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  • UE considera que Israel comete crimes, mas…

    UE considera que Israel comete crimes, mas…

    A análise do serviço diplomático da UE (Serviço Europeu para a Ação Externa – SEAE) e da Comissão Europeia sobre se as acções de Israel merecem o congelamento do seu acordo de associação foi divulgada na íntegra pela primeira vez pelo site EUobserver.

    O documento «restrito», de oito páginas, foi distribuído às embaixadas dos Estados-Membros em Bruxelas na sexta-feira (20 de Junho). Nele, a UE corrobora as alegações da ONU de que Israel é culpado de «ataques indiscriminados… fome… tortura… tortura … [e] apartheid» contra os palestinianos.

    Entre outras coisas, o relatório conclui que «com base nas avaliações efectuadas pelas instituições internacionais independentes, há indícios de que Israel estaria a violar as suas obrigações em matéria de direitos humanos, nos termos do artigo 2º do Acordo de Associação UE-Israel”, o que é motivo para o congelamento desse tratado com 25 anos, e que poderia custar a Israel mil milhões de euros por ano em benefícios comerciais.

    «A fuga de informação do SEAE deixa bem claro que as instituições da UE sabem muito bem o que está a acontecer em Gaza (…) e que não o negam, nem procuram justificá-lo de uma forma bizarra», disse H.A. Hellyer, do Royal United Services Institute, um grupo de reflexão com sede em Londres.

    «Se a UE não atuar de acordo com as conclusões deste documento, a sua credibilidade será incrivelmente prejudicada», afirmou Hellyer, numa altura em que os ministros dos Negócios Estrangeiros e os líderes da UE se preparam para discutir o seguimento a dar a este documento em Bruxelas, esta semana.

    Lembremos que um anterior relatório do Serviço de Negócios Estrangeiros da UE sobre Israel, realizado em Novembro passado, também falava de «crimes de guerra» israelitas, mas não deu origem a qualquer acção.

    Desta vez não deve ser diferente: o projeto de conclusões para a cimeira da UE da próxima quinta-feira, a que o EUobserver teve acesso, deixava em aberto, de acordo com este site, «o que os dirigentes da UE tencionavam dizer sobre o documento de Kallas, deixando-os livres para “tomar nota” passivamente, em vez de subscreverem corajosamente as suas conclusões».

    Foto: Outros Ângulos
  • Acerca da guerra como investimento

    Acerca da guerra como investimento

    Há algo de novo a assinalar. Algumas pequenas e simpáticas livrarias estão a abrir aqui e ali na grande metrópole de Nova Iorque. Acabámos de sair da Lofty Pigeon Books. Três livros na montra tinham despertado a nossa curiosidade: O Direito à Preguiça, um texto de Walter Benjamin e uma história das grandes greves operárias nos Estados Unidos. A poucos passos dali, num bairro a sul do Prospect Park, em Brooklyn, deparamo-nos com uma rua onde reina a animação. O tempo está bom e há uma grande multidão. Tinha passado uma semana desde o ataque do braço armado do Hamas em Israel. De repente, ficamos atónitos. À nossa frente, está uma figura de cartão de um soldado do exército israelita em tamanho real, com todo o equipamento mortífero. Duas pessoas, sorridentes, interpelam os transeuntes. No passeio do outro lado, um grupo de jovens distribui as publicações do Democratic Socialists of America (DSA) e, mesmo em frente, uma banca de apoio aos migrantes da América Central e do Sul angaria assinaturas para uma petição em prol da destruição do muro da vergonha entre o México e os Estados Unidos. Uma banda colombiana toca músicas animadas de Cumbia, que abafam a retórica dos propagandistas do exército de Israel, e atrai uma pequena multidão de dançarinos. Vinte metros adiante, um stand de judeus que se opõem à guerra distribui panfletos. O primeiro stand de guerra é evitado pelos passeantes, na sua maioria famílias com crianças e muitas mulheres muçulmanas com lenços na cabeça. O bairro é um meltingpot, com judeus hassídicos, latino-americanos, paquistaneses e afegãos. A estação de metro mais próxima fica no meio de um bairro conhecido por Little Bangladesh; uma zona de mansões luxuosas completa a paisagem. Depois do espanto, ficámos aborrecidos. Pensando bem, a indiferença óbvia da maioria dos transeuntes pareceu-nos a atitude mais inteligente e digna a adoptar. Transformar o soldado de papelão num soldado invisível. Mesmo sabendo que a barbárie se desencadeia e que a realidade não pode ser ignorada.

    O facto de os grupos pacifistas judeus serem parte activa na oposição à guerra clarifica o debate e enfraquece os excessos nacionalistas e racistas.

    Nos Estados Unidos, dois factos marcaram as primeiras reacções à guerra e aos bombardeamentos maciços de Gaza. O primeiro foi a presença, pelo menos na Costa Leste e na Califórnia, de uma forte comunidade judaica que se opunha à guerra. As primeiras acções contra a guerra foram conduzidas por esta corrente: a ocupação de uma parte do Congresso em Washington, a ocupação da Estátua da Liberdade em Nova Iorque e, sobretudo, o bloqueio por milhares de pessoas da segunda maior estação de Manhattan, a Grand Central, que terminou com centenas de detenções. Posteriormente, outras acções directas deste tipo continuaram a ser levadas a cabo nas grandes cidades, mas a verdade é que grupos como o Jewish Voices for Peace e o ifNotNow são minoritários numa comunidade judaica que abraçou o nacionalismo sionista e é apoiada por recursos económicos substanciais. Ironicamente, esta comunidade está agora a forjar uma aliança com os seus antigos inimigos, os outros devotos da mensagem bíblica, as correntes evangélicas, os pilares de Trump e do partido republicano. O facto de os grupos pacifistas judeus serem parte activa na oposição à guerra clarifica o debate e enfraquece os excessos nacionalistas e racistas. O movimento sionista tem um poder enorme na comunidade judaica e não faz concessões. Há anos que agências especializadas perseguem os judeus dos meios académicos, intelectuais, científicos, artísticos e sindicais que se opõem à política do Estado de Israel, intimidando-os, denunciando-os publicamente e pressionando para que sejam despedidos dos seus empregos, ou mesmo para que ninguém lhes dê trabalho. Os exemplos são muitos, porque os opositores judeus do sionismo também o são. A filha de uma amiga, activa no boicote aos produtos israelitas, viu ser-lhe recusado um lugar de professora para o qual tinha qualificações. Um funcionário do principal sindicato de professores de Nova Iorque, que tem fortes ligações ao Partido Democrata, foi despedido depois de ter assinado uma declaração apelando a um cessar-fogo. Isto apesar dos veementes protestos da tendência de esquerda do sindicato a que pertence a nossa jovem amiga Mary. Um historiador meu amigo, feliz reformado, especialista da antiga organização revolucionária internacionalista judaica Bund, do início do século XX – que foi combatida pela corrente sionist, (ver Henri Minzczeies, Histoire générale du Bund, l’échappée, 2022), viu-se na lista negra de uma dessas temíveis organizações. Nas suas palavras, «se criticas, discordas ou te opões a Israel, és classificado de “anti-semita”.» E acrescenta: «Para eles, um judeu que critique Israel é um “anti-semita”!» Nas universidades, as pessoas que afirmam pertencer à corrente judaica antiguerra são ostracizadas e, aqui e ali, os jornalistas são despedidos e o seu trabalho censurado. Os patrões das empresas financeiras de Wall Street pedem à Universidade de Harvard que lhes sejam remetidos os nomes dos estudantes que assinaram um texto de crítica a Israel (New York Times, 19 de Outubro de 2023). Comentário do nosso amigo historiador: «Que ironia extraordinária, judeus a perseguirem judeus porque protestam contra o Estado judaico!»

    RachelWood
    Fotografia de Rachel Wood

    Um segundo aspecto esclarece a situação. Do outro lado do Atlântico, esta guerra é claramente vista como uma nova guerra americana. As acções e declarações do governo norte-americano sobre a questão não deixam margem para dúvidas. Além disso, a administração Biden tem feito questão, desde o início, de ligar a guerra na Palestina à guerra na Ucrânia, «ameaças diferentes» que, na sua opinião, estão a convergir para enfraquecer o poder americano. Esta retórica é também utilizada para uso interno: procura enfraquecer os opositores republicanos, que se opõem cada vez mais à ajuda ao governo ucraniano, que ultrapassou os 113 mil milhões de dólares (mais de metade dos quais em ajuda militar directa). Estas guerras são essenciais para «a segurança da América», porque «é a América que preserva a segurança global». (Biden, 19 de Outubro de 2023).

    A um nível mais concreto e menos ideológico, a administração norte-americana associa directamente as actuais guerras aos interesses capitalistas. A intervenção dos EUA é, nas palavras de Biden, «um investimento inteligente que pagará dividendos para a segurança das gerações futuras»; mais especificamente, as armas fornecidas à Ucrânia e a Israel são «um bom investimento para os Estados Unidos, porque uma boa parte do dinheiro voltará para as empresas americanas responsáveis pela substituição do stock de armas». E Biden acrescenta: «Hoje, os patrióticos trabalhadores americanos estão a construir o arsenal da democracia e a servir a causa da liberdade». A guerra como um investimento capitalista, tinha de ser dito, agora estão a dizê-lo!

    Então, não é surpreendente que, durante a sua visita a Israel após o ataque do Hamas, Biden e a sua corte tenham assistido ao primeiro gabinete de guerra e dito à imprensa que os membros da máquina militar americana permaneceriam no gabinete para «evitar que os israelitas se precipitassem numa invasão desproporcionada» (citado no NYT de 20 de Outubro de 2023). E também não podemos ficar admirados por saber que as negociações sobre a troca de prisioneiros estão a ser conduzidas entre os serviços secretos da região sob a supervisão da CIA, The Company. É a América que supervisiona e governa o massacre. A presença nas costas de Gaza e de Israel de uma armada de porta-aviões e de submarinos nucleares confirma-o.

    JewishVoiceForPeace
    Fotografia de Jewish Voice For Peace

    Fotografia [em destaque] de Jewish Voice For Peace


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #40, Janeiro|Março 2024.

  • De Gaza a Odemira

    De Gaza a Odemira

    Com o 7 de outubro e o genocídio em Gaza, o cessar-fogo urge para, em oposição à guerra, enfraquecer os excessos na­cionalistas e racistas. Em trauma e sob vigilância sionista, as famílias e comunidades israelitas, que fizeram de sua casa o sudoeste alentejano, temem juntar a sua voz na defesa pela vida e com a Palestina. A realidade não pode ser ignorada, e perante a barbárie, o silêncio pode ser ensurdecedor.

    Odemira, primeiro sábado de 2024. Três meses depois do horror da incursão ter­rorista do Hamas de 7 de outubro em Israel e con­tabilizada a perda de cerca de 30.000 vidas palestinianas, entre mortos e sepultados nos escom­bros, depois da resposta do exér­cito israelita em Gaza. Dirijo-me a AlmaOhana, uma pequena comunidade de israelitas e pes­soas de outras nacionalidades, criada em 2021: uma mais das que veio repovoar o sudoeste alente­jano com o sonho de um estilo de vida regenerativo. A fogueira na rua do monte alentejano já aquece do frio invernal quem vai chegando para um «Círculo de Partilha para o Luto, Conforto e Compreensão em relação a Israel e à Palestina».

    Joey, Eva, Noy e Matthias, os anfitriões, juntam pela ter­ceira vez quem procura enten­der «como é que esta guerra está viva na comunidade local e internacional aqui no Alentejo, com o objetivo de fomentar uma nova cultura de apoio e união em pequenas comunidades que enfrentam conflitos globais». Já entre as paredes de taipa, aque­cidas pelas salamandras, a dança fluirá inicialmente por entre os 26 participantes aí reunidos. Confidencialmente, ouço quem toma a voz para expor o que vive e sente. Sobretudo, recolho em mim os medos, angústias, deses­pero e vergonha nas vozes israe­litas. Mais ainda porque, pela pri­meira vez, há duas palestinianas no círculo, cujas vozes, embar­gadas ou iradas, nos atingem em profundidade e sem concessões. A intensidade da dor e da perda, e a incompreensão absoluta da desumanidade em Israel e Gaza, une o círculo numa base comum, resumida ao mais básico: a defesa da vida e da paz.

    Tenho-me cruzado com gente que tem moldado este território, propondo modos de vida alterna­tivos, demonstrando a viabilidade de outras relações com a natureza, e garantindo um futuro saudável aos novos alentejanos, nascidos das mais de oitenta nacionali­dades registadas só no concelho de Odemira. Na última década, nos mercados entre a Aldeia das Amoreiras ou São Luís, o hebreu quase subsituiu o ecoar das vozes em inglês. As famílias e as comu­nidades israelitas chegaram em força aos vales e lugares recôn­ditos que pautam a cartografia hippie do território.

    Construir esta nova comunali­dade, tão empolgada na sua ves­timenta eco-alternativa, solicita aos israelitas, mais do que nunca, uma palavra sobre o drama humano em curso. Porém, o silên­cio imperou desde o 7 de outubro e tornou-se um peso demasiado incómodo face à inominável atro­cidade que fez do horror terro­rista um pretexto para aniquilar o povo palestiniano a uma escala sem precedentes nestes 75 anos de ocupação da Palestina. Nesse silêncio, compreensível na sua dor e trauma, o ódio abria cami­nho, forçando as pessoas a esco­lher lados, como se só pudesse haver dois lados. Sem se ouvir um afirmativo apelo ao cessar­-fogo. E foi deste incómodo que parti para escutar palestinianas, israelitas e quem mais se propôs viver no Alentejo o sonho de outro mundo, fugindo, outra palavra não haverá, da barbárie humana.

    Silêncio quando as crianças dormem, não quando são mortas.

    Eva, com quem falamos antes de nos encontrarmos na AlmaOhana, empenhou-se em criar um espaço de escuta e de fala sobre este tópico. «Como alemã, criticar as políticas de Israel coloca-te muito rapidamente na gaveta do anti-semitismo. As pessoas estão muito assustadas em falar». Cres­ceu com esse desafio e a sua pri­meira viagem fora da europa «foi a Israel, para tentar tirar um sen­tido disso». Aqui, no Alentejo, «vemo-nos uns aos outros na nossa dor, em círculos de partilha e nos mercados», mas «não falar­mos sobre isto não é natural. De que comunidade se trata afinal? Será que quando chegamos ao ponto de a questionar face a con­flitos globais ela simplesmente colapsa, porque apenas se reúne num nível light?». Daí o desafio de abordar em comunidade «tópicos pesados, onde podemos come­çar a construir uma nova cultura de apoio».

    Na busca de um «consenso básico sobre o que se está a pas­sar na nossa comunidade», o pri­meiro círculo de partilha teve lugar três semanas após o início da guerra. «Foi muito agitado, vivo e doloroso». O segundo decorreu mais calmamente, mas em ambos pesava a falta de duas palesti­nianas convidadas, a residir na zona. Não se sentiam à vontade, desde logo, pela diferença numé­rica com israelitas. Joey, nascido em Israel, contou-nos, por isso, que o grupo entendeu tomar uma posição contra o que se está a passar em Gaza, assim como pelo resgate dos reféns: «perce­cionar a dor em ambos os lados». «Por isso gostaria que os israe­litas ouvissem as vozes pales­tinianas, e claro que não estou a falar de todos os israelitas… Há muitos que não querem ouvir o outro lado».

    Estes encontros intimistas não escondem a intenção de se projetar na comunidade local, fortalecendo as iniciativas que, pese tardiamente, saíram à rua como a concentração pelo cessar-fogo que, uma semana antes, na vila de Odemira, a 29 de dezembro, reuniu dezenas de portugueses, israelitas, palestinianos e outras nacionalidades no largo frente à câmara municipal.

    Trauma. Culpa. Solidariedade.

    Essa concentração foi uma demonstração pública há muito aguardada pelas duas palestinianas residentes em Odemira com quem falámos. Aida, uma conhecida ativista pela paz da comunidade Tamera, coletivo que desde a primeira hora veio a público exigindo o cessar-fogo; e Haneen, uma jovem mãe de Gaza, com dois filhos, a residir na zona há cerca de 5 anos.

    Para Haneen «têm sido tempos muitos desafiadores, mas procuro estar rodeada de pessoas com quem posso falar, que compreendam a situação e mostrem solidariedade. Mas não posso mentir, houve muitos momentos em que me desliguei, pois vivi este tipo de atrocidades. Sobrevivi a quatro grandes agressões em Gaza. Estive em várias situações perto da morte, nem me lembro de todas…»

    Não lhe é fácil o exercício de equiparação, na escala dos horrores, entre o 7 de outubro e o genocídio que se passa em Gaza, razão pela qual não consegue lidar com o silêncio à sua volta. «Há pessoas que eu tenho como amigas na comunidade israelita e que não tomaram qualquer posição. A um deles perguntei se podia, ao meu lado, erguer um cartaz de cessar-fogo e respondeu-me que não o podia fazer. Como manténs a solidariedade se não és capaz de um tal ato? Desculpem, mas isto faz-me sentir muitas coisas ao mesmo tempo. Sinto-me desapontada». Esse amigo entende ser importante «querer levar as histórias de Gaza, a minha história pessoal, aos corações da sociedade israelita. E sim, eu quero que isso aconteça, mas ao mesmo tempo vejo que ele está com o medo de ser culpabilizado, de ser atacado». A incompreensão estende-se à comunidade, em particular, «que fala em desenvolver uma consciência, novos valores culturais, uma nova humanidade e trazendo novos modos de vida. E ver que isso não se relaciona com outros lugares no mundo».

    Haneen compreende que «ambos os povos estão a experienciar um trauma. O receio da perda das suas vidas e dos seus entes queridos. A sobrevivência. É algo que vem de um lugar de medo e de proteção, e que o governo israelita ativou nas pessoas para ter permissão de fazer o que quiserem. Mas, ao mesmo tempo, os palestinianos vivem sob ocupação há 75 anos e não podem continuar a viver dessa forma para sempre.

    Não se trata de escolher lados, mas de tomar consciência da realidade tal como ela é. Enquanto estivermos a negar a realidade nunca estaremos num novo caminho para prosseguir. Quando peço que tomem posição, trata-se de reconhecer uma realidade na qual eu sou afetada pela situação mais do que o outro. Há um desequilíbrio, e é isso que tento explicar».

    Aida nota que o perfil da maioria dos israelitas de que aqui falamos é «gente alternativa, com mentalidade de esquerda e um coração aberto». «A maioria deles vive num lugar de culpa pelo que se passa na Palestina» e o acontecimento traumático de 7 de outubro, deu-lhes «a possibilidade de se declararem igualmente vítimas. Isso fornece uma desculpa para se manterem em silêncio, o que é muito perigoso». É algo muito sensível, no qual será sempre «mais fácil ficar nessa resposta traumática, sentido a dor pelo teu próprio povo, sem tomares a responsabilidade de apelar claramente ao cessar-fogo e ao fim do genocídio dos palestinianos».

    «Esse trauma criado, de raiva e ódio, é escolher um lado. Estão a criar uma nova geração de Hamas e de soldados israelitas criminosos».

    A essa resposta traumática somam-se as circunstâncias particulares da condição israelita, bem distinta da palestiniana, o que, para Aida, pode igualmente explicar o silêncio. «Os israelitas que aqui estão, a sua maioria, estão financeiramente bem, com familiares, amigos, projetos e empresas em Israel. Mas Israel enlouqueceu sobre qualquer um que fale contra a guerra em Gaza». «Os israelitas serão culpabilizados se se posicionarem contra a guerra. Por isso, se o teu coração não é verdadeiramente revolucionário e se não está pronto para pagar o preço, e se tens uma bolha para estares no Alentejo, silencioso e bonito, então apenas cultivarás os teus vegetais e não falarás disso, do que se passa em Gaza. E isso é um silêncio de privilégio».

    Para Aida, o facto é que, «apesar da minha dor, eu tenho de me esforçar em pedir cooperação, pois eu sou quem é mais ferido. Por isso dirijo-me aos internacionais e locais que podem fazer algo, abrindo espaços onde palestinianos e israelitas possam falar. Eu acredito que as pessoas judaicas, com boas intenções e com amor, serão os melhores agentes. A sua voz é mais forte que a minha, porque para o povo deles eu ainda sou o inimigo. Mas se um judeu israelita falar com eles com a mesma energia, de amor e justiça, dirá que é tempo de reconciliação. Um judeu a falar disso tem mais valor, pelo que apelemos aos israelitas no Alentejo para criarmos algo fora da zona de conforto».

    odemira
    Fotografia de António Falcão

    Quebra de Confiança

    Alon e Pnina são uma família israelita que, no seu terreno, para os lados dos Lameiros, abre portas à comunidade nos muito concorridos mercados da Azula. O mercadinho de artesanato e afins, comida, música e dança tornou os domingos da Azula um ponto de encontro de referência. Juntámo-nos em dezembro passado no café Nativa, espaço da Regenerativa Cooperativa Integral em São Luís, numa conversa que se estendeu tarde adentro. Era a primeira vez, depois do 7 de outubro, que punham cá para fora as suas impressões e rapidamente o encontro resultou num improvisado círculo de partilha juntando-se à mesa quem mais por ali ansiava ouvir e falar sobre o assunto.

    O trauma do massacre do Hamas e a resposta genocida do exército israelita abalaram-nos visivelmente. Nas gavetas em sua casa ainda estão as t-shirts com Free Palestine estampado, que envergaram tal como muitos outros israelitas de esquerda que apoiaram os palestinianos anos a fio. Saíram de Israel após o conflito Israel-Gaza, de 2014, à data a maior operação militar israelita desde a Guerra de Gaza de 2008 (que contabilizou a morte de 2000 palestinos e 60 militares israelitas, números que ilustram bem a escalada da atual guerra). Haviam chegado a um ponto insuportável. «As nossas duas filhas, então com menos de 2 anos de idade, já aprendiam no jardim infantil em como se baixar e proteger a cabeça. Eu própria olhando para um muçulmano e receando, porque cresci assim, a ver bombas a explodir», conta Pnina. «Não quero que as minhas filhas os julguem assim, mas que deem uma oportunidade como seres humanos. Por isso saímos.»

    Para Pnina, o 7 de outubro «foi o momento mais difícil na minha vida como judia». Mais do que em 4 de novembro de 1995 quando Yitzhak Rabin foi morto. Então foi para matar o sonho da paz, agora foi um “assegura-te de que a paz não vai acontecer”». Desde então muitos mais israelitas vieram para cá e Pnina não precisa dizer o que transparece no seu olhar. «Os israelitas estão em trauma. O que se passou é algo que nenhum ser humano pode compreender. A maioria dos israelitas que foram mortos eram de esquerda, os que acreditavam na paz, voluntários que faziam o transporte de crianças doentes de Gaza para os hospitais em Israel, os únicos em Israel que davam a sua vida pela paz. E agora a confiança quebrou-se, não apenas com os árabes, mas com o governo israelita, pois o sentimento é que o exército do país não veio em seu socorro. Durante 24 horas as pessoas foram queimadas, raptadas, violadas e ninguém do exército israelita veio para os salvar.»

    «Se não está pronto para pagar o preço, e se tens uma bolha para estares no Alentejo, silencioso e bonito, então apenas cultivarás os teus vegetais e não falarás disso, do que se passa em Gaza. E isso é um silêncio de privilégio.»

    Sinto o resultado contraditório desta quebra de confiança. Por um lado, a dor quanto à inumanidade do Hamas sobre os israelitas. Esses, diz Pnina, «que davam a sua vida pela paz. Como é que a partir desse dia podemos olhar para os palestinianos e dizer que continuamos a acreditar na paz? Estou a falar das pessoas que eram muito radicais acerca da paz, os mais radicais em Israel. Viviam aí, havia amizade. E se lhes perguntares hoje, dizem-te: «vão lá e matem-nos!”. Pessoas que nunca na sua vida pensavam em matar palestinianos. Isso vem da dor e parte-se-me parte o coração ouvi-los reagir dessa forma tão adversa. É errado, terrível, mas eu não os consigo julgar. Vieram até às suas casas, às 7 da manhã, violaram as suas mulheres, mataram as suas filhas. Foi tão maldoso. Eu não consigo julgar, apenas dizer-lhes que têm de continuar a acreditar na paz».

    Por outro lado, a certeza das responsabilidades do governo israelita no que se passou. Em ter aberto as portas no dia 7 de outubro. Não hesitam em apelidar de louco e nazi a bibi” Netanyahu. «Foi ele quem matou o processo da paz e pagou ao Hamas, todos os meses, muito dinheiro, para que não houvesse qualquer solução política. Mantendo-lhes o estatuto, pensando que se manteriam quietos». Todo um enredo, criado pelos Estados Unidos e Israel, que potenciou o desfecho do Hamas. Já Aida nos apontara essa premeditação por parte do governo israelita, assim como as acusações de israelitas à inação do exército, que esperou «que matassem as nossas filhas e filhos para que pudessem implementar o planeado projeto económico e político. O projeto para um segundo nakba [êxodo palestino de 1948], de enviar Gaza para o deserto, para o Egipto e Jordânia, e tomar Gaza. Um projeto colonial que se está a expandir», e a que se junta a cooperação dos Estados Unidos e Israel para garantir o monopólio do gás natural do Levante à Europa, ao invés do gás russo ou iraniano.

    Posto isto, para Pnina, o contraditório assola-a naquilo que poderia significar vestir hoje a sua t-shirt free palestine, ou ao ver essas palavras nas paredes do mercado municipal de São Luís. «Free Palestine – eu morreria por uma Palestina livre mas hoje parece tudo misturado, as pessoas e as organizações terroristas». Quando na página da Azula «postei algumas coisas sobre os reféns, sobretudo os bebés raptados», Pnina diz-se surpreendida com as reações: «de como me atrevia a escolher lado pois a Azula é uma espécie de espaço comunitário. Mas nós somos israelitas, não posso bloquear isso. E sim, eu esperava da comunidade alternativa aqui que dissessem de forma muito clara depois do 7 de outubro: tragam de volta os bebés raptados e não apenas Palestina Livre! O 7 de outubro não é acerca de libertar a Palestina, mas acerca de terroristas que trouxeram tamanha dor».

    Por tudo isso Alon e Pnina compreendem o silêncio. «Uma das formas de reação foi fechar-nos em nós mesmos, o que é tomar um lado. O que é compreensível, mas não justificado». Alon não esconde que «é a primeira vez que falo mais do que dois minutos sobre o assunto, pois falei sobre isto toda a minha vida e estou cansado. Por isso decidi ir à minha vida, tratar das minhas crianças e ter uma comunidade aqui à minha volta. Criar o meu mundo e formar parte de um corpo forte juntos». Mas sabe que o que está em causa aqui «não é escolher um lado. O que está em causa aqui não tem a ver com os povos palestinianos ou israelitas». Pnina corrobora: «Isto não é acerca de palestinianos e israelitas, mas acerca do poder». Para Alon, esse «trauma criado, de raiva e ódio, é escolher um lado. Estão a criar uma nova geração de Hamas e de soldados israelitas criminosos».

    Compreender não é justificar

    Este consenso acerca da ilusão dos «dois lados» é algo que surge também na conversa que tive com Aida, na Tamera. «Não se trata de escolher lados, mas sim de tomar uma posição pela vida. Se há dois lados é entre a vida e contra a vida. E é muito fácil ver quem está pela vida e quem não o está. Eu apelo às comunidades israelitas que tomem uma posição pela vida e que façam uso do seu privilégio em falar, não contra Israel, nem contra o povo judeu, mas contra o governo e o exército de Israel». «Há um plano que é contra as pessoas, todas as pessoas. Não nos deixemos prender na posição entre israelitas e palestinianos».

    Não tomar lados começa assim por tomar consciência da realidade tal como ela é e a palavra ocupação vem colada ao estado de Israel. Como me contou Haneen: «eu cresci durante a ocupação. Crescemos todos em diferentes realidades, a minha é a ocupação. A dos tipos do Hamas é ocupação. Quando cresces em tal realidade, cresces sem compreender porque é que estamos a ser controlados, atacados. Lidando com perdas, uma e uma vez mais. Acredito que nós, palestinianos e israelitas, temos muito a desaprender, nomeadamente acerca das nossas histórias pessoais, de forma a alcançar um entendimento. Porque em Gaza, asseguro-te, há estes tipos do Hamas, mas há antes de mais um povo que quer apenas viver pacificamente, que realmente não quer violência, nem qualquer tipo de controle sobre as suas vidas. Eu sou uma simples pessoa de Gaza, uma simples jovem mulher com duas crianças, dizendo: queremos viver em paz. E a sociedade israelita precisa de ver isso. Há muita desaprendizagem e pontes a fazer para acabar com a ocupação e desmantelar este sistema que causa toda esta atrocidades e violência entre ambos os povos, o ódio, as matanças. Trata-se de desmantelar o sistema, pois enquanto este existir, como é que podemos vislumbrar outro caminho? Não sei como explicar, mas olhando para alguém do Hamas, e não estou a defendê-lo, mas a falar da realidade, que cresce, perdendo a sua mãe, as suas irmãs, irmãos, primos, em ataques, não tendo qualquer comida nem controlo sobre a sua vida, sem esperança por um futuro: como é que esperamos que ele venha a ser?».

    Razão pela qual, reitera Aida, «há uma grande diferença entre justificar e compreender». «Para os palestinianos em Gaza que tentaram de tudo, todas as medidas não violentas, pacíficas, culturais, poéticas, todas as formas de resistência, que lhe foram negadas, consigo compreender, no fundo do desespero, que também uses a violência para te libertares. Eu não o justifico, gostaria que não fosse assim, mas consigo compreendê-lo».

    Haneen assinala, à luz do que se está a passar, que Israel «vem de um lugar com um passado de trauma e de ter experienciado ele mesmo o que se passa. Podemos, sim, falar do holocausto, mas ao mesmo tempo do facto de não quererem ver o que se está a passar em Gaza, exatamente aquilo que lhes foi feito».

    Amor antes da Religião

    Alon e Pnina falam-nos, por sua vez, das suas raízes. «O nosso sangue é árabe, somos árabes judeus. A minha família [Pnina] vem da Líbia. Eu não tenho um lugar para voltar, mas eu acredito em Israel, tal como acredito que possamos viver juntos. Porque a minha cultura, a música, a comida, é mais árabe que israelita. Os meus pais falavam árabe e não hebreu, a minha avó não sabia uma palavra em hebreu. Mas depois disto que se passou, se eu disser que sou árabe judeu, olharão para mim como… Põem-me de lado».

    Para Alon, «se houvesse um deus, estas coisas não teriam acontecido, porque todos rezamos ao mesmo deus, somos irmãos, temos sangue vermelho e comemos do mesmo prato. Guardo do meu avô as palavras – amor antes da religião. A casa dele em Jerusalém fora-lhe oferecida por ser uma pessoa muito respeitada e na porta dizia salamalekum [que a paz esteja contigo em árabe]. Tinha amigos árabes que vinham no Shabat, sentados e comendo do mesmo prato. Sem diferenças culturais, mas numa comunidade, Jerusalém, em harmonia antes de Israel ser criada. A partir do momento em que esse nome é inventado pelos europeus, esse é o momento em que o caldo venenoso começou a ser cozinhado».

    «Há uma grande diferença entre justificar e compreender».

    «Por isso “amor antes da religião”. Porque a religião diz não matarás, mas dá-te a permissão para matar». A religião surge como o elefante na sala. No lugar mais religioso do planeta.

    Nessa ténue linha que separa a defesa da vida ou da morte, que a religião encobre, não pude deixar de partilhar a minha incredibilidade quanto à questão dos mártires. Porque é que quando os mortos não são mortos, são mártires? Diz-me Aida que «há que ir ao contexto cultural. Para uma criança que acabou de perder os seus pais, é mais fácil dizer que são mártires em vez de dizer que foram mortos. Sempre que existeuma luta coletiva, como esta que dura há 75 anos, em que lutas e és oprimido, precisas de justificar a vida dos que morrem. A ideia do martírio, que não é apenas árabe, fala de culturas onde a dignidade é mais importante que a vida. A dignidade é extremamente importante para os árabes». «Israel controla tudo à nossa volta. As nossas vidas são tão controladas que temos a convicção que somos esquecidos a não ser que façamos muito barulho; por isso, esta identidade de martírio é equivalente a um desespero profundo, de que a tua vida não tem significado se não viveres com dignidade».

    Aida lidou com a questão muito cedo na sua vida. «Há um slogan que vem da primeira intifada [1987] que dizia quando a violência eclodiu: “nós morreremos e a Palestina viverá livre”. Eu tinha 16 anos nessa altura e desafiei isso. Quando nós todos morrermos, que palestinianos viverão? E como slogan repliquei: “nós vivemos e fazemos a Palestina viver”. Disse-o e logo alguns homens, jovens palestinianos, vieram ter comigo: “como te atreves!! Pedir pela vida e vida pela Palestina”. Mas essa é a minha escolha».

    Como estás na tua comunidade?

    Ao longo destas conversas em Odemira, com origem em Gaza e Israel, fui desafiado em diversas ocasiões em expor e desfazer ideias feitas. Para Aida, a perda de sentido na frase Free Palestine, de que fala Pnina, resulta do erro fatal de misturar Palestina com o Hamas, que ambas concordam ter sido alimentado por Israel. Diz-nos Aida que, contra a OLP (Organização para a Libertação da Palestina), a organização de raiz socialista que defendeu desde 1988 a solução de dois estados, «o Hamas foi criado por Israel para dividir e controlar. E o Hamas fala de uma posição sem horizonte de esperança, onde a religião fala por ti, a extrema-direita fala por ti. O Hamas é a expressão desse desespero. Israel, com ajuda dos Estados Unidos, travou e acabou com qualquer proposta palestiniana liberal, inclusiva. Forçaram as pessoas a eleger pessoas como o Hamas em Gaza».

    Para Aida a questão com o Estado de Israel «é que não se trata da questão de “se estás aí”, mas de “como estás aí”. O governo israelita tornou claro, desde o início, que esse “como” é eliminando outras nações. Por tudo isto, «cabe-nos a nós, israelitas, palestinianos e todos, que criemos instituições e modos de dizer: não em nosso nome.»

    Um caminho que vai sendo trilhado nesta particular geografia humana das comunidades do sudoeste alentejano onde, como Alon nos disse, diferentes pessoas de diversas nacionalidades, israelitas e palestinianos, internacionais e locais, carregam consigo os seus «danos culturais». «Carregamos essa bagagem connosco. Nasci lá, os meus pais criaram-me lá, mas eu posso escolher onde morrer, e foi aqui que eu escolhi. Aqui me sinto em casa, mais do que em Israel. Em vez de termos dois lados, não nos podemos sentar e falar?».

     


    Texto de  Filipe Nunes (com a colaboração de Silvia das Fadas)


    Artigo publicado no Jornal Mapa, edição #40, Janeiro | Março 2024

  • Hiroshima Palastina

    Hiroshima Palastina

    Uma das formas mais eficazes para não ter de tomar posição sobre um assunto é descartá-lo através da fórmula «é uma situação complexa» (como se houvesse alguma coisa simples). Israel devia ter essas palavras escritas na bandeira, tantas são as vezes que servem para relativizar o projecto colonial, o regime de apartheid e a limpeza étnica do povo palestiniano por que são responsáveis há décadas. A complexidade desta «situação» particular é adensada por factores emocionais e históricos. Não há como não sentir um misto de perplexidade e de desconforto ao ver o Estado de Israel repetir os mesmos actos que vitimaram o povo judeu ao longo de séculos e séculos de perseguição. E não há como não recordar que o holocausto foi feito mesmo à nossa porta e com a nossa conivência. Foi ontem e os seus fantasmas ainda convivem nas fotos e nas memórias de muitas famílias.

    Para além destes complexos de culpa, na tolerância ocidental escondem-se, ainda, com pouca discrição, os mesmos preconceitos e mecanismos de que se fizeram muitos genocídios. O racismo e os processos de construção da identidade que insistem em estabelecer uma diferença entre um «nós» e um «eles» continuam a alimentar comunidades. E a legitimação dos actos mais perversos por via de processos de «racionalização» sinistros não desapareceram. Israel, ainda por cima, parece-se «connosco». É vista como um bastião de democracia num mar de fundamentalismos. Participa na Eurovisão e nas competições desportivas europeias, tem gente jovem e progressista e é um paraíso queer e vegan. Podia muito bem ser na Europa. No fundo, o que torna a «situação complexa» e faz de Israel um país melhor do que os «outros» é – parafraseando os punks israelitas Dir Yassin – «pedir desculpa quando mata inocentes»; é os seus «soldados terem olhos azuis e escreverem poesia»; é usar tecnologia militar avançada e não ter esconderijos nem recorrer a pedras, mísseis toscos e bombistas suicidas (in “All our planes have returned safely”).

    Talvez ajude deixarmos de nos deslumbrar com alegadas afinidades «identitárias» e largar a insistência em confundir a história do povo judaico com o Estado de Israel. O assunto perde parte da sua complexidade se recusarmos cair na armadilha da «culpa» e da «vergonha» que tantas vezes serve os interesses dos mais poderosos. E é de poder que se trata. Episódios como esses fazem parte de um mesmo contínuo irredutível a religiões ou culturas: fazem parte de uma história de poder. Só a presença de forças mais insidiosas permite compreender que aqueles que ainda têm visíveis as feridas de um passado recente possam fazer do holocausto que as provocou um pechisbeque, como alguém dizia na televisão há dias. Nenhum Yom HaShoah (Dia da Memória do Holocausto) evitará que o passado se repita enquanto não forem destruídas as estruturas e os mitos que sustêm a persistência das formas de dominação e de autoridade que alimentaram os actos mais tenebrosos da história da humanidade.

    AkrabutPosto isto, é possível compreender que quem vive num Estado militar e seja doutrinado no ódio para com o vizinho desde que nasce possa acreditar que reside num Oásis protegido por um muro. O que não é tão compreensível é que os cidadãos do «mundo ocidental» dito democrático dêem as cambalhotas mais espalhafatosas para justificar cada crime cometido por Israel. Especialmente quando, há décadas, nos chegam vozes do território israelita que não demonstram a mesma tolerância com o governo do sítio onde vivem e nasceram. Foi, aliás, na cena punk-hardcore israelita que se concentraram algumas das expressões mais dissonantes. Particularmente pujante nos anos 90, dela jorraram palavras e acções que poucos no Ocidente se atrevem a pronunciar com medo de serem rapidamente estigmatizados e apodados de «anti-semitas». A banda que mais terá contribuído para a explosão da cena punk-hardcore israelita foi Nekhei Na’atza, surgida na primeira metade da década de 90 e movida por um profundo desprezo por um Estado fundado na religião e no militarismo (o primeiro EP, editado 1994, intitulava-se Renounce Judaism). Em 1997, tornar-se-ia a primeira banda punk a lançar um LP em Israel, Hail the New Regime. Na capa, o então recém-nomeado primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, o mesmo que anos depois voltaria a ocupar o cargo e nele permanece até aos nossos dias, aparecia a fazer uma saudação romana. Um dos legados mais importantes de Nekhei Na’atza foi a influência que teve na renúncia e na deserção do serviço militar obrigatório por uma parte da juventude israelita que circulava no meio underground, o que a tornou um alvo frequente das autoridades. Das suas cinzas surgiriam os já referidos Dir Yassin, banda que viria a alcançar maior projecção internacional. Formada em 1997, fez de cada uma das suas músicas a garantia de que não soariam apenas «músicas calmas e bonitas» enquanto as bombas continuassem a cair (in “Brotherly Mass Grave”). Na denúncia destemida da ocupação da Palestina pelo Estado Israelita não hesitavam em usar a palavra «genocídio» e em denunciar o «complexo do holocausto» como uma desculpa (in “Independence Day”).

    Foi na cena punk-hardcore israelita que se concentraram algumas das expressões mais dissonantes.

    Nos dias que correm a virulência da «cena» punk israelita parece ter esmorecido. Para isso terá contribuído o crescimento da extrema-direita na sociedade e no Estado israelitas e uma dinâmica demográfica em que muitos dos seus integrantes emigraram para fugir ao serviço militar, para além de um número maior de imigrantes entrou no país em busca da «terra prometida». Para Federico Gomez, vocalista dos Nekhei Na’atza, a sociedade israelita é hoje mais intolerante e racista do que era nos anos 90. Como consequência, a crítica à ocupação da Palestina tornou-se mais dissimulada e a mensagem mais críptica e focada na vida dentro do Estado de Israel. Algumas das excepções podem ser encontradas na compilação Standing Together Against Annexation, que foi lançada em 2020 e reúne 38 bandas de punk israelitas, na sua maioria com letras em hebraico. Entre elas encontramos nomes como Akrabut, Kids Insane (que já tocaram em Portugal), Useless ID, Deaf Chonky e MooM. No geral, confirmam-se as referências menos directas à ocupação e as críticas dirigem-se mais para a «doutrina do medo» e para a «cultura de violência» de um Estado militar. Mas em bandas como os Akrabut, na música “Hiroshima Palastina” (também nome do EP que lançaram em 2018), encontramos preservada a intransigência dos anos 90. Há pouco, em plena ofensiva israelita, deixavam nas redes sociais uma pequena frase: «ninguém viverá em paz enquanto a Palestina não for livre». O que nos recorda que os bombardeamentos podem ter parado entretanto, mas a paz continua a ser uma miragem.

    Bandas e compilações como estas podem parecer pouco mais do que pedras lançadas a tanques. Mas, para além do impacto que têm no próprio contexto asfixiante em que existem, recordam-nos que o Estado de Israel nunca agradou sequer a muitos daqueles que pretende representar. Para os mais púdicos, talvez ajude a classificar aquilo que fazem nos termos adequados e que de complexo tem pouco:«“limpeza étnica», «colonização» e «apartheid». Libertem a Palestina!

     


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #31, Julho|Setembro 2021.


    #palestina #apartheid #nekheina’atza #diryassin #punk #Israel #música #punk-hardcore #mapa31

     

  • Sofrimento Animal: De Portugal a Israel

    Sofrimento Animal: De Portugal a Israel

    A exportação de animais vivos para o abate religioso judaico (kosher) e muçulmano (Halal) em Israel tem levado um grupo de ativismo vegano em Setúbal a documentar a situação nos portos de Setúbal e Sines. Um «ativismo de compaixão», assim o apelidam no testemunho que fizeram chegar ao Jornal MAPA.

     

    Para o «Setúbal Animal Save» fica sempre a questão: haverá alguma forma humana de matar alguém que não quer morrer?

    Os portos de Setúbal e Sines têm sido palco do negócio de exportação de animais vivos em Portugal por via marítima desde 2015. Em 2018 saíram de Portugal 347,961 animais a bordo de navios, em viagens que têm uma duração de 6 a 12 dias. Um aumento exponencial de cerca de 127,000 animais quando comparado a 2017. E, como qualquer outro negócio, o objetivo será sempre o de aumentar a produção e o seu consequente lucro.

    Em janeiro de 2017 surgiu o grupo de ativismo vegano em Setúbal sob o nome «Setúbal Animal Save – Stop Live Exports», pertencente ao movimento internacional «The Save Movement», que apela à documentação e sensibilização do que representa o transporte animal vivo até ao seu abate. Realizamos vigílias à porta de matadouros, leilões de animais, mercados e, no nosso caso, portos marítimos. O foco está em consciencializar a sociedade para o facto de os chamados «animais de criação», que aparecem embalados nas prateleiras de supermercados, são criados somente para a exploração e usufruto do ser humano, quando na realidade são animais com as mesmas qualidades de qualquer outro animal doméstico que tenhamos em casa e consideramos família. A única diferença que os separa reside apenas na nossa consciência, na nossa perceção, na educação e cultura em que crescemos.

    Marcamos presença durante todos os embarques de animais em Setúbal e Sines e documentamos estas vidas. Usamos cartazes, distribuímos panfletos e filmamos os animais dentro dos camiões durante a sua entrada no porto, oferecendo um pouco de compaixão durante o pouco tempo que nos é permitido estar com eles. Assim incentivamos a despertar para esta consciência, abafada pela indústria pecuária e pela publicidade que oferece sempre ao consumidor uma imagem enganadora de animais felizes e a viver em liberdade.

    A exportação de animais vivos é um flagelo, quer da perspetiva animal, quer da perspetiva ambiental. A agropecuária industrial destrói ecossistemas inteiros e é a maior causa de destruição do planeta, como apontam as Nações Unidas.

    Setubal Animal Saves

    Durante as vigílias tivemos oportunidade de documentar algumas situações de ferimentos graves em vários animais, como cornos e pernas partidas, um prolapso grave numa cauda de um borrego, duas vacas deitadas dentro dos camiões a ser espezinhadas por outras vacas, animais com sintomas de doenças e até um carneiro com um corno a crescer para dentro da sua própria face. Todas estas situações ocorrem antes ou durante o transporte terrestre. Não podemos afirmar ao certo que estes animais chegam a embarcar pois, por lei, não estariam em condições de prosseguir viagem ou sequer de entrar nos camiões. Mas os relatos e filmagens que nos chegam dos nossos colegas ativistas em Israel, do grupo «Israel Against Live Shipments (Israel Animal Save)», mostram consecutivamente animais feridos, imundos, cobertos de excrementos e urina. E em todas as viagens existem fatalidades.

    Todos estes animais passam por uma temporada de quarentena, de 2 a 8 dias, em quintas sem as mínimas condições de higiene e sem a possibilidade de receberem assistência veterinária, caso estejam doentes ou feridos. Selecionados, serão depois enviados para quintas de engorda ou para o matadouro. As imagens que nos chegam de Israel mostram uma constante repetição de sofrimento.

    Esta realidade continuará até ganhar voz um sentimento, que cremos generalizado, que abomina os maus-tratos contra qualquer animal. A compaixão e solidariedade ao próximo são valores universais presentes em todas as culturas e religiões, no entanto, a grande maioria da população parece ser cega à realidade vivida pelos animais procriados e explorados dentro da agropecuária.

    Por todo o mundo, para consumo humano são mortos cerca de 150 biliões de animais sencientes anualmente. Mais de 70% de toda a área florestal do planeta está a ser substituída por quintas de procriação, de engorda ou de monocultura de alimentos para estes animais. A maioria dos consumidores desconhece esta realidade ou escolhe não aceitá-la. Mas sabemos também que a maioria não está a favor desta indústria de exportação de animais vivos, pois toda ela existe com base num conjunto de práticas que sujeitam animais a situações dantescas até chegarem ao seu destino e a uma morte que nos é difícil imaginar.

    A nossa missão como movimento passará sempre por tentar unir a sociedade numa só consciência, numa verdade que nos é comum a todos: a de que uma vida sem sofrimento é um direito de todos os animais. O sofrimento sente-se de igual forma, sejamos humanos ou não-humanos, e a compaixão deve oferecer-se porque acreditamos na justiça e queremos deixar um planeta mais saudável para as gerações futuras. Que não fique destituído de vida, pois só temos este e ele não é substituível


    Mais informação e updates em: https://www.facebook.com/setubalesinesanimalsavestopliveexports/


    Texto de Setúbal Animal Save [setubalanimalsave@gmail.com]
    Fotos de Alex Gaspar


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #23, Abril|Junho 2019.

  • Sobre a ocupação de Israel na Palestina

    Sobre a ocupação de Israel na Palestina

    Este podcast surge de uma conversa com 2 companheirxs israelitas que vieram a portugal fazer apresentações sobre a situação atual da guerra e ocupação de Israel na Palestina. Estivemos então à conversa com Dana e Iran que vieram partilhar experiências de luta e procurar solidariedade entre outrxs. Este podcast é falado em inglês, com algumas partes traduzidas para português.

    https://soundcloud.com/user-740288582/podcast-palestinaisrael

    Músicas:
    Ana Tijoux e Shadia Mansour- Somos Sur
    Twisted Nixon- Stone throwing riot intifada Palestine

    Links de interesse:
    www.coalitionofwomen.org/?lang=en