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  • Somos muitas e não somos números. Um relato do 4º Acampamento em Defesa do Barroso

    Somos muitas e não somos números. Um relato do 4º Acampamento em Defesa do Barroso

    Pelo quarto ano consecutivo, a aldeia de Covas do Barroso, em Trás-os-Montes, acolheu centenas de pessoas solidárias com a luta da comunidade local contra as ameaças da exploração mineira. Em 2024, o Acampamento em Defesa do Barroso procurou honrar a luta popular contra a empresa Savannah Resources, que já implicou vários processos legais e sete meses de bloqueio diário de uma máquina que invadira os terrenos baldios. Durante seis dias, cultivou-se um ambiente de aprendizagem, celebração e partilha entre as pessoas do Barroso e os apoiantes que visitavam este pequeno paraíso abraçado por montanhas e ameaçado pela avidez capitalista.

     

    O programa teve início oficial a 14 de Agosto, com a exibição do filme Lavra, que aborda as dramáticas consequências da exploração mineira sofridas por diversas comunidades brasileiras, vendo «o chão a ceder sobre os seus pés» e «o céu a cair sobre as suas cabeças». No entanto, nos dias anteriores várias foram as pessoas que acorreram a Covas do Barroso, oferecendo os seus dias de verão para garantir que todas as necessidades logísticas do evento seriam satisfeitas.

    A “acampada” foi precisamente caracterizada pelo envolvimento das participantes, responsabilizando-se pelas tarefas diárias segundo princípios de auto-gestão e apoio-mútuo, tornando-a num fervilhante laboratório de horizontalidade. A estrutura organizativa desdobrou-se em grupos de trabalho, cujas responsabilidades iam desde a limpeza e a confecção de refeições à (celebr)ação e ao cuidado inter-pessoal. As refeições, que alimentariam mais de 300 pessoas, ficaram a cargo dos colectivos Maldatesta, Mula, Disgraça e Rede de Apoio Mútuo de Lisboa. A loiça, por sua vez, era lavada pelas próprias participantes sob o espigueiro da Quinta do Cruzeiro, onde outrora fora armazenado o milho após ser colhido. Ironicamente, este complexo senhorial do século XVIII passa, nos verões dos anos 2020, a testemunhar práticas vivas de organização anarquista.

     

    O dia seguinte foi marcado por uma conversa com Paula Oliveira, que se dedica a fomentar a produção têxtil através de técnicas tradicionais, sobre a utilização de linho e de lã no Barroso, seguida da escuta de histórias partilhada pelas habitantes locais, que se estenderam pela «caminhada sensorial» e pela «caminhada da memória», nas quais os forasteiros foram convidados a enveredar.

    Ao cair da noite, o Largo do Cruzeiro encheu-se de gente para assistir ao Grupo Teatral de Boticas, que trouxe uma leitura encenada do livro “Lítio”, lançado essa noite. Seguiu-se a estreia nacional do filme “A Savana e a Montanha”, de Paulo Carneiro. Um filme de tom satírico à estilo western, protagonizado pelos próprios habitantes do Barroso, que estreara em maio no festival de Cannes e de onde se destaca a máxima «somos poucos, mas não somos números».

     

    O programa de dia 16 começou com uma contextualização sobre o projecto de mineração em Covas do Barroso, combinada com a crítica ao processo de expansão energética (disfarçado de «transição energética») em Portugal, contando com a presença de representantes da Mútua de Pescadores de Setúbal. Antigos mineiros, da Associação de ex-trabalhadores das Minas de Urânio (ATMU), partilharam a sua luta de mais de duas décadas pelos direitos de quem teve de, como nos versos de Sérgio Godinho cantados hoje no Barroso, «construir as cidades pr´ós outros, carregar pedras, desperdiçar muita força p´ra pouco dinheiro». Denunciaram a violência exercida por qualquer grande projecto de mineração sobre a saúde das pessoas, das comunidades e da natureza, e afirmaram a sua solidariedade com a resistência de Covas e de todas as populações ameaçadas.

     

    A tarde foi brindada com sete oficinas, realizadas paralelamente: escrita criativa e performance, ilustração naturalista, construção de máscaras barrosãs, criação de meias de lã, danças de rancho, visita ao ecomuseu do Barroso, introdução à ecologia e cuidado da vida para crianças. Houve ainda lugar para uma conversa sobre solidariedade com o povo palestino, com uma faixa em pano de fundo onde se lia «Do Barroso à Palestina, a terra a quem a trabalha».

    A noite foi embalada pela contadora de histórias Estefânia Surreira, pelo Grupo Couto de Dornelas, ao som do qual o largo inteiro se tornou um tremendo baile tradicional, e pelo inebriante Coro dos Anjos, que partilhou estar a experienciar um processo de horizontalização, na ausência do seu mentor Edgar Valente.

     

    Na manhã de dia 17, abriu-se espaço para o pensamento utópico na sessão “2050: um mundo sem minas”, onde se esboçaram colectivamente alternativas ao modelo extractivista. A tarde foi novamente repleta de actividades simultâneas, por sua vez repletas de participantes: oficinas de herbalismo, crochet, cante alentejano e teatro para crianças, assim como uma conversa sobre os impactos da mineração. Em seguida, sentados numa grande roda de escuta, membros do colectivo Vozes de Dentro leram cartas de mulheres encarceradas e estimularam reflexões sobre a privação da liberdade no sistema prisional em articulação com a análise dos mecanismos igualmente opressivos das instituições psiquiátricas.

    As celebrações nocturnas contaram com um espetáculo acrobático, que teve lugar no campo de futebol da aldeia; o surpreendente concerto-performance de Buterflai, que ecoou as anteriores histórias carcerárias – com ritmos de cadeados a evocar memórias da escravatura histórica e contemporânea – e celebrou a resistência e a criatividade em meio rural; e a performance musical «Volta ao Mundo em 80 Minutos», por João Barroso, músico autodidata das montanhas do Gerês, que quebrou barreiras entre artistas e público, convidando os presentes a tomar os instrumentos e participar numa criação coletiva.

     

    O domingo, dia da celebração, despertou para a criação de alianças entre movimentos nacionais e internacionais que resistem à mineração, com a presença de companheiros do Montalegre Com Vida, que lutam contra o projeto da Mina do Romano, em Morgade, pela empresa Lusorecursos; companheiras da Ação Floresta Viva, na Serra da Estrela, que lutam contra a expansão anunciada da mina de Alvarrões pela Sociedade Mineira Carolinos, atualmente em consulta pública; companheiras galegas de Suído-Seixo; e de companheiros franceses de Allier-Echassiéres.

    Ao cair da tarde, as e os participantes juntaram-se à entrada da quinta para marcharem em direção à vizinha aldeia de Romainho – que dista apenas 200m dos terrenos em que a Savannah tenciona levar a cabo os seus projectos de mineração. «Querem dar cabo das serras, Barroso / Nós não vamos permitir / O povo vai resistir» – entoavam-se os versos do cantautor barrosão Carlos Libo, à medida que o pôr-do-sol conferia às montanhas um impressionante contorno rosado.

    No largo de Romainho, diante de uma parede granítica decorada com ferramentas de trabalho e de luta (como a icónica sachola), maçarocas avermelhadas, vinhas contorcidas e uma cabaça tornada candeeiro, teve lugar uma performance onde pássaros humanos, adornados com máscaras de junco criadas durante a acampada, aludiam a um futuro em que a luta contra a mineração terá sido ganha e em que os guerreiros podem voltar a ser gente. Em seguida, leu-se o comunicado da nova Rede Global Anti-Extractivista, apelando ao cuidado, ao apoio mútuo e à solidariedade internacional contra as pulsões auto-destrutivas do capitalismo neoliberal.

    A música prolongou-se pela noite dentro, com vários momentos comoventes, como a atuação do próprio Carlos Libo, a música tradicional galega interpretada por crianças e adultos, ou a participação da Dona Albina, habitante de Covas do Barroso e presença regular nos turnos de bloqueio das máquinas, que brindou a multidão com uma cantiga da sua infância e com o fado que marcara a sua vida.

     

    No último dia da acampada falou-se sobre práticas comunitárias ibéricas, com destaque para os baldios, a sua importância histórica e atual e o seu funcionamento, com depoimentos de Nelson Gomes, presidente da associação Unidos em Defesa de Covas de Barroso e uma das figuras fundamentais na luta contra a mineração juntamente com a sua esposa, Aida Fernandes, presidente do Conselho Diretivo dos Baldios das Covas do Barroso. Seguiu-se uma conversa com membros da comunidade de baldios de Montes de Couso, na Galiza, que apresentaram uma fascinante experiência de gestão agroflorestal e organização económica para benefício comunitário.

    A tarde contou com a apresentação dos livros La Sanabria Anarquista de los anõs 30, de Carlos Coca, e The Sytem is Killing Us, de Xander Dunlap. Ao pôr-do-sol, encerrou-se o programa de reflexão colectiva em conversa com o sindicalista Bruno Candeias sobre as pontes entre os movimentos ecológicos e os movimentos laborais. Até a escuridão começar a tomar conta da tenda principal, foram-se tecendo ligações entre a mineração de lítio, a requalificação do complexo industrial de Sines, a tão prometida fábrica de hidrogénio verde, o tão cobiçado data center, as centrais fotovoltaicas que se multiplicam pelo país e a voracidade do capital internacional para aumentar infinitamente a produção e o consumo energéticos num planeta onde os recursos são finitos e a vida vulnerável.

    À luz da lua cheia, O Gajo tornou-se lobo com o uivar da sua viola campaniça, e Säflor embalou a noite com a sua inspiradora recolha de canções tradicionais ibéricas e uma voz de arrepiar tanto os fãs de música softezinha como os punks mais hardcore.

     

    Enquanto a população de Covas recupera a calma das lides diárias e centenas regressam às suas terras e aos seus caminhos pelo país e mundo fora, ficam a força deste encontro, as sementes de cuidado e de resistência, a chama de «vida verdadeira» que se viveu durante uma semana, e que se desejam capazes de travar o projecto mineiro com que o governo e a Savannah ameaçam os animais, as plantas, os rios, as montanhas do Barroso, com que nos ameaçam a todas nós.

     


    Texto de  Filipe Olival e Francisco Colaço Pedro

    Imagens de Catarina Leal, Jan Kleinpeter e Florian Scheible

  • A horizontalidade é um trabalho sempre em curso

    A horizontalidade é um trabalho sempre em curso

    Há nove anos, em Setembro de 2015, na Penha de França, em Lisboa, abria a Disgraça, com a vontade de ser um espaço «antiautoritário onde se pudesse discutir e criar soluções colectivas para problemas que tínhamos vindo a individualizar». Com a sua espécie de arquitectura invertida, este espaço está, desde há quase uma década, alugado ao colectivo que o gere e tornou-se num ponto fundamental de vida para além da opressão capitalista da cidade de Lisboa. Hoje, perante «uma cidade devastada pela especulação imobiliária, pela crise da habitação e pela elitização da cultura», a Disgraça decidiu que a única forma de fugir do aumento cavalgante das rendas e das ameaças de expulsão é comprar o espaço. Podes contribuir em gofundme.com/f/disgraca


    A Disgraça está a combater o monstro imobiliário tornando-se proprietária do seu espaço, o que, ainda que se trate de uma propriedade colectiva, é quase irónico. Chegou-se realmente a este ponto em que as únicas opções são a propriedade ou a não existência?

    Neste momento em Lisboa, como sabemos, é cada vez mais difícil sustentar os aumentos absurdos de rendas. Confrontades com o facto de que espaços amigos se encontram em situações de despejo iminente, urge a necessidade de assegurar a Disgraça a longo termo. Temos investido muito tempo, suor e lágrimas ao longo destes quase 9 anos e contemplar a possibilidade de nos tornarmos mais uma vítima da gentrificação de um dia para o outro, ou dar este espaço a perder e possivelmente (ou não) ter de recomeçar noutro sítio, levou-nos a decidir que era preciso reunir esforços para que tal não acontecesse.

    Há também a opção de okupar, mas como se viu recentemente com o Centro Social de Santa Engrácia ou com centros sociais okupados anteriores (neste momento) é bastante difícil assegurar um espaço através dessa via. Apesar de agora as opções a longo termo parecerem ser essas – propriedade ou não existência –, vemos também o papel da Disgraça em apoiar movimentos de resistência, incluindo o de okupação, para que no futuro esta pergunta não faça sentido. A ironia de haver anarquistas a comprar propriedade não nos passa ao lado; contudo, é fulcral que haja espaços estáveis onde se possa aprender, partilhar, conspirar e (des)construir de forma colectiva e horizontal.

    Um olhar sobre o vosso calendário mostra uma actividade quase frenética. Como se organizam para manter esse ritmo de coisas a acontecerem, tratarem da gestão burocrática do espaço, da biblioteca, da sala de concertos, da oficina, da sala de ensaios, da serigrafia, do ginásio, da loja livre ou da Tortuga e, ao mesmo tempo, se manterem em autogestão horizontal?

    É importante relativizar um bocado a quantidade de eventos que se vê no nosso calendário. Nem todos são organizados pelo colectivo da Disgraça. Alguns exemplos são os benefits organizados por vários colectivos, os concertos regulares da ATR, os DIY Mondays semanais… É importante para nós que a Disgraça seja um espaço onde as pessoas se possam envolver facilmente e onde não haja binários rígidos entre pessoas organizadoras e consumidoras. É também por isso que tentamos organizar frequentemente as assembleias Galaxy, abertas a qualquer pessoa.

    Em princípio, os diferentes espaços dentro da Disgraça funcionam autonomamente. A Tortuga, o ginásio, a sala de ensaios, etc., têm os seus próprios grupos que se autogerem. Na prática, isto nem sempre funciona tão bem quanto gostaríamos. Sentimos, contudo, que tem havido uma evolução positiva. No início, quase tudo era organizado pelas pessoas do colectivo. Hoje em dia há muito mais fluidez – a horizontalidade é um trabalho sempre em curso.

    Ultimamente, a dupla responsabilidade de manter o funcionamento diário da Disgraça ao mesmo tempo que nos organizamos para comprar o espaço tem sido desafiante. Achamos que a organização horizontal não é só sobre partilha de tomada de decisões mas também do trabalho e da responsabilidade para que fique mais fácil fazê-lo colectivamente. Também esperamos, quando conseguirmos assegurar o espaço, adaptarmo-nos mais facilmente com a fluidez do tempo e energia disponíveis, em vez de precisarmos de seguir o ritmo de rendas mensais.

    Sabemos que têm tido um papel importante no apoio aos migrantes que estão acampados na zona dos Anjos, em Lisboa, nomeadamente por emprestarem a vossa cozinha para que possam cozinhar. Como têm corrido as coisas? É possível a solidariedade não caritativa, mesmo em situação tão limite?

    Queremos realçar que, neste caso, o colectivo da Disgraça tem pouco envolvimento na Cozinha dos Anjos em si, que funciona autonomamente – o espaço e o equipamento são utilizados pelas pessoas que deles necessitam. Mas, daquilo que temos visto, parece-nos estar a correr super bem. É muito fixe que a malta esteja a relaxar – cozinhar, ouvir música, jogar jogos – num ambiente bastante mais seguro do que estar na rua, sob o risco de serem confrontades pela bófia, políticos e outros parasitas desta sociedade de merda.

    De forma geral, precisamente por serem situações limite, torna-se difícil evitar que se perpetuem padrões de caridade. É mais uma das facetas das socializações que sempre tivemos (e continuamos a ter) e que, como tudo o resto, requer um esforço activo e diário para as desconstruir. Mais especificamente sobre a Cozinha dos Anjos, é uma pergunta que lhes teriam de fazer, uma vez que são as pessoas que, a nível prático, mais estão a lidar com essa questão.

     


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #42, Julho|Setembro 2024.

  • STOP MÉGA-BASSINES: o desarme do fascismo faz-se lutando pela Terra

    STOP MÉGA-BASSINES: o desarme do fascismo faz-se lutando pela Terra

    Os dias 16 a 21 de julho foram os escolhidos por Soulèvements de la Terre (Insurreições da Terra) para lutar por um mundo mais ecologicamente são. O encontro assinalou-se, mais uma vez, em Poitou, região francesa altamente marcada por megaprojetos industriais conduzidos pela ganância capitalista de empresas privadas.

    Insurreições da Terra é um movimento de resistência, que luta por uma redistribuição de terras mais equitativa e ecologicamente conscientizada. Como grupo maioritariamente composto por jovens preocupados com o futuro de precariedade socioecológica que se lhes adivinha, organizam-se em redes coletivas de cuidado com a Terra e com os seres vivos, humanos e não humanos. Marcam presença em e organizam inúmeros encontros de lutas de resistência onde, através de ações diretas não violentas e outras estratégias, criam oportunidade para qualquer pessoa, com vontade de combater o racismo, o sexismo, o  catastrofismo climático e a repressão estatal e policial, tecer redes e juntar-se ao movimento.

    O encontro de julho, de nome STOP MÉGA-BASSINES (Stop Megabacias), contou com 3 atos. Entre 16 e 21, instalou-se, em Melle, a Village L’Eau (Aldeia da Água), um espaço pensado para fomentar debates, treinos ativistas, momentos conviviais e culturais. Enquanto as atividades preparadas se focaram nos diversos conflitos decorrentes do uso e apropriação de água existentes em todo o mundo, o espaço físico onde as mesmas decorriam proporcionou a oportunidade de entender melhor as lutas camponesas e
    ecológicas da região e serviu de preparação para a segundo ato da semana: uma marcha popular em Saint Sauvant por uma moratória imediata no projeto da construção de uma megabacia na zona.

    Marcha popular por Sant Sauvant (STOP MEGÁ-BASSINES | CANAL INFORMATIONS GENÉRALES).

    A marcha contou com cerca de 10 000 pessoas que,caminhando ou pedalando, ocuparam os campos franceses, marcando a sua posição contra as forças neoliberais que saqueiam a biodiversidade e o bem-estar de populações desprivilegiadas de poder e capital. Uma das vitórias deste ato foi o desarmamento da bacia de Pampr’ouef. Um grupo de ciclistas que conseguiu ultrapassar a barreira policial que protegia a bacia lançou papagaios de papel carregados de plantas aquáticas que, em contacto com a água estagnada da bacia, crescerão e entupirão os tubos necessários para o funcionamento da bacia.

    O terceiro ato da semana mobilizou os ativistas da aldeia até à cidade atlântica de La Rochelle, onde se localiza o porto de La Pallice, o segundo maior porto do país no que toca a exportações de cereais. Na iminência de um projeto de expansão do porto, previsto para 2025, a conexão com o aumento de projetos de megabacias na região torna-se evidente, dada a cultura intensiva de milho e trigo em Deux-Sèvres.

    Ou seja, é através da privatização e mercantilização da água por privados, nos projetos das megabacias, que o porto de La Pallice se alimenta, contribuindo, assim, para a perpetuação de um sistema capitalista destrutivo centrado na acumulação de riqueza, pondo em risco a resposta às necessidades básicas de humanos e do mundo para lá deste. Apesar de o dia ter sido marcado pela forte repressão policial sentida pelas manifestantes, um grupo de camponeses e ativistas conseguiu, pela madrugada, bloquear, por momentos, a entrada no porto, interrompendo o seu normal funcionamento.

    A semana fica não só marcada por diversos momentos de aprendizagem, camaradagem, diversão e resistência como também por momentos de elevada repressão policial e violência, por parte das forças de ordem francesas – desde entradas para o acampamento bloqueadas por agentes policiais e pelas suas carrinhas (bloqueios nos quais eram confiscados quaisquer materiais que pudessem ser utilizados para proteção dos manifestantes em Saint-La Rochell, até helicópteros e drones com aparelhos de reconhecimento facial constantemente presentes no acampamento. Além disso, a polícia francesa não desperdiçou a oportunidade para dar uso a armas químicas, como o gás lacrimogéneo (sendo, inclusive, responsável por um incêndio durante o segundo ato da semana), e para praticar táticas de repressão violentas, como o cerco do início e do final de um bloco de manifestantes que ficaram, assim, encurraladas, durante os momentos de manifestação da semana.

    Bloqueio do porto de La Pallice por camponeses apoiantes da manifestação (STOP MEGÁ-BASSINES | CANAL INFORMATIONS GENÉRALES).

    Num momento histórico de combate ao neoliberalismo e ao fascismo de direita, que a ele vem associado, importante para a França, e para o mundo, Soulèvements de la Terre desempenha um papel crucial. O seu esforço para construir redes e alianças antifascistas, feministas, anticoloniais e anticapacitistas e para explorar diversas estratégias de resistência coletiva potencia o estabelecimento de um movimento solidário e de cuidados fundamentais na luta contra a repressão. O desarmamento do fascismo faz-se criando contrapoder popular, ressignificando a nossa conexão com a terra e apoiando-nos – trabalhadores, estudantes e camponeses – mutuamente.

    Faz-se também lembrando-nos de que enquanto a máquina capitalista escavapara construir megabacias, os protetores dos ecossistemas plantam milhares de sementes de solidariedade e de resistência que crescerão e surgirão da terra para defendê-la. Junta-te, tu também, à insurreição!

     


    Referências:

    «SAISON 7 : DÉTRICOTER LES FILIÈRES MORTIFÈRES». LES SOULÈVEMENTS DE LA TERRE.

    «19-20 JUILLET : MOBILISATION INTERNATIONALE STOP MÉGA-BASSINES – VILLAGE DE L’EAU DU 16 AU 21 JUILLET». LES SOULÈVEMENTS DE LA TERRE.


    Texto de  Uri
    Imagens retiradas do canal de Telegram STOP MEGÁ-BASSINES | CANAL INFORMATIONS GENÉRALES

  • Na Cozinha Migrante dos Anjos serve-se solidariedade sem fronteiras

    Na Cozinha Migrante dos Anjos serve-se solidariedade sem fronteiras

    Desde o inverno passado, mais de uma centena de pessoas migrantes têm acampado junto à Igreja dos Anjos, em Lisboa. Um acampamento, três histórias. A de pessoas que arriscaram tudo para vir procurar trabalho na Europa. A das instituições do Estado, que vão erguendo muros. E a das vizinhas, associações e coletivos da cidade, que abrem as portas e os corações numa luta diária: a de caminhar juntas até que os muros caiam.

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    O chef remexe com a colher de pau a enorme panela fumegante. «Chamamos-lhe thiebou guinar», conta Gora, com um largo sorriso. «É o melhor prato do Senegal!»

    Começou de manhã cedo mais um dia de azáfama da Cozinha Migrante dos Anjos. Das colunas de som, o canto quente do músico uolofe Ndongo Lô enche o centro social anarquista Disgraça, na Penha de França.

    «Aprendi a cozinha no mar. Sou pescador, passava 10 dias, 15 dias embarcado. Mas aprendo cada dia», conta o jovem senegalês. «Não sou eu apenas, vimos preparar a refeição em conjunto.»

    «Tudo isto é amor», diz Cheikh. «É uma família. Quando fazes algo sem amor, em breve desistes. Quem quer fazer, faz. Quem não quer, gere outra coisa. Enquanto vimos cozinhar, outros ficam no acampamento para guardar os nossos pertences», explica.

    Luzia, uma das vizinhas que dá apoio ao grupo de migrantes, vai varrendo o chão. «Sentimo-nos em casa desde o primeiro dia», conta. «Ver a convivência entre os cozinheiros e as pessoas da Disgraça é uma delícia».

    Olivier, vizinho da Penha de França, e Papa, outro dos jovens vindos do Senegal, debruçam-se sobre uma tábua com um quadriculado desenhado, numa partida de damier, a versão do jogo das damas popular na África Ocidental.

    Pelas duas da tarde, o almoço está pronto. É costume então oferecer-se refeições às pessoas que ajudaram e às pessoas da Disgraça. Depois, num ápice, carregada por dois jovens, a pesada panela sobe os degraus do centro social para o clarão e o calor da rua. Ao longo dos passeios, desce a Penha de França. E aterra, enfim, no Jardim António Feijó, no meio do acampamento que há seis meses se instalou junto à Igreja dos Anjos, à margem da Avenida Almirante Reis.

    «É uma espécie de ritual. Descer até ao acampamento, distribuir os pratos a toda a gente. A conclusão de um processo coletivo», observa Olivier. Cheikh serve, uma a uma, perto de uma centena de refeições. Alimentam pessoas de todo o lado, estrangeiros e portugueses.

    O ciclo acaba depois com a lavagem das panelas, dos pratos reutilizáveis, da cozinha, que deixam impecável.

    E assim foram, nos últimos dois meses, confecionadas mais de sete mil refeições.

    ñaar (dois)

    Basta que certa luz de seus raios aqueça
    A semente que jaz na sua leiva escondida,
    Para que ela, a sorrir, desabroche e floresça,
    De perfumes enchendo as estradas da Vida.
    António Feijó

    É aqui, no Jardim António Feijó, que Cheikh, Gora e Papa vivem há quatro meses, acampados, entre dezenas de pessoas. Foi a partir dos dias frios e chuvosos de janeiro que as tendas se começaram a acumular. A maioria são nacionais do Senegal, como eles, e da Gâmbia, mas também tem havido timorenses, brasileiros, guineenses e portugueses. Muitos aguardam por resolver as suas situações junto da AIMA, Agência para a Integração Migrações e Asilo, situada ali mesmo ao lado.

    «Fizemos um pedido de asilo. Cinco dias depois exigiam-nos que saíssemos do país», conta Cheikh. «A situação no acampamento é muito dura. Passamos noites de mau tempo sem dormir. Passámos dias inteiros sem comer», recorda Gora.

    «Muitas pessoas passam e, sem dizer palavra, começam a filmar-nos e a tirar fotos. É humilhante», conta Papa. Algumas das imagens chegaram até eles depois de correrem as redes sociais. «Nós procuramos tranquilizar as nossas famílias. Dizemos-lhes que tudo se passa bem. Porque a vida anterior não era fácil…»

    «O que queremos é o normal para todas as pessoas: estar legais e ter direito a uma residência», diz Cheikh. «Queremos poder trabalhar», resume Papa.

    «Vimos de diferentes países e encontrámos-nos todos aqui com o mesmo objetivo: procurar um trabalho. Como estamos na mesma situação, tornamo-nos uma família», conta Gora. «Somos todos irmãos», acrescenta Papa.

    Mesmo em frente ao acampamento, está o enorme refeitório, balneário, e centro de acolhimento para pessoas em situação de sem abrigo da Santa Casa da Misericórdia, que exige registo de morada em Lisboa. No jardim, estão casas de banho públicas, que só abrem certas horas. Num dos lados, o Centro de Saúde da Penha de França. No outro, a AIMA. «Está ali tudo», diz Luzia, «e eles não têm acesso a nenhum deles».

    Com uma emergência humana à vista, no início de Abril, a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia de Arroios afixaram cartazes pelo jardim. Em letras coloridas, lia-se:

    ñett (três)

    A 9 de abril, um contingente da PSP, com pessoas da Comunidade Vida e Paz, Santa Casa, Junta de Freguesia e SNS, começa uma operação no jardim.

    «Passo pela Igreja dos Anjos no meu caminho de casa. Assisti ao aumento do número de pessoas em situação de sem abrigo até o espaço ficar sobrelotado. Falava com elas, alguns dias levava comida e tentava entrar em contacto com os coletivos para ver o que podíamos fazer», explica Luzia. «E nesse dia fomos lá para cobrir os acontecimentos e impedir um possível despejo.»

    Segundo o comunicado oficial, o objetivo da ação era «dar resposta a todas as pessoas vulneráveis que ali se encontram, contribuindo ao mesmo tempo para o bem-estar dos moradores daquela zona da freguesia de Arroios, cuidando do equipamento urbano, da saúde pública e dos espaços verdes.»

    «As prioridades das instituições são ativar um protocolo de higiene social e urbana acima da vida das pessoas nas situações mais vulneráveis», denunciaram então vários coletivos e organizações, entre eles Stop Despejos, Humans Before Borders e SOS Racismo, para quem a verdadeira intenção tem sido «despejar o espaço de pessoas que não ficam bem no postal turístico», recorrendo «à intimidação e a práticas ilegais», como fazer entrevistas de madrugada e sem direito a tradução.

    A indignação e a solidariedade juntou pessoas e coletivos e conseguiu travar as tentativas de expulsão. E desencadeou uma rede de apoio que se tece até hoje.

    Apresentação da Cozinha Migrante dos Anjos na “Antitour Coletividades em Luta”, a 22 de junho, para celebrar e defender os oásis coletivos que ainda existem e resistem em Lisboa

    neent (quatro)

    A 14 de abril, a Festa do Cinema Italiano exibia no Cinema São Jorge o filme Eu, Capitão, de Matteo Garrone, sobre a dramática aventura de dois jovens de Dakar para chegar à Europa.

    «Estão todas estas pessoas aqui, e há um filme ali em baixo que fala da sua história», pensou Luzia. Decidiram contactar a organização do festival. A resposta? Uma centena de bilhetes para a sessão e um momento para falar sobre a sua situação.

    Luzia não esquece a força da imagem daquelas 60 pessoas migrantes a entrar no São Jorge. Empunhavam cartazes onde se lia «Isto não é ficção, é a realidade. Está a acontecer na tua cidade». «Essa noite, subiram ao palco, pegaram no microfone e explicaram à audiência que a sua longa travessia ainda não terminou. Agradeceram a Portugal ser um país acolhedor e apelaram à solidariedade de todos.»

    Entre a plateia, estava uma amiga de Olivier, chocada e sensibilizada com o que via e ouvia. No dia seguinte foi aos Anjos trazer comida, e falou com vários amigos. Um deles era Olivier. «Fomos um dia, fomos dois, conhecemos as várias pessoas que já davam apoio há mais tempo, e fomo-nos envolvendo cada vez mais.»

    O festival doou as receitas da bilheteira. As pessoas perguntavam como podiam ajudar. A maior urgência no acampamento era clara: alimentação. Contactou-se espaços e, em conjunto com as pessoas acampadas, pensou-se como organizar uma cozinha comunitária. «A Disgraça, como outros espaços coletivos com quem falámos, foi espetacular: “aqui têm a chave, e vamos acertando juntas”». Além da cozinha, sublinha Luzia, este lugar proporciona durante algumas horas um espaço seguro, íntimo, a um grupo de pessoas forçadas a morar na rua.

    A cooperativa Fruta Feia, que distribui semanalmente cabazes de frutas e legumes que não obedecem às normas estéticas da grande distribuição, ofereceu os alimentos que sobram.

    A Cozinha depende dos donativos de todos e do trabalho de dez pessoas, que dedicam 6 horas por dia a comprar e recolher os alimentos, preparar a refeição, limpar a cozinha e distribuir nos Anjos.

    Enquanto o verão avança e o acampamento permanece, o apelo à solidariedade com a Cozinha Migrante dos Anjos é hoje tão atual como naquela noite de abril.

    Foto: Festa do Cinema Italiano

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    Este ano está a ser marcado pela hostilidade do sistema de acolhimento de migrantes. Para emitir atestados de residência, necessários ao processo de regularização, a Junta de Freguesia de Arroios passou em fevereiro a exigir um título de residência, em vez de apenas um passaporte, criando mais um labirinto burocrático. Em abril, o Parlamento Europeu aprovou o novo Pacto para as Migrações e Asilo, prevendo o endurecimento das leis de contenção na entrada, externalização e expulsão do território, reforçando parcerias com países terceiros. E em junho o novo governo apresentou 41 medidas que prevêem aumentar o policiamento sobre migrantes e pôr fim ao mecanismo da «manifestação de interesse», que permite a quem está em Portugal a descontar para a Segurança Social regularizar a sua situação.

    Nos Anjos, enquanto as instituições públicas «passam a bola uns aos outros» e declinam responsabilidades, coletivos, associações e advogadas individuais fazem os possíveis para avançar os processos administrativos e apoiar as necessidades das pessoas. Têm tido reuniões com a AIMA e com o Núcleo de Planeamento e Intervenção Sem-Abrigo (NPISA).

    «Cada qual com a sua disponibilidade, com o que pode trazer. Há pessoas que vêm do âmbito da saúde e podem dar alguma assistência. Pessoas que vêm de lutas antirracistas e podem trazer espaços de escuta. Pessoas que vêm das lutas pela habitação e conhecem as estruturas e formas de abrir caminhos. É rico o conjunto de energias que as pessoas podem trazer. Porque esta luta é transversal», recorda Luzia.

    «Pessoas a fazer um processo de regularização, com entrevistas marcadas, continuam super expostas, numa situação de rua. Não é digno. Elas têm de sair da rua e ser alojadas. Além das questões de saúde e de segurança básicas, há a ameaça da extrema direita. Houve momentos muito tensos, de insegurança, de medo.»

    O grupo mantém a reflexão sobre como ser solidários mas não assistencialistas, como a solidariedade é uma responsabilidade de toda a gente. «Não podemos suprir as responsabilidades do Estado. Estamos aqui para juntar os nossos corpos e as nossas forças às deles e acompanhá-los até conseguirem os seus direitos garantidos.»

    Luzia e Olivier sublinham a importância da «rede de coletivos ativistas, de espaços autogeridos, que não só têm meios e recursos, como integram na sua forma de estar a luta pelos direitos – habitação, trabalho, lutas anti-racistas, de acesso à saúde…»

    A convite da Cozinha Migrante dos Anjos, na tarde de 2 de junho, diversos coletivos e habitantes da cidade juntaram-se no Campo Mártires da Pátria, para o convívio «Ninguém é ilegal, a luta é de todxs». «Somos muitas as pessoas que querem um Portugal aberto, solidário, e livre de racismo e xenofobia», lia-se no convite. «Precisamos de mudar a realidade e as políticas que a moldam, e que são experienciadas de forma dramática pelas pessoas migrantes. De promover alternativas ao acesso habitacional, à saúde, eliminar as leis racistas, humanizar os processos administrativos, educar na solidariedade.»

    Para os coletivos, «é urgente eliminar a imposição de se deslocar, viver e trabalhar em condições inseguras, que fomentam no imaginário coletivo a ideia de criminalidade das pessoas de um determinado perfil étnico». Defendem a entrada e a residência das pessoas migrantes através de vias seguras, regularizar a situação de todas e garantir os direitos básicos e a dignidade nas condições de trabalho e de vida.

    Convívio «Ninguém é ilegal, a luta é de todxs», no Campo Mártires da Pátria, promovido pela Cozinha Migrante dos Anjos

    juroom been (seis)

    Morte que, sem piedade, uma a uma arrebata,
    Como um tufão que passa, as nossas afeições,
    E, deixando-nos sós, lentamente nos mata,
    Abrindo-lhes a cova em nossos corações.
    António Feijó

    É o solstício de inverno, a noite mais longa do ano. Numa praia da costa senegalesa prepara-se a piroga, de madeira pintada em cores vivas. «Esperámos que o mau tempo passasse», recorda Gora. E, com alguns víveres, entre dezenas de pessoas, zarpam a bordo do barco de pesca tradicional. Ao longo das costas do Senegal, Mauritânia, Sahara Ocidental, Marrocos, vogam 1.500 quilómetros de oceano, rumo ao arquipélago espanhol das Ilhas Canárias. «A 26 de dezembro de 2023, cheguei a Espanha».

    «A travessia pode durar quatro, cinco, no máximo sete ou oito dias», explica Papa. «Muitas pessoas, guineenses, gambianos, malianos, partem em pirogas. Muitos são grandes pescadores. Eu sou pescador, desde criança conheço o mar.»

    Mas conseguir chegar também significa mágoa. «Ficámos atónitos. Havia outras pessoas… E, até hoje, nunca chegaram. Nós chegámos, eles desapareceram. Centenas de pessoas, muitos amigos. Não voltei a ver as suas pirogas. Não desejávamos isso. Desejávamos que todos pudessem chegar bem», diz Cheikh. «É traumatizante. É duro. Muito duro.»

    Cheikh, Gora e Papa, como muitas das pessoas acampadas nos Anjos, sobreviveram àquela que é hoje a rota migratória mais mortal do mundo.

    juroom ňaar (sete)

    Perto da árvore icónica do jardim, uma Bela-sombra – também ela vinda de longe, das pampas da América do Sul – tem lugar a reunião regular das pessoas acampadas e das pessoas e coletivos solidários. Uma delas, que fala perfeitamente português e uolofe, a língua mais comum no acampamento, apoia na tradução. «É um momento de fazer um ponto de situação, em termos de processos de regularização e das várias iniciativas», explica Olivier. São as «assembleias uolofe».

    «Eu agradeço enormemente às associações e coletivos que nos apoiam. Foi uma mudança enorme, podermos organizar as refeições, ter apoio na documentação. Começámos a sentir alegria quando sentimos todo o amor destas pessoas. Cada dia os vemos, e isso tranquiliza-nos», partilha Gora.

    «É uma imensa aprendizagem», diz Luzia. «Dá-me muita força, testemunhar o seu trabalho e a sua generosidade, a forma como se mantêm íntegros e dignos, sempre com um sorriso e uma palavra amável, enquanto vivem uma situação tão desumana e injusta.»

    «As pessoas que não nos conhecem julgam-nos pela nossa aparência», afirma Cheikh. «Tudo isso é o racismo». «A aparência é sempre enganadora», remata Gora. «Somos pessoas responsáveis. Não somos ladrões, não somos assassinos, não somos bandidos», diz Papa, a voz assertiva. «Há muitas dificuldades em África, muita pobreza. Por isso arriscámos a vida e viemos cá simplesmente para trabalhar».

    «Cada pessoa no acampamento tem a sua profissão», lembram. Há pescadores, alfaiates, soldadores, agricultores, pintores, cozinheiros, carpinteiros, tradutores, empreiteiros. Cheikh gostaria de trabalhar em mecânica automóvel. Para Gora, o sonho é trabalhar num barco de pesca.

    juróom-ñett (oito)

    «No Senegal, trabalhava o dia inteiro e quase não ganhava dinheiro», recorda Gora. O salário de um pescador senegalês pode rondar os 2,000 CFA, cerca de 3 euros, por dia.

    «O governo vendeu o oceano», denuncia-se no país. As licenças dadas aos navios de pesca industrial chineses e europeus, a par das alterações climáticas, causaram o declínio das populações de peixes.

    Desde 2022, o Senegal vive um sentimento de «desespero social e político», marcado pela corrupção e a repressão, com inúmeras detenções de opositores ao governo, descreve Fatou Faye, jurista e investigadora sobre jovens e migrações da Fundação Rosa Luxemburgo em Dakar.

    Disparou o preço de bens como arroz, óleo ou pão, e um terço das pessoas vivem na pobreza. «Sem futuro, sem a possibilidade de construir uma vida decente, os jovens aqui não têm opção», explicou à revista francesa Le Point. «Quando os teus pais, irmãos e irmãs dependem de ti para sobreviver, partes para ganhar dinheiro no estrangeiro.»

    Um cenário familiar também em Portugal, onde, segundo o Observatório da Emigração, 850 mil jovens emigraram nas últimas décadas à procura de melhores condições de vida.

    O último relatório do Banco Mundial revela que em 2022 os países mais pobres pagaram valores recorde de dívida externa, com juros cada vez mais altos. De acordo com a Oxfam, a pobreza acentuou-se ainda mais nestes países depois da pandemia. «Estamos a viver uma década de desigualdade extrema, exacerbada pelas empresas multinacionais. Desde 2020, os cinco homens mais ricos do mundo duplicaram as suas fortunas, enquanto quase cinco mil milhões de pessoas se tornaram mais pobres.»

    juróom-ñeent (nove)

    Ao crepúsculo, uma piroga lança-se ao mar na vila piscatória de Fass Boye, a norte de Dakar. A bordo leva 101 pessoas, do Senegal e da Guiné-Bissau.

    Os ventos contrários complicam a perigosa travessia. Ao sexto dia no mar, abate-se uma tempestade. Ao décimo dia, com as Canárias praticamente no horizonte, o motor cala-se, sem combustível. Fazem remos com pranchas de madeira e fazem turnos a remar. Molham as roupas no mar em busca de consolo do sol implacável. Mas os ventos e a corrente afastam-nos fatalmente do destino.

    A cada dia que passa, cruzam-se com cargueiros, repletos de mercadorias a circular livremente pelo globo. A cada vez, gritam até não ter mais forças. Vêem as bandeiras, brasileiras, espanholas, russas, e, por vezes, até os rostos da tripulação no convés. Mal podem acreditar: ninguém vem em seu socorro.

    Várias pessoas tentam nadar até aos barcos – e morrem afogadas. A cada dia, alguém sucumbe à fome e à sede. Faz-se uma oração por cada morto e atira-se o corpo ao mar. Até que deixam de ter forças para orar. Até que deixam de ter forças para lançar os corpos ao mar. Os cadáveres acumulam-se a bordo.

    Ao trigésimo sexto dia, ao largo de Cabo Verde, um navio de pesca espanhol vem em auxílio da piroga há um mês à deriva. Descobre 38 sobreviventes, corpos pele e osso, mal capazes de se mover. Entre o trauma e as alucinações, revelam a história, passada no verão passado, a meios como a BBC e a Associated Press.

    Empurradas pelos ventos alísios, os mesmos que outrora impeliam os navios portugueses com milhões de africanos forçados à escravatura nas américas, centenas de pirogas repletas de pessoas migrantes desaparecem nos nossos dias sem deixar rasto, testemunhas ou memória, em «naufrágios invisíveis» no sem fim atlântico.

    Na vila de Fass Boye, os irmãos das vítimas continuam a querer embarcar para a Europa.

    As pessoas acampadas nos anjos participaram no desfile do 25 de abril e no desfile do 1º de maio, reivindicando o seu direito à regularização

    fukk (dez)

    Um belo dia no acampamento dos Anjos surge a ideia: «e se fizéssemos jogos de futebol?» O clube desportivo Relâmpago acolhe-a com entusiasmo. «Digam-nos quantos são e os nomes para as equipas.» Anunciaram quinze jogadores. Chegado o dia, a caminho, eram trinta. A resposta foi: «tudo bem, isto resolve-se, venham!». «Mais uma vez a generosidade, o não complicar e ir resolvendo as coisas», conta Olivier.

    «Ficámos super contentes!», recorda Eupremio, presidente da Associação Desportiva e Recreativa O Relâmpago. O simbolismo do nome está ligado «à espontaneidade da associação popular, tal como sucedia nos inícios do futebol e do desporto. Uma das nossas missões é promover o desporto popular e recuperar de certa maneira o que era o associativismo», explica. Os jogos de sexta-feira, em lugares como o Centro de Cultura Popular de Santa Engrácia ou o Operário Futebol Clube, já eram o momento mais emblemático do clube. Agora, todas as semanas, no acampamento na igreja dos Anjos, junta-se um grupo de pessoas para mais um dia de bola.

    «Ver trinta pessoas a jogar com um sorriso daqueles, desfrutando de algo que lhes dá prazer, depois de meses de stress, a viver numa tenda», descreve Eupremio. «Está a ser uma experiência única. Têm sido dos momentos mais bonitos e mais marcantes da história do Relâmpago.»

    «No fim uns ganharam, outros perderam, e é sempre uma grande festa! É fenomenal no Relâmpago terem-se lembrado como o futebol é uma ferramenta espetacular para unir pessoas», sublinha Olivier.

    Eupremio devolve a bola: «É dos exemplos mais claros do poder que podes ter de solidariedade: a partir de indivíduos, coletivos, grupos desportivos, criou-se um movimento de apoio que talvez ninguém estivesse à espera. Faz-me muita confusão, cento e tal pessoas, muitas apenas à espera de um documento, acampadas entre três instituições, igreja, AIMA e Santa Casa, e não se encontrar uma solução. A freguesia que se diz a mais intercultural, com mais trabalho com migrantes, tem aqui uma oportunidade para o mostrar».

    «Também acredito que tantas pessoas acampadas, em condições tão precárias, pode ser como um barril de pólvora. E ter esta válvula de descompressão, em que vêm jogar, descarregar, fazer desporto, baixa os níveis de tensão, os momentos de stress», observa.

    O clube recebe mensagens de pessoas sensibilizadas. Nalgumas sextas fizeram recolhas de alimentos. Alguns dos associados começaram a ser voluntários no acampamento. «Viva a solidariedade internacionalista», lê-se numa das novas faixas do clube.

    A vontade futura do Relâmpago é convidar as pessoas migrantes para praticar outros desportos, através das suas sete modalidades, que vão do boxe ao ciclismo, do atletismo ao xadrez – desporto bem popular no Senegal.

    fukk ak benn (onze)

    5.054 seres humanos morreram na fronteira ocidental entre África e a Europa nos primeiros 5 meses de 2024. Uma média de 33 mortes por dia. A esmagadora maioria, nas viagens de barco rumo às Canárias.

    São os números mais altos alguma vez registados pelo coletivo Ca-Minando Fronteras, que trabalha com pessoas migrantes e suas famílias, pelo restabelecimento de direitos nas fronteiras europeias.

    «Este alarmante aumento da mortalidade mostra claramente os efeitos de uma política mais preocupada pelo controlo migratório que pela defesa do direito à vida. Revela um sistema de acolhimento atravessado pelo racismo institucional.»

    Frequentemente, quando são dados alertas de embarcações em perigo de naufrágio e pessoas em risco de vida, com as posições exatas, os meios de busca e resgate não são ativados, por se tratarem de pessoas migrantes. Os estados de origem e de destino cooperam para «silenciar e a invisibilizar as mortes».

    «Não podemos normalizar estes números», clama Helena Maleno, da Ca-Minando Fronteras. «Devemos exigir aos países que coloquem a defesa do direito à vida por cima das medidas de controlo migratório. Não é assim tão complicado, é simplesmente não deixar morrer pessoas nas fronteiras».

    Nos últimos anos, Marrocos utilizou o fluxo de pessoas migrantes para Espanha como chantagem política. O objetivo: conseguir o consentimento espanhol à ocupação militar do Sahara Ocidental, onde o povo saarauí luta pelo direito à autodeterminação. O governo espanhol cedeu, e desde abril de 2022 os dois países reforçaram a vigilância e a repressão na costa marroquina. Este ano, o governo espanhol estabeleceu outro acordo com a Mauritânia para a repressão da migração. E o endurecimento securitário em terra e no mar leva as pessoas a tomar outras rotas, em travessias cada vez mais letais.

    «Patrulhar as rotas migratórias torna-as na realidade mais perigosas. O que quer que se faça a nível de controlo de fronteiras, os jovens encontrarão sempre uma forma de partir, e tomarão caminhos mais perigosos», afirma Fatou Faye. Investir no «desenvolvimento» tampouco é uma panaceia. «Essa ideia de que vamos resolver a migração irregular criando riqueza é uma exportação da política da União Europeia».

    Os problemas, sempre complexos. E as soluções, sempre simples. «Porque não aceitar que estes jovens queiram ir ganhar a vida na Europa?», questiona Faye. «A migração, quando é segura, permite às famílias sobreviver nos períodos difíceis. O que é necessário é criar vias de emigração legais, para que os jovens possam partir alguns anos, e regressar ao seu país quando o desejam».

    Cartaz do convívio “Ninguém é ilegal”, com ilustração de Souleymane Mbengue, um dos jovens acampados

    fukk ak juróom-ñeent (doze)

    Cada dia em que participa na cozinha é, para Olivier, «uma oportunidade para estarmos juntos, fora daquela relação da tenda». Procura conciliar a solidariedade com as pessoas migrantes com o trabalho numa empresa de informática e o cuidado de três filhos. «Tudo transpira de uma coisa para a outra. Os meus filhos perguntam pelas pessoas, querem vir cozinhar e participar. A mais nova fez dois bolos para lhes dar. Eu fico uma pessoa mais completa.»

    Um belo dia, uma das pessoas acampadas disse: «se não aprendemos português, não saímos do Senegal». Isso motivou-o a procurar algo.

    Começaram por participar nas aulas abertas de português que a Rede de Apoio Mútuo de Lisboa organiza na Sirigaita. Depois, criaram os seus próprios encontros no acampamento.

    Os «encontros falantes» acontecem todas as terças feiras. «Há várias pessoas que querem participar no ensino de português, e ninguém é professor! Durante duas horas estamos a conversar, com um guião que vai evoluindo a partir do que eles nos dizem: “preciso de saber como se vai de um sítio para o outro, como me apresentar quando for a uma entrevista de trabalho, explicar um sintoma quando for ao centro de saúde”», explica Olivier. «E também nós gostamos de aprender uolofe.»

    «Os encontros são uma maravilha», empolga-se Luzia. «Em redor ouves ambulâncias, pessoas que estão com problemas de saúde mental, imensa polícia que chega de repente por algo que aconteceu ali ao lado, a Almirante Reis a rugir de carros. É agressividade total. E cria-se ali uma bolha de bem estar, de humanidade, de pessoas a aprender uma língua em conjunto.»

    Perante a situação «terrível, desumana, injusta» a que as instituições públicas têm votado Gora, Papa, Cheick e os milhares de outros imigrantes, Luzia navega diariamente entre o sentimento solidário e a frustração e raiva por cada dia em que ela continua. «Os seus corpos, as suas vidas a sofrer as cruéis consequências do modelo capitalista. Eles representam a outra face da moeda, vieram até aqui para nos mostrar que esta vida que temos, que isto que temos construído, tem um custo mortal.»

    «Queremos respostas, queremos que o Governo, a Câmara Municipal, a Junta de Freguesia, a AIMA, a Santa Casa e o NPISA se articulem e assumam responsabilidades», conclui. «Há uma responsabilidade de emergência humanitária, há uma responsabilidade de direitos universais e há uma responsabilidade de respostas sociais e políticas.»

    Os “encontros falantes” acontecem às terças no acampamento no Jardim António Feijó

     


    Texto: Francisco Colaço Pedro

    Fotografia: Cozinha Migrante dos Anjos

    Acompanhar e apoiar a Cozinha Migrante dos Anjos
    Instagram | email: cozinhadosanjos24 (at) gmail (ponto) com
    IBAN: PT50 0035 0413 0004 5049 730 79
    Titular: Habita65 – Associação pelo Direito à Habitação e à Cidade
    Descritivo: Cozinha dos anjos


    Artigo publicado no Jornal Mapa, edição #42, Julho|Setembro 2024.

     

  • Acampamento em Defesa do Barroso: semear resistência

    Acampamento em Defesa do Barroso: semear resistência

    O 4º Acampamento em Defesa do Barroso decorre entre os dias 15 e 19 de Agosto e acabou de lançar o seu Manifesto.

    Lembrando que «Covas do Barroso está em luta há 7 anos contra aquele que poderia ser o primeiro projecto de extracção de lítio a céu aberto no continente europeu», o Manifesto do 4º Acampamento em Defesa do Barroso afirma a recusa da região em «tornar-se numa nova “zona de sacrifício” para benefício de uma economia cada vez mais desligada das realidades sociais e ecológicas do planeta».

    Denunciando «a opressão e a repressão de governos que querem impor a destruição da região a qualquer custo», o manifesto aponta ainda o dedo à Savannah Resources, que, desde que recebeu a Declaração de Impacto Ambiental (DIA) favorável, «adoptou uma postura mais agressiva e uma presença mais assídua e intrusiva nas aldeias e na região». Entre outras coisas, a empresa mobilizou «segurança privada de dia e de noite e persegue lideranças comunitárias na justiça e através de comunicados intimidatórios». Um comportamento secundado pelo Estado que, desde Outubro de 2023, destacou «uma patrulha diária da GNR (…) para a aldeia de Covas do Barroso».

    Nas palavras do Manifesto, «tudo isto são tentativas descaradas de intimidar, deslegitimar, descredibilizar e criminalizar a resistência. Tudo isto são tentativas de minar este território, tentar impedir a contestação e pressionar as populações a aceitarem um projecto que não querem!» E aproveita para deixar escrita a história da luta dos últimos meses: «Em Novembro, a empresa tentou aceder aos terrenos baldios para fazer mais prospecções. Como a Comunidade dos Baldios e muitos proprietários privados continuaram a negar-lhes acesso, a empresa recorreu à usurpação. Contavam eles que não houvesse em Covas do Barroso gente com espinha dorsal capaz de lhes fazer frente. Mas, graças à união e ao apoio constante de todos os cantos do país e do mundo, a comunidade não desistiu e resistiu. Durante 7 meses, todos os dias, bloqueou o acesso da empresa a terrenos baldios, demonstrando força, união, perseverança e resistência colectivas».

    Sabendo que «o Barroso não é uma serra isolada, nem este é um problema isolado que só interessa à sua população», o Manifesto acredita que esta luta pode constituir «um ponto de viragem para um futuro onde nós, as florestas, os animais e os rios sejamos protegidos e valorizados, um futuro onde a água limpa e abundante, a comida saudável e o tempo para viver ajudem a redefinir “riqueza”». Um urgência clara quando enfrentamos a «grande contradição de destruir o planeta para o salvar, convenientemente reduzindo os vastos problemas ecológicos a uma mera contabilização de emissões de gases com efeito de estufa».

    O Acampamento não é um fim em si. É «um ponto de encontro, de partilha e de luta. Como as aranhas, tecemos redes. Como as lobas, uivamos. Como as toupeiras, conspiramos. Como os pássaros, voamos em bando. Como os caracóis, caminhamos lentamente. Como seres humanos, sabemos que é imperativo manter ecossistemas funcionais que assegurem a vida — e lutamos por eles, com coragem, amor e alegria».

  • Não há «migrantes úteis», há exploradores inúteis

    Não há «migrantes úteis», há exploradores inúteis

    Editorial do #42 do Jornal Mapa (jul-set 2024)


    Para quem acompanha o Jornal MAPA, pode parecer estranho o súbito e aparente consenso sobre «as portas não podem continuar escancaradas», «a imigração está descontrolada», «imigração sim, mas assim não» e outras expressões que a visibilidade das pessoas migrantes nas ruas de Lisboa trouxe para a ordem do dia. E «estranho» é apenas uma figura de estilo, uma vez que, na realidade, não existe qualquer vaga de pessoas especialmente orientada para Portugal. O que existe é uma enorme e lusa bolsa de exploração, por um lado, e, por outro, uma crescente bolha de deserdados do mundo disponíveis para serem explorados.

    As pessoas vêm porque há trabalho. E acabam tesas, aos montes em alojamentos para poucas, em horários e rotinas de demência, nos empregos que mais ninguém quer. Apenas porque, deste lado, a única coisa que há para oferecer é uma mão estendida para receber contribuições e impostos. E a «integração» de que se fala passa por mil coisas, mas não passa pela denúncia da forma como estas pessoas são tratadas logo à partida.

    No rescaldo dum incêndio numa dessas casas sobrelotadas, em Lisboa, Moedas e Montenegro (na altura ainda não primeiro-ministro) apressaram-se a dizer que era preciso filtrar os fluxos migratórios, de forma a que só viesse quem é realmente preciso, como se as vítimas do fogo não tivessem os seus trabalhos, não transportassem bens ou pessoas, não servissem às mesas, não fossem, numa palavra, precisos. E, acima de tudo, como se as «nossas» necessidades fossem superiores ao seu («deles») direito à vida.

    Toda a gente parece concordar. Certa esquerda grita «Ai a segurança social», a Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) afirma que os partidos que não querem imigração pretendem que o país vá à falência, até a extrema-direita concede que, sem imigrantes, Portugal é inviável. Muitas diferenças de análise, claro, muitas divergências quanto à forma e ao conteúdo, bem entendido, mas uma clara semelhança na forma de olhar para a questão: «nós» precisamos «deles». A partir deste consenso, é fácil inverter o silogismo e concluir que, realmente, só devem vir aqueles de quem precisamos. Seja para a agricultura, para as obras, para uma vida uberizada, para a restauração, para qualquer outro campo onde a exploração se manifeste de forma mais brutal, ou para a sustentabilidade da segurança social, o olhar utilitário é quem mais ordena.

    A extrema-direita, claro, rejubila. A mais ninguém interessa tanto esta ideia do imigrante útil e bom. Em primeiro lugar, para ser tido como excepção e em contraponto com o imigrante inútil e mau que é fácil fazer percepcionar como maioritário. Mas sobretudo para tornar senso comum a ideia do «outro» e a sua desumanização. A forma titubeante como a esquerda institucional, quando questionada, se furta a falar em abertura de fronteiras, a sua insistência na serventia dos imigrantes para Portugal, são gasolina para a fogueira da direita radical.

    Na prática, a partir duma mentira – a da Europa de fronteiras abertas –, os novos fascistas conseguem dominar a agenda mediática – que, no caso português, foi também eleitoral – e vêem as suas reivindicações reconhecidas em letra de lei. Num ápice, num momento de rara eficiência estatal, o governo aprova e o presidente promulga. Direita e extrema-direita degladiam-se pela paternidade da ideia, lutam para ver qual dos balões partidários se enche e qual se esvazia com estas medidas. O restante espectro político fica bloqueado, perdido numa discussão de pormenores técnicos, quase embrutecido ao compreender que se deixou arrastar para uma discussão que não devia ser a sua.

    Pormenores técnicos, sim. Importantes também. Deve-se, como é lógico, denunciar que a caducidade do mecanismo da «manifestação de interesse» prevista no decreto governamental levará a um maior grau de clandestinidade entre a população imigrante. Que quem sairá a ganhar serão, como sempre, as redes de tráfico de pessoas e as da sua exploração, ao que se poderá acrescentar o mais que provável florescimento de um mercado negro de colarinho branco para a obtenção de contratos de trabalho forjados. E que, no fundo, se penaliza a pobreza e a vulnerabilidade e se privilegia quem pode e sabe tratar do processo ainda no país de origem, através dos consulados. Mas a questão fundamental já ficou para trás. A noção de humanidade já se perdeu. O «eles» e o «nós», essa coincidência biológica, é já uma barreira inultrapassável. E já parece demasiado adolescente questionar se pode alguém deixar outro à morte apenas porque não está disposto a prescindir do seu tupperware.

    Discussão diferente é a que a Disgraça ou o Relâmpago trazem para o terreno de jogo, digamos assim. A Cozinha Migrante dos Anjos, em Lisboa, tem possibilitado que as pessoas que estão acampadas nos Anjos possam cozinhar e algumas delas são desafiadas (e têm aceite o desafio) para irem treinar e jogar com o clube que pugna pelo desporto popular. Exemplos de solidariedade mais do que integração e de autonomia mais do que caridade, a lembrar a importância do apoio mútuo entre humanos, independentemente da sua aparente utilidade, e o carácter fundamental da existência de colectivos e movimentos sociais fortes e despegados das exigências de «credibilidade» dos projectos de poder.


    Fotografia de Ana Sofia Carvalho (@anasofiacarvalho_photography)