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  • Pontos Solidários Autónomos 2020

    Pontos Solidários Autónomos 2020

    «Pontos Solidários Autónomos 2020», um vídeo produzido por @Outros Ângulos, relata alguns pontos de solidariedade e apoio mútuo que surgiram durante o período de confinamento, em 2020. Leva-nos à Seara (Centro de Apoio Mútuo de Santa Bárbara), ao RDA 69 e ao A.M.A. (Apoio Mútuo Almada / Centro de Cultura Libertária) – e lembra-nos outras iniciativas de solidariedade ativas no mesmo período, como o Nu Sta Djunto, a Cooperativa Mula, a Rede Popular de Apoio Mútuo do Porto, a Cantina Temporária Solidária ou a Disgraça. Um importante registo que preserva a memória de processos autogeridos de apoio mútuo e de resistência contra as medidas desumanas e militarizadas que vivemos durante a pandemia. A propósito, lembramos o caderno «Pandemia Solidária» do jornal MAPA, mencionado no vídeo, que procurou documentar esse movimento de solidariedade. Uma memória que não perdeu atualidade, quando tantas iniciativas de solidariedade pelo mundo fora continuam a ser criminalizadas e reprimidas a favor da gestão abstrata e violenta das populações.


     

     

  • Lutas de professores: A força inorgânica a incomodar velhas estruturas

    Lutas de professores: A força inorgânica a incomodar velhas estruturas

    O presente texto pretende ser uma espécie de revisitação, não exatamente exaustiva, dos últimos acontecimentos no que concerne às lutas dos professores. Invocam-se comentários que amiúde se vão ouvindo e alguns aspetos por muitos já esquecidos. Referem-se as motivações e os temores que atormentam a classe em foco. Frisa-se a importância das redes sociais nas movimentações em curso, procura-se um vislumbre sobre as diferentes táticas sindicais. Perante a sua demonização, sublinha-se, acima de tudo, a importância das lutas “inorgânicas”, não controladas, da solidariedade e da não acomodação, num momento que se quer de mudança.

    Não podemos compreender o que se passa hoje na luta dos professores sem entender as que a antecederam. Se quisermos colocar esse passado mais recente numa ideia, afirmamos que as lutas fraturantes só chegaram a sê-lo quando se combinaram novas reivindicações, na agenda do grande tema «educação», com novos modos de colocar estas reivindicações. Estas têm, muitas vezes, as redes sociais a servirem de primeiro local de discussão e, em última análise, de trampolim até ganharem a dimensão da rua.

    manif professores

    O endurecer das “lutas fofinhas”

    Nestes últimos vinte anos, a norma foram as chamadas «lutas fofinhas». Ações pouco combativas, altamente controladas, numa postura de acanhamento estratégico por parte dos sindicatos. Nalguns casos mais caricatos, verificaram-se, inclusivamente, manobras de dissuasão de professores em posições de maior fragilidade.

    Um bom exemplo disso mesmo foram as lutas de 2015, contra a Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades (PACC), quando todos os professores com menos de cinco anos de serviço foram considerados “não professores”. Pelo facto de a maior parte destes (ou mesmo a totalidade) serem professores contratados, a sua causa pouco ou nada mobilizou os grandes sindicatos. Não raras vezes, pessoas afetas a estes desencorajaram o boicote à realização da PACC. À porta das escolas e com maneirismos de Velho do Restelo, muitos o desaconselharam com comentários do género «não há nada fazer, entrem, senão ainda são prejudicados!», «ainda perdem mais!». Comentários para os colegas que, espontaneamente, preparavam o boicote e pediam solidariedade. Felizmente, como foi o caso em Beja, muitos foram os professores que entraram nas salas de aula, não para fazer a dita prova, mas para a boicotar com gritos de ordem, subindo para cima das mesas. Pelo menos num caso, o alarme do incêndio foi acionado para acompanhar o tom do protesto. A PAAC acabou por ser revogada, mas o momento foi definidor, para quem ainda tinha dúvidas sobre o papel dos grandes sindicatos e sobre quais eram as suas causas, estritamente relacionadas com as problemáticas aplicáveis aos professores «de 1.ª», os do quadro. Manifestamente não estavam à altura das lutas que se vislumbravam necessárias, e os professores estavam fartos de acordos que não correspondiam às suas legítimas preocupações.

    Neste clima de considerável desencantamento, tem contexto a constituição do Sindicato de Todos os Professores, o S.TO.P. Este surge na esfera do Movimento Alternativa Socialista (MAS), partido da extrema-esquerda com origem na Frente de Esquerda Revolucionária que rompera, em 2011, com o Bloco de Esquerda, de que fez parte, sem nunca vir a conseguir disputar resultados eleitorais significativos. Uma genealogia que pouco pesará no caminho de um sindicato que se reclama de «não sectário e apartidário», e que, desde o seu início, proclama querer ouvir todos os professores e corresponder-lhes nas suas ações. Uma das primeiras lutas do STOP acontece em 2018, tendo como enquadramento o governo da Geringonça. Muitos professores acharam que seria o momento ideal para discutir a melhoria da sua situação, esperançosos numa esquerda mais favorável à classe dos professores e reivindicando respostas para problemas antigos: a recuperação do tempo de serviço, as cotas na avaliação e o fim da precariedade laboral para as vidas decididas, ano após ano e na melhor das hipóteses, a 31 de agosto.

    Em 2018, os grandes sindicatos FENPROF e FNE (sindicato que só existe para quando o PS está na oposição ou para assinar o que convém aos governos) não quiseram “levantar ondas”, justificando com a mesma retórica que se veio a repetir em 2022: não queriam ter os pais contra os professores, não queriam que os alunos fossem prejudicados no acesso à universidade. Esquecendo uma regra básica das lutas sindicais: se não moer, não há resultados. Será o STOP, ainda hoje com muito poucos associados, que percebendo o descontentamento dos professores assume a dianteira e declara greve às avaliações dos 9º e 12º anos. Os “velhos” sindicatos nem quiseram acreditar…

    Era uma luta bastante arrojada para acabar com as «ações fofinhas» que não levam a nada. Muitos entenderam que, de facto, havia que trilhar outros caminhos e aderiram à greve. A resposta da então Secretária de Estado, Alexandra Leitão, foi o envio de orientações para que as escolas concluíssem «impreterivelmente até julho» as avaliações finais dos alunos, indicando que os diretores escolares só poderiam autorizar as férias aos professores depois destes terminarem os processos de avaliação e o lançamento de todas as notas. A greve declarada pelo pequeníssimo STOP e suportada por muitos professores (muitos deles sindicalizados na FENPROF) veio agitar as águas. A luta foi forte, os grandes sindicatos, sentindo-se, pela primeira vez em muitos anos, ultrapassados, resolvem finalmente mostrar alguma ação. Optam por ditar greves para os anos que não implicavam exames, sendo claro que greves a esses anos não teriam qualquer efeito prático senão o de fazer os professores perderem dinheiro. A 12 de julho já a FENPROF dizia que os professores tinham de ir descansar.

    A pressão foi enorme e vinha de vários lados. Houve diretores a obrigarem os professores a repetir reuniões todos os dias quando, legalmente, seriam necessários dois dias de intervalo, por exemplo. A greve do STOP foi perdendo fôlego. Para finalizar esta jornada, foi convocada pela FENPROF uma manifestação debaixo do viaduto em frente ao Ministério da Educação, na Avenida 24 de Julho. A esta juntou-se um pequeno número de sindicalistas do STOP. O que se pôde observar não foi bonito de se ver, nem de se ouvir. Os novos sindicalistas, ao tentarem meter a sua faixa, são empurrados, injuriados, e só à custa de muita persistência conseguem garantir o seu espaço naquela manifestação. Era evidente que passara a haver novas forças atuantes, e os velhos atores não estavam dispostos a sair de cena, a perder a dominância do seu estatuto, ou sequer a partilhar a ação com os que então emergiam.

    Na realidade, o que fez com que a luta fosse grande não foram, propriamente, nem as estratégias do sindicato emergente nem a dos «veteranos». De início, os primeiros facilitaram-na e, com isso, também ganharam alguma credibilidade que contribuiu para a sua ascensão. Foi substancialmente decisivo o facto de os professores, em cada escola, resolverem falar uns com os outros e entre eles acertaram medidas que permitiram a continuidade da ação. Nomeadamente, fazer fundos de greves para os que perdiam mais (os contratados, normalmente) ou, articular as faltas para garantir o impacto e distribuir as perdas. A chave estava nesta solidariedade tática que substituiu o «taticismo político» (isto é, o «taticismo partidário»). Os professores entenderam isso, com bastante clareza.

    Nas salas de professores fala-se em união em tempos de «é agora ou nunca».

    As greves em que os professores não ficam em casa

    Chegados a outubro de 2022, volta a perceber-se o marasmo nas lutas sindicais tradicionais e, tal como em 2018, o STOP volta a perceber que é momento de agir por outras vias. Agora a sua situação é outra, este sindicato foi também chamado a participar nas negociações, com o Ministério da Educação (ME) e levará a estas os pontos que considera pertinentes.

    O Ministério quis abordar a alteração aos Quadros de Zona Pedagógica (QZP) e as novas regras no processo de recrutamento. Os professores quiseram mais, e quando, a 2 de novembro de 2022, o ministro João Costa vai ao parlamento, é marcada uma manifestação e uma primeira greve. A greve é convocada pela FENPROF, e o STOP adere. Globalmente, é pouco participada, e muitos são os professores nas redes sociais que expressam o «amargo de boca» que resulta destas pequenas greves, «as mesmas de sempre, as mesmas a não darem em nada, mesmo só para perder dinheiro». No seu rescaldo, surgem propostas de medidas mais drásticas, greves de mais dias. Da reunião de dia 7 de novembro, nada de bom adveio. Fala-se da criação de um conselho local (intermunicipal) de diretores dos agrupamentos de escola. Caberia a este conselho analisar e definir o perfil dos professores para, mais tarde, este constituir critério de seleção. Soaram os sinais de alarme quanto aos impactos desta mudança, considerando os favorecimentos ilícitos, «cunhas», clientelismos que essa municipalização subentendia.

    Nas redes sociais, o estado de descontentamento é a nota geral, com cada vez mais professores expressando a vontade de agir e o descontentamento com os sindicatos tradicionais. Sentem que não podem contar com eles: «só querem fazer de conta que lutam». Muitos pedem greves às avaliações, greves que durem vários dias; outros pedem para que sejam divulgadas as propostas do Ministério da Educação (ME), das quais se vão conhecendo apenas partes avulsas. Neste contexto, o STOP organiza um plenário nacional no dia 16 de novembro, aberto a todos os professores, e avança com uma sondagem (na qual participam mais de 6000 professores) para inferir sobre as formas de luta. Paralelamente, as conversações com o ME prosseguem.

    A 23 de novembro é convocada pelo STOP uma greve por tempo indeterminado. A proposta que muitos professores vinham referindo nas redes sociais, falando nas salas de professores, é posta em prática O sindicato STOP faz um convite a todos os sindicatos para se juntarem, mas não obtém respostas. A FENPROF, tal como em 2018, retarda a demonstração do seu posicionamento, e os seus sindicalistas procuram ridicularizar e taxar de «aventurismo» as ações do STOP: «as greves devem ser planeadas com antecedência», «tudo isto demora tempo». No plano da ação, e para diminuir o impacto nos salários, propõe-se que a greve se restrinja aos primeiros tempos. Nas salas de professores fala-se em união em tempos de «é agora ou nunca». Começa a preparação da greve «de todos para todos» com a participação de mais de 4500 professores, quando os sindicalizados do STOP rodariam apenas os 1300 docentes. As lutas, que se tinham como urgentes, não podiam esperar, como queria a FENPROF. Nos preparativos, foi pairando a sombra das possíveis contra-ações por parte dos sindicatos tradicionais, que, ao não se juntarem, poderiam contribuir para a diminuição do impacto pretendido. As memórias de 2018 persistiam, esperava-se qualquer coisa. E aconteceu: a FENPROF marca uma manifestação para daí a três meses, em março de 2023. Incrivelmente, ou nem tanto assim, os meios de comunicação remetem para esta greve, mas sobre a greve que estaria prestes a começar, existe apenas um silêncio ensurdecedor. A indignação era mais ou menos geral em todas as escolas.

    Com todas as vicissitudes, as coisas estavam a andar, com uma força pouco vista. Muita gente se juntava nas reuniões sindicais e frequentemente se ouvia dizer que há muitos anos não se via disto: «38 pessoas numa reunião de sindicato!», ecoava numa das escolas. Nos meses que se seguiram, surgiriam mais de duas centenas e meia de comités de greve. A greve começa a 9 de dezembro, e durante dias vão sendo partilhadas em grupos de whatsapp e no facebook fotos de professores à porta das escolas com cartazes feitos por eles próprios, ao frio e à chuva. Começaram por ser poucos, mas a cada dia, este número foi aumentando. Ao contrário das greves tradicionais, os professores não ficam em casa. Cada vez mais gente nos portões das escolas, cada vez mais escolas fechadas. Nalgumas, em poucos dias, a mobilização passa de um professor para trinta. Para sublinhar as greves, o STOP resolve marcar uma manifestação em Lisboa, no dia 17 de dezembro, convidando todos os outros sindicatos a juntar-se. Não obteve resposta. Indignados com os posicionamentos da FENPROF, que se mantinha alheia à luta, muitos optam por quebrar com o vínculo que tinham com este sindicato. Nas escolas começa a haver pressões dos sindicalistas, incluindo ao nível das direções. As calúnias e invocação de temores vários passam a ser a resposta perante a luta em grande crescimento. Durante bastante tempo, persistiu o boato de que quem tivesse feito esta «greve ilegal» teria falta injustificada. O que resultaria na impossibilidade de vínculo laboral aos que estavam perto de o conseguir, pois precisavam dos 365 dias para o alcançar. Tudo valeu, inclusive, afirmar que estes grevistas estavam a ser «manipulados pelo partido de extrema-direita». Uma colagem que se estendeu aos opinantes da comunicação social, correndo a etiquetar as novas expressões sindicais como similares aos populismos extremistas.

    A realidade é que as pessoas se juntaram pelas mais variadas razões. Dificilmente existe um corpo homogéneo em luta, o que apenas reflete a diversidade dos profissionais da educação. Houve quem se juntasse pela melhoria das suas condições individuais, pela melhoria das condições nas suas escolas, pela defesa da escola pública, pelos alunos e por todos aqueles que participam no processo educativo. Também houve quem se juntasse por oposição ao partido em funções, vendo nesta crise e contestação uma oportunidade de enfraquecimento do governo. Há quem tenha aspirações políticas e se mobilize com esse fito. E não há qualquer inocência: sendo os sindicatos instrumentos sempre partidarizados, há também quem conte ganhar força enquanto partido.

    manif professores

    E de repente já nada pode voltar atrás

    Foi com este pano de fundo que se deu a surpreendente manifestação de 17 de dezembro, no Marquês de Pombal. Um mar de gente. Todos se perguntavam: como foi possível? Estrutura organizacional mínima, tinham sido os próprios professores a perceber a urgência da luta e a transporem-na em auto-organizações, que somaram mais de 20 mil manifestantes pelas ruas de Lisboa. Faixas, cartazes, novas palavras de ordem, organização de autocarros, boleias. Provou-se que os professores teriam, eles próprios, de tomar nas suas mãos a luta, escola por escola. «Que surpresa e que raiva ao mesmo tempo, porque ainda podia estar ali mais gente», um pensamento de fundo subjacente à perspetiva de que se poderia ter contado com a cooperação dos sindicatos tradicionais. Não obstante, foi grande e combativa e bem diferente das «marchas tradicionais». Nos dias que a antecederam, palavras de descrédito do primeiro-ministro e do ministro da Educação. Um jornalista do Jornal de Notícias estimava que seriam cerca de «trezentas pessoas», os trezentos «“manipulados” pelo líder do sindicato “radical”». Terá também isso indignado ainda mais os professores e dado mais força à manifestação?

    Deixou de ser possível continuar a ignorar a greve. Finalmente, a luta começava a ser tema de abertura dos telejornais. A manifestação parecia ter juntado os professores mais politizados de cada escola (e também, naturalmente, sindicalizados da FENPROF). Foi a manifestação de quem se tinha atrevido a começar a luta, e não foram os 1300 sindicalizados do STOP que o conseguiram. Foram sobretudo os vários milhares de professores que se envolveram, que trouxeram a luta para as conversas de sala de professor, para as assembleias, para as redes sociais. Estas últimas, permitiram compreender a amplitude e o que se ia passando nas outras escolas, o que se revelou bastante motivador.

    A manifestação, com mais de 20 000 pessoas, veio reforçar a greve e, especialmente, expôs a FENPROF que «ficou mal na fotografia». Toda a gente se perguntava: porque é que a FENPROF não estava ali? A explicação é a mesma que justificou o seu posicionamento em 2018: o ator principal não está disposto a partilhar o palco, nem a perder protagonismo. Mas, desta vez, houve consequências. Muita gente cancelou a sua sindicalização ou ameaçou fazê-lo. Nas redes sociais, afirmam não querer pertencer a um sindicato que não ouve os professores e que, há décadas, diz que defende e negoceia, mas que nada ou quase nada conseguiu quanto à dignificação da classe docente. «Não quero pertencer a um sindicato que não quer melindrar a classe política e que, portanto, faz protestos e greves fofinhas, para não fazer muita mossa», dizia uma professora. Evidentemente, isto fez soar de novo os alarmes.

    É neste ponto que começa a fazer cada vez mais confusão a questão da inorganicidade. Começa outra «batalha», a batalha contra quem não percebia ou recusava que as lutas pudessem ser inorgânicas – agindo escola a escola e auto-organizando-se sem o controle sindical. «Mas quem manda neles?»; «Quem está contente com isto é a direita!»; «Está a haver aproveitamento da extrema direita»; «Estão a distorcer os factos»; «Não se percebe as vossas reivindicações.» Tudo serviu para tentar negar ou subestimar o facto dos professores, muito mais do que em 2018, estarem a organizar-se por si e a conquistar espaço.

    Na realidade, só não percebia as reivindicações quem não queria, porque elas eram claras, bastava ouvir uma assembleia de professores em qualquer escola de Portugal. A admissão de professores apenas e só com base na qualificação profissional; o fim das quotas, em geral, processo pouco transparente, ou, pelo menos, o fim das quotas para o quinto e sétimo escalão; a negação da municipalização do ensino; a redução do número de alunos por turma e das turmas a cargo de cada professor (podem ser 150 a 200 alunos), quando, por norma, os professores contratados têm sempre mais turmas tornando impossível um acompanhamento individualizado aos alunos nestas condições; a atualização salarial, em especial para os contratados e primeiros escalões; o tempo de serviço descongelado; a redução da carga burocrática da profissão (são professores e não administrativos); a redução da precariedade e regras similares às dos outros trabalhadores do Estado (vínculo laboral); redução da distância entre o local de colocação e o local de residência, ou, pelo menos, maior margem de escolha (ficar longe ser uma escolha e não uma inevitabilidade da profissão).

    [ngg src=”galleries” ids=”16″ display=”basic_imagebrowser”]Cada vez mais pessoas nos portões das escolas

    A marcha pela escola pública, do Marquês de Pombal até à Praça do Comércio, no dia 14 de janeiro, inaugurou as mobilizações no novo ano. As expetativas eram altas, esperando-se mais gente e não apenas os professores mais politizados. Apesar das múltiplas tentativas de boicote (por diversos meios) e de descredibilização desta manifestação, esta resultou num ainda maior sucesso juntando aproximadamente 100 mil pessoas.

    Cada vez mais palavras de ordem, cada vez mais vontade, reforçadas pelas declarações do ministro na véspera, acentuando o discurso da ilegalidade da greve e a narrativa culpabilizadora dos «pais contra os professores». André Pestana ganhava uma «aura de herói», daquele que, ao contrário dos outros sindicatos, tinha conseguido unir os professores colhendo a importância catalisadora do STOP em fases iniciais, pois não poucas pessoas reclamavam os seus «guias» e «líderes», para avançar. Não poderá, contudo, e não o esqueçamos, atribuir-se às suas ações a magnitude da movimentação. A greve continuava, e havia cada vez mais pessoas nos portões das escolas.

    A FENPROF percebe que, necessariamente, teria de agir e bem antes de março. Acampam à frente do ME, durante três dias, contando com a participação, não dos professores, mas dos «sindicalistas velha-guarda». Com mais tempo de antena do que aquele que é dado à contínua greve do STOP. Acabam por marcar uma greve intercalada por distritos ao longo de 18 dias, que começa com uma concentração no Rossio com pouca adesão. A greve conta com os demais sindicatos: a ASPL, a Pró-Ordem, o SEPLEU, SINAPE, SINDEP, SIPE e SPLIU. Por seu lado, o Governo não desarma e insiste com a teoria de que existe «um erro de perceção dos professores», afinal, um erro de perceção de milhares de pessoas. Ataca a greve como pode, afirmando que havia fundos de greve ilegais, difundindo nos meios de comunicação uma «campanha contra professores», passa a dar peso às associações de encarregados de educação, como a CONFAP, e alinha na exigência de serviços mínimos. Porque há crianças que só comem na escola (afinal existe essa noção, mas este argumento nunca é lembrado quando a questão é a falta de qualidade da comida servida nas cantinas), porque os pais precisam de ir trabalhar (sem questionar «a ideia de escola-depósito»), os serviços mínimos vão ganhando a opinião pública.

    A greve tomara proporções, efetivamente, impactantes. Há alunos a ter aulas de forma intermitente, nalguns casos sem aulas durante dias seguidos. Contra o direito à greve, impõe-se serviços mínimos apenas para as greves do STOP. Havia que condicionar o sindicato que juntava os professores apelidados de mais «radicais e intransigentes», fora do controlo dos partidos parlamentares. Mas foi a perceção de que a maioria das pessoas se estava a unir, por si só e entre si, o fator significante e surpreendente que deixou (deixa) muitos em pânico.

    só não percebia as reivindicações quem não queria, porque elas eram claras, bastava ouvir uma assembleia de professores em qualquer escola de Portugal.

    Uma marcha infinita

    A FENPROF marca uma manifestação para dia 11 de fevereiro, e o STOP marca para 28 de janeiro uma marcha pela escola pública, desde o Ministério da Educação ao Palácio de Belém. Muita gente começa a achar que a marcha pode não resultar, há menos conversas nas redes sociais, há medo que a luta esteja a esmorecer. A CONFAP continua a criar pressões para que as escolas garantam a permanência dos alunos nas escolas. Mas, apesar desta descrença mediatizada, mais uma vez, volta a verificar-se uma participação muito alargada ₋ 80 mil pessoas. Continua a ser muita gente.

    Além disso, a marcha, tal como a de 17 de dezembro, é muito emocionante porque espelha a auto-organização dos professores e resulta na manifestação mais combativa até então. Os professores fazem um barulho ensurdecedor, gritam, correm. Nesta também participam escolas que, apesar de públicas, correspondem mais apropriadamente às elites (até aí não tinham aparecido) e que entoam «é greve porque é grave!». A luta, afinal, estava em crescendo e bem longe de perder força. Os professores espelham o seu agrado nas redes sociais: «tenho o peito a rebentar de orgulho», «foi um dia histórico». O Presidente da República, quem deveria ter recebido a marcha, ausenta-se e delega o diálogo à conselheira Isabel Alçada, ex-ministra da Educação do governo de José Sócrates. Marcelo, ausente, confia na CGTP da FENPROF a função de acalmia dos níveis de contestação social, e sabe que não poderá esperar o mesmo deste outro tipo de luta.

    Os professores gritaram pelos seus direitos, como pelos direitos dos assistentes operacionais (AO) e pelos direitos dos alunos, durante todo o percurso da marcha. O STOP começa, cada vez mais, a trazer para a luta os AO. Foram os AO que, na realidade, permitiram fechar muitas escolas, sobretudo aquelas onde os professores não têm força suficiente. Passou a haver, em muitas escolas, um diálogo entre professores e auxiliares, numa luta que se quer de conjunto e não parcial. Usaram-se fundos de greve para compensar as faltas dos AO, prontamente acusados pelo governo e sindicatos tradicionais de ilegais. Simultânea e lamentavelmente, a muitos AO foi relembrada a sua precariedade e situação de enorme fragilidade. Uma vulnerabilidade usada no amedrontamento à sua participação na greve. Uma vez mais, no final da marcha de 28 de janeiro, muitos manifestantes perguntavam por Mário Nogueira ₋ onde estava a FENPROF naquele momento?

    manif professores

    Para separar as águas

    A FENPROF tinha uma carta guardada na manga, preparada para o dia 11 de fevereiro de 2023. Com uma organização profissional, conseguiu transportar gratuitamente os seus sindicalizados, que vieram de norte a sul do país. Muita gente que esteve nas anteriores manifestações continuou a apelar à união, todos deveriam ir, independentemente dos sindicatos envolvidos na organização e pese esta organização de maior monta ter claramente tardado a acontecer.

    As circunstâncias haviam obrigado a uma mudança de planos e à antecipação da grande manifestação. Para este dia, os professores são arrumados por distritos, sendo atribuído a cada um destes últimos um setor na manifestação. Uma estratégia avisada, que espalharia os professores e não deixaria lugar a um bloco muito grande do STOP, o último setor, no fim da manifestação. Muita gente com cartazes, t-shirts do STOP não aguentaram a espera e foram diluir-se noutros setores. Esta impaciência deveu-se ao facto de o bloco que lhes coube só ter tido “direito” a movimentar-se pelas 17h, quando a manifestação tinha começado às 15h. Já havia relatos de gente na Praça do Comércio às 16h30, ainda o STOP esperava, no Marquês de Pombal, que os outros setores avançassem muito lentamente. O plano era óbvio: desde o início, importava associar à FENPROF a grandeza da manifestação de 150 000 professores, a maior manifestação de sempre de professores.

    Desta vez desfilaram as mesmas bandeiras de sempre, as mesmas palavras de ordem de sempre, que contrastavam com os cartazes do setor na retaguarda, feitos pelos próprios professores, com as faixas a anunciar cada um dos agrupamentos. Quem percorreu toda a manifestação descreveu-a como uma «manifestação morna» contrastando com a energia do bloco do STOP. Na cauda da manifestação, o último setor dos sindicatos tradicionais e manifestantes no bloco do STOP gritavam juntos as palavras de ordem da carrinha deste último. Quando finalmente chegaram ao Terreiro do Paço, já os restantes setores haviam abandonado este espaço. Já não havia luzes, já não havia ninguém no palco. Persistiam apenas algumas centenas de pessoas.

    A ideia não era, de todo, contar com todos, mas, sim, separar as águas o mais possível. Os comentários anuíam, «o objetivo era abafar a voz do STOP», «até as luzes apagaram quando o STOP chegou». A FENPROF, por seu turno, acusava o STOP de «ter um comício paralelo dentro da manifestação». A estratégia resultara, a união tão proclamada não consegue ser uma realidade porque o ator principal não quer partilhar o palco. A hostilidade daquele dia de 2018, debaixo do viaduto na Avenida 24 de julho, continuava. Não se subestime estas disputas entre poderes sindicais, pois elas podem, em última análise, contribuir para manter tudo na mesma.

    Piores perspetivas, maior inquietude

    A manifestação gigante não foi, proporcionalmente, consequente. Entretanto, o STOP resolve marcar mais uma manifestação para o dia 25 de fevereiro. Os ataques de que são alvo aumentam de tom, ora o descrevendo como «ninho de extrema-esquerda»”, ora como sindicato com relações suspeitas ao Chega da extrema-direita (o camião que fora alugado para uma manifestação era de um membro desse partido). O agendamento, coincidente com a manifestação da Vida Justa, foi questionado: «como era possível haver duas manifestações no mesmo dia?»; «aquela gente não fala?». A FENPROF apregoa-se como uma das signatárias da Vida Justa e muitos veem esta tomada de posicionamento como um momento inovador no modo de operar do PC, que controla a FENPROF, e que regra geral, nunca apoia nada que não seja organizado pelo mesmo. A manifestação Vida Justa é encarada como uma oportunidade dos partidos de esquerda se «colarem» a ações dos movimentos sociais. Quanto aos professores, muitos deles queriam estar nas duas: «não percebo esta separação». Outros, porém, achavam que «não tinham nada a ver com aquela luta, era uma luta dos bairros periféricos». Em cima da hora conversações entre os organizadores das duas manifestações acordam em se juntarem frente à Assembleia da República.

    A manifestação dos professores, contrário à ideia que as coisas esmoreciam, veio mostrar que a luta continuava em grande, com muita gente reunida, de Chaves a Portimão, e combativa. «Não paramos». Partindo do Palácio da Justiça, percorrem-se locais onde normalmente não há manifestações, como Campo de Ourique, e as pessoas vêm à janela e aplaudem. Alterna-se a sonora marcha com momentos de silêncio, num simulacro de «enterro da escola», mas ouvem-se professores a dizer: “calados para quê? Estamos fartos de estar calados.” Na chegada à Assembleia a polícia não permite que a manifestação conflua com a da Vida Justa. Sente-se a tensão. A manifestação fica parada à espera e, de ambos os lados, ouvem-se discursos de apoio às lutas que informavam as duas manifestações. A organização da Vida Justa recebe a indicação de que teriam de dar espaço à manifestação do STOP. Não parecia ser possível o plano de juntar ambas. Muita gente sai, também por esta razão, e por entre a multidão da Vida Justa, há vozes que acirram o boato: “não é este o sindicato ligado ao Chega?”.

    Aproveitando a energia do momento, o STOP monta um acampamento, à frente da escadaria da Assembleia, que persiste três dias. Gritam: “escola a dormir na rua, governo, a culpa é tua.” Nessa semana aumentam as vigílias de professores e acentua-se a subida de tom nos protestos, um pouco por todo o país. O descontentamento com os serviços mínimos, que passam a aplicar-se também aos Auxiliares, é geral, na medida em que hipoteca a hipótese de muitos fazerem greve. A 2 e 3 de março, mais uma greve convocada pela FENPROF, a primeira data para a zona norte e a segunda para a zona sul. Desta vez, é também é convocada uma greve para não docentes pela Federação Nacional de Sindicatos de Trabalhadores em Funções Publicas e Sociais, afeto à CGTP. Desta vez já não há problema em trazer os não docentes para a luta. Mas os serviços mínimos fazem o seu efeito, a greve, apesar de ter uma adesão de 85%, não é eficaz.

    Liberdade inorgânica para cimentar a luta

    O que resulta inegável é um discurso muito articulado e consistente, por parte dos professores interpolados pelos meios de comunicação, o discurso de quem sabe do que fala e ao que vai. Um entusiasmo com o amargo de ver impedido um entendimento maior, a união em cada escola e a articulação de todas as escolas. O verdadeiro barómetro da luta dos professores estava, no fim de contas, em cada frente-escola. Sem dúvida, as manifestações foram de grande importância, mas bem mais importantes foram os encontros feitos ao portão das escolas e a liberdade inorgânica com que os professores foram cimentando esta luta. A descrença nisso e a dependência de estruturas é o que poderá fazer esmorecer a dimensão da luta. Por enquanto resiste-se, não obstante os ataques, as pressões das direções, do governo e, como vimos antes, dos próprios sindicatos.

    O governo coloca-se, prepotente, perante a assinalável mobilização de uma boa parte daqueles que fazem o ensino em Portugal. Serão precisas novas estratégias, persistência e solidariedade combativa. Nos últimos meses, a competição sindical tem vindo espicaçar as formas de luta. Talvez por isso, importe enxovalhar uns, para que outros voltem a uma ação «menos expressiva». Não se subestime, porém, que estas disputas entre poderes sindicais podem, em última análise, contribuir para manter tudo na mesma, por se perder de vista o essencial.

    Os professores são, normalmente, uma classe acomodada, que falam mais nos bastidores do que agem no sentido da mudança, mas o cansaço desta longa espera está a produzir os seus efeitos. O ganho de noção da importância da sua força inorgânica começa a ser uma realidade que poderá abanar velhas estruturas. Os professores querem fazer-se ouvir.

    manif professores

    “Pese embora a adesão tímida dos docentes nos primeiros momentos, feridos de traição acerca de acordos pouco transparentes assinados pelos sindicatos em momentos anteriores, viu-se esta adesão crescer em concomitância com o assumir de responsabilidades de protesto por parte das várias comissões de greve criadas de norte a sul do país e, sobretudo, com a crescente certeza de que o acordo com o Ministério da Educação passará menos pela turva transparência de outros interesses a que possam estar sujeitos os sindicatos (geral ou especificamente) e mais pela organização independente dos vários profissionais da educação contra a substituição de uma escola que promova o bem comum por uma instituição-depósito que mais não serve senão de corredor transitório entre a infância e a desapropriação da humanidade do indivíduo em prol da lógica produtiva do mercado.” – Uma professora no Algarve

    “Na minha perspetiva, a força desta luta nasce de um cansaço: alguma do sindicalismo “caciquificado”, que fracionou a luta de acordo com os interesses políticos de meia dúzia (inclusive dos sucessivos governos PS e PSD), mas principalmente da visão do professor como cada vez mais carne para canhão – da má gestão dos dinheiros públicos (os primeiros cortes são sempre na educação), da destruturação das famílias por falta de qualidade de vida económica, social e cultural (que fazem dos professores o bode expiatório do seu mal-estar), da falta de visão estratégica do país incapaz de reconhecer uma educação com qualidade e rigor, e não meramente assistencialista, como o valor de base de qualquer sociedade.” – Uma professora em Lisboa Central

    “Na minha escola, que fica na periferia de Braga, combinamos num grupo de Whatsapp. Fizemos greve a 2 tempos e 2 dias. De todas as vezes, ficamos à porta da escola. Organizamos -nos para as manifestações. Alguns são sindicalizados, outros não. Eu não sou. Fui sindicalizada desde o início no SPN (da FENPROF) saí há uns anos largos perante a inércia deste (Mário Nogueira). Sou professora há 41 anos, e estou prestes a fazer 63 anos, apesar da suposta redução da componente letiva, o meu horário é de 27 horas na escola, dizem que 14 letivas (7 turmas X2 tempos) mas além das ditas, tenho sempre uma data de grupos para dar apoio. Para ter uma ideia, no ano letivo anterior, dava apoio de português a grupos de alunos do 5° ao 9° ano. Estou cansada, muito cansada. Estou no 10° escalão e vejo com apreensão os meus colegas com menos meia dúzia de anos do que eu a penar para “fintar” as quotas. Participo nas manifestações e faço greve, por mim, claro, mas principalmente pelo estado da escola. O corpo docente tem todo mais de 50 anos. Que será da escola daqui a 10 anos?” – Uma professora em Braga

    “Tenho a certeza de que há uma força imensa a crescer-nos nos dedos, independentemente de sermos ou não sindicalizados, e isso pode ser muito perturbador para o status quo, que inclui obviamente governos, mas também sindicatos, infelizmente. Relativamente às forças políticas, sindicatos, diretores das escolas, associações de pais, comentadores de domingo, admito que não nos compreendam. Mas, pelo menos, não atrapalhem. Estamos num momento de não retorno.” – Um professor em Ponte de Sor

    “Aproveitando a oportunidade que o STOP proporcionou, através da possibilidade de marcação de reuniões sindicais a quem fosse sócio deste ou de qualquer outro sindicado, ou até mesmo a quem não fosse sindicalizado, e da possibilidade de a partir daí se criarem comissões de greve sem mais uma vez haver qualquer obrigatoriedade de vínculo sindical, foram marcadas em muitas escolas por todo o país as mencionadas reuniões; a partir delas surgiram as várias comissões de greve com um intuito de organizar acções de luta condizentes com a disponibilidade de cada realidade escolar em aderir à greve e criar formas reivindicativas inéditas que pudessem exprimir o desagrado dos docentes (na época as reivindicações ainda não se tinham alargado ao pessoal não-docente). Relativamente à comissão de greve do agrupamento onde lecciono, num primeiro momento a prioridade foi tentar abranger o maior número de docentes possível, tarefa que não se revelou fácil devido ao número elevado de estabelecimentos educativos e à diversidade de ciclos abrangidos pelo mesmo – fizemos diversas acções presenciais junto dos vários estabelecimentos escolares (desde afixação interna de cartazes, até concentrações à porta das escolas), e acções não presenciais que envolveram o estabelecimento de contacto com pessoas que cada um de nós conhecia e que por sua vez foram comunicando com outras pessoas; num segundo momento, priorizou-se a união dos diversos agrupamentos escolares e escolas não agrupadas do concelho de Odivelas. A partir daí realizaram-se várias acções reivindicativas e de informação à comunidade escolar e municipal, estas envolveram a presença à porta dos estabelecimentos escolares onde se prestaram esclarecimentos e distribuiu informação acerca das condições escolares de docentes, não-docentes e alunos; a realização conjunta de duas manifestações a nível concelhio com elevada visibilidade nos meios de comunicação social, foram as acções que congregaram um maior número de pessoas, tendo contado inclusivamente com outros profissionais de educação de concelhos vizinhos ao nosso, que se sentiram impelidos a juntar-se a estas acções.” – Um professor em Odivelas 

     


    Texto de  Homem Samarra


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #37, Março|Maio 2023.

  • Vincenzo Vecchi: Tribunal Europeu manda executar os mandados de detenção europeus

    Vincenzo Vecchi: Tribunal Europeu manda executar os mandados de detenção europeus

     

    O passado dia 14 de Julho trouxe más notícias para Vincenzo Vecchi, os seus apoiantes e todos os amantes da liberdade. Nesse dia, o Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE), com sede no Luxemburgo, considerou que os mandados de detenção europeus (MDE) emitidos por Itália contra Vincenzo Vecchi devem ser executados.

    O caso tinha chegado a este tribunal depois, de em Janeiro de 2021, o Supremo Tribunal de Justiça francês (cour de cassation) ter solicitado ajuda ao TJUE por causa da complexidade jurídica desta extradição, já recusada duas vezes por tribunais franceses.

    De acordo com o TJUE, o facto de uma parte (neste caso, de longe, a maior parte) do crime pelo qual Vincenzo foi condenado em Itália ser estranha à lei francesa não deve ser tido em conta pelo sistema judicial desse país.

    Deve recordar-se que Vincenzo foi condenado sem qualquer prova, como fomos dando conta em várias notícias que publicámos sobre o caso. Mas o TJUE, no Luxemburgo, tal como, aliás, o Supremo Tribunal de Justiça, em Paris, e os tribunais em Rennes e Angers, não tem de se pronunciar sobre esse aspecto. Isto decorre do próprio do procedimento do MDE: os tribunais não se pronunciam sobre a substância dos casos em questão. Inocente ou não à luz da lei francesa, o tribunal decide apenas sobre a sua extradição para um país onde a culpa está mais do que decidida.

    Ao colocar-se ao lado das opiniões dos governos francês e italiano, o TJUE dá uma forte machadada no princípio fundamental da necessidade de prova para a existência de condenação. Do mesmo modo que no da presunção de inocência e no da responsabilidade individual (uma pessoa só se pode ser condenada por crimes que tenham sido cometidos por si própria). Ao mesmo tempo, trata de introduzir, no espaço jurídico europeu, uma lei italiana de 1930 que permite a condenação sem necessidade de prova de culpa concreta (de acordo com essa lei, basta estar presente no local onde decorre a manifestação para que a condenação seja possível, mesmo sem qualquer prova de participação directa nos actos pelos quais se é acusado). Ou seja, em Itália não é necessário provar a culpa de uma pessoa para a condenar a penas pesadas. Isto parece não preocupar o TJUE nem o governo francês.

    Vicenzo arrsica-se, assim, a ser condenado em França por crimes menores que não cometeu, a ser entregue às autoridades judiciárias italianas e a cumprir uma pena de 12 anos e 6 meses de prisão no seu país de origem.

    A próxima audiência, crucial e potencialmente fatídica, será no próximo dia 11 de Outubro, no Supremo Tribunal de Justiça (cour de cassation), em Paris.

    Está a decorrer uma petição, está previsto um stand na Fête de l’Humanité e haverá conferências de imprensa e outras programações em Setembro.

    Deixamos, abaixo, o comunicado do Comité de Apoio a Vincenzo Vecchi:

    «12 anos na prisão para alter-mundialista antifascista 21 anos mais tarde.

    Hoje, 14 de Julho, estamos indignados com a decisão do Tribunal de Justiça Europeu sobre o caso Vincenzo Vecchi. De todas as opções à sua disposição, o tribunal escolheu a mais radical, ou seja, não pôr em risco o objectivo da Decisão-Quadro que rege o Mandado de Detenção Europeu e a sua funcionalidade.
    Em suma, não perturbemos a colaboração entre Estados no espaço jurídico europeu e ignoremos os direitos fundamentais e as duas decisões judiciais dos Tribunais de Recurso de Rennes e Angers!
    Desta forma, o TJUE permite que uma lei de origem fascista e liberticida seja aplicada no espaço europeu e que um simples manifestante seja julgado culpado dos crimes cometidos à sua volta por outros.
    No final, a decisão será tomada pelo Supremo Tribunal de Justiça em Paris, em 11 de Outubro de 2022!
    Não aceitamos tal decisão.
    Continuamos mais do que nunca mobilizados para defender o nosso amigo Vincenzo e, em geral, o direito de manifestação e as liberdades fundamentais.»

     


    Notícias anteriores:
    As revoluções não se fazem com ramos de flores
    Liberdade para Vincenzo
    Justiça Francesa recusa extraditar Vincenzo Vecchi
    Caso Vecchi: o folhetim continua

  • Cuidar a vida no meio rural

    Cuidar a vida no meio rural

    Algumas vezes, percorro parte deste pequeno território da meseta castelhana para levar a comida à Julia, à Antonina ou ao Mariano. O percurso pela Terra de Campos emociona-me, esse sol de inverno e essa luz infinita enchem-me de energia; no entanto, ao mesmo tempo, entristece-me esse terrível abandono, essa solidão não desejada. Nesses 25 km encontro um pouco de floresta, grandes extensões de cultivo em terreno pedregoso e alguns pequenos recantos ao abrigo do Cueza, o nosso rio serpenteante, onde ainda se encontram arbustos (roseiras-bravas, abrunheiros), ameixoeiras ou aveleiras silvestres que serviam de refúgio para a microfauna que antes habitava nas sebes agora inexistentes. Esses belos espaços não acessíveis à amplitude da maquinaria são pequenos símbolos de resistência. Tal como a Marcela, que com mais de 90 anos não entende porque é que lhe pergunto se ainda tem galinhas, não entende o absurdo da pergunta. «Então não ia ter galinhas?», responde-me.

    «Éramos mais felizes que vocês»

    Sustentar a vida, a delas, a nossa e a de outras pessoas que ainda vivem no meio rural, é sustentar um território onde o cuidado das pessoas está intrinsecamente ligado ao cuidado do espaço no qual habitamos. Essa interdependência entre pessoas e território é um fator fundamental quando falamos dos cuidados no meio rural. Em que contexto nos situamos? Quais são as histórias de vida das pessoas mais frágeis? O que desejam? Como conjugar esses desejos com as possibilidades ao nosso alcance num meio com escassez e dificuldade de acesso a serviços públicos? Como manter os espaços comunitários e recuperar as esquecidas relações de vizinhança e apoio mútuo pela imposição de uma cultura individualista que tudo impregna? E sobretudo: onde ficam os afetos?

    Não temos todas as respostas, mas podemos encontrar algumas focando o olhar naquelas práticas comunitárias que, por pura necessidade ou por filosofia, contribuíram para a manutenção destas pessoas, ridicularizadas pelos meios, e destas aldeias «ao Deus dará», como diriam as pessoas idosas, mulheres e homens que, com o seu esforço, abasteceram com alimentos a Espanha empobrecida do pós-guerra.

    Eram aldeias que cuidavam das crianças quando as pessoas mais velhas estavam no campo; onde jovens se encarregavam de acompanhar e vigiar adolescentes que acabavam de se iniciar na diversão noturna; camponeses e camponesas que apoiavam as famílias que, por diferentes motivos, se tinham atrasado nos trabalhos da lavoura e corriam o risco de perder a colheita; mulheres que partilhavam as tarefas de cuidar os lavadouros ou a igreja e se reuniam para fazer o pão ou os doces das festas, enquanto realizavam terapia coletiva que aliviava os seus pesares… todo um conjunto de «saber fazer» destas comunidades que, apesar do terrível esforço do trabalho, as ajudava a celebrar a vida com alegria. Surpreendem-nos e questionam-nos quando afirmam: «Éramos mais felizes que vocês».

    Todas as pessoas são frágeis, mas essa fragilidade acentua-se em contextos como estes, que sofreram o despovoamento e o envelhecimento. Muitas das pequenas comunidades que constituem o meio rural são terrivelmente frágeis no seu conjunto. Garantir uma vida digna às pessoas que integram essa comunidade é um direito individual de cada uma delas e uma forma de contribuir para preservar a vida do planeta, porque traz consigo uma visão integral das múltiplas interações que a caracterizam.

    Sobre a falácia da insustentabilidade de uma vida digna no meio rural

    A experiência de trabalho de mais de 30 anos da COCEDER (Confederação de Centros de Desenvolvimento Rural) está relacionada com a pertença ao território das pessoas que constituem as equipas de cada distrito, o que facilita uma visão da realidade quotidiana, dos problemas que vivemos e aos que nos enfrentamos e também das imensas oportunidades. Não só é possível sustentar a vida no meio rural, como também é urgente e necessário cuidar e manter cada pequena comunidade, cada exemplar desta espécie de homo sapiens em perigo de extinção.

    Para isso, havemos de aplicar outras lógicas que adaptem os recursos da administração às necessidades das pessoas que habitam estes territórios, não ao contrário. Trata-se de pensar a partir do mais pequeno, desde a peculiaridade de cada espaço, dando protagonismo aos seus habitantes, atendendo as carências específicas e fugindo das grandes planificações externas que têm o poder de homogeneizar realidades muito diversas. Devemos estabelecer outras formas de organização dos recursos e serviços, que não hão de ser necessariamente mais gravosas em termos económicos, e que devem adotar os critérios de utilidade múltipla que sempre caracterizaram o rural, colocando-os ao serviço dos desejos e prioridades da população, garantindo o direito de continuarem a viver dignamente neste território.

    Cuidar das crianças mantendo as escolas nas aldeias e introduzindo no projeto educativo o valor da cultura rural, dos saberes e das práticas das suas gentes, das possibilidades de vida e trabalho nestes territórios, do equilíbrio fundamental entre o desenvolvimento e a preservação da natureza que nos fornece alimentos, água, ar. É importante criar uma verdadeira comunidade educativa integrada por profissionais do ensino e por quem habita o território, considerando-o um imenso e maravilhoso laboratório onde aprender a partir da experimentação, a partir do quotidiano da vida. Potenciar o enraizamento e o orgulho de pertencer a uma terra, valorizando a memória biocultural das aldeias; que isto seja a base que as forme e fortaleça para serem cidadãos e cidadãs do mundo.

    Cuidar dos e das jovens, criando espaços de lazer e formação diferentes, ligados às múltiplas possibilidades de desfrutar da natureza que este meio lhes oferece, à expressão das artes ou à manutenção das práticas solidárias. Podem gerar-se espaços que conjuguem a utilização dos avanços tecnológicos que os ligam ao resto do mundo com o fortalecimento das relações humanas à sua volta, potenciando a sua presença e responsabilidade nos âmbitos de decisão da comunidade, ajudando-os a ver as oportunidades e alternativas de futuro que o seu meio lhes oferece num mundo cada vez mais globalizado e de certezas incertas. Ajudá-los a perceber que viver na sua aldeia pode ser também uma opção, tão válida e bem sucedida como a vida na cidade, não uma aposta complexa e cheia de obstáculos.

    Cuidar das mulheres que permanecem nas nossas aldeias, valorizando o seu importante contributo para a manutenção desta sociedade, fortalecendo o seu protagonismo e apoiando as suas iniciativas laborais, sociais e políticas, recuperando esses lugares e momentos de encontro para falar da vida, das suas vidas, dos desejos, das esperanças. Cuidar das que cuidam, para que se sintam cuidadas, colocando meios técnicos e humanos ao seu alcance que facilitem este trabalho, mas, sobretudo, cuidar das que cuidam partilhando as tarefas do cuidado.

    Cuidar dos agricultores e das agricultoras, que são a ponte entre duas gerações que, ainda que reconhecendo os benefícios das práticas agrícolas de quem lhes precedeu, viram-se forçadas – por um lado, pela imposição das políticas agrárias e, por outro, pela falácia do progresso – a depender da agroindústria e da tecnologia; estas cada vez lhes retira mais autonomia na tomada de decisões e os converte em mão de obra ao serviço de interesses externos, ao mesmo tempo que degradam o solo que os sustenta. Cuidar, criando espaços de análise e reflexão sobre o que estas dinâmicas produtivistas provocam nas suas vidas e na vida das pessoas de outros lugares do mundo. Cuidar, apoiando e dando visibilidade a outras formas de produção, de transformação e relação com as consumidoras. Cuidar, reivindicando outras políticas e normativas não agressivas com a terra, que a entendam como um meio para a vida e não só como um recurso económico, e que garantam assim o futuro das novas gerações.

    Muixeranga
    Ensaio da Jove Muixeranga de Valência. As muixarangues, torres humanas do País Valenciano, são uma expressão popular de apoio mútuo e solidariedade.

    Construir uma sociedade consciente da sua interdependência

    E, como é óbvio, cuidar das pessoas idosas e dependentes, a cuja fragilidade se une a ausência dos filhos e filhas que emigraram para a cidade à procura de uma vida supostamente melhor. Uma fragilidade relacionada com o desaparecimento dos valores e contravalores que marcaram as suas formas de vida e de pensamento («era tudo pecado», diz uma das personagens do documentário Meseta, de Juan Palacios), com a desvalorização dos seus conhecimentos, dos seus trabalhos, dos seus esforços perante a adversidade. São pessoas aferradas à terra, à horta, ao riacho onde pescavam, à adega…, a tudo aquilo que construíram e cuidaram e que agora sofre o abandono e a degradação.

    Talvez lhes custe tanto afastar-se daqui porque foram protagonistas ativas da criação e manutenção destes lugares: os caminhos, os prados, os lavadouros, as fontes… cada espaço são anos de vida e lembranças, formam parte de si mesmas, numa simbiose maravilhosa entre as pessoas e a paisagem. «Tudo me fala», essa é a sensação que temos muitas aqui, fala o salgueiro, o regato, o cheiro a cera do chão de madeira, o crepitar do fogo na gloria. [ref] «Gloria» refere-se a um sistema tradicional de aquecimento por superfície radiante, comum em zonas rurais de Castilla y León (N.T.).[/ref]

    Cuidar das nossas pessoas idosas, adaptando os recursos ao seu desejo de permanência no seu entorno, com uma normativa que permita colocar em marcha diferentes formas e alternativas de atenção: o acolhimento remunerado ou não de um vizinho, a criação de pequenos espaços que sirvam para responder às necessidades específicas de alimentação ou companhia durante a noite, o fortalecimento de uns serviços de proximidade geridos por pessoas próximas, o apoio à manutenção de atividades tradicionais como o cuidado da horta ou a recolha de lenha para o inverno. São atividades e serviços que, sem rejeitar os apoios da tecnologia, devem atender carências físicas mas também anímicas e garantir o abraço, o afeto e a companhia, sem se tornar objeto de mercantilização para satisfazer os interesses das grandes empresas que vêem aqui um novo e suculento campo de negócio.

    Cuidar, manter, construir… tudo isso sem uma visão idílica do território nem da comunidade, para, a partir daí, a partir do velho e do novo, contribuir para criar uma sociedade consciente da sua fragilidade, da sua interdependência e codependência com o resto dos seres que habitam o planeta; uma sociedade que coloque no centro a importância da ética do cuidado e a necessidade de receber e dar afeto das pessoas. Receber afeto ajuda-nos e fortalece-nos, dar afeto dignifica-nos como seres humanos e como sociedade.

    A Marcela não entende a possibilidade de não ter galinhas, assim como não entende a vida fora da sua aldeia. Durante muitos anos cuidou do seu marido doente até que os filhos decidiram levá-lo para um lar; passado um ano, faleceu. Marcela nunca o foi ver, não era falta de amor, era o medo de ficar ali para sempre.

     


    Texto de Uxi D. Ibarlucea
    Fotografias de David Segarra

    Tradução de Aurora Santos

    Link para texto original: https://www.soberaniaalimentaria.info/numeros-publicados/72-numero-37/724-cuidar-la-vida-en-el-medio-rural

    Legenda da fotografia em destaque: Muixeranga (torres humanas originárias do País Valenciano).


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #33, Fevereiro|Abril 2022.

  • Guerra na Ucrânia: Dez Lições da Síria

    Guerra na Ucrânia: Dez Lições da Síria

    Exilados sírios falam sobre como a sua experiência pode inspirar a resistência à invasão

    Em Março de 2011, eclodiram protestos na Síria contra o ditador Bashar al-Assad. Assad virou todo o poder dos militares contra o movimento revolucionário subsequente; no entanto, durante algum tempo, parecia possível conseguir derrubar o seu governo. Depois, Vladimir Putin interveio, permitindo a Assad permanecer no poder com um tremendo custo em vidas humanas e assegurando uma posição para o poder russo na região. No texto que se segue um coletivo de exilados sírios e seus companheiros pensam em como as suas experiências na Revolução Síria podem informar os esforços para apoiar a resistência à invasão na Ucrânia e o movimento antiguerra na Rússia.

    Tanta atenção tem sido focada na Ucrânia e na Rússia neste ultimo mês que é fácil perder a noção do contexto global desses eventos. O texto que se segue oferece uma reflexão valiosa sobre o imperialismo, a solidariedade internacional e a compreensão das nuances de lutas complexas e contraditórias.

    Assinado pelo colectivo The Syrian Canteen of Montreuil e L’équipe des Peuples Veulente, originalmente publicado em CrimethInc.com, encontrando-se aqui ligeiramente reduzido e adaptado para português de Portugal. O texto completo pode ser lido completo em Português do Brasil em: https://pt.crimethinc.com/2022/03/07/war-in-ukraine-ten-lessons-from-syria-syrian-exiles-on-how-their-experience-can-inform-resistance-to-the-invasion

    Dez Lições da Síria

    Sabemos que pode ser difícil posicionar-se num momento como esse. Entre a unanimidade ideológica dos grandes meios de comunicação e as vozes que transmitem sem escrúpulos a propaganda do Kremlin, pode ser difícil saber a quem dar ouvidos. Entre uma NATO de mãos sujas e um regime russo vil, já não sabemos contra quem lutar, quem apoiar.

    Como participantes e amigos da revolução síria, queremos defender uma terceira opção, oferecendo um ponto de vista baseado nas lições de mais de dez anos de revolta e guerra na Síria.

    Deixemo-lo claro desde logo: hoje ainda defendemos a revolta na Síria, como revolta popular, democrática e emancipatória que foi, principalmente os comités de coordenação e os conselhos locais da revolução. Embora muitos se tenham esquecido de tudo isso, sustentamos que nem as atrocidades e propaganda de Bashar al-Assad, nem as dos jihadistas, podem silenciar essa voz.

    1. Ouçamos as vozes das pessoas imediatamente impactadas pelos eventos.

    Em vez de especialistas em geopolítica, devemos ouvir as vozes daqueles que viveram a revolução em 2014 e viveram a guerra; devemos ouvir aqueles que têm sofrido sob o governo de Putin na Rússia e noutros lugares ao longo de vinte anos. Convidamos-te a favorecer as vozes e as organizações que defendem os princípios da democracia direta, o feminismo e o igualitarismo dentro desse contexto. Compreender a sua posição na Ucrânia e as suas exigências para os que estão fora dela irá ajudar-te a chegar à tua própria opinião informada.

    Ter aplicado essa abordagem à Síria teria elevado – e talvez apoiado – as impressionantes e promissoras experiências de auto-organização que floresceram por todo o país. Além disso, ouvir as vozes quem vêm da Ucrânia lembra-nos que todas essas tensões começaram com a revolta de Maidan. Por mais imperfeito ou “impuro” que ela tenha sido, não cometamos o erro de reduzir a revolta popular ucraniana a um conflito de interesses entre grandes potências, como alguns fizeram intencionalmente para obscurecer a revolução síria.

    2: Cuidado com a geopolítica de tasca.

    É certamente desejável compreender os interesses econômicos, diplomáticos e militares das grandes potências; ainda assim, contentar-se com um enquadramento geopolítico abstrato da situação pode deixar-nos com uma compreensão abstrata e desligada do terreno. Essa forma de compreensão tende a ocultar as protagonistas comuns do conflito, aquelas que se assemelham a nós, aqueles com os quais podemos nos identificar. Acima de tudo, não esqueçamos: o que facto se irá passar é que as pessoas sofrerão por causa das escolhas de governantes que vêem o mundo como um tabuleiro de xadrez, como um reservatório de recursos a serem saqueados. É assim que os opressores veem o mundo. Isso nunca deve ser adotado pelos povos, que devem concentrar-se em construir pontes entre si, em encontrar interesses comuns.

    Isso não significa que devamos negligenciar a estratégia, mas significa criar estratégias nos nossos próprios termos, a uma escala na qual possamos agir nós mesmas – não discutir se devemos mover divisões de tanques ou cortar as importações de gás.

    3: Não aceitemos qualquer distinção entre exilados “bons” e “maus”.

    Vamos ser claros: longe de ser o ideal, a receção de refugiados sírios na Europa foi muitas vezes mais acolhedora do que a receção oferecida a refugiados da África Subsaariana, por exemplo. As imagens de refugiados negros rejeitados na fronteira Ucrânia-Polónia e os comentários nos meios de comunicação corporativa que privilegiam a chegada de refugiados ucranianos de “alta qualidade” em detrimento de bárbaros sírios são a prova de um racismo europeu cada vez mais desinibido. Defendemos o acolhimento incondicional dos ucranianos que fogem dos horrores da guerra, mas recusamos qualquer hierarquia entre os refugiados.

    4: Desconfiemosdos meios de comunicação corporativos.

    Se, como na Síria, estes fingem defender uma agenda humanista e progressista, a maioria desses veículos tende a limitar-se a um retrato que vitimiza e despolitiza os ucranianos no terreno e no exílio. Eles só terão a oportunidade de falar sobre casos individuais, pessoas em fuga, medo de bombas e afins. Isso impede que os espectadores entendam os ucranianos como atores políticos de pleno direito, capazes de expressar opiniões ou análises políticas sobre a situação do seu próprio país. Além disso, esses meios de comunicação tendem a promover uma posição descaradamente pró-ocidente, sem nuances, profundidade histórica ou investigação sobre os interesses dos governos ocidentais, que são apresentados como defensores do bem, da liberdade e de uma democracia liberal idealizada.

    O olhar dos retratos de Putin e Assad, à medida que soldados armados patrulham as ruínas da Síria
    O olhar dos retratos de Putin e Assad, à medida que soldados armados patrulham as ruínas da Síria.

    5. Não retratemos os países ocidentais como o eixo do bem.

    Mesmo que não invadam diretamente a Ucrânia, não sejamos ingénuos em relação à OTAN e aos países ocidentais. Devemo-nos recusar a apresentá-los como os defensores do “mundo livre”. Lembre-se, o Ocidente construiu o seu poder sobre o colonialismo, o imperialismo, a opressão e a pilhagem da riqueza de centenas de povos ao redor do mundo – e continua todos esses processos nos dias de hoje.

    Para falar apenas do século XXI, não nos esqueçamos dos desastres infligidos pelas invasões do Iraque e do Afeganistão. Mais recentemente, durante as revoluções árabes de 2011, em vez de apoiar as correntes democráticas e progressistas, o Ocidente preocupou-se principalmente em manter a sua dominação e os seus interesses económicos. Ao mesmo tempo, continua a vender armas e a manter relações privilegiadas com ditaduras árabes e monarquias do Golfo. Com a sua intervenção na Líbia, a França acrescentou a mentira vergonhosa de uma guerra por razões económicas disfarçada como um esforço para apoiar a luta pela democracia.

    Além desse papel internacional, a situação nesses países continua a deteriorar-se à medida que o autoritarismo, a vigilância, a desigualdade e, acima de tudo, o racismo continuam a intensificar-se.

    Hoje, se acreditamos que o regime de Putin representa uma ameaça maior à autodeterminação dos povos, não é porque os países ocidentais de repente se tornaram “bonzinhos”, mas porque as potências ocidentais já não têm mais tantos meios para manter a sua dominação e hegemonia. E continuamos a suspeitar dessa hipótese – porque se Putin for derrotado pelos países ocidentais, isso irá contribuir para conferir-lhes mais poder.
    Portanto, aconselhamos os ucranianos a não contarem com a “comunidade internacional” ou com as Nações Unidas – que, como na Síria, demonstram uma evidente hipocrisia e tendem a aliciar as pessoas a acreditar em quimeras.

    6: Lutemos contra todos os imperialismos!

    Campismo” é a palavra que usamos para descrever uma doutrina de outra época. Durante a Guerra Fria, os adeptos desse dogma sustentavam que o mais importante era apoiar a URSS a todo custo contra os estados capitalistas e imperialistas. Essa doutrina ainda persiste na fação da esquerda radical que apoia a Rússia de Putin na invasão da Ucrânia ou que relativiza a guerra em curso. Como fizeram na Síria, usam o pretexto de que o regime russo ou sírio encarnam a luta contra o imperialismo ocidental e “atlanticista” [isto é, pró-NATO]. Infelizmente, esse anti-imperialismo maniqueísta, que é puramente abstrato, recusa-se a ver o imperialismo em qualquer ator que não seja o Ocidente.

    No entanto, é necessário reconhecer o que os regimes russo, chinês e até iraniano têm feito há anos para cá. Têm estendido a sua dominação política e económica em certas regiões, alienando as populações locais da sua autodeterminação. Deixemos que os “campistas” usem a palavra que quiserem para descrevê-lo, se “imperialismo” lhes parece inadequado, mas nunca aceitaremos qualquer desculpa para infligir violência e dominação sobre populações em nome de uma precisão pseudo-teórica.

    Pior ainda, tal posição leva essa “esquerda” a reproduzir a propaganda desses regimes a ponto de negar atrocidades bem documentadas. Falam de “golpe de estado” quando descrevem a revolta de Maidan ou negam os crimes de guerra perpetrados pelo exército russo na Síria. Essa esquerda chegou ao ponto de negar o uso de gás sarin pelo regime de Assad.

    7: Não atribuamos o mesmo grau de responsabilidade à Ucrânia e à Rússia.

    Na Ucrânia a identidade do agressor é conhecida por todos. Se a ofensiva de Putin é, de certa forma, uma resposta à pressão da NATO, é sobretudo a continuação de uma ofensiva imperial e contrarrevolucionária. Depois de invadir a Crimeia, depois de ter ajudado a esmagar as revoltas na Síria (2015-2022), Bielorrússia (2020) e Cazaquistão (2022), Vladimir Putin já não tolera o atual clima de protestos – encarnado pelo derrube do presidente pró-Rússia na revolta Maidan – dentro dos países sob sua influência. Ele deseja esmagar qualquer desejo emancipatório que possa enfraquecer seu poder.

    Também na Síria não há dúvidas sobre quem é o responsável direto pela guerra. O regime sírio de Bashar al-Assad, ao ordenar à polícia que atirasse, prendesse e torturasse os manifestantes desde os primeiros dias de protesto, optou unilateralmente por iniciar uma guerra contra a população. Gostaríamos que aqueles que defendem a liberdade e a igualdade fossem unânimes ao se posicionarem contra tais ditadores que declaram guerras contra o povo. Gostaríamos que esse tivesse sido o caso em relação à Síria.

    Se entendemos e nos juntamos ao apelo para acabar com a guerra, insistimos que devemos fazê-lo sem qualquer ambiguidade quanto à identidade do agressor. Nem na Ucrânia, nem na Síria, nem em qualquer outro lugar do mundo, as pessoas comuns podem ser culpadas por empunharem armas para tentar defender as suas próprias vidas e as das suas famílias.

    De um modo mais geral, aconselhamos as pessoas que não sabem o que é uma ditadura (mesmo que os países ocidentais se estejam a tornar mais abertamente autoritários) ou o que é ser bombardeado a absterem-se de dizer aos ucranianos para não pedirem ajuda ao Ocidente — como alguns disseram aos sírios ou Hong Kong — ou não desejarem uma democracia liberal ou representativa como sistema político mínimo. Muitas dessas pessoas já estão cientes das imperfeições desses sistemas políticos — mas a sua prioridade não é manter uma posição política impecável, mas sim sobreviver aos bombardeios do dia seguinte, ou não acabar num país em que uma palavra descuidada pode condená-lo vinte anos na prisão. Insistir nesse tipo de discurso purista demonstra a determinação de impor a sua análise teórica num contexto que não é o seu.

    Em vez disso, vamos ouvir as palavras dos camaradas ucranianos que disseram, citando Mikhail Bakunin: “Acreditamos firmemente que a república mais imperfeita é mil vezes melhor do que a monarquia mais esclarecida”.

    8: Compreendamos que a sociedade ucraniana, como na Síria e na França, é atravessada por diferentes correntes.

    Estamos familiarizados com o procedimento em que um governante designa uma ameaça séria para afugentar potenciais apoiantes. Isso inclui a retórica sobre “terrorismo islâmico” que Bashar al-Assad usou desde os primeiros dias da revolução na Síria; da mesma forma, hoje Putin e seus aliados brandem o “nazismo” e o “ultranacionalismo” para justificar sua invasão da Ucrânia.

    Se, por um lado, reconhecemos que essa propaganda é deliberadamente exagerada e que não devemos legitimá-la sem questionamento, por outro, a nossa experiência na Síria incita-nos a não subestimar as correntes reacionárias dentro dos movimentos populares.

    Na Ucrânia, nacionalistas ucranianos, incluindo fascistas, desempenharam um papel importante nos protestos de Maidan e na guerra que se seguiu contra a Rússia. Além disso, como o Batalhão Azov, eles beneficiaram dessa experiência e tornaram-se parte legítima do exército regular da Ucrânia. No entanto, isso não significa que a maioria da sociedade ucraniana seja ultranacionalista ou fascista. A extrema-direita obteve apenas 4% dos votos nas últimas eleições; o presidente ucraniano, judeu e de língua russa foi eleito por 73%.

    Na revolta na Síria, os jihadistas começaram como atores marginais, mas ganharam importância crescente, em parte graças ao apoio externo, permitindo-lhes impor-se militarmente em detrimento do movimento civil e dos participantes mais progressistas. Em toda parte, a extrema-direita ameaça a expansão das democracias e das revoluções sociais; tal acontece hoje na França, sem dúvida. Na França, essa mesma extrema-direita tentou se impor durante o movimento dos Coletes Amarelos. Se ela foi derrotada naquele momento, foi por causa da presença de posições igualitárias e da determinação de ativistas antiautoritários e antifascistas, não pelo tagarelar de sábios.

    Tenha em consideração que defender a resistência popular (tanto na Ucrânia quanto na Rússia) contra a invasão russa também não deve significar ser ingênuo em relação ao regime político que emergiu de Maidan. Não se pode dizer que a queda de Yanukovych tenha resultdo em numa expansão real da democracia direta ou no desenvolvimento da sociedade igualitária que desejamos para a Síria, para a Rússia, para a França e para todo o mundo.

    Usando uma expressão que nos é bem conhecida, alguns ativistas ucranianos chamam o pós-Maidan de “revolução roubada”. Além de conceder um lugar importante aos ultranacionalistas, o regime ucraniano foi restabelecido por oligarcas e outros que se preocupavam em defender os seus próprios interesses económicos e políticos e estender um modelo capitalista e neoliberal de desigualdade.

    Um regime neoliberal e elementos fascistas são ingredientes encontrados em todas as democracias ocidentais. Embora esses oponentes da emancipação não devam ser subestimados, isso não é motivo para não defender a resistência popular a uma invasão. Pelo contrário, como gostaríamos que outros tivessem feito durante a revolução síria, pedimo-vosque apoiem as correntes auto-organizadas mais progressistas dentro dessa defesa.

    9. Apoiemos a resistência popular na Ucrânia e na Rússia.

    Como as revoluções árabes, os Coletes Amarelos e os Maidan provaram, as revoltas do século XXI não serão ideologicamente “puras”. Embora entendamos que é mais confortável e estimulante identificar-se com atores poderosos (e vitoriosos), não devemos trair os nossos princípios fundamentais. Convidamos a esquerda radical a tirar os seus velhos óculos conceituais para confrontar as suas posições teóricas com a realidade. Essas posições devem ser ajustadas de acordo com a realidade, e não o contrário.

    É por essas razões que, a respeito da Ucrânia, pedimos que as pessoas priorizem as iniciativas de apoio que vêm da base: as iniciativas de autodefesa e de auto-organização que florescem atualmente. Podemos descobrir que, muitas vezes, as pessoas que se organizam defendem, de facto, conceções radicais de democracia e de justiça social – mesmo que não se chamem de “esquerdistas” ou “progressistas”.

    Além disso, como muitos ativistas russos disseram, acreditamos que uma revolta popular na Rússia poderia ajudar a acabar com a guerra, tal como em 1905 e 1917. Quando consideramos a extensão da repressão na Rússia desde o início da guerra – mais de dez mil manifestantes presos, censura dos meios de comunicação, bloqueio de redes sociais e talvez em breve a internet – é impossível não esperar que uma revolução possa levar à queda do regime. Isso acabaria, de uma vez por todas, com os crimes de Putin na Rússia, na Ucrânia, na Síria e noutros lugares.

    Este é também o caso da Síria, onde, após a internacionalização do conflito, longe de ficarmos ressentidos com os povos iraniano, russo ou libanês, as revoltas desses povos podem fazer-nos acreditar novamente na possibilidade de que Bashar al-Assad também caia.

    Da mesma forma, queremos ver convulsões radicais e extensões radicais da democracia, justiça e igualdade nos Estados Unidos, na França e em todos os outros países que baseiam o seu poder na opressão de outros povos ou de parte de sua própria população.

    10. Construamos um novo internacionalismo a partir de baixo.

    Embora nos oponhamos radicalmente a todos os imperialismos e a todas as formas modernas de fascismo, acreditamos que não podemos limitarmo-nos apenas a posturas anti-imperialistas ou antifascistas. Mesmo que sirvam para explicar muitos contextos, também correm o risco de limitar a luta revolucionária a uma visão negativa, reduzindo-a à reação, à resistência permanente sem caminho a seguir.

    Faixa-na-cidade-síria-de-Kafranbel
    Faixa na cidade síria de Kafranbel.

    Acreditamos que continua a ser essencial fazer uma proposta positiva e construtiva como o internacionalismo. Isso significa vincular revoltas e lutas pela igualdade em todo o mundo.

    Existe uma terceira opção existe além da NATO e de Putin: o internacionalismo de baixo para cima. Hoje, um internacionalismo revolucionário deve convocar as pessoas de todo o mundo para defender a resistência popular na Ucrânia, assim como convocá-las para apoiar os conselhos locais sírios, os comités de resistência no Sudão, as assembleias territoriais no Chile, as rotundas dos Coletes Amarelos e a intifada palestina.

    Enquanto esperamos o surgimento de novas organizações revolucionárias baseadas em iniciativas auto-organizadas locais, defendemos um internacionalismo que apoie as revoltas populares e acolha todas as pessoas exiladas. Também nesse sentido estamos a preparar o terreno para um verdadeiro retorno ao internacionalismo, que, esperamos, um dia voltará a representar um caminho alternativo distinto dos modelos das democracias capitalistas ocidentais e do autoritarismo capitalista, seja russo ou chinês.

    Tal conceção do que estávamos a fazer na Síria teria certamente ajudado a revolução a manter uma cor democrática e igualitária. Quem sabe, teria até contribuído para que alcançássemos a vitória. Portanto, somos internacionalistas não apenas por uma questão de princípio ético, mas também como consequência de uma estratégia revolucionária. Defendemos, portanto, a necessidade de criar vínculos e alianças entre forças auto-organizadas que trabalham pela emancipação de todas as pessoas, sem distinção.

    Isso é o que chamamos de internacionalismo de baixo, o internacionalismo dos povos.

  • Refugiados na Líbia organizam um crowdfunding para ajudar à sua sobrevivência e à sua luta

    Refugiados na Líbia organizam um crowdfunding para ajudar à sua sobrevivência e à sua luta

    «Estamos expostos a raptos, ataques de milícias e extorsão», afirmou um manifestante depois de o ACNUR fechar o seu centro de dia comunitário em Tripoli.

    Um grupo de cerca de 1600 pessoas tem-se manifestado diariamente à porta do centro de dia comunitário (CDC) da agência das Nações Unidas para os refugiados (ACNUR), em Tripoli, ao longo dos últimos três meses, exigindo ser enviadas para um local seguro, conforme fomos dando conta aqui, aqui, aqui e aqui.

    Os refugiados que estão acampados no centro da capital da Líbia lançaram agora uma campanha de crowdfunding para angariação de fundos para medicamentos, comida e abrigo e para ajudar a cobrir os custos do seu protesto prolongado.

    «Estamos a angariar fundos para ajudar a combater a nossa situação angustiante», disse Yambio David Oliver, originário do Sudão do Sul e porta-voz dos Refugees In Libya – assim são conhecidos enquanto grupo.

    «Precisamos de medicamentos e comida. Precisamos de comprar faixas e tinta. Precisamos de pagar a renda e encontrar abrigo e muitas outras coisas», acrescentou em entrevista ao site The Civil Fleet. Também para manter o mundo a par da situação, para aspirar a receber maior solidariedade, é preciso dinheiro: «dados [móveis], apoio técnico, material eléctrico».

    De acordo com Yambio Olivier, neste último mês, as coisas pioraram no local. «Alguns dos nossos activistas foram raptados por forças de segurança diferentes, várias milícias», afirmou. «Há alguns dias», continuou, «o ACNUR começou a desmontar o seu CDC, à porta do qual temos estado acampados, e a colocar as suas instalações em várias localizações, o que aumenta o nosso sofrimento. Estamos expostos a raptos, ataques de milícias e extorsão.

    Corremos mesmo o risco de sermos despejados à força do local em que estamos. O ACNUR reuniu uma lista dos manifestantes no dia 22 de Dezembro do ano passado e prometeu-nos assistência monetária, kits de higiene, comida, sacos plásticos e intervenções médicas. Mas, até agora [6 de Janeiro], nada disso foi feito. O nosso desespero continua a aumentar para um nível insuportável de solidão e angústia, quando olhamos para os nossos futuros. A comunidade internacional mantém-se calada à medida que os nossos apelos para que sejamos evacuados para local seguro sobem de tom».

    Podes contribuir no crowdfunding aqui: gofundme.com/f/solidarityrefugeesinlibya

     


    Fotografia [em destaque] de  Yambio David Oliver
, retirada de https://thecivilfleet.wordpress.com/


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