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  • Uma revolução ignorada no Myanmar

    Uma revolução ignorada no Myanmar

    Nas colinas ocidentais do Myanmar, no território do povo Chin, falámos com H, um internacionalista californiano que se juntou à recentemente criada Frente Internacionalista Antifascista (AIF). Antes de se juntar ao povo Chin, H esteve em Rojava, no Curdistão, a participar na revolução que ali acontece há 13 anos. Na AIF, assumiu a responsabilidade pela comissão política do grupo que agora está presente nas linhas da frente, a resistir a mais uma ofensiva da junta militar que tomou o poder em 2021. Falámos com H sobre esta revolução ignorada, sobre internacionalismo e sobre o que isso significa no contexto atual.

    Diferentes revoluções e conflitos têm sido o foco de muitos movimentos de solidariedade internacional em todo o mundo, mas o Myanmar é um dos muitos casos desconhecidos, pelo menos no Ocidente. Para começar, podes dar-nos um panorama geral da revolução e do seu estado atual?
    Ao longo da sua história, o Myanmar tem sido empurrado para o fundo da atenção internacional. A região encontra-se na periferia da periferia global, encaixada entre as extremidades marginalizadas do nordeste da Índia e as fronteiras remotas do Laos e da Tailândia, partilhando apenas uma fronteira com o Estado chinês que lhe permite receber ocasionalmente a atenção da oligarquia chinesa. Após a segunda Guerra Mundial, a ocupação britânica deu lugar a operações anticomunistas fracassadas da CIA no norte do país, que lutava desesperadamente por um novo regime fantoche que nunca se manifestou. Nos últimos tempos, a atenção voltou-se para o norte do mar de Andaman, principalmente devido à situação política da laureada com o Prémio Nobel, Aung San Suu Kyi, que se encontra presa, e ao lucrativo trauma pornográfico do genocídio dos Rohingya. A atual revolução no Myanmar começou depois do golpe de Estado de 2021, quando os militares birmaneses derrubaram a Liga Nacional pela Democracia. Este é o período de resistência mais intenso e decisivo das últimas décadas, mas a resistência ao exército birmanês existe há séculos. Esta revolução tem, portanto, uma oportunidade sem precedentes de reformular completamente os fundamentos coercivos do Estado, e nela existe uma base para a prática internacionalista.

    A AIF é uma organização bastante recente. Podes dizer- -nos o que é a AIF, onde se encontra atualmente e quais são as suas perspetivas para o futuro?
    A Frente Internacionalista Antifascista foi formada pouco antes da batalha para libertar a cidade de Falam, a segunda maior do estado de Chin (ver abaixo), em abril deste ano. A iniciativa veio de vários companheiros internacionais em cooperação com os nossos aliados nas colinas Chin para apoiar diretamente os desenvolvimentos revolucionários no Myanmar, também inspirada no paradigma do movimento de liberdade curdo. A AIF opera em várias regiões do Myanmar e os nossos companheiros vão para onde são mais necessários. Desde a fundação, a estrutura tem desempenhado um papel na libertação de Falam, mantendo uma presença militante tanto na linha da frente como nas linhas da retaguarda, ao mesmo tempo que realiza formações para os nossos aliados. O nosso trabalho prático baseia-se no desenvolvimento comunitário e na luta ideológica. Não vemos muito sentido em manusear uma arma sem essa base social e política. Portanto, embora sejamos uma estrutura militar, o nosso trabalho diário não é exclusivamente militar. O nosso trabalho é político, diplomático e social, e o nosso programa é organizado de acordo com isso. Lutamos ao lado dos nossos companheiros de cá por um mundo livre de dominação, não só com as organizações existentes, mas também com as mulheres locais na sua busca pela autonomia e libertação.

    O genocídio na Palestina gerou uma ampla solidariedade internacional em todo o mundo e o internacionalismo parece ter voltado aos movimentos revolucionários de esquerda em todo o mundo. Como internacionalista no Myanmar, o que te motivou a dar esse passo e ir para aí?
    Eu estava a organizar-me com pessoas da diáspora do Myanmar há algum tempo e os meus companheiros da comunidade encorajaram-me a avançar e a juntar-me à luta aqui. Fazia muito sentido contribuir para a revolução aqui dessa forma. Foi a minha geração, a Geração Z, que iniciou grande parte desta revolução. Os nossos companheiros da Geração Z aqui não perderam tempo em assumir a responsabilidade revolucionária e fizeram-no muito bem. Qualquer internacionalista não deve negligenciar os sacrifícios que os nossos companheiros da Geração Z no Myanmar fazem para alcançar a liberdade. Para os companheiros internacionalistas da Geração Z, há uma urgência global particular que deve ser reconhecida. É sua responsabilidade levar adiante essa chama também, querido companheiro. Outro fator importante e que também influencia a minha decisão de lutar aqui é o investimento profundo e persistente do Estado Israelita na junta militar. O Estado Israelita projetou as armas do exército birmanês, fornece peças para as suas aeronaves e mantém uma parceria económica pouco visível. Embora possa não ser óbvio, esta luta é, sem dúvida, uma importante frente contra o imperialismo israelita na Ásia. No entanto, a nossa presença aqui não precisa ser justificada pela proximidade ou distância do nosso inimigo imediato em relação a Israel. Israel não é o único Estado a cometer genocídio no mundo atualmente.

    Devemos também questionar o internacionalismo de movimentos liberais? O foco apenas nos conflitos, movimentos de resistência, revoluções, etc., que parecem estar a ganhar mais atenção, coloca a questão: o que é a solidariedade internacional? Como é que ela deve ser?
    A nossa presença aqui é uma defesa imediata contra o oportunismo dos Estados em que nascemos. A disputa pelo controlo das minas de jade da região de Kachin no norte do país, por exemplo, é um conflito em que os Estados Unidos e a China competem entre si, longe dos holofotes globais, enquanto outros lobbies ligados às classes dominantes tentam constantemente extrair recursos do Myanmar, cooperando com a junta militar. A nossa relação com a guerra pretende dissipar a ideia liberal de simplesmente ir ajudar porque as pessoas estão a sofrer e, depois, sentir-se moralmente validado. Não há transação no nosso trabalho aqui. O nosso trabalho prático não é realizado aqui por causa da guerra, mas por causa da necessidade imediata de defesa contra um poder genocida. O Movimento de Liberdade Curdo ensina-nos um conceito importante: o wextê alozî (intervalo de caos). Trata-se de um período volátil em qualquer sociedade, no qual existe uma janela de oportunidade limitada para uma mudança revolucionária de grande magnitude. O golpe de 2021 criou este wextê alozî para os povos do Myanmar, onde atualmente lutamos, e isto está diretamente ligado à forma como abordamos o internacionalismo. Dentro desse wextê alozî, somos guiados pelas necessidades imediatas dos companheiros locais, e não pretendemos inserir-nos num ambiente pré-definido. Navegamos por ele através da adaptação e não da autovalidação. É fundamental ter em conta que a revolução no Myanmar não é um monólito, nenhuma força política tem uma verdadeira hegemonia na revolução, o que significa que esta é amplamente descentralizada. Os nossos camaradas comunistas do Partido Comunista da Birmânia mantêm a sua própria aliança de forças revolucionárias, com o Exército Popular de Libertação Bamar e a Força de Libertação Buffalo Soldier. Mas isso não os impede, nem nos impede, de lutar ao lado de forças mais populistas, como o Governo de Unidade Nacional ou a Organização de Independência Kachin. No Myanmar, a revolução assume a forma de uma frente unida contra a junta fascista, por um futuro em que as comunidades possam determinar a sua própria realidade sem a ameaça de genocídio. Não nos cabe a nós determinar como será esse futuro, mas estamos dispostos a dar as nossas vidas para o defender. Um companheiro curdo das Unidades de Proteção Popular disse, uma vez, durante a defesa da barragem de Tişrîn: «se a PKM [metralhadora PK] não funcionar, a BBC não falará sobre nós, amigos! Vocês precisam entender — se isto não funcionar, ninguém sequer nos reconhecerá. Se isto falhar, a nossa língua desaparecerá. As nossas tradições serão apagadas. Se isto falhar, os nossos cemitérios serão profanados. Se isto falhar, as nossas mães ficarão indefesas. Mas se tivermos isto, teremos tudo. Sem isto, juro-vos — nada restará. Nós próprios não sobreviveremos. Eles vão eliminar-nos um por um».

    E o que significa o internacionalismo para o povo Chin?
    Até à criação da AIF, a maioria dos estrangeiros nas colinas Chin tinha uma relação abertamente transacional ou extrativista com as comunidades locais. Nós viemos aqui sem pedir nada, e isso é algo estranho para uma comunidade que foi submetida a uma mistura de colonização britânica e evangelismo americano. Não invadimos as colinas agindo como se fossemos os donos do lugar. A nossa prática aqui começa por questionar o que podemos fazer como internacionalistas para aprofundar a defesa contra a junta e expandir a ligação com outros companheiros em luta em todo o mundo. Os internacionalistas da AIF têm uma responsabilidade particular em estabelecer pontes de solidariedade com a comunicação que desenvolvemos na frente internacional. Vale a pena notar que essa solidariedade também já foi expressa na revolução, sem a nossa ajuda, de várias maneiras. Os companheiros das Forças de Defesa Nacional Karenni expressaram solidariedade com a revolução em Rojava, por exemplo. As companheiras das Forças de Defesa Nacional Chin, por iniciativa própria, trocaram mensagens de solidariedade com as forças autónomas de mulheres de Rojava. Fundamentalmente, o internacionalismo está na luta pela libertação das mulheres e não existe sem esta. A luta contra 10.000 anos de patriarcado é tão real nas colinas de Chin como em qualquer outro lugar do mundo, desde as subtilezas dos papéis de género estabelecidos dentro da revolução até à violência patriarcal aberta cometida pela junta. Com relações internacionais entre os movimentos de mulheres, existe uma nova semente para a libertação das mulheres florescer. Criámos, por exemplo, um programa para os homens da nossa unidade, para desconstruírem as tendências patriarcais e aplicarem essa desconstrução nas nossas interações com a sociedade. Como prática integral do internacionalismo, pretendemos contestar na nossa vida quotidiana as normas patriarcais legitimadas aqui pelas forças imperialistas, sejam elas provenientes de Yangon, Londres ou Ohio.

    De longe, o que podem fazer outras pessoas para contribuir para a revolução no Myanmar?
    Organizem-se com as comunidades locais da diáspora do Myanmar e simplesmente incluam o Myanmar na vossa prática internacionalista, seja ela qual for no vosso território. Encorajamos os companheiros a organizarem eventos de solidariedade com o Myanmar e a AIF. Teremos todo o prazer em apoiar esses eventos e participar em sessões de perguntas e respostas. Fiquem atentos às nossas campanhas de angariação de fundos e a mais desenvolvimentos envolvendo a nossa organização, pois estamos a trabalhar para criar mais oportunidades para que companheiros possam trabalhar connosco, tanto para aqueles que estão no estrangeiro como para aqueles que desejam vir para cá. Quem desejar apoiar-nos materialmente de forma imediata, pode fazê-lo através dos seguintes meios: PAYPAL: @AIFMYANMAR, VENMO: @AIFMYANMAR, CASHAPP: $AIFMYANMAR. Por favor, mantenha a secção «nota» em branco ou sem qualquer descrição. Para entrar em contacto com a AIF sobre como aderir à revolução ou apoiar a partir de onde estiver, todos os e-mails podem ser enviados para: AIFMyanmar@protonmail.com. Também podem seguir-nos no Instagram e no YouTube @AIFMyanmar.


    Fotos de Frente Internacionalista Antifascista (AIF)
    entrevista publicada no Jornal MAPA nr. 48 [Jan. – Mar. 2026]

  • Entrevista a Black Book Distro

    Entrevista a Black Book Distro

    A Black Book é uma biblioteca anarquista de Catmandu, Nepal, que, desde 2020, trabalha para difundir a ideia e a prática anarquistas num espaço que pretende criar comunidade e organização, através de conversas, oficinas, projecção de documentários e um pequeno espaço de encontro livre do consumo capitalista. Nesta entrevista, contam-nos como viveram os dias da revolta e os esforços para que as velhas estruturas não regressem ao poder.

    Como (e quando) é que o colectivo Black Book começou e quais são as suas principais actividades?

    A Black Book Distro começou em 2020, depois de alguns de nós termos decidido criar uma biblioteca anarquista pública, em vez de permanecer na clandestinidade. As nossas principais actividades são organizar conversas sobre diferentes questões políticas e sociais, fazer oficinas e compartilhar experiências com outros activistas sobre como nos organizarmos. Também oferecemos um local comunitário para nos reunirmos e comunicarmos entre nós sem a troca capitalista de ter que comprar um café ou comida cara, como temos de fazer quando nos encontramos em algum café.

    O protesto da Geração Z tem origem no movimento Enough is Enough (Já Basta) de 2019. Nos anos seguintes, havia a sensação de que as coisas estavam prestes a explodir, como aconteceu em 9 de Setembro?

    Depois do movimento Enough is Enough em 2019, havia uma atmosfera de tempestade a caminho, mas não sabíamos quando. Houve muitos momentos em que pensámos que iria começar uma revolta. Mas, no primeiro dia da revolta da Geração Z (Gen Z), sabíamos que o governo iria ruir devido à forma como retaliou contra os manifestantes pacíficos. Nunca tantos manifestantes tinham morrido num único dia na história do Nepal. Por isso, naquela noite, preparámo-nos para a insurreição que se avizinhava para o dia seguinte. E, no dia seguinte, a nossa raiva e tristeza encontraram uma bela forma de expressão.

    Podes descrever resumidamente quais foram os principais grupos organizados durante as manifestações de 8 e 9 de Setembro e de que forma os grupos de anarquistas se organizaram nas ruas?

    Havia muitos grupos organizados durante os dias 8 e 9. Havia o grupo de coordenação Gen Z, que era o principal organizador, com o qual nós e até mesmo a Hami Nepal estávamos em contacto. Havia também diferentes celebridades e activistas famosos que divulgaram a notícia do protesto.

    Estávamos organizados em grupos de afinidade próximos. Nem todas as pessoas nos grupos se identificavam como anarquistas, mas os anarquistas estavam lá. Estávamos mais preocupados com as crianças que tinham vindo aos protestos, por isso tentávamos dizer às crianças para ficarem em segurança enquanto lutávamos na linha da frente. E, na linha da frente, tentávamos organizar uma defesa estratégica para que a polícia não pudesse atirar sobre nós tão facilmente.

    O centro do poder de Catmandu foi totalmente destruído pelo fogo, em Pokhara houve alguns ataques a casas de políticos e saques, mas como foram vividos esses dias nas aldeias mais pequenas e, considerando que o Nepal ainda é um país predominantemente rural, qual é a expressão dessa revolta nas áreas não urbanas? E como é que os anarquistas estão presentes nessas áreas?

    As aldeias estavam, na sua maioria, tranquilas. Embora, em algumas delas, se tenha assistido a manifestações contra membros corruptos das juntas de freguesia ou políticos locais, a revolta principal ocorreu nas cidades, desde Catmandu e Pokhara até muitas cidades da região de Terai. Embora nas aldeias não se tenha assistido a revoltas, a maior parte do país concordou que era altura de a maioria desses políticos corruptos ver a raiva do povo, que se acumulava há muito tempo.

    Os anarquistas não estão muito presentes nas áreas rurais, uma vez que a maioria dos jovens vai para as cidades à procura de educação e trabalho. Os anarquistas chegam às aldeias quando voltam para as suas terras ou quando viajam. No passado, os anarquistas realizaram programas de saúde nas aldeias.

    Numa resposta à entrevista da Crimethinc, disseram: «No entanto, esta revolta não estava totalmente preparada para o que se seguiria». Partindo do princípio de que poucas revoltas o estão, como estão vocês a lidar com o pós-revolta e onde têm centrado os vossos esforços?

    Depois da revolta, temos estado activos principalmente a tentar explicar às pessoas que a solução agora não é voltar à monarquia, como algumas pessoas querem. Por outro lado, também temos tentado informar que escolher outro político corrupto só porque ele nunca foi primeiro-ministro não é o caminho a seguir, mas sim que precisamos de novos rostos radicais e de um movimento que possa desafiar a velha estrutura de poder. A velha esquerda no Nepal falhou. Por isso, queremos ver e estamos a trabalhar para a criação de uma nova luta de esquerda.

    Por fim, de que forma podemos, a partir de Portugal, apoiar a Black Book e outros movimentos anarquistas e populares de base que continuam a resistir aos novos governos que virão?

    Só o facto de nos fazerem estas perguntas e de quererem conhecer-nos já é um grande sentimento de solidariedade para nós. O facto de esta opinião ser publicada aí e de as pessoas conhecerem a nossa luta também é uma grande ajuda. Se os velhos políticos voltarem ao poder aqui, saibam que estaremos nas ruas. Além disso, se no futuro precisarmos de fundos para realizar programas ou ajudar camaradas aqui, não importa quanto, será uma solidariedade internacional. Até lá, viva a revolução, camaradas. Um dia, este inferno capitalista e imperialista entrará em colapso e, aí, formar-se-á a nossa sociedade livre.


    entrevista publicada no Jornal MAPA nr. 48 [Jan. – Mar. 2026]

  • A voz das bactérias

    A voz das bactérias

    A primeira vez que os cientistas procuraram escutar a voz das bactérias foi para matá-las. Sem conhecer o seu idioma e vocabulário, o que contou como voz foi o movimento, a vibração feita pelos seus corpos. Da imensa diversidade de bactérias que imaginamos existirem no nosso planeta, dedicamo-nos a conhecer dez. A mais bem estudada de todas é usada no laboratório de uma forma instrumental, Escherichia coli, sem querermos saber propriamente o que faz nos seus tempos livres. Esta dezena causa doenças em seres humanos, como a tuberculose, a pneumonia e infeções variadas, quando tem oportunidade. Nestes momentos, queremos debelar as bactérias e ouvi-las a agonizar para saber se os antibióticos estão ou não a fazer efeito. O seu silêncio é o nosso descanso, e após vencer a guerra, voltamos a ignorá-las.

    As bactérias, criaturas minúsculas, refazem a escala ao produzir o planeta tal como o conhecemos. Refazem também o social e, no processo, humilham o Antropoceno. Um dos primeiros homens a observá-las com atenção, Christian Gottfried Ehrenberg, pensou que eram iguais aos animais, só que mais pequenas, «sem gradação do mais simples para o complexo». Infelizmente, esta igualdade foi de pouca dura; o facto de serem organismos de uma célula única despromoveu-as a unidades semelhantes a tijolos ou legos com as quais se constrói a vida, onde a complexidade se tornou sinónimo de superioridade, e a simplicidade sinónimo de inferioridade. No entanto, o sucesso das bactérias reside precisamente na igualdade radical com que compõem o mundo. São capazes de criar colónias, organismos visíveis a olho nu, biofilmes, e viver em quase todos os recantos do planeta e, muito possivelmente, fora dele, sem se diferenciarem ou estabelecerem relações hierárquicas entre si. Na Terra, durante o éon Arqueano, compartilharam esta forma unicelular com outros seres, as arqueias, até que aconteceu algo verdadeiramente notável.

    As bactérias, criaturas minúsculas, refazem a escala ao produzir o planeta tal como o conhecemos. Refazem também o social e, no processo, humilham o Antropoceno.

    O que separa as bactérias das arqueias é a sua constituição fundamental. As bactérias têm uma armadura blindada e por baixo um casaquinho tricotado pela avó; as arqueias têm uma cota de malha e um casaquinho tricotado com Kevlar. Mas além de diferirem no invólucro, transcrevem e traduzem a informação genética à sua maneira, criando duas formas de ser incompatíveis e complementares, capazes de coexistir e ocupar nichos específicos. Ao longo de dois mil milhões de anos, ambas metabolizaram o mundo à escala planetária e produziram gases. São responsáveis por ciclos biogeoquímicos como o do oxigénio (cianobactérias), metano (arqueias metanogénicas) e azoto (ambas). Sabemos muito pouco sobre as espécies críticas para estes ciclos, mas achamo-nos muito importantes por interferirmos com eles, equiparando-nos aos microrganismos no efeito que temos sobre o planeta. Tendo em conta que a mudança do ambiente anaeróbio para o aeróbio foi catastrófica, causando a primeira extinção em massa e provavelmente uma idade de gelo global, ainda temos muito que aprender. O clima é, na sua essência, um fenómeno microbiano.

    Prometheoarchaeum

    As bactérias e as arqueias possuem uma diversidade espantosa de formas de produção de bioenergia. Apesar de compartilharem a mesma moeda energética, o ATP, têm muitas maneiras de a conseguir. Podem usar luz, pedras e químicos para produzir matéria orgânica «de novo», fermentar os compostos orgânicos que vazam da vida ou de fluxos geotérmicos, ou respirar praticamente qualquer coisa, como oxigénio, diversos gases e metais, permitindo uma reciclagem perpétua de materiais entre seres potencialmente imortais através da divisão. Durante o éon Arqueano, as relações sintróficas foram essenciais à vida coletiva, com uns a respirar o que outros exalavam em tapetes microbianos, numa exploração contínua de nichos e substratos. A política da sintrofia obriga a uma dependência mútua, com a sobrevivência de cada espécie ligada à capacidade de transformar o desperdício alheio em recurso, ou perecer intoxicada com os seus venenos. Mas há cerca de 2-3 mil milhões de anos, acabou-se a troca pacífica de exsudados: algumas bactérias inventaram os antibióticos, que permitiram criar zonas de exclusão para monopolizar recursos; e as bactérias e as arqueias desenvolveram estruturas para a mobilidade, como os pili e os flagelos. O movimento permitiu escapar de ambientes tóxicos, procurar lugares favoráveis, e criar novas dinâmicas relacionais. Por exemplo, os organismos móveis podiam injetar toxinas noutros, caçar ou aproximarem-se de células para fazer trocas genéticas. A transferência horizontal de genes é comum nos organismos procarióticos, que são capazes de captar ADN de células mortas e receber ADN por via de vírus. Mas trocar diretamente informação genética via adesão a um canal de conjugação já conta como sexo microbiano. Apesar de toda esta criatividade, o mundo não estava preparado para o que veio a seguir. Só conhecemos os protagonistas desta história nos últimos 10 anos, quando em 2015, uma equipa de investigadores da Suécia, ao escavar genomas nos sedimentos abissais do Castelo de Loki — uma chaminé hidrotermal entre a Islândia e Svalbard — se deparou com algo inédito. A 2350 metros de profundidade, encontraram uma arqueia cujo genoma continha genes nossos. Genes de eucariotas. Outras equipas encontraram parentes dela noutras fontes termais, estuários e rios de águas negras, e deram-lhes nomes de divindades nórdicas: Asgardarchaeota, com linhagens como Loki-, Thor-, Odin– e Heimdallarchaeota.

    A política da sintrofia obriga a uma dependência mútua, com a sobrevivência de cada espécie ligada à capacidade de transformar o desperdício alheio em recurso, ou perecer intoxicada com os seus venenos.

    Há 5 anos, uma equipa de investigadores do Japão que estuda a vida em ambientes extremos conseguiu, com imensa paciência, cultivar uma dessas arqueias, e chamou-lhe Promethearchaeum syntrophicum — a «arqueia de Prometeu que vive em sintrofia». Em julho do ano passado, foi criado um reino para a acomodar, Promethearchaeati, em honra a Prometeu, o cocriador da humanidade que roubou o fogo aos deuses para o dar a humanos feitos de barro. Nesta metáfora, a arqueia é o barro, pois vive em sedimentos; o fogo é a bactéria queimadora de oxigénio, com capacidades energéticas sem precedentes.

    P. syntrophicum foi descrita como a criatura menos autónoma do mundo. Vive numa sintrofia obrigatória com outra espécie de arqueia, do género Methanogenium, e uma espécie de bactéria, do género Halodesulfovibrio. A razão para a sua incompletude é que morre intoxicada pelo seu próprio hálito se não tiver quem o respire. Esta deficiência é distinta da fome que resulta da necessidade de comer. P. syntrophicum não comparte a refeição nem conspira com os seus simbiontes; excreta hidrogénio, que estes consomem avidamente como fonte de energia. Esta teia metabólica tem uma forma física: P. syntrophicum envolve os simbiontes com prolongamentos membranosos. Consegue dobrar-se sobre si mesma e reconfigurar o que conta como externo e interno. Este organismo é hábil a viver entre mundos. Cada um dos simbiontes domina ambientes que se sobrepõem parcialmente, o mundo do sulfato e o mundo do metano. A zona de Prometeu é uma fronteira instável, só habitável em consórcio.

    Apesar da intimidade desta relação a três, o nosso antepassado direto teve de levar a coisa ainda mais longe. Tal só aconteceu quando conheceu uma bactéria à sua altura. Especula-se que a bactéria ancestral era uma alfaproteobactéria, um parasita intracelular obrigatório conhecido por roubar ATP, uma ladra que entrou na casa de Prometeu. Os tempos eram profundamente instáveis: as cianobactérias começaram a produzir oxigénio, que no início era um veneno para quase todos. Mas esta bactéria parasita conseguiu transformar o oxigénio no seu combustível de eleição. Ficou uma ladra endinheirada, incapaz de manter uma casa, mas capaz de transformar uma espelunca energética num hotel de luxo. A dependência mútua dificulta saber quem é o vigarista e quem é o vigarizado nesta relação; mas em algum momento, a arqueia deficiente e imperfeita aparentemente ganhou vantagem, pois incorporou permanentemente a alfaproteobactéria, antepassada da mitocôndria, capaz de produzir energia com muito maior eficiência, a financiadora do consórcio que terminou em aquisição. Da fusão resultaram todos os organismos eucariontes, incluindo nós. Quando se estuda a árvore da vida, o resultado não podia ser mais humilhante: somos arqueias, com todas as criaturas protistas, fungos, plantas e animais da terra. Representamos apenas um pequeno sub-ramo desta árvore, o produto da codependência encapsulada de seres trapaceiros que nunca souberam cooperar de forma igual, porque nunca foram livres. No entanto, a verdadeira diversidade da vida, bacteriana e arqueana, esmagadora em número e forma, continua a viver de forma autónoma. Interessa-nos então compreender como esses seres — os verdadeiros senhores do planeta — são capazes de o fazer.

    Quando se estuda a árvore da vida, o resultado não podia ser mais humilhante: somos arqueias.

    A autonomia resulta da diversidade e flexibilidade metabólica que possuem, que lhes permite obter a soberania energética. O que não conseguem fazer, como dizia Lynn Margulis, é comer o seu próprio desperdício. A interdependência resulta tanto da necessidade de cooperar para comer como para eliminar o descomido. Seres da mesma espécie podem compartilhar refeições, mas a gestão do lixo envolve tipicamente a cooperação de seres diferentes.

    A interdependência requer um fluxo de comunicação constante. A voz das bactérias faz-se ouvir mediante processos democráticos radicais, de quórum sensorial. Escutam-se mutuamente para saberem quando é tempo de cantar em uníssono, ou a diferentes vozes. A sua coordenação produz efeitos notáveis: constroem cidades em biofilmes, iluminam os mares com bioluminescência, ou efetuam ataques coordenados. Piotr Kropotkin tinha intuído corretamente o imperativo microbiano da ajuda mútua para a sobrevivência, uma prática inescusável, mais do que um ideal ético ou filosofia. É esta voz que temos de aprender a escutar, para compreender melhor os seus planos. Entretanto, podemos ouvir as batucadas que faz uma Escherichia coli ao ribombar num tambor de grafeno.

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    Texto de Borboleta Azul, publicado no Jornal MAPA nr. 48 [Jan. – Mar. 2026]

  • Um olho no facho, outro no liberal

    Um olho no facho, outro no liberal

    Acompanhando lutas ecologistas, sociais ou antifascistas, ou organizando debates sob o mote «um olho no facho, outro no liberal», desde 2022 que, a partir de Faro, o Comité Custódio Losa apela à acção colectiva num Algarve turistificado e palco de ensaio da extrema-direita do Chega.

    Quais os objectivos que estiveram na base da formação do Comité Custódio Losa MD, promovendo regularmente no Algarve uma série de encontros e debates?

    A sensação que tínhamos era de que no Algarve se podia fazer muita merda com total impunidade e ausência de resistência, até trocar o nome de Algarve para Allgarve ou, quando se faz a a descoberta, em Lagos, do primeiro cemitério de escravos africanos na Europa, em vez de no local se erguer um memorial, erguer-se um minigolfe. E não nos agradavam as formas muito individualizadas e institucionalizadas do «activista» que escreve a sua coluna crítica no Jornal do Algarve ou que tem a sua associação, que não é mais do que uma pequena empresa em nome individual. Sentimos que fazia falta criar um colectivo que convidasse pessoas com um tipo de discurso mais radical e que pusesse as coisas de outra maneira. Chamámos-lhe Comité Custódio Losa MD, pois, quando éramos adolescentes, tivemos um grupo, na altura do liceu, em que curtíamos aqueles primeiros livros mais selvagens da Antígona como a Declaração de Guerra às Forças Armadas e Outros Aparelhos Repressivos do Estado do Custódio Losa, Major Dissidente. Mas, mais a sério, aquilo a que nos propúnhamos ao nível de objectivos era não só a parte teórica, mas a parte prática. Ou seja, que, além dos debates, a nossa acção passasse por nos aliarmos às lutas já existentes, sem perseguirmos uma afinidade ideológica ou um método exclusivo, ainda que mantendo a nossa linha. Então começámos a juntar-nos para organizar encontros e debates que nos ajudassem a que, de forma colectiva, não nos sentíssemos tão impotentes numa zona onde a cada dia se anuncia a construção de um novo resort. Juntámo-nos ao movimento da Defesa das Alagoas Brancas (queriam destruir uma zona de biodiversidade para construir mais um centro comercial), mas não era só a defesa da «natureza» que nos interessava, era também questionar o modelo de consumo e produção que, em pouco tempo, passou dos mercados locais, onde os pequenos agricultores vinham vender os seus produtos, para grandes centros comerciais com os seus hipermercados. Interessou-nos também questionar as típicas formas de protesto institucionalizado e discutir, por exemplo, a acção directa. No último encontro, a alguns dias da greve geral, a Laure Batier, uma das tradutoras francesas da biografia da Emma Goldman, com o exemplo das suas formas de luta através das greves e da acção directa contra a burocratização sindical, veio trazer outros horizontes.

    Num Algarve que se mediatiza e se expressa nas elei-ções pela extrema-direita do Chega, ou que continua a destacar-se na frente de uma economia extractivista, que resistências destacariam a essa realidade?

    Na tomada de posse do novo presidente do concelho de Albufeira do Chega, quando alguns de nós por lá aparecemos com três mascaras do Salazar, fomos imediatamente abordados pela GNR à paisana. As máscaras foram confiscadas e fomos avisados de que não tínhamos nada que ir para ali atrapalhar a festa. E, se por lá se ensaia, de forma bem articulada com as forças da ordem, o laboratório da cidade Chegana, no município ao lado (Silves), governado pela CDU, aprova-se um hotel em cima da praia em Armação de Pêra, num investimento de 50 milhões. Já que fazem fronteira com o do Chega, tinham ali uma boa oportunidade para se distinguirem dos outros e terem uma proposta alternativa de vida em comunidade. Mas não, continuam a cair nos mesmos erros. Nos últimos debates que temos tido sobre habitação andamos a tentar perceber o que é isso de capitalismo rentista, quando a habitação se torna num activo financeiro, isto é, quando os grandes fundos perceberam que era mais seguro ter o dinheiro investido em projectos imobiliários do que no banco. É assim que um fundo americano, em conjunto com a Sonae, investe milhões em hotéis em Lagos, na Meia Praia, «para celebrar a essência do Algarve» e que levará ao fim do bairro auto-construído a seguir ao 25 de Abril por pescadores e que deu origem ao filme Os Índios da Meia Praia [António Cunha Teles, 1976]. Neste rentismo capitalista, a economia não precisa de crescer porque a extracção de capital se faz através do lucro que deriva da propriedade. As desigualdades sociais aumentam exponencialmente: daí termos dos maiores números de jactos privados no aeroporto de Faro e das piores redes de transportes públicos do país, e também é assim que vivem mais de 30 imigrantes numa cave sem condições, com baratas e ratos… Nesta nova forma de modelo social é o autoritarismo a forma política que melhor se encaixa nesta lógica. Ao estado cabe-lhe assegurar, com maior grau de violência, a ordem e o direito à propriedade privada. É assim que entendemos o facto de a extrema-direita ganhar e governar primeiro por cá.

    De que forma as movimentações pela Palestina têm funcionado como catalisadores da acção e de encontros?

    Quando o Chega ganhou no Algarve todo, nas eleições legislativas, sentia-se um desânimo grande, mas havia uma vontade de fazer qualquer coisa e de se juntar sem saber bem como. E o movimento pela Palestina veio unir essas pessoas que não se conheciam de lado nenhum e que se começaram a juntar e rapidamente organizaram debates, vigílias e manifestações de uma forma muito intensa por todo o Algarve. Essa foi a primeira grande resposta à vitória do Chega, quando as pessoas se juntaram todas de uma forma bastante espontânea, e esse é sobretudo o grande desafio: ver se esse movimento continua e, além de continuar, se consegue manter o entusiasmo e estar também nas lutas mais locais.


    Texto publicado no Jornal MAPA nr. 48 [Jan. – Mar. 2026]

  • Pontos do MAPA: Insensato, um café-livraria em Tomar

    Pontos do MAPA: Insensato, um café-livraria em Tomar

    Qual é a história do Insensato e como é que a ideia de criar um café literário se materializa?

    Eu (Gabriel) e a minha esposa (Selma) vivíamos na zona de Lisboa e ambos tínhamos empregos na área da comunicação/marketing, mas há algum tempo que acalentávamos o sonho de ter um negócio próprio que aliasse a minha paixão por livros e a dela por comida. Fomos alimentando essa vontade ao longo da pandemia e, em 2021, quando muitas das restrições à liberdade das pessoas foram levantadas decidimos que era altura para avançar. Sou de Tomar e essa cidade surgiu-nos como a opção mais lógica, uma vez que não queríamos apenas uma mudança profissional, mas também uma mudança de vida, neste caso indo para uma cidade mais pequena. Não escondo que o salto foi arriscado, já que, ao despedirmo-nos, ficámos expostos ao risco, daí o nome do espaço: Insensato. Foi uma decisão algo irracional, repentina e, porque não, insensata, pois decidimos abrir o estabelecimento ainda durante a pandemia e ainda para mais um café-livraria. Sabe-se como as livrarias – as pequenas independentes – são hoje em dia quase como peças de museu. Todos os meses lemos nas notícias sobre mais uma que fechou ou que foi absorvida pelos grandes grupos. E sabemos o quão pouco os portugueses lêem. E é um negócio com uma margem de lucro muito pequena. Tudo junto tornou esta viagem assustadora, mas entusiasmante. Entretanto, e ao longo do tempo, fomos explorando cada vez mais a vertente da comida, nomeadamente com opções vegetarianas, vegan ou sem glúten e, apesar de ainda nos chamarmos Insensato Café-Livraria, na verdade somos actualmente sobretudo um restaurante-livraria.

    Como é que o vosso espaço se enquadra na cidade de Tomar e no seu dinamismo cultural?

    Tal como no que respeita à comida, enquanto livraria o nosso objectivo é simples: oferecer o que não existe na cidade e redondezas. Tentamos que os pratos que servimos sejam únicos. O mesmo quanto aos livros: no Insensato encontram-se livros que não se vendem noutras livrarias da região. Temos livros novos e usados, primeiras edições, livros esgotados e livros de editoras independentes. O Insensato não é o sítio para se comprar o mais recente best-seller. O nosso foco é a literatura de qualidade e o ensaio. Enquanto livreiro, o meu papel é filtrar o bom e o mau (sabendo o quão subjectiva essa missão pode ser). Tento ler, ou pelo menos folhear, todos os livros que chegam à livraria. Se considerar que um livro não é bom devolvo-o, não o vendo. Sei que estou a trabalhar para um nicho de mercado (como sucede com a nossa oferta de comida), mas é nesse nicho que quero apostar e servir bem. Quem vem ao Insensato já sabe o que vai encontrar e sabe que não me desvio dos padrões de qualidade que defini. Assim sendo, e respondendo directamente à pergunta, considero que o nosso espaço tem um papel importante no dinamismo cultural de Tomar, disponibilizando à população da cidade uma oferta com que, deixando de lado falsas modéstias, poucas cidades no país podem contar.

    Se alguém se aproximasse da caixa registadora com um MAPA na mão e vos pedisse um conselho de leitura, que livro aconselhariam? Porquê?

    O livro que mais tenho recomendado é A Charca, do escritor português Manuel Bívar. É um livrinho da editora Língua Morta e é para mim o mais pertinente e corrosivo texto publicado nos últimos anos sobre a sociedade actual. O autor leva tudo à frente. Critica o nosso modo de vida nas cidades, nas aldeias, no campo. Muitas pessoas procuram a literatura para validarem as suas ideias e encontrarem o que já conhecem. Prefiro ser abanado e mesmo atacado, que é o que Bívar faz neste livro. Ser atacado faz-nos questionar as nossas opções e, na minha opinião, esse deve ser um dos papéis da literatura. Leio um excerto para que se perceba o tipo de temas que Bívar aborda: «A negação do futuro era de tal forma que ninguém se queria mais reproduzir e esse momento ia sendo lançado para outro tempo e chegava agora ao cúmulo de ser lançado para depois da morte. E enquanto isto capavam-se os cães e os gatos com obsessão. Era puro desejo de controlo. A gaiola do canário na cozinha, que não era mais do que o trazer da selva para dentro de casa, não a domesticando e mantendo-a distante, horrorizava os que cortavam as unhas e vestiam os cães. Pobres bichos que não se reproduziam, capados por donos que também não se reproduziam e congelavam esperma, que viviam rodeados da ideia de sexo, mas que não se tocavam porque ninguém fazia sexo. Medicados, rodeados de robôs sexuais que espancavam, deprimiam-se, drogavam-se… Não pensavam em mais nada que não sexo e não tinham sexo. Tudo se tornava um japãozinho. Era ali que se podia ver o clarão do futuro».

    Entrevista publicada no Jornal Mapa nr. 47 [Out. – Dez. 2025]

  • DISOBEY! Deixar a marca – práticas urbanas de criação e desobediência

    DISOBEY! Deixar a marca – práticas urbanas de criação e desobediência

    «Geco é mesmo um sujador (imbrattatore), não um artista como o são todos aqueles que, com os seus murais, embelezam os muros das nossas cidades com as suas obras. O que incomoda é ver uma série de writers a defendê-lo. Eu tenderia precisamente a separar as duas coisas: uma coisa é a arte do mural, que embeleza a cidade lançando uma mensagem, exprimindo também um trabalho profissional com o uso de cestos elevatórios e, portanto, com o apoio da administração; outra coisa é o sujador (imbrattatore)».

    As palavras são de Virginia Raggi, então presidente da câmara de Roma, que após a detenção de Geco reforçava a velha fronteira entre arte e vandalismo, entre quem contribui para o decoro urbano e quem, supostamente, o ofende. Tudo em nome da lei. O artigo 639 do Código Penal, legado do regime fascista, pune quem «deteriora ou suja (imbratta) coisas alheias» com pena de prisão de seis a doze meses, agravada pelas recentes e controversas atualizações da lei sobre segurança pública, aprovadas pelo parlamento italiano a 9 de junho de 2025.

    Imbrattare. Sujar. A palavra nasce do dialeto lígure bratta – lama. Enlamear: um gesto que é, ao mesmo tempo, estético e moral. Mary Douglas, em “Pureza e Perigo”, recorda-nos que nada é sujo em si mesmo: sujidade é simplesmente uma «coisa fora do lugar», dependente de uma ordem vigente – uma construção social, cultural e histórica que a lei, a moral e o senso comum se encarregam de reafirmar, defender, reproduzir. Sujidade é sinal de desordem, sintoma de degradação, indício do perigo de se perder o controlo.

    Quando os grafittis começaram a multiplicar-se nas cidades americanas entre os anos 70 e 80 foram rapidamente estigmatizados como um ataque à aparência de normalidade do espaço urbano. James Wilson e George Kelling, no célebre ensaio “Broken Windows”, associaram-nos a outros sinais de degradação – janelas partidas, lixo acumulado, pessoas sem-abrigo -, todos elementos que sugeriam ao «cidadão normal» a natureza incontrolada do bairro. Ed Koch, então prefeito de Nova Iorque, declarou guerra aos writers, apelando a que as pessoas «façam a diferença na sociedade, não sobre a sociedade». Mas, como respondia o writer Iz the Wiz, se a entrada na sociedade te é vedada, deixar uma marca sobre a sociedade é tudo o que te resta. E não é pouco.

    Quando os grafittis começaram a multiplicar-se nas cidades americanas entre os anos 70 e 80 foram rapidamente estigmatizados como um ataque à aparência de normalidade do espaço urbano.

    Mesmo quando denegridos, combatidos e perseguidos, os grafittis nunca deixaram de exercer uma estranha fascinação. Há algo de irresistível na sua capacidade de corroer a ordem, de transformar o espaço e a própria sociedade em palco de perigo, degradação, dissolução – mas também de desafio, resistência, desobediência.

    Essa energia está explícita em “The Art of Disobedience”, documentário escrito, dirigido e interpretado por Geco, writer romano ativo entre Roma, Atenas e Lisboa. O filme mergulha-nos na dimensão arriscada e performativa do bombing, a prática que Geco escolhe. A sua tag – sempre igual, mas em dimensões e lugares diferentes – repete-se obsessivamente em spray, tinta ou autocolante, espalhada por muros, placas e persianas. Uma proliferação imparável, quase viral, que penetra a estética urbana como um vírus, evocando «algo de inexplicável, de mágico», como diz Valerio Mattioli. Geco, filmado sempre de costas, observa, salta, escala, pinta, deixando por toda a parte o traço inconfundível do seu ato, ao ritmo acelerado de uma disciplina composta e adrenalínica. A sua dedicação – a fixação pela repetição – transforma-se num estilo peculiar, que transborda da própria tag até se tornar escolha e forma de vida.

    Os grafittis podem ser vistos como a convergência de três elementos: o gesto, com o seu estilo; a ação, com os seus perigos; e o produto, com os seus efeitos. “The Art of Disobedience” revela essa complexa e arriscada convergência, mostrando os riscos físicos e penais, mas também as múltiplas variações performativas que se escondem por trás da aparente monotonia de uma, cem, mil tags. Cada uma parece vazia, sem sentido, mas existe como forma cristalizada de atos que interrogam o espaço urbano e as possibilidades de expressão e repressão que ele oferece.

    Então, trata-se de arte ou crime? Esta pergunta persegue o debate sobre grafittis há décadas, especialmente desde que a street art emergiu dentro desse universo. A street art é menos obscura, mais representacional e, por isso, mais facilmente aceite. Ela lança mensagens, embeleza a cidade – muitas vezes com o apoio das administrações locais. Aos poucos, inverteu a relação antagónica que os grafittis tinham com a ordem estética, moral e legal da cidade. Na street art, o produto final ganha centralidade, com o seu conteúdo estético e moral, em detrimento da dimensão efémera, arriscada, ilegal e aparentemente redundante do ato. Hoje, nomes como Banksy, Kobra, JR ou Blu são motivo de orgulho para as cidades, inevitavelmente integrados nos processos de valorização, musealização e city branding do capitalismo estético contemporâneo.

    Então, trata-se de arte ou crime? Esta pergunta persegue o debate sobre grafittis há décadas, especialmente desde que a street art emergiu dentro desse universo.

    Mesmo quem aprecia grafittis tem dificuldade em aceitar o bombing de Geco. Claudia Catalli, na revista Wired, distingue a obra de Banksy, que «comunica e denuncia», da de Geco, que «não comunica nada e só desperta perplexidade»[ref]https://www.wired.it/play/cultura/2020/11/11/geco-arresto-raggi-writer/[/ref]. Despertar perplexidade — talvez seja isso que torna Geco ao mesmo tempo enigmático e irritante, incómodo e atraente. A repetição obsessiva, a ausência de conteúdo, a recusa em entrar no discurso moral, estético ou político, a insistência em não exprimir nada além do próprio ato de exprimir-se: Geco não pretende fazer nada certo ou errado, belo ou bom – apenas faz.

    Será que essa prática é também uma expressão de autorreferencialidade, individualismo, até puro exibicionismo, como sugere Catalli? Talvez. O próprio Geco admitiu, numa entrevista ao jornal Corvo: «No meu caso, chega a ser uma verdadeira megalomania. Quero atrair a atenção de todos, provocar amor ou ódio. Só não quero passar despercebido»[ref]https://arquivo.pt/wayback/20211011212139/https://ocorvo.pt/sou-um-bomber-quero-espalhar-o-meu-nome-diz-geco-o-homem-que-reveste-lisboa-de-tags-e-graffitis/[/ref]. Mas a psicologia individual, tal como a moral comum, é insuficiente para compreender o seu gesto. Os grafittis só ganham sentido se os entendermos na sua relação coessencial com o tecido urbano – com as suas formas, lógicas e normas. É dessa relação que emerge o seu verdadeiro significado.

    Além do bem e do belo, essas tags colocam a questão de quem decide o que é bom, o que é sujidade, o que é publicidade. Essa questão torna-se cada vez mais central num espaço urbano remodelado por lógicas de branding, requalificação e embelezamento, que desencadeiam processos como gentrificação, turistificação, financeirização. Nesse contexto, os grafittis ocupam uma posição ambígua: são, ao mesmo tempo, emblemas de resistência, contestação e desobediência, e, paradoxalmente, especialmente no caso da street art, acabam por alimentar esses mesmos processos. É nessa ambiguidade que podemos ler essas tags, diante das fronteiras físicas (o muro), legais (a propriedade privada) e morais (o decoro) da cidade contemporânea. O sentido do seu «não-sentido» não está no conteúdo — uma tag contém apenas a si própria — mas na sua capacidade repetitiva de produzir diferença, rasgando as tramas estéticas, morais e políticas do tecido urbano, criticando o senso comum sem dizer nada, apenas mostrando a sua crise. Como Lucio Fontana questionava a tela ao rasgá-la, assim essas tags questionam o espaço público. O verdadeiro ponto em jogo não é a definição de arte ou crime, diz Andrea Mubi Brighenti, mas os limites do espaço público que elas desafiam a cada momento[ref]3 AM Brighenti. Graffiti, street art and the divergent synthesis of place valorisation incon- temporary urbanism. In: Ross, J.I. (Ed.) Routledge Handbook of Graffiti and Street Art, Abingdon: Routledge. 2015[/ref].

    Além do bem e do belo, essas tags colocam a questão de quem decide o que é bom, o que é sujidade, o que é publicidade.

    A chave para compreender o bombing de Geco está então na sua produção de valor «perversa»: não comercial, não comerciável, corrosiva, insensata, impossível de capturar pelas lógicas de mercado ou reduzir a mera denúncia social. Como na antiga parresía, é uma forma franca de expressão que põe em risco a própria vida. Para além da irritação causada pela sua imprudência, a proliferação dos gecos – desde os lugares mais mundanos até aos mais improváveis e inacessíveis – provoca também um sentimento de emancipação, de libertação face aos cercos jurídicos, económicos e morais que delimitam rigidamente o espaço urbano. Devolve «a quem vive a cidade», como diz Valerio Bindi no documentário, «o sentido da sua própria libertação, do espaço que pode reconquistar, da distância que pode ver, da capacidade de olhar para além dos cartazes publicitários. (…) Levantando um pouco o olhar, encontras alguém que te diz “hey, podias olhar para cima, podíamos andar pelo ar”». Um espaço reconquistado, um espaço tornado de novo comum.

    “The Art of Disobedience” estreou na Sirigaita, em Lisboa, a 10 de abril de 2025. Não por acaso: a Sirigaita é um desses espaços onde a cidade ainda respira diferença e conflito, onde a experimentação social resiste aos processos de homogeneização. Como tantos outros, vive sob ameaça constante de despejo, pressionada por lógicas de mercado e leis de propriedade. Defendê-la não é apenas celebrar uma exceção, mas reconhecer a fragilidade e a importância desses interstícios urbanos – lugares onde o dissenso, a crítica e a desobediência ainda encontram espaço para existir, mesmo que precariamente. Talvez seja precisamente nesta precariedade, nesta tensão entre o risco e a possibilidade, que reside o verdadeiro valor de uma cidade viva. As tags de Geco e a persistência de espaços como a Sirigaita não oferecem respostas fáceis nem soluções definitivas. São antes sinais de que o urbano permanece um campo de disputa, onde a liberdade e o conflito, a criação e a repressão, se entrelaçam a cada dia. Defender esses espaços – e as práticas que neles germinam – não é celebrar uma vitória, mas reconhecer a necessidade de manter abertas as brechas por onde a cidade pode, ainda, reinventar-se.

    Texto de Andrea Pavoni e Laura Sodini publicado na edição nr. 47 [Out. – Dez. 2025] do Jornal MAPA