável do H2. O que faria sentido seria ter uma geração de electricidade renovável em Portugal muito próxima dos 100% o mais cedo possível (e há boas condições para isso), sendo depois o excesso de electricidade renovável (nas alturas em que a rede está a gerar mais do que é consumido) utilizado para produzir H2.

    De modo a substituir a electricidade proveniente das 2 centrais a carvão, no Pêgo e em Sines, precisaríamos de cerca de 8 GW de solar fotovoltaico (1), o que, de acordo com o actual PNEC, só é previsto acontecer no final desta década. Entretanto, a electricidade que antes era gerada via carvão vai ser em boa parte substituída pela maior importação de gás fóssil, havendo planos para em breve se duplicar a capacidade do terminal de GNL (Gás «natural» liquefeito) em Sines. O mesmo terminal que está a receber gás extraído via fraturação hidráulica (ou fracking) da América do Norte, Austrália, etc., com uma pegada de carbono ainda maior que a do carvão. Desta forma é até possível baixar as emissões domésticas nacionais (mas devagarinho, para não assustar «O Mercado»), exportando grande parte delas para outras zonas do globo – e ao mesmo tempo vender H2 «verde» para o Norte da Europa. Mas nada disto faz parte da solução de que necessitamos urgentemente!

    À medida que a emergência climática se agrava, agrava-se também a pressão para que as empresas de gás e petróleo mostrem estar a «tentar reduzir as suas emissões». Mas o seu impulso natural é o de salvaguardar os seus investimentos e modelo de negócios, que assenta todo ele na extração, processamento e queima de combustíveis fósseis. Para já, tudo indica que esta EN-H2 (e outras que tais) poderá ser em grande parte uma forma de as empresas de gás fóssil subtilmente manobrarem as políticas públicas, continuando a prolongar a sua atividade poluidora sob o pretexto de serem parte da solução (2). Quando são elas que constituem a maior parte do problema – e tudo têm feito para nos aproximar do caos climático!

     


    Texto de Luís Fazendeiro [Investigador em Alterações Climática]


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #28, Novembro 2019|Janeiro 2020.

  • Sofrimento Animal: De Portugal a Israel

    Sofrimento Animal: De Portugal a Israel

    A exportação de animais vivos para o abate religioso judaico (kosher) e muçulmano (Halal) em Israel tem levado um grupo de ativismo vegano em Setúbal a documentar a situação nos portos de Setúbal e Sines. Um «ativismo de compaixão», assim o apelidam no testemunho que fizeram chegar ao Jornal MAPA.

     

    Para o «Setúbal Animal Save» fica sempre a questão: haverá alguma forma humana de matar alguém que não quer morrer?

    Os portos de Setúbal e Sines têm sido palco do negócio de exportação de animais vivos em Portugal por via marítima desde 2015. Em 2018 saíram de Portugal 347,961 animais a bordo de navios, em viagens que têm uma duração de 6 a 12 dias. Um aumento exponencial de cerca de 127,000 animais quando comparado a 2017. E, como qualquer outro negócio, o objetivo será sempre o de aumentar a produção e o seu consequente lucro.

    Em janeiro de 2017 surgiu o grupo de ativismo vegano em Setúbal sob o nome «Setúbal Animal Save – Stop Live Exports», pertencente ao movimento internacional «The Save Movement», que apela à documentação e sensibilização do que representa o transporte animal vivo até ao seu abate. Realizamos vigílias à porta de matadouros, leilões de animais, mercados e, no nosso caso, portos marítimos. O foco está em consciencializar a sociedade para o facto de os chamados «animais de criação», que aparecem embalados nas prateleiras de supermercados, são criados somente para a exploração e usufruto do ser humano, quando na realidade são animais com as mesmas qualidades de qualquer outro animal doméstico que tenhamos em casa e consideramos família. A única diferença que os separa reside apenas na nossa consciência, na nossa perceção, na educação e cultura em que crescemos.

    Marcamos presença durante todos os embarques de animais em Setúbal e Sines e documentamos estas vidas. Usamos cartazes, distribuímos panfletos e filmamos os animais dentro dos camiões durante a sua entrada no porto, oferecendo um pouco de compaixão durante o pouco tempo que nos é permitido estar com eles. Assim incentivamos a despertar para esta consciência, abafada pela indústria pecuária e pela publicidade que oferece sempre ao consumidor uma imagem enganadora de animais felizes e a viver em liberdade.

    A exportação de animais vivos é um flagelo, quer da perspetiva animal, quer da perspetiva ambiental. A agropecuária industrial destrói ecossistemas inteiros e é a maior causa de destruição do planeta, como apontam as Nações Unidas.

    Setubal Animal Saves

    Durante as vigílias tivemos oportunidade de documentar algumas situações de ferimentos graves em vários animais, como cornos e pernas partidas, um prolapso grave numa cauda de um borrego, duas vacas deitadas dentro dos camiões a ser espezinhadas por outras vacas, animais com sintomas de doenças e até um carneiro com um corno a crescer para dentro da sua própria face. Todas estas situações ocorrem antes ou durante o transporte terrestre. Não podemos afirmar ao certo que estes animais chegam a embarcar pois, por lei, não estariam em condições de prosseguir viagem ou sequer de entrar nos camiões. Mas os relatos e filmagens que nos chegam dos nossos colegas ativistas em Israel, do grupo «Israel Against Live Shipments (Israel Animal Save)», mostram consecutivamente animais feridos, imundos, cobertos de excrementos e urina. E em todas as viagens existem fatalidades.

    Todos estes animais passam por uma temporada de quarentena, de 2 a 8 dias, em quintas sem as mínimas condições de higiene e sem a possibilidade de receberem assistência veterinária, caso estejam doentes ou feridos. Selecionados, serão depois enviados para quintas de engorda ou para o matadouro. As imagens que nos chegam de Israel mostram uma constante repetição de sofrimento.

    Esta realidade continuará até ganhar voz um sentimento, que cremos generalizado, que abomina os maus-tratos contra qualquer animal. A compaixão e solidariedade ao próximo são valores universais presentes em todas as culturas e religiões, no entanto, a grande maioria da população parece ser cega à realidade vivida pelos animais procriados e explorados dentro da agropecuária.

    Por todo o mundo, para consumo humano são mortos cerca de 150 biliões de animais sencientes anualmente. Mais de 70% de toda a área florestal do planeta está a ser substituída por quintas de procriação, de engorda ou de monocultura de alimentos para estes animais. A maioria dos consumidores desconhece esta realidade ou escolhe não aceitá-la. Mas sabemos também que a maioria não está a favor desta indústria de exportação de animais vivos, pois toda ela existe com base num conjunto de práticas que sujeitam animais a situações dantescas até chegarem ao seu destino e a uma morte que nos é difícil imaginar.

    A nossa missão como movimento passará sempre por tentar unir a sociedade numa só consciência, numa verdade que nos é comum a todos: a de que uma vida sem sofrimento é um direito de todos os animais. O sofrimento sente-se de igual forma, sejamos humanos ou não-humanos, e a compaixão deve oferecer-se porque acreditamos na justiça e queremos deixar um planeta mais saudável para as gerações futuras. Que não fique destituído de vida, pois só temos este e ele não é substituível


    Mais informação e updates em: https://www.facebook.com/setubalesinesanimalsavestopliveexports/


    Texto de Setúbal Animal Save [setubalanimalsave@gmail.com]
    Fotos de Alex Gaspar


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #23, Abril|Junho 2019.