Etiqueta: Israel

  • Solidariedade com deslocados libaneses

    Solidariedade com deslocados libaneses

    No próximo dia 29 de Maio, no RDA 69 (Regueirão dos Anjos n°69, Lisboa), haverá um evento de apoio aos deslocados pelos ataques israelitas no Líbano.

    Através de um programa de rádio ao vivo e em formato café-performativo, escutar-se-á LAND 02 e LAND 03, duas colectâneas de música inéditas produzidas por pessoas no Líbano que integram a comunidade Tunefork Studios e Beirut Synthesizer Center. Haverá também leituras, notícias, um concerto de Sallim e tempo para dançar.

    Todas as doações angariadas revertem para o Beit Aam (ver lista abaixo), um espaço comunitário em Beirute que normalmente acolhe eventos culturais, exposições e encontros e que, desde o recomeço da guerra (a 1 de Março), criou uma cozinha comunitária que serve centenas de refeições e fornece artigos de primeira necessidade a vários abrigos.

    Para além deste colectivo, o site From the Periphery Media tem estado a fazer uma lista de links para colectivos / projectos de apoio a pessoas afectadas pelas mais recentes vagas de terror do Estado israelita sobre território libanês. Uma lista em actualização que pode ser consultada aqui.

    Apoio Mútuo Queer Líbano: https://www.patreon.com/qmalebanon
    – Comunidade Queer Vulnerável: https://www.gofundme.com/f/lebanon-urgent-shelter-and-humanitarian-relief
    – Apoio mútuo para pessoas deslocadas do Sul do Líbano: https://www.instagram.com/p/DATycq8Jew9
    Ajuda a equipar as equipas de primeiros socorros do Líbano: https://fundahope.com/en/campaigns/equip-lebanons-first-responders
    Rede de Apoio (شبكة دعم): https://fundahope.com/en/fundraisers/shbk-daam-support-network
    Saqf Wahad (سقف واحد): Uma iniciativa voluntária de solidariedade que pretende proporcionar alojamento às pessoas deslocadas pela guerra em curso no Líbano: https://sakf1initiative.carrd.co
    – 
    Beit Aam (بيت عام): Estamos a distribuir este formulário no meio da guerra sangrenta que Israel está a travar contra o nosso povo no Líbano. A nossa Beit Aam está a acolher várias famílias deslocadas em Beirute, mas precisamos de voluntários para ajudar a transportar alimentos, colchões e outros bens essenciais. Por favor, preenche o formulário para te voluntariares.
    Coligação de Resposta a Emergências: Vozes dos Invisíveis: «uma coligação de grupos que se dedica a vários temas, tais como os direitos dos migrantes, os direitos dos refugiados, os direitos LGBTQ, a pobreza menstrual, a segurança alimentar e a segurança habitacional.»: https://gogetfunding.com/emergency-response-coalition-voices-of-the-unseen/
    Apoia Basmeh & Zeitouneh através de The Syria Campaign «Fundada por refugiados, para refugiados»: https://act.thesyriacampaign.org/donate/donate-to-B-Z/
    Jeyetna: combater a pobreza menstrual no Líbano: https://www.kisskissbankbank.com/en/projects/jeyetna-8c9552ee-7ca1-44dc-ae85-c9d6974b1737
    O Coletivo de Solidariedade com o Líbano é uma rede independente de pessoas e activistas de base residentes no Líbano, empenhada em prestar apoio mútuo directo e apoio no terreno: https://app.lacagnottedesproches.fr/cagnotte/liban-unite-secours-durgence-dons/
    Hostel Beirut para pessoas que estejam em Beirute: https://www.instagram.com/p/DAVzflGMwqR
    Tres Marias está a ajudar os filipinos de Tiro, a planear acções de sensibilização em colaboração com a embaixada das Filipinas e a distribuir ajuda alimentar na região de Beirute: https://www.instagram.com/tresmariaslebanon/
    Propaganda é um grupo de voluntários que recolhe donativos em Beirute e avalia as necessidades em Tripoli, com planos para criar uma cozinha comunitária: https://www.instagram.com/propaganda.rm2

     

  • Sanções a brincar

    Sanções a brincar

    A Comissão Europeia (CE) propôs finalmente a suspensão parcial de Israel do seu programa de investigação científica Horizon.

    Após anos de financiamento de investigação ligada ao sector militar israelita e ao fim de avanços que, afinal, eram recuos [ref]https://www.jornalmapa.pt/2025/06/23/ue-considera-que-israel-comete-crimes-mas/[/ref] [ref]https://www.jornalmapa.pt/2025/06/25/porta-te-bem-ou-poderemos-eventualmente-vir-a-talvez-ter-de-quem-sabe/[/ref] [ref]https://www.jornalmapa.pt/2025/07/16/ue-da-luz-verde-para-o-genocidio-a-israel/[/ref], a Comissão Europeia propôs suspender parcialmente Israel do seu programa de investigação científica Horizon, no valor de 80 mil milhões de euros, alegando a «grave» crise humanitária em Gaza.

    Um passo da União Europeia (UE) provocado pelo números colossal de mortos e pela visibilidade da forme que está a ser infligido ao povo de Gaza. O genocídio é agora impossível de esconder ou mitigar e o papel da UE no financiamento da violência está sob escrutínio.

    Esta relação entre a UE e Israel já vem de longe, como se sabe. E é tão profunda que, em 2009, o antigo chefe da política externa da UE, Javier Solana, chegou a declarar que «Israel é, se me permitem dizer, um membro da União Europeia sem ser membro das instituições. É membro de todos os programas da UE, incluindo os programas de investigação e tecnologia».

    Até agora, a Comissão não conseguiu que os Estados-Membros concordassem em suspender o acesso de Israel ao financiamento do programa Horizonte. O antigo diplomata de topo da UE, Joseph Borrel, considerou a proposta uma «piada de mau gosto» e afirmou que teria pouco impacto na pressão sobre Israel. «Se esta é a única resposta que a Comissão Europeia é capaz de dar face ao que Israel está a fazer, é uma piada. Uma piada de mau gosto. E os Estados-Membros da UE nem sequer foram capazes de a aprovar», afirmou.

    Apesar da pomposidade do anúncio, a suspensão de Israel do programa Horizon é «parcial» e abrange apenas o acesso das pequenas empresas em Israel ao acelerador do Conselho Europeu de Inovação, um programa no valor de 10,1 mil milhões de euros.

    «Há muitas outras medidas significativas que poderiam ser tomadas», afirmou Borrel, argumentando que a Comissão deveria propor a suspensão do acordo comercial com Israel, o que poderia fazer com que Israel perdesse 1 bilhão de euros por ano em benefícios comerciais da UE.

    «Acredito que a sociedade israelita deveria pagar um preço significativo pelo que os colonos estão a fazer na Cisjordânia», disse ele. «Sei que nem todos os israelitas são responsáveis, mas eles permitem que isso aconteça», acrescentando que «por muito menos do que isto, retirámos os vistos de cidadãos de outros países. Sancionamos milhares de pessoas na Rússia por menos do que isto».

    À luz do apoio contínuo da UE à guerra de aniquilação de Israel em Gaza, a opacidade e o sigilo sobre a ética e os resultados dos projectos de investigação são talvez apenas um problema menor. No entanto, o apoio inabalável da Europa em ambos os contextos é revelador da forma como o programa de investigação em matéria de segurança dá prioridade aos lucros das empresas e à estratégia geopolítica.


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    Porto, 20/04/2024 – Ocupação da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto
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  • Advogados instauram processo contra a Comissão e o Conselho da UE por «omissão» em relação à situação em Gaza

    Advogados instauram processo contra a Comissão e o Conselho da UE por «omissão» em relação à situação em Gaza

    Na sequência de um pedido de 20 de Maio de 17 países europeus para que se iniciasse uma revisão do artigo 2º do Acordo de Associação com Israel, o serviço diplomático da Comissão Europeia publicou um relatório sobre as violações do direito humanitário internacional por parte do Governo israelita. Seis páginas repletas de inúmeros casos de violações, crimes e abusos contra a população palestiniana, tanto em Gaza como nos Territórios Ocupados, nas prisões e nos hospitais. Um documento tardio, que chega 20 meses após o início dos bombardeamentos em Gaza, mas inequívoco. Excepto que, como vimos aqui, não teve consequências.

    Ainda Kaja Kallas, a Alta Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros, não tinha apresentado esta sua mão cheia de nada, e já os advogados da Associação JURDI (advogados pelo respeito do direito internacional) estavam a agir, preparando uma «acção por omissão», no Tribunal de Justiça da UE, no Luxemburgo, contra a Comissão e o Conselho da UE por não terem actuado em relação aos crimes cometidos pelo governo de Netanyahu em Gaza. Aliás, a sua acção remonta a 12 de Maio, quando enviaram uma carta de notificação formal às duas instituições.

    Agora, pedem a abertura de um processo, num recurso com 90 páginas que se baseia no artigo 265º do Tratado da UE, que visa sancionar uma instituição europeia por inação culposa. Neste caso, diz o documento, «por não ter suspendido, durante 21 meses (desde outubro de 2023), o Acordo de Associação UE-Israel, por não ter proposto quaisquer sanções ou restrições económicas ao governo de Netanyahu e por não ter tomado uma posição pública sobre os riscos de genocídio e crimes documentados».

    Trata-se de um facto inédito: nunca antes duas instituições europeias tinham sido levadas a tribunal, neste caso o Tribunal de Justiça Europeu, por omissão perante violações do direito internacional. A novidade passa também pelo facto de a batalha legal se desenrolar «internamente» – sem necessidade de envolver convenções ou tribunais internacionais.

    Os advogados da JURDI estão agora a pedir aos juízes do Luxemburgo um processo urgente para obrigar a Comissão e o Conselho a romperem todas as relações comerciais e políticas com Israel e a emitirem uma declaração política sobre o risco de genocídio em Gaza. Não apenas a suspensão do Acordo de Associação UE-Israel, mas também por exemplo, dos fundos de investigação do Horizonte Europa.

    De acordo com uma investigação recente da Follow The Money e de outros meios de comunicação social europeus, estes montantes ascendem a mais de mil milhões de euros em subvenções a universidades, empresas e ministérios israelitas. Além disso, como revelámos na notícia “Rearmar a Europara apoiando Israel”, publicada no Jornal Mapa nr. 46 (Julho-Setembro de 2025), estão em curso 15 projectos de desenvolvimento de armas com a empresa israelita Intracom Defense, com sede em Atenas e propriedade da empresa pública Israel Aerospace Industries (IAI). Todos os projectos são financiados com fundos europeus do Fundo Europeu de Defesa.

    Para já, resta aguardar para ver como será recebido o recurso pelo Tribunal de Justiça e, sobretudo, se o seu carácter urgente será reconhecido. Mas este é apenas o primeiro passo e os advogados da JURDI não tencionam ficar por aqui. «Os altos representantes da União Europeia devem ter cuidado, porque um dia poderão ser julgados pelo Tribunal Penal Internacional por cumplicidade num genocídio. Posso garantir-vos que não vamos parar; iniciámos uma longa viagem», afirmou Alfonso Dorado em nome da JURDI.

  • UE dá «luz verde para o genocídio» a Israel

    UE dá «luz verde para o genocídio» a Israel

    Israel não enfrentará quaisquer sanções antes de Outubro por parte de uma União Europeia (UE) que é «o principal motor da economia de genocídio» desse país e que lava as mãos com um acordo «humanitário» invisível.

    Estava toda a gente em suspenso à espera das possíveis iniciativas contra Israel que Kaja Kallas, a Alta Representante da UE para os Negócios Estrangeiros, iria apresentar na terça-feira (15 de Julho) ao Conselho dos Negócios Estrangeiros. No entantio, no dia ansiado, à saída de uma reunião dos ministros dos negócios estrangeiros da UE em Bruxelas, Kallas anunciava: «Manter-nos-emos atentos à forma como Israel implementa o acordo e faremos uma actualização do seu cumprimento de duas em duas semanas». Ou seja, uma mão cheia de nada, para além de sangue.

    «Manteremos as opções [de sanções] em cima da mesa e reagiremos se Israel incumprir», afirmou, tendo em perspectiva a próxima reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros, prevista para 6 de Outubro. Agora, os diplomatas vão a banhos e, até ao final das férias de Verão, as pessoas que vivem em Gaza podem continuar a ser massacradas. A Comissária Kallas elaborou esta espécie de estudo sobre eventuais sanções na sequência da sua «análise» das acções de Israel, segundo a qual este país é culpado de utilizar a «fome» como arma de guerra, de matar civis «indiscriminadamente», de «apartheid» e de «torturar» prisioneiros.

    A principal opção em análise era o congelamento das regalias de comércio livre de Israel na UE, ao abrigo de um acordo de associação UE-Israel, no valor de cerca de mil milhões de euros por ano para as empresas israelitas. O objetivo da UE «não é punir [Israel], mas melhorar a situação no terreno [em Gaza]», disse Kallas. A ministra austríaca dos Negócios Estrangeiros, Beate Meinl-Reisnger afinou pelo mesmo diapasão, afirmando que a UE precisa de manter abertos os canais de comunicação «especialmente entre amigos [Israel]» para melhorar a situação em Gaza.

    O vice-ministro irlandês dos Negócios Estrangeiros, Thomas Byrne, uum dos derrotados, afirmou: «Muitas pessoas à volta da mesa [na reunião de terça-feira da UE] não queriam mais nenhuma ação [contra Israel]». Para além das sanções comerciais, os 26 Estados-Membros concordaram em colocar na lista negra os colonos israelitas mais extremistas, mas a Hungria, o principal aliado de Israel na UE, vetou essa medida, afirmou ainda Byrne.

    Para a secretária-geral da Amnistia Internacional, Agnès Callamard, «a recusa da UE em suspender o seu acordo [comercial] com Israel é uma traição cruel e ilegal – do projecto e da visão europeia. Os líderes europeus tiveram a oportunidade de tomar uma posição de princípio contra os crimes de Israel, mas em vez disso deram-lhe luz verde para continuar o seu genocídio em Gaza».

    Para lavar as mãos da UE, Kallas tinha, já antes (10 de Julho), feito um acordo «humanitário» com Gideon Sa’ar, ministro israelita dos Negócios Estrangeiros. Refira-se que este acordo foi meramente verbal e não um texto com números e datas para a entrega de ajuda, pelo que não há propriamente nada que possa ser analisado quanto à sua bondade ou possível eficácia. «Há mais camiões e mantimentos que já estão a chegar a Gaza, mais pontos de passagem estão abertos, vemos o abastecimento eléctrico a ser reparado», afirmou a Comissária.

    Também do lado dos derrotados, o Ministro dos Negócios Estrangeiros espanhol, José Manuel Albares, disse que permitir a entrada de alimentos e medicamentos em Gaza era um «mínimo indispensável» e que a UE deveria, de qualquer maneira, impor um embargo de armas a Israel devido à «violência injustificável em Gaza». O acordo de ajuda de Kallas é uma «migalha», afirmou por seu lado Bushra Khalidi, da Oxfam. «A ajuda por si só não pode parar esta catástrofe. Não podemos continuar a assistir à morte de crianças e dizer “estamos a fazer progressos”», acrescentou.

    A voz do dinheiro
    Se seguirmos o dinheiro, como mandam as regas básicas de análise em capitalismo, podermos ter uma ideia do que o povo palestiniano enfrenta neste momento. O SOMO, Centro de Investigação sobre Empresas Multinacionais, que investiga os impactos e os factores que facilitam o poder injustificado das empresas, publicou alguns números:

    Os Estados-Membros da UE detinham 72,1 mil milhões de euros em investimento estrangeiro em Israel em 2023 (em comparação com 39,2 mil milhões de euros nos EUA). As exportações da UE para Israel também aumentaram mil milhões de euros, atingindo 26,7 mil milhões de euros em 2024. E a bolsa de valores israelita disparou 213% nos últimos 21 meses de guerra, o que significou um ganho de mercado de 194 mil milhões de euros. Em suma, «a UE é o principal motor da economia de genocídio de Israel», conclui o SOMA.

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    UE considera que Israel comete crimes, mas…
    Porta-te bem ou poderemos eventualmente vir a talvez ter de quem sabe

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    Porto, 30 de Maio de 2024
    @julianji.matti
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  • Porta-te bem ou poderemos eventualmente vir a talvez ter de quem sabe

    Porta-te bem ou poderemos eventualmente vir a talvez ter de quem sabe

    De acordo com a decisão dos estados membros da UE da passada segunda-feira (23 de Junho), Israel pode evitar sanções se deixar entrar comida em Gaza, mesmo depois de todos os crimes já cometidos. Ou seja, o acordo de associação com Israel «não deve ser suspenso», mas a situação humanitária em Gaza «tem de ser tratada».

    No início de Maio, 17 estados membros da UE encarregaram os Ministros dos Negócios Estrangeiros da União de analisar possíveis desrespeitos do direito humanitário por parte de Israel. Desde essa altura, e apenas desde essa altura, 672 crianças foram mortas em Gaza.

    Entretanto, o relatório foi elaborado, conseguiu fintar a secretismo e acabou por ser divulgado no dia 20 de Junho, conforme demos notícia aqui. Nele se concluía que «há indícios de que Israel estaria a violar as suas obrigações em matéria de direitos humanos nos termos do artigo 2º do Acordo de Associação UE-Israel».

    Como curiosidade mórbida, assinale-se que, nessa mesma sexta-feira, 20 de Junho, 34 palestinianos foram baleados e mortos por tiros israelitas quando tentavam aceder a ajuda humanitária. Outros 26 foram mortos no sábado. Vinte e nove no domingo…

    Na segunda-feira, os ministros dos Negócios Estrangeiros da UE reuniram-se para discutir as conclusões do relatório, enquanto pelo menos mais 43 pessoas foram mortas em Gaza. «Se a situação não melhorar», anunciou Kaja Kallas (Alta Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança), «então podemos examinar e discutir também outras medidas e voltar a este assunto em Julho».

    Perante as suas próprias conclusões da existência de «ataques indiscriminados», «fome», «tortura», «apartheid», em suma, violação das «suas obrigações em matéria de direitos humanos», perante a transparência dum genocídio, a UE prefere tratar Israel como se de uma criança ligeiramente mal educada se tratasse.

  • «Mulheres, Vida, Liberdade» contra a guerra

    «Mulheres, Vida, Liberdade» contra a guerra

    Uma declaração de um colectivo composto por feministas internacionalistas iranianas, curdas e afegãs que defende que devemos opor-nos ao ataque assassino que as forças armadas de Israel e dos Estados Unidos estão a levar a cabo contra as pessoas no Irão, recusando-nos ao mesmo tempo a tolerar a opressão perpetrada pelo governo iraniano.

    O colectivo, de nome Roja, redigiu esta declaração em 16 de Junho, o terceiro dia da guerra. Foi originalmente publicada em persa e o Jornal MAPA deitou mão da versão em inglês que aparece no site Crimethink. Muito se passou desde então. Ainda de acordo com este site, o Roja é um colectivo feminista-internacionalista independente com sede em Paris, cujos membros são originários do Irão, do Afeganistão (Hazara) e do Curdistão. O coletivo foi formado em resposta ao assassinato de Jina (Mahsa) Amini pelo Estado e à revolta nacional Jin, Jiyan, Azadi («Mulheres, Vida, Liberdade») em Setembro de 2022. O Roja centra-se nas lutas políticas e sociais no Irão e no Médio Oriente, bem como no trabalho de solidariedade local e internacional em França, incluindo com a Palestina.

    Manifestação em Paris organizada por: Roja, Feminists4Jina e Socialist Solidarity.

    «Mulheres, Vida, Liberdade» contra a guerra
    Estamos contra as duas potências coloniais, patriarcais e belicistas. Mas isto não é passividade. É o ponto de partida da nossa luta ativa pela vida.

    Se Israel conduz as crianças de Gaza para a matança com uma bandeira queer do arco-íris, a República Islâmica do Irão encharca a Síria de sangue sob um pretexto anti-imperialista. Um comete genocídio contra os árabes na Palestina, o outro subjuga as etnias não persas dentro das suas fronteiras. Netanyahu procura usurpar o significado de «Mulheres, Vida, Liberdade» para vestir o seu expansionismo colonial e a sua agressão militar com roupas de «liberdade», enquanto Khamenei investiu todos os recursos na construção de um império xiita, supostamente para combater o ISIS e defender a Palestina.

    De facto, estes dois inimigos de longa data espelham-se um no outro em termos de matança e malevolência. Não devemos equiparar estes dois regimes capitalistas em termos das suas posições na ordem mundial: a capacidade de agressão militar da República Islâmica é, sem dúvida, muito inferior à capacidade de Israel e do seu apoiante imperialista ocidental. No entanto, o sofrimento que infligiu é tão absoluto como a violência do fascismo sionista. Qualquer tentativa de relativizar esse sofrimento, quantitativa ou qualitativamente, é redutora e enganadora. Esse sofrimento abrange múltiplas formas de opressão, incluindo os custos exorbitantes do seu projecto nuclear e a tomada da dignidade humana como refém.

    Esta guerra assimétrica entre Israel e a República Islâmica é, acima de tudo, uma guerra contra nós.

    É uma guerra contra o que criámos na revolta Jin, Jyain, Azadi, o que alcançámos e o que se encontra no seu horizonte potencial: uma revolta feminista, anticolonial e igualitária que não emergiu do poder estatal, mas teve origem nas lutas populares do Curdistão – especialmente as lideradas por mulheres – e que depois ecoou por toda a geografia do Irão.

    É simultaneamente uma guerra contra as classes oprimidas e trabalhadoras: contra as enfermeiras do Hospital Farabi, em Kermanshah, e contra os bombeiros da pequena cidade de Musian, em Ilam, que foram atingidos por ataques aéreos israelitas – os primeiros a 16 de Junho, os segundos duas vezes, a 14 e 16 de Junho.

    Esta guerra visa as infra-estruturas e as redes que sustentam a vida quotidiana nesta região.

    Assumir uma posição clara e intransigente em relação à guerra – condenar a agressão de Israel e dizer «não» à República Islâmica – é a base estratégica mínima para dar forma a uma campanha colectiva que exija um cessar-fogo imediato. «Mulheres, vida, liberdade contra a guerra» não é apenas um slogan; traça uma fronteira nítida em torno de um conjunto de tendências cujas contradições e conflitos são hoje mais claros do que nunca.

    De um lado estão os defensores oportunistas da mudança de regime que, durante anos, apoiaram as sanções ocidentais e norte-americanas, rufaram os tambores da guerra, negaram o genocídio de Gaza – e agora defendem a «libertação» em abjecta subserviência ao seu mestre, Israel. Em suma: os que minimizam o belicismo imperialista ocidental, sobretudo os monarquistas persas-nacionalistas de extrema-direita.

    Do outro lado está o campismo [campism], a posição política que apoia qualquer projecto – por mais autoritário que seja – que se oponha ao bloco ocidental, apresentando-o como «resistência».

    Para além disso, há forças que dão prioridade à luta contra o ataque criminoso de Israel, apelando ao «estado de emergência» ou ao «interesse do povo». Este último grupo acaba por branquear os crimes da República Islâmica no país e no estrangeiro ou por adoptar um silêncio estratégico. Foram estes que, depois de 7 de Outubro de 2023, lançaram avisos sobre o perigo da indiferença em relação ao destino comum dos povos do Médio Oriente – mas, em vez de enfatizarem a luta internacionalista de base, esbateram a linha entre a resistência popular e o poder do Estado. Observaram corretamente que o Irão vem a seguir ao Líbano e à Palestina na chamada «nova ordem do Médio Oriente», mas apenas para minimizar e desvalorizar as lutas das mulheres, das minorias étnicas e das classes oprimidas neste «momento». Os seus avisos permaneceram abstractos porque não disseram uma palavra sobre a apropriação – e monopolização ideológica – do discurso anti-colonial pela República Islâmica desde a revolução de 1979.

    Acreditamos que só traçando estas fronteiras – sublinhando as relações mútuas e inseparáveis entre as múltiplas lutas sociais na região – é que poderemos formar uma frente sólida contra o genocídio de Israel e, simultaneamente, arrancar o discurso anti-colonial ao monopólio da República Islâmica, confrontando os etno-nacionalistas que negam a existência de minorias étnicas e o «colonialismo interno» na República Islâmica.

    Em solidariedade com o destino comum dos povos do Médio Oriente – de Cabul a Teerão, do Curdistão à Palestina, de Ahvaz a Tabriz, do Baluchistão à Síria e ao Líbano – que é a base material da luta internacionalista, dirigimos esta declaração aos oprimidos e aos subjugados no Irão e na região, à diáspora e às «consciências acordadas» do mundo.

    Manifestação em Paris organizada por: Roja, Feminists4Jina e Socialist Solidarity.

    Morte por bombas e mísseis
    A limpeza étnica perpetrada pelo criminoso Estado israelita não se limita a este dia, a este ano ou mesmo a este século. No entanto, falha geopolítica que se abriu a 7 de Outubro de 2023 ameaça agora engolir a República Islâmica e o povo do Irão por dentro – a uma velocidade espantosa e com uma intensidade chocante – lançando um horizonte sombrio que ultrapassa os nossos limites emocionais e psicológicos.

    Estes podem ser os dias mais críticos das nossas vidas desde a Revolução de 1979.

    Desde a madrugada de sexta-feira, 13 de junho, até segunda-feira, 16 de junho, o exército israelita levou a cabo 170 ataques, atingindo 720 alvos em todo o Irão.

    – Primeira fase: instalações nucleares, bases de mísseis, sistemas de defesa aérea e assassinatos de investigadores e comandantes militares em áreas residenciais – visando dezenas de comandantes de topo do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica [um ramo das Forças Armadas iranianas], infligindo um golpe sem precedentes na estrutura de segurança militar do IRGC [corpo de guardas da revolução islâmica].

    – Segunda fase: ataques coordenados a refinarias e depósitos de combustível (Shahran em Teerão e Pars South no Golfo Pérsico), portos, aeroportos e infra-estruturas críticas que afectam não só as artérias militares, mas também a reprodução social e a vida quotidiana.

    – Terceira fase: ataques a símbolos da autoridade governamental – ministérios, edifícios oficiais e a principal agência de radiodifusão da República Islâmica em Teerão – o núcleo central de interrogadores, torturadores e propagadores de ódio. Uma instituição mediática com um historial de quatro décadas a fabricar dossiers, a espalhar mentiras e a difamar os pobres, as mulheres, os emigrantes afegãos e os dissidentes políticos.

    Em todas estas fases, contrariamente às promessas sedutoras dos propagandistas fascistas que vendem a liberdade através de bombas, o que se verificou não foram «ataques pontuais» a alvos militares, mas sim o massacre indiscriminado de civis, mulheres e crianças. Até 15 de Junho, pelo menos 600 pessoas foram mortas e 1277 ficaram feridas. [No momento em que publicamos este artigo, os números são consideravelmente mais elevados].

    Em resposta, a República Islâmica tinha lançado mais de 350 mísseis e drones contra Israel até 16 de Junho. Um dos principais ataques teve como alvo o norte de Israel, incluindo Haifa – o núcleo industrial estratégico e um centro logístico de energia. Embora a maioria dos projécteis tenha sido interceptada pelos sistemas de defesa das forças armadas israelitas e dos seus aliados, vários atingiram zonas civis. Até ao momento da elaboração deste relatório [16-18 de Junho], foram mortos 24 israelitas, incluindo quatro mulheres de uma única família.

    Nesta situação terrível, a República Islâmica não só abandonou uma população aterrorizada – não conseguindo fornecer sequer os serviços mais básicos, como informação pública transparente, abrigos antiaéreos ou sistemas de alarme – como também intensificou o controlo do Estado: destacando esquadrões de choque, erguendo postos de controlo nas cidades e afiando a sua lâmina para execuções sob o pretexto de «espionagem para Israel». Embora isto não seja surpreendente em tempo de guerra – na verdade, é sintomático da incapacidade do regime para garantir a segurança – traz consigo a ameaça sussurrada de «pendurar traidores em todas as árvores». Esta lógica flui naturalmente de um regime cuja própria sobrevivência depende da repressão interna, das execuções, da militarização da vida quotidiana e da expansão regional implacável.

    Faixa da ROJA numa manifestação em Paris contra o genocídio na Palestina

     

    Representação colonial e normalização da guerra
    A «guerra contra o terror» – o projecto imperialista que derramou sangue no Afeganistão e no Iraque no início do século XXI – passou agora o testemunho a Israel: um ataque «preventivo» destinado a conter a ameaça nuclear iraniana [ref] Embora o programa nuclear da República Islâmica tenha sido, desde o início, um processo dispendioso e antidemocrático com graves consequências ecológicas – impulsionado pelos Guardas Revolucionários para garantir a sobrevivência do regime nas competições geopolíticas regionais e globais, Embora não reconheçamos nenhum «direito» à República Islâmica ou a qualquer outro Estado de adquirir armas nucleares e acreditemos que as armas nucleares e a corrida global a elas devem ser totalmente desmanteladas, o ataque de Netanyahu baseia-se, no entanto, numa narrativa falsa, que faz lembrar a invasão do Iraque pelos EUA sob o pretexto de eliminar as «armas de destruição maciça»: ou seja, que o Irão está a poucos passos de construir «a bomba». Embora a República Islâmica tenha, de facto, aumentado significativamente as suas reservas de urânio próximo do grau de pureza para armas, não há provas de uma decisão de construir uma bomba nuclear. Mesmo que partamos do princípio de que a República Islâmica adquiriu uma bomba, são os próprios povos da geografia política do Irão que têm de decidir o seu destino com autonomia e autodeterminação – e isso não justifica de forma alguma o ataque militar de Israel.[/ref]. Mais uma vez, repete-se o guião dominante nos média: Israel tem como alvo apenas «locais militares», utilizando «mísseis de precisão» e «drones inteligentes» para dar liberdade e democracia ao povo iraniano.

    Mas esta narrativa não se refere a Parnia Abbasi, o poeta de 24 anos assassinado em Sattarkhan, Teerão. Não faz qualquer menção aos assassínios de Mohammad Ali Amini, o atleta adolescente de taekwondo, ou de Parsa Mansour, jogador nacional de padel. Nem um sussurro sobre Fatemeh Mirheidar, Niloufar Qalewand, Mehdi Pouladvand ou Najmeh Shams. Não se tratava de «alvos militares» nem de «ameaças nucleares» – apenas de seres humanos, cujos corpos foram desmembrados no silêncio mediático global, retalhados por mísseis israelitas. Esta é apenas a ponta do icebergue da «liberdade» que Israel – apoiado pelo Ocidente – pretende introduzir através do amontoado de cadáveres e de devastação.

    As forças reaccionárias que reduzem a «mudança de regime» a uma mera remodelação política a partir de cima – sem qualquer transformação social real – estão agora a abraçar abertamente o seu salvador de longa data, Israel. Os monárquicos transformaram as vítimas dos bombardeamentos em estatísticas, declarando sem vergonha: «A República Islâmica executa milhares de pessoas todos os anos, por isso a morte de dezenas ou centenas por Israel é justificável». Esta é a mesma lógica desumanizante – o cálculo quantitativo da morte – que os Estados Unidos utilizaram para justificar a destruição de Hiroshima e Nagasaki: «Se a guerra continuar, morrerão mais pessoas, por isso, lancem a bomba».

    A morte de civis nos recentes ataques de Israel, o aumento do controlo estatal no Irão, a destruição de infra-estruturas sociais – nada disto são «erros não intencionais» ou danos colaterais. São a lógica da guerra, especialmente quando conduzida por um regime como o de Israel. A conhecida alegação de que os civis ou locais não militares estão a ser utilizados como «escudos humanos» – outrora invocada em Gaza, agora utilizada para justificar ataques à Prisão de Dizelabad e ao Hospital Farabi em Kermanshah – é uma distorção deliberada, utilizada para mascarar e inverter a verdade desta lógica exterminatória.

    Não existem «ataques justos ou «bombardeamentos justos». As experiências históricas do Iraque, do Afeganistão e da Líbia – sim, a mesma Líbia que Netanyahu cita abertamente como modelo para a mudança de regime no Irão – atestam esta verdade com sangue.

    Manifestação em Paris, organizada por: Roja, Feminists4Jina e Socialist Solidarity.

     

    «A Nova Ordem do Médio Oriente»: Porque é que Israel atacou o Irão?
    A escala sem precedentes dos ataques de Israel indica que Israel está a tentar conseguir uma mudança de regime em grande escala – ou o colapso do regime. Não podemos descartar a Operação «Leão em Ascensão» como uma mera extensão da hostilidade de longa data entre os dois Estados. Está enraizada num processo regional mais vasto que teve início a 7 de Outubro com um golpe no chamado «Eixo da Resistência» e que atingiu agora profundamente o núcleo das estruturas de poder de Teerão.

    O ataque de Israel à República Islâmica marca o último capítulo de uma transformação mais vasta da geopolítica e da economia do Médio Oriente.

    Gaza, para Israel, não é apenas um campo de batalha – é um projetco de colonização. O ataque a Gaza é uma campanha para exterminar ou expulsar mais de dois milhões de palestinianos e transformar a costa ensanguentada na visão de Trump de uma «Riviera do Médio Oriente» – praias de luxo, casinos e uma zona de comércio livre para brancos.

    Passo a passo, Israel expulsou o Hezbollah do sul do Líbano, destruindo as suas infra-estruturas, matando comandantes e desmantelando a sua máquina de guerra. O mesmo está agora a acontecer com a IRGC. Na Síria, um regime apoiado pela Rússia, pelo Hezbollah e pelo IRGC – à custa de meio milhão de mortos e doze milhões de desalojados – desmoronou-se abruptamente perante os rebeldes apoiados pela Turquia. O corredor Xiita Teerão-Beirute, outrora uma artéria estratégica que ligava o Irão ao Mediterrâneo, tornou-se o seu calcanhar de Aquiles – a pista através da qual os aviões de guerra o atacam agora.

    Na nova ordem imposta no Médio Oriente, um bloco de poder capitalista israelo-americano está a remodelar agressivamente a região através de rotas logístico-económicas (o Corredor Índia-Médio Oriente-Europa), da normalização político-económica (os Acordos de Abraão) e do militarismo expansionista sob a forma de genocídio e anexação de Gaza [ref]A operação «Dilúvio de Al-Aqsa» de 7 de Outubro pode ser interpretada no contexto desta nova arquitectura de dominação: como uma tentativa de perturbar o projecto de normalização de Israel através dos Acordos de Abraão e de interferir com uma das rotas mais vitais do fluxo de capital transnacional – que começa na Índia, passa pela Arábia Saudita e pelos Emirados Árabes Unidos, chega a Israel e se estende daí até às costas da Grécia, no Mediterrâneo.[/ref].

    No meio da desintegração do «Eixo de Resistência», a doutrina de longa data do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica de «nem guerra nem paz» – uma estratégia de crises fabricadas e de uma calculada atitude de brinkmanship [jogo de cintura, malabarismo] – entrou em colapso. Durante anos, o regime usou confrontos limitados e controlados como arma para evitar tanto a guerra total como a paz genuína. Hoje, vê-se exposto num campo de batalha onde as regras mudaram irrevogavelmente.

    Este colapso, agravado pela perda total de legitimidade interna do regime – marcada pelas revoltas em massa de Dezembro de 2017, Novembro de 2019 e o movimento «Mulheres, Vida, Liberdade» -, constitui um golpe final. A República Islâmica já não pode gerir, adiar ou exteriorizar as suas crises. Não tem legitimidade a nível interno e não tem qualquer influência estratégica na região. É um resquício queimado numa ordem militarizada e multipolar emergente.

    Neste vórtice de sangue, os Estados Unidos – correndo contra a China e manobrando através da Rússia – esforçam-se por recuperar a sua hegemonia fracturada. Netanyahu agarra-se à guerra sem fim como bilhete para a sua sobrevivência interna. E dentro do aparelho dirigente da República Islâmica, muitos pretendem agora tornar-se eles próprios instrumentos de mudança de regime. Entretanto, o povo continua refém de uma guerra que não é sua, uma guerra que não oferece qualquer horizonte de libertação.

    Não à repetição da Líbia, Não ao massacre do verão de 1988

    Recordar o caminho percorrido desde a «bênção» da guerra Irão-Iraque para a consolidação da República Islâmica nos seus primórdios até à execução em massa de presos políticos pelo regime no Verão de 1988 é hoje tão urgente como recordar o percurso imperialista que conduziu à «Líbiazação» [ref] A «Líbiazação» refere-se a uma estratégia imperialista em que um Estado é primeiro pressionado diplomaticamente para se desarmar – muitas vezes sob o pretexto de acordos internacionais ou preocupações humanitárias -, depois sujeito a uma intervenção militar e, por fim, empurrado para o colapso do Estado e para um caos prolongado. O termo é inspirado no caso da Líbia, onde o regime de Kadhafi foi persuadido a abandonar os seus programas de armamento, mais tarde alvo de uma campanha militar liderada pela NATO, em 2011, e acabou por se desintegrar num país fragmentado e devastado pela guerra. [/ref] de toda uma sociedade.

    A história das «intervenções humanitárias» no Iraque e no Afeganistão – quer sob o pretexto de «armas de destruição maciça» ou de «crimes contra a humanidade» – tem de ser lida em conjunto com a história das lutas no Irão que, desde antes da Revolução de 1979 até hoje, deram erradamente prioridade ao anti-imperialismo acima de tudo. Do mesmo modo, a história colonial de Israel – desde a Nakba de 1948 até à traição de Nasser ao pan-arabismo em 1967 – tem de ser compreendida do ponto de vista do Sara turcomano e do Curdistão, locais de colonialismo interno.

    Durante mais de uma década, os ideólogos da «ilha de estabilidade» (o nome que os campistas deram em tempos à República Islâmica do Irão) utilizaram o medo da «síriazação» para envergonhar as lutas populares independentes e chamar o povo às urnas, vendendo a intervenção sangrenta do IRGC na Síria como uma estratégia de dissuasão para evitar a «síriazação» do Irão. Basta recordar esta história para justificar um «não» decisivo ao discurso dos campistas – um discurso que, em vez de se apoiar no poder popular organizado a partir de baixo, se inclina para a realpolitik e, em nome do anti-imperialismo, trata o inimigo do inimigo como um amigo, mesmo quando ele é igualmente mau.

    Há cerca de 45 anos, no início da Guerra Irão-Iraque, alguns grupos progressistas enveredaram pelo nacionalismo – tratando a guerra como um acontecimento «nacional». Isso só serviu para consolidar o regime autoritário islâmico. Alguns mantiveram-se silenciosos enquanto a República Islâmica usava a palavra «imperialista» para justificar a imposição do véu obrigatório às mulheres e o envio de tropas para o Curdistão; outros, embora tenham falado, não conseguiram mobilizar a opinião pública contra o inimigo interno, feito à imagem de um inimigo externo, ajudando assim a normalizar uma hierarquia centrada no homem/persa/xiita.

    Neste momento – quando a narrativa do «estado de emergência» sugere que se trata de um momento excecional e desconexo -, não há maior imperativo do que invocar uma memória histórica plural e multifacetada. Só a partir de uma memória histórica heterogénea e com várias vozes – do ponto de vista dos povos oprimidos – podemos dizer «não» ao imperialismo, ao controlo estatal baseado na guerra e ao campismo, tudo ao mesmo tempo. Ao projeto de recordar essa história estratificada – de Cabul a Gaza, através de destinos e diferenças partilhados – apelamos ao internacionalismo.

    Num mundo que oscila entre a militarização fascista e as guerras aparentemente intermináveis, o nosso caminho reside na organização activa e de massas para um cessar-fogo imediato, para a paz e para a reprodução da vida contra a máquina da morte. O nosso campo de acção não está alinhado atrás de Estados nem investido em lançar-lhes olhares esperançosos , baseia-se no cuidarmos umas das outras, na ajuda mútua e na construção de uma rede de apoio, consciência e solidariedade – desde as idosos e crianças até às marginalizadas e deficientes – como testemunhámos magnificamente na revolta Mulher, Vida, Liberdade, em que a solidariedade entre as oprimidas se tornou uma força para viver, resistir e criar.

    A transparência da informação e a consciencialização – sem reproduzir as narrativas israelitas ou da República Islâmica – devem ser os pilares desta resistência cultural e política.

    Submetermo-nos ao fatalismo e pintar um futuro apocalíptico em que tudo já acabou são formas de reproduzir a lógica da morte. Contra essa noção de futuro, o que é absolutamente urgente é moldar uma campanha de massas que vise o cessar-fogo imediato e a abertura de um horizonte de libertação:

    Mulheres, Vida, Liberdade contra a Guerra
    Berxwedana Jiyan e
    Resistência é Vida
    Palestina Livre
    Roja
    18 de junho de 2025

    Para conheceres os antecedentes do movimento Jin, Jiyan, Azadi («Mulher, Vida, Liberdade») no Irão, lê isto; para mais informações sobre a revolta que eclodiu em 2022, começa aqui.