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  • Um anarquista que faz tremer um Estado

    Um anarquista que faz tremer um Estado

    Alfredo Cospito é um preso anarquista italiano de 56 anos que há mais de 4 meses leva a cabo uma greve de fome contra o regime de isolamento máximo 41-bis a que foi submetido desde Maio de 2022. Este é um regime prisional considerado, inclusive pelo Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, como uma violação dos direitos fundamentais do ser humano. À data que escrevemos, foi publicada uma carta, escrita quando ainda se encontrava na prisão de Sassari, na Sardenha, e que fora retida (que aqui publicamos), na qual Cospito declara como ama a vida: «e é porque a amo que não posso aceitar esta não-vida sem esperança».

    A sua «luta individual de um anarquista» representa a de quem está «disposto a morrer para fazer o mundo compreender o que é realmente 41-bis». Esta é, pois, uma luta pelos direitos humanos. Mas é igualmente uma luta concreta pelo direito de opinião e de expressão em pleno seio da Europa democrática. Alfredo Cospito fora colocado em 41-bis pelo motivo invocado de impedir que continuasse a escrever cartas e artigos para os seus companheiros no exterior. É por isso mesmo, tratando-se de uma luta pelos valores humanos e de liberdade, que esta é uma luta que reflete a condição mais profunda de um anarquista contra o Estado.

    O 41-bis é um regime concebido para isolar completamente as pessoas reclusas. Trata-se de forma clara e directa do exercício de tortura.

    Uma vida em luta

    Anarquista que luta desde final dos anos oitenta, Cospito esteve preso por insubmissão ao serviço militar obrigatório, que resultou, em 1991, numa greve de fome, em consequência da qual, depois de um mês de abstinência alimentar, veio a ser indultado pela Presidência da República italiana. Mas é já na segunda década deste século que o seu nome surge sob os holofotes de uma ampla atenção mediática, quando é detido em 2012 no âmbito da megaoperação Ardire (ousadia) pelo atentado não letal – três tiros nas pernas – contra Roberto Adinolfi, administrador da Ansaldo Nucleare, uma empresa responsável pela construção de centrais nucleares em todo o mundo. Reivindicado por uma célula da Federação Anarquista Informal, Cospito e o seu companheiro Nicola Gai assumiram o ataque, tendo Cospito sido condenado a 10 anos e oito meses de prisão.

    Na prisão desde então, em Setembro de 2016 veio a ser um dos alvos da operação Scripta Manent, acusado de associação subversiva com finalidade de terrorismo e de múltiplos ataques explosivos. Scripta Manent foi o nome dado a um dos mais importantes processos contra o movimento anarquista em Itália. Vinte e três pessoas foram acusadas de terem criado a FAI-FRI (Federação Anarquista Informal/Frente Revolucionária Internacional), sigla com a qual foram reivindicados, entre 2012 e 2016, diversos atentados com pequenos artefactos explosivos contra políticos, esquadras da polícia e jornalistas. O processo culminou com a condenação de 12 pessoas, a absolvição de 11, estando ainda pendentes as condenações de Anna Beniamino e de Alfredo Cospito, que arriscam o ergastolo ostativo, a pena máxima prevista a nível jurídico em Itália. Cospito foi inicialmente condenado a 20 anos de prisão por um ataque com explosivos em 2 de Junho de 2006 contra uma escola de cadetes dos carabinieri, ataque que apenas causou danos materiais. A Procuradoria veio a requalificar a acção como «massacre político», atentado terrorista «dirigido a atacar a segurança do Estado».

    Nos últimos anos como preso anarquista, tinha vindo a contribuir com artigos para revistas e jornais, e com propostas para o debate entre anarquistas a nível internacional.

    É precisamente por isso que Alfredo Cospito deu início à greve de fome, em 20 de Outubro último, reivindicando o fim desse regime, normalmente aplicado aos chefes da Máfia com o objectivo de cortar qualquer tipo de comunicação com o exterior.

    cospito
    Em resposta ao apelo nacional juntaram-se em Turim, a 4 de Março, mais de mil pessoas numa manifestação de apoio a Alfredo e a todas as pessoas presas em luta.

    Tortura

    O 41-bis é um regime concebido para isolar completamente as pessoas reclusas. Trata-se de forma clara e directa do exercício de tortura, provocando danos físicos e psicológicos através de técnicas de privação sensorial. Os reclusos apenas têm direito a uma hora de visita por mês, com vigilância electrónica e gravação de áudio e vídeo, ou, em alternativa, a uma chamada de dez minutos por mês de um familiar a partir de uma esquadra policial ou de uma outra prisão. Diariamente só está permitida uma hora de pátio e outra hora de convívio dentro do módulo, que é feita num grupo mínimo de duas pessoas e num máximo de quatro, mas cuja concretização carece de autorização superior de Roma.

    Na carta que aqui publicamos de Cospito, o universo de 750 reclusos/as alvo do 41-bis, remete-nos para um contexto que não foi feito simplesmente para encaixar chefes mafiosos. Há mais de 17 anos que a ele foram votados alvos políticos como os membros das Novas Brigadas Vermelhas, como Nadia Lioce, Roberto Morandi e Marco Mezzasalma. Em 2009, Diana Blefari, da mesma organização, suicidou-se, depois de se tornar insuportável a permanência neste duríssimo regime prisional.

    Decorridos quatro meses de greve de fome, no dia 24 de Fevereiro de 2023, a justiça italiana rejeitou o recurso interposto pelo advogado de Alfredo Cospito, Rossi Albertini, para que este pudesse sair do regime 41-bis. Desse modo, o governo de extrema-direita, por decisão política do ministro de Justiça Carlo Nordio, com a aprovação dos juízes da Guarda Penitenciária de Roma e dos juízes do Tribunal de Cassação, condenou à morte Alfredo Cospito, indefectível na sua luta. Actualmente encontra-se no Hospital San Paolo, em Milão, para onde foi transferido no dia 11 de Fevereiro devido à sua precária situação de saúde. Nessa data, a médica Andrea Crosignani informava que havia «o risco de edema cerebral e arritmia cardíaca potencialmente fatal. A sua condição é séria. Está lúcido e acordado, caminha sozinho, mas pode não demorar muito para que a situação se precipite». Já no início de Março, Cospito decidiu suspender a ingestão de suplementos de potássio e de açúcar.

    …tratando-se de uma luta pelos valores humanos e de liberdade, esta é uma luta que reflete a condição mais profunda de um anarquista contra o Estado.

    A sombra fascista da Itália à luz do dia

    O que está a acontecer com Alfredo Cospito mistura-se com um clima repressivo galopante em Itália, facilitado com a liderança do governo de Giorgia Meloni, do partido de extrema-direita Fratelli d’Italia. Mais além do movimento anarquista, assistimos a uma repressão cada vez mais opressiva contra trabalhadores, estudantes e movimentos sociais. Em Itália, chegou-se ao ponto de membros da comissão parlamentar da cultura declararem – visando o Arquivo Histórico da Federação Anarquista Italiana – que fosse retirado todo o reconhecimento público (e financiamento) de qualquer arquivo que faça uma «apologia do terrorismo», exigindo mesmo a intervenção do Ministério do Interior para identificar quaisquer documentos «perigosos» nas suas prateleiras de modo a serem censurados.

    Em Portugal, alguma comunicação social replicou a campanha do Estado Italiano, que forçado a reagir ao crescimento dos protestos e à solidariedade alargada com Cospito junto da sociedade civil, pretendeu equiparar anarquistas e mafiosos numa mesma retórica criminalizadora. Como declarou o advogado de Alfredo, «houve uma tentativa de explorar e demonizar Cospito. Só os que não conhecem o anarquismo ou as pessoas de má-fé podem afirmá-lo. Cospito não tinha intenção de se vincular à máfia salvo no que respeita à condição em que se encontram sob o 41-bis, ou à privação de direitos». Cospito expressou ainda o absurdo do paralelismo com a máfia: «o maior insulto para um anarquista é o de ser acusado de dar ou receber ordens. Quando estava no regime de alta vigilância [fora do 41-bis], havia censura de todas as maneiras, todavia eu nunca mandei um pizzini [papéis nos quais os chefes mafiosos escreviam suas ordens para seus subordinados], mas artigos para jornais e revistas anarquistas. Sobretudo pelo facto de eu estar livre para receber livros, revistas, livre para escrever livros e ler o que queria, tinha permissão para viver».

    Esses avanços repressivos ecoam por toda a parte e no coração de uma Europa, cuja crise social e militar internacional se agrava a cada dia que passa, proporcionando o contexto ideal para as derivas autoritárias dos governos. A solidariedade tem sido expressa ao longo dos últimos meses em várias partes do mundo para salvar a vida de Alfredo Cospito, desde concentrações diante de embaixadas e consulados de Itália em distintos países, atentados incendiários ou outras greves de fome em solidariedade. Em Portugal, em 4 de Janeiro, ocorreu uma concentração de cerca de 30 de pessoas diante da embaixada italiana. Estas movimentações assinalam não apenas o gesto de solidariedade, mas, de igual modo, um sinal de resistência ao ataque em curso à dignidade humana e à liberdade de expressão. Como o próprio Cospito afirma, esta sua luta é também uma luta por todos aqueles que hoje ou amanhã possam cair nas teias de regimes penitenciários semelhantes, privados dos direitos mais básicos que as chamadas sociedades democráticas alegadamente deveriam garantir.

     

    Carta de Alfredo Cospito

    A minha luta contra o 41-bis é uma luta individual de um anarquista, eu não faço nem recebo recados. Simplesmente não posso viver num regime desumano como o 41-bis, onde não posso ler livremente o que quero, livros, jornais, revistas anarquistas, de arte e ciência, bem como de literatura e história. A única hipótese que tenho de sair é renunciar à minha anarquia e vender alguém para que ocupe o meu lugar.

    Um regime onde não posso ter nenhum contacto humano, onde nem sequer posso ver ou apanhar uma mão-cheia de erva ou abraçar uma pessoa querida. Um regime onde as fotografias dos teus pais são confiscadas. Enterrado vivo numa sepultura num lugar de morte. Continuarei a minha luta até às últimas consequências, não por uma «missão», mas porque isto não é vida.
    Se o objectivo do Estado italiano é fazer-me «dissociar» das acções dos anarquistas de fora, que fiquem a saber que, como bom anarquista, não aceito recados. Acredito que cada qual é responsável pelas suas próprias acções, e como membro da corrente auto-organizada não estou «associado» a ninguém e por isso não me posso «dissociar» de ninguém. A afinidade é outra questão. Um anarquista coerente não se afasta de outros anarquistas por oportunismo ou conveniência.

    Sempre reivindiquei com orgulho as minhas acções (inclusivamente em tribunal, é por isso que aqui estou) e nunca critiquei os demais companheiros, muito menos quando existe uma situação como esta onde me encontro. O maior insulto para um anarquista é ser acusado de dar ou receber ordens. Quando estava no regime de Alta Segurança, também tive censura e não enviei nenhum pizzini [papelinhos através dos quais os chefes mafiosos supostamente passam as suas ordens], mas sim artigos para jornais e revistas anarquistas. E, acima de tudo, podia receber livros e revistas, e escrever livros, ler o que queria, até me era permitido evoluir, viver.Hoje estou disposto a morrer para fazer o mundo compreender o que é realmente 41-bis; 750 pessoas sofrem-no sem protestar, continuamente transformadas em monstros pelos meios de comunicação social. Agora é a minha vez, vocês transformaram-me num monstro tachando-me de terrorista sanguinário, depois santificaram-me como o mártir anarquista que se sacrifica pelos demais, para depois me voltarem a transformar num monstro, num terrível espectro. Quando tudo tiver terminado, serei sem dúvida elevado aos altares do martírio. Não, obrigado, não estou com disposição, não me presto aos vossos jogos políticos sujos. Na realidade, o verdadeiro problema do Estado italiano é que se cheguem a saber todos os direitos humanos que são violados neste regime 41-bis em nome de uma «segurança» pela qual tudo é sacrificado. Óptimo! Terão de pensar duas vezes antes de pôr aqui um anarquista. Não sei quais são as verdadeiras motivações e manobras políticas que estão por trás disto. E porque é que alguém me usou como uma «maçã envenenada» neste regime. Era muito difícil não prever quais seriam as minhas reacções a esta «não vida». O Estado, o italiano, é um digno representante da hipocrisia de um Ocidente que dá continuamente lições de «moral» ao resto do mundo. O 41-bis deu lições que foram bem aprendidas por Estados «democráticos» como o turco (os colegas curdos sabem algo sobre isto) e o polaco.

    Estou convencido de que a minha morte será um obstáculo para este regime e que as 750 pessoas que têm sofrido com ele durante décadas poderão viver uma vida que valha a pena, independentemente do que tenham feito. Amo a vida, sou um homem feliz, não trocaria a minha vida pela vida de outra pessoa. E é porque a amo que não posso aceitar esta não-vida sem esperança.

    Obrigado, companheiros, pelo vosso amor. Sempre pela Anarquia. Nunca curvado.
    Alfredo Cospito

     


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #37, Março|Maio 2023.

  • Cospito termina greve de fome. Regime 41 bis levado ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem.

    Cospito termina greve de fome. Regime 41 bis levado ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem.

    Alfredo Cospito decidiu encerrar a greve de fome no passado dia 19 de Abril. A greve de fome do preso anarquista contra o regime de isolamento máximo chamado 41-bis, numa denúncia à violação de direitos humanos básicos em Itália que gerou solidariedade em diversos países e continentes, durou 181 dias.

    No dia anterior ao comunicado do seu advogado Flavio Rossi Albertini anunciando o fim deste protesto que ficará para a história – e que aqui transcrevemos – teve lugar a audiência do Tribunal Constitucional de Roma sobre a legalidade ou não da acusação de “massacre político” (art. 285) contra Anna Beniamino e Alfredo Cospito, no âmbito do processo Scripta Manent, um dos mais acérrimos processos contra o movimento anarquista na Itália, e que visava aos dois anarquistas a colocação de bombas na escola de cadetes dos Carabinieri em 2006. Mesmo não tendo causado nenhuma vítima, o Estado requeria a aplicação do crime de “massacre político”, ou seja, que teriam colocado a segurança do Estado em risco, o que resultaria com essa acusação, numa única pena prevista, a de prisão perpétua sem possibilidade de redução. A 18 de Abril o tribunal considerou essa norma inconstitucional e, com isso, abriu a possibilidade de redução da pena de Anna Beniamino e Alfredo Cospito. Implícito ficou as dúvidas sobre a constitucionalidade a respeito de todos os casos nos quais a única pena prevista é a perpétua.

    Cospito termina a sua greve de fome, apresenta sequelas no sistema nervoso periférico: perdeu a sensibilidade de um dos pés, está com diminuição no outro e em uma das mãos. O término da greve de fome atendeu ao resultado anunciado pelo Tribunal Constitucional no dia 18, assim como a declaração de admissibilidade e consequente registo do recurso interposto pela advogada Antonella Mascia de Estrasburgo e pelo advogado de Cospito ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, tendo precisamente como objecto o regime prisional diferenciado previsto no 41-bis. O recurso, no qual foram denunciadas violações graves da Convenção Europeia dos Direitos do Homem, será avaliado quanto ao mérito no prazo de dois ou três anos (tais são os prazos para uma decisão) e poderá representar a escolha jurídica que proibirá o instrumento desumano de 41 bis, como aconteceu no caso de prisão perpétua.

    Como referiu o advogado de Cospito: «pode-se dizer que a luta empreendida por Cospito atingiu os objectivos estabelecidos, os tempos de espera para a decisão do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos”.

    Comunicado 19 de Abril de 2023

    “Era 20 de Outubro de 2022 quando Alfredo Cospito, durante a primeira audiência que tinha solicitado após a sua transferência para 41 bis de 4 de Maio de 2022, declarou que queria iniciar uma greve de fome.

    As razões para o protesto residiam nas duras críticas feitas pelo anarquista contra o regime 41 bis e no impedimento à prisão perpétua.

    Já passaram 181 dias desde 20 de Outubro em que que Cospito, através do seu corpo cada vez mais fino e exausto, revelou o que este regime prisional especial na realidade significa: privações ilógicas impostas aos prisioneiros, duras limitações sem um propósito legítimo, privação sensorial, um “ambiente orwelliano na cozinha” se constantemente observado e escutado pela câmara e microfone.

    E mais uma vez, a impossibilidade de ler, estudar e evoluir culturalmente, de receber livros e revistas do exterior quando enviados por editoras, reclusos cujos idosos são impedidos durante décadas de abraçar, ou apenas tocar, na mão de crianças, cônjuges, irmãos … 
Graças ao protesto de Cospito, às mobilizações do mundo variado do activismo político extraparlamentar, ao movimento anarquista, aos intelectuais que fizeram fila para apoiar as razões do protesto, ao mundo dos meios de comunicação social que permitiu transmitir estes argumentos incómodos aos lares das pessoas, milhões de súbditos, incluindo sobretudo as novas gerações, compreenderam a incompatibilidade de 41 bis o.p. com os princípios da humanidade do castigo e, portanto, com a Constituição nascida da luta antifascista.
 Graças ao caso Cospito, o 41 bis é cada vez menos tolerado por uma opinião pública que nos últimos meses tem sido chamada a desempenhar um papel activo na superação e banimento da indiferença em relação ao outro.

    A este resultado imediato, porém, há que acrescentar outro, nomeadamente a declaração de admissibilidade e consequente registo do recurso interposto pela advogada Antonella Mascia de Estrasburgo e pelo signatário ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, tendo precisamente como objecto o regime prisional diferenciado previsto no artigo 41-bis o. p.. O recurso, no qual foram denunciadas violações graves da Convenção Europeia dos Direitos do Homem, será avaliado quanto ao mérito no prazo de dois ou três anos (tais são os prazos para uma decisão) e poderá representar a escolha jurídica que proibirá o instrumento desumano de 41 bis, como aconteceu no caso de prisão perpétua.

    Por último, mas não menos importante, a vitória objectiva alcançada ontem com a decisão de ontem, 18 de Abril de 2023, do Tribunal Constitucional que, pelo que aprendemos com o comunicado de imprensa, não só decidiu sobre o destino do prisioneiro anarquista, como também fez uma declaração de inconstitucionalidade da proibição de prevalência de todas as circunstâncias atenuantes, no que respeita à reincidência repetida, para todos os crimes cuja pena legal é fixa e contempla apenas a prisão perpétua.

    Em conclusão, pode-se dizer que a luta empreendida por Cospito atingiu os objectivos estabelecidos, os tempos de espera para a decisão do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, ao contrário dos muito mais curtos da Consulta, não são de facto compatíveis com a greve de fome enquanto a decisão de Estrasburgo merece ser aguardada.

    Assim Alfredo Cospito, após 180 dias de jejum e depois de ter exposto a sua vida ao risco, tendo perdido 50 quilos e tendo agora comprometido irreparavelmente a sua função ambulatorial devido à deterioração irreversível do sistema nervoso periférico, a 19 de Abril de 2023 decidiu pôr fim à greve de fome.

    Ao fazê-lo, o mesmo agradeceu a todos aqueles que tornaram possível esta tenaz e invulgar forma de protesto. 

    Advogado Flavio Rossi Albertini , 19 de Abril de 2023»

  • Vincenzo não será enviado para Itália

    Vincenzo não será enviado para Itália

    Depois de Rennes e de Angers, o Tribunal de Lyon decidiu, em 24 de Março, que Vincenzo Vecchi não será extraditado para Itália. Uma grande vitória para o seu Comité de Apoio, que poderia ser efémera, como as duas anteriores.

    No entanto, ao contrário das duas anteriores, desta vez, o Ministério Público deixou passar o prazo para o recurso (28 de Março) e, dessa forma, a decisão do Tribunal de Lyon, torna-se efectiva e definitiva.

    Ao fim de três anos e oito meses de perseguição judicial implacável, Vincenzo Vecchi poderá finalmente circular de forma livre pelas ruas de França.

    Vincenzo está mais livre e rodeado de menos injustiça, o que não é o mesmo que dizer que foi feita justiça. Continua sem poder ir a Itália, onde o espera uma pena de cerca de doze anos. Talvez seja até arriscado tentar sair de França, uma vez que Itália pode, se o souber em Portugal, por exemplo, pedir a sua extradição ao governo português. E, tendo em conta as outras notícias que nos chegam de Itália, ser extraditado seria uma possível sentença de morte. Uma vida em fuga, com liberdade sempre limitada, que leva já mais de duas décadas e que não termina aqui. Mas que tem, neste momento em que esta decisão foi tomada, uma importância desmedida para a vida quotidiana (a vida) deste combatente.

    Notícias anteriores:
    As revoluções não se fazem com ramos de flores

    Liberdade para Vincenzo

    Justiça Francesa recusa extraditar Vincenzo Vecchi

    Caso Vecchi: o folhetim continua

    Vincenzo Vecchi: Tribunal Europeu manda executar os mandados de detenção europeus
    29 de Novembro – mais uma data fundamental para Vincenzo Vecchi
    Nuvens negras sobre Vincenzo Vecchi

  • MAPA #37 NAS RUAS!!!

    MAPA #37 NAS RUAS!!!

    A luta dos professores abalou a gestão instalada das reivindicações sociais e o Jornal Mapa decide dar-lhes destaque neste número 37, que acaba de sair para as ruas.

    Continuamos também a série de testemunhos e histórias do 25 de Abril que nos interessa comemorar, recordando a força inorgânica que quis moldar uma sociedade em que a vida «quase se cumpriu». Também em destaque continuam as lutas pelo território, das Alagoas Brancas ao Baleal, das populações que combatem a mineração no norte de Portugal às que o fazem na Sérvia ou na fronteira entre o Brasil e a Venezuela – processos cada vez menos «ambientalistas» e cada vez mais estruturalmente críticos. Entre promessas mais ou menos caritativas do Estado, a habitação é outro dos destaques deste número, da voz das periferias que se fez ouvir nas ruas de Lisboa à manifestação pelo direito a ter «Casa para Viver» que se avizinha.

    E, numa altura em que Vincenzo Vecchi parece estar cada vez mais perto de uma vida em liberdade, Alfredo Cospito, preso anarquista em greve de fome há mais de quatro meses contra o regime de isolamento máximo chamado 41-bis, denuncia a violação de direitos humanos básicos. Ainda sobre a (não) vida nas prisões, relembramos a dor não resolvida das mães de Danjoy Pontes e Daniel Rodrigues, que viram os seus filhos entrarem vivos na prisão para de lá saírem mortos. Há, ainda, em voz própria, o percurso prisional de um companheiro condenado a uma pena longa. Da fortaleza de onde não se pode sair para a fortaleza onde não se pode entrar, esta edição apresenta também novidades da política fronteiriça da UE que, despudoradamente, transforma a Frontex num centro de emprego e o drama dos migrantes numa oportunidade de negócio. Isto e bastante mais na edição 37 do Jornal MAPA.

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  • Vincenzo Vecchi: Tribunal Europeu manda executar os mandados de detenção europeus

    Vincenzo Vecchi: Tribunal Europeu manda executar os mandados de detenção europeus

     

    O passado dia 14 de Julho trouxe más notícias para Vincenzo Vecchi, os seus apoiantes e todos os amantes da liberdade. Nesse dia, o Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE), com sede no Luxemburgo, considerou que os mandados de detenção europeus (MDE) emitidos por Itália contra Vincenzo Vecchi devem ser executados.

    O caso tinha chegado a este tribunal depois, de em Janeiro de 2021, o Supremo Tribunal de Justiça francês (cour de cassation) ter solicitado ajuda ao TJUE por causa da complexidade jurídica desta extradição, já recusada duas vezes por tribunais franceses.

    De acordo com o TJUE, o facto de uma parte (neste caso, de longe, a maior parte) do crime pelo qual Vincenzo foi condenado em Itália ser estranha à lei francesa não deve ser tido em conta pelo sistema judicial desse país.

    Deve recordar-se que Vincenzo foi condenado sem qualquer prova, como fomos dando conta em várias notícias que publicámos sobre o caso. Mas o TJUE, no Luxemburgo, tal como, aliás, o Supremo Tribunal de Justiça, em Paris, e os tribunais em Rennes e Angers, não tem de se pronunciar sobre esse aspecto. Isto decorre do próprio do procedimento do MDE: os tribunais não se pronunciam sobre a substância dos casos em questão. Inocente ou não à luz da lei francesa, o tribunal decide apenas sobre a sua extradição para um país onde a culpa está mais do que decidida.

    Ao colocar-se ao lado das opiniões dos governos francês e italiano, o TJUE dá uma forte machadada no princípio fundamental da necessidade de prova para a existência de condenação. Do mesmo modo que no da presunção de inocência e no da responsabilidade individual (uma pessoa só se pode ser condenada por crimes que tenham sido cometidos por si própria). Ao mesmo tempo, trata de introduzir, no espaço jurídico europeu, uma lei italiana de 1930 que permite a condenação sem necessidade de prova de culpa concreta (de acordo com essa lei, basta estar presente no local onde decorre a manifestação para que a condenação seja possível, mesmo sem qualquer prova de participação directa nos actos pelos quais se é acusado). Ou seja, em Itália não é necessário provar a culpa de uma pessoa para a condenar a penas pesadas. Isto parece não preocupar o TJUE nem o governo francês.

    Vicenzo arrsica-se, assim, a ser condenado em França por crimes menores que não cometeu, a ser entregue às autoridades judiciárias italianas e a cumprir uma pena de 12 anos e 6 meses de prisão no seu país de origem.

    A próxima audiência, crucial e potencialmente fatídica, será no próximo dia 11 de Outubro, no Supremo Tribunal de Justiça (cour de cassation), em Paris.

    Está a decorrer uma petição, está previsto um stand na Fête de l’Humanité e haverá conferências de imprensa e outras programações em Setembro.

    Deixamos, abaixo, o comunicado do Comité de Apoio a Vincenzo Vecchi:

    «12 anos na prisão para alter-mundialista antifascista 21 anos mais tarde.

    Hoje, 14 de Julho, estamos indignados com a decisão do Tribunal de Justiça Europeu sobre o caso Vincenzo Vecchi. De todas as opções à sua disposição, o tribunal escolheu a mais radical, ou seja, não pôr em risco o objectivo da Decisão-Quadro que rege o Mandado de Detenção Europeu e a sua funcionalidade.
    Em suma, não perturbemos a colaboração entre Estados no espaço jurídico europeu e ignoremos os direitos fundamentais e as duas decisões judiciais dos Tribunais de Recurso de Rennes e Angers!
    Desta forma, o TJUE permite que uma lei de origem fascista e liberticida seja aplicada no espaço europeu e que um simples manifestante seja julgado culpado dos crimes cometidos à sua volta por outros.
    No final, a decisão será tomada pelo Supremo Tribunal de Justiça em Paris, em 11 de Outubro de 2022!
    Não aceitamos tal decisão.
    Continuamos mais do que nunca mobilizados para defender o nosso amigo Vincenzo e, em geral, o direito de manifestação e as liberdades fundamentais.»

     


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  • O «Mundo» morreu

    O «Mundo» morreu

    Muitos o conheceram por «Montano», «Transmontano», «Seixas» ou outro dos nomes das muitas identidades que utilizou em Portugal, Espanha e França. «Mundo» era o diminutivo por que o trataram desde tenra idade familiares, amigos e vizinhos na aldeia de Gralhas, no sopé da Serra do Larouco, a poucos quilómetros de Montalegre, quase a tocar a fronteira com a Galiza. Ali nasceu em 1947 e chamaram-lhe Edmundo Calado Seixas, o penúltimo de oito irmãos.

    Faleceu em Dezembro passado depois de uma vida intensa e interessante, pautada pela rectidão do seu carácter. A afabilidade no trato com a gente normal contrastava com a firmeza dirigida aos prepotentes. Estas qualidades não deixaram indiferente quem com ele se cruzou e seriam razão suficiente para esta evocação, mas há outras.

    Conheci-o em 1987 no hospital-prisão de Caxias, onde me encontrava a recuperar de uma das greves de fome de luta contra as condições prisionais, levadas a cabo pelo colectivo dos implicados no chamado “Caso FUP-FP25”. Edmundo chegou ali vindo de um dos hospitais civis, depois de baleado na sequência de um assalto a um banco que tinha corrido mal.

    Estava paraplégico e os médicos não só não lhe davam esperanças na recuperação como lhe asseveravam que não voltaria a pôr-se de pé. Esta opinião não era partilhada pelo fisioterapeuta, que o animava a não se render. O «Transmontano» correspondia: «se voltar a andar depender de mim, podem ter a certeza de que me vão ver a andar» ao mesmo tempo que incentivava aquele perito a prosseguir os exercícios terapêuticos, visivelmente dolorosos para os que estávamos presentes.
    Voltámos a encontrar-nos quase sete anos depois, ali, no hospital-prisão. Tal como prometera, vi-o a andar. Com a ajuda de ortóteses, que lhe fixavam as articulações da perna direita, e de duas canadianas, demonstrava aos clínicos que estavam enganados: punha-se de pé e andava. Como rotina diária subia as escadarias centrais do edifício, agarrando com o braço direito o corrimão de mármore e apoiando-se na muleta com o esquerdo para subir degrau a degrau. Tinha recuperado alguma autonomia. Para movimentar-se utilizava uma cadeira de rodas.

    O «Montano» era uma referência para presos enfermos que para ali eram encaminhados, viessem eles às consultas externas das várias especialidades ou para internamento hospitalar. Nas prisões de todo o país, aqueles que não pactuavam com o sistema prisional sabiam que podiam confiar nele. Era um de nós. Escusado será dizer que para os carcereiros o «senhor» Seixas passava por ser o responsável por tudo o que de «mal» acontecia ali. Se alguém fugia: «teve a ajuda do Seixas». Se iniciavam um protesto: «por trás disto está o Seixas». Se havia droga: «isso é coisa do Seixas». Era assim, tinha as costas largas.

    Desta vez a greve de fome que ali me levava já não era do colectivo de presos do “caso FUP-FP25”, vicissitudes daquele processo tinham-me atirado de novo para a prisão. Os três companheiros que se encontravam em cumprimento de pena, por não terem solicitado indulto presidencial, estavam confinados num sector do Forte de Caxias, onde podiam beneficiar de um tratamento prisional com algumas regalias conquistadas nas lutas dos anos anteriores, de que não beneficiavam os restantes presos, designadamente no regime de visitas privadas, cela individual e confecção de comida.

    Argumentando que queriam acabar com aquele «regime privilegiado», os responsáveis prisionais enclausuraram-me numa camarata vocacionada originalmente para seis presos, mas onde vivíamos 14, dois dos quais dormiam em colchões no chão. A sobrelotação prisional a isso obrigava.

    Se a lei prisional nunca é realmente cumprida, numa situação de sobrelotação é claramente violada pelo sistema prisional, em todos os aspectos da vida na prisão. Não é só o espaço que aperta mais e o tempo que retarda, as consequências manifestam-se em todos os âmbitos da cadeia, dos serviços administrativos à assistência médica, passando pelas visitas, até aos recreios. O Forte de Caxias, a prisão dos presos políticos da ditadura, encontrava-se à beira do colapso e, neste ambiente, a revolta foi ganhando expressão. No pátio foram-se juntando as vontades de protestar «contra as condições prisionais» e de lutar «por direitos consignados na constituição não respeitados nas prisões do país».

    Nas prisões de todo o país, aqueles que não pactuavam com o sistema prisional, sabiam que podiam confiar nele.

    A 15 de Março de 1994, trinta cidadãos de vários países iniciávamos uma luta que atingiria proporções até então desconhecidos no universo prisional português [ref] Para mais informação consultar «Presos em Luta – agitações nas prisões portuguesas entre 1994 e 1996», aqui: http://bit.ly/37xTwzT.[/ref]. No dia seguinte entraram outros 30. Dois dias depois a luta tinha alastrado às prisões de todo o território. E dez dias depois, tínhamos colapsado o hospital-prisão.

    A promessa de uma amnistia feita pelo director-geral dos serviços prisionais aos grevistas da fome do Forte de Caxias, por ocasião do 25 de Abril, levou-os a suspender até àquela data a luta, condicionando com essa decisão todos aqueles que a queriam prosseguir até que fossem satisfeitas as reivindicações da declaração de protesto e luta inicial.

    Os que estávamos no hospital-prisão comprometemo-nos em comunicado a retomá-la se assim não fosse e, poucos dias depois, iniciámos a redacção e publicação de seis «avisos» que constituíram um gritante levantamento das condições de reclusão em Portugal [ref] Para mais informação consultar «Presos em Luta – agitações nas prisões portuguesas entre 1994 e 1996», aqui: http://bit.ly/37xTwzT. [/ref].

    Seixas participou na sua redacção e foi um dos subscritores. Foram dirigidos a todos os orgãos de comunicação social com cobertura nacional e às principais instituições do país. Cada «aviso» centrava-se num tema diferente que afectava o universo prisional. Apenas um jornal e uma rádio deram, a 7 de abril, a notícia do primeiro aviso, estava focado na sobrelotação; o segundo, tratava as inconstitucionalidades; o terceiro, a saúde; o quarto, o trabalho; o quinto, a justiça; e o sexto, o amor.

    Sobre estes «avisos» o silêncio imposto foi total.

    Com a aprovação da amnistia e a consequente libertação de cerca de 2000 presos, as tensões nas prisões diminuíram de intensidade e nas semanas seguintes os últimos grevistas no hospital-prisão suspendíamos a greve de fome retomada a 26 de abril.

    Por «razões de gestão do sistema prisional» mantiveram-me preso no hospital-prisão e tive ocasião de fortalecer os laços de amizade com o Edmundo. Fizemos ali várias coisas em comum, destas destaco termos sido co-autores da tradução da primeira edição em português da obra Comentários sobre a Sociedade do Espectáculo de Guy Debord, que viria a ser editada em 1995 pelas edições mobilis in mobile. Ambos sairíamos em liberdade no ano seguinte e a nossa relação de profunda amizade manter-se-ia até à véspera do seu falecimento.

    Naquela altura o «Mundo» tinha já concluído o livro que escreveu para a filha e que começa assim: «Esta é a história vivida pelo teu pai. Depois de a leres julgarás em consciência se sou um homem venenoso e perigoso, como dizem, ou se fui atraiçoado pelo meu caráter de jovem inocente e sonhador. Quando me apercebi de que nem tudo era como me diziam foi tarde demais: estava rodeado de lobos por todos os lados e vi-me obrigado a aprender os seus costumes e linguagens para sobreviver. Só te peço que leias com atenção e decidas por ti própria se o teu pai é, de facto, um homem venenoso ou, se pelo contrário, foi envenenado.» Escrito a partir desta obra, segue-se um resumo breve da vida de Edmundo Calado Seixas:

    Edmundo_jovemAlbum familiar com a fotografia de um jovem Edmundo.

    E se as moscas não picassem as vacas, Mundo?

    No verão de 1955, nos arredores da aldeia, Mundo, com 7 anos, ajuda o pai, António, a lavrar a terra.

    As vacas desorientam-se, por via do excessivo calor e das picadas das moscas, partindo o arado e obrigando à construção de nova ferramenta, o que atrasaria a sementeira. Ao jantar, de mau humor, o homem deixa cair a tijela da sopa, por quente demais, discutindo com a esposa, Ti Camila, perante os oito filhos. Vizinhos, curiosos, assomam à porta. Ele lança o mocho [ref] Banco de três pés feito normalmente em madeira de carvalho.[/ref] atingindo na cabeça uma mulher que desmaia esvaindo-se em sangue. Pensando tê-la morto e temendo a detenção, como acontecera a um irmão condenado a 20 anos de prisão por furto não cometido, António abandona a casa. Para pagar despesas de saúde e compensar prejuízos causados, Mundo passa a ajudar nos afazeres agrícolas da vítima durante dez anos, vendo as irmãs distribuídas por vários familiares.

    Na tentativa de equilibrar economias e fugir à escravidão parte a salto para França em 64. A mãe contrai uma dívida de cinco contos, ocultando-lhe o dinheiro num entrefolho cozido no forro da samarra. Após várias e perigosas peripécias na travessia dos Pirenéus o grupo é aconselhado pelo passador a separar-se no comboio, para que a forma de vestir os não denuncie. Atordoado com uma multidão nunca antes contemplada, em Austerlitz perde-se dos companheiros. Um taxista, percebendo-lhe o desespero, agarra o papel com uma morada que tem na mão e convida-o a segui-lo, levando-o até aos arredores de Paris. A intenção de Mundo é que seja o amigo de acolhimento a pagar, mas a impossível comunicação irrita-o, por achar que duvidavam da sua palavra, e rasga a samarra entregando todo o dinheiro. Dá-se conta que acaba de ser espoliado perdendo também a morada de destino. Após horas de abatimento mete-se ao caminho sendo reconhecido por um operário que, do telhado em obras de uma casa, grita o seu nome. Na polícia de estrangeiros, procurando um atestado de residência, ordenam-lhe o abandono do país em 48 horas, por ser menor.

    Naturalmente não respeitará o édito. Protegido por Giovanne, um italiano de idade avançada, encarregado numa obra, consegue documentos de outro gabinete policial e começa a trabalhar na construção civil, vivendo num contentor. No entanto, dado o excessivo paternalismo do homem, abandona emprego e estadia. Pernoita numa pensão em Levallois onde, de madrugada, é levado pela polícia sem conhecer acusação. Durante dois dias, insultado e agredido, é exposto em várias esquadras para reconhecimento. Não sendo identificado libertam-no, impondo-lhe apresentações mensais até à maioridade. O incidente resultara dos registos de clientes da pensão entregues à polícia: tendo havido na zona uma série de assaltos a residências e estando o português dado como expulso há meio ano, a sua envolvência nos crimes pareceu óbvia às autoridades. Jean, o hospedeiro, encontra-lhe trabalho na Citroën, propondo alojamento em troca de ajuda no funcionamento do restaurante, onde vários portugueses, alguns exilados políticos, são clientes. Envolve-se com eles na criação da Association des Originaires du Portugal, em Vaucresson, apoiando logística e burocraticamente quem chegava sem contactos ou documentos. Numa ida ao banco para transferir o pecúlio de meses de trabalho na fábrica, é abordado por dois conterrâneos que o roubam com o «conto do vigário». O amigo Jean, conhecedor da pobreza familiar, convence-o a aceitar de empréstimo 5000 francos para enviar à mãe. Durante dois anos a vida parece rolar, mesmo o namoro com Annie, sobrinha do anfitrião, no entanto, as cenas de ciúmes relativas ao seu empenho nas tarefas da Associação onde várias raparigas colaboram, deitariam tudo a perder levando-o a afastar-se. Encontra Gisela, natural de uma aldeia vizinha, que o acolhe. A relação fortifica-se e Mundo inteira-se de um universo desconhecido. Diariamente a companheira confia-lhe dinheiro para gastos pessoais, dando aso a uma vida boémia. Em Pigalle resolve uma rixa entre portugueses e franceses, por motivos de não pagamento a uma prostituta. Apresentações feitas, os patrícios vivem do «conto do vigário» e ele quer saber como funciona a coisa. Logo ali experimenta com um italiano que procurava comércio sexual ficando-lhe com o relógio, dois anéis e umas centenas de francos. Gisela, não podendo esconder mais a vida luxuosa, confessa-lhe que vive do tráfico de cocaína, tendo como clientes altas figuras da sociedade francesa: advogados, juízes, professores universitários e actores. Tudo parece demasiado fácil. Deixa a Citroën, farto de patrões e exploração, e na companhia de «Gordo», outro transmontano, inicia-se como vigarista. Não passava um ano e, à entrada da gare do Norte, em atividade, é detido ingressando na prisão La Santé onde cumprirá oito meses. Como se recusa a coser etiquetas em camisolas, por conta de um espanhol companheiro de cela, e as queima para aquecer a água do café, usando a lata onde estavam armazenadas, a discórdia resolve-se à pancada. É transferido para uma cela com dois burquineses, condenados a oito anos por comerem um português, cumprindo um ritual tribal. Após as desconfianças iniciais o clima torna-se amistoso. Ouve pela janela insultos que o referem como homossexual, por não se descortinar zaragata com os canibais e desafia os injuriadores a enfrentarem-no no pátio do recreio. A peleja, que envolveu dezenas de homens, resultou num castigo de um mês de solitária. Através de um respiradoiro estabelece contacto sonoro diário com um companheiro de Mesrine, que o aconselha a dedicar-se a bancos e ourivesarias.

    O eco foi tal que passou a envergonhar-se das espoliações feitas aos que, vivendo do suor e sofrimento do trabalho, pertenciam, como ele, aos mais fracos da escala social. No dia da bola [ref] Saída da prisão após cumprimento de pena.[/ref] é conduzido à prefeitura de Paris onde antes fora expulso, na companhia de vários estrangeiros e de um funcionário do Ministério do Interior. Adivinhando o repatriamento aproveita uma distração e escapa pelo Metro.

    Consegue documentação falsa e armamento necessário aos novos empreendimentos: dois revólveres e uma metralhadora. Com «Gordo» e amigos ocasionais vão assaltando banco atrás de banco e uma ou outra ourivesaria, gastando as verbas que conseguem com relativa facilidade: álcool, cocaína, mulheres e festa. Em 73 concretizam o maior assalto à época, em Paris, que rende 3 milhões de francos expropriados ao Banc Franco Portugaise d’Outre-mer. Dada a proximidade da esquadra os jornais apontam um eventual conluio entre o responsável da empresa Securitas e o chefe policial.

    Mundo e Maude, nova companheira, partem em férias, com um amigo comum, numa longa viagem de automóvel. Meses depois, no sul do país, porque o dinheiro escasseasse, assaltam um Casino e regressam a Paris. Apercebendo-se pelas notícias do 25 de Abril, dirige-se à terra natal encontrando a mãe em discussão com um velho. Que quererá o homem?…. «Este homem é o teu pai, Mundo!» Fica a saber que Ti António trabalhara e mendigara por terras de Espanha, onde fora várias vezes detido por zaragatas, e que a ex-esposa o não aceita de volta. Ajuda economicamente os progenitores e parte para o Algarve onde o aguardam conhecidos parisienses. Uma rusga policial apanha-o numa discoteca em Olhão. Passa uma 7,65 mm a Maude que a guarda na carteira. Um jovem denuncia à polícia o movimento e, após forte arraial de porrada, são levados à prisão de Faro. Uma semana depois, com o apoio de outro detido, abre portas aos 70 reclusos. Expropria um banco em Braga e regressa a França, sentindo-se abatido por saber que os melhores amigos estariam detidos na Santé.

    “Esta é a história vivida pelo teu pai. Depois de a leres julgarás em consciência se sou um homem venenoso e perigoso, como dizem, ou se fui atraiçoado pelo meu caráter de jovem inocente e sonhador…”

    Alcoolizado, envolve-se numa rixa com argelinos que lhe rende um ano de prisão. No fim da pena é extraditado para Pinheiro da Cruz, cumprindo três meses por posse ilegal de arma, de onde sai a 4 de Janeiro de 76. Cruza-se com «Gordo» na baixa lisboeta e por água abaixo vão as tentativas familiares de lhe conseguirem um emprego: há um banco em Benfica, já estudado e um plano fácil de executar! Arrecadam 2800 contos. Em todo o seu percurso, umas vezes devido à euforia festiva, outras a brigas ou traições de companheiros, acabará por somar 25 anos de condenações, dos quais vinte [ref] Anos de detenção cumpridos.[/ref] em França, Espanha e Portugal.

    Numa longa elipse encontramos Edmundo em 87, aquando do assalto que o deixaria paraplégico. Concordando com a companheira Eva, grávida, que lhe sugere preocupação com o futuro, emprega-se como carteiro. Dois meses depois, descoberto o seu passado, é despedido. Junta-se a Miguéis, ex-agente da judiciária que conhecera em Vale de Judeus e, para orientar economias, concebe burlas a negociantes de automóveis. Aquando do nascimento de Neuza, a filha, aceita o desafio proposto por dois colombianos e, na companhia do ex-polícia, assaltam um banco em Santa Iria da Azóia. Mundo dispara para o teto e instiga os clientes a voltarem-se para a parede. Um homem não obedece fitando-o nos olhos. «Viras-te ou queres que te vá virar eu?» Com a arma apontada o renitente obedece. Os companheiros saem com o saco de dinheiro e entram no automóvel de fuga. Ele abandona o edifício e antes de entrar no veículo recebe um tiro nas costas, disparado pelo cliente que o enfrentara. Tenta responder com a Uzi e tomba sem forças. Os companheiros querem metê-lo no carro, mas, pressagiando a morte, o «transmontano» incentiva-os a fugirem. Sente-se inchar, como se fosse rebentar, à medida que vai perdendo sangue e a temperatura interna aumenta. Na cabeça cruzam-se imagens de Neuza com a voz repetida da mãe: «eles matam-te, meu filho, eles vão dar cabo de ti!» Rodeado de populares é insultado e agredido com um pontapé na cabeça que o conectará de novo à existência. Percebe que afinal não é ainda a sua hora e luta para sobreviver agarrando-se às elucubrações mentais. Após passagem pela cirurgia do São José acordará no hospital-prisão de Caxias, entubado no nariz, boca, peito e barriga, com paralisia dos membros superiores e inferiores.

    Abandonado pelos médicos, conta com a sua vontade e com o apoio de um companheiro de enfermaria, o «Fininho», de um dos enfermeiros, Balsinha, e do fisioterapeuta, Serrano, que o ajudam e estimulam na recuperação, apesar da negligência dos serviços médicos prisionais. Ao fim de um ano, apoiando-se no corrimão e ajudado por ortóteses e uma canadiana, sobe e desce as escadas do edifício. A revolta acentua-se ainda mais na garantia que Serrano lhe dá de maior recuperação, caso consiga saída diária para sessões de fisioterapia em Alcoitão. Essa autorização demoraria mais de um ano, sendo assinada numa altura em que, depois de duas semanas de sessões, o centro de reabilitação fechava para obras. Não tendo nunca colaborado com as instituições judiciárias e negando sempre as acusações que lhe apontavam, tudo foi tentado para o destruir física e emocionalmente: algo conseguiram! A título de exemplo refira-se apenas a forma como detiveram a companheira, num ardil presumivelmente montado pela polícia: dia de visita, portão externo.

    Tocando para entrar com a bebé num braço e sacos no outro, é abordada por uma senhora apressada saindo de um automóvel que lhe pergunta se é a esposa do Edmundo. Perante a resposta afirmativa, justifica-se: «desculpe, eu sou amiga dele, mas estou com muita pressa, neste envelope estão uma série de moradas que ele me pediu, pode entregar-lhas?». O portão abre-se. Ela entra para a revista com a filha ao colo, sacos e um envelope na mão, onde é encontrada uma grama de heroína que lhe renderá três meses de detenção em Tires. E, na verdade, como resultado deste incidente a família acabaria, com o tempo, por se desestruturar. Cumpridos nove, dos 12 anos a que fora condenado, é ouvido pelo juiz de penas, que lhe garante liberdade condicional se se comprometer a não importunar a Eva, que arranjara a vida com outro homem, e for para a sua aldeia cumprir os três anos em condicional. Com dois sacos, toda a bagagem, parte para Gralhas na carrinha dos serviços prisionais, de onde saíra 32 anos antes.

    GralhasPanorâmica geral da aldeia de Gralhas, situada nas faldas da serra do Larouco.

    Dada a insensibilidade, enquanto se aquece à lareira, os ténis derretem e queima os pés, obrigando-o a curativos diários que Ana, viúva do seu tio – o tal que, inocente, cumprira vinte anos de prisão – toma a seu cargo. De enfermeira a companheira deu-se o passo que duraria 22 anos, empenhando-se Edmundo na orientação da ética comportamental dos seus dois netos, Alexandre e Anabela, crianças à sua chegada. O carácter solidário manifestar-se-ia ainda na ajuda a vários conterrâneos, conseguindo-lhes, por exemplo, reformas relativas aos anos de emigração em França, as quais nem imaginavam que teriam direito. E valeu-lhe também a solidariedade de um ou outro dos que apoiara em Paris, nomeadamente na concretização de trabalhos agrícolas e de pastoreio, base da sustentação familiar. A frontalidade na apreciação dos acontecimentos e dos factos que ocorriam no seu entorno terá motivado o convite que lhe dirigiu o jornal de Montalegre, onde durante um período escreveu uma crónica intitulada “O Homem da Montanha”.

    Arvore

    Não se pense, no entanto, que as relações com o Estado se terão apaziguado. Devido a várias necessidades terapêuticas, sobretudo nos últimos cinco anos, derivadas do surgimento de escaras que, por negligência médica, originariam várias intervenções cirúrgicas, foi mesmo indispensável enviar queixa à Inspeção-Geral das Atividades em Saúde. Em Dezembro último, após remoção da bexiga cancerosa, foi-lhe dada alta hospitalar com excessiva medicação de analgésicos que, provavelmente, seria alterada aquando da consulta de dor, dias depois. No entanto, uma avaria da ambulância, adiaria o acto médico para data a remarcar. Por via do excesso de barbitúricos ou do próprio processo infeccioso, sem consciência do que fazia, retirou o tubo que o ligava ao saco colector da urina. Ingressado nas urgências é detectada uma infeção interna e é medicado com antibiótico, sem que tenham sido efetuadas análises sanguíneas. Morria de septicemia dez dias depois, com a mágoa de não ter nunca conseguido estabelecer com a filha uma relação de intimidade: quiçá a sua dor maior! Terminamos com o epitáfio publicado numa rede social por Alexandre: «seus ensinamentos, suas palavras para sempre farão eco nas nossas consciências. E seu amor e postura protectora para sempre aquecerá nossos corações. Sentirei saudades eternas daquele que foi um dos homens mais fortes e melhores que já pisaram este planeta. Até sempre e descanse em paz, vô!»

    E se as moscas não tivessem picado as vacas, Mundo?


    Texto de Fernando Silva
    Fotos de Frederico Lobo


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #26, Fevereiro|Abril 2020.