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  • Elogio à destruição do fascismo clerical no Irão

    Elogio à destruição do fascismo clerical no Irão

    Uma análise anarquista por @Decolonize Anarchism

    Nos últimos dias, à medida que a revolta no Irão continuava a expandir-se e a radicalizar-se, circularam imagens e vídeos de manifestantes a incendiar mesquitas, instituições há muito enraizadas no aparato da República Islâmica. Quase imediatamente, um coro familiar emergiu dos espaços liberais ocidentais e de segmentos da esquerda ocidental. Comentadores que nunca viveram sob o fascismo clerical, que nunca foram policiados por patrulhas de moralidade e que nunca tiveram os seus corpos legislados por decretos religiosos apressaram-se a rotular esses atos de islamofóbicos.

    Esta reação não surge do nada. Ela reflete um padrão recorrente em que o Ocidente se recusa a reconhecer os povos não ocidentais como sujeitos políticos capazes de definir a sua própria luta. Em vez de perguntar que condições materiais produzem tais atos e em vez de ouvir aqueles que vivem sob o regime, os observadores ocidentais recorrem às suas próprias referências, ansiedades e argumentos raciais. Ao fazer isso, eles mais uma vez colocam-se no centro, com a sua culpa, o seu discurso e o seu conforto, enquanto privam os iranianos de sua agência histórica.

    Esta condenação não é nova. Durante a revolta de Jina em 2022, quando as mulheres iranianas queimaram os seus véus nas ruas, surgiram as mesmas acusações. As mulheres que se recusavam a usar o véu obrigatório, que é um dos aparatos mais íntimos da violência estatal, foram reclassificadas como culturalmente insensíveis, como internalizadoras do racismo ocidental e como envolvidas em islamofobia. Em ambos os momentos, prevaleceu a mesma lógica: a resistência iraniana era aceitável apenas enquanto não violasse os padrões morais ocidentais. Quando a revolta passou da abstração para a instituição e quando mudou do simbolismo para a abolição, foi declarada ilegítima.

    O regime da República Islâmica do Irão não é simplesmente um Estado que por acaso é religioso. É um regime teocrático fascista no qual a religião funciona como lei, ideologia e força disciplinar. Mesquitas, escolas, tribunais, prisões e polícia formam um sistema contínuo. A mesquita não é um local neutro de culto acima da política. É um nó material de poder: um espaço de vigilância, recrutamento, doutrinação e legitimação da violência. É onde a obediência é ritualizada, a dissidência é criminalizada como pecado e a hierarquia é naturalizada como ordem divina. A mesquita não está separada do regime; é um dos seus órgãos. Queimá-la não é um ataque à crença; é um ataque à autoridade.

    O discurso ocidental não consegue compreender isso porque confunde persistentemente identidade com poder. No Ocidente, o Islão é uma identidade minoritária, racializada, vigiada e subordinada. A islamofobia no Ocidente é letal e inseparável da violência imperial. Essa realidade é real. Mas o Irão não é o Ocidente. No Irão, o Islão não é marginal, é soberano. Os clérigos não são uma minoria perseguida, são a classe dominante. Transpor a política minoritária ocidental para um Estado teocrático não é antirracismo. É colonialismo analítico: a imposição de uma estrutura externa que apaga as relações locais de dominação.

    O que os liberais ocidentais fazem, repetidamente, é achatar a história em moralidade. Eles substituem a análise material por vibrações. Eles perguntam quem se sente ofendido em vez de quem está a ser dominado. Eles confundem crítica ao poder com ódio à identidade. Isso não é solidariedade; é violência epistémica. É o Ocidente mais uma vez insistindo que as suas categorias são universais, os seus traumas centrais, a sua linguagem autoritária, mesmo quando as pessoas no terreno lhes dizem, gritam para eles, que a sua estrutura não se aplica.

    O anarquismo rejeita essa nivelamento. Insiste na especificidade histórica e material. E, historicamente, quando a religião se funde com o poder do Estado, as pessoas sempre responderam queimando as suas instituições. Durante a Revolução Francesa, igrejas foram saqueadas e destruídas não porque as massas repentinamente rejeitaram a fé, mas porque a Igreja Católica funcionava como um senhorio feudal e braço ideológico da monarquia. Durante a Guerra Civil Espanhola, anarquistas queimaram igrejas e mosteiros porque a Igreja se alinhou abertamente com senhorios, generais e fascistas, abençoando execuções e santificando a contrarrevolução. Esses atos não são lembrados como ódio religioso. Eles são entendidos como revolta anticlerical contra a dominação institucional.

    A abolição não é uma crítica simbólica. Não é uma recusa discursiva. É a destruição das estruturas que tornam a liberdade impossível. Os escravos não escreveram documentos de posição contra as plantações; eles queimaram-nas. Os trabalhadores não criticaram educadamente as fábricas; eles ocuparam-nas e sabotaram-nas. As mulheres não pediram permissão para escapar do patriarcado; elas destruíram os seus símbolos. Quando as instituições governam os corpos através da força, quando impõem o apartheid de género, a moralidade compulsória e o terror político, elas perdem qualquer pretensão de santidade.

    Há algo profundamente colonial em ver os iranianos se levantarem contra um regime clerical e responder não com curiosidade ou humildade, mas com repreensão moral. Há algo obsceno em dizer às pessoas que viveram sob o hijab obrigatório, religiosidade forçada, execuções e vigilância permanente que sua raiva deve ser expressa educadamente, simbolicamente, de maneiras que não perturbem a sensibilidade ocidental. Como se a revolução tivesse que passar por um treinamento de diversidade para ser legítima.

    O que nos enfurece não é apenas o mal-entendido. É o direito. A suposição de que os iranianos devem ao Ocidente uma explicação, uma tradução, uma performance de resistência aceitável. A suposição de que a nossa revolução deve ser legível para a linguagem das ONGs ocidentais para ser considerada progressista. Isso é racismo disfarçado de cuidado. É a mesma velha manobra imperial: falar por nós, redefinir a nossa luta, disciplinar a nossa raiva e, então, reivindicar superioridade moral.

    Não nos dêem lições sobre islamofobia enquanto o nosso povo é executado em nome de Deus. Não nos digam para preservar instituições que têm sido usadas para oprimir mulheres, homossexuais, trabalhadores e minorias étnicas. Não exijam que respeitemos os símbolos da nossa própria opressão para que se sintam politicamente confortáveis. Esta não é a vossa revolução. Estas não são as vossas categorias. E a vossa recusa em compreender isso diz muito mais sobre os limites da política de esquerda ocidental do que sobre nós. Não estamos a queimar a fé, estamos a queimar a autoridade. E não vamos pedir desculpa por desmantelar as instituições que tornaram as nossas vidas insuportáveis.

    Viva o povo revolucionário do Irão.

    Viva as mulheres que queimaram os símbolos do seu cativeiro e se recusaram a obedecer.

    Viva aqueles que incendiaram as instituições que governavam os seus corpos e as suas vidas.

    Viva a revolta contra o fascismo clerical.

    Viva a abolição do Estado, do clero e de todas as formas de autoridade imposta.

    Viva aqueles que lutam sem autorização.

    Viva o povo que queima a dominação para tornar a vida possível.

    Jin Jîyan Azadî

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  • Pela vida e pela dignidade do povo do Irão

    Pela vida e pela dignidade do povo do Irão

    O movimento zapatista mundial, ou melhor, «grupos, colectivos e pessoas de diferentes cantos do mundo em resistência e rebeldia», lançou uma declaração onde enquadra a revolta e a repressão iranianas numa tempestade global: «a tempestade do capitalismo, do imperialismo, do patriarcado e dos Estados que administram a morte enquanto falam de ordem, estabilidade ou segurança».

    Nessa declaração, onde se afirma «o direito inalienável dos povos à autodeterminação», é lembrado que «a liberdade não se exporta nem se negocia entre Estados» e também que «nenhuma intervenção imperial alguma vez trouxe justiça ou dignidade aos povos que diz “libertar”».

    Serve esta declaração para estender a mão ao povo iraniano, «não para o tutelar», mas para lembrar a toda a gente que é necessário «unir as lutas de baixo, de nos reconhecermos no destino comum de quem resiste ao capital, ao imperialismo e a todas as formas de dominação». Sem nos deixarmos cair nos maniqueísmos dos que «justificam o regime iraniano em nome de um suposto anti-imperialismo, ignorando que esse mesmo regime aplica ao seu povo lógicas de ocupação, apartheid, pilhagem e neoliberalismo» ou dos «que promovem alternativas reaccionárias, autoritárias e dependentes, que prometem a salvação enquanto reproduzem a dominação».

    Eis a declaração na íntegra:

    PELA VIDA E PELA DIGNIDADE DO POVO DO IRÃO

    Estamos a viver uma tempestade. Não é nova nem passageira. É a tempestade do capitalismo, do imperialismo, do patriarcado e dos Estados que administram a morte enquanto falam de ordem, estabilidade ou segurança. Nesta tempestade, os de cima disputam territórios, recursos e poder; os de baixo comprometem os seus corpos, as suas vidas, o medo e a esperança.

    No Irão, hoje, essa tempestade abate-se com uma violência particular. O povo iraniano voltou a mobilizar-se contra o regime da República Islâmica, que não hesitou em reprimir violentamente quem saiu às ruas. Estas mobilizações não são nem um acto isolado nem uma reacção momentânea: são o resultado acumulado de décadas de opressão política, exploração económica, violência patriarcal, repressão sistemática e negação de direitos. São lutas que nascem na base, da vida quotidiana sufocante, de quem já não pode e já não quer continuar a sobreviver em silêncio.

    Em cima, os governos e as potências avaliam a situação de um ponto de vista geopolítico. Calculam as vantagens, os equilíbrios regionais, as vias de abastecimento energético, as alianças oportunas. Em cima, o crime é normalizado, justificado ou dissimulado sob discursos de «estabilidade», «segurança» ou «realismo político». Em cima, mesmo quem se apresenta como inimigo do regime iraniano não hesita em legitimar o massacre, quando este serve os seus interesses.

    Em baixo, por outro lado, o povo iraniano luta pela vida.

    Em baixo, estão as mulheres que desafiam diariamente o controlo patriarcal.

    Em baixo, estão os trabalhadores e as trabalhadoras empobrecidos pelas políticas neoliberais.

    Em baixo, estão as dissidências sexuais, as minorias religiosas, os povos oprimidos, as pessoas que vivem nos subúrbios afectados pela crise da água, da habitação e do emprego.

    Em baixo, estão os que saíram às ruas repetidamente, muitas vezes de mãos vazias, sem organizações amplas – destruídas pela repressão – e que, ainda assim, avançaram mais do que qualquer oposição institucional.

    Denunciamos com firmeza a manipulação externa destas manifestações. Nenhuma potência estrangeira, nenhum governo do norte global, nenhum projecto imperialista tem o direito de usar o sofrimento do povo iraniano como um peça no seu tabuleiro. Essa instrumentalização não só distorce as lutas reais, como também coloca ainda mais em risco quem resiste, ao transformá-los em pretexto para uma repressão ainda mais brutal.

    Reafirmamos o direito inalienável dos povos à autodeterminação. A liberdade não se exporta nem se negocia entre Estados. Nenhuma intervenção imperial alguma vez trouxe justiça ou dignidade aos povos que diz «libertar». A história ensina-nos isso, e as ruínas deixadas pelo seu rastro confirmam-no inúmeras vezes.

    Há os que, de fora, olham para cima e não para baixo: que justificam o regime iraniano em nome de um suposto anti-imperialismo, ignorando que esse mesmo regime aplica ao seu povo lógicas de ocupação, apartheid, pilhagem e neoliberalismo; e há os que promovem alternativas reaccionárias, autoritárias e dependentes, que prometem a salvação enquanto reproduzem a dominação.

    São falsas oposições. Os de cima contra os de cima. O poder contra o poder. Lá em baixo, o povo está preso entre duas forças que se dizem opostas, mas que agem em conjunto.

    A nossa posição é clara: não estamos com os governos, estamos com os povos. Não com os Estados, mas com as pessoas que resistem. Não com as elites, mas com quem luta para viver.

    Hoje, enquanto o povo iraniano enfrenta o corte das comunicações, o estado de sítio e a militarização da vida quotidiana, apelamos a que se escutem os avisos das nossas companheiras zapatistas: a tempestade é global; quem pensar que não lhes diz respeito, que não é afectado, está enganado. Perante esta tempestade, não há salvadores nem soluções vindas de cima. O que há é a possibilidade – urgente – de unir as lutas de baixo, de nos reconhecermos no destino comum de quem resiste ao capital, ao imperialismo e a todas as formas de dominação.

    Estendemos a mão ao povo iraniano.

    Não para o tutelar.

    Não para falar em seu nome.

    Mas para lhe dizer: não estão sozinhos.

    Porque a luta no Irão é também a luta pela vida em todos os outros lugares. E porque só partindo de baixo, juntos, poderemos enfrentar a tempestade e imaginar o dia seguinte.

    Janeiro de 2026

    Para subscrever esta declaração, escreva para declaracion.iran@gmail.com
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    Texto retirado de Enlacezapatista
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  • O interior não está à venda

    O interior não está à venda

    No dia 30, a Plataforma de Defesa do Parque Natural do Tejo Internacional (PDPNTI) vai entregar, na Assembleia da República, uma petição pública contra as mega centrais solares na Beira Baixa. No dia seguinte, dia 31 de Janeiro, há uma manifestação em Lisboa que responde ao mesmo mote.

    Considerando que há, actualmente «1.254 hectares – com mais de 1,5 milhão de painéis solares – aprovados ou em análise pela APA», para além de outros «projetos planeados, como a Central Solar Sophia, com cerca de 1.000 hectares», os signatários demonstram «profunda preocupação com a possibilidade de instalação de várias mega centrais solares na nossa bela região, especialmente nos concelhos do Fundão, Penamacor e Idanha».

    Com mais de 17 mil assinaturas, a petição «Salvem a Beira Baixa – Parem as Mega Centrais Solares» exige a paragem dos «planos para mega centrais solares em zonas naturais e ecossistemas frágeis na Beira Baixa», afirmando que «é o futuro das comunidades rurais que está em causa, do seu modo de vida e do legado dos nossos antepassados».

    Para sábado, dia 31, está marcada a manifestação «O Interior não está à venda – Não às mega centrais solares», que tentará sensibilizar e levar a Beira Baixa e todo o interior a Lisboa, «não apenas como territórios ameaçados, mas como espaços vivos, cheios de história, cultura, tradições e memórias que nos definem», de acordo com a organização.

    Ainda nas palavras dos próprios, «este é o momento decisivo para mostrar aos decisores políticos que a nossa resistência é forte, activa e persistente, e que a cara e a alma da Beira Baixa e de todo o interior não estão negociáveis».

    A manifestação começa às 14h00, com uma concentração na Estação de Santa Apolónia (com Adufeiras, Grupos de Bombos e Ranchos Folclóricos), de onde se partirá para a Praça do Comércio, a caminho do destino final, o Rossio, onde o cortejo será recebido pelas vozes do movimento Primavera de Coros e onde «mostraremos a Lisboa – e, esperamos, a todo o país – que não somos um território morto. Pelo contrário, está em causa uma região única, em grande parte ainda intacta, rica em diversidade, beleza e vida».

    Há várias associações, colectivos e muitos cidadãos de todo o país que confirmaram o seu apoio e a sua participação. A defesa do interior parece assumir assim uma expressão ampla, unida e inabalável. De acordo com o site O Regiões, há «mais de 1.000 pessoas já interessadas apenas através do evento no Facebook, tudo indica que a participação será muito expressiva».

    Mais informações, incluindo viagens para Lisboa, aqui, ou no evento de Facebook.

  • Solidariedade ruidosa com os povos do Irão

    Solidariedade ruidosa com os povos do Irão

    Na noite do passado domingo, dia 18 de Janeiro, a embaixada iraniana em Lisboa foi alvo duma acção de solidariedade com «os milhares de vítimas e mártires da violência estatal iraniana», mas também com «curdos, farsis, balúchis, pessoas árabes e queer e todas as outras oprimidas pelo Estado iraniano e que estão a lutar pela sua liberdade». O vídeo da acção pode ser visto abaixo:

    Sublinhando que os protestos actuais têm raízes criadas em lutas recentes: pelo direito ao pão (2017 e 2022), à água (2021), a bens subsidiados pelo Estado (2019), «um grupo de pessoas solidárias com os povos do Irão», que levou a cabo esta acção, relembra, em comunicado, que «cada período sucessivo de crises e revoltas se desenrolou num contexto de cortes de energia», corrupção, obsolescência infra-estrutural e «crise ambiental (poluição atmosférica, seca, desflorestação e má gestão de recursos hídricos)».

    E, a cada crise, «o regime optou pelo seu apoio mais fiável: assassinato patrocinado pelo Estado». «Este é o destino de muitos iranianos cujo único crime é o seu estatuto cultural e/ou identitário (como curdos, balúchis, mulheres, queer, de esquerda, etc.).»

    O comunicado da acção, enviado anonimamente e partilhado em algumas redes sociais, acrescenta ainda que «apenas o povo do Irão terá uma palavra a dizer sobre o resultado desta revolta. Apenas as pessoas do Rojhilat e do Baluchistão terão uma palavra a dizer sobre o futuro da sua terra ocupada», não deixando de sublinhar que «a solução para uma tirania não é a sua substituição por outra».

    «O fim deste regime, o futuro de todos os povos que vivem dentro das fronteiras do Irão, não pode ser resultado duma intervenção de fora, mas também não pode ser um regresso ao mesmo regime mas com uma bandeira diferente», remata o comunicado.

    Para ler mais sobre o Irão, espreita aqui.

  • A vida faz-se de acasos e valores

    A vida faz-se de acasos e valores

    Uma viagem ao passado de José Hipólito dos Santos que nos traz memória de tempos sombrios, cada vez mais parecidos com os que vivemos agora.

    Um livro de José Hipólito dos Santos, ainda em projecto, mas já com vários textos prontos a publicar, foi encontrado no seu computador pessoal, em 2020, pela filha, Irene, três anos após a sua morte. Atraíra-lhe a atenção o nome da pasta: «A vida faz-se de acasos e valores», dentro encontrou esta obra «quase pronta» que viria a ser editada no passado mês de Junho pela editora Letra Livre, depois de cinco anos dedicados por Irene Hipólito dos Santos à sua organização e a «intervenções tímidas» explicadas na introdução.

    Acasos e valores levaram Hipólito a participar na Revolta de Beja (1962), cujo fracasso o levaria à prisão e um ano e meio depois ao exílio na Argélia. Ali, foi um dos fundadores da JAPPA (Junta de Acção Patriótica dos Portugueses na Argélia) e representante do MAR (Movimento de Acção Revolucionária) na FPLN (Frente Patriótica de Libertação Nacional). Em 1968 vivia em Paris e aderiu à LUAR (Liga de União e Acção Revolucionária), que abandonou dois anos depois. Todas estas organizações tinham por objectivo «libertar Portugal pela acção armada do povo». Poucos dias depois do 25 de Abril de 1974 regressou a Portugal. Em Janeiro de 1975 foi eleito presidente da AIL (Associação dos Inquilinos Lisbonenses), função que assumiria até 1979. Viveu o PREC, «processo revolucionário em curso», organizado no PRP-BR (Partido Revolucionário do Proletariado – Brigadas Revolucionárias), de que foi dirigente até 1978. Deste percurso Hipólito deixou testemunho das suas vivências nas obras que publicou[ref]A sua vida de lutador anti-fascista e libertário e a sua obra escrita foram abordadas com algum pormenor por mim em “A Constância de José Hipólito dos Santos”, um artigo in memoriam publicado na edição nr. 19 do Jornal Mapa. Ler aqui: (https://jornalmapa.pt/2018/02/28/in-memoriam-constancia-jose-hipolito-santos/).[/ref], à excepção das da militância no PRP-BR[ref]A transcrição integral de uma entrevista filmada por mim, em 2016, sobre a sua participação no PRP-BR, encontra-se disponível junto ao espólio de J.H.S., no CD25 de Abril, da Universidade de Coimbra. Pode ser lida, expurgada, aqui: https://contributosabril.wordpress.com. No CD25 de Abril está depositada a transcrição de outra entrevista sua, datada de 2014, sem autor, centrada também no PRP-BR.[/ref].

    Hipólito revisita episódios vividos já narrados nas sua obras, mas desta vez encontrando-lhe novos sentidos, num processo de «rememoração [que] se dá a partir de novos ângulos e prismas»

    Em A Vida Faz-se de Acasos e Valores, prefaciado e posfaciado, respectivamente, pelas historiadoras Irene Flunser Pimentel e Susana Martins, Hipólito revisita episódios vividos já narrados nas sua obras, mas desta vez encontrando-lhe novos sentidos, num processo de «rememoração [que] se dá a partir de novos ângulos e prismas», revelando aspectos ocultos «como se estivessem submersos nos meandros das histórias pessoais». Esta «repetição da lembrança permite a revelação de aspectos marcantes, que nas primeiras abordagens ficam fora de campo, incorporando-os para os tornar memória», como realça Irene na introdução do livro.

    Embora pouco ou nada comum num livro autobiográfico, o primeiro texto versa o encarceramento do autor pela PIDE e, assim, destaca a grande importância da prisão na sua vida. «Assunção da Sua Própria Liberdade»[ref]Publicado originalmente, em A Ideia, 2016.[/ref], é o testemunho da não aceitação do regime ditatorial, originalmente apresentado no II Congresso de Psicodrama Psicanalítico, em 2012. Nele Hipólito narra a experiência de preso. O convite à colaboração com a polícia. O primeiro espancamento. Os curros do Aljube. A primeira semana de tortura do sono (que se repetiria mais duas vezes ao longo dos quatro meses seguintes), o isolamento, interrogatórios, espancamentos. E, depois de narrar aspectos de tudo o referido, reflexiona sobre a tortura física «como instrumento para fazer falar e para que se espalhasse a ideia de que a PIDE era tenebrosa, para paralisar toda a acção individual e colectiva». Mas também explica como em circunstâncias tão adversas se pode sentir prazer em pequenas coisas como «respirar o ar fresco da madrugada ou ouvir o eléctrico a passar», e a determinação para «viver, sobreviver, numa situação em que se é reduzido a nada, mantendo a consciência do valor próprio, de que é uma situação transitória da qual se sairá de cabeça levantada». Termina este texto recordando que «não há que subestimar a atitude individual do resistente nas alturas em que a submissão colectiva está instalada. A resistência tem sempre a sua origem em grupos restritos, sem os quais a luta contra a submissão não encontra base de apoio».

    Um quarto das páginas do livro é dedicado às «Memórias de Infância em Tempos de Guerra». Leva- -nos numa viagem ao seu passado, narrando com os olhos do tempo de criança e de adolescente como era a vida então, como foi o seu percurso desde tenra idade, servindo-se de recordações do Porto, onde nasceu, de Almeida, Vilar Formoso, Viana do Castelo, Lisboa, terras onde o seu pai, guarda-fiscal, foi sendo colocado; memórias escolhidas e avivadas no processo da passagem à escrita dessas vivências.

    O tema da prisão perpassa o livro e volta a estar em foco noutros dois textos: «Um Natal na Prisão de Caxias», o relato de uma iniciativa pouco conhecida em que participou, reveladora do engenho de presos para subverter as normas repressivas, aproveitando neste caso a quadra natalícia, no Reduto Sul do Forte de Caxias, em Dezembro de 1962. E «Claridade ou como Conceber a Resistência», a transcrição incompleta (os últimos 15 minutos não foram gravados) de uma comunicação apresentada por Hipólito no Museu do Aljube, em 2017, onde disserta sobre a sua estada nos curros, de que foi um dos recordistas e de que só se livrou com uma greve de fome, interrompida com a sua transferência para o Forte de Caxias; explica donde lhe veio o conhecimento para «ludibriar algumas regras e aliviar este quadro opressor e repressivo»; e reflexiona criticamente sobre a orientação do PCP aos seus militantes presos, vertida no célebre manual de comportamento na polícia «Se Fores Preso, Camarada…».

    Noutro capítulo, «A Prisão como Corolário Natural de uma Época», deixa reflectida a sua vida desde a entrada com dezassete anos no mundo do trabalho, ao mesmo tempo que prosseguia os estudos em cursos nocturnos, até à saída para o exílio em 1963. Nele dá a conhecer o processo de formação como economista na condição de trabalhador-estudante. O Serviço Militar como oficial miliciano. O contacto com António Sérgio. O envolvimento no MUDJ (Movimento de Unidade Democrática Juvenil). A integração no Ateneu Cooperativo, onde conheceu ex-dirigentes e ex-militantes do PCP e anarquistas, libertados havia pouco de várias prisões do país. O pedido de audiência a Salazar. A entrada para a Seara Nova, revista de grande prestígio intelectual conhecida pela sua oposição ao regime. A candidatura de Humberto Delgado. A participação no Movimento da Sé. O envolvimento na Revolta de Beja, que o levará à prisão. Num gesto raro em ex-presos políticos, reconhece ter-se visto obrigado a falar na PIDE, após sessões de tortura, admitindo ter reunido com outros camaradas com o objectivo de difundir notícias sobre a tomada do quartel de Beja, sendo que a sua implicação real nos acontecimentos foi de facto muito maior que o reconhecimento de que «sabia que se preparava alguma coisa» e a participação nesta reunião, admitida também no interrogatório.

    A libertação de Hipólito sob caução e a ida para o exílio são relatadas em «Por Terras das Arábias (1963-1967) e alguns Prolongamentos», onde nos conta o ambiente dos opositores portugueses instalados na Argélia recém independente e «carente de quadros experientes». Pouco tempo depois da chegada, ele e a companheira, Maria Luísa Gabão, desempenhavam funções de responsabilidade numa importante cooperativa de hotéis e restaurantes. Dois anos depois, face ao «mau ambiente político e relacional no meio português» e à «degradação do contexto político e económico argelino», mudam-se para Marrocos onde Hipólito assumirá a direcção financeira de uma empresa pública de turismo e Maria Luísa as mesmas funções numa empresa de construção. Ali passaram outros dois anos, «Marrocos tinha-se tornado um pesadelo, fazendo-nos viver numa situação política mais grave do que aquela que nos obrigara a sair de Portugal», e decidiram prosseguir o seu exílio em Paris, coincidindo com a sua adesão à LUAR. Os «Prolongamentos» a que se refere no título deste texto são os relatos do regresso a estes países do norte de África mais de uma década depois para curtas estadias, onde comenta em breves resenhas as mudanças, para pior, que foi encontrar. E aproveita para escrever brevemente sobre a sua experiência de dois meses numa missão como perito das Nações Unidas na Mauritânia, em 1985, onde pôde «apreciar a forma como se trabalhava nas diversas agências: os relatórios e pareceres eram forjados em hotéis, copiando o que outros peritos já tinham escrito sobre o assunto».

    Embora se trate de um livro essencialmente autobiográfico, Hipólito incluiu-lhe «Um Militante Libertário (Personagem Sabiamente Polémico)», texto em que aborda de ângulos diversos Moisés da Silva Ramos, «uma vida dedicada a uma causa para lá de si», uma biografia curta deste seu amigo anarquista; e «A Participação de Libertários em Movimentos para Derrubar a Ditadura Salazarista», texto onde descreve o papel do movimento anarquista em Portugal desde a forte repressão sofrida nos anos 1920, que quase o aniquilou. Recorda que «milhares de anarquistas ou de supostos tais foram presos, deportados para sítios inóspitos, mortos. Foi uma repressão violenta, intensa e sem contemplações legais, como nunca existiu contra os comunistas. […] Nos anos 40 e 50 os comunistas tomaram o lugar dos anarquistas na aura da resistência ao fascismo». Conta ainda como descobriu verdadeiramente o anarquismo no Ateneu Cooperativo e narra episódios das iniciativas contra a ditadura em que ele próprio participou, nomeando os outros libertários partícipes.

    Irene encontrou «A Vida é feita de Acasos e Valores» quando pesquisava para um texto sobre a relação entre Adolfo Kaminsky, um dos mais importantes falsificadores de «papéis» da Resistência Francesa durante a Segunda Guerra Mundial, e o seu pai, «um dos alunos excelentes» que teve, o primeiro português a quem ensinou as artes da falsificação. Entrevistou o casal Adolfo e Leïla Kaminsky e achou por bem incluir essa conversa num capítulo deste livro, que também é seu. «Em Jeito de Conclusão» é o texto da sua autoria onde tenta retomar a parte não gravada da comunicação de José Hipólito dos Santos no Museu do Aljube, «a partir da memória do que ali afirmou e das múltiplas conversas que tivemos».

    Os textos de José Hipólito dos Santos, escritos em momentos diferentes, entre os anos 2007 e 2017, de agradável leitura, tratam essencialmente de lembrança do que foi a ditadura e do seu longo e singular percurso de luta pela liberdade. São contributos importantes para a preservação desta memória e, simultaneamente, revelam conhecimentos e reflexões úteis para quem resiste e luta por uma sociedade mais justa.

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    Texto de Fernando Silva, publicado no Jornal MAPA nr. 48 [Jan.- Mar. 2026]

     

     

  • Mapa #48 nas ruas!

    Mapa #48 nas ruas!

    No número 48 do Jornal MAPA, lançamos um olhar especial sobre as cantinas que não têm deuses nem master chefs, que se recusam a ser restaurantes e que vêem a comensalidade como um acto colectivo de pertença, partilha, conhecimento e aproximação. Destaque também para algumas das guerras e das lutas de que quase não se fala e de que pouco se sabe: Nepal, Myanmar e Sudão. Há espaço ainda para relatos algarvios do renascer comunitário que se tem seguido aos incêndios de Setembro de 2025, notícias de Almada e de Paris, lembranças sobre o assassinato de Sidónio Pais e os tempos em que a greve geral parecia surgir como a oportunidade para dar início à revolução social, visões de anarquistas debaixo da cama nos finais do século XIX e notícias de Braga do século XXII. Fala-se ainda de poluição luminosa e de cooperativismo, há recensões, poesia, entrevistas, BD e outras notícias neste número que, pela primeira vez, dá voz às bactérias.

    É assim o nr. 48 do Jornal MAPA, que podes encontrar nas tabernas mais rascas, nas livrarias mais respeitáveis e em tantos outros sítios. Ou que, em alternativa, podes receber no conforto da tua casinha, se a tiveres, poupando-te as deslocações e ajudando assim à continuação sustentada deste projecto voluntário e horizontal de informação crítica. Basta seres assinante.