Etiqueta: solidariedade

  • Como pão para a boca

    Como pão para a boca

    Uma das necessidades tornadas mais evidentes com a pandemia global foi a urgência de uma resposta local à alimentação.

    De um dia para o outro, a vida confinada e de vizinhança resultou no melhor dos argumentos à demonstração da nossa perda de autonomia alimentar, quando a jusante estamos dependentes dos circuitos alimentares agroindustriais e das grandes cadeias comerciais. Ou a montante, quando a política agrícola e florestal portuguesa está comprometida por extensas monoculturas que garantem lucros rápidos e números vistosos nas balanças comerciais, arriscando prateleiras vazias de produtos alimentares básicos.

    Em contraponto, surgem os grupos de produção e consumo implicados com práticas agroalimentares justas e solidárias. Uma das respostas surge em torno das AMAP (Associações para a Manutenção da Agricultura de Proximidade) e CSA (Comunidades que Sustentam a Agricultura). O modelo praticado baseia-se no compromisso mútuo entre produtores e coprodutores (consumidores) por forma a viabilizar a prática da Agroecologia, tratar o alimento como um bem comum e valorizar o relacionamento pessoal. Como tem vindo a ser referido por Sara Moreira na rubrica Utopias Concretas em anteriores edições do Jornal MAPA, «entendido como bem-comum e não como mercadoria, o alimento é aqui o elemento cultural primordial a proteger e cuidar – desde a semente até ao prato – pelo seu papel central na própria vida e no funcionamento das sociedades e da economia. Este entendimento implica uma transformação radical da organização dos sistemas alimentares aos quais nos habituámos e das relações sociais que sustentam o bem-comum, no que toca a partilha de responsabilidade nos processos de produção, consumo e distribuição.»

    Proximidade em tempos de distanciamento social

    Este modelo implica uma perspetiva não capitalista da alimentação, mas não é uma miragem: pode e já funciona no dia-a-dia. As AMAP do Porto, Famalicão, Vila Nova de Gaia, Guimarães, Palmela, Sado e Alvalade e a CSA Partilhar as Colheitas da Herdade do Freixo-do-Meio, Montemor-o-Novo, membros da REGENERAR – Rede Portuguesa de Agroecologia Solidária, declararam a 8 de abril a importância de «cultivar a proximidade em tempos de distanciamento social». Em comunicado, partilharam «a angústia sentida por muitos pela possibilidade de vir a faltar comida» e «o medo de frequentar os locais de consumo de massas» pelo que «para podermos concentrar-nos nos cuidados (agora redobrados) que a terra exige, não podemos viver atarantados com a gestão de solicitações desenfreadas. Precisamos de planeamento, de proximidade, de compromisso e de empatia. Nas AMAP/CSA, foi sempre esta a ética que nos guiou para cumprirmos o dever que sentimos de providenciar alimentos de qualidade. Por isso não distinguimos entre consumidores e produtores: somos todos co-produtores. E para nós é isto que está na base da soberania alimentar.»

    Para este grupo de agricultores, «a crise do vírus corona tem posto a descoberto aquilo que já muitos de nós sabíamos: o atual sistema económico não é sustentável, e isso fica patente quando nos vemos obrigados a pensar como funciona o fornecimento agroalimentar». Cientes de que a realidade de muitos agricultores, dependentes do grande retalho e de circuitos longos de distribuição, pode nestes cenários «levar a situações trágicas no escoamento, e consequentemente no acesso ao pão que (n)os alimenta. Com a proibição das feiras e mercados, e com os limites à circulação, há que reinventar todo o circuito de distribuição de forma a torná-lo mais local, mais próximo e resiliente. É nesses processos longos, continuados, de convergência de pessoas comuns comprometidas, que a agricultura de proximidade pode afirmar-se em termos de soberania alimentar.»

    #pandemiasolidaria

    Alimentação em curto-circuito

    A Carta de Princípios das AMAP assenta em três princípios basilares: o alimento como bem-comum; a relação de escala humana e a agroecologia – esta última tornada imperiosa como elemento de Saúde Pública: «não se pode falar de alimentação saudável enquanto produzida de forma perturbadora do funcionamento dos ecossistemas». Esses princípios diluem-se ou estão mesmo ausentes no atual quadro institucional e no mercado em Portugal dos «circuitos curtos». Um modelo essencialmente focado na valorização meramente mercantil do alimento local e sem a dimensão coletiva e compromissos partilhados entre consumidores e produtores. Uma distinta abordagem, com diversos tipos de iniciativas agregadas, que têm vindo igualmente a beneficiar do atual “despertar” da alimentação de proximidade.

    Ana Paula Xavier, da Direção da Federação Minha Terra, que junta 58 Associações de Desenvolvimento Local (ADL), reforçava em comunicado, igualmente nos inícios de abril, a aposta nesses Circuitos Curtos Agroalimentares e nos Sistemas Alimentares Locais. Simultaneamente, o Ministério da Agricultura aprovava um conjunto de medidas excecionais e temporárias relativas à epidemia do coronavírus no âmbito da operação «Cadeias Curtas e Mercados Locais» da Medida LEADER do PDR 2020, com o objetivo de «promover e agilizar os canais de comercialização de produtos alimentares locais, alargando as possibilidades de escoamento da produção previstas na operação» e lançava a iniciativa «Alimente quem o Alimenta» uma plataforma agregadora para a compra e venda de produtos agroalimentares.

    Como notou Ana Paula Xavier, «algumas iniciativas com vários anos de atividade, como o projeto PROVE – entrega de cabazes de hortofrutícolas – registam uma procura sem precedentes», exemplificando ainda com o caso dos «cabritos disponibilizados pela ANCRAS – Associação Nacional de Caprinicultores da Raça, [que] numa mensagem desesperada, esgotaram em menos de 24 horas». A alimentação de proximidade, pela crise que atravessamos, ganhou efetivamente «mais visibilidade e premência», o que para a Federação Minha Terra «perspetiva, num futuro próximo, uma “normalidade” que pretendemos diferente e uma atitude mais cidadã, sustentável e justa em relação à alimentação.»

    «as fragilidades da globalização alimentar tornaram-se mais visíveis no contexto desta pandemia»

    Um pouco por todo o país, perante os testemunhos de desespero com a interdição dos mercados e feiras semanais, foram reforçadas as redes de contactos através da divulgação de listas de produtores locais e dias de entregas diretas, algo que tem sido feito por diversas ADL, como a In Loco na serra algarvia, por grupos informais como a Caravana Agroecológica, com uma listagem de produtores na zona de Lisboa. Há listas partilhadas nas redes sociais ou em fóruns de discussão, como na plataforma nacional Alimentar Cidades Sustentáveis, um coletivo constituído atualmente por 350 membros oriundos dos mais variados territórios e setores alimentares e que lançou este ano o E-book “Alimentar Boas Práticas – Da Produção ao Consumo Sustentável”.

    Igual aumento de procura assistiu-se na loja da Cooperativa Minga de Montemor-o-Novo, apesar dos horários reduzidos de abertura, com encomendas online para cooperantes e para a população mais idosa do concelho. Alguns cooperantes organizaram-se ainda para ir buscar os produtos aos produtores de mais idade, de forma a protegê-los. Enquanto organização de cooperativismo integral, a Minga, que atua em diversas áreas sociais e económicas do seu território, tem vindo a demonstrar a eficácia de uma economia solidária através do consumo local e com responsabilidade social e ambiental. Em 2019, a Minga, com 50 cooperantes, 12 trabalhadores e 15 micro e pequenos produtores e várias marcas associadas, teve uma faturação de bens agrícolas de 42.000€ resultante de vendas em loja, mercado municipal e abastecimento de duas cantinas escolares, e faturação anual de 300.000€, mais que duplicando a do ano anterior. Números que não pretendem traduzir, e menos ainda valorizar, uma promoção permanente desse índice de crescimento económico, uma vez que a cooperativa se identifica com a perspetiva do Decrescimento e reivindica como primazia o bem-estar coletivo.

    «Os políticos é no discurso, nós é na prática»

    A perspetiva de um antes e um depois do coronavírus, levou a que no dia mundial da Luta Camponesa, 17 de abril, a ACTUAR – Associação para a Cooperação e o Desenvolvimento e parceiros do «projeto Alimentação é Direito!» tenha dado início ao ciclo de «conversas@mesa: intercâmbios internacionais sobre o sistema alimentar pós covid-19». O projeto (2018-2024) é parte do programa CidadãosAtiv@s, financiado com 11 milhões de euros pela Islândia, Liechtenstein e Noruega, e gerido pelas fundações Calouste Gulbenkian e Bissaya Barreto. Quanto ao mote das videoconversas, o facto de os «limites e as fragilidades da globalização alimentar tornaram-se mais visíveis no contexto desta pandemia» e estando o futuro do sistema alimentar em debate, «os 3,7 milhões de pessoas em risco de pobreza em Portugal serão seguramente as principais vítimas desta pandemia, o que exige uma resposta consequente para promover sistemas alimentares sustentáveis.».

    Sendo este tipo de iniciativas direcionado a «fortalecer as capacidades da sociedade civil para que possa influenciar de forma efetiva a geração de mudanças ao nível institucional e legal, e no quadro orçamental e de políticas públicas», as conclusões dessa primeira conversa («A agricultura familiar na encruzilhada viral») acentuaram apenas como a agricultura familiar está a mitigar os efeitos da crise sanitária» apesar da «profunda crise que já atravessava, reclamando a oportunidade para a implementação de «políticas públicas consistentes e adequadas de apoio a este sub-setor e de aposta no desenvolvimento de compras públicas de alimentos à agricultura familiar».

    #pandemiasolidaria

    Já no espaço físico e com as mãos na terra, Joana e Manu, da associação algarvia Caldeira Negra, contaram ao Jornal MAPA (no âmbito da série #PandemiaSolidária) como efetivamente «está-se a inverter a lógica de importar e a tentar apostar na produção local. Os políticos é no discurso, nós é na prática. É um fenómeno muito forte: a situação está-se a inverter. Os produtores neste momento estão a escoar tudo, as pessoas estão a consumir imensos legumes e muito mais produtos locais. E as listas ajudaram. Muitas pessoas se dão conta de que enfiar-se num supermercado é uma loucura e descobrem como é melhor comprar diretamente aos produtores. Quando vais a uma quinta estás num espaço aberto, dão-te o teu cabaz, podes falar à distância à vontade, é muito mais saudável, seguro e sensato do que as medidas governamentais.» O que se passou na verdade «foi uma grande revolta. Não fazia sentido fecharem o mercado e deixarem as pessoas sem alternativa. Não só porque muitos de nós íamos ter dificuldades financeiras, mas também porque nos supermercados as pessoas têm mais hipóteses de ser contaminadas. Estes continuavam a funcionar sem se usar luvas ou máscaras. É uma loucura: as multinacionais e grandes superfícies vendem a gente apavorada, os mercados ao ar livre de apoio aos pequenos fecham… muitos produtores ficaram em situações muito más. Sobretudo os mais idosos. Para além do medo de serem contaminados, têm dificuldade em comunicar com o exterior, usar internet, comunicar moradas…»

    Perante as restrições impostas o food truck da Caldeira Negra deixou de estacionar semanalmente no Mercado de Levante, em Lagos, mas tal serviu de oportunidade para lançarem mãos à construção de uma nova rede «Portugal Regional – open food network», com residentes portugueses e estrangeiros de todo o sudoeste algarvio, para dinamizar compras diretas a produtoras e produtores. E têm em mente algo mais que uma mera transação comercial: «estamos interessados em que isto seja um passo para criar uma base de dados de troca de serviços e bens para, no caso de a economia colapsar completamente, termos uma forma de solidariedade e de intercâmbio entre as pessoas».

    Nos nossos campos e nos nossos pratos, tornou-se hoje mais evidente − para uma grande parte da população − o papel essencial destes grupos de produção e consumo na generalização uma alimentação de proximidade, com responsabilidade solidária e ambiental. Como referia em finais de abril o CIDAC, Centro de Intervenção para o Desenvolvimento Amílcar Cabral em Lisboa, pioneiro em Portugal do movimento do comércio justo, a economia solidária, a «gestão coletiva e o enraizamento nos territórios, promovidos por grande parte destas iniciativas, fazem ainda mais sentido nesta conjuntura de crise que é multidimensional.» Precisamos delas como pão para a boca.

     


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #27, Maio|Julho 2020.


    #pandemiasolidária #pandemia #alimentação #autonomiaalimentar #distanciamentosocial #agricultores #Covid19 #cooperativismo #solidariedade #mapa27

     

  • Uma fronteira segura é aquela que não existe

    Uma fronteira segura é aquela que não existe

    Contra o sistema de categorização de pessoas (um relato da No Borders Team / Poland)

    Ao longo da história, a humanidade tem migrado constantemente. O movimento de pessoas de lugar para lugar tem sido a força motriz por detrás da emergência de civilizações e da disseminação de invenções e ideias que viajaram com os grupos em movimento. Este processo não é, portanto, nada de novo ou invulgar. Também não precisamos de procurar exemplos distantes no tempo para nos apercebermos de que todos nós fomos migrantes em alguma fase da história. Há apenas 80 anos atrás, a Segunda Guerra Mundial forçou milhões de pessoas em todo o mundo a vaguear, muitas vezes de forma perigosa e contra a sua vontade. Basta olhar para as memórias dos nossos avós que foram forçados a abandonar as suas casas, que de repente se viram sob o domínio de outro país.

    As causas da migração contemporânea não são diferentes daquelas que conhecemos do passado. São o resultado de conflitos armados, anexações, limpeza étnica, alterações climáticas e pressões económicas. Neste momento, vale a pena responder à pergunta: quem é actualmente responsável pelo agravamento das condições de vida de milhões de pessoas, que são assim obrigadas a procurar outras áreas para viver?

    Há anos que os países do Norte global e que as empresas transnacionais têm vindo a tirar o seu capital dos conflitos locais e da miséria dos habitantes das áreas afectadas. Isto vai desde as guerras no Médio Oriente pelo controlo dos campos de petróleo e gás, passando pela exploração neocolonial e pelo apoio aos genocídios em África, até ao apoio tácito a organizações fanáticas que ajudam a desestabilizar regiões inteiras e fornecem um pretexto para a intervenção armada como parte do “estabelecimento da democracia”. As empresas ocidentais de armamento e energia estão a construir as suas fortunas com base na morte e exploração de pessoas. A prosperidade do Primeiro Mundo baseia-se na exploração do resto.

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    O impacto das alterações climáticas é muitas vezes negligenciado quando se considera a migração. Um factor cada vez mais visível que obriga as pessoas a abandonar os seus locais de residência são as guerras causadas pela diminuição dos recursos de água potável e terras férteis, e a consequente fome. Devemos, portanto, lembrar que a grande maioria das emissões de gases com efeito de estufa para a atmosfera é da responsabilidade do grande capital. Este é mais um exemplo de privatização dos lucros enquanto os custos são transferidos para os mais pobres. As empresas estão a tirar partido da mão-de-obra barata nos países do Sul global, ao mesmo tempo que destroem os ecossistemas. Esta é uma situação em que as pessoas são roubadas dos frutos do seu trabalho, bem como do ambiente natural em que viveram até à data. É a parte mais pobre da humanidade que suporta todos os terríveis custos da ideologia neoliberal do crescimento infinito do PIB, que só pode crescer absorvendo recursos escassos, exploração e conflitos armados que alimentam a economia.

    Por outro lado, os migrantes são também necessários para o crescimento do capitalismo no Primeiro Mundo, porque o sistema necessita de mão-de-obra barata. São também necessários para disciplinar o resto da sociedade através do medo. É por isso que todas as declarações da extrema-direita sobre a “necessidade de fronteiras estanques” e slogans sobre o “colapso da civilização europeia” não são levadas a sério pelos políticos fascistas; servem apenas para ganhar apoio numa sociedade intimidada.

    O fascismo é um instrumento do mundo capitalista, que este utiliza quando se sente ameaçado. No entanto, para que os migrantes cumpram a função prevista, é necessário mantê-los com medo. A existência precária, a ameaça de deportação, permissão ou recusa de trazer a própria família – todos estes são instrumentos de pressão através dos quais as autoridades querem manter o controlo absoluto sobre as pessoas. É uma espécie de campo de trabalho do século XXI que gostaria de oferecer às pessoas duas opções: trabalho duro e debilitante com salários correspondentemente baixos, ou privação de direitos e deportação para um lugar onde a sua vida ou saúde correria risco. A situação actual na fronteira oriental da Polónia é precisamente um dos resultados dos processos acima descritos. As autoridades introduziram um estado de emergência, tornando impossível a ajuda aos migrantes. Os guardas fronteiriços polacos e bielorussos estão deliberadamente a condenar essas pessoas a uma morte cruel, conduzindo-as para a floresta, sabendo bem que o outro lado fará o mesmo – espancando-as no processo, destruindo os seus smartphones e outros pertences pessoais. Os meios de comunicação social, que deveriam defender os direitos humanos e fornecer informações fiáveis, estão eles próprios a tornar-se participantes num jogo político em que as pessoas são tratadas como peões. É claro que fotografias de crianças deitadas na lama são bom material para notícias sensacionais. No entanto, ainda se concentram nas situações de pessoas com experiência migratória como tragédias individuais na melhor das hipóteses, sem se concentrarem na sua natureza sistémica.

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    Para nós não é importante se as crianças, as mulheres, os idosos ou os homens jovens são sujeitos a violência por parte das autoridades. Cada pessoa tem o direito de viver em condições que não ameacem a sua vida e de ser tratada com dignidade. Consideramos que este direito é superior aos direitos estabelecidos pelas autoridades. Não nos interessa se uma instituição reconhece um grupo de pessoas como refugiados políticos ou migrantes económicos. Consideramos esta divisão como completamente artificial e servindo para criar mais divisões entre aqueles que podem ser ajudados e aqueles que não merecem ajuda. Esta divisão é um resultado directo do conceito de fronteiras tal como o conhecemos hoje.

    Sabemos muito bem da história que as fronteiras nacionais não são uma entidade natural nem objectiva – são, antes de mais, uma criação ideológica. Graças à sua existência, estabelecimento, mudança, abertura e encerramento, é possível disciplinar as sociedades. É fácil esquecer tudo isto quando somos doutrinados desde a infância a considerar as fronteiras quase sagradas, pelas quais devemos dar as nossas vidas. Numa altura em que, viajando na Europa, dificilmente sentimos a sua existência. Isto é perfeitamente claro quando olhamos para os argumentos anti-imigrantes. Uma das afirmações mais comuns é que os migrantes devem “de forma normal” pedir asilo numa embaixada, em vez de se deslocarem pela floresta. Este é o abismo que separa o Primeiro Mundo de todos os outros. Um abismo tão grande que os privilegiados não podem sequer imaginar o destino daqueles que o sistema coloca abaixo deles. Porque na realidade é muito difícil imaginar uma situação em que não se possa viajar livremente pelo mundo, ocupar um emprego em qualquer lugar e viver onde se queira. O outro, por outro lado, não tem o direito de deixar o lugar onde vive – quando se trata de liberdade de circulação, que é um dos direitos humanos mais essenciais, o outro é escravo do facto de que só em certa medida pode decidir o seu próprio destino. A única razão pela qual existe tanta desigualdade é porque nasceu num outro lugar.

    A fronteira é assim um instrumento para manter a dependência e subordinação global. Vivemos numa era de declaração de preocupação generalizada sobre o enorme aumento da desigualdade entre os mais ricos e a grande maioria das pessoas. Esta tendência é manifestada por grandes instituições de caridade, generosamente subsidiadas por homens de negócios, e um número crescente de políticos. Entretanto, os representantes do grande capital e da política estão a fazer tudo para preservar o status quo e manter a dependência dos países do Sul global.

    noborders_polandOs meios de comunicação social já conseguiram habituar-nos ao facto de que a vida humana tem um valor diferente consoante o lado da fronteira de onde uma pessoa vem. Neste mundo artificialmente criado, a morte de um adolescente palestiniano não é a mesma tragédia que a morte de alguém que tinha um passaporte israelita, e a morte de um soldado da coligação que ocupa o Afeganistão é uma tragédia “maior” do que o assassinato em massa numa aldeia habitada por afegãos. “Não havia polacos entre as vítimas”.

    O sistema actual e as pessoas que o servem ainda vivem no profundo século XX. O facto de não sermos nós a pagar pelas alterações climáticas não deve, contudo, ser tranquilizador. As previsões sucessivas sobre o aquecimento global e os seus efeitos na humanidade são cada vez mais pessimistas. O problema não irá desaparecer; pelo contrário, irá crescer e afectar a maioria das pessoas ao longo do tempo. Afastar esta
consciência e tratar a migração actual como uma onda que passará se apenas as fronteiras forem suficientemente apertadas não é apenas ingénuo, mas acima de tudo uma ilusão perigosa. A ideia de estados e fronteiras, de tentar separar-nos do resto do mundo por um muro, levar-nos-á a uma guerra que todos perderemos.

    As fronteiras nunca serão estanques. As fronteiras não existem para proteger as pessoas. A única hipótese de enfrentar tanto a situação actual como a futura é uma completa mudança de pensamento sobre o mundo, sobre a vida social e os nossos valores.

    APELO A ACÇÕES DE SOLIDARIEDADE!

    Há vários meses que assistimos a um jogo político entre a União Europeia, a Rússia, a Polónia e a Bielorrússia. Como frequentemente aconteceu nos anos anteriores, pessoas privadas das suas casas e à procura de uma vida melhor tornaram-se números para as autoridades estatais. Tratadas como instrumentos neste conflito, suportam os seus custos directos. Morrem na fronteira, são torturadas, espancadas, violadas e maltratadas de todas as formas possíveis. A situação em que se encontram é um resultado directo da política anti-imigração da União Europeia, que está a ser utilizada sem escrúpulos pelo regime de Lukashenka.

    Como movimento sem fronteiras na Polónia, queremos convidar para actividades coordenadas todos os grupos na Europa que partilham a ideia de um mundo sem fronteiras. Queremos exercer pressão sobre as autoridades polacas e da União Europeia e expressar solidariedade com todos os viajantes. Qual a forma destas acções, deixamos ao vosso critério. Manifestações em frente a embaixadas e consulados polacos, acender velas, campanhas de graffiti, faixas, benefits, acontecimentos, etc. Que estas actividades façam parte da nossa oposição à militarização das fronteiras e à restrição do direito de circulação.

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    A nossa luta desenrola-se a muitos níveis. Por um lado, está profundamente enraizada nas nossas vidas – diz respeito ao espaço em que nos encontramos, às pessoas e às nossas relações quotidianas. Ao mesmo tempo, os movimentos de base que estão em oposição aos Estados, às grandes empresas e a todas as ideologias baseadas na escravatura; são capazes de provocar a mudança global que é necessária para o mundo. A construção comunitária e a solidariedade não são muitas vezes tão espectaculares como a opressão do Estado. É mais fácil contar os tanques, as tropas e os milhares de milhões gastos na manutenção do sistema. No entanto, os resultados das actividades dos grupos de base são muitas vezes mais duradouros e mudam muito mais. Mesmo o que parecia permanente. As nossas acções parecem muitas vezes lembrar-nos de faíscas que se acendem por um momento na escuridão. Mas são as faíscas que provocam os fogos!

    Quaisquer perguntas, sugestões, ideias ou contactos, escreve-nos para no_borders_team[at]riseup.net

     


    Fotografias de  No Borders Team | Poland


    #fronteiras #migração #fascismo #polónia #bielorussia #europa #migrantes #solidariedade #noborders

     

  • Uma loja de portas abertas para um comércio justo

    Uma loja de portas abertas para um comércio justo

    A Loja de Comércio Justo do CIDAC em Lisboa comemora 10 anos de existência. Falamos com este projeto sobre o que envolve hoje falar de comércio justo. A loja é a única em Portugal de base associativa e dedicada a 100% ao Comércio Justo e nela podemos encontrar produtos alimentares, de artesanato, de beleza e higiene e de limpeza. Faz parte de uma cadeia solidária entre consumidores/as e pequenos produtores/as de África, Ásia, América Latina, Europa e Portugal. Apresenta-se como «um espaço onde os cidadãos podem dar corpo aos princípios e valores que defendem, através dos seus atos de consumo» e como «uma das muitas alternativas que visam uma transformação profunda do modelo de desenvolvimento desigual em que vivemos».

     

    Filipe Nunes: Qual é a continuidade dos valores do CIDAC, criado em maio de 1974 após o percurso da resistência clandestina anti-colonial, e o projecto da Loja de Comércio Justo que hoje celebra 10 anos?

    CIDAC: É verdade que o primeiro nome do CIDAC era Centro de Informação e Documentação Anti-Colonial [atualmente Centro de Intervenção para o Desenvolvimento Amílcar Cabral], tendo as suas origens no Grupo do BAC (Boletim Anti-Colonial), que operava na clandestinidade antes do 25 de abril. Seguiu-se a luta pela independência de Timor-Leste, e hoje ainda, reúne na nossa sede a Associação Amizade Portugal-Sahara Ocidental – AAPSO, herdeira de um coletivo criado em 1976 no âmbito do CIDAC, o Comité Português de Apoio à Frente POLISARIO.
    Às lógicas de dominação colonial, substituíram-se lógicas de dominação neocolonialista, outras roupas para a manutenção da exploração dos recursos naturais e dos povos ao serviço dos mesmos interesses. No final dos anos 1990, vimos no Comércio Justo uma via para, à nossa muito humilde escala, contrariar o modelo predador do comércio internacional através de práticas que colocam a dignidade humana, a emancipação das comunidades de produtores e produtoras e o respeito pela natureza à frente dos processos de acumulação e de dependência, com Nestlé, Unilever ou o FMI no lugar dos velhos impérios.

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    Semear o que se come, trocar sementes (Semeteca do CIDAC).

    Como se posiciona ou se articula a Loja de Comércio Justo no leque crescente de alternativas de redes de produtores e consumidores, desde as AMAP, CSA ou das Cooperativas Integrais?

    A nossa abordagem inicial do Comércio Justo situava-se exclusivamente no quadro dos fluxos de poder e de mercadorias entre o Sul e o Norte geopolíticos, mas evoluiu rapidamente assumindo que as dinâmicas de exploração dos produtores e produtoras eram as mesmas no centro ou nas periferias, com incidências mais ou menos dramáticas sobre a vida das pessoas em função das capacidades locais em enfrentar os danos da economia globalizada. Assim, desde a abertura da loja em 2011, estabelecemos relações com produtores e produtoras nacionais de pequena escala, no campo alimentar ou do artesanato, familiares ou organizados em cooperativas, numa lógica de complementaridade entre a oferta nacional e internacional. Em 2012, abrimos as nossas portas a uma iniciativa de venda direta de cabazes, inserida no dispositivo Prove, que se mantém até aos dias de hoje e abastece cerca de 100 famílias semanalmente. Nos dois últimos anos, no quadro do Festival UMUNDU, co-organizamos conversas com grupos de consumo como a Bela Rama ou com a rede de AMAP Regenerar, centradas na questão do lugar do Comércio Justo internacional no consumo auto-organizado. Fazemos também, ocasionalmente, compras conjuntas de café de comércio justo da Nicarágua com a cooperativa integral Minga, em Montemor-o-Novo. Uma das nossas preocupações é que o princípio da solidariedade internacional, que sustenta uma parte significativa da nossa visão do Comércio Justo não fique, de uma certa maneira, sacrificado no altar de um “localismo” exacerbado. Há, sem sombra de dúvida mais justiça social, económica e ecológica num pacote de café nicaraguense da cooperativa Espanica do que alguma vez haverá numa garrafa de azeite nacional oriunda da olivicultura super-intensiva.

    Cidac
    O CIDAC e as produtoras dos cabazes PROVE, Judite e Justina Silva, organizaram uma visita às suas explorações agrícolas em Brejos do Assa, Palmela.

    Que crítica consideram poder ser possível haver dentro do conceito de Comércio Justo ao modelo capitalista em que estamos imersos?

    O Comércio Justo não é um movimento unitário, unívoco, ou harmonizado, e tem sofrido muitas evoluções (ou regressões), desde os seus primórdios internacionalistas e anti-capitalistas. Na sua génese, desde a produção até a distribuição e comercialização, o Comércio Justo está ligado ao movimento cooperativista e associativo, isto é, a estruturas em que o capital é coletivo e em que este não é remunerado em função da posse de títulos ou do aparelho de produção. A riqueza (potencialmente) gerada por estas estruturas é, regra geral, reinvestida no projeto coletivo. Pautando-se por valores de solidariedade e de justiça, o Comércio Justo inverte a lógica da economia de mercado, ao conceber práticas que visam maximizar as mais-valias a montante da cadeia comercial, isto é, junto dos/das produtores/as historicamente excluídos/as ou explorados/as. Esta matriz militante considera como indissociável da prática comercial justa um trabalho educativo e de mobilização à volta do funcionamento da economia que permita posicionamentos e ações conscientes e críticos dos cidadãos e das cidadãs.
    Esta matriz, embutida na Economia Solidária, ainda existe e é nela que o CIDAC se reconhece, mas a fantástica capacidade de apropriação das alternativas por parte do capitalismo veio propor uma nova leitura do Comércio Justo, esvaziada do seu potencial crítico e transformador, mas mantendo a narrativa sedutora do “pequeno produtor”. Com efeito, ao longo dos anos 1990/2000, a grande distribuição alimentar e as multinacionais apoderaram-se do Comércio Justo, servidos pelas iniciativas do “pronto a pensar” que são as organizações de certificação. Na procura de limpar a sua imagem, os atores da economia convencional desenvolveram o nicho de mercado da “boa consciência”, mas conseguiram também captar a maior parte dos fluxos comerciais que, neste caso, remuneram diretamente o capital. A mesma história poderia ser contada para o caso da agricultura biológica, e já está a ser escrita para os circuitos curtos. No entanto, os atores do Comércio Justo militante mantém-se ativos, no mundo inteiro, confrontando-se doravante com a necessidade de explicar que “não, o chocolate certificado do supermercado não é a mesma coisa”…

    a grande distribuição alimentar e as multinacionais apoderaram-se do Comércio Justo, servidos pelas iniciativas do “pronto a pensar” que são as organizações de certificação

    Como tem sido possível manter um projecto comercial de base associativa e como é balançado o seu trabalho assalariado e voluntariado?

    Como muitas organizações que se reivindicam da Economia Solidária, a nossa estrutura de financiamento resulta de uma hibridação entre resultados da atividade comercial, financiamentos públicos, e reciprocidade ou trocas não-monetarizadas (voluntariado, donativos, quotas, troca de serviços…). Sem estas três dimensões, a nossa atividade não poderia ser mantida nos moldes atuais e, ao não limitarmos o nosso entendimento da economia ao mercado, vemos como importante que o nosso trabalho educativo, por exemplo, seja alimentado pela função de redistribuição do Estado, ou que voluntários e voluntárias possam envolver-se na nossa atividade. Em termos de balanço, podemos dizer que atualmente, metade do horário útil da loja é garantido pelo trabalho de atendimento de voluntários e voluntárias. A equipa assalariada garante as tarefas associadas à gestão da loja (encomendas, por exemplo).

    Recentemente os tempos pandémicos recordaram-nos a todos definitivamente a importância das relações comerciais locais de pequena escala. Como veem, no âmbito da vossa visão e projeto, a evolução dessa generalizada perceção e a onda de programas subsidiados vários que se propagaram nas Associações de Desenvolvimento Local um pouco por todo o lado?

    A nossa principal preocupação em relação a esta realidade reside nas motivações que alicerçam estas perceções, entre o atalho do “nacional é bom” e a assunção genuína da importância da soberania alimentar, da agroecologia de matriz camponesa e da justiça económica.

    Cidac
    Loja de Comércio Justo do CIDAC: aberta de segunda a sábado junto ao metro de Picoas, no nº 9 da Rua Tomás Ribeiro.

    E como encaram a questão da oferta da produção justa, como em igual medida dos bens agroecologicos, manter-se acessível em grande apenas a alguns nichos de consumidores?

    Este é um tema com o qual nos confrontamos frequentemente, e que parte de um diagnóstico real. Os preços baixos resultam do recurso por parte da agro-indústria a modos de produção intensivos e ao pagamento de preços indignos a quem produz / trabalha, alimentando o círculo vicioso da depredação ambiental e da pobreza. O sistema económico dominante consegue deste modo entreter uma esquizofrenia em que, enquanto trabalhadores/as, produtores/as exigimos remunerações dignas, e enquanto consumidores/as exigimos preços baixos. Os/as pobres contra os/as pobres… O problema não são os preços no Comércio Justo ou na agroecologia, ancorados na justiça social e ambiental, mas sim os preços e as externalidades que resultam das práticas convencionais. Dizer isto não resolve o problema, mas permite situá-lo não num elitismo político ou económico, que seria inerente às alternativas produtivas e económicas, mas sim na violência da economia de mercado capitalista.

     


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  • Mapa #28 na rua!

    Mapa #28 na rua!

    Está aí um novo MAPA para ler e percorrer!

    Perante os repetidos e históricos episódios de discriminação racial e violência policial, em Portugal e no mundo, assistimos a poderosas demonstrações de repúdio, força e solidariedade. O Jornal MAPA, na sua edição 28 (Agosto-Outubro), apresenta um conjunto de reflexões em torno de questões como a negritude, o privilégio branco, o racismo e o abolicionismo, dando voz a quem luta quotidianamente contra o preconceito. Para uma arqueologia das ideologias identitárias, recuamos até aos mitos fundacionais da chamada portugalidade, desmontando as falsidades da história Celta e de Viriato, hoje ao serviço de nacionalismos e fascismos cada vez mais extremados. Sobre o quotidiano pandémico das desigualdades sociais, assinalamos os despejos ilegais das casas ocupadas nos últimos meses e registamos aquela que foi a primeira concentração organizada por pessoas sem-abrigo em Portugal. No campo, e na linha da frente da defesa pelos territórios, acompanhamos sempre, e uma vez mais, as lutas das populações contra a febre de mineração do lítio, ou as que procuram recuperar das radiações que ainda perduram das minas de urânio de outrora; assinalamos a destruição do litoral alentejano, de Tróia a Melides, na vertigem do turismo; e, no interior alentejano, a saúde das pessoas que vivem sufocadas no mar de olivais superintensivos. Neste MAPA olha-se ainda para a estratégia do Hidrogénio, para a recordação do Rio Tua na luta, ainda presente, pelos rios livres e selvagens e fala-se das ervas vagabundas nas nossas ruas. Partilhamos ainda o que ouvimos de Euclides Mance em relação aos circuitos económicos solidários, da fotógrafa Urzula Zangger recordando a arte humana de Vieira da Silva e do Arpad Szenes, do pianista Tiago Sousa num diálogo com Kierkegaard sobre a crise pandémica e de Júlio Henriques sobre a revista Flauta de Luz. E mais há para descobrir neste número do Jornal MAPA, que surge nas vésperas da edição do livro “Transumano Mon Amour. Notas sobre o Movimento H+”, as crónicas de Andrea Mazzola publicadas neste Jornal entre 2015 e 2019.

    Para leres – e apoiares a continuidade do MAPA –, faz já a tua assinatura de 6 edições (15€ normal / 20€ solidária) escrevendo para assinaturas@jornalmapa.pt ou aqui. O que não impede que dês um salto aos lugares inconformados onde podes encontrar estas 48 páginas trimestrais de informação crítica

  • Estamos juntos, estamos fortes

    Estamos juntos, estamos fortes

    Nos bairros da periferia de Lisboa a solidariedade auto-organizada existe desde antes da pandemia. Nestas comunidades, já antes confinadas em territórios de exclusão e conflito, nasceram redes de entreajuda como a Nu Sta Djunto, que agora no Casal de São Brás (Amadora) dinamizou um ponto solidário de recolha e distribuição de bens alimentares.

    Quando a pandemia e o estado de emergência assolou Susana, uma das pessoas que faz parte da Nu Sta Djunto (NSD), um movimento informal de entreajuda nos bairros periféricos da grande Lisboa, rapidamente procurou actuar, com uma certeza adquirida nos oito anos do colectivo: «não estávamos a reagir, não fomos apanhados na curva, já andávamos a fazer as coisas e já tínhamos uma resposta concreta, e foi só reforçá-la, foi só enquadrá-la». De imediato ligou para o Sinho, do Casal de São Brás, mais conhecido como Boba, na periferia da Amadora: «Ei, continuamos a estar juntos, e imagino que agora aí se estejam a acentuar as necessidades e que seja preciso actuar…» A resposta já estava em marcha e veio nas palavras de Sinho: «Sim, mana, estamos aqui, vamos agora reunir na associação de moradores e já estamos aí alerta e organizados para agir, porque, sim, a necessidade está a crescer».

    O Ponto Solidário da Boba

    O próprio Sinho, como é conhecido José Baessa De Pina, explicou ao Jornal MAPA como nasceu o Ponto Solidário da Associação dos Cavaleiros de São Brás. «Fazendo parte do Nu Sta Djunto, esta é uma iniciativa que venho fazendo desde há muito tempo com vários membros da comunidade e de fora da comunidade. Achei que era muito importante neste momento termos uma rede na comunidade a combater esta situação, por isso desafiei as associações que trabalham na comunidade da Boba: a Associação Efeito Dominó, Associação Desportiva da Amadora, Associação Cavaleiros de São Brás e o Boba Studio. Como eles trabalham todos com crianças e conhecem a realidade de cada uma delas, foi um bom ponto de partida para saber quais são as verdadeiras dificuldades na comunidade. Também já tínhamos uma lista de pessoas que precisam de apoio, uma lista desde o tempo do NSD, já sinalizadas por mim, pelo Boss e por outra malta do NSD. Não foi muito difícil, porque já tinha uma estrutura e muitas pessoas e voluntários: logo que a iniciativa avançou, eles chegaram logo à frente.» Ao grupo de voluntários do Nu Sta Djuntu Boba, junto com as associações acima, a rede de partilha e de donativos rapidamente se estendeu a gente anónima e a outras associações e colectivos, como a Associação Passa Sabi, Mira Ativa, o Moinho da Juventude, a SOS Racismo, a Campanha Anti Racista de Apoio Imediato Lisboa, a Djass Afrodescendentes e a Nasce Renasce.

    Na Boba, o ponto solidário auto-organizado, «é dirigida mesmo a quem não tem os alimentos básicos para ter numa casa. A essa pessoa é necessário logo o apoio. Temos famílias numerosas, com o problema agora do lay off muitos estão em casa, pois tivemos que sinalizar pessoas que até tinham trabalho, mas agora não têm. Começámos a campanha no dia 21 (de Abril) e até agora tivemos que acompanhar muitas famílias que até têm pessoas a trabalhar, mas com o lay off, as restrições e o confinamento, tivemos que apoiar várias famílias que não estávamos habituados a apoiar, porque não estavam sinalizadas». Essa procura aumentou e extravasou a comunidade do bairro. «Houve bastante procura de várias famílias e nós também estendemos a rede a outras comunidades, pois começamos já a ver que o problema não é só dentro da comunidade, também fora da comunidade. Nos arredores de São Brás, Casal da Mira, Casal da Serra da Mina, Casal de Cambra, Reboleira… E começamos a criar redes de contactos entre amigos de várias comunidades que sinalizam as próprias famílias de cada comunidade, e tem sido fácil. Tem tido muita procura, mas nós também só conseguimos dar aquilo que temos, portanto vamos fazendo aquilo que a gente pode».

    A iniciativa foi voluntária, uma resposta natural posta em marcha e que nos bairros periféricos de Lisboa se soma ao trabalho desenvolvido por associações que são verdadeiros faróis das comunidades, como é, também na Amadora, o caso da Associação do Moinho da Juventude, na Cova da Moura. Esta associação é hoje uma reconhecida instituição de solidariedade social, que nasceu nesse bairro há 30 anos e que, inserida na rede de emergência alimentar da Segurança Social, é responsável por uma cantina social, que fornece refeições gratuitas, e que agora se viu a braços com escassos recursos e apoios para a tamanha e elevada procura como a que situação do Covid-19 despoletou.

    No ponto solidário que nasceu por mão dos moradores da Boba, como nos relata Sinho, «a organização é voluntária, cada um faz o que pode, onde pode: divulgação, partilhas nas redes sociais e temos um espaço físico onde podem lá levar os alimentos não perecíveis, para separarmos e fazermos o cabaz. Temos grupos voluntários que se oferecem para levar os cabazes às famílias que nos vão pedindo de fora da comunidade, por exemplo Odivelas, Agualva-Cacém, Queluz, Reboleira».

    Ao mesmo tempo, a par do aumento de procura da ajuda, a vivência em tempos de pandemia nestes bairros tem acentuado ainda a posição de exclusão e conflito a que estes territórios e comunidades já se viam confinados. Quando perguntámos, então, em estado de emergência, que problemas estavam a vivenciar por causa das restrições impostas, Sinho reiterou a realidade que vem sempre ao de cima nestas comunidades: «o que eu tenho sentido é que há maior repressão policial; há pouca informação por parte do Estado sobre prevenção, cuidados; e quando a polícia chega é mesmo para repreender: com cassetete na mão, a instigar problemas, mais entre a classe juvenil, que se encontra na rua de vez em quando a algumas horas da tarde. E a polícia, de vez em quando, vem  com algumas atitudes que para mim não é de sensibilização. É mais a repressão, o que não fazem em outros sítios em que tem havido vários delitos de comportamento da quarentena, e onde, na comunidade, eles têm outra abordagem para com o cidadão. Tenho visto aqui alguns vídeos a passar na comunidade da Cova da Moura, de Vale de Cambra, e vê-se que a atitude é de repressão, e com alguma violência gratuita.»

    Nu Sta Djunto Li Kê Terra, 2017

    Uma tomada de posição

    Garras, com quem, junto com Susana, falámos acerca da história do Nu Sta Djunto, um colectivo de entreajuda que não precisou de uma pandemia para nascer, sentiu-se pessoalmente recompensado quando falou com Sinho: percebeu que as coisas já estavam todas em andamento. A organização de eventos, e falamos de concertos de Hip-Hop, tem sido a face mais visível deste colectivo, que nesses momentos angaria comida e outros bens para os bairros por onde vão passando. Para Garras, «sempre que fazemos coisas estamos a criar sementes também. E quando as pessoas experimentam qualquer coisa e vêem que resulta, depois aplicam-na em vários momentos da sua vida. Sinto que, às tantas, temos estado estes oito anos a fazer determinadas coisas que possam ter surgido também como sementes que germinam facilmente numa fase destas», como ali na Boba e em muitos bairros à volta da Amadora. «Ao termos experimentado, antes e em determinados locais, essa confiança, de que é possível e de que somos capazes de o fazer, enquanto moradores do bairro e enquanto pessoas sensíveis ao assunto, acaba por ainda surgir mais facilmente».

    A história do NSD «surge num cruzamento entre anarquistas e rappers, eles também anarquistas mas de descendência cabo-verdiana e que vivem na periferia de Lisboa, pegando um bocado na ferramenta do rap como forma de ser solidário e de conseguir criar uma estrutura de entreajuda em determinados bairros, e que depois se foi alargando a mais e mais bairros. Esta estrutura seria sempre de apoio mútuo, com a participação de todas as pessoas: as pessoas que poderiam receber ajuda também participavam de alguma forma, nos eventos, nas distribuições ou nas recolhas. A ideia era ser todo um processo horizontal.» Tudo começa «entre pessoas que estão de uma maneira ou outra dentro dos bairros, dentro das periferias, e surge naturalmente por haver o contacto direto com estas necessidades, mas também com estas dependências das estruturas institucionais.»

    Para Susana, o NSD é uma tomada de posição «partindo de uma análise em que sentimos que há um diálogo entre as estruturas sociais do Estado, que é hierárquico e que pressupõe a manutenção da dependência. É um diálogo que pede sempre algo em troca, de quem usufrui de determinado serviço. E querendo aqui dar resposta a necessidades muito básicas – e esse é o ponto de partida – aquilo que faz é uma tomada de posição, encontrando na autonomia e na horizontalidade uma resposta criativa e directa: a estarmos organizados entre nós e autonomamente. Reconhecendo também que as políticas sociais e do estado continuam sempre a deixar muitas pessoas à margem, porque de uma forma ou outra não se enquadram naquilo que são os pressupostos e aquilo que o sistema impõe».

    Foi, pois, refere Garras, «dentro desse espaço de análise dessa dinâmica institucional e dessa dependência, e na capacidade de a questionar e de criar alternativas, que surge o NSD. Esta questão do rap crioulo é uma fórmula de luta, uma expressão artística que surge como forma de criar eventos em que se mistura a cultura com a luta e com a solidariedade. E isto é aqui uma base, uma base que é bastante ideológica, que toca a vários pontos-base também, a várias necessidades básicas, mas é bastante ideológico na forma de organização e naquilo que são os valores que para nós são anarquistas». O que, como prossegue Susana, «são assentes na horizontalidade, na autogestão». Uma tomada de posição ideológica, mas na verdade «bastante espontânea, sempre assente numa comunicação, nas relações entre diferentes bairros e das pessoas que lá eram, os rappers sobretudo». A «coisa foi crescendo a partir daí, a partir do contacto directo com as pessoas e estando nos bairros numa relação direta e horizontal, em que as relações se iam estabelecendo, as necessidades iam-se conhecendo e as respostas também iam surgindo de uma forma espontânea, criativa, autónoma e horizontal. E, sim, é sobretudo uma tomada de posição, uma resposta para a vida, porque estávamos a actuar sobre o quotidiano.» Para o NSD «é nos buracos que o sistema deixava que nós nos posicionávamos e nos fortalecíamos, era na resposta a essas coisas que organizávamos a nossa ação»

    E uma vez imersos no tempo da pandemia, Susana salienta-nos que «a partir daí foi ter a certeza de que isto é só uma situação em que a necessidade se acentua, porque os buracos do sistema, o sistema vive deles, e numa situação destas só crescem, ou o buraco fica maior. Então, é ter a certeza de que os valores e as práticas do apoio mútuo, da horizontalidade e da autonomia têm de ser uma resposta quotidiana nossa, enquanto anarquistas, que nos posicionamos contra determinado modelo, contra este sistema que teima.» Esta perceção vai por sua vez ao encontro da dinâmica dos bairros, quando em «contactos com malta ativa nos bairros se percebeu que as coisas lá já estavam a acontecer». «Quando a necessidade é grande, e nos bairros isso acontece muito, estas respostas fora do sistema, criativas, e estas tomadas de posição são coisas que fazem parte do ADN dos bairros. E é isso que o próprio sistema ensaia de querer aniquilar, são todas essas respostas que metem medo ao Estado, e é isso que pode criar laços importantes entre nós e estes territórios.»

     

    Nu Sta Djunto

    Estamos todos juntos

    Nos últimos meses repetido até à exaustão, o lema do Nu Sta Djunto – Estamos Juntos –, tem perdido o verdadeiro sentido, quando ecoado por políticos e pivots de telejornais. Essa perda deliberada de sentido tem guiado o Jornal MAPA a perguntar, às várias iniciativas que abordamos na série #PandemiaSolidária, o significado de «solidariedade», tantas vezes confundida com «caridade» e «assistencialismo».

    Para Garras «na verdade todas as estruturas de ajuda que vem por parte do Estado e das instituições acabam por ser uma relação de poder e unilateral, e aí sim, de caridade. É para mim aí a grande diferença entre caridade e solidariedade. A solidariedade surge de igual para igual, entre mim e ti, e de ti para mim, e colada necessariamente com estes valores de entreajuda e apoio mútuo; enquanto a caridade é uma relação de poder, que vem das instituições, que é unilateral e que perpetua uma relação de dependência. Nesse sentido, NSD surge como uma forma de contrariar essa dinâmica e de propor uma outra forma de organização, e uma forma de organização que não depende de estados, de poderes institucionais ou de qualquer tipo de poder, e que surge de uma forma horizontal, de uma forma de nos entreajudarmos nas nossas necessidades mais básicas e não só, de criarmos rede, de criarmos comunidade, de criarmos uma forma de vida mais conjunta, mais colectiva».

    Como acentua Susana «não há aqui esta relação entre quem é privilegiado e quem não é, quem está em necessidade e quem não está: existem pessoas que reconhecem os problemas e decidem posicionar-se perante eles. Não há aqui uma relação hierárquica: há uma horizontalidade nas decisões e nas acções. Não há um perpetuar de um diálogo hierárquico: para teres determinada ajuda tens de te enquadrar naquilo que o Estado define enquanto percurso de um bom ou de uma boa cidadã. Não se trata desse diálogo, frequente, das estruturas sociais para com as pessoas: trata-se sim de uma resposta autónoma que pretende também, mais do que uma cena pontual, que possa ter uma resposta contínua para suprir determinadas necessidades. Ou seja, não pressupõe aqui o assistencialismo directo. Não, tem um valor e uma ação muito maior, e o nome vai ao encontro disso: é o Estarmos Juntos para nos entreajudarmos e para nos posicionarmos. Não é essa questão de estarmos passivos e à espera de ajuda de quem está por cima. Não, damos a mão e seguimos em frente, no nosso caminho, autonomamente.»

    Uma outra dimensão de solidariedade, afasta-a, segundo Garras, da caridade: «Para mim a solidariedade está muito ligada com processos de luta. A vida de uma mãe solteira afro-descendente que vive na Europa, que tem trabalhos precários, que vive num bairro social, esta mulher, esta pessoa está em luta. Na nossa vida, esta organização por classes, a relação centro da cidade, periferia da cidade, isto é uma luta, isto cria desigualdade, cria barreiras; a violência policial nos bairros, a violência policial contra movimentos que se oponham ao estabelecido, isto é tudo uma luta. E, como nós nos entreajudamos, nós estamos a ser solidários nesta luta, a esta vida que nos impõem, a esta forma de organização que nos impõem. Estarmos juntos uns com outros e entreajudarmo-nos nas bases, isso para mim é solidariedade com quem está em luta. Por outro lado, assistencialismo é um conceito que está ligado aos assistentes sociais, a esta resposta do Estado, a essa relação de dependência perpetuada que tem o interesse que seja assim. É por isso também que os bairros de auto-construção são comunidades completamente paralelas ao que está estabelecido e que acabam por ter estruturas realmente de entreajuda, que acabam por ter estruturas  que substituem e opõem-se aquilo que é imposto, seja a rede de alimentação, à rede de luz, à rede de saneamento e higiene, à rede de saúde. Às pessoas estarem umas para as outras, em vez de comprarem ou prestarem serviços. Tudo isto, aos olhos do Estado, tem de ser destruído, e por isso é que estes bairros de auto-construção estão todos a ser dizimados e as pessoas são colocadas em bairros sociais onde as pessoas são muito mais facilmente isoladas e controladas, um bocado nesta perspectiva de dividir para conquistar. O assistencialismo surge nessa tentativa de destruição destas estruturas. A solidariedade surge para fortalecer e para tornar possível estas bases destas comunidades; e surge como necessidade óbvia para que estas comunidades funcionem.»

    Por isso, Sinho espera «que essa iniciativa, todos os movimentos do Casal da Boba e não só, todos os movimentos que têm participado nessas iniciativas em rede, o Moinho da Juventude, Associação Passa Sabi, a Djass Afrodescendentes, todos esses movimentos  que ajudam no silêncio, que  continuemos com essa rede de partilha e de solidariedade, que acompanhem essa situação, não só alimentar: há vários outros problemas – medicamentos, habitação, educação – que vamos ter de acompanhar. Em rede acredito que podemos colmatar alguns problemas. Nós não queremos fazer o papel de Estado, nos não somos o Estado, mas não podemos virar a cara a esse problema que é real, que está à nossa frente, e não podemos ficar indiferentes a essa situação.»

     


    Ponto Solidário da Associação dos Cavaleiros de São Brás

    Podes entregar bens alimentares perecíveis na Associação Cavaleiros de São Brás – Rua Jacinto Baptista, n.º 4 A; Casal da Boba Amadora – ou fazendo um donativo para a Associação Desportiva da Amadora: IBAN PT50 0033 0000 45512980934 05.

    Estamos juntos, estamos fortes.  Nu sta djunto, Nu sta forti.

     


    Este artigo faz parte da série #PandemiaSolidária.

     

     

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  • Agir não em resposta ao vírus, mas ao agravamento dos problemas do sistema económico

    Agir não em resposta ao vírus, mas ao agravamento dos problemas do sistema económico

    Este artigo faz parte da série #PandemiaSolidária.

     

    As cantinas solidárias são uma das mais expressivas iniciativas locais de solidariedade e apoio mútuo que surgiram nas cidades com vista a fazer face às consequências sociais e económicas trazidas pela pandemia da Covid-19. O espaço Provisório emprestou a sua sala e cozinha a um grupo informal de moradores nas freguesias de Arroios, Penha de França e São Vicente, em Lisboa, e daí nasceu uma cantina solidária temporária que à data continua a fornecer cerca de 80 refeições gratuitas diariamente.

     

    A partir de quem partiu a iniciativa e o que a motivou?
    Somos um grupo informal de pessoas que já se conhecem há algum tempo porque partilhamos os mesmos circuitos sociais e culturais, onde temos desenvolvido cumplicidades e práticas coletivas.

    Perante a pandemia da Covid-19 e a crise, não somente sanitária mas sobretudo económica e social, que atingiu toda a gente e ainda mais as pessoas que já se encontravam antes numa condição maior de fragilidade, quisemos juntar-nos e organizar-nos para agir perante este abalo e pensar em iniciativas que pudessem aliviar o peso das necessidades mais essenciais.

    Às competências organizacionais e materiais desenvolvidas no passado em experiências partilhadas acrescentou-se a possibilidade de acesso ao Provisório, um espaço com uma cozinha grande e actividade mais regular onde alguns de nós estão envolvidos.

    Sobre estas bases decidimos então montar uma cantina gratuita, que se somou às iniciativas de outros grupos, como as cantinas solidárias do RDA, do Disgraça, da Mula, ou as Brigadas de Bairro, e a diversas acções individuais que têm surgido neste contexto de crise.

    A quem é dirigida? E como tem corrido? Há muita procura?
    O serviço de refeições gratuitas é dirigido a todos e não estabelecemos quaisquer condições para os interessados. Tem corrido bem. Estamos a servir neste momento aproximadamente 80 refeições por dia, havendo pessoas que levam para o jantar ou para entregar aos vizinhos. Além das pessoas que têm vindo para o serviço de refeições, há um interesse e disponibilidade particular de pessoas conhecidas ou não, que se têm oferecido para participar das mais variadas formas, seja para cozinhar, divulgar o projecto, entregar refeições a vizinhos que não podem ou não conseguem sair de casa ou ajuda com toda a logística necessária. Tivemos também apoio dos comerciantes da zona que nos ofereceram bens alimentares e reduzem os preços dos produtos, de pessoas que nos deram comida, caixas, luvas, gel desinfectante, etc.

    Percebemos ainda que uma boa parte das pessoas com quem temos contactado, para além de carências financeiras acentuadas pela crise, está também a sentir-se isolada emocional e afectivamente, encontrando um certo conforto na aproximação e na participação nesta acção colectiva.

    Como se organizam?
     Esta cantina partiu de um grupo de pessoas que já se conheciam e faziam coisas juntos, havendo por isso relações pessoais de confiança que tornaram o processo de discussão e organização mais fácil.

    Desde o início, em 16 de abril, a cantina tem funcionado em regime de takeaway, todos os dias, das 13h às 15h. Para além dos cuidados habituais a ter quando se trabalha no processamento e confecção de alimentos, seguimos os protocolos extra de saúde, higiene e limpeza que a situação exige. Os turnos feitos a partir de uma escala semanal são compostos por três pessoas, com um regime de rotatividade em que cada dia um de nós fica responsável pela elaboração do menu e pela gestão do espaço.

    Durante o serviço, uma pessoa está à porta e trata de receber as caixas que as pessoas trazem, outra enche as caixas e uma terceira continua a cozinhar o que for preciso. As limpezas são feitas pelo turno de cada dia, deixando o espaço limpo e preparado para o dia seguinte. Além dos turnos de cozinha, existem turnos de compras, inventário e contabilidade, bem como de gestão da comunicação.

    Temos reuniões uma vez por semana para coordenar e decidir o que vai sendo necessário.

    Têm mantido alguma relação com as demais cantinas solidárias na zona de Lisboa?
     Algumas das organizações com cantinas sociais são espaços que frequentávamos antes da pandemia e alguns de nós estão a participar e a acompanhar as actividades desenvolvidas (na cantina do RDA, por exemplo). Esta relação próxima permitiu-nos trocar informação e partilhar certos recursos e necessidades logísticas, o que foi importante para começar a nossa actividade. Além dos colectivos que organizam cantinas solidárias, o GAIA disponibilizou-nos material para cozinhar, o Provisório emprestou o seu espaço e cozinha, bem como os seus meios de comunicação online. A associação dos Amigos da Quinta do Ferro ajudou na divulgação e o grupo das Brigadas de Bairro ajuda com o seu sistema de entrega de refeições ao domicílio.

     

    Têm tido algum problema por causa das restrições impostas pelo estado de emergência?
     Na zona onde estamos e em relação à nossa actividade com a cantina, o controlo tem sido reduzido e até agora não tivemos qualquer problema com as autoridades.

    Como é que o projecto (Cantina Solidária Temporária) está a subsistir nestes tempos incertos?
    A Cantina Solidária Temporária é um projecto recente que funciona com trabalho voluntário e donativos privados. Recebemos donativos que vão permitir-nos estender o seu funcionamento até 16 de Maio. A flexibilidade laboral ou a suspensão de trabalho forçada de muitos de nós proporciona o tempo e a disponibilidade para continuarmos. Estamos também a pensar como este projecto poderia existir para além deste período de pandemia, tendo perfeita consciência do carácter excepcional do momento e de que perenizar esta actividade levanta um conjunto de questões complexas.

    E como temos vindo a perguntar a outras Cantinas Solidárias, numa tentativa de desambiguar o significado de «solidariedade», tantas vezes confundida com «caridade» e assistencialismo, o que é para vocês ser solidária?
    Entendemos a solidariedade como uma estrutura de relações interdependentes de apoio mútuo dentro de uma comunidade, radicalmente diferente da caridade que, em sentido contrário, reforça e perpetua as dependências e hierarquias existentes entre uns e outros.

    Então, quando pensámos e construímos a nossa cantina solidária neste contexto de crise, quisemos sustentá-la nos gestos e vontades de todos os que se têm envolvido de diferentes maneiras. Desde o início, a nossa ideia foi a de que não estávamos a agir em resposta ao vírus, mas ao agravamento dos problemas do sistema económico no qual vivemos, baseado em desigualdades fortes e relações de poder assimétricas. Neste sentido, esforçámo-nos por evitar repetir nos nossos gestos as estruturas que reproduzem essas desigualdades e por desenvolver as nossas acções de forma mais horizontal e colaborativa.

    ………………………………….

    Como se pode apoiar?

    Este projecto implica custos e depende dos donativos de todos que podem ser feitos por:
    – Transferência bancária (NIB : 0023 0000 45486038990 94)
    – MBWAY (924284442)
    – Directamente em mão no local das 10h às 15h, todos os dias (Rua Leite Vasconcellos 48ª)
    Aceitamos também doações de alimentos secos, vegetais, fruta e iogurtes, caixas e talheres para o takeaway, bem como luvas e gel desinfectante.

     

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