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  • As pessoas só pensam no trabalho

    As pessoas só pensam no trabalho

    Quando a vaga de trabalhadores migrantes, a precarização dos salários e a falta de habitação ecoam nas ruas, podemos falar em Sines de um cenário de conflitos sócio-ambientais?

    Nos artigos anteriores [1][2], traçámos a identidade industrial de Sines e falámos de como a demanda energética recentra os impactes ambientais na sua periferia. Mas qual é a dimensão social e conflituante presente neste devir industrial que se trasveste de transição verde?

    Antonio Maria Pusceddu, antropólogo do CRIA-ISCTE, tem trabalhado na história e na transformação das regiões industriais, incluindo as novas «geografias da energia» nos contextos da Transição. Em Itália, interessou-se pelo complexo petroquímico de Brindisi e o gerar de «ambientalismos operários» no cruzamento da fábrica com os movimentos ambientalistas. Por cá, encontrámo-nos em Sines para uma conversa. Desde logo, Pusceddu refere uma diferença crucial (já apontada também na entrevista a Sergio Marashin): «enquanto em Brindisi toda a questão de saúde se tornou uma ferramenta muito forte em todo o movimento ambiental, em Sines nada. Os estudos epidemiológicos foram feitos pelas autoridades sanitárias públicas na relação entre a poluição ambiental e um conjunto de cancros. Em Sines, numa primeira impressão, parece que se trata de uma área pacificada. Não é de todo certo que não exista, há as suspeitas…, os colegas que no passado podem ter morrido por causa da exposição à toxidade, mas a imagem fabricada é que Sines é a coisa mais sofisticada e limpa do mundo».

    Pesquisando as memórias pós 25 de Abril em Sines, Pusceddu de imediato anotou uma «luta pela sobrevivência da cidade, em que no plano original as pessoas seriam deslocadas para Santo André e Sines seria, como dizia o primeiro director do Gabinete da Área de Sines, o Cais do Sodré do Alentejo». Apesar do movimento popular até à Greve Verde, «ainda agora, numa conferência dos 50 anos de Abril, se apontou essa ideia canónica de que havia coisas mais urgentes a pensar do que o ambiente, reduzindo-o àquela visão burguesa da defesa da natureza e ignorando tudo aquilo que desencadeia.» Assim, acerca das questões ambientais, não hesita em afirmar não haver actualmente «uma grande preocupação em relação ao que está a acontecer [na região], para lá de um conjunto de pessoas que fazem parte de uma rede que vai para além de Sines».

    Trabalho, Ambiente e Transição

    Uma dessas pessoas é Bruno Candeias, natural das Ermidas do Sado, trabalhador e sindicalista na REPSOL, membro do Bloco de Esquerda e uma das vozes activas dos movimentos ambientalistas do litoral alentejano. Ser delegado sindical e activista ambiental «não é fácil! É um exercício diário, tentar encontrar soluções, narrativas que permitam defender o trabalhador na transição justa. O que não é fácil porque entramos num patamar de suposições e para os trabalhadores as suposições são nada; precisam sim de soluções concretas, no momento. Por outro lado, é difícil dialogar com os trabalhadores e com as comunidades, porque vivem dessas indústrias, e os próprios sindicatos no seu geral são muito recuados em relação a isso. O SIEAP, Sindicato das Indústrias, Energias, Serviços e Águas de Portugal, a que pertenço, é um sindicato pequeno que ainda vai falando sobre isso, mas na maior parte das vezes há mesmo contradições.

    Neste ponto, é obrigatório falar do fecho da Central Termoeléctrica a carvão de Sines. Para Bruno Candeias, se este «foi um contributo essencial, o problema é que existem coisas que se tornam difíceis para todos aqueles que defendem esse caminho do encerramento. Uma, é agora importar de Espanha ou de Marrocos energia que vem do carvão ou do nuclear, o que é uma hipocrisia. O segundo aspecto é que, de 400 trabalhadores, 300 foram para o fundo de desemprego. Não houve um planeamento sério para fazer disto um exemplo nacional, para que todos pudessem ver que sim, é possível encerrar indústrias poluentes sem que ninguém perca os seus direitos e os seus postos de trabalho. No entanto, não foram vistos como trabalhadores penalizados pela transição, mas entregues à selvajaria do mercado de trabalho. Foi muito mau.»

    «No caso da Central, se o nosso Sindicato dizia que não vale a pena andar para trás, temos é de encontrar soluções; tínhamos a CGTP à porta da fábrica a dizer que era urgente que não fechasse, a apelar à produção nacional e à nacionalização de sectores estratégicos. A perspectiva é sempre a mesma e a questão ambiental é secundarizada. Desde que seja estratégico do ponto de vista económico para o Estado, a questão do carvão é pouco relevante. Um tipo de discurso que não ajuda muito na própria comunidade local onde, com essas entropias, não há entendimento.»

    António Pusceddu prefere enquadrar o discurso da CGTP na «reconfiguração que começou há vinte anos para fazer de Sines uma porta de entrada no circuito global de mercadorias, mais do que um lugar de produção. Daí terem um discurso sobre a soberania nacional e defesa das capacidades produtivas. Discurso que perdurou no encerramento da Central. Este foi um daqueles casos exemplares em que tudo é alimentado para aquele tipo de conspiração à volta da Transição. Alguém diria “conspiração”, mas é realmente um caso claro desta grande reestruturação do Capital na dita Transição verde. A acção do Estado, da Câmara, revelou falta de capacidade de resposta e que a EDP poderia fazer o que quisesse. Em nome da Transição. O discurso da soberania nacional e da defesa produtiva levanta um paradoxo que não é de resposta fácil e é partilhado por muitos: daqueles que podem ter posições negacionistas aos que tenham uma clara posição de defesa da necessidade de uma Transição, questionando contudo se é possível ter uma Transição Energética nacional. Qual é o contributo oriundo de uma migalha, como Portugal, numa dimensão global? É evidente que esse discurso levanta questões. E depois, enfim, encerra-se a Central e aumenta o volume do tráfico marítimo do Porto de Sines, responsável pelas maiores emissões. Um conjunto de paradoxos e, claramente, de contradições».

    Migrantes, Salários e Habitação

    Ambiente à margem, em Sines há outras preocupações. Diz-nos António que «há mais uma preocupação com o efeito que está a ter esta expansão industrial, em termos de um grande número de força de trabalho, na sua maioria de comunidades migrantes, em condições bastante complicadas, e uma série de fricções que se estão a agudizar em relação aos salários. Porque esta sobreabundância de mão de obra resulta em dumping salarial e está a criar uma situação bastante explosiva em relação às formas regressivas que estes salários podem ter. Acho que as preocupações são mais nesse sentido. Há um conjunto de transformações que já aconteceram no sentido de uma maior precarização, como se vê pelo número de agências de trabalho temporário, que em Sines é absurdo, ou quando no Porto de Sines se cria uma empresa onde em 1200 estivadores nem 100 são directos. Daí a grande preocupação com a deterioração das condições de vida, com o grande afluxo de trabalhadores, a falta de habitação e a questão salarial. Dentro destas questões não vejo haver grande preocupação por parte dos trabalhadores sobre a questão ambiental, nem climática.»

    O investigador recorda o movimento pela justiça climática, como alguma preocupação da Climáximo numa aproximação a Sines. «Mas no feedback que continuo a ter de pessoas que estão de alguma forma alinhadas com as mesmas estratégias, a percepção é de desacordo profundo com as modalidades e a ingenuidade em trazer modelos de acção mais metropolitanas, que num contexto de Lisboa e Porto têm possibilidade de crescer, mas num contexto mais pequeno, onde a questão laboral é muito mais forte, correm o risco de ter o efeito contrário.»

    Bruno Candeias sabe que está perante «um apego ainda muito grande às concepções vindas do socialismo real, digamos assim, da industrialização e do progresso. Aquela lógica do progresso a favor dos trabalhadores, que é a história de Sines. A lógica de esquerda aqui criada a seguir ao 25 de Abril ou a que existe actualmente, uma lógica totalmente de mercado, é igual. Só muda a cor da bandeira. Emprego, emprego, emprego e o resto não interessa. Quando foi da operação Influencer, mais do que o estrito caso, a nível local todos vieram a partilhar uma mesma linha fundamental: os projectos não podem parar, queremos desenvolvimento. Por outro lado, em São Domingos ou no Cercal, geraram-se pequenos movimentos de cidadãos que têm feito um trabalho imenso, porque há a consciência da destruição da identidade rural que os levou a viver ali. Aí é possível chegar próximo das pessoas e ser compreendido porque há de facto uma fractura. Aqui o grande desafio é como conseguirmos criar uma narrativa que seja aceite e consiga disputar o espaço público desta identidade e dependência industrial. Há uma incapacidade muito grande de quem defende os caminhos alternativos em derrubar a barreira da comunicação.»

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    Hortas do bairro Amílcar Cabral. Fotografia de António Pusceddu

    O que mobiliza?

    «A percepção da transição permanece muito no campo teórico académico», acaba por nos dizer António Pusceddu. «Poderemos falar de muitas respostas, como a reindustrialização noutro sentido, mas qual é o sujeito que transportará as respostas? Não é apenas elaborar as respostas, mas qual é essa massa crítica. O facto de não existir talvez advenha desta ser uma cidade constrangida em termos de dimensão, apesar de agora não sabermos exactamente quantas pessoas estão a morar em Sines. Moro no bairro Amílcar Cabral, onde há uma associação que funciona como apoio aos migrantes, que estão a aumentar. A conjuntura é super favorável para o capital, com milhares de trabalhadores à disposição, sem nenhuma responsabilidade em termos de emprego numa selva de empreiteiros.»

    Bruno contrapõe a ideia de uma reindustrialização apelando ao papel do Estado e aos empregos para o clima. «É obviamente muito difícil voltarmos à ideia da pequena aldeia, até porque há uma identidade industrial aqui que não pode ser desvalorizada. Pelo que se quisermos fazer uma reindustrialização adaptada à nossa realidade e aos novos desafios, nomeadamente à questão climática, que tenha uma perspectiva social agregada, temos de pensar que tipo de indústrias faz sentido existirem.»

    Intersectando a linha condutora deste raciocínio, António, antropólogo à escuta, liga a omnipresente visão trabalhista com «essa ideia do senso comum, banal, mas recorrente, de que “as pessoas só pensam no trabalho”. E aí vês as dimensões de vida a esvaziarem-se, da vida cultural, da vida em comunidade. Os sítios de referência da cidade abandonados, como se esta fosse somente uma reserva da força de trabalho.»

    Chegamos ao fim da conversa e para Bruno Candeias «a propaganda que é feita, muito forte e difícil de combater, é de que Sines vai se transformar radicalmente num pólo industrial verde. Essa é a falácia. E não há uma conexão entre as pessoas que aqui vivem e as pessoas dos territórios que vão ser sacrificados aqui ao lado. Propositadamente. Pelo que há que tentar conseguir criar um elo entre tudo isto.»

    Para António Pusceddu «fica a pergunta em cima da mesa: como é que essa articulação consegue ir além da pequena obrigação do indivíduo, ou seja, qual é o motivo mobilizador? A defesa do ambiente, a justiça climática, concordamos todos, mas há que aumentar a parada. O discurso climático é “o” discurso, logo subordinado à justiça climática algo que me parece politicamente um bocado míope. Podemos todos concordar, mas aqui a mobilização está a fazer-se para quê, exactamente? Parece-me demasiado evanescente. Não quer dizer que a questão climática não seja um problema, mas será um motivo socialmente mobilizador fora de alguns contextos?».

     


    Legenda da fotografia [em destaque]: Central Termoeléctrica de Sines, 2007 | Fotografia de  João Campos (CC 2.0]


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #42, Julho|Setembro 2024.

  • STOP MÉGA-BASSINES: o desarme do fascismo faz-se lutando pela Terra

    STOP MÉGA-BASSINES: o desarme do fascismo faz-se lutando pela Terra

    Os dias 16 a 21 de julho foram os escolhidos por Soulèvements de la Terre (Insurreições da Terra) para lutar por um mundo mais ecologicamente são. O encontro assinalou-se, mais uma vez, em Poitou, região francesa altamente marcada por megaprojetos industriais conduzidos pela ganância capitalista de empresas privadas.

    Insurreições da Terra é um movimento de resistência, que luta por uma redistribuição de terras mais equitativa e ecologicamente conscientizada. Como grupo maioritariamente composto por jovens preocupados com o futuro de precariedade socioecológica que se lhes adivinha, organizam-se em redes coletivas de cuidado com a Terra e com os seres vivos, humanos e não humanos. Marcam presença em e organizam inúmeros encontros de lutas de resistência onde, através de ações diretas não violentas e outras estratégias, criam oportunidade para qualquer pessoa, com vontade de combater o racismo, o sexismo, o  catastrofismo climático e a repressão estatal e policial, tecer redes e juntar-se ao movimento.

    O encontro de julho, de nome STOP MÉGA-BASSINES (Stop Megabacias), contou com 3 atos. Entre 16 e 21, instalou-se, em Melle, a Village L’Eau (Aldeia da Água), um espaço pensado para fomentar debates, treinos ativistas, momentos conviviais e culturais. Enquanto as atividades preparadas se focaram nos diversos conflitos decorrentes do uso e apropriação de água existentes em todo o mundo, o espaço físico onde as mesmas decorriam proporcionou a oportunidade de entender melhor as lutas camponesas e
    ecológicas da região e serviu de preparação para a segundo ato da semana: uma marcha popular em Saint Sauvant por uma moratória imediata no projeto da construção de uma megabacia na zona.

    Marcha popular por Sant Sauvant (STOP MEGÁ-BASSINES | CANAL INFORMATIONS GENÉRALES).

    A marcha contou com cerca de 10 000 pessoas que,caminhando ou pedalando, ocuparam os campos franceses, marcando a sua posição contra as forças neoliberais que saqueiam a biodiversidade e o bem-estar de populações desprivilegiadas de poder e capital. Uma das vitórias deste ato foi o desarmamento da bacia de Pampr’ouef. Um grupo de ciclistas que conseguiu ultrapassar a barreira policial que protegia a bacia lançou papagaios de papel carregados de plantas aquáticas que, em contacto com a água estagnada da bacia, crescerão e entupirão os tubos necessários para o funcionamento da bacia.

    O terceiro ato da semana mobilizou os ativistas da aldeia até à cidade atlântica de La Rochelle, onde se localiza o porto de La Pallice, o segundo maior porto do país no que toca a exportações de cereais. Na iminência de um projeto de expansão do porto, previsto para 2025, a conexão com o aumento de projetos de megabacias na região torna-se evidente, dada a cultura intensiva de milho e trigo em Deux-Sèvres.

    Ou seja, é através da privatização e mercantilização da água por privados, nos projetos das megabacias, que o porto de La Pallice se alimenta, contribuindo, assim, para a perpetuação de um sistema capitalista destrutivo centrado na acumulação de riqueza, pondo em risco a resposta às necessidades básicas de humanos e do mundo para lá deste. Apesar de o dia ter sido marcado pela forte repressão policial sentida pelas manifestantes, um grupo de camponeses e ativistas conseguiu, pela madrugada, bloquear, por momentos, a entrada no porto, interrompendo o seu normal funcionamento.

    A semana fica não só marcada por diversos momentos de aprendizagem, camaradagem, diversão e resistência como também por momentos de elevada repressão policial e violência, por parte das forças de ordem francesas – desde entradas para o acampamento bloqueadas por agentes policiais e pelas suas carrinhas (bloqueios nos quais eram confiscados quaisquer materiais que pudessem ser utilizados para proteção dos manifestantes em Saint-La Rochell, até helicópteros e drones com aparelhos de reconhecimento facial constantemente presentes no acampamento. Além disso, a polícia francesa não desperdiçou a oportunidade para dar uso a armas químicas, como o gás lacrimogéneo (sendo, inclusive, responsável por um incêndio durante o segundo ato da semana), e para praticar táticas de repressão violentas, como o cerco do início e do final de um bloco de manifestantes que ficaram, assim, encurraladas, durante os momentos de manifestação da semana.

    Bloqueio do porto de La Pallice por camponeses apoiantes da manifestação (STOP MEGÁ-BASSINES | CANAL INFORMATIONS GENÉRALES).

    Num momento histórico de combate ao neoliberalismo e ao fascismo de direita, que a ele vem associado, importante para a França, e para o mundo, Soulèvements de la Terre desempenha um papel crucial. O seu esforço para construir redes e alianças antifascistas, feministas, anticoloniais e anticapacitistas e para explorar diversas estratégias de resistência coletiva potencia o estabelecimento de um movimento solidário e de cuidados fundamentais na luta contra a repressão. O desarmamento do fascismo faz-se criando contrapoder popular, ressignificando a nossa conexão com a terra e apoiando-nos – trabalhadores, estudantes e camponeses – mutuamente.

    Faz-se também lembrando-nos de que enquanto a máquina capitalista escavapara construir megabacias, os protetores dos ecossistemas plantam milhares de sementes de solidariedade e de resistência que crescerão e surgirão da terra para defendê-la. Junta-te, tu também, à insurreição!

     


    Referências:

    «SAISON 7 : DÉTRICOTER LES FILIÈRES MORTIFÈRES». LES SOULÈVEMENTS DE LA TERRE.

    «19-20 JUILLET : MOBILISATION INTERNATIONALE STOP MÉGA-BASSINES – VILLAGE DE L’EAU DU 16 AU 21 JUILLET». LES SOULÈVEMENTS DE LA TERRE.


    Texto de  Uri
    Imagens retiradas do canal de Telegram STOP MEGÁ-BASSINES | CANAL INFORMATIONS GENÉRALES

  • Barragem do Pisão: últimos meses para salvar o Alentejo de mais um mega-projeto

    Barragem do Pisão: últimos meses para salvar o Alentejo de mais um mega-projeto

    Em meados de maio, deverá conhecer-se a empresa escolhida pela Comunidade Intermunicipal do Alto Alentejo para a construção da Barragem do Pisão, no Crato, Portalegre. A Ribeira de Seda, que nasce do encontro de vários ribeiros na Serra de São Mamede e serpenteia por freixos e amieiros, represas e pontes de xisto, seria interrompida por um paredão de betão de 54 metros de altura.

    Também conhecido como Empreendimento de Aproveitamento Hidráulico de Fins Múltiplos do Crato, o projeto inclui uma central fotovoltaica, uma mini-hídrica e uma vasta rede de canais de regadio. Nas palavras do governo cessante, é «uma grande oportunidade para o Alto Alentejo, à semelhança do que aconteceu com o Alqueva no Baixo Alentejo.» «Dos 160 mil projetos previstos no Plano de Recuperação e Resiliência», confessou em janeiro deste ano o então primeiro-ministro António Costa, «nenhum deu mais dores de cabeça, nenhum exigiu maiores discussões e maior ginástica».

    E não é fácil perceber que ginástica terá permitido à Barragem do Pisão obter financiamento do Mecanismo de Recuperação e Resiliência. Estes fundos europeus implicam que os projetos respeitem o princípio de «não prejudicar significativamente» (do no significant harm), quanto a impactos no clima, água, economia circular, poluição e biodiversidade.

    O principal argumento é que a barragem servirá para o abastecimento público de água de cerca de 55 mil pessoas, em oito concelhos. Mas a população é abastecida pela barragem de Póvoa e Meadas, que tem capacidade para servir o triplo da população atual.

    A ZERO, uma das organizações que, nos últimos anos, procuram denunciar os impactos e os interesses associados ao projeto, revela que o uso previsto de água para abastecimento público seria cerca de 1% do volume de afluências anuais. O uso para rega? 65%. Números que clarificam a natureza do projeto: apoiar a expansão da agro-indústria intensiva e das monoculturas de regadio pelos campos do Alentejo.

    «Para quê e para quem?»

    Cerca de 40 quilómetros a jusante, esta mesma Ribeira de Seda perde-se já numa enorme barragem: a barragem do Maranhão, construída nos anos 50. Também ela previa o abastecimento de água potável à população, mas nunca tal aconteceu…

    Nos últimos anos, as margens da sua albufeira foram cobertas com milhares de hectares de olival intensivo. Na primavera do ano passado, o Maranhão estava nas notícias: manchas de espuma azul, lodo, pasta branca, denunciavam uma perigosa albufeira poluída com cianobactérias. Segundo a autarquia de Avis, isto era resultado da enorme quantidade de agro-químicos, que, com a chuva, acabam na água.

    Entretanto, os agricultores que beneficiam deste regadio mais a sul alertam que a barragem do Pisão pode deixar a do Maranhão à míngua de água. Numa região onde já existem 12 grandes barragens, Pedro Horta, da ZERO, deixa a questão: «Para quê e para quem mais uma?»

    A consulta pública decorreu no pico do verão. Contou com 181 participações. Quinze dias úteis depois,
    a APA emitia declaração ambiental favorável. Para a Quercus, “a decisão final já estava tomada”.

    «Por mais que a dúvida seja de alguns, a vontade é de todos», assevera o presidente da Comunidade Intermunicipal do Alto Alentejo, Hugo Hilário, que é autarca de Ponte de Sôr há mais de uma década e antigo quadro da corticeira Amorim. Afirma que a Barragem do Pisão é «uma das mais importantes páginas da história do Alto Alentejo, que transformará o nosso território e lhe garantirá mais sustentabilidade económica e ambiental futura».

    Na verdade, 50 anos após o 25 de abril, continua a concretizar-se a visão do regime fascista para o Alentejo: subvenções estatais a apoiar grandes proprietários e empresários agrícolas e disseminação de monoculturas intensivas. A Barragem do Pisão é uma proposta de 1957, do Plano de Rega do Alentejo – o projeto do Estado Novo para suceder à Campanha do Trigo que, nos anos 30 e 40, provocara o desaparecimento quase total das florestas naturais e o esgotamento dos solos alentejanos.

    Os fundos europeus do PRR permitiram desenterrar o velho projeto, mas escondem o verdadeiro custo para as contribuintes. «Omitido das notícias empurradas pelo promotor e pelo anterior governo está o facto de os 140 milhões do PRR virem a título de empréstimo», explica ao MAPA Pedro Horta.

    E, no entanto, «não conseguem cobrir talvez nem metade dos custos totais.» De facto, se o projeto avançar, os custos poderão superar os 300 milhões de euros.

    «Segundo as aferições referidas pelo próprio promotor», revela, «vão ser cerca de 50 grandes proprietários a beneficiar com o investimento público». E interroga-se: «Não existem formas mais sensatas de investir nesta região?»

    Monoculturas ou montado

    A consulta pública da Barragem do Pisão decorreu em 2022. Como é frequente em projetos polémicos, foi lançada no pico do verão. Contou com 181 participações.
    À exceção das autarquias locais e de duas associações de empresários agrícolas, todas as participações, de associações, empresários e cidadãos, declararam e fundamentaram a sua oposição ao projeto. Quinze dias úteis depois, a Agência Portuguesa de Ambiente (liderada por Nuno Lacasta, antes de se tornar arguido na Operação Influencer) emitia declaração ambiental favorável condicionada. Para a Quercus, «a brevidade inédita deste processo mostra que a decisão final já estava tomada». Em setembro, o governo classifica a barragem como «empreendimento de interesse público nacional», para permitir «maior flexibilidade e celeridade ao nível dos procedimentos administrativos», nomeadamente para o abate de espécies protegidas.

    A concretizar-se, a nova albufeira implicará o desmatamento de 540 hectares de montado. Este resiliente sistema agro-silvo-pastoril é um aliado na mitigação e adaptação às alterações climáticas e proteção da biodiversidade. Travar o seu declínio e apoiar a sua regeneração permite que o solo retenha grandes quantidades de carbono – e de água.

    Os 725 hectares de águas paradas submergiriam ainda a aldeia do Pisão, onde vivem 70 pessoas. Em fevereiro passado, esta população foi convidada a preencher um questionário sobre preferências para a nova aldeia onde seria realojada.

    «Há um misto de frustração, já que é um projeto antigo que tem mantido a população na incerteza do futuro há anos, de expectativa, pelas promessas de “desenvolvimento” e “reversão do despovoamento” que tipicamente se vendem nestes mega-projetos, e de resignação».

    «Os custos públicos são evidentes: uma povoação inteira desenraizada; mais de 58 mil azinheiras e sobreiros, a maioria saudável e em povoamentos, arrancada; e a previsível artificialização de um território pelas monoculturas da moda. Não se espera emprego digno que justifique o investimento, nem tão pouco um estancamento da compressão demográfica da região», resume Pedro Horta.

    Na ausência de crítica e resistência por parte das populações, a ação tem passado pelo foro judicial, «para procurar restabelecer sanidade no investimento público.» Atualmente, decorre um processo de impugnação da Declaração de Impacte Ambiental, iniciado pelo GEOTA, com adesão de outras organizações de ambiente.

    Decorre ainda um diferendo entre duas APA. A Associação Portuguesa de Antropologia emitiu três pareceres negativos à Agência Portuguesa do Ambiente, criticando a pobreza do processo de desalojamento da aldeia do Pisão, notando a ausência de um plano de monitorização e de profissionais de antropologia. A associação afirma que continuará «a participar ativamente na defesa do território, da sua população e da sua imensa riqueza cultural e natural contra uma lógica de desenvolvimento puramente extrativista.»

    Na edição de dezembro de 2022 do Jornal MAPA, o presidente da Quercus de Portalegre, José Janela, afirmava que, para a obra não avançar, é necessária «uma tomada de consciência do que está em causa» e que esta leve a «ações diretas em defesa das árvores e de todo o ecossistema ameaçado.»

     


    Legenda da fotografia [em destaque]: A Ribeira de Seda brota na Serra de São Mamede e está ameaçada por um novo paredão de 54m de altura – Comunidade Intermunicipal do Alto Alentejo.


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #40, Janeiro|Março 2024.

  • Circo político madeirense no cabo bambo de um teleférico

    Circo político madeirense no cabo bambo de um teleférico

    No dia 1 de Dezembro, apesar de chuva, vento e frio, realizou-se uma manifestação na Eira do Serrado, um dos icónicos pontos de observação da paisagem madeirense, contra um projecto que promete elevar o investimento turístico na ilha a níveis megalómanos. Promovido na imprensa regional sob o paradoxal título de «teleférico ecológico e “zip line” mais longo da Europa» (1), o projecto «Sistema de Teleféricos e Parque Aventura do Curral das Freiras», cuja implementação rondaria os 47 milhões de euros, inclui uma zona de escalada, pontes suspensas, slides, rapel, um zip line com 2,3 quilómetros de comprimento e duas linhas de teleférico. Um dos teleféricos, que contaria com 15 lugares, ligaria o Montado do Paredão ao Curral das Freiras, enquanto o outro «sobrevoaria» o vale, através de uma cabine de 50 lugares, desde o Montado do Paredão à Boca da Corrida, a mais de 1000 metros de altitude.

     

    Promovido na imprensa regional sob o paradoxal título de «teleférico ecológico e “zip line” mais longo da Europa» (…) inclui uma zona de escalada, pontes suspensas, slides, rapel, um zip line com 2,3 quilómetros de comprimento e duas linhas de teleférico.

    O Movimento «É Possível Impedir a Destruição», que já havia lançado uma Petição Pública em defesa do Montado do Paredão – classificado como Zona Especial de Conservação, o que (supostamente) lhe conferia o estatuto de área protegida – e requerido uma providência cautelar para travar o projecto em causa, alega que este, além de implicar a desfiguração de uma paisagem natural única, representa uma ameaça à nidificação da freira da Madeira – espécie endémica em risco de extinção. Não obstante, em finais de 2021, seria adjudicado um Estudo de Impacto Ambiental, que custaria ao erário público mais de 85 000€. Esse período coincide com o início dos protestos contra o projecto, aquando da emissão da declaração de utilidade pública, que permitiria a expropriação dos terrenos necessários à execução da obra por parte do governo regional, que terá reservado 370 mil euros para esse fim ainda antes da realização do Estudo de Impacto Ambiental (2). Esta agitação popular terá dado lugar a um website (3) e a uma conta de Instagram (4) dedicados a divulgar os desenvolvimentos deste projecto e as acções de protesto contra a sua concretização. Para lá de uma perspectiva ambiental, alguns habitantes do Curral das Freiras, freguesia situada num profundo vale rodeado por montanhas, criticam o facto de se priorizar esta obra turística em detrimento da construção de um acesso alternativo à vila, uma promessa reiterada ao longo dos vários governos social-democratas, visto que o único acesso viário actual é através de um túnel de quase 2,5 quilómetros, cuja circulação fica ocasionalmente condicionada devido à queda de rochas.

    O promotor do «Sistema de Teleféricos e Parque Aventura» é o próprio governo regional, ironicamente, por via do Instituto de Florestas e Conservação da Natureza (IFCN). Este projecto de iniciativa privada fora classificado como «bem de utilidade pública» sob os previsíveis pretextos de valorização (mercantil) da paisagem, de crescimento económico e de criação de postos de trabalho, ao incorporar uma nova atracção turística desse grande parque de diversões em que o governo visa tornar a ilha da Madeira. Argumentos mais cómicos incluem a alusão a «uma gestão sustentável do espaço natural… que assegure às gerações vindouras um património natural biologicamente equilibrado», como se tamanha construção pudesse ser benéfica para o ecossistema; permitir, «quer à população da Região Autónoma da Madeira (RAM), quer a todos quantos a visitam, usufruir de um dos espaços naturais privilegiados da Região, desfrutando momentos aprazíveis de elevada qualidade cénica, de contacto direto com a cultura, com a natureza e com a riqueza florística, faunística e geológica característica daquela zona», enquanto se corrompe esse mesmo cenário com longos cabos e gigantes estruturas de betão; contribuir «para a diminuição de congestionamento automóvel e para uma verdadeira sustentabilidade ambiental» (5), como se se pretendesse fazer dos teleféricos um novo meio de transporte público, à semelhança do que acontece (e bem) na capital boliviana.

    A respectiva consulta pública, aberta entre 28 de Fevereiro e 8 de Abril de 2022, contou com 402 participações individuais, nenhuma das quais positiva (6). Como evidência de que tais consultas públicas servem apenas para forjar uma ilusão democrática, no seu relatório interno todas as participações aparecem classificadas como «não tratadas». Demonstrando um completo desprezo pela opinião popular, a autorização da adjudicação é emitida no dia 20 de Setembro, quatro dias antes das eleições regionais. Na sequência da vitória da coligação PSD-CDS, o contrato de concessão é assinado, a 16 de Outubro, com a Inspira Capital Atlantic, Sociedade de Investimento e Consultoria, LDA. O contrato, que obriga ao pagamento de uma renda mensal de 2 000€ por parte da empresa ao governo regional, tem a duração de 50 anos a contar da data de início de exploração, com possibilidade de renovação por período adicional de dez anos.

    Demonstrando um completo desprezo pela opinião popular [402 pareceres negativos em consulta pública], a autorização da adjudicação é emitida no dia 20 de Setembro, quatro dias antes das eleições regionais.

    Este projecto megalómano segue a linha de sacrifício dos ecossistemas endémicos sob o pretexto da captação turística – ainda que grande parte dos turistas sejam atraídos precisamente pela beleza natural da Madeira. O mesmo sucedeu com a polémica proposta de alcatroar o caminho florestal das Ginjas, em plena Laurissilva (floresta nativa). No entanto, o mais recente artigo do Diário de Notícias sobre o projecto negligencia por completo o seu impacto ambiental, resumindo-se a puro cálculo económico baseado em previsões de lucro. Por outro lado, a oposição a tais atentados ambientais torna-se cada vez mais ténue no seguimento do acordo de incidência parlamentar entre a coligação PSD-CDS e o PAN, após o primeiro não ter conseguido obter maioria absoluta nas eleições regionais (ainda que Miguel Albuquerque, actual presidente da região autónoma, tenha prometido demissão caso não alcançasse maioria absoluta). O PAN, que antes se opunha veementemente à construção dos teleféricos, agora afirma não ter uma posição assumida, passando a liderar o «processo de acompanhamento e avaliação» do projecto. Ou seja, tudo indica que o Partido dos Animais e da Natureza, após ter garantido assento na maioria parlamentar, está preparado para estrear o complexo teleférico do Curral das Freiras. Os madeirenses, por sua vez, estão cada vez mais cientes de que as suas reivindicações ecológicas não podem ser delegadas em representantes partidários.

     


     

    1. «Curral terá teleférico ecológico e “zip line” mais longo da Europa», Jornal da Madeira, 6 de Maio de 2021.
    2. «Madeira: Projecto de teleférico gera protesto e dúvidas», Público, 24 de Dezembro de 2021.
    3. https://bit.ly/3Tyezgy
    4. #contratelefericocurralfreiras
    5. Jornal Oficial – Região Autónoma da Madeira, Série I, Número 202, 11 de Novembro de 2022, 4º suplemento.
    6. https://bit.ly/3TAerx7
    7. «Teleférico vai custar 47 milhões e criar 40 empregos directos», Diário de Notícias, 13 de Dezembro de 2023.

     


    Texto e Imagens: Filipe Olival, filipeolival@jornalmapa.pt

    Notícia publicada no Jornal Mapa, edição #40, Janeiro/Março 2024.

     
  • Em defesa das Alagoas Brancas

    Em defesa das Alagoas Brancas

    As Alagoas Brancas, em Lagoa, Algarve, é uma zona húmida temporária em risco de desaparecer para dar lugar a mais um loteamento de serviços e comércio. Ambientalistas e um grupo de cidadãos locais denunciam o crime ambiental e o risco de segurança da cidade em situação de cheia. No local, onde já existem dois grandes supermercados, foi dado início, em Novembro passado, às terraplanagens para os contestados novos 11 lotes da empresa Edifícios Atlântico. Com o alvará emitido em 2020, suportado num Plano de Urbanização (PU) de 2008, o presidente socialista de Lagoa Luís Encarnação declarou não reconhecer valor ambiental que justifique a última providência cautelar colocada ao avanço das máquinas pelo PAN (Partido das Pessoas, dos Animais e da Natureza).

    alagoas

    O valor da biodiversidade em causa havia sido demonstrado pelo estudo de 2019 da associação Almargem, mas o PDM de Lagoa, aprovado em 2021, não considerou a proposta de uma Área Protegida Local para esta zona húmida, com mais de uma centena de espécies de aves. A batalha jurídica movida pelos ambientalistas acabou por levar, em Março de 2022, após recurso da autarquia, à anulação pelo Tribunal Central Administrativo Sul da suspensão da execução do alvará que o Tribunal Administrativo e Fiscal de Loulé havia decretado em abril de 2021, considerando que não haveria lugar à pretendida Avaliação de Impacte Ambiental. A autarquia responde ainda aos protestos com a existência de «direitos adquiridos», não pretendendo enfrentar elevadas indemnizações. Argumento contestado pelo advogado Rui Amores, que, em representação dos movimentos cívicos, questiona a legalidade do PU e defende a suspensão do PDM naquela área, atendendo aos valores ambientais em presença.

    alagoasNo debate «Lutas Pelo Território – das Alagoas Brancas às Covas do Barroso», que ocorreu em Faro em 24 de Fevereiro, promovido pelo jornal MAPA e pelo local Comité Custódio Losa MD, o «Retail Park» das Alagoas foi enquadrado na retomada vaga de betonização do litoral algarvio, que recupera os «direitos adquiridos» de projectos urbanísticos e turísticos que a crise de 2007/2008 havia interrompido. Esta luta, à semelhança da luta contra os resorts, os campos de golfe e o gigantismo das centrais fotovoltaicas na paisagem algarvia, articula-se com a luta pelo território e contra a indústria extractiva do lítio que está na ordem do dia em várias regiões do Centro e Norte de Portugal. Trata-se, como foi referido, não apenas de defender o ambiente, mas de pôr em causa um determinado tipo de crescimento infinito que não acautela a qualidade de vida das populações, nem um desenvolvimento sustentável. Apontando-se a estranheza da passividade e a ausência nos protestos de uma acção directa por parte das populações, como foi resumido no Portal Anarquista por um dos participantes no debate, torna-se «claro que nenhuma destas lutas deve permanecer isolada de todas as outras e que é preciso alargá-las às diversas comunidades, fazendo com que as populações nelas participem, mobilizando-as no sentido de que é preciso procurar alternativas ao actual modelo de desenvolvimento económico assente apenas no lucro e no território enquanto mera mercadoria e não na qualidade de vida, em todas as suas vertentes, de quem habita estes territórios, sejam eles do interior esvaziado ou do litoral betonizado em nome do deus turismo».

     


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #37, Março|Maio 2023.

  • Mercadorias de Marte, precipícios da Terra

    Mercadorias de Marte, precipícios da Terra

    A mudança climática vista daqui 

    Aqui é a posição partilhada – exposta a agressões velhas e novas – por todos nós neste ano de alto risco de 2022. Mesmo tomando em conta as variações nas coordenadas que cada um ocupa, o mais certo é todos estarmos expostos a altas doses de desinformação veiculada pelos dispositivos sociais, publicitários, tecnológicos e económicos que visam a nossa «anuência» à gestão dos acontecimentos, ao mesmo tempo que pretendem turvar a percepção do estádio a que a situação já chegou. A tudo isso, que até aqui possuía mais ou menos as cores da pax americana, podemos somar dois vectores de agressão relativamente novos: em primeiro lugar, a emergência de novos pólos de projecção de poder militar e industrial que se apresentam como forças «alternativas» na cena internacional, mas que se limitam a oferecer formas corruptas e pós-soviéticas do Estado autocrático e militarista, como na Rússia, ou o modelo do hiper-industrialismo neoconfuciano, como na China; em segundo, a entrada em cena – e que cena! – de novos actores cibernéticos e tecnológicos prestes a serem lançados numa sociedade «demasiado humana» que está a ser preparada para a «inevitabilidade» daqueles. Este cenário adquire toda a sua amplitude quando tomamos em conta a avançada destruição do meio ambiente e da biosfera, de que a mudança climática é hoje o grande acelerador, mas não o único actor. É a essa amplitude que dedicamos esta reflexão.

    «Aceleração» é uma palavra-chave. Aceleração de tudo, entendida como incremento exponencial da velocidade das transformações antropogénicas do sistema-Terra, que se ramificam e se implantam em todos os sistemas ambientais à nossa volta, adquirindo processos autónomos e interligados cada vez mais significativos. Mas essa implantação não é apenas a que se dá nos sistemas físicos naturais. Toda a vida política, tecnocientífica, económica e cultural penetra e mistura-se com esta aceleração sistémica e paradoxal. Também todos os indicadores de extracção de matérias naturais, do reino mineral ao reino animal, crescem exponencialmente e produzem híbridos cuja existência se dá muito para além dos limiares da sustentabilidade. Tudo o que hoje é certificado como «sustentável» é, na verdade, manifestação de uma produção imaginária já exterior aos limites planetários, como se as nossas fábricas já estivessem em Marte e pudessem alimentar a circulação de mercadorias aqui na Terra. Todos os indicadores industriais, congregando as culturas intensivas dos campos e do mar, a rentabilização das bioengenharias, a «betonização» dos territórios, a «penetração» do mundo pelo incremento das velocidades, a virtualização promovida pela expansão das redes telemáticas, crescem de forma quase síncrona a partir de um pressuposto exoplanetário. Ao mesmo tempo, acelera-se a integração das mediações tecnológicas, operem elas na comunicação, na medicina, na educação e na cultura, nas práticas sociais, de forma a que qualquer existência fora desses dispositivos seja considerada como um risco, uma prática criminosa ou, literalmente, impossível. Apesar de todo esse aparato, neste e nos próximos anos, é já visível o modo como, de forma cada vez mais evidente, toda e qualquer fuga em frente pode sempre ser ultrapassada pelo carácter abrupto das transformações climáticas.

    Num mundo em aceleração, multiplicam-se aquelas situações a que os media chamam «crises». Nesta novilíngua (Orwell) da era neoclimática, a crise é sempre entendida como uma disfunção temporária que ocorra em algum processo. Em última análise, a crise-padrão é aquela do ciclo económico e financeiro, onde a crise é reorientada como uma «destruição criadora» que acaba por relançar com pujança novas estruturas socioeconómicas. Foi esse o modelo seguido na Segunda Guerra Mundial: a destruição da velha Europa permitiu lançar as bases do capitalismo global, num período em que a retaguarda industrial se encontrava abrigada no continente americano ou no oriente russo. Setenta anos depois, é a destruição ecológica que é vista como a oportunidade para um novo ciclo, ciclo de destruição e criação. Enquanto a produtividade do sistema não enfrentava limites físicos aparentes e se mantinha alta, a guerra constante era remetida para zonas geográficas nas margens dos centros industriais. Foi o que alimentou a ilusão da secundarização da violência militar, confinada a certas áreas ricas em matérias-primas e fontes energéticas primárias. Acontece, contudo, que as lógicas de destruição criadora nunca põem de parte qualquer recurso, voltando a tirá-lo dos seus arsenais estratégicos mal se apresenta uma oportunidade para o seu uso. Essa oportunidade foi agora rebaptizada sob a designação inócua de «alterações climáticas» (preferimos falar de «mudança climática»), mas que devem ser vistas, para além do seu aspecto climático, como um agregado de fenómenos. É assim que vastos territórios que haviam sido desindustrializados voltam a permitir-se pensamentos de guerra.

    Greve_Climática_Estudantil

    A mudança climática é tudo menos um mero acidente natural. Ela decorre inteiramente da lógica de dominação do planeta, que tem uma história multi-secular. Como o planeta é, no essencial, um sistema dinâmico cujas modificações se dão, salvo catástrofe, num tempo longo, processos aos quais todos os seres vivos, incluindo os humanos, se foram adaptando, torna-se evidente que a introdução de modificações antropogénicas transportadas pelo factor decisivo da aceleração retira à generalidade dos seres vivos qualquer hipótese de adaptação. Por essa razão, sempre que deparamos com algum discurso sobre a necessidade de adaptação à mudança climática, podemos estar certos de que o conceito é aí reorientado para o domínio da adaptação tecnológica e biotecnológica. O que está em questão é a transformação genética e a deslocação, em virtude das dinâmicas climáticas, das espécies, uma engenharia do vivo a céu aberto, que privilegia os vertebrados humanos e algumas espécies animais e vegetais ditas «úteis» ou esteticamente eleitas. É fundamental compreender que quase tudo o que se passa na «resposta» das sociedades dominantes à mudança climática decorre do conhecimento de que só a tecnologia pode, potencialmente, ser um agente tão veloz quanto as transformações ambientais e climáticas que se avizinham. Esse é, no essencial, um sistema de crença baseado nos processos instalados pela sociedade industrial e na sua potenciação. Mas é também um conto do poder, uma vez que o sistema-Terra e o sistema tecnocientífico entram aqui numa competição inédita.

    Este conhecimento da inviabilidade de uma adaptação «natural» à mudança climática, que se tornará mais e mais evidente já nesta década, leva-nos a interrogar o que se está a passar no espaço público das nossas sociedades ou, mais particularmente, nas grandes reuniões político-científicas, como as Conferências das Partes (COPs) sobre as Alterações Climáticas, instituídas pelas Nações Unidas. Estes rituais de salvação do mundo tiveram o seu ponto alto na COP de Paris, em 2015. A partir daí, passou a existir um acordo (não-vinculativo) que enunciava objectivos quantificados, quer em graus celsius, quer na quantificação de emissões. É evidente que já aí se tornava notória a vontade de dotar o planeta de um termóstato. Qualquer observador objectivo pode verificar que esses acordos climáticos transportam, em si mesmos, uma contradição fatal: quem negoceia e subscreve esses documentos são os mesmos Estados que se esforçam por expandir e acelerar as causas directas e indirectas da mudança climática. Uma análise superficial bastará para que se verifique que os esforços de descarbonização são ainda, e assim permanecerão, residuais, face aos esforços de carbonização que decorrem numa espécie de mundo paralelo, mas igualmente real.

     

    A questão da energia é, a este propósito, sintomática. Inúmeros agentes políticos e empresariais promovem as energias renováveis recorrendo-se de um discurso que só pode ser caracterizado como publicitário. Mas fazem-no com base no falso pressuposto de que a energia a que se recorre é sempre neutra e não determina, para além desta ou daquela forma de poluição, a sociedade e o mundo em que vivemos. Apresentadas como substitutas das energias carbónicas, é fácil verificar que as energias renováveis são e permanecerão recursos que estão limitados, pela sua natureza, a um papel de complemento das três grandes fontes energéticas que impulsionaram a sociedade do crescimento: o carvão, o petróleo e o gás. Pura e simplesmente, são estas as fontes energéticas que moldaram, e ainda definem, os nossos regimes económicos e sociopolíticos desde o dealbar da Revolução Industrial, cujo necessário enterro ninguém parece ter a ousadia de enunciar. Um dos problemas que mais prejudica a nossa reflexão sobre estas questões é a ignorância, que atravessa o espectro político, sobre a natureza da energia no mundo real. Ora, o que a energia vale é sempre expresso pela sua tradução em trabalho que as máquinas podem realizar versus o trabalho realizado por humanos e animais. A expansão das fileiras de escravos mecânicos e electrónicos condiciona hoje quase todas as escolhas sociais. Tudo o resto passou a ser decorativo. Se ainda queremos salvar o nosso habitat, é suicida continuarmos sentados no topo da pirâmide energética do industrialismo (ver esquema): torna-se evidente que uma sociedade fundada em energias renováveis de proximidade é uma sociedade onde o trabalho humano e animal necessita de readquirir o seu papel social, coexistindo com máquinas muito menos potentes e complexas que já não sejam os produtos de centros fabris mais ligados aos circuitos globais do que às necessidades locais.

    O ilusionismo em torno da energia é, hoje, uma das práticas político-tecnológicas de que os diversos regimes não podem abrir mão; mas ela adquire o seu grau mais extremo na Europa comunitária, onde a fantasia da sociedade rica 100% descarbonizada vai de vento em popa. A agravar esse estado de coisas, muitos daqueles que protestam contra a inacção dos Estados padecem da mesma cegueira energética quando se limitam a denunciar os subsídios canalizados para as empresas de prospecção e extracção de petróleo e gás. Esses subsídios sustentam um modelo que não vemos ser objecto de idêntica contestação pelos mesmos. Daí que o pior erro dos movimentos pelo clima seja a sua exposição aos green new deals, alianças de conveniência entre o sindicalismo industrialista e a ideologia do capitalismo smart, que corroem uma causa decisiva. Por outro lado, movimentos importantes como o Extinction Rebellion ou a Greve Climática parecem ter atingido o tecto da sua capacidade de influência sobre as opções das sociedades onde estão activos, em grande parte porque não se mostram dispostos a aprofundar as suas práticas de desobediência civil, dando o passo que vai da petição dirigida aos poderes à disrupção dos mesmos.

    Embora a mudança climática mostre até à evidência que não há regiões descarbonizadas versus regiões «poluentes», as metas dos 1,5ºC ou 2ºC (eloquente indecisão) inscritas no acordo de Paris são, no século XXI, o equivalente da ilusão da «Guerra que acabará com todas as guerras» no século XX. Ou seja, tudo indica que se repetirá o padrão da guerra depois da última das guerras: depois da competição em sede onusiana visando demonstrar quem cumpre as «metas» (que, no fim de contas, estão em vias de ser ultrapassadas) e é capaz de salvar, ao mesmo tempo, a sociedade industrial, explodirão os conflitos pelos recursos, os nacionalismos obcecados com o seu estatuto de potências regionais, a guerra aos migrantes, a imposição de aquisições regionais recorrendo a armas nucleares tácticas, etc. Perante tudo isso, necessitaríamos de reavivar imediatamente uma consciência antimilitarista, absolutamente necessária à consciência ambiental e climática.

    Se ainda queremos salvar o nosso habitat, é suicida continuarmos sentados no topo da pirâmide energética do industrialismo

    Entretanto, já não basta dizer que a mudança climática é real, uma afirmação que nos colocou em confronto com forças que tudo fizeram para poderem continuar a explorar, nas últimas décadas, o actual sistema de dominação do planeta e dos seus seres vivos. Dada a dinâmica própria dos acontecimentos, essa concepção de um processo real que podemos isolar de maneira científica, ou que podemos transformar em mais um tópico noticioso, fez-se fonte de uma estranha anomia a que chamaremos a normalização do visível climático. A percepção da mudança climática torna-se, de dia para dia, o transe de um terror espoletado por certas imagens canónicas desta. Espectacularizada como furacão, cheia, onda de calor, incêndio, a agregação e potenciação dos fenómenos decisivos nos quais convergem todas as circunstâncias climáticas pode assim ser activamente dissimulada. Depois do negacionismo, entramos na fase em que se dá a ver o espectáculo das alterações climáticas a fim de melhor as instituir como matéria destinada aos poderes demiúrgicos dos Estados e da tecnociência. Desse modo, escapam ao observador todas as interligações entre sociedade e atmosfera, quotidiano e vida não-humana, tecnologia e sobrevivência. Trata-se de operar pela dissimulação do indissimulável, assim transformando toda a matéria do mundo num líquido fluído e incaracterizável.

    A produção académica e mediática de material sobre a mudança climática, os relatórios de milhares de páginas do IPCC (Painel Intergovernamental das Alterações Climáticas), muitas vezes de elevado nível científico, não são o equivalente, per se, da partilha da verdade no que diz respeito à viabilidade das nossas sociedades e mesmo à nossa sobrevivência. O que se passa no sistema comunicacional – e nele incluímos tanto os self media como os media tradicionais – tem provado ser uma constelação de representações que, mesmo quando aponta factos, se integra quase sempre num sistema mais vasto de produção de ilusões. Por que razão as dinâmicas fundamentais da mudança climática – como o aquecimento já potenciado no clima global, os efeitos reais dos colapsos das grandes correntes marítimas e atmosféricas, a iminência de um Ártico sem gelo no Verão, os impactos desastrosos nas principais culturas agrícolas, etc. – não são objecto de imediata e urgente discussão pública, mas aparecem antes como representações melancólicas de alguma inevitabilidade cósmica? Por que motivo o sistema comunicacional vai acenando com a iminência de tecnologias milagrosas de descarbonização, de espelhamento da radiação solar ou novas fontes energéticas infinitas e, em todos os sentidos, gratuitas? Entretanto, o único beneficiário parece ser o lobby nuclear, agora renascido das cinzas. A COP de Glasgow foi, em 2021, mais uma «última oportunidade» que se revelará eminentemente real. Mas antes disso, ela foi a confirmação do colapso do Acordo de Paris, armadilhado pelo «mercado do carbono» e pelas «oportunidades de crescimento» que a pacificação das relações entre economia e política prenunciavam.

    A nossa posição comum não é boa e não parece vir a melhorar a muito breve prazo. Nessa altura, as nossas cidades começarão a ser colocadas diante da escolha entre recorrerem a todas as formas possíveis de produção de alimentos e ao êxodo urbano ou enfrentarem a disrupção (e a violência) que se aproxima quando as cadeias de produção e distribuição de alimentos passarem por colapsos cada vez mais frequentes. Nada disso seria inevitável se não continuássemos a acreditar que as mercadorias nos vão chegar de Marte quando vier a hora da grande deslocalização climática. Quando nos dizemos que é preciso tratar da Terra e ao mesmo tempo embarcamos em foguetões cósmicos, acaba por ser a Terra a tratar de nós. Mas os novos promotores dos negócios climáticos, sugestionados por essas imagens có(s)micas, apregoam aos quatro ventos um «alinhamento do modelo de negócio com os factores de equilíbrio ambiental». O desaparecimento da única espécie capaz de erradicar toda a vida de um planeta merece esse alinhamento dos corpos celestes. E decerto, no fim de tudo, o riso do cosmos.

     


    Fotografias da Greve Climática Estudantil de 2019.


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #33, Fevereiro|Abril 2022.