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  • Jantar de apoio ao jornal MAPA – 17 Julho no RDA

    Jantar de apoio ao jornal MAPA – 17 Julho no RDA

    mapa6Quinta-feira, dia 17 de Julho pelas 20h, a Recreativa dos Anjos (RDA) acolhe um jantar em benefício do jornal MAPA, jornal bimestral de informação crítica, livre e autónoma, distribuído de Norte a Sul de Portugal em quiosques, cafés, livrarias e associações.

    Aproveitamos também a noite para distribuir a recém impressa edição de Julho (nº6), assim como edições anteriores.

    Se queres redistribuir na tua zona, ler, fazer uma assinatura, ter contacto com o projecto, fazer sugestões ou apresentar propostas, aparece.

     

    RDA: Rua Regueirão dos Anjos nº69, Lisboa (Metro: Anjos)

    Evento no Facebook

     

     

     

  • Mapa do Leitor

    Mapa do Leitor

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    Nova secção online, onde serão publicadas criticas, comentários e opiniões dos leitores do Mapa.

     

     

  • Serra do Caldeirão

    Serra do Caldeirão

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    Entre o Baixo Alentejo e o Algarve há um território que não leva nome. Quem aí vive ora anuncia que vai ao Algarve, ora fala que foi ali às terras Alentejanas. Onde vive é simplesmente na Serra. A serra do Caldeirão é um mundo à parte.

     

    A proposta de percursos pedestres tem a Ribeira do Vascão como eixo central. Sítio reconhecido na Rede Natura 2000, a ribeira aí nasce para vir desaguar no Guadiana, por entre um ondulado de cerros e corgos onde o abandono dos tempos humanos é testemunhado na paisagem por densos matos de sobreirais, azinhais e medronhais. Pelas margens de águas límpidas do Vascão, loendros, tamujos, freixos e salgueiros convidam à sombra, envoltos pelo cheiro das estevas nas vertentes xistosas da serra.

    Tomemos como ponto de partida o Ameixial (Loulé) de onde partem vários percursos marcados (disponíveis na página web do município) e iniciemos o Percurso de Revezes, a partir desse pequeno lugar e pelos montes do Brejo e Vale da Moita. 12 km por entre a serrania, que se cruza no Moinho da Cascalheira (onde o Vascão convida a banhos) com outra proposta de percurso (5km), desta feita na margem de Almodôvar (não marcado e indicado no Guia do Concelho de Almodôvar – Território da Antiga Escrita do Sudoeste, CMA/Naturterra) que nos leva ao Monte Branco do Vascão, nas cercanias da aldeia de Santa Cruz.

    Por entre a natureza destes lugares ecoam as histórias das guerrilhas. Há 200 anos atrás, o Remexido: herói romantizado que liderou a Sul, entre 1832 e 1838, a guerrilha conservadora miguelista, e que para lá da rendição política, permaneceu com os seus homens como guerrilheiro errante nestas montanhas até aí acabar fuzilado. Perpetuando para sempre o rastro de temerosos bandoleiros que ainda pressentimos no caminhar pela serra, fugidio entre as veredas e os matos intransitáveis. Entendemos afinal porque é que durante tantos anos umas poucas centenas de homens puderam fazer frente aos exércitos liberais, que sabiam não ser “possível acabar a guerrilha porque os moradores da serra são guerrilhas”. Como refere o Guia de Almodôvar: “as razões desse apoio residem no conflito gerado entre os antigos lavradores e os camponeses rendeiros, receosos da emergente burguesia comercial e maçónica, que do litoral algarvio estendiam as mãos à posse fundiária de baldios e de terras; mas sobretudo, do desespero da crescente massa de assalariados rurais e gente sem eira nem beira, que engrossavam a mendicidade, numa altura de profunda transformação da sociedade. (…) Aqui mais do que em nenhum outro lugar, a geografia física da serra e humana dos montanheiros, representou resistências, adversidades e solidariedades”

     Filipe Nunes
    filipenunes@dev.jornalmapa.pt

     

  • A ilusão da avaliação ambiental

    A ilusão da avaliação ambiental

    impacto_ambiental_destaqueDe há um ano para cá foi efectuada uma ampla revisão da legislação ambiental portuguesa. À margem de qualquer debate, o novo quadro legal parece obedecer somente à agilização dos licenciamentos económicos ligados à indústria e ao turismo. A ocasião pede que avaliemos, afinal, o que é isso de Avaliação Ambiental.

     

    No seu percurso de mais de duas décadas, a chamada Avaliação de Impacto Ambiental (AIA)[ref]http://goo.gl/1TQfYX[/ref], determinou a um conjunto de obras públicas e privadas, por motivos ambientais, culturais e de ordenamento territorial, todo um conjunto de procedimentos que passam pelos Estudos de Impacto Ambiental (EIA) – a apresentação técnica de todos os impactos significativos dos projectos, negativos ou positivos, e das medidas de minimização – à sua análise por uma Comissão (nomeadas pela Agência Portuguesa do Ambiente ou pelas CCDR, Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional), que emite sob despacho governamental uma Declaração de Impacto Ambiental (DIA), a qual ora é favorável, favorável condicionada ou desfavorável. Prevista está ainda uma fiscalização no âmbito de processos de pós-avaliação às medidas impostas, o que nunca ou muito raramente acontece.

    Estes processos envolvem um rol de especialidades técnicas (da biologia, arqueologia à sociologia, engenharias, etc.) resultando numa ferramenta que legitima os empreendimentos em causa e que, sobretudo, pretende mediar e justificar esses projectos perante as populações através de um proclamado processo de participação pública. Uma etapa burocrática num momento em que os estudos estão concluídos e nada volta atrás a não ser no campo das medidas mitigadoras. Uma participação limitada, em jeito de pró-forma em que apenas entidades providas da mesma linguagem e engrenagem técnica acabam por participar, nas ténues fronteiras de uma dita consulta pública. Em Junho de 2013, a Quercus apontava a enorme dificuldade dessa participação “já que, das seis entidades que conduzem o processo administrativo [a APA e as CCDR] (…), apenas três disponibilizam toda a documentação necessária à participação responsável por parte dos cidadãos”[ref]http://goo.gl/3pYpCX[/ref].

    ilusao_avaliacao_ambientalA avaliação, definida como “instrumento de carácter preventivo da política do ambiente” deve antes ser lida como “de carácter preventivo da política”. Às objecções ambientais ou às resistências populares a determinados projectos, a AIA acaba sempre por justificar tecnicamente esta ou aquela opção e “minimizar” como um hábito paliativo o que é negativo[ref]Consultado o histórico da APA, entre 1995 e 2012 foram emitidas 77 declarações a reformular, 106 desfavoráveis, 3 favoráveis e 1060 favoráveis condicionadas.[/ref]. Tamanha mediação não acalmou, porém, o “empreendedor económico” e cedo foi o mesmo aliviado de questões ambientais ou dos trâmites públicos que se via obrigado a custear. Nascem com José Sócrates em 2005 os PIN – Projectos de Interesse Nacional – uma via verde no licenciamento ambiental; e em 2007 surge a Avaliação Ambiental Estratégica (AAE) de planos e programas que permitiu atalhar a implementação de projectos.

    Instituída como um mero “aval” ambiental, a AIA vê-se reduzida e imersa na lógica burocrática do papel e do carimbo: feitas “as contas”, o único e assumido mal a ultrapassar em nome da agilização económica. O que importa é a celeridade dos processos, pressa, muita pressa, não vá alguém reparar o que está para lá da cortina. Esquecida sempre esteve qualquer ponderação ambiental, se esta não servir à imagem verde empresarial, ao marketing da “sustentabilidade” ou aos ganhos da “gestão ambiental”.

    Foi nesse sentido que, no início de 2014[ref]http://goo.gl/yy874y[/ref], o advogado e professor universitário em matéria de legislação ambiental, João Pereira Reis, manifestou a sua satisfação com o novo quadro legal da AIA, promulgado em Novembro de 2013. Em suma, o novo regime de AIA introduz a diminuição dos prazos e uma revisão dos limites – agora mais folgados – das indústrias e infraestruturas sujeitas a avaliação. Já em Agosto do ano passado[ref]http://goo.gl/HDOdSF[/ref] João Pereira Reis fazia votos de uma revisão em matéria de planos de ordenamento territorial, os quais deveriam “aligeirar os procedimentos e os conteúdos materiais e documentais”, “tornando este «instrumento» mais consentâneo com os tempos de austeridade que actualmente vivemos e mais “amigo” do investimento privado”, referindo-se nomeadamente ao sector turístico. Na nova AIA os seus anseios foram escutados, pois apesar se tratar de avaliação, esse processo pode decorrer em simultâneo com o procedimento de licenciamento da construção/instalação do empreendimento. Mais ainda, face às “limitações” dos planos de ordenamento territorial (o que levou a muitas alterações de PDM ou planos de urbanização ou de pormenor), a nova lei permite agora que “a desconformidade do projecto com os instrumentos de gestão territorial aplicáveis não condiciona o sentido de decisão da DIA”, ou seja, que a força de lei seja moldada a um qualquer projecto. E, se tal não for suficiente, outra novidade é anunciada: a “entidade acreditada”, figura de natureza privada que poderá vir a substituir incumbências da administração pública, como na certificação da conformidade do EIA. Se actualmente nenhuma empresa que elabora EIA os faz em sentido contrário ao seu cliente, no mesmo sentido a criação de entidades privadas facilitará ainda mais a certificação desses interesses…

    avaliacao_ambiental2E, exemplificando, destaque-se a forma como o Plano Estratégico Nacional para o Turismo, no período 2013-2015 (PENT), aprovado em Abril de 2013 e que previa precisamente a “simplificação de processos e a redução de custos”, se cruza tão afavelmente com o novo regime jurídico de AIA, em mais uma demonstração de Portugal como um território-cheque em branco aos investimentos turístico-imobiliários sem freio. Desta feita, no cenário geral de uma diminuição do número de projectos submetidos a AIA, os aldeamentos turísticos com área igual ou superior a 5 hectares, que até aqui estavam sujeitos a AIA, passam agora para a fasquia de 10 hectares, o mesmo sucedendo com os estabelecimentos hoteleiros, que passam de 200 para 300 camas.

    Todo o processo de Avaliação Ambiental será, pois, no mínimo um jogo de faz-de-conta. Mas é mais do que isso: reflecte a forma pós-moderna de fazer politica e gerir os territórios e a natureza. Nenhum decisor politico e empreendedor económico –passe os eufemismos – dispensa as “boas informações técnicas” e a chancela ambiental indispensável no seio do catastrofismo de um fim de ciclo capitalista em modo de reinício. Se essa percepção é hoje mais evidente sob o cair da máscara da política representativa, resta ainda a máscara da representatividade da decisão técnica, da avaliação técnica – dos doutores e engenheiros – que a generalidade da população não dispensa. A mera delegação neste corpo técnico, e logo nos promotores que custeiam os processos de AIA, distancia-nos de igual forma, ou ainda mais, das tomadas de decisão e do nosso território. Por acréscimo, igual noção deveria ter quem um dia estuda o encanto do ambiente e dos seus valores, para depois ir a soldo justificar o seu desaparecimento.

     

  • As assembleias de base e a luta pela habitação digna

    As assembleias de base e a luta pela habitação digna

    corralas_interior1Desde 2011 que em Sevilha se desenvolveu uma rede particular de assembleias de bairro, em grande medida devido ao estímulo trazido pelo 15M e também devido à herança de trabalhos e projectos que datam de um período anterior. Ainda que, desde aquelas datas, algumas assembleias tenham desaparecido e outras tenham visto os seus projectos frustrados, é preciso voltar muito tempo atrás para ver tanta gente, tão diversa e de bairros tão diferentes, coordenadas com objectivos de transformação social.

    A maior expressão prática desta rede de assembleias foi um trabalho assinalável no âmbito do problema da habitação. Num contexto de desemprego massivo, pauperização e despejos, esta rede revelou-se decisiva na organização das principais vítimas da crise. A expressão mais conhecida desta rede foram as ocupações massivas e populares, auto-denominadas “corralas”[ref]Como referido no jornal El Topo, trata-se do «nome com que se auto-denominam os grupos de famílias com problemas de habitação que, depois de esgotadas todas as instâncias que as administrações públicas põem à disposição do cidadão, e sem ter conseguido resolver o seu problema habitacional, decidem auto-organizar-se para chegarem a uma solução colectiva. Deste modo ocupam um dos milhares de blocos de casas que permanecem vazios desde há muito tempo e que estão nas mãos de empresas que faliram ou de bancos que foram resgatados ou nacionalizados, para assim exercer o seu direito a uma habitação digna tal como reconhece o art. 47 da Constituição Espanhola, fazendo prevalecer a função social da propriedade, e mais concretamente, das habitações.»[/ref], que se desenvolveram no último ano e meio na cidade e que se conseguiram estender para lá dos seus limites.

     

    Aterrando nos bairros

    Depois das manifestações massivas e das acampadas do 15M, o movimento que daí surgiu apresentava inicialmente reivindicações globais à volta da melhoria da democracia e críticas à classe política. No entanto, entrelaçado com a crítica ao sistema de democracia representativa, o movimento encontrou na vizinhança o espaço natural de militância, descentralizando-se em pequenas assembleias. Nestas, organizações prévias e discursos dos movimentos sociais sevilhanos encontraram-se com uma nova geração de activistas. Da mesma forma, a aterragem nos bairros populares fez com que as grandes reivindicações políticas enfrentassem as problemáticas locais e concretas, apresentando-se com maior urgência o tema do desemprego e da habitação

    Até ao momento, a intervenção na problemática do desemprego limitou-se a algumas assembleias e não teve toda a repercussão desejável. No entanto, o trabalho no âmbito da habitação deu resultados muito palpáveis. Desde 2011, o movimento a nível do estado espanhol, aliado com a Plataforma de Afectados por la Hipoteca, virou-se para a luta contra os despejos. Sevilha não foi uma excepção nesse sentido e foram vários os despejos que foram travados naquele Verão. Aqui, a estrutura de assembleias de bairro serviu, desde o princípio, para contactar com os ameaçados pelo despejo e organizar a resistência ao mesmo. As acções deste tipo encontrava-se e encontram-se fortemente legitimadas e muitas delas foram seguidas massivamente pelos moradores, demonstrando a potencialidade da solidariedade popular.

     

    Descolando com a Intercomissão de Habitação

    Uma das estruturas informais mais significativas que se criaram no contexto do 15M sevilhano foi a Intercomissão de Habitação. Nela encontraram-se pessoas das diversas assembleias de bairro com activistas e organizações pelo direito à habitação que trabalhavam na cidade desde há muito. Depois dum início em que a urgência de parar os despejos não permitia ver a importância de melhorar a organização e as ferramentas disponíveis, em 2012 deu-se um grande salto em frente com a formação de uma rede de Pontos de Informação de Habitação e Encontro (Puntos de Información de Vivienda y Encuentro – PIVEs), apoiados nas assembleias de bairro. Em cada um desses escritórios, um advogado e um ou vários activistas aconselham as famílias. Hipotecados sob ameaça de despejo, inquilinos que não podiam pagar os seus alugueres ou pessoas que tinham perdido os seus lares e se encontravam praticamente na rua, passam por ali.

    Desde que começaram a funcionar, o maior mérito destes espaços não foi proporcionar uma boa informação legal, que também aconteceu, mas propiciar ao afectados que se organizassem em grupos onde pudessem encontrar apoio e lutar por uma causa comum. A partir destes grupos proporcionou-se apoio moral, pressionou-se para conseguir o fim do pagamento através da cedência da habitação e realizaram-se campanhas para mudar as leis injustas. De um destes grupos surgiu a Plataforma de Afectados por la Hipoteca de Sevilha, em 2012, e de outro, no mesmo ano, surgiu a primeira ocupação colectiva e pública do movimento.

    Em Maio de 2012, apoiadas principalmente pela assembleia do 15M do distrito de Macarena, 38 famílias ocuparam 4 edifícios desabitados, propriedade duma entidade bancária, ao que chamaram “Corrala La Utopía”. O exemplo espalhou-se rapidamente e, a 5 de Junho, outras 5 famílias ocuparam a “Corrala Conde Quintana”. Nos meses seguintes abriram-se mais quatro “corralas” no município de Sevilha e outras quatro na área metropolitana, alojando um total de 145 famílias, às quais se juntam múltiplas ocupações individuais e não publicitadas, que se apoiam na estrutura dos PIVEs e nas assembleias de bairro do 15M. Posteriormente, o modelo expandir-se-ia a outras cidades andaluzas, com pelo menos quatro ocupações massivas em Málaga ou com a ocupação dum bairro por 164 famílias em Huelva. Muitas destas “corralas” encontram-se hoje em situação precária, sem luz e sem água, outras foram despejadas e outras procuram uma forma de se regularizarem, seja negociando com o proprietário, seja procurando a intermediação da Junta da Andaluzia.

     

    Voando para o Futuro

    Em dois anos, o movimento pela habitação em Sevilha, fundamentado nas assembleias de bairro, converteu-se numa referência importante e acumulou uma experiência de grande interesse. Conseguiu criar uma estrutura estável, a partir da qual se liga à população mais castigada pela crise e que, no melhor dos casos, permite que uma parte da mesma se organize. Para além disso, as acções levadas a cabo questionam a legitimidade dum sistema que protege a propriedade antes de proteger as pessoas e situa o debate na raiz do problema. No entanto, ainda há muito caminho para percorrer. O movimento cometeu erros e há-de aprender com eles. Muitas vezes actuou-se com precipitação e poucas vezes se pensou em estratégias a médio e longo prazo. Ao mesmo tempo, o potencial é grande e os resultados conseguidos até ao momento não são poucos. O tempo dirá se as assembleias de bairro e as “corralas” são sol de pouca dura ou se, pelo contrário, se convertem numa referência política da cidade com uma verdadeira influência social.

    Ibán Díaz, ex-Intercomisión de Vivienda de Sevilla[ref]Texto extraído do jornal El topo (nº 1) a partir do original  “Las asambleas de base y la lucha por la vivienda digna en Sevilla”[/ref]

     

    Ler também Reflexões depois do despejo da corrala utopía

     

  • Reflexões depois do despejo da corrala utopía

    Reflexões depois do despejo da corrala utopía

    A Luta pelo Direito à Habitação em Sevilha tem uma larga trajectória, mas foi nos últimos dois anos que teve um aumento especial. A 17 de Maio de 2012, um edifício vazio foi ocupado por várias famílias, a Corrala la Utopía, não tendo sido um acto isolado já que por todos os bairros da cidade estavam-se a organizar Pontos de Habitação e Encontro (PIVES), onde, através das assembleias, era dado aconselhamento às famílias, com o colectivo a mobilizar-se na procura de soluções para a necessidade de habitação, para os despejos, para denunciar as situações de abusos, para prestar apoio emocional, etc. Em paralelo nasceu o Movimiento Andaluz por el Derecho a la Vivienda; necessitávamos unir forças a nível andaluz, já que a necessidade e as situações de precariedade eram as mesmas. Este movimento, que na Andaluzia caracterizou-se, entre outros aspectos, por unificar a luta de todo/as o/as afectado/as por despejos, quer fossem inquilinos, hipotecados ou pessoas que ocupavam. Assim, no seu seio, coordenam-se diversas assembleias de bairro, grupos de STOP DESAHUCIOS, da PAH (Plataforma Afectados por la Hipoteca) e outros colectivos de base. Poderíamos, para precisar, definir duas linhas de trabalho através das quais este movimento se desenvolveu desde há mais de 2 anos. Uma mais de acção directa, com bloqueios de vizinho/as para evitar os despejos e pressionar o/as proprietário/as, bancos e imobiliárias; assim como as ocupações colectivas de edifícios quer fossem de entidades financeiras como públicas. E a outra legalista, mais de mobilização e de campanhas coordenadas de reivindicação face às administrações, exigindo mudanças concretas na política da habitação, incluindo a luz e a água, de modo a travar a dinâmica de despejos que deixaram milhares de pessoas sem tecto e um número difícil de quantificar de suicídios.

    Tudo isto fez com que à Corrala la Utopía tivesse o sucesso que teve, pois ficava demonstrado que a força e a unidade de todo/as podia fazer com que se ocupasse um edifício vazio, propriedade da banca, demonstrando assim como a especulação e a usura dos bancos era combatida através da desobediência civil e da auto-organização das famílias. Foram várias as ocupações colectivas (corralas) que continuaram a dar-se tanto em Sevilha como pela sua província, assim como pelo resto da Andaluzia. Desta forma, pôs-se em cheque o governo andaluz (PSOE-IU) [coligação entre o Partido Socialista Obrero Español e a  Izquierda Unida], em especial o Departamento da Habitação e Obras Públicas (IU), que não fez mais que seguir os passos que já tinham sidos dados pelos movimentos sociais, criando nas suas delegações centros de aconselhamento para as famílias, enfatizando e apoiando as mobilizações, já que não tinha nada com que contribuir.

    No passado domingo, 6 de Abril, executando uma ordem do tribunal, um dispositivo policial de umas 20 carrinhas de anti-distúrbios procederam ao despejo das 22 famílias que viviam desde há 2 anos na Corrala Utopía, para devolver o edifício ao seu proprietário legal, o banco IBERCAJA. O despejo que se  deu de forma “pacífica” (eufemismo mediático se não há feridos graves) ao apanhar de surpresa o/as ocupantes, decorreu com uma calma tensa que não evitou que a polícia nacional detivesse durante a manhã 2 companheiros por protestar na rua contra o despejo, com as habituais acusações de atentado à autoridade, resistência, etc….

    Os partidos políticos de esquerda e direita, a partir das administrações públicas e dos mass media, passam a partir desse momento a protagonizar definitivamente os últimos compassos do melodrama sobre as consequências da crise que, em torno desta emblemática ocupação, iam tecendo desde há algum tempo. Reprovações mútuas entre administrações, demagogia política sobretudo da Izquierda Unida e um assistencialismo deficiente aos/às despejado/as, pois apenas uma parte foi realojada em apartamentos públicos, obscurecem a origem das corralas, do movimento de luta que as engendrou e quais são as reivindicações que hoje em dia seguem de pé.

    O resultado foi díspar e faria falta uma análise mais profunda das causas, o que agora mesmo pode ser precipitado. De qualquer forma, é evidente o cansaço e a necessidade de reflexão. A linha da acção directa acarreta um desgaste repressivo difícil de manter, pois são muitos já os imputados por distintos delitos. A outra pode submergir-te num discurso possibilista, onde os partidos jogam com vantagem, perdendo-te num labirinto de leis. Em qualquer caso, são inegáveis os resultados no caminho percorrido. Por um lado, a luta nos bairros criou experiências colectivas de resistência que permanecem latentes quando não se encontram realmente vivas. Por outro, a mobilização contra as administrações, na Andaluzia contra o governo na Junta do PSOE e da IU, marcou a agenda política sobre a questão da habitação, tomando medidas face à opinião pública e manipulando com os seus meios, como sempre, mas tornando visível o conflito bem mais além do que teriam desejado.

    O caminho continua aí, à espera, já que as condições de exploração e alienação às quais nos submetem diariamente continuarão a apelar para que unamos forças para abrir espaços de confrontação e apoio mútuo. Um abraço fraternal desde Sevilha.

    Maca e Pablo

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