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  • Corte Medronheira: O amor pela terra e o dragão que despertou a comunidade

    Corte Medronheira: O amor pela terra e o dragão que despertou a comunidade

    Algures no Barlavento Algarvio, fica uma frondosa floresta, repleta de sobreiros e medronheiros. Um grupo de pessoas apaixonadas pela regeneração social e ecológica escolheu chamar-lhe casa e santuário. No final de setembro, um incêndio desfez em menos de sete minutos mais de sete anos de trabalho e dedicação. As lágrimas e as cinzas nutrem agora um deslumbrante processo de regeneração.

    É domingo, 21 de setembro – o último dia do verão. Dia e noite alinham-se para o equinócio de Outono. Na Serra de Espinhaço de Cão, algures no triângulo entre Aljezur, Lagos e Vila do Bispo, fica a Corte Medronheira. Uma floresta de 36 hectares, com cerros e vales de verde abundante, sobrevoados por pica-paus e cotovias, que há décadas se desabituara de ver vida humana. Hoje, são 15 pessoas, adultas, adolescentes e crianças, que aqui se dedicam a um modo de vida regenerativo.

    Ana recebe esta manhã um técnico que vem instalar novos painéis solares, um investimento há muito aguardado. Margarida, como habitual desde o começo da construção daquela casa há sete anos, aparece para dar uma mão. Na casa logo abaixo, Ana Santos e o filho Yusef brincam tranquilamente. Xana e Patrícia estão de viagem até São Luís, no Alentejo, para participar num encontro do Co.Re, Centro de Aprendizagem Rural.

    a passagem do dragão

    Ao meio dia, a dez quilómetros da Medronheira, deflagra um incêndio. O calor e o vento são intensos. A velocidade do fogo progride de 52 para 236 hectares por hora, e torna-o incontrolável para os mais de 500 bombeiros que acorrem à região.

    Xana e Patrícia apressam-se de regresso a sul. Ligam a vizinhos que estão já com máquinas a abrir corredores de fogo. Nos chats da comunidade local, as vizinhas partilham fotos e informações sobre a progressão do incêndio.

    Uma projeção, disparada a partir de um eucaliptal, sobrevoa centenas de metros e começa uma nova frente bem perto da Medronheira. Perante o aproximar veloz das torres de chamas, Ana Santos sai apressadamente da serra para pôr Yusef em segurança.

    Em torno de casa, Ana molha tudo o que pode, com a ajuda de Margarida e de Khaled, pai de Yusef, que aparece numa preciosa ajuda. Quando a obrigam a fugir dali, com as chamas em redor, mal tem tempo para levar coisas consigo.

    Sentadas no camião de um vizinho, Xana e Patrícia ziguezagueiam para fugir às estradas cortadas pelos bombeiros. Quando todas se reencontram no topo do terreno, já o fogo varreu a serra. Os membros da Medronheira e amigos descobrem-se a lançar baldes de água, como lágrimas impotentes, sobre os destroços de sete anos das suas vidas.

    o despertar da comunidade

    Naquela tarde e noite, fora da habitual temporada de risco de incêndio, arderam mais de dois mil hectares de terras. Os meios de comunicação e as autarquias repetem os danos oficiais: uma habitação secundária danificada.

    Dezenas de pessoas, famílias e projetos por estas serranias perderam casas e formas de sustento – mas é como se não existissem. Por escolherem construir com as próprias mãos modos de vida mais simples e próximos da floresta, são invisíveis às burocracias estatais. Como os milhões de animais não humanos que perderam os ninhos, as tocas, o alimento ou a vida, ou os milhões de plantas que pereceram.

    Para Xana e Ana, que dedicaram todos os seus recursos a construir um sonho, é tempo de tentar recomeçar a viver… com uma mochila, num apartamento emprestado. «Não tínhamos roupa interior para vestir, não tínhamos nada das coisas básicas…», recorda Xana. «O passado era demasiado assoberbante. O futuro também. Só tinhas o aqui e agora».

    Seria só mais um drama num território rural descuidado, em que as monoculturas de pinho e eucalipto e as alterações climáticas tornam mais precária e perigosa a vida de quem habita e cuida dos lugares.

    Mas o telemóvel tocou. E a campainha tocou. Uma pessoa que produz legumes chega com um cabaz. Outras pessoas chegam carregadas de roupa para dar. Outras, com pequenas coisas para tornar a casa mais confortável… Chega um envelope com dinheiro que uma amiga juntara entre a família e amigas. Chegam medronho, miso e outros fermentados: «pessoas que tinham comprado os últimos Produtos Unicórnio, que a Ana vendia semanalmente no mercado de Lagos, souberam que todo o seu negócio tinha ardido com a casa e quiseram trazê-los de volta», conta Xana.

    A comunidade local, que acorrera a fornecer sandes e água aos bombeiros cansados, que se organizou para apagar reacendimentos, transforma rapidamente o Centro Cultural de Barão de São João em ponto de entrega e recolha de bens, com «tudo e mais alguma coisa» para as pessoas afetadas pelo fogo. Organizam-se folhas de cálculo online, com grupos e listas de quem recebe famílias, quem recebe animais, de que tipo, em que sítio. Disponibilizam-se apartamentos e caravanas para as pessoas ficarem.

    Será no Verão de São Martinho, a 11 de Novembro, mais de mês e meio após o incêndio, que a Câmara Municipal de Lagos e a Proteção Civil virão ao terreno apoiar na remoção dos destroços. «Quando são necessárias respostas no imediato, não podem ser dadas pelo sistema, porque ele é tão burocrático que é difícil que seja ágil. Ou então a resposta é linear e não abarca a complexidade das situações. Tiveste um incêndio, perdeste material agrícola, então há uma candidatura que tens de fazer, para teres algum retorno daqui a imenso tempo…», observa Xana.

    «O que a comunidade faz é uma solução local: no imediato, auto-organiza-se para aquilo que é preciso. Pessoas a trocar mensagens, telefonar e falar entre elas, pessoas em casa a trabalhar nos sistemas de auto-organização necessários. E, de repente, as pessoas com animais tinham para onde os levar, as famílias tinham onde dormir».

    «Quando o incêndio está a chegar é a auto-organização da comunidade que dá a resposta. Se estivéssemos à espera de ver nas notícias, de receber informação dos bombeiros, tudo isso é muito ineficaz», afirma. «Quem esteve logo lá, desde a primeira mensagem para a primeira pessoa amiga a dizer “a Medronheira está a arder”, foi a comunidade».

    uma semana após a passagem do dragão

    É um tema pesado, que vem deixando os adultos apreensivos: como abordar o incêndio com os mais novos? Não será traumatizante para as crianças ver este desastre? É o sábado a seguir ao incêndio – e as crianças e adolescentes voltam pela primeira vez à Medronheira.

    «Uau, aquilo é o quê?», «Uau, isto agora dá para entrar!» «Olha este buraco! As raízes que arderam, brutal!» O tronco torto de uma árvore queimada faz de baloiço para os mais pequenos.

    Miriam, 16 anos, encontra uma paisagem romântica e melancólica. «É bué bonito!». Descobre algumas loiças que derreteram e guarda-as. Recolhe pedaços de madeira carbonizada, para usar par pintar. Yusef, 9 anos, reconhece peças de metal no meio da paisagem e coleciona-as, quais metais preciosos.

    «As crianças imediatamente viram, não aquilo que se perdeu, mas o que era agora. Começaram logo a criar possibilidades, a ver como utilizar. Viram beleza, oportunidade e descobertas. Coisas novas, que não estavam lá antes. Um olhar diferente do nosso: um “uau, agora é assim!”. E acabaram por nos ajudar a olhar com esses olhos», observa Xana.

    «Começámos também a ver a beleza daquele preto, do carbonizado. A ver de repente as formas das árvores todas, a maneira como umas cresceram para se adaptar às outras, tudo assim muito escultórico e bonito», conta Ana.

    Uma estatueta de buda, que sorri nos escombros como antes do fogo, é colocada no pé de um sobreiro.

    «Nos primeiros regressos, só olhávamos para tudo o que se perdeu. O choque de chegar, tudo o que já não estava lá que nos era familiar», recorda Xana. «A pouco e pouco, passamos a ver tudo o que já voltou. O que há de novo, o primeiro verde a despontar, os cogumelos, os pássaros… E deixou de ser triste».

    «Apesar do choque, das memórias, o facto de não estarmos só em observação, mas continuarmos a vir, a estar em ação, fez com que a relação se transformasse», explica Ana.

    «Decidimos alimentar essa aprendizagem de receber e celebrar com as pessoas o seu apoio», conta Xana. Nutrindo outra narrativa, escolhem ver que tudo o que perderam foi, afinal, pouco. «A floresta está aqui. Está tudo aqui em baixo, à espera de voltar».

    Hugo, outro dos adultos do projeto, junta-se às crianças; atravessam a linha de água e sobem a encosta. Olham para o lado de cá e contemplam o milagre que ninguém sabe ao certo explicar. No meio da paisagem de cinza, com o seu círculo protetor ainda verde, uma das casas permanecera intacta. Batizam-na Casa Semente. «Deste espaço de memória do que era tudo isto», conta Hugo, «dá para ter alento para continuar o trabalho regenerativo à volta.»

    quarenta dias após a passagem do dragão

    É noite de 31 de outubro, a importante passagem do ano celta – o Samhain, cristianizado como Todos os Santos. Na Medronheira, é o Jantar dos Antepassados, uma das celebrações sazonais da comunidade, «em honra de quem passou antes de nós». E é a vez de voltar a dormir no terreno.

    «O silêncio, o altar, a comida, a lua a cruzar devagarinho o céu de Outono, um passeio noturno com a coruja a levantar voo em anúncio do seu regresso, as novas formas delineadas na paisagem, o cheiro a queimado, a primeira noite à conversa à volta da fogueira, à conversa com o fogo, nosso professor, após a passagem do Grande Dragão. Tudo envolvido carinhosamente num sentimento profundo de estar em casa», partilham os membros da Medronheira.

    Escrevem-no num grupo de chat criado para conter a avalanche de mensagens de amizade, preocupação e carinho – e que, em poucos dias, juntava 300 pessoas. Rapidamente, o grupo foi posto em ação e dividido em oito temas, entre pedidos à comunidade local, ações no terreno ou apoio a candidaturas e subsídios.

    A capa do Jornal Mapa 47, que abordava os incêndios de agosto em Arganil e na Lousã, corre por estes dias livrarias e associações país fora e chega também à Medronheira. «Os fogos que despertaram a comunidade», não podia descrever melhor o que se vive estas semanas no Sudoeste Algarvio.

    A campanha de crowdfunding “Medronheira – Renascer das cinzas”, juntamente com as de outros projetos afetados, é divulgada nas escolas e associações. No Viv’o Mercado de Lagos, onde Ana vendia os seus produtos, uma vizinha, agricultora e pastora, cede os lucros desse dia da sua banca: «A Ana e a Xana perderam a casa. Tudo neste mercado vai ser doado para elas». Os Produtos Unicórnio de Ana, «uma ode à fermentação», renascem com a colaboração da Patrícia na cozinha da Mercearia Bio de Lagos, mesmo ao lado mercado.

    Há quem ofereça aos membros da Medronheira sessões de apoio psicológico, de massagens, de acupuntura, de experiência somática para lidar com trauma. Vizinhos oferecem fardos de palha e material para conter a erosão dos solos, outros oferecem micro-organismos para ajudar no processo de regeneração.

    A Rewilding Sudoeste oferece uma sessão de apoio e esclarecimento sobre intervenção pós-incêndio florestal. A comunidade de Barão de São João organiza-se para gerir coletivamente a parte ardida da mata nacional, reunindo com as instituições e ouvindo as populações.

    O Instituto Vale da Lama mobiliza o seu Campo de Regeneração de Ecossistemas, que acolhe voluntários de diferentes países, para dias de trabalho na Medronheira. Amigas da cooperativa Minga, em Montemor-o-Novo, organizam apanhas de bolotas para levar para a Medronheira. Há quem se empolgue e queira já oferecer mobílias, ou sessões de planeamento de novas estruturas, quando o coletivo procura ainda tratar os escombros…

    Os eventos de solidariedade e angariação de fundos brotam pela região como cogumelos de Outono. Naomi & Raposeira Dub montam um festival de música em Sagres. Uma amiga professora de yoga recolhe donativos e dedica um círculo de cânticos às pessoas afetadas. A Associação Comadres acolhe um almoço e um dia comunitário pela floresta, com cantos tradicionais com as Adufeiras em Flor. A AORCA – Associação de Observação, Regeneração e Criação na Atualidade promove um espetáculo de dança com a bilheteira a reverter para os projetos. O evento “Batuque em rede”, no Salema Eco Camp, celebra o coletivo da Medronheira ao som de maracatu, forró e samba e ajuda a financiar o recomeço: «Todos os abraços que ainda não foram dados, todas a preces que ainda não foram feitas. Celebramos o renascimento, celebramos a vida e acima de tudo a irmandade que nos une».

    «Não sabíamos muito bem onde encaixar o sentimento de gratidão…», conta Xana, mais habituada a apoiar outros projetos, como facilitadora de prática de auto-organização e resiliência coletiva. «Estávamos numa situação tão vulnerável, não tínhamos como dizer “não é preciso”. Esse sentimento de gratidão constante quase equilibra a dor da perda».

    «Uma pessoa tem uma ideia, fala com um ou dois músicos, eles falam com outros músicos e, de repente, há uma rede de músicos…! A comunidade é essa entidade que ganha vida própria quando é preciso, que está lá em situações de crise e de necessidade», descreve Xana. «Como um equilibrista que cai lá de cima… A comunidade é uma rede que faz com que, quando a queda é grande, ela seja suavizada. A queda é a queda. Mas toda esta solidariedade ampara».

    dois meses após a passagem do dragão

    É domingo, 23 de novembro, Dia da Floresta Autóctone. Como acontece agora todas as semanas, o sítio da Corte Medronheira vê chegar vizinhas e amigas vindas do Alentejo ou de Lisboa, para mais uma ação coletiva de «engenharia natural». O sol resplandece a sudeste. Os membros da Medronheira resplandecem nos seus saberes.

    Xana e Hugo, que, com o coletivo Orla Design, se dedicam há uma década a culturas regenerativas, processos de aprendizagem e design colaborativo, acolhem o matinal círculo de boas vindas. Depois, toda a gente se separa em grupos. Eram mulheres e crianças, cada uma com sua tarefa.

    Ana Santos, que é arquiteta paisagista na área da regeneração e parte da equipa Terracrua Design, coordena com Hugo estratégias de remediação pós–incêndio. Num lugar estratégico do fundo do vale, ergue-se pedra a pedra uma retenção de água. Com os troncos de pinheiro ardido, criam-se barreiras em curva de nível ao longo das encostas e «barragens de castor» ao longo das linhas de água. O objetivo é «aproveitar a escorrência das águas e concentrar os sedimentos nalguns destes pontos, para criar potencial de regeneração. Como nódulos de propagação, para ajudar a natureza a regenerar-se», explica Hugo.

    Os medronheiros e outros arbustos ardidos são cortados e a madeira processada: a maior para lenha, a mais pequena para triturar e criar estilha. As hortas são recobertas de palha. Pela restante terra espalha-se feno, que vem com semente e cujas raízes brotarão e ajudarão a suster o solo.

    «As crianças são muito bem vindas aqui!», diz Patrícia, cujo trabalho vem florescendo na intersecção entre educação, arte e regeneração. Um grupo de adultos e crianças cria pequenos altares para a floresta e prepara um viveiro florestal, com estacas embebidas numa solução de micro-organismos. Depois, fazem filas ao longo da encosta e lançam à terra uma mistura de sementes e micro-organismos.

    «Estamos a dar a vida de volta ao que se perdeu», explica Hugo. «Era uma floresta que já tinha bastantes extratos e tinha uma grande camada de matéria orgânica. Com o fogo, queimou todo o subcoberto e os pinheiros arderam todos. Isto é um ecossistema que coabita com o fogo. As pessoas sempre geriram com fogo e com gado. E antes do gado eram as manadas selvagens, de auroques, bisontes e zebros. O território tem toda a lembrança do fogo», observa Hugo.

    Assim é que, um pouco por toda a parte, já se começam a ver medronheiros a brotar. «Têm essa adaptação: quando queimam, recolhem logo a energia e é da raiz que rebentam. Agora temos de esperar três anos até começar a ter fruta». Hugo aponta agora para um sobreiro: «O sobreiro não sofre com fogo rasteiro. É essa adaptação que a cortiça traz. Mas o pinheiro bravo leva o fogo para as copas, e quando apanha sobreiros faz com que mui- tos não aguentem». Mas nenhum sobreiro é cortado – a comunidade aguardará dois anos para descobrir quais conseguirão voltar a rebentar.

    Este era o ano de tirar cortiça. No entanto, como tinha havido dois anos de seca, o coletivo optou por deixá-la – e abdicar desse rendimento. Afortunada decisão. «Se tivéssemos tirado a cortiça, tinham ido todos à vida!»

    Com o olhar treinado por anos de design de permacultura, sabiam que o fogo era uma possibilidade e tinham identificado de onde viria. Procuravam juntar fundos para o desenho e a hidratação dessa encosta, criando duas charcas. Ironicamente, para o dia a seguir ao incêndio, iria chegar uma máquina para abrir uma estrada e iniciar esse processo.

    Aqui e ali, semblantes negros de medronheiros são deixados, um convite a pássaros para pousar e deixar as suas sementes. Maria é, também ela, facilitadora na Orla Design. Hoje, de motosserra na mão, coordena a gestão da madeira ardida. «O fogo removeu todas as copas, os arbustos, todas estas multicamadas. Daqui ali não podíamos ver nada…! Agora é uma paisagem aberta», descreve. «E fez o mesmo com o projeto…! Fez-nos mostrar-nos, revelar-nos». Seja com as entidades legais, com quem o contacto é agora mais claro, seja através das redes sociais, onde criaram uma página no Instagram (@medronheira_em_rede). «É uma mudança enorme para o projeto».

    «Era um sítio muito privado, nosso e das pessoas próximas. De repente, a paisagem enche-se de pessoas da comunidade a trabalhar juntas. Umas que se conhecem, outras que não conhecem ninguém e ouviram falar do que aconteceu. Pessoas de diferentes idades, famílias…», descreve Xana. «O incêndio, e depois as consequências, parece estar a viver além de nós, e a ativar a espécie humana de forma inspiradora. Nos tempos que correm, lembra-nos que isto também existe, isto também é possível. Não é só pessoas em conflito e divergência e a polarizar. É também esta união por uma causa. É quase indescritível o sentimento que me traz ver o entusiasmo das pessoas».

    «Não é à toa que está aqui tanta gente», diz Filipe. Veio de Aljezur pela terceira vez. «Todos os elementos deste sítio trabalham muito a dimensão comunitária, estão muito ligados a várias iniciativas locais. Têm cultivado todas estas ligações ao longo dos anos». Na Medronheira viveu momentos terapêuticos, de lazer ou políticos – como os encontros do Triângulo em Transição, grupo de pessoas ativas política e socialmente nas suas localidades que se propõem a agir a nível da biorregião.

    «Queremos agradecer-vos a todos, por terem dedicado connosco o vosso dia a esta terra. É tão inspirador ter tantas pessoas dedicadas. E depois vai revelar-se na terra», dizem Hugo e Xana. De sorrisos chamuscados, todas se despedem. Sem saber que, no dia seguinte, uma abençoada chuva suave cairá sobre as tantas sementes que lançaram à terra.

    três dias após a passagem do dragão

    No Barlavento Algarvio, o grande incêndio parece estar enfim controlado. O coletivo da Medronheira junta-se num emotivo círculo. Brinda-se com a última aguardente de medronho, «até ao dia que destilarmos a próxima…»

    Desde que escolheu habitar a Medronheira, o coletivo propôs-se não ser mais um projeto antropocêntrico, «onde chegas com a grande ideia do que queres fazer» – antes escutar o que a terra quer ser. Deixar a própria terra guiar o caminho. «Isso fez com que ganhássemos uma relação muito profunda, um amor pelo lugar», conta Xana.

    «O ecossistema estava muito equilibrado, e pudemos nós também ter aqui um refúgio, um espaço saudável para viver, receber toda a sua energia, ser nutridos, colher o medronho..»., reconhece Maria.

    O mapa da Medronheira tem uma forma que se assemelha a um dragão – elemento místico que se foi tornando presente no coletivo. «De repente, sentimos que o dragão veio, o incêndio aconteceu e que foi algo muito maior do que nós», descreve Xana.

    Várias vezes lhes perguntam se pensaram abandonar. «Temos de cuidar deste lugar mais do que nunca. É esse o compromisso com a terra. Não podemos deixar a nossa família sem apoio», afirma Maria. «Seria como a tua melhor amiga ter um acidente e tu a abandonares e ires embora!», diz Xana. «Agora é que a Medronheira precisa ainda mais de nós, para acelerar os cuidados e prevenir a erosão. Tornou-se óbvio que tínhamos de nos auto-organizar e fazer o que fosse preciso antes das chuvas. Isso pôs-nos em ação muito rápido», explica Xana. «Não amando este lugar e esta terra como nós amamos, mais facilmente segues para outra, e começas num lugar mais confortável, que não dê tanto trabalho. Uma vez que estamos enraizadas, que temos esta relação, o lugar é o lugar, tanto ferido quanto saudável. É continuar. Não pelas condições, porque vão estar sempre a mudar, mas pela relação».

    «Aquilo que nos leva a estar é muito mais forte. E também sentimos que é um desafio que estamos à altura de abraçar. Todos trabalhamos há mais de uma década em regeneração eco-social. A vida às vezes traz-nos – se calhar não pelos meios que imaginaríamos – a um lugar onde tínhamos de estar».

    Sentem que o incêndio tornou o propósito ainda mais claro. «É um apelo para ouvir, testemunhar e fazer parte deste processo maior de regeneração que está a acontecer aqui, estejamos nós ou não. Ser uma parte mais consciente e pró-ativa nele. Aprender a pertencer a esta terra, contribuir para a história do lugar», afirma Maria.

    «Os fogos vão continuar a vir, é uma questão de tempo. Como é que estamos preparados, como comunidade e como território, para lidar com aquilo que a modernidade nos apresenta como desafios nos territórios rurais?», questiona Xana.

    É também uma responsabilidade que sentem como adultos. «A forma como lidamos com isto agora vai ficar para a próxima geração. Perante isto, que é de todos, de nós e das crianças, que legado queremos deixar? Se isto voltar a acontecer, quando já forem outras gerações a tomar decisões na Medronheira, precisamos que o legado seja o melhor possível. Um legado de união, de esperança, de comunidades grandes, para nos ajudar a fazer o que tem de ser feito, e fazê-lo de uma forma que as pessoas gostem de participar».

    A campanha de angariação de fundos decorre em Medronheira – Renascer das cinzas, na plataforma Gofundme – gofund.me/a85150a51

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    Texto publicado no Jornal MAPA nr. 48 [Jan. – Mar. 2026]

  • Solidariedade com deslocados libaneses

    Solidariedade com deslocados libaneses

    No próximo dia 29 de Maio, no RDA 69 (Regueirão dos Anjos n°69, Lisboa), haverá um evento de apoio aos deslocados pelos ataques israelitas no Líbano.

    Através de um programa de rádio ao vivo e em formato café-performativo, escutar-se-á LAND 02 e LAND 03, duas colectâneas de música inéditas produzidas por pessoas no Líbano que integram a comunidade Tunefork Studios e Beirut Synthesizer Center. Haverá também leituras, notícias, um concerto de Sallim e tempo para dançar.

    Todas as doações angariadas revertem para o Beit Aam (ver lista abaixo), um espaço comunitário em Beirute que normalmente acolhe eventos culturais, exposições e encontros e que, desde o recomeço da guerra (a 1 de Março), criou uma cozinha comunitária que serve centenas de refeições e fornece artigos de primeira necessidade a vários abrigos.

    Para além deste colectivo, o site From the Periphery Media tem estado a fazer uma lista de links para colectivos / projectos de apoio a pessoas afectadas pelas mais recentes vagas de terror do Estado israelita sobre território libanês. Uma lista em actualização que pode ser consultada aqui.

    Apoio Mútuo Queer Líbano: https://www.patreon.com/qmalebanon
    – Comunidade Queer Vulnerável: https://www.gofundme.com/f/lebanon-urgent-shelter-and-humanitarian-relief
    – Apoio mútuo para pessoas deslocadas do Sul do Líbano: https://www.instagram.com/p/DATycq8Jew9
    Ajuda a equipar as equipas de primeiros socorros do Líbano: https://fundahope.com/en/campaigns/equip-lebanons-first-responders
    Rede de Apoio (شبكة دعم): https://fundahope.com/en/fundraisers/shbk-daam-support-network
    Saqf Wahad (سقف واحد): Uma iniciativa voluntária de solidariedade que pretende proporcionar alojamento às pessoas deslocadas pela guerra em curso no Líbano: https://sakf1initiative.carrd.co
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    Beit Aam (بيت عام): Estamos a distribuir este formulário no meio da guerra sangrenta que Israel está a travar contra o nosso povo no Líbano. A nossa Beit Aam está a acolher várias famílias deslocadas em Beirute, mas precisamos de voluntários para ajudar a transportar alimentos, colchões e outros bens essenciais. Por favor, preenche o formulário para te voluntariares.
    Coligação de Resposta a Emergências: Vozes dos Invisíveis: «uma coligação de grupos que se dedica a vários temas, tais como os direitos dos migrantes, os direitos dos refugiados, os direitos LGBTQ, a pobreza menstrual, a segurança alimentar e a segurança habitacional.»: https://gogetfunding.com/emergency-response-coalition-voices-of-the-unseen/
    Apoia Basmeh & Zeitouneh através de The Syria Campaign «Fundada por refugiados, para refugiados»: https://act.thesyriacampaign.org/donate/donate-to-B-Z/
    Jeyetna: combater a pobreza menstrual no Líbano: https://www.kisskissbankbank.com/en/projects/jeyetna-8c9552ee-7ca1-44dc-ae85-c9d6974b1737
    O Coletivo de Solidariedade com o Líbano é uma rede independente de pessoas e activistas de base residentes no Líbano, empenhada em prestar apoio mútuo directo e apoio no terreno: https://app.lacagnottedesproches.fr/cagnotte/liban-unite-secours-durgence-dons/
    Hostel Beirut para pessoas que estejam em Beirute: https://www.instagram.com/p/DAVzflGMwqR
    Tres Marias está a ajudar os filipinos de Tiro, a planear acções de sensibilização em colaboração com a embaixada das Filipinas e a distribuir ajuda alimentar na região de Beirute: https://www.instagram.com/tresmariaslebanon/
    Propaganda é um grupo de voluntários que recolhe donativos em Beirute e avalia as necessidades em Tripoli, com planos para criar uma cozinha comunitária: https://www.instagram.com/propaganda.rm2

     

  • Solidariedade ruidosa com os povos do Irão

    Solidariedade ruidosa com os povos do Irão

    Na noite do passado domingo, dia 18 de Janeiro, a embaixada iraniana em Lisboa foi alvo duma acção de solidariedade com «os milhares de vítimas e mártires da violência estatal iraniana», mas também com «curdos, farsis, balúchis, pessoas árabes e queer e todas as outras oprimidas pelo Estado iraniano e que estão a lutar pela sua liberdade». O vídeo da acção pode ser visto abaixo:

    Sublinhando que os protestos actuais têm raízes criadas em lutas recentes: pelo direito ao pão (2017 e 2022), à água (2021), a bens subsidiados pelo Estado (2019), «um grupo de pessoas solidárias com os povos do Irão», que levou a cabo esta acção, relembra, em comunicado, que «cada período sucessivo de crises e revoltas se desenrolou num contexto de cortes de energia», corrupção, obsolescência infra-estrutural e «crise ambiental (poluição atmosférica, seca, desflorestação e má gestão de recursos hídricos)».

    E, a cada crise, «o regime optou pelo seu apoio mais fiável: assassinato patrocinado pelo Estado». «Este é o destino de muitos iranianos cujo único crime é o seu estatuto cultural e/ou identitário (como curdos, balúchis, mulheres, queer, de esquerda, etc.).»

    O comunicado da acção, enviado anonimamente e partilhado em algumas redes sociais, acrescenta ainda que «apenas o povo do Irão terá uma palavra a dizer sobre o resultado desta revolta. Apenas as pessoas do Rojhilat e do Baluchistão terão uma palavra a dizer sobre o futuro da sua terra ocupada», não deixando de sublinhar que «a solução para uma tirania não é a sua substituição por outra».

    «O fim deste regime, o futuro de todos os povos que vivem dentro das fronteiras do Irão, não pode ser resultado duma intervenção de fora, mas também não pode ser um regresso ao mesmo regime mas com uma bandeira diferente», remata o comunicado.

    Para ler mais sobre o Irão, espreita aqui.

  • Veio o fogo e respondemos todos juntos

    Veio o fogo e respondemos todos juntos

    A auto-organização popular no combate aos incêndios sublinhou a importância de pensar os territórios florestais desde a sua base e ativando o espírito comunitário dos lugares.

    Alimento doado é colocado em pontos de refúgio da vida selvagem no Vale da Aveleira na Serra da Lousã. Foto: Fernando Amaral

    Uma vez mais os incêndios assolaram o país de forma devastadora. No interior florestal, coberto pelas monoculturas do eucalipto e do pinho, as populações que aí vivem, renovadas por gente citadina que procura um outro modo de vida mais próximo da terra, souberam dar uma resposta ímpar aos fogos que cercaram as suas aldeias e quintas. Fosse no Gerês, nas encostas da Lousã, Açor, Gardunha e Serra da Estrela, entre outras serranias, a auto-organização popular no combate às chamas comprovou a importância e o poder da solidariedade e do apoio mútuo. Sem que esteja em causa a abnegação dos bombeiros, em si mesma prova de uma entrega ao bem comum, ficou claro que o centralismo militarizado do estado falha redondamente. E viu-se que as pessoas sabem organizar-se por si mesmas: essa capacidade salvou vidas e permitiu vislumbrar um futuro em comunidade. O jornal MAPA foi ao encontro de algumas das histórias de resistência popular vividas no drama dos incêndios de Arganil e da Lousã, em agosto de 2025. Foram atingidos mais de 64 mil hectares ao longo de onze dias: 8 concelhos atingidos, 3% do território nacional. Estas são histórias que animam outras histórias possíveis de um renascimento rural das nossas serras e montanhas.

    Arganil, uma vez mais o fogo
    «Havia algo que estava muito presente nas pessoas que já cá estavam em 2017: não era um “se”, era um “quando”. Eu sabia que era um “quando”. Ia voltar a acontecer – mas não achei que fosse algo assim tão cedo». As palavras são de Inês, moradora em Benfeita há quatro anos, concelho de Arganil, e ligada à Folha Verde, um projeto educativo comunitário que ilustra o novo repovoamento rural que teima em inverter a longa marcha de abandono do interior. Uma vontade de aí viver que não se tem mostrado fácil, seja para estes novos rurais, seja para as populações locais que se mantêm pelas aldeias serranas. Em 2017, Inês já morava no lugar próximo de Monte Frio e viu os incêndios devastarem o território. Agora conta-nos como «o Monte Frio e a Relva Velha foram arrasados novamente. O cimo da montanha, com enorme densidade de eucaliptais, ardeu com grande intensidade e maior rapidez que nos outros sítios».

    A perceção desta inevitabilidade levara vários habitantes desses lugares à conclusão de que não poderiam ficar de braços cruzados à espera do próximo incêndio. «Depois de 2017 começou a dizer-se: o que é que podíamos fazer? Nesse ano, o único camião de bombeiros que esteve aqui foi um que ficou cá preso, rodeado pelo incêndio, nas Luadas». Já então, na luta contra o fogo, estreitavam-se laços entre os serranos naturais e os estrangeiros recém-chegados. «Observámos o que a Junta de Freguesia fazia: tinha as suas pick-ups com depósitos de mil litros para fazer algo da função de bombeiros. Sem se aventurarem muito, com bom senso. Surgiu a ideia de fazer algo semelhante».

    A Arbor, uma associação local criada no rescaldo dos incêndios com objetivos de regeneração e reflorestação com árvores autóctones, propôs-se igualmente estruturar equipas de voluntários em resposta aos fogos. Em agosto último, a organização voluntária destes habitantes foi posta à prova. Conforme relata Inês, as equipas, em colaboração estreita com a Junta, consolidaram um «apoio aos bombeiros, sem entrar em heroísmos. Conseguiu-se salvar imensas coisas, bastantes sítios. Conseguíamos chegar a sítios de difícil acesso, onde um camião dos bombeiros não podia chegar. O sistema de walkie-talkies usou- -se com sucesso (em 2017 as telecomunicações falharam). Houve pontos de vigia e muito cuidado e atenção sobre as zonas onde já se sabia que tinha acabado o fogo». Toda a gente disponível trabalhou arduamente para controlar as reignições e impedir que o fogo se espalhasse ainda mais. «Tínhamos uma rota grande e uma pequena, a circundar mais ou menos todas as aldeias, a ver se havia reacendimentos, lugares a fumegar e a precisar de intervenção»

    A auto-organização dos habitantes, que de forma espontânea se fez notar em muitas localidades, veio aqui a beneficiar do trabalho prévio do Benfeita Fire Fund. À carrinha da Junta equipada para incêndios, a Arbor juntou outras três e preparou uma rede de recursos hídricos em todos os vales para melhorar a capacidade de resposta.

    «Quando aconteceu o incêndio, era a festa da Benfeita, o que foi um pouco surreal. Havia por aqui montes de “lisboetas”, como lhes chamo. Tínhamos uma bomba no muro do rio para as pick-ups encherem constantemente os depósitos de mil litros, e havia sempre jovens de Lisboa lá a ajudar, com baldes e assim, para encher mais rápido». Ecoando uma situação repetida por todo o lado neste último verão, Inês refere como «muitas vezes os bombeiros não tinham ordem para atuar. Houve situações em que o fogo teria sido muito menor se eles tivessem agido mais cedo, quando ainda está no meio do mato e não está perto de uma aldeia. Não se pode apontar o dedo ao nível local, mas a como as coisas são organizadas mais acima na pirâmide do poder. Não quero apontar dedos, é preciso muita coragem, mas sem dúvida algo está mal na forma como estes meios são organizados».

    Já ao nível local, a sensação é que «muitas pessoas se sentiram empoderadas: há algo que podemos fazer para nos defendermos. É possível. Acho que o facto de as pessoas estarem organizadas e terem desejo de combater o fogo, na medida dos possíveis, não fugirem e decidirem ficar, trouxe imenso respeito por parte dos locais». Recorda o diálogo com uma senhora que lhe dizia como «antigamente, quando havia um fogo, juntávamo-nos todos e, se havia água, era água, se não, era à enxada». «Foi isso que aconteceu, respondemos todos juntos. No meio das perdas, imensas perdas sobretudo da natureza, vegetal e animal, essa foi a parte bonita de ver acontecer».

    Foto: Fernando Amaral

    E, se o fogo se extinguiu, o sentimento local não se esfumou. Sucedem-se dias de trabalho comunitários, sempre guarnecidos de refeições comunitárias que juntam as pessoas. No mercado mensal na Benfeita, várias bandas tocaram gratuitamente para angariar fundos para os almoços comunitários. Nos mercados, ofereceram-se ferramentas, materiais de construção, pratos e lençóis, e angariou-se dinheiro para quem tinha perdido as suas coisas.

    «No primeiro fim-de-semana fomos a 15 sítios, cada equipa tinha uma pick-up para levar destroços queimados até sítios onde os podíamos depositar, em articulação com a Junta». Tentando fazer crescer a floresta autóctone, diz Inês que «a terra nunca quer a sua pele vazia: “limpa”. Este conceito da limpeza é dúbio. Não quer estar nua, quer estar coberta», pelo que «é preciso jogar com esse comportamento espontâneo, deixar que ele exista, misturar outras coisas pelo meio, para com mais rapidez termos uma floresta a que possamos chamar floresta». Inês insurge-se contra a «definição oficial de floresta, do governo português, [onde] cabe perfeitamente uma monocultura: não é uma floresta! Vimos que nas zonas que arderam e que tinham várias espécies é possível intervir e parar, ou acalmar, e salvar coisas».

    Codessais. mulheres que cuidam
    Fernando Amaral perdeu a sua casa nas encostas de Vila Nova de Poiares nos incêndios de 2017. Desde então que, em videoativismo, recolhe testemunhos difundidos pelas redes de resistência a vários projetos extrativistas, das minas do Barroso às monoculturas florestais da região onde vive. Fernando, que diz ser preciso «deseucaliptizar» Portugal, é uma das vozes da Rede Emergência Florestal / Floresta do Futuro, que em setembro passado voltou a organizar diversos protestos em várias localidades do país como na Lousã, Arganil, Pedrógão Grande, Sertã e Oliveira do Hospital. É este o seu alerta: «nos últimos 35 anos, o equivalente a metade do território nacional já ardeu. O que está em causa é a própria viabilidade do país. Para podermos ter uma terra onde possamos viver sem medo, para termos um futuro, temos que organizar a mobilização popular que a política nunca quis nem aceita. Para podermos ter um futuro, temos de construí-lo com as nossas mãos».

    Fernando gravou em três vozes femininas de Codessais, em Serpins, na serra da Lousã, o relato desse momento em que «o dia virou noite», a 15 de agosto. «Três horas de inferno» em que estas mulheres, com os poucos vizinhos, boa parte idosos, combateram as chamas com baldes e mangueiras perante a falta de resposta às insistentes chamadas de emergência. À rapidez do fogo e à ausência de meios, opôs-se a «persistência delas, o instinto de sobrevivência de porem as mãos à obra», apesar de um sentimento contraditório de reconhecerem a «inconsciência» de ficar, nestas situações. «Nós organizamo-nos sem saber como, fazendo uma equipa. Só pelo olhar já dizíamos “vais para ali, tu vais para lá”».

    A sensação que ficou no lugar é que «fomos abandonados». Depois de 2017, a população apresentara várias soluções de prevenção, desde a limpeza dos caminhos à localização de um tanque de apoio. Nada foi feito. Agora deixam um apelo: «temos o outono, o inverno e a primavera; temos três estações do ano para preparar muita coisa, mas também para preparar os habitantes para serem os bombeiros da própria aldeia. Criar condições para que nós possamos ajudar os bombeiros. Quem passou por aquilo que nós passámos, que se juntem, que façam a sua voz ser ouvida pelos autarcas para que isto não volte a acontecer».

    Codessais: «organizámo-nos sem saber como, fazendo uma equipa a tentar salvar-nos. Só pelo olhar já dizíamos “vais para ali, tu vais para lá”». Foto: Fernando Amaral

    À espera da brama no Vale da Aveleira
    Claúdio vive com a mulher e a filha de dez anos na aldeia de Cabanões, em Serpins, onde Fernando gravou o seu testemunho. No dia 15 de agosto, a aldeia viu-se totalmente rodeada pelas chamas e foi evacuada no início da manhã. Quando o fogo chegou, ficaram seis habitantes a combater sem nenhum meio de apoio. A aldeia, diz Cláudio, faz parte «daquele programa da Câmara Municipal de “Aldeia Segura” que visava aqui coordenar uma série de elementos que falharam redondamente, elementos esses que foram apontados por toda a população e que foram ignorados até ao dia 15». Desde logo, «os sobrantes florestais de limpezas que haviam sido feitas» resultaram em «montanhas de combustíveis deixados por toda a serra». A empresa subcontratada pela autarquia, «que era para vir tratar dos sobrantes florestais, uma empresa de lenhas, veio e começou a carregar as madeiras das pessoas todas e deixou os sobrantes!». Depois há o difícil acesso ao tanque instalado e o caricato caso dos 200 metros de mangueiras a que ficaram a faltar os adaptadores às bocas de incêndio, tal como constatado no próprio momento da instalação, feita com pompa e circunstância. Tudo isto foi apontado por Claúdio em reunião com o executivo camarário, um mês antes do incêndio. Quanto ao valor indicado de 36 mil euros adjudicados para Cabanões através da “Aldeia Segura”, Cláudio diz-nos que «nós com muito menos do que isso estamos a tentar garantir a sobrevivência no próximo episódio». Os moradores juntaram-se para comprar bombas submersíveis, equipamento e mangueiras decentes, com as devidas ligações. «Porque já vimos que se estivermos à espera da ajuda de qualquer entidade, vamos morrer todos aqui queimados».

    Foto: Fernando Amaral

    Entretanto, Claúdio transporta cereais e frutas doadas para pontos de refúgio da vida selvagem do Vale da Aveleira. Depois de 15 quilómetros percorridos de jipe em terra batida, começa uma caminhada de dois quilómetros com as sacas às costas, até chegar a pontos de água que subsistem no único verde que resta em toda a serra: «não queremos que eles se vão embora». «Se as entidades não quiseram saber das pessoas aqui em Cabanões, eu não vou delegar agora essa tarefa no caso dos animais. Com os nossos próprios meios, os nossos veículos e o nosso tempo, estamos a levar o alimento». Fala dos javalis e dos veados, alimentados pelo esforço voluntário de Cláudio e de quem mais o acompanha, evitando que desçam às aldeias e causem prejuízos nas lavouras que ficaram, mas sobretudo para «proteger aquilo que resta desta floresta, deste bosque lindíssimo». As imagens são vislumbres de esperança em vales «acantilados muito profundos» por entre o negro das encostas e cumeadas.

    Com as chuvas que virão «isto vai ficar tudo um caos e alguém terá de fazer alguma coisa aqui no terreno, não sei bem como, mas estou à espera das diretrizes para poder ajudar no que possa». Virão ainda as invasoras e o momento, para Claúdio, será mesmo «de menos eucaliptos, ou nenhuns, se possível». Defende o plantio de árvores autóctones, em particular do carvalho alvarinho, «uma árvore sapadora que consegue controlar e até extinguir os incêndios». Até lá, Claúdio assegura que vai continuar o seu trabalho, «pelo menos até sentir que a floresta está a recuperar e que o alimento já assegura a sobrevivência deles». A «brama está quase aí», o ritual outonal de acasalamento dos veados, e «esse será o momento de confirmação do nosso trabalho: quando os ouvirmos bramir neste vale e soubermos que eles estão a procriar e que o futuro está assegurado».

    O espírito da comunidade a acontecer
    A quinta situa-se entre a freguesia de Paul e a freguesia de Ourondo, na Covilhã. São cerca de 50 hectares que, desde 2010, albergam uma comunidade espiritual de cerca de 30 pessoas sob o nome de Ananda Kalyani. Exemplo da nova toponímia que constará quando atualizada a cartografia e os cadastros da nova ruralidade do nosso interior.

    Falámos com Guilherme acerca do drama vivido entre as chamas. Há já uma semana que ardia uma serra próxima, a cerca de 20 km, mas, como todas as populações serranas, estavam habituados a ter incêndios por perto. «O incêndio, para chegar aqui, teria de queimar aldeias, como a de Casegas, para chegar até nós. Pensámos: “não é possível, o governo português, os bombeiros não vão deixar que isto aconteça”. Dia 16 de agosto, aconteceu. Queimou essas aldeias, muitas quintas arderam completamente, casas, armazéns, animais, olivais centenários… é mesmo muito triste, estamos a falar de gerações e gerações de trabalho ardido em minutos».

    «E chegou até nós. Na nossa quinta principal, dos 30 hectares, arderam 25 hectares. Conseguimos preservar esses 5 hectares pelo trabalho de quatro membros da nossa comunidade, que ficaram a noite toda a combater as chamas, porque os bombeiros não vieram cá. Não tivemos apoio dos bombeiros porque era uma calamidade, um desastre de tal tamanho, não havia recursos, não havia meios, era impossível, uma tragédia. Percebo completamente que os bombeiros não tivessem forma de dar vazão a tudo. Então tivemos nós que proteger a nossa própria quinta».

    Guilherme conta-nos que a maioria das pessoas evacuou porque «era, de facto, muito perigoso». O combate empreendido pelas quatro pessoas que decidiram ficar «foi mesmo tirado de um filme, um filme com heróis de ação a meterem a sua vida em causa para proteger a nossa quinta. Por um lado, incrível, por outro lado, há que dizer que o que a maior parte das pessoas fizeram foi tomar a ação mais sensata, que é evacuar. Mas, graças ao sacrifício desses quatro membros da comunidade, conseguimos preservar a maior parte das nossas infraestruturas. Porque, de outra forma, teríamos perdido tudo, teria ardido o yurt de habitação muito bonita, mas feita de madeira, a casa com armazém agrícola também feita de madeira, uma produção de meio hectare de amoras que nos dá algum retorno financeiro, e claro, as estufas. Temos uma estufa incrível que produz toneladas de comida todos os anos, é de onde vem a maior parte dos nossos vegetais. E teria sido um desastre para nós. Mas, mesmo assim, perdemos 25 hectares: 10 destes hectares eram cerejal com 500 cerejeiras, um sistema de rega, várias colmeias de abelhas, isso perdemos tudo. Estamos a falar de 10 anos de trabalho que desapareceram e que não vai ser assim tão cedo que vamos conseguir reaver.» Seguiram-se «vigias de 24 sobre 24 horas, turnos de duas horas durante a noite toda e durante o dia todo, para apagar todas as reignições».

    Foto: Diogo Tavares Ribeiro

    Guilherme acentua ao longo da conversa um ânimo positivo perante a tragédia. «Uma das razões é que nos ativou. Somos uma comunidade espiritual e vimos o poder de viver em comunidade e as mais valias». Uma leitura que extravasa para as aldeias vizinhas. «Observei, em particular, nos dias depois da grande tragédia, este espírito de comunidade, a acontecer no Paul. E, em Ourondo, vizinhos a juntarem-se, a apagarem as reignições dos terrenos uns dos outros, vi esse espírito de comunidade acontecer também».

    «O que estou a observar aqui é mesmo o poder da comunidade, essa entreajuda, a solidariedade que se ativou. Para mim é muito inspirador e quero continuar assim. A nossa missão a um nível maior é viver numa sociedade em harmonia entre nós, seres humanos, mas também com todos os outros seres, as plantas e os animais. Não queremos viver numa sociedade em guerra, individualista, capitalista, em que o individual está acima de tudo, o indivíduo acima do coletivo. Nós queremos viver numa sociedade que viva realmente em entreajuda. Esta tragédia está a ativar este espírito. Estamos a fazer o nosso melhor para aproveitar o que este momento está a gerar.»

    Daí nascem as ajudadas Mãos na Terra que, como em Benfeita, são celebradas com um almoço partilhado. Juntam-se em diferentes quintas afetadas a apanhar lixo, a cortar giesta queimada, a fazer estruturas de retenção da água para mitigar a erosão e apoiar quem tudo perdeu. Mas, para Guilherme, os objetivos não se ficam por aí. «Acredito num processo passo a passo. A curto prazo estamos a fazer estas ajudadas nas quintas uns dos outros, a criar aquele espírito de comunidade». A solução de médio prazo será fazer uso das previstas Áreas Integradas de Gestão da Paisagem (AIGP), e dos fundos do Programa de silvicultura sustentável (PEPAC). «Estamos a falar já de uma grande escala, aliás, ideal até seria uma ZIF (Zona de Intervenção Florestal) a partir de 500 hectares e um mínimo de 25 proprietários, mas a AIGP é mais flexível e prevê também espaço agrícola. Estamos a falar de um agrupamento de terrenos que são geridos de uma forma verdadeiramente comunitária e temos uma entidade central que gere o terreno em nome de todos os proprietários». A associação ambiental Ecoativo, ligada à Ananda Kalyani, irá pôr em marcha um projeto próprio nesse âmbito.

    Já a longo prazo, sublinha o objetivo de «sairmos deste paradigma de pensar na floresta como um meio de obtenção de lucro e em que a prioridade seja a criação de ecossistemas saudáveis e funcionais. Aí, estamos a falar de misturas de plantas, estamos a falar da criação de floresta verdadeira com os diferentes estratos, com os estratos emergentes, as árvores grandes, o estrato alto, o estrato médio e o estrato baixo. As plantas anuais de ciclo rápido, os arbustos de ciclos mais lentos, as árvores de ciclos médios e as árvores de ciclos longos». Para Guilherme, temos de ir para além do mosaico que estes subsídios permitem: «as faixas de sobreiro, as faixas de medronho, faixas de carvalho negral…», embora «esta ideia de um mosaico seja mil vezes melhor do que temos hoje em dia: 70 ou 80% de monocultura de pinhal abandonado».

    Por fim, uma outra ideia final, à qual Guilherme confessa saber «que vai ser muito difícil convencer as pessoas de que isso realmente é o caminho, mas a medida é simples: todo o terreno florestal que está claramente abandonado há mais de 10 anos, automaticamente passa a baldio. Uma vez que passa a baldio, as entidades que trabalham com a floresta passariam a geri-lo».

    Temos que organizar a mobilização popular que a política nunca quis nem aceita. Para podermos ter um futuro, temos de construí-lo com as nossas mãos.

    Do ponto mais alto do continente
    Combatidos os fogos e reiterado o poder da auto-organização popular por essas aldeias, quintas e comunidades fora, por entre novos residentes ou gerações locais, ao forte sentimento de abandono que a todos assolou a única resposta possível seria, em diante, dar continuidade à dignidade dessas histórias de resistência. Muitas mais histórias haveria para aqui relatar.

    No dia 21 de setembro, mais de 150 pessoas subiram à Torre, na Serra da Estrela, sob o apelo de um «momento apartidário de encontro e partilha, em defesa da Serra, do território e das comunidades». Diversas pessoas, associações e organizações locais, apresentavam o movimento Por Serras Dignas. Do seu manifesto em construção, citamos: «As chamas deixaram um rasto de tristeza, mas revelaram também algo que nunca se perdeu: a força de comunidades que sabem unir- -se e resistir. As serras, florestas, animais, rios e pessoas serranas merecem um futuro de esperança que pede resistência em cada aldeia, em cada trilho, em cada ecossistema. A montanha não é apenas pedra e vegetação, nem paisagem para turismo fugaz, nem reserva de sacrifício para monoculturas e políticas que vêm de longe. A montanha é casa de muitos seres vivos, é trabalho, muitas culturas, escola, futuro! Exigimos respeito. Exigimos dignidade».

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    Texto de Filipe Nunes com Francisco Colaço Pedro e Fernando Amaral
    [publicado na edição nr. 47 de Jornal MAPA – Out.-Dez. 2025]

  • Fecharam a porta e escancararam as janelas ao trabalho clandestino

    Fecharam a porta e escancararam as janelas ao trabalho clandestino

    EntrevistaAlberto Matos é responsável pela delegação de Beja da SOLIM – Associação Solidariedade Imigrante, a maior associação de imigrantes em Portugal a caminho dos 60 mil associados. A partir dos campos alentejanos, conversamos com ele sobre a condição dos imigrantes.

     

    O que dizer sobre o percurso das políticas de imigração portuguesas ao longo dos anos?

    Até 2007, o que vigorava em Portugal e em vários países da europa era o sistema por quotas, que é o que a direita agora quer, sobretudo o Chega: que a pessoa traga, do país de origem, um visto de trabalho. Como é que isto funcionava? Cá em Portugal, por exemplo, se um patrão precisava de 150 trabalhadores para uma coisa qualquer, tinha de ir ao IEFP, fazer uma oferta de trabalho, e eles iam verificar: se em Portugal houvesse trabalhadores para aquilo, não autorizavam a importação de mão-de-obra. É evidente que nunca havia ninguém. Passados 2 ou 3 meses, depois de muito procurar, lá davam autorização. Depois o patrão mandava essa autorização do IEFP para um consulado português, através do MNE, que, por sua vez, pedia ao SEF para emitir os vistos. Este era um processo que demorava uns 6 meses. Portanto, acabavam por contratar a mão-de-obra ilegal que já cá estava. Isto não funcionava. E a lei tinha um senão, tratava-se de um mecanismo «excepcional», delegado no inspetor que tinhas à frente. Se o inspetor do SEF não fosse com a tua cara, o visto era recusado. Isto deu para todo o tipo de abusos. A partir de 2016 começaram a fazer uma interpretação estrita, tinhas de ter um carimbo a dizer que entraste em Portugal. Isto era mentira, porque, por exemplo, os tipos de leste, da Polónia ou da Hungria, vinham com um carimbo moldavo… E não há carimbos em Portugal. A partir de 2007, com a introdução da manifestação de interesse, a pessoa estava dispensada de trazer o visto de trabalho do país de origem. Era cá que as pessoas tentavam regularizar a sua situação – ou seja, junto dos patrões, ou de outros intermediários.

     

    Em 2024 acabou a manifestação de interesse e encostaram-se migrantes à parede no Benformoso… Que comentário fazes à atualidade?

    Eu diria que o fim da manifestação de interesse foi uma clara cedência e disputa eleitoral direta com o Chega. Aliás, lembro que as eleições europeias aconteceram seis dias antes, com uma ampla adesão à tese de que as manifestações de interesse têm um efeito de chamada. Uns meses depois, o Pedro Nuno Santos (PS) adere à mesma tese e o PS já não quer o regresso às manifestações de interesse. Esta era uma porta para um processo de regularização aberto permanentemente, em vez de regularizações extraordinárias que abrem e fecham como uma torneira, numa perspectiva utilitária, ao serviço directo da economia. Nós tivemos várias regularizações extraordinárias, em 2001 e até nos anos 90, que abriam e fechavam, e quem chegasse no dia seguinte ficava com a vida suspensa. Isso é inadmissível. A manifestação de interesse, que existia desde 2007, tinha até sido melhorada no tempo da geringonça, deixando de ser um favor que o estado fazia, e passando a ser um direito de quem trabalha. Agora, fecharam a única porta de regularização de imigrantes. É cá que se pode estabelecer uma relação de trabalho com o empregador, não é a 5000 quilómetros de distância, lá na Índia ou noutro lado qualquer, a caminho, afogando-se a nado ou morrendo no deserto. Assim, só com intermediários, e os intermediários são as máfias, claramente, que esfregam as mãos porque agora passou a ser impossível fugir às máfias para arranjar emprego. Só através destas máfias é que se entra sequer num consulado português lá fora, os consulados estão cercados, na Guiné-Bissau pagas centenas de euros, na Índia pagas 25.000 euros, para vir trabalhar para Portugal. Portanto é este o cenário. Eles diziam que as portas estavam escancaradas. Eu digo que as portas estavam abertas à regularização, e fechando essa porta, escancararam as janelas ao trabalho ilegal, ao trabalho clandestino. Nós conhecemos casos concretos – em Vila Nova de Mil Fontes, 40 nepaleses acabados de chegar não têm nenhuma hipótese de regularização. Mas eles estão aí, e vão trabalhar e ser explorados nas piores condições. Com esta medida, só aumentou o trabalho escravo. E, claro, depois, fala-se na rua do Benformoso, onde o acto simbólico de encostar pessoas à parede faz lembrar outras coisas, nomeadamente os guetos na Polónia, os nazis, é a simbologia que isto nos traz… E daí que, e muito bem, a manifestação de 11 de janeiro tenha respondido a esta desgraça. Não é que não haja exploração e sobrelotação de casas na rua do Benformoso, como noutras ruas e nas Odemiras deste país. Mas não é isto que eles combatem. Eles intimidam as pessoas e no dia seguinte continua tudo na mesma, até agravado pelo espetáculo que apenas excitou o sentimento xenófobo.

     

    Olhando para a nova paisagem rural alentejana, como descreverias o discurso e as práticas sinuosas da classe patronal agrícola que ora acentua a sua dependência de mão-de-obra migrante, como no minuto seguinte se demite de responder sobre as suas condições de contratação?

    Os novos latifundiários dos olivais, dos amendoais, das estufas, o latifúndio de regadio, e também o de sequeiro, esfregam as mãos com esta conversa da «via verde» que o governo anunciou para quem tiver comportamento ético – isto só mesmo para rir. Porque eles, na verdade e na esmagadora maioria, contratam para aí 20% da mão-de-obra que, de facto, exploram e utilizam. O resto dos trabalhadores são contratados através das máfias numa espécie de leilão – «quem é que me apanha 500 hectares, ou 2000 hectares, de azeitona?» – «quem é que me faz um preço mais barato?» E dividem aquilo em lotes enquanto as máfias se matam e disputam pelo preço mais baixo. Um preço conseguido à custa da exploração indizível e invisível de imigrantes, muitos agora em situação completamente ilegal, sem poder refilar de maneira nenhuma. Alguns contentores que foram construídos na zona de Odemira, dentro das propriedades, são subalugados às máfias; são as máfias que sabem quem está lá dentro, os proprietários não sabem nem querem saber. Eu diria mesmo que a «via verde» é responsabilidade social zero por parte desta classe patronal agrícola de que falas: podem saber o nome das plantas todas, o nome das variedades de azeitona ou dos frutos vermelhos, mas não sabem o nome de um trabalhador.

    Imagem desfocada de dormitório com trabalhadores imigrantes
    ©apaxiuta

    Depois de Odemira, que é hoje um concelho transformado, é de esperar o mesmo noutros sítios, como Pegões?

    São plataformas logísticas de mão-de-obra escrava. As pessoas são distribuídas a partir de Pegões para o Ribatejo, para a amêijoa no Montijo, para vários lados. A esmagadora maioria na agricultura, mas também noutras actividades. Temos aquilo a que se chamam os prestadores de serviços, que são empresas constituídas na hora, e que, costumo dizer, desaparecem num minuto, e que a única actividade que têm é ceder mão-de-obra a patrões via contrato por leilão. Às vezes, estas empresas, de que eu não gosto, vêm-se queixar porque não conseguem competir com os preços: «qualquer dia a gente tem que fechar a porta». O preço que estes prestadores de serviços praticam é tão baixo que não daria nem para pagar salários, quanto mais impostos. Os grandes beneficiários são os proprietários, que, se fizessem contas, viam que aquilo não dá nem para os salários. O contrato pode até dizer que há um salário mínimo, mas isso é se trabalhassem o mês inteiro. Basta chover, ou trabalharem menos horas… E se trabalharem 12 ou 14 horas, não recebem mais por isso. Quando a pessoa não tem autonomia para mudar de patrão, e tem uma jornada de trabalho tão exaustiva e cansativa, não tem forças para reivindicar nada e ainda por cima está sempre a dever ao patrão. É a comida de vez em quando, miserável, mas sobretudo, uma dívida que vem do país de origem. Nós vemos pessoas entrevistadas na televisão a dizer «eu paguei 20.000 lá a um senhor lá na Índia para vir para Portugal, para ele tratar dos documentos para eu vir para cá». Mas a maior parte das pessoas não pagou: deram uma entrada e contraíram uma dívida, a ser cobrada até ao último cêntimo, com taxas de juro. Os timorenses, por exemplo, pedem 2.000 euros lá em Timor e pagam 4.000 aqui. Mais, as famílias lá são muitas vezes ameaçadas de morte. De um salário mínimo, metade fica retido para pagar a dívida, mais as calças, mais a habitação. As pessoas ficam com pouco e ainda querem mandar para a família. Lembro-me de um café em Odemira onde estavam 30 pessoas a viver e a pagar 130 euros cada um, o que dá 3.900 euros por mês… Isto dá uma margem de lucro que não há com drogas nem armas. Ainda por cima, durante décadas.

     

    Por que razão o alentejano tem dificuldade em assumir frontalmente a ligação e memória histórica da condição do trabalhador rural explorado – memória dos seus avós – com a condição do trabalhador rural migrante?

    Bem, há já uns anos que faço esse trabalho, nas sessões que fazemos sobre migrações. Lembramos sempre o passado dos trabalhadores agrícolas aqui explorados, até o nosso passado de emigração na França, na Suíça e em todo o mundo, sobretudo depois da mecanização agrícola dos anos 60 e da fuga à guerra colonial. Infelizmente, alguns que foram emigrantes lá fora têm comportamentos inadmissíveis cá, e exploram eles próprios os imigrantes que agora cá têm – na restauração, em lojas, em muitos sítios. Não propriamente na agricultura, porque os emigrantes portugueses que regressaram não são propriamente latifundiários. Agora, alguns, para se vingarem do que sofreram, ou esquecerem rapidamente o que passaram lá fora, às vezes reproduzem o mesmo comportamento. E, no entanto, os imigrantes são hoje os novos Catarinos e Catarinas – estou a falar da Catarina Eufémia. Mesmo ao pé do cemitério do Baleizão, há uns alojamentos inacreditáveis que nós já temos denunciado às autoridades, onde se amontoam dezenas e até centenas de imigrantes. Muitas vezes, no 19 de maio, quando fazemos uma homenagem simbólica juntando amigos e familiares da Catarina, e pessoas que ainda têm essa memória na aldeia, juntam-se a nós esses imigrantes a quem nós entretanto dissemos – «olha, quem vive ali ao vosso lado, no cemitério, é a Catarina Eufémia, foi vossa antecessora, porque nesse tempo não se podia fazer greve. Agora formalmente pode-se, mas vocês são tão escravizados ou mais do que eram os trabalhadores de antigamente». Portanto, são eles os Catarinos e Catarinas, os Caravelas e Casquinhas, estes dois assassinados já depois do 25 de abril. Aqui no Alentejo, 90% dos trabalhadores rurais são hoje imigrantes.

     

    Como entendes a normalização do discurso de ódio na cidade de Beja contra o migrante nas suas ruas e a ausência – numa resposta equivalente a esse crescimento de discurso – de práticas de solidariedade mais do que caritativas?

    Não é só na cidade de Beja – e onde nem toda a gente alinha no discurso de ódio, é preciso dizê-lo. Mas ele existe, basta ver as votações no Chega, que em Beja chegaram a 20% ou lá perto. Mas não se pode normalizar esse discurso de ódio. O grande problema do centro histórico de Beja, e dos comerciantes que estão contra a instalação de um centro de apoio a migrantes, é a desertificação do centro histórico – é não haver lá ninguém. Faz falta que os imigrantes se integrem na classe trabalhadora, e isso não é por decreto, é através dos sindicatos e de organizações como a SOLIM, para que tenham uma postura reivindicativa, que vão à luta, e que construam em conjunto com todos os trabalhadores portugueses a solidariedade de classe, mais do que as respostas caritativas, que são importantes mas insuficientes, sujeitas à ideia do favorzinho, e desvanecidas perante uma campanha de ódio como a que é lançada contra este centro de acolhimento no centro histórico da cidade.


     

    Autoria: Filipe Nunes e Sandra Faustino

    Imagens: André Paxiuta | https://www.apaxiuta.com/

  • Todos perdemos quando deixamos que o debate seja sobre “os bairros” e não sobre a polícia.

    Todos perdemos quando deixamos que o debate seja sobre “os bairros” e não sobre a polícia.

    Já passou uma semana sobre o brutal assassinato de Odair Moniz. E durante esta semana pouco se discutiu sobre os métodos da PSP. Pelo contrário, muitos foram os debates sobre os “bairros”, com o centro da discussão posta nas condições indignas de muitas dessas zonas periféricas da grande Lisboa, as questões socioeconómicas, os fenómenos de “marginalidade” ou a suposta apetência dos moradores dessas zonas para o crime. Esse debate, baseado sobretudo nos preconceitos de quem olha para estas zonas como eternos “bairros problemáticos” é importante se for feito exatamente para desmentir a ideia de que a criminalidade é um exclusivo das zonas desfavorecidas, ou para destacar os reais problemas inerentes às populações proletarizadas e excluídas dos direitos de “cidadania democrática”. Mas porquê agora? Foi “o bairro” que matou Odair? Não foi. 
    O que aconteceu agora, pela enésima vez, foi o total desrespeito pela vida humana de uma instituição que usa e abusa da autoridade conferida pelo estado (todos nós, em teoria) e que não é nem nunca foi uma instituição que promovesse “cidadania” democrática ou outra qualquer.

    Essa instituição é a Polícia.

    Odair_Moniz

    Carregamos em Portugal o peso de uma polícia que nunca deixou para trás os fundamentos teóricos e práticas diárias que adquiriu durante os períodos republicanos e salazaristas, carregamos uma visão de autoridade que só sobrevive enquanto o medo for a sua principal arma, e a mentira e impunidade o seu escudo.
    E nem é preciso partir de análises fundamentadas em princípios libertários e antiautoritários para o demonstrar. Basta a denúncia sistemática e organizada das práticas quotidianas, daquilo que acontece quando “ninguém está a ver”, e mesmo do que acontece à frente de toda a gente.

    O que aconteceu com Odair não foi a exceção, mas sim a regra. Não só o que aconteceu diretamente com ele ao tornar-se a enésima pessoa a ser morta, desarmada, pela polícia; mas também é regra especialmente o guião que todos testemunhámos nos dias seguintes e que se aplica nestas e noutras situações sem o fim trágico que esta teve:
    – Inventar uma mentira na hora, antes de qualquer investigação ou apuramento de fatos,
    – Responsabilizar a vítima por “agressões e ameaças à polícia”
    – Inventar uma arma que justifique as alegações de “autodefesa” (neste caso a faca que nunca existiu)
    – Campanha para manchar a reputação da vítima por questões individuais (“suspeito”, “com cadastro”, “àquela hora em local referenciado”), ou questões coletivas (“habitante de um bairro problemático”)

    O guião é, com uma outra nuance, basicamente o mesmo, previsível, eficaz, mas falível. E desta vez as falhas voltaram a ser muito visíveis, demasiado até para se manter a mentira inquestionável, como tantas outras vezes. Perante as mentiras e trapalhadas da Direção Nacional da PSP, entraram em ação todas as vozes que defendem uma polícia acima de tudo, até da própria lei.
    Foi então que se perdeu a oportunidade de obrigar a que o debate público se centrasse na real questão subjacente a este assassinato, quando as vozes que não defendem a impunidade policial foram desviadas uma e outra vez para a análise dos elementos laterais a esta revoltante história.

    Temos de ser capazes de uma vez por todas de pôr o dedo na ferida, e não deixar que depois de terem roubado a vida do Odair, roubem agora o centro do debate. Não se pode calar mais a realidade da atuação de grupos legalmente armados, que ao abrigo do monopólio da violência que lhes é entregue, se façam juízes, júris e carrascos de qualquer pessoa. Acima de tudo, importa referir que o problema não é a polícia ser mais ou menos diversa na sua composição, não é estar “infiltrada” pela extrema-direita, ser mais ou menos democrata, mais ou menos racista. Devemos levantar o problema essencial de que a nossa segurança esteja entregue a uma instituição tão problemática como o é a Corporação Policial, questionar as suas bases e fundamentos, e ser capazes de dizer que o racismo, o machismo e a permeabilidade da polícia às ideologias mais autoritárias agravam de fato o problema, mas não são a sua génese.

    Odair_Moniz

    Este tem de ser o foco da discussão, e a maior justiça que se pode fazer a Odair e a tantos outros é a de abolirmos de uma vez por todas a possibilidade que forças armadas com autoridade matem qualquer um impunemente, e não a de mandar este polícia para a prisão mantendo o resto da estrutura intocável.

    A autoridade que todos testemunham que Odair Moniz tinha naquele e noutros bairros da periferia lisboeta era uma autoridade que se confere quando pessoas são amadas, estimadas, e respeitadas pelas capacidades de entrega, de mediação, e de solidariedade. Essa autoridade que todos reconhecemos e que tem impactos positivos em qualquer comunidade, em qualquer bairro, em qualquer casa.

    A autoridade de quem se sente maior do que a lei, da imposição pela violência, pelo medo ou pela barbárie nunca será respeitada. Nem pode. Tem de ser combatida, e algum dia teremos mesmo de a substituir.

    Odair_Moniz


    Texto de  Nuno Pereira
    Fotografias de  Outros Angulos Garras


    O que se passa em Setúbal?