shop-cart

Lendo: O hidrogénio «verde» e a sobrevivência das petrolíferas

O hidrogénio «verde» e a sobrevivência das petrolíferas

O hidrogénio «verde» e a sobrevivência das petrolíferas


O hidrogénio (H2) trata-se do elemento mais leve e abundante no Universo, o primeiro da Tabela Periódica, estando presente num sem número de moléculas, desde a água (H2O), até vários hidrocarbonetos, constituídos por átomos de carbono e de hidrogénio, como o metano (CH4). O H2 pode ser facilmente produzido através da electrólise da água, num processo que consome energia, sendo reunido mais tarde com moléculas de oxigénio (O2), num processo que liberta energia (embora menos do que a que foi gasta inicialmente). Como tal, o H2 não é uma fonte de energia, mas sim uma mera forma de armazenar energia temporariamente, sem muitos dos problemas ambientais que as baterias à base de lítio e outros materiais apresentam. Se a energia utilizada para produzir H2 for de origem renovável, este é apelidado de «verde».

Depois, esta energia pode ser utilizada em transportes, sobretudo comboios, autocarros, camiões, como já acontece na Alemanha e no Japão, oferecendo uma possível alternativa às baterias de lítio. Já existe inclusive uma empresa portuguesa, a CaetanoBus, que fabrica autocarros movidos a H2, com uma larga carteira de encomendas internacionais. Além disso, o H2 pode ainda ser utilizado em alguma indústria pesada, incluindo a metalurgia, vidro e cerâmica, contribuindo para reduzir as suas emissões de carbono. Ao longo dos anos, o H2 tem vindo a ser referido como passível de acelerar a transição para uma economia mais sustentável. Mas só recentemente as tecnologias associadas começaram a atingir um ponto de maturidade e baixo custo em que a sua implementação em larga escala é já uma possibilidade muito real.

É neste contexto que o Ministério do Ambiente e Ação Climática (MAAC) lançou recentemente a sua «Estratégia Nacional para o Hidrogénio» (EN-H2). Também a Comissão Europeia apresentou em julho uma «estratégia de hidrogénio para uma Europa climaticamente neutra», promovendo o investimento de dezenas de milhares de milhões de euros nesta área. Mas, apesar de tudo o que foi dito atrás, existem muitas razões para desconfiar destas estratégias. Assim, logo no sumário executivo da EN-H2 pode ler-se que «Na Europa e em Portugal, o ano de 2019 foi de intensificação do compromisso de descarbonização, mas foi também o ano de discussão pública das propostas iniciais do Plano Nacional de Energia e Clima (PNEC), que estavam muito assentes na eletrificação pura, o que mereceu algumas bolsas de resistência no sector do gás e em alguma indústria. O mercado assinalou a existência de uma falha que pode ser eficientemente suprida pela produção de hidrogénio.» Qual será então a natureza destas «bolsas de resistência»? Serão elas de natureza tecnológica, ideológica, económica, ambiental? E será que existem atas das reuniões que o MAAC teve com estas empresas do sector do gás? Seria interessante saber o que lá foi discutido…

Do rol de medidas anunciadas até 2030 nesta EN-H2 encontra-se a possível injeção de até 15% de H2 na rede existente de gás fóssil, dito «natural» (constituído por cerca de 90% metano, um dos mais perigosos gases com efeito de estufa, e o que maior volume de emissões tem, a seguir ao dióxido de carbono). Ao substituir algum deste gás por H2, é possível que as emissões nacionais de CO2 sejam ligeiramente reduzidas, mas muito maior redução viria de substituir a curto e médio prazo a maior parte destes equipamentos por alternativas eléctricas e de zero emissões, além de procurar racionalizar e reduzir os consumos. Tudo indica, pois, que o H2 poderá estar a ser utilizado como desculpa para manter, senão mesmo prolongar, a duração de uma série de infraestruturas fósseis altamente poluidoras. Sendo que a maior parte do consumo de gás em Portugal se encontra na indústria e nas centrais termoeléctrias, a EN-H2 vem também «recordar-nos» que as centrais de gás fóssil estão previstas funcionar até pelo menos 2040.

a electricidade que antes era gerada via carvão vai ser em boa parte substituída pela maior importação de gás fóssil (…) gás extraído via fraturação hidráulica (ou fracking) da América do Norte, Austrália, etc., com uma pegada de carbono ainda maior que a do carvão.

Outra das medidas anunciadas é um megaprojeto industrial de produção de H2 em Sines, onde se encontra já a maior concentração de indústrias poluidoras em território nacional. Com o encerramento iminente da central termoeléctrica a carvão, o MAAC volta-se agora para a produção de H2, com vista à sua exportação (com a Holanda a mostrar muito interesse), anunciando a instalação de cerca de 1GW de solar fotovoltaico e eólica, para alimentar exclusivamente uma central de produção de H2 «verde». O problema é que isto vai contra tudo o que seria uma utilização racional e sustentável do H2. O que faria sentido seria ter uma geração de electricidade renovável em Portugal muito próxima dos 100% o mais cedo possível (e há boas condições para isso), sendo depois o excesso de electricidade renovável (nas alturas em que a rede está a gerar mais do que é consumido) utilizado para produzir H2.

De modo a substituir a electricidade proveniente das 2 centrais a carvão, no Pêgo e em Sines, precisaríamos de cerca de 8 GW de solar fotovoltaico (1), o que, de acordo com o actual PNEC, só é previsto acontecer no final desta década. Entretanto, a electricidade que antes era gerada via carvão vai ser em boa parte substituída pela maior importação de gás fóssil, havendo planos para em breve se duplicar a capacidade do terminal de GNL (Gás «natural» liquefeito) em Sines. O mesmo terminal que está a receber gás extraído via fraturação hidráulica (ou fracking) da América do Norte, Austrália, etc., com uma pegada de carbono ainda maior que a do carvão. Desta forma é até possível baixar as emissões domésticas nacionais (mas devagarinho, para não assustar «O Mercado»), exportando grande parte delas para outras zonas do globo – e ao mesmo tempo vender H2 «verde» para o Norte da Europa. Mas nada disto faz parte da solução de que necessitamos urgentemente!

À medida que a emergência climática se agrava, agrava-se também a pressão para que as empresas de gás e petróleo mostrem estar a «tentar reduzir as suas emissões». Mas o seu impulso natural é o de salvaguardar os seus investimentos e modelo de negócios, que assenta todo ele na extração, processamento e queima de combustíveis fósseis. Para já, tudo indica que esta EN-H2 (e outras que tais) poderá ser em grande parte uma forma de as empresas de gás fóssil subtilmente manobrarem as políticas públicas, continuando a prolongar a sua atividade poluidora sob o pretexto de serem parte da solução (2). Quando são elas que constituem a maior parte do problema – e tudo têm feito para nos aproximar do caos climático!

 


Texto de Luís Fazendeiro [Investigador em Alterações Climática]


Artigo publicado no JornalMapa, edição #28, Novembro 2019|Janeiro 2020.


Written by

Jornal Mapa

Show Conversation (0)

Bookmark this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

0 People Replies to “O hidrogénio «verde» e a sobrevivência das petrolíferas”