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  • Irão: Uma revolta sitiada por dentro e por fora

    Irão: Uma revolta sitiada por dentro e por fora

    Três perspectivas

    A partir de 28 de Dezembro de 2025, uma nova onda de protestos eclodiu em todo o Irão, desencadeada por dificuldades económicas e intensificou-se até exigir a queda do governo. Este é, pelo menos, o quinto movimento desse tipo numa década, inspirado em ondas anteriores de agitação de trabalhadores e resistência feminista. Dentro dessa revolta, o movimento popular enfrenta monarquistas reaccionários, em grande parte instalados fora do Irão, que querem obter o apoio dos Estados Unidos e de Israel para tomar o poder.

    Isto ocorre no meio de uma situação geopolítica tumultuosa. O governo israelita intensificou os bombardeamentos em Gaza e no Líbano e a apreensão de terras em Gaza, no Líbano e na Síria; está a preparar-se para construir um colonato que dividirá a Cisjordânia ao meio, a fim de impossibilitar a criação de um Estado palestiniano. Os Estados Unidos acabaram de sequestrar o presidente da Venezuela e a sua esposa para confiscar o petróleo venezuelano, sinalizando que estão dispostos a tudo para dominar os povos dentro e fora das suas fronteiras.

    No Outono de 2024, manifestantes no Nepal e noutros lugares demonstraram que ainda é possível que movimentos sociais derrubem governos. Uma revolução bem-sucedida no Irão poderia desencadear uma onda de mudanças em todo o mundo. Mas, se essa revolução fosse sequestrada por forças reaccionárias, poderia atrasar os movimentos de libertação uma geração ou mais.

    Os riscos são elevados. Devemos aos movimentos populares do Irão aprender sobre eles e apoiá-los, tanto porque estão a enfrentar uma situação desesperada como porque estão a tentar garantir que um regime fantoche ao serviço de Israel e dos Estados Unidos não chegue ao poder. Aqui, apresentamos três olhares sobre a revolta da última semana e meia.

    Relatório sobre a actual onda de protestos no Irão
    Este texto é uma contribuição de um anarquista que vive no Irão que está activamente a documentar e a relatar a situação actual. Devido a preocupações sérias de segurança, o autor prefere permanecer anónimo.

    Durante quase uma década, a sociedade iraniana testemunhou repetidamente ondas de protestos de rua dirigidos contra o sistema político vigente, a República Islâmica. Embora esses protestos tenham surgido na sequência de diferentes gatilhos concretos, todos eles têm origem em crises estruturais profundas e não resolvidas — económicas, políticas e sociais — que continuam a moldar a vida quotidiana no Irão.

    Ao longo destes anos, a principal resposta do Estado à dissidência pública tem sido a repressão sistemática. Os movimentos de protesto têm sido constantemente recebidos com força letal, prisões em massa, encarceramento e intimidação generalizada. Longe de resolver as questões subjacentes, esta abordagem contribuiu para o acumular da raiva pública e para um crescente sentimento de injustiça em toda a sociedade.

    Os protestos mais recentes foram inicialmente desencadeados pelo colapso dramático da moeda nacional do Irão e pela grave deterioração das condições de vida. A rápida desvalorização do Rial iraniano, combinada com a inflação galopante e a pobreza generalizada, empurrou grande parte da população para além da sobrevivência económica. Estas condições levaram muitas pessoas a concluir que a crise não é temporária ou reformável, mas sim estrutural e inseparável do sistema de poder existente.

    Ao contrário dos episódios anteriores, os protestos actuais reflectem um nível mais amplo de consciência colectiva. As manifestações já não se limitam a cidades ou grupos sociais específicos; em vez disso, espalharam-se simultaneamente por várias regiões, envolvendo diversos segmentos da sociedade. As queixas económicas rapidamente se transformaram em reivindicações explicitamente políticas, com os manifestantes a exigirem abertamente o fim do regime autoritário e o desmantelamento da República Islâmica.

    Ao mesmo tempo, parte da oposição — principalmente grupos monarquistas — está a tentar capitalizar o movimento de protesto. Através de meios de comunicação por satélite e plataformas sociais, esses actores procuram apresentar-se como alternativas políticas viáveis, recorrendo a narrativas nostálgicas da era pré-revolucionária, enquanto tentam redireccionar a ira popular para os seus próprios projectos de poder.

    Entretanto, a repressão estatal intensificou-se significativamente. Há relatos que indicam que mais de dez manifestantes foram mortos e centenas detidos nos últimos dias, embora os números reais sejam provavelmente maiores. As forças de segurança ampliaram o uso da violência, da vigilância e das detenções arbitrárias, exercendo uma pressão imensa sobre os manifestantes e a população em geral.

    De modo geral, a situação actual no Irão representa muito mais do que um surto espontâneo de agitação. Sinaliza uma profunda crise de legitimidade, o colapso da confiança pública nas instituições governamentais e uma fase crítica no confronto entre a sociedade e a ordem dominante. A trajectória deste momento dependerá do equilíbrio entre a resistência social, a repressão estatal e a capacidade de as pessoas se organizarem de forma independente, fora do poder estatal e das forças de oposição da elite.

    Protestos no Irão no meio de um cerco de inimigos internos e externos: um relatório sobre a recente revolta popular
    A análise a seguir é uma contribuição do Roja, um colectivo independente, de esquerda e feminista com sede em Paris. O Roja nasceu depois do feminicídio de Jina (Mahsa) Amini, a par do início da revolta «Jin, Jiyan, Azadi» em Setembro de 2022. O colectivo é composto por activistas políticos de várias nacionalidades e geografias políticas dentro do Irão, incluindo curdos, hazara, persas e outros. As actividades do Roja não estão apenas ligadas aos movimentos sociais no Irão e no Médio Oriente, mas também às lutas locais em Paris, em sintonia com as lutas internacionalistas, incluindo o apoio à Palestina. O nome «Roja» é inspirado na ressonância de várias palavras em diferentes idiomas: em espanhol, roja significa «vermelho»; em curdo, roj significa «luz» e «dia»; em mazandarani, roja significa «estrela da manhã» ou «Vénus», considerada o corpo celeste mais brilhante à noite.

    Actualização, 9 de Janeiro: Esta intervenção política foi escrita por Roja em 4 de Janeiro de 2026, no sexto dia dos protestos nacionais no Irão. Muita coisa aconteceu desde então — sobretudo a noite historicamente sem precedentes de 8 de Janeiro, o décimo segundo dia da revolta. O dia começou com uma greve geral entre lojistas e na economia mercantil, principalmente no Curdistão, convocada pelos partidos curdos. O fecho das lojas coincidiu com mobilizações nas ruas e nos campus universitários em todo o país. Os confrontos com as forças de segurança espalharam-se por dezenas de cidades, da capital às províncias fronteiriças; um relatório de monitorização de direitos humanos contabilizou acções de protesto em pelo menos 46 cidades em 21 províncias naquele dia. Ao anoitecer, houve imagens a circular que mostravam multidões numa escala realmente impressionante que o policiamento de rotina não conseguia conter: milhões de pessoas a tomar as ruas como suas e, em muitos lugares, a forçar a segurança a recuar — uma atmosfera que, para muitos, trazia à memória os meses que antecederam a revolução de 1979. Na noite de 8 de Janeiro, quando o aparato repressivo da República Islâmica vacilou e as ruas escaparam ao seu controlo, foi implementado um bloqueio quase total da Internet. O bloqueio continua até ao momento da redacção deste artigo, numa tentativa de cortar os circuitos de coordenação e impedir a documentação dos assassinatos.

    Ao mesmo tempo, Donald Trump reiterou ameaças de retaliação caso a República Islâmica intensifique as mortes, ao mesmo tempo em que se distanciou — apenas parcialmente — de Reza Pahlavi, dizendo que não tinha certeza se uma reunião seria apropriada e que «devemos deixar todos irem lá e ver quem emerge». A fixação no «filho do Xá» obscurece outra tendência, não menos real, na qual nos concentramos neste texto: a perspectiva de uma transição controlada através de uma reconfiguração interna — mudança sem ruptura — semelhante ao que ocorreu recentemente na Venezuela.

    I. A quinta revolta desde 2017

    Desde 28 de Dezembro de 2025, o Irão está novamente em chamas devido a protestos generalizados. Gritos de «Morte ao ditador» e «Morte a Khamenei» ecoaram pelas ruas em pelo menos 222 locais em 78 cidades de 26 províncias. Os protestos não são apenas contra a pobreza, os preços em alta, a inflação e a expropriação, mas contra todo um sistema político podre até ao osso. A vida tornou-se insustentável para a maioria — especialmente para a classe trabalhadora, mulheres, pessoas queer e minorias étnicas não persas. Isto deve-se não só à queda livre da moeda iraniana após a guerra dos doze dias, mas também ao colapso dos serviços sociais básicos, incluindo cortes repetidos de energia; uma crise ambiental cada vez mais grave (poluição atmosférica, seca, desflorestação e má gestão dos recursos hídricos); e execuções em massa (pelo menos 2.063 pessoas em 2025) — tudo isto combinado para piorar as condições de vida.

    A crise da reprodução social é o ponto central dos protestos actuais, e o seu objetivo final é a recuperação da vida.

    Esta revolta é a quinta onda de uma série de protestos que começou em Dezembro de 2017 com a revolta conhecida como «Revolta do Pão». Seguiu-se a revolta sangrenta de Novembro de 2019, uma explosão de raiva pública contra o aumento do preço dos combustíveis e a injustiça. A revolta de 2021 ficou conhecida como a «Revolta dos Sedentos», iniciada e liderada por minorias étnicas árabes. Esta onda atingiu o seu auge com a revolta «Mulher, Vida, Liberdade» em 2022, que trouxe à tona as lutas pela libertação das mulheres e as lutas anticoloniais de nações oprimidas, como os curdos e os baluchis, abrindo novos horizontes. A revolta de hoje centra-se mais uma vez na crise da reprodução social — desta vez, num terreno mais radical, pós-guerra. Protestos que começam com exigências de subsistência, mas, com uma velocidade impressionante, passam a visar as estruturas de poder e a oligarquia governante corrupta.

    II. Uma revolta cercada por ameaças externas e internas

    Os protestos em curso no Irão estão cercados por todos os lados por ameaças externas e internas. Apenas um dia antes do ataque imperialista dos EUA à Venezuela, Donald Trump, envolto na retórica do «apoio aos manifestantes», emitiu um aviso: se o governo iraniano «matar manifestantes pacíficos, como é seu costume, os Estados Unidos da América irão em seu socorro. Estamos preparados e prontos para agir». Este é o roteiro mais antigo do imperialismo, usando a retórica de «salvar vidas» para legitimar a guerra — seja no Iraque ou na Líbia. Os EUA continuam a seguir esse roteiro até hoje: só em 2025, lançaram ataques militares directos contra sete países.

    O governo genocida de Israel, que anteriormente encenou o seu ataque de doze dias contra o Irão sob o nome de «Mulher, Vida, Liberdade», agora escreve em persa nas redes sociais: «Estamos convosco, manifestantes». Os monarquistas, como braço local do sionismo, que assumiram a mancha e a vergonha de apoiar Israel durante a Guerra dos Doze Dias, tentam agora apresentar-se aos seus senhores ocidentais como a única alternativa. Fizeram-no através da representação selectiva e da manipulação da realidade, lançando uma campanha cibernética para se apropriar dos protestos, para fabricar, distorcer e alterar o som dos slogans de rua em favor do monarquismo. Isto revela a sua falsidade, as suas ambições monopolistas, o seu poder mediático e, fundamentalmente, a sua fraqueza dentro do país, uma vez que carecem de poder material no Irão. Com o slogan «Make Iran Great Again», este grupo apoiou a operação imperial de Trump na Venezuela e agora aguarda o sequestro dos líderes da República Islâmica por assassinos americanos e israelitas.

    E, é claro, há os pseudo-esquerdistas — os autoproclamados «anti-imperialistas» — que encobrem a ditadura da República Islâmica projectando uma máscara anti-imperialista sobre a sua fachada. Colocam em dúvida a legitimidade dos protestos actuais, repetindo a acusação cansativa de que «uma revolta nessas condições nada mais é do que jogar no campo do imperialismo», porque só conseguem ver o Irão através das lentes do conflito geopolítico — como se toda a revolta fosse apenas um projecto disfarçado dos EUA e de Israel. Ao fazer isto, negam a subjectividade política do povo iraniano e concedem à República Islâmica imunidade discursiva e política enquanto massacra e reprime a sua própria população.

    «Irritados com o imperialismo», mas «com medo da revolução» — para recordar a formulação seminal de Amir Parviz Puyan —, a sua postura é uma forma de anti-reacção reaccionária. Dizem-nos até para não escrever sobre os recentes protestos, assassinatos e repressão no Irão em qualquer outro idioma que não seja o persa nas arenas internacionais, para não darmos aos imperialistas um «pretexto» — como se, além do persa, não houvesse pessoas na região ou no mundo capazes de compartilhar destinos, experiências, ligações e solidariedade na luta. Para os «campistas»[ref]«Campista» é um termo do jargão político que define alguém, de esquerda, que vê o mundo dividido em dois «campos» opostos principais — o Ocidente, liderado pelos EUA (imperialista), e os países anti-ocidentais (anti-imperialistas) — e que apoia acriticamente estes últimos, muitas vezes defendendo regimes autoritários simplesmente porque se opõem aos EUA, ignorando a opressão que exercem sobre os seus próprios povos. [N. T.][/ref], não há outro assunto para além dos governos ocidentais e nenhuma realidade social para além da geopolítica.

    Em oposição a estes inimigos, insistimos na legitimidade destes protestos — na intersecção das opressões e no destino comum das lutas. A corrente monarquista reaccionária está a expandir-se dentro da oposição de extrema-direita iraniana e a ameaça imperialista contra o povo do Irão — incluindo o perigo de intervenção estrangeira — é real. Mas também é real a fúria do povo, forjada ao longo de quatro décadas de repressão brutal, exploração e o «colonialismo interno» do Estado contra as comunidades não persas.

    Não temos outra escolha senão enfrentar estas contradições tal como elas são. O que vemos hoje é uma força insurgente a emergir das profundezas do inferno social iraniano: pessoas a arriscarem as suas vidas para sobreviver, enfrentando de frente a máquina de repressão.

    Não temos o direito de usar o pretexto de uma ameaça externa para negar a violência infligida a milhões de pessoas no Irão — ou para negar o direito de se rebelarem contra ela.

    Quem sai às ruas está cansado de análises abstractas, simplistas e paternalistas. Luta a partir de contradições internas: vive sob sanções e, ao mesmo tempo, sofre a pilhagem de uma oligarquia doméstica. Teme a guerra e teme a ditadura interna. Mas não fica paralisado pelo medo. Insiste em ser sujeito activo do seu próprio destino — e o seu horizonte, pelo menos desde Dezembro de 2017, já não é a reforma, mas a queda da República Islâmica.

    III. A propagação da revolta

    Os protestos foram desencadeados pela queda livre do Rial iraniano — eclodindo primeiro entre os lojistas da capital, especialmente nos mercados de telemóveis e computadores —, mas rapidamente se expandiram para uma revolta ampla e heterogénea que envolveu trabalhadores assalariados, vendedores ambulantes, carregadores e prestadores de serviços em toda a economia mercantil de Teerão. A revolta passou então rapidamente das ruas de Teerão para as universidades e outras cidades, nomeadamente as mais pequenas, que se tornaram o epicentro desta onda de protestos.

    Desde o início, os slogans visavam a República Islâmica como um todo. Hoje, a revolta é levada adiante sobretudo pelos pobres e despojados: jovens, desempregados, populações excedentes, trabalhadores precários e estudantes.

    Houve quem descartasse os protestos porque tinham começado no Bazaar (a economia mercantil de Teerão), que é frequentemente visto como um aliado do regime e um símbolo do capitalismo comercial. Rotularam os protestos de «pequeno-burgueses» ou «ligados ao regime». Este reflexo lembra as primeiras reacções ao movimento dos Coletes Amarelos de 2018 em França: como a revolta surgiu fora da classe trabalhadora «tradicional» e das redes de esquerda reconhecidas, e como apresentava slogans contraditórios, muita gente se apressou a declarar que estava condenada ao fracasso.

    Mas o local onde uma revolta começa não determina o seu rumo. O seu ponto de partida não predetermina a sua trajectória. Os actuais protestos no Irão poderiam ter sido reacendidos por qualquer faísca, não apenas pelo Bazaar. Também aqui, o que começou no Bazaar rapidamente se espalhou pelos bairros pobres das cidades de todo o país.

    IV. A geografia da revolta

    Se o coração pulsante de «Jin, Jiyan, Azadi» em 2022 batia nas regiões marginalizadas — Curdistão e Baluchistão —, hoje, cidades menores no oeste e sudoeste tornaram-se centros de agitação: Hamedan, Lorestão, Kohgiluyeh e Boyer-Ahmad, Kermanshah e Ilam. As minorias Lor, Bakhtiari e Lak, nessas regiões, estão a ser duplamente esmagadas pelas crises sobrepostas da República Islâmica: a pressão das sanções e a sombra da guerra, a repressão étnica e a exploração, e a destruição ecológica que ameaça as suas vidas — especialmente em Zagros. Esta é a mesma região onde Mojahid Korkor (um manifestante Lor durante a revolta de Jina/Mahsa Amini) foi executado pela República Islâmica um dia antes do ataque de Israel, e onde Kian Pirfalak, uma criança de nove anos, foi morta por munições reais disparadas pelas forças de segurança durante a revolta de 2022.

    No entanto, ao contrário da revolta de Jina — que desde o início se expandiu conscientemente ao longo de linhas divisórias de género/orientação sexual e etnia —, o antagonismo de classe tem sido mais explícito nos protestos recentes e, até agora, a sua propagação tem seguido uma lógica mais baseada nas massas.

    Entre 28 de Dezembro e 4 de Janeiro, pelo menos 17 pessoas foram mortas pelas forças repressivas da República Islâmica usando munições reais e armas de pressão — a maioria delas lor (em sentido amplo, especialmente em Lorestão, Chaharmahal e Bakhtiari) e curdas (especialmente em Ilam e Kermanshah). Centenas foram presas (pelo menos 580 pessoas, incluindo no mínimo 70 menores) e dezenas ficaram feridas. À medida que os protestos avançam, a violência policial intensifica-se: no sétimo dia, em Ilam, as forças de segurança invadiram o Hospital Imam-Khomeini para prender os feridos; em Birjand, atacaram um dormitório feminino de estudantes. O número de mortos continua a aumentar à medida que a revolta se intensifica, e os números reais são certamente superiores aos anunciados.

    A distribuição desta violência é desigual, é claro: a repressão é mais severa nas cidades menores — especialmente nas comunidades marginalizadas e minoritárias que foram empurradas para a periferia. Os assassinatos sangrentos em Malekshahi, em Ilam, e em Jafarabad, em Kermanshah, testemunham essa disparidade estrutural na opressão e na repressão.

    No quarto dia de protestos, o governo — em coordenação com as instituições — anunciou encerramentos generalizados em 23 províncias sob o pretexto de «tempo frio» ou «escassez de energia». Na realidade, foi uma tentativa de quebrar os circuitos através dos quais a revolta se espalha — bazares, universidades, ruas. Paralelamente, as universidades passaram cada vez mais a ministrar aulas online para cortar os laços horizontais entre os espaços de resistência.

    V. O impacto da guerra dos doze dias

    Após a Guerra dos Doze Dias, o poder governante do Irão — procurando compensar o colapso da sua autoridade — voltou-se mais abertamente para a violência. Os ataques de Israel a instalações militares e civis do Irão militarizaram e securitizaram ainda mais o espaço político e social, nomeadamente através da campanha racista de deportação em massa de imigrantes afegãos. E enquanto o Estado fala incansavelmente em nome da «segurança nacional», tornou-se ele próprio um dos principais produtores de insegurança: insegurança de vida intensificada por um aumento sem precedentes das execuções, maus-tratos sistémicos aos prisioneiros e insegurança económica intensificada pela redução brutal dos meios de subsistência das pessoas.

    A Guerra dos Doze Dias — seguida de sanções mais intensas dos EUA e da UE e pela activação do mecanismo de reversão do Conselho de Segurança da ONU — aumentou a pressão sobre as receitas do petróleo, o sector bancário e o sector financeiro, sufocando o influxo de moeda estrangeira e aprofundando a crise orçamental.

    Desde 24 de Junho de 2025, quando a guerra terminou, até à noite em que os primeiros protestos eclodiram no Bazar de Teerão, em 18 de Dezembro, o Rial iraniano perdeu cerca de 40% do seu valor. Não se tratou de uma flutuação «natural» do mercado. Foi o resultado combinado do agravamento das sanções e do esforço deliberado da República Islâmica para transferir os efeitos da crise de cima para baixo, através da desvalorização controlada da moeda nacional.

    As sanções devem ser condenadas incondicionalmente. No Irão actual, porém, elas também funcionam como um instrumento de poder de classe interno. As moedas estrangeiras estão cada vez mais concentradas nas mãos de uma oligarquia militar-securitária que lucra com a evasão das sanções e a corretagem opaca de petróleo. As receitas das exportações são efectivamente mantidas como reféns, libertadas na economia formal apenas em momentos seleccionados, a taxas manipuladas. Mesmo quando as vendas de petróleo aumentam, os rendimentos circulam dentro de instituições quase estatais e de um «Estado paralelo» (acima de tudo, a Guarda Revolucionária Islâmica), em vez de entrarem na vida quotidiana das pessoas.

    Para cobrir o défice produzido pela queda das receitas e pelo bloqueio dos rendimentos, o Estado recorre à remoção de subsídios e à austeridade. Neste contexto, a queda repentina do Rial iraniano torna-se uma ferramenta fiscal: força a moeda «refém» a voltar à circulação nos termos do Estado e expande rapidamente os recursos do governo em Riais — uma vez que o próprio Estado está entre os maiores detentores de dólares. O resultado é a extracção directa dos rendimentos das classes baixa e média e a transferência dos lucros da evasão das sanções e dos rendimentos cambiais para uma minoria restrita — aprofundando a divisão de classes, a instabilidade dos meios de subsistência e a raiva social. Noutras palavras, os custos das sanções são pagos directamente pelas classes mais baixas e pela camada média em declínio.

    O colapso da moeda nacional deve, portanto, ser entendido como uma pilhagem organizada pelo Estado numa economia devastada pela guerra e estrangulada por sanções: manipulação deliberada da taxa de câmbio a favor de redes de corretagem ligadas à oligarquia governante, ao serviço de um Estado que transformou a liberalização neoliberal dos preços numa doutrina sagrada.

    Os pseudo-esquerdistas reduzem a crise às sanções dos EUA e à hegemonia do dólar, apagando o papel da classe dominante da República Islâmica como agente activo da expropriação e da acumulação financeira. Os direitistas, geralmente alinhados com o imperialismo ocidental, culpam apenas a República Islâmica e tratam as sanções como irrelevantes. Essas posições são o reflexo uma da outra — e cada lado tem interesses claros em adoptá-las. Contra ambos, insistimos em reconhecer o entrelaçamento entre a pilhagem e exploração global e a local. Sim, as sanções devastam a vida das pessoas — através da escassez de medicamentos, falta de peças industriais, desemprego e erosão psicológica — mas o fardo é socializado sobre o povo, não sobre a oligarquia militar-securitária que acumula uma enorme riqueza, controlando os circuitos informais de moeda e petróleo.

    VI. As contradições

    Nas ruas, ouvem-se slogans contraditórios, desde apelos para derrubar a República Islâmica até apelos nostálgicos pela monarquia. Ao mesmo tempo, os estudantes entoam slogans que apontam tanto contra o despotismo da República Islâmica quanto contra a autocracia monárquica. Os slogans pró-Xá e pró-Pahlavi reflectem contradições reais no terreno, mas também são amplificados e fabricados através de distorções dos média de direita, incluindo a vergonhosa substituição da voz dos manifestantes por slogans monarquistas. O principal responsável pela manipulação dos média é a Iran International, que se tornou um megafone para a propaganda sionista e monarquista. O seu orçamento anual é de cerca de 250 milhões de dólares, financiado por indivíduos e instituições ligados aos governos da Arábia Saudita e de Israel.

    Na última década, a geografia do Irão tornou-se um campo de tensão entre dois horizontes socio-políticos, mediados por dois modelos diferentes de organização contra a República Islâmica. De um lado, a organização social concreta e enraizada ao longo das linhas divisórias de classe, género/orientação sexual e etnia — mais vividamente, nas redes interligadas forjadas durante a revolta de Jina em 2022, que se estenderam da prisão de Evin à diáspora e produziram uma unidade sem precedentes entre forças diversas, desde mulheres até minorias étnicas curdas e baluchis, opondo-se à ditadura e apresentando horizontes feministas e anticoloniais. Do outro lado, uma mobilização populista encenada como uma «revolução nacional», com o objectivo de produzir uma massa homogénea de indivíduos atomizados por meio de redes de televisão por satélite. Apoiado por Israel e pela Arábia Saudita, esse projecto procura reunir um corpo cuja «cabeça» — o filho do xá deposto — possa mais tarde ser inserida de fora, através de uma intervenção apoiada por forças estrangeiras, e enxertada nele. Ao longo da última década, os monarquistas, armados com um enorme poder mediático, empurraram a opinião pública para um nacionalismo extremista e racista — aprofundando as divisões étnicas e fragmentando a imaginação política dos povos do Irão.

    O crescimento dessa corrente nos últimos anos não é um sinal do «atraso» político das pessoas, mas o resultado da falta de uma ampla organização de esquerda e do poder dos média para produzir um discurso alternativo contra-hegemónico — uma ausência e fraqueza parcialmente produzidas pela repressão e sufocamento, que abriram espaço para esse populismo reaccionário. Na ausência de uma narrativa poderosa das forças de esquerda, democráticas e não nacionalistas, mesmo slogans e ideais universais como liberdade, justiça e direitos das mulheres podem ser facilmente apropriados pelos monarquistas e vendidos de volta ao povo numa aparente concha progressista que esconde um núcleo autoritário. Em alguns casos, isso é até mesmo embalado em vocabulário socialista — é precisamente aí que a extrema-direita também devora o terreno da economia política.

    Ao mesmo tempo, à medida que o antagonismo contra a República Islâmica se intensifica, as tensões entre esses dois horizontes e modelos também se intensificaram; hoje, a divisão entre eles pode ser vista na distribuição geográfica dos slogans de protesto. Uma vez que o projecto do «regresso de Pahlavi» representa um horizonte patriarcal baseado no etnonacionalismo persa e numa orientação profundamente direitista, em locais onde surgiram organizações populares de trabalhadores e feministas — em universidades e nas regiões curda, árabe, balúchi, turcomana, árabe e turca — os slogans pró-monarquia estão praticamente ausentes e provocam frequentemente reacções negativas. Esta situação contraditória levou a várias formas de interpretação errada da recente revolta.

    VII. O Horizonte

    O Irão encontra-se num momento histórico decisivo. A República Islâmica está numa das suas posições mais fracas da história — internacionalmente, depois de 7 de Outubro de 2023 e do enfraquecimento do chamado «Eixo da Resistência», e internamente, após anos de repetidas insurreições e revoltas. O futuro desta nova onda permanece incerto, mas a escala da crise e a profundidade da insatisfação popular garantem que outra onda de protestos possa eclodir a qualquer momento. Mesmo que a revolta de hoje seja reprimida, ela voltará. Nesta conjuntura, qualquer intervenção militar ou imperial só pode enfraquecer a luta vinda de baixo e fortalecer a mão da República Islâmica para levar a cabo a repressão.

    Na última década, a sociedade iraniana tem reinventado a acção política colectiva a partir da base. Do Baluchistão e Curdistão, com a revolta de Jina, às cidades menores de Lorestão e Isfahan, com a actual onda de protestos, a acção política — sem qualquer representação oficial de cima — mudou-se para as ruas, para os comités de greve e para as redes locais informais. Apesar da repressão brutal, estas capacidades e ligações permanecem vivas na sociedade; a sua capacidade de regressar e de se cristalizar em poder político persiste. Mas o acumular de raiva não é a única coisa que determinará a sua continuidade e a sua direcção. A possibilidade de construir um horizonte político independente e uma alternativa real também será decisiva.

    Este horizonte enfrenta duas ameaças paralelas. Por um lado, pode ser apropriado ou marginalizado por forças de direita sediadas fora do país — forças que instrumentalizam o sofrimento das pessoas para justificar sanções, guerra ou intervenção militar. Por outro lado, segmentos da classe dominante — sejam facções militares-securitárias ou correntes reformistas — estão a trabalhar nos bastidores para se promoverem junto do Ocidente como uma opção «mais racional», «de menor custo» e «mais confiável»: uma alternativa interna da República Islâmica, não para romper com a ordem de dominação existente, mas para a reconfigurar sob uma face diferente. (Donald Trump pretende fazer algo semelhante na Venezuela, dobrando elementos do governo dominante à sua vontade, em vez de provocar uma mudança no governo.) Trata-se de um cálculo frio de gestão de crises: conter a raiva social, recalibrar as tensões com as potências globais e reproduzir uma ordem na qual os povos são privados da autodeterminação.

    Contra essas duas correntes, o renascimento de uma política internacionalista de libertação é mais necessário do que nunca. Não se trata de uma «terceira via» abstracta, mas de um compromisso de colocar as lutas populares no centro da análise e da acção: organização a partir de baixo, em vez de roteiros escritos de cima por líderes auto-proclamados, em vez de falsas oposições fabricadas de fora. Hoje, internacionalismo significa manter unidos o direito dos povos à autodeterminação e a obrigação de lutar contra todas as formas de dominação — internas e externas. Um verdadeiro bloco internacionalista deve ser construído a partir da experiência vivida, de solidariedades concretas e de capacidades independentes.

    Isso requer a participação activa das forças de esquerda, feministas, anticolonialistas, ecológicas e democráticas na construção de uma ampla organização de classe dentro da onda de protestos — tanto para recuperar a vida quanto para abrir horizontes alternativos de reprodução social. Ao mesmo tempo, essa organização deve situar-se em continuidade com o horizonte libertador das lutas anteriores, e especificamente com o movimento «Jin, Jiyan, Azadi» — cuja energia ainda carrega o potencial de romper, de uma só vez, os discursos da República Islâmica, dos monarquistas, da Guarda Revolucionária Islâmica e dos antigos reformistas que agora sonham com uma transição controlada e uma reintegração nos ciclos de acumulação dos EUA e de Israel na região.

    Este também é um momento decisivo para a diáspora iraniana: pode ajudar a redefinir uma política de libertação ou pode reproduzir a binária esgotada de «despotismo interno» versus «intervenção estrangeira» e, assim, prolongar o impasse político. Neste contexto, é necessário que as forças da diáspora tomem medidas para formar um verdadeiro bloco político internacionalista — que trace linhas claras contra o despotismo interno e a dominação imperialista. Esta postura liga a oposição à intervenção imperialista a uma ruptura explícita com a República Islâmica, recusando qualquer justificação da repressão em nome da luta contra um inimigo externo.

    A visão a partir da Síria
    Este é um trecho de uma declaração de internacionalistas anarquistas que actuam no norte da Síria.

    O Irão é um importante actor na geopolítica do Médio Oriente. A sua influência também teve um forte impacto na Síria durante a era Assad. As rotas de contrabando e outros meios de transporte passavam pela Síria, abastecendo o Hezbollah. Após a queda do regime de Assad, o Irão foi expulso da Síria e, de um modo geral, perdeu o poder que detinha anteriormente na região. Os danos sofridos durante os ataques israelitas em Junho de 2025 tornaram-se outro factor que afectou a situação da República Islâmica.

    Os protestos têm ocorrido regularmente no Irão. Os protestos de 2022, sob o slogan «Mulher, Vida, Liberdade», são famosos em todo o mundo. Tal como naquela época, os protestos espalharam-se por todo o país. O descontentamento da população generalizou-se devido a factores económicos — inflação, aumento dos preços e pobreza —, mas acabou por chegar ao ponto de exigir a queda do regime. Os manifestantes estão a entrar em confronto com a polícia nas ruas, e alguns foram mortos e feridos.

    Durante a escalada entre Israel e o Irão em 2025, um detalhe interessante a notar foram as declarações de Netanyahu e Trump sobre a desestabilização intencional do Irão com o objectivo de mudar o regime. É uma abordagem bastante comum dos EUA em relação a governos «inconvenientes» nas regiões do seu interesse: abrir caminho para políticos mais cooperativos, como tentaram fazer no Afeganistão. Durante a mais recente escalada da guerra entre Israel e o Irão, surgiram rumores de que já existe uma figura governante «democrática» provisória, apoiada e preparada pelos Estados Unidos. Embora esta informação não tenha sido confirmada, podemos imaginar que seja verdadeira, considerando os métodos dos Estados Unidos noutros casos (por exemplo, o recente sequestro do presidente venezuelano). Neste contexto, torna-se claro o significado da intenção declarada de Trump de ajudar os manifestantes iranianos se o Irão «matar cruelmente manifestantes pacíficos, como costuma fazer».

    O Curdistão iraniano, Rojhilat, é uma das regiões rebeldes do Irão. As suas tentativas de declarar autonomia não têm sido bem-sucedidas há décadas, mas a luta guerrilheira no território iraniano continua. O PJAK (Partido da Vida Livre do Curdistão) apoiou os manifestantes e condenou novamente o actual regime.

    O movimento de libertação curdo luta pela liberdade não só na Síria ou na Turquia. As notícias de Rojhilat aparecem com menos frequência nas manchetes, mas a situação no Irão é especialmente difícil para a luta pela libertação. As forças do PJAK incluem um braço armado feminino, o que é especialmente importante no contexto de uma ditadura que exerce «policiamento moral» sobre a população e, como de costume, prejudica os grupos mais vulneráveis, incluindo as mulheres.

    A instabilidade em Teerão poderia ser benéfica para a região curda e enfraquecer as alianças imperialistas do eixo Rússia-Irão-China. No entanto, um governo fantoche instalado pelos EUA, Israel ou qualquer outro país não resolverá a questão curda no Irão. Além disso, abordar a questão curda num quadro imperialista neoliberal não pode proporcionar uma solução verdadeira para um Médio Oriente multi-étnico e multi-religioso. O confederalismo democrático, já implementado no nordeste da Síria pelo Partido da União Democrática (Partiya Yekîtiya Demokrat, PYD) e defendido pelo PJAK em Rojhilat, oferece uma opção muito mais promissora para trazer a paz.

    Apêndice: Leituras adicionais (em inglês)

    Irão: Trabalho precário significa vida precária — Como o desastre do porto de Rajaee exemplifica o ataque às minorias étnicas baluchis
    «Mulheres, Vida, Liberdade» contra a guerra — Uma declaração contra o genocídio de Israel e a repressiva República Islâmica
    Contra o apartheid e a tirania — Pela libertação da Palestina e de todos os povos do Médio Oriente: uma declaração dos exilados iranianos
    Jin, Jiyan, Azadi (Mulher, Vida, Liberdade) — A genealogia de um slogan
    Revolta no Irão — A ressurreição feminista e o início do fim do regime
    «Há uma quantidade infinita de esperança… mas não para nós» — Uma entrevista sobre a pandemia, a crise económica, a repressão e a resistência no Irão
    Contra todas as guerras, contra todos os governos — Compreendendo a guerra entre os EUA e o Irão

    …….

    Original em inglês (Crimethinc.com), publicado a 07/01/2026 e traduzido pelo Jornal MAPA.
    (links e imagens conforme original)

  • O MAPA no Mastodon

    O MAPA no Mastodon

    Por estes dias, a atenção humana, recurso escasso e valioso, é um dos motores da economia, o grande objectivo empresarial e um símbolo de poder no capitalismo digital. É essa atenção, esse tempo passado em scrolls e likes, que alimenta as Big Tech com dados que vão usar em seu proveito, quer queiramos quer não. São todos os gostos e horários e localizações e sabe-se lá que mais que cada pessoa vai deixando a cada clique que, depois, serão vendidos a parceiros das empresas que os extraem, alguns deles com intenções dúbias, o que permite que muitos dos serviços que mais se utilizam sejam aparentemente gratuitos.

    Na verdade, são pagos e bem pagos. A moeda de troca são os nossos dados e a factura é sobre a nossa privacidade, a nossa individualidade e, no limite, sobre as próprias escolhas que fazemos, a forma como pensamos ou agimos. É o extractivismo levado até ao nível mais ousado, mais profundo, mais inimaginável. Somos nós a pedreira da qual retiram a matéria-prima para, depois, nos manterem ligados, como uma mina em funcionamento permanente.

    O Jornal MAPA não colhe nem comercializa dados. No entanto, não escapa à máquina «gratuita» de divulgação que a Meta fornece e tem-se submetido ao totalitarismo do Facebook e do Instagram. O alcance que estas plataformas permitem é um dos pratos duma balança que, no outro, contém a alimentação da própria máquina extractivista que se quer destruir. Qual dos pratos pesa mais é uma questão sempre discutível, mas a história tem-nos contado que não se pode confiar nas ferramentas dum regime para o destruir. Quando se confia, por norma, é o regime quem prospera.

    O Jornal MAPA tem um site próprio, afastado das garras das multinacionais, mas tem também a consciência de que uma parte importante do seu pouco tráfego provém exactamente de posts nas plataformas da Meta. Tem também a noção de que algumas das pessoas que, com a sua assinatura, garantem a sua continuidade tiveram o seu primeiro contacto com o jornal através da Internet. Abandonar súbita e definitivamente estas formas de divulgação é também abandonar parte da gente que tem feito algum caminho com este projecto.

    Pelo que a decisão foi a de ir saindo, meio com estrondo meio de fininho, mudando de casa, avisando os amigos sobre a nova morada, os novos percursos, e tentando levar cada vez mais pessoas para a vizinhança, para uma nova comunidade, onde o algoritmo seja cada um de nós e onde os nossos dados não sejam mercadoria minerável.

    Como primeiro passo, temos o prazer de anunciar que nos juntamos ao Mastodon onde se pode continuar a seguir o Jornal MAPA. Mesmo que não queiram fazer o mesmo, não deixem de nos seguir, desta vez em território não extractivista, sem algoritmos, com melhores controlos de filtragem, ausência de conteúdo patrocinado e maior interação entre utilizadoras.

    Segue-nos em: masto.pt/@jornalmapa

  • Os cigarros de Mário Castelhano

    Os cigarros de Mário Castelhano

    «Foi quando iamos enrolar os cigarros, um 1.º sarg. de Infantaria n.º1, armado em forte e mau (…) diz: ninguém fuma!… Pobre diabo, como se fôsse ele que mandasse na nossa vontade, ou o tabaco fôsse dele! (…) Mário Castelhano que não fumava, saca de um maço de cigarros três 20 20 20, e diz: rapazeada!… Agora toda a gente fuma, mas é dos feitos que eu ofereço, dezendo isto, pôs o maço a correr e toda a nossa gente acendeu o cigarro!… O nosso 1.º sarg., cujo nome ignoramos e, não nos interessa, pois gente parva há tanta por esse mundo fora!… Mas como o homem ferido na sua dignidade de 1.º sarg. e, na presença dos seus soldados, nos ameaçasse, todos começámos a cantar a Internacional Trabalhadora!»[ref]Gato Pinto, António. “Apontamentos para o futuro”. http://casacomum.org/cc/visualizador?pasta=09612.017#!32[/ref]

    Quem escreve estas palavras é o sindicalista António Gato Pinto, em 1934, na Casa de Reclusão da Trafaria. A sua neta, Antónia Gato Pinto, encontrou os escritos após a sua morte. Através deles, ficamos a conhecer alguns dos acontecimentos vividos pelos presos na sequência da greve revolucionária de 18 de janeiro do mesmo ano, entre os quais a marca de cigarros que Mário Castelhano não fumava.

    É impossível saber hoje a que sabiam os três vintes: 20 cigarros, 20 gramas, 20 tostões, tabaco do mais barato e do mais forte. O que sabemos é que eram da marca Tabaqueira, fundada por Alfredo da Silva em 1927, ano em que Mário é preso e deportado para Angola, por ser secretário-geral da Confederação Geral do Trabalho (CGT) e redator-principal do jornal A Batalha.

    É impossível saber hoje a que sabiam os três vintes: 20 cigarros, 20 gramas, 20 tostões, tabaco do mais barato e do mais forte.

    Além da Tabaqueira, Alfredo ficou para a história por ser o fundador da Companhia União Fabril (CUF), no Barreiro. Desde o início da Primeira República que se recusou a conversar com «comissões de trabalho e outras fantasias de ocasião»[ref]Pereira, Joana Dias (2011). O Sindicalismo Revolucionário e a crise do liberalismo: os casos de estudo português e brasileiro. Historiæ 2.3: 197-228. Disponível em: https://periodicos.furg.br/ hist/article/view/2619/1430[/ref]. Tinha apoiado o Governo de João Franco que terminou com o regicídio cometido por membros da Carbonária. Quando a Monarquia caiu, tem em curso a construção de um bairro operário, com as ruas simbolicamente nomeadas com os produtos do parque industrial, como a Rua do Ácido Sulfúrico e a Rua dos Superfosfatos[ref]Sardica, José Miguel (2020). Alfredo da Silva e a CUF – Liderança, Empreendedorismo e Compromisso. Princípia Editora, Cascais. Disponível em: https://alfredodasilva150anos.pt/wp-content/uploads/2020/08/AlfredodaSilvaeaCUF_72dpi.pdf[/ref]. Uns anos mais tarde, Alfredo apoia Sidónio Pais, que será assassinado por José Júlio da Costa, em retaliação pelas punições aos trabalhadores rurais de Vale de Santiago aquando da greve de 1918. Em maio de 1919, Alfredo despede os promotores da associação de classe da CUF, e uns meses depois é vítima de dois atentados com bombas de dinamite e tiros[ref]Dias, Manuel Augusto (2019). “Três tentativas para assassinar o industrial Alfredo da Silva”. Jornal a Voz de Ermesinde.[/ref], que falharam, por membros em solidariedade com os grevistas não readmitidos na CUF. Em 1921, circula pelas ruas de Lisboa a «camioneta fantasma» na «noite sangrenta» de 19 de outubro, libertando José Júlio da Costa e assassinando os traidores dos ideais republicanos. Por razões de segurança, Alfredo exila-se em Espanha e gere a CUF à distância, vindo a Portugal para visitas pontuais. Numa destas visitas, despede o descarregador da CUF Bernardino de Carvalho porque o viu a ler A Batalha[ref]Arranja, Álvaro (2019). “No centenário da CGT e de A Batalha”. Esquerda.Net. Disponível em: https://www.esquerda.net/artigo/no-centenario-da-cgt-e-de-batalha/63439[/ref]. Alfredo apoia a Ditadura Militar após o golpe de 28 de maio de 1926 e, em 1927, com a promessa de «estabilidade», volta definitivamente a Portugal para um dos negócios mais rentáveis, o do tabaco, que vinha das colónias africanas. A Tabaqueira prosperou por meio de um duopólio que vigorou durante o Estado Novo de Salazar e de Marcello Caetano. Alfredo foi procurador à Câmara Corporativa sob Salazar, e bateu-se ferozmente contra as oito horas de trabalho.

    A força operária era maioritariamente feminina, e recebia salários inferiores aos dos homens.

    A fábrica da Tabaqueira onde se faziam os três vintes ficava no Poço do Bispo, meia hora a pé de Xabregas, onde a Companhia Nacional de Tabacos, rival de Alfredo, estava localizada. Os cigarros feitos eram enrolados por cigarreiras. A força operária era maioritariamente feminina, e recebia salários inferiores aos dos homens. Muitas mulheres cuidavam de filhos pequenos e viviam em vilas, becos e casebres em redor da fábrica. Na ausência de creches, as operárias tinham de pagar a amas para cuidarem das crianças. Algumas eram também lavadeiras, criadas ou costureiras para completar o orçamento familiar. Ouviam diariamente ofensas obscenas dos dirigentes das fábricas, incluindo as menores, «ao alcance de qualquer capataz». Laboravam em condições insalubres, sem iluminação adequada, e a tuberculose prosperava. A mortalidade infantil era um flagelo e a classe médica alertava para os perigos da degenerescência da raça[ref]Baptista, Virgínia e Paulo Marques Alves. (2019). As mulheres de Xabregas: trabalho, quotidiano e ativismo (do fim do século XIX aos anos 40 do século XX). Em Cabreira, Pamela (Org.): História do Movimento Operário e Conflitos Sociais em Portugal. 501-516. Disponível em: https://research.unl.pt/ws/ portalfiles/portal/26534920/ASSOCIA_ES_DE_CLASSE_E_ OPERARIADO.pdf[/ref].

    As operárias participam ativamente em associações mutualistas, como as associações de socorros mútuos. A Associação de Classe dos Manipuladores de Tabaco cria A Voz do Operário, jornal onde escreve Angelina Vidal, ativista pelos direitos das mulheres, sempre apoiada pelas operárias do tabaco. A Sociedade de Instrução e Beneficência A Voz do Operário instala diversas escolas para as crianças das classes populares, e providencia assistência médica e farmacêutica. Lucinda Duarte, com quem Mário se casa antes de ser deportado para Angola, será uma das professoras.

    Diz-nos Manuel Rijo, seu companheiro e biógrafo[ref]Manuel Henriques Rijo (2020). Mário Castelhano. Esboço biográfico. Disponível em: https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/10/biografia-de-mario-castelhano-por-manuel-henriques-rijo.pdf[/ref], que a casa de Mário era uma verdadeira escola anarquista, propagada não nas ideias, mas nos atos. Durante as prisões, as irmãs de Mário e esposa procuravam providenciar-lhe todo o apoio possível, como bens alimentares, medicamentos, papel e tabaco. Nas palavras de um dos presos: «o fumar mais de que um vício, era, nas nossas condições, uma tentativa de evasão breve, um narcótico passageiro, que nos ajudava a vencer as situações depressivas»[ref]Russell, Miguel Wager (1976). Recordações dos tempos Difíceis. Lisboa: Editorial Avante. Citado em Gato Pinto, Antónia (2019). “Tarrafal: resistir como promessa. O poder de transformar uma experiência de opressão numa história de grandeza”. Tese de doutoramento em sociologia. Disponível em: https://run.unl.pt/handle/10362/66893?mode=full[/ref]. Porque não fumava Mário, então?

    Comecemos por especular que Mário não era dado à depressão. Em 1932, publica o seu primeiro livro, Os Organismos de Transportes na Revolução Social, pelas Edições do Pensamento Acrata[ref]Disponível em: http://casacomum.org/cc/visualizador?pasta=09778.009#!1[/ref]. Mário escreve repleto de otimismo. A revolução social era uma certeza, e a queda da sociedade burguesa inevitável. O sistema continha em si próprio o gérmen que o haveria de destruir; só os trabalhadores podiam construir a sociedade futura. O Sindicalismo Revolucionário e a organização operária seriam a liga indestrutível de solidariedade que permitiriam a emancipação do proletariado, mas tinha de ser o trabalhador a realizar a obra. Doutra forma, entregaria o esforço a organismos políticos que só determinam ordens, para serem cumpridas sem qualquer oposição, que fariam dele um perpétuo autómato condenado a obedecer a quem está em cima. As armas do proletariado eram a organização e a greve geral insurrecional expropriadora. «O que agora parece uma dificuldade insuperável para muitos, aparecerá amanhã relativamente desobstruída, no estabelecimento da forma sindicalista encontrada.»

    Mas desde a Ditadura Militar que a organização sindical estava fortemente debilitada. A CGT experimentava conflitos internos, e a repressão policial sobre os sindicalistas, com prisões e espancamentos sem qualquer motivo, era frequente. A Batalha era censurada e apreendida, enfrentava enormes dificuldades financeiras e processos judiciais. Anarquistas e sindicalistas foram presos às centenas e deportados, levando a organização ao limite, obrigando-a a romper com a solidariedade aos presos sociais. O movimento operário dividiu-se entre anarco-sindicalistas e comunistas, e havia um desalento coletivo[ref]Guimarães, Paulo. Cercados e Perseguidos: a Confederação Geral do Trabalho (CGT) nos últimos anos do sindicalismo revolucionário em Portugal (1926-1938). Disponível em: https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/wp-content/uploads/2013/01/cgt_anos30_pguimaraes.pdf[/ref]. Mário era profundamente conhecedor da situação. Os sindicatos lutavam para manter a adesão dos trabalhadores às greves. Foi expulso do seu próprio sindicato por ser revolucionário, mas a Federação Ferroviária nomeia-o delegado da CGT no momento mais crítico da organização. É proposto pelo Conselho para o Comité Confederal e para diretor do jornal A Batalha. Aceita o cargo, e poucos meses após tomar posse, a CGT foi ilegalizada, a sede do jornal A Batalha assaltada, e Mário foi deportado dois anos para Angola. Em setembro de 1930 foi transferido para os Açores, e em 1931 para a Madeira, conseguindo fugir para Lisboa como clandestino, na banca do carvão de um navio. No regresso, além de escrever o livro mencionado, escreve as suas memórias, que serão publicadas postumamente pelo seu filho, em 1975, sob o nome Quatro Anos de Deportação[ref]Castelhano, Mário (1975). “Quatro anos de deportação”. Seara Nova.[/ref].

     

    Sabia Mário o que o esperava? Como poderia saber? Da terceira vez que esteve preso, a 5 de fevereiro de 1927, foi libertado da prisão pelos revolucionários dois dias depois. Em 1931, enquanto deportado, participa na revolta da Madeira que lhe permite a fuga, e uns meses depois, a 26 de agosto, vivencia o seu eco no continente. Ambas falham, mas ao invés de se deixar tomar pelo desânimo, pensa apenas, ainda não foi desta, será doutra. Como revolucionário, Mário existe no futuro, e a luta pelo futuro é a vida. A sua geração é a do sacrifício. Sente solidariedade com gente que ainda não nasceu, com pessoas que não conhece. Nas suas memórias, relata um caso que o chocou: em Cabo Verde, um transportador negro, «mais farrapo humano do que gente», cobiça avidamente uma côdea de pão. Dão-lhe o pão e ele come-o sem dizer palavra. Mário fica condoído não só com a miséria, mas também com a ignorância da injustiça.

    A greve de 18 de janeiro de 1934 vale-lhe nova prisão. Recebe alimentação de casa, mas divide a comida com os companheiros. Após a prisão em Angra do Heroísmo, é levado para o campo de concentração do Tarrafal, sempre envolvido na organização dos presos. No campo, um dos principais problemas era o acesso ao tabaco, confiscado pelo diretor. Fazem todos os esforços para o conseguir, incluindo a invenção de máquinas para corte das folhas. Alguns presos deixam de fumar, para escaparem à escravidão do tabaco[ref]Vários autores (1978). Tarrafal – testemunhos. Disponível em: https://cd25a.uc.pt/media/pdf/Biblioteca%20digital/ Nreg%20EB00042_Tarrafal_testemunhos.pdf [/ref].

    Entretanto, os negócios de Alfredo prosperaram. Entre 1936 e 1938 detém a maior frota nacional de navios. Ajuda Franco na Guerra Civil de Espanha a pedido de Salazar, trazendo as tropas franquistas de Marrocos, transportando gasolina e dezenas de milhares de armas de portos europeus para o exército nacionalista. Faz da Rádio Clube Português uma emissora de propaganda pró-franquista, e envia doações anónimas a Franco. Participa na organização dos Viriatos, voluntários armados patrocinados pelo Estado Novo que se juntam aos franquistas.

    Alfredo fica conhecido como «o maior amigo dos trabalhadores» pela sua obra de assistência social. Um dos gestos de humanidade que lhe foi reconhecido foi permitir a uma mulher operária comer o seu pão para trabalhar[ref]«Alguns dos melhores retratos são-nos dados em discurso direto por operários ou funcionários da CUF, com um raro sabor humano ou com a precisão do pormenor. João Sampaio, um antigo torneiro, deixou o registo de um gesto de humanidade: “um dia estava lá [numa das fábricas do Barreiro] uma mulherzita com as mãos todas porcas a comer a sua buchita e há o alarme: ‘Vem aí o patrão!’ O patrão era uma entidade. A mulherzita tinha o pão na mão e deitou o pão para junto do carvão. Mas o Alfredo da Silva viu. Foi direito a ela e perguntou-lhe: ‘O que é que estava a fazer?’ Tanto apertou com ela… ‘Estava a comer um bocadinho de pão.’ ‘E o que é que fez ao pão quando me viu?’ ‘Ai Senhor, deitei-o fora!’ ‘Então, faz favor de o ir apanhar e vá comê-lo. Porque você precisa de comer o pão… porque, se não comer, não pode trabalhar.’”» Excerto de Sardica, 2020 (anteriormente citado).[/ref].

    Mário morre de febre intestinal no Tarrafal a 12 de outubro de 1940, desgostoso por não saber os pormenores da Guerra Civil Espanhola. A sua perda é inestimável entre os revolucionários, e não é esquecida. A revolução chega a 25 de abril de 1974. Em 30 de junho de 1980, foi condecorado com o grau de Grande-Oficial da Ordem da Liberdade. Em 1989, foi atribuída uma subvenção vitalícia aos cidadãos que participaram na revolta de 18 de janeiro de 1934[ref]Morais, Joana Rebelo (2022). Comissão do Livro Negro: a procura da verdade na democratização portuguesa. Iberoamericana Vol. 22. Núm. 79. Disponível em: https://journals.iai.spk-berlin.de/index.php/iberoamericana/article/view/2934/2380[/ref]. Os crimes cometidos no Tarrafal nunca foram punidos. As famílias experimentam trauma intergeracional[ref]Valverde, Marianela (2025). Os impactos da ditadura nas famílias dos opositores políticos. Edições Colibri.[/ref].

    A 26 de maio de 2025, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, condecorou, a título póstumo, Alfredo, entregando as insígnias da Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique aos seus descendentes.

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    Texto de Borboleta Azul, publicado no Jornal MAPA nr. 47 [Out. – Dez. 2025]
    Imagens: arquivo histórico-social
    Retratos anteriores: “As cartas do Unabomber“, “Deligny e os putos ineducáveis“, “Mary Wollstonecraft e a correção dos males humanos“, “Os monstros de Mary Shelley“, “Simona Kossak, a mãe da natureza

  • Celebremos a Disgraça!

    Celebremos a Disgraça!

    A campanha de angariação de fundos para a compra da Disgraça terminou com sucesso. A compra do espaço atestou o dinamismo deste Centro Social Anarquista em Lisboa.

    A energia anarco-punk fez da Disgraça, espaço nascido em 2015, o ponto mais efervescente de uma cena alternativa DIY lisboeta, um embrião e uma casa de acolhimento de inúmeros projetos e coletivos antiautoritários nos últimos 10 anos. Perante as ameaças iminentes que decorrem da gentrificação de Lisboa, esse fantasma que assola muitas coletividades e espaços de resistência cultural da cidade, a Disgraça assumiu o desafio de ultrapassar a angústia com os aumentos absurdos de rendas e comprar este espaço na Penha de França.

    Foi vencido o enorme desafio de angariar a soma de 275.000 euros, e a escritura de compra foi concretizada neste último mês de 2025. O momento é de celebrar a Disgraça, assinalando o seu dinamismo ao garantir a perduração de um centro social anarquista em Lisboa. Um espaço que se define a si mesmo como «laboratório informal, várias vezes desajeitado mas obstinado, de práticas e formas de pensar anti-autoritárias, organizado horizontalmente, por voluntáries que, entre si e com quem lá vai, experimentam, cuidam, pensam, decidem, erram, antagonizam, transformam, catalizam, abrigam e, juntes, aproximam-se de um ensaio de um mundo onde o que desenha a vida não são as lógicas do capital».

    Em setembro do ano passado, a Disgraça assinara o contrato promessa de compra e venda com a entrega 10% de entrada do valor total. Um ano decorrido o crowdfunding somava à volta de 45.000 euros e mais de 500 doações. O restante montante reunido resultou da obtenção de empréstimos solidários sem juros (c. 160.000) e verbas provenientes de eventos de angariação de fundos que percorreram toda a Europa (c. 70.000). Aqui chegados, à compra do espaço, veem-se realizadas as principais aspirações do coletivo que, desde o seu início, alertara ser «fulcral que haja espaços estáveis onde se possa aprender, partilhar, conspirar e (des)construir de forma coletiva e horizontal».

    Dos concertos, às refeições da cantina vegan, da livraria anarquista Tortuga, ao ginásio e loja livre, o espaço tem a montra da livraria aberta para a Rua Penha de França, um pouco acima da Escola Secundária Luísa de Gusmão. Entrando aí, é ir descendo às profundezas: primeiro pelo piso onde conversas, reuniões e outros afazeres vão acontecendo por entre as estantes da BOESG (Biblioteca dos Estragos da Sociedade Globalizada) e por vezes tropeçando nas pilhas de jornais MAPA que a cada edição ali são armazenadas (uma ajuda que não esquecemos, aproveitamos para referir). Mais abaixo e levando pelo caminho algo da loja livre Desumana, chega-se ao local mais vivenciado da Disgraça: a sala de convívio, onde chegam os cheiros dos pratos que afamaram a cozinha vegan da sua cantina. Aí poderá estar a acontecer simultaneamente uma roda de conversa ou uma projeção de filmes e documentários. Por fim, chega-se às tais profundezas, que mais não são que o lugar memorável onde centenas de bandas partilharam a sua música, o seu suor e um convívio que poucos esquecem. Ao lado, uma sala de ensaios, uma oficina, uma serigrafia e um ginásio (o lugar mais arrumado …) compõem os cerca de 1000m2 da casa.

    Tudo isto se passa com base num pressuposto, como já foi antes referido ao Jornal MAPA: «É importante para nós que a Disgraça seja um espaço onde as pessoas se possam envolver facilmente e onde não haja binários rígidos entre pessoas organizadoras e consumidoras» e no seu percurso nem tudo tem sido fácil ou isento de conflitos, uma vez que, no fim de contas, «a horizontalidade é um trabalho sempre em curso».

    «Ao longo do tempo, a Disgraça tem sido um local de convergência e organização de lutas na cidade e fora dela, proporcionando espaço para reuniões, preparação de materiais, eventos e angariações de fundos. Entre os meandros da manutenção e organização do espaço, houve conversas e grupos de leitura sobre anarquismo, anti-racismo, anticolonialismos e as mais diversas lutas indígenas, queer e feministas. Reduzindo o fosso entre a teoria – nas prateleiras da Tortuga –, e a prática – nas nossas vidas. Houve mesas-redondas sobre abolição das prisões e apoio a preses, luta pela habitação e okupação, bem como estratégias de resistência ao capitalismo verde, ao colapso climático e extrativismo.»

    Ainda que assombrada pelo recente despejo de outros espaços na cidade, como a Zona Franca dos Anjos, na justa celebração desta vitória ecoa uma certeza: «ao adquirir coletivamente o espaço da Disgraça, todos os coletivos de resistência e movimentos sociais que dependem deste centro social ganharão maior sustentabilidade e autonomia. Sem uma renda e um senhorio, podemos focar-nos em continuar a criar hoje o futuro que queremos construir amanhã».

  • Habitar em Comunidade

    Habitar em Comunidade

    Habitar em Comunidade é uma obra coletiva construída sobre o princípio de «habitação como bem comum». Nascida de uma colaboração entre as cooperativas catalãs Lacol (atelier de arquitetura) e La Ciutat Invisible (livraria e consultora de economia solidária), baseia-se em grande medida na experiência de La Borda, um projeto habitacional cooperativo erigido no bairro barcelonês de La Bordeta, marcado por um passado operário em ruínas. Finalizado em 2018 e filho das reivindicações pelo património coletivo de Can Battló – historicamente, uma das maiores fábricas têxteis do território espanhol, convertida num dos principais polos do cooperativismo catalão – La Borda, um edifício composto por 28 fogos e vários espaços comuns (cozinha, cantina, lavandaria, quarto de hóspedes, arrecadação, pátio, terraços e estacionamento para bicicletas), segue o modelo de cedência de direito de uso. Neste modelo as cooperativas mantêm a propriedade e a gestão do edifício, com o objetivo de salvaguardar o seu «valor de uso» – por oposição ao seu valor de troca –, ou seja, a sua «função enquanto casa», e não o seu valor comercial. Isto permite a manutenção de casas a preços acessíveis, enquanto as protege da especulação imobiliária, evitando que proprietários individuais as possam colocar no mercado. O valor mensal pago pelos membros é destinado a cobrir o investimento inicial e os custos comuns. Estas cooperativas oferecem aos seus habitantes flexibilidade e risco limitado, pois evitam o endividamento individual. Além disso, os residentes podem sair da cooperativa e recuperar o investimento inicial, ou inclusive mudar de casa dentro da cooperativa ou adaptá-la. Ao mesmo tempo, conferem-lhes segurança e estabilidade, permitindo-lhes não depender de contratos temporários e terem o direito de permanecer na cooperativa, desde que cumpram com o seu regulamento interno.

    Neste modelo as cooperativas mantêm a propriedade e a gestão do edifício, com o objetivo de salvaguardar o seu «valor de uso» – por oposição ao seu valor de troca –, ou seja, a sua «função enquanto casa», e não o seu valor comercial.

    Esta edição, em língua portuguesa, resulta de uma colaboração entre a Rede CoHabitar – pioneira em promover o cooperativismo de habitação com cedência de direito de uso – e a editora Bambual Portugal. O prefácio oferece um precioso enquadramento do contexto português, marcado por uma profunda crise habitacional, mas também por uma crescente efervescência em torno deste modelo. Entusiasmo esse que embate no exponencial aumento de preços da propriedade imobiliária e na escassez de apoio público ao cooperativismo habitacional. Apesar da importância das cooperativas de habitação perante a crise habitacional ter estado patente em muitos programas eleitorais – fruto, em grande medida, dos esforços da Rede CoHabitar –, as «linhas de financiamento» prometidas pelo anterior governo e reiteradas pelo atual executivo nunca saíram do papel. Esta negligência governamental viola a Constituição Portuguesa, que declara como um dos papéis do Estado «incentivar e apoiar as iniciativas das comunidades locais e das populações, tendentes a resolver os respetivos problemas habitacionais e a fomentar a criação de cooperativas de habitação e autoconstrução».

    Contrastando com a atualidade, é recuperada a memória do Projeto SAAL, em que, no rescaldo do 25 de Abril de 1974, o Estado desempenhou um papel importante ao garantir apoio técnico e financeiro a cerca de 150 projetos habitacionais de base, traduzidos em cooperativas de habitação e em associações de moradores, que asseguraram habitação digna a milhares de pessoas. Não obstante, sublinha-se o facto de, ao contrário do modelo proposto neste livro, a maioria dessas cooperativas de habitação se terem traduzido em fogos de propriedade individual, o que permitiu que muitos acabassem por ser revendidos no mercado, tornando-se objeto de especulação. Atualmente, o setor financeiro e o mercado imobiliário privado são praticamente os únicos mecanismos de acesso à habitação, perante um parque público que se limita a 2% da habitação permanente, aparentemente alheio ao facto de o acesso a habitação digna se supor um direito constitucional.

    O modelo de habitação cooperativa advogado neste livro – baseado no «direito de uso, propriedade coletiva e auto-promoção» – está longe de ser uma inovação catalã. No Uruguai, onde este modelo supera os 2,5% do parque habitacional, o período entre 2005 e 2014 foi marcado pela construção de 5500 fogos que se regem por estes princípios, a maioria dos quais edificados em terrenos públicos. Por sua vez, em Copenhaga, onde mudanças legislativas iniciadas na década de 70[ref]Em 1976, na Dinamarca, foi introduzida uma lei que obrigava os proprietários dos edifícios a dar preferência de compra aos seus inquilinos, casos estes se organizassem em cooperativas. Entre 1981 e 2004 foram também concedidos subsídios para estimular a construção de novos projectos de habitação cooperativa.[/ref] motivaram a reconversão da propriedade privada em propriedade coletiva, as cooperativas de habitação com cedência de direito de uso garantem mais de 30% do total das casas habitadas.

    Ao contrário do que acontece na maioria dos apartamentos, em que os futuros habitantes são seres desconhecidos, abstratos ou imaginários, este modelo permite o envolvimento de pessoas reais no planeamento da sua própria casa. A proximidade entre arquitetos e futuros habitantes permite também o planeamento de espaços comuns, assim como a partilha de certos serviços e equipamentos que são normalmente incorporados nos espaços privados de cada casa (como lavandaria, quartos para visitas, espaços para crianças, arrecadação, hortas, oficina, etc.). Se, por um lado, isto se traduz num imóvel de propriedade coletiva e indivisível, por outro, pressupõe uma comunidade significativa- mente coesa. Daí um importante foco do livro incidir sobre estratégias de consolidação da comunidade e de manutenção de relações interpessoais.

    Em suma, Habitar em Comunidade é um parceiro incontornável para coletivos que procurem criar um projeto habitacional não especulativo, ou simplesmente para quem esteja interessado em imaginar futuros em que a habitação não é vista como objeto de especulação, mas como um bem comum, que deve ser gerido de forma coletiva.

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    Texto publicado no Jornal MAPA nr. 47 – Out.-Dez. 2025

  • A UE planeia expandir radicalmente o mandato da Frontex

    A UE planeia expandir radicalmente o mandato da Frontex

    Dois documentos recentes do Conselho Europeu revelam discussões internas sobre a potencial expansão da agência europeia de fronteiras Frontex. Um dos objectivos é facilitar a sua actuação fora das fronteiras da UE. As discussões antecedem a revisão formal prevista do mandato da Frontex em 2026 e dão uma ideia do que os Estados-Membros e a Comissão Europeia têm em mente para o papel da agência no futuro mecanismo de deportação da UE.

    Duas notas da presidência dinamarquesa do Conselho da União Europeia, obtidas e publicadas pela Statewatch, revelam discussões em curso para expandir radicalmente o mandato da Frontex, conferindo-lhe o poder de realizar deportações de um país para outro e combater as chamadas «ameaças híbridas» contra a UE.

    A primeira nota da Presidência ao Grupo de Trabalho sobre Fronteiras, de 30 de Outubro de 2025, convida as delegações dos Estados-Membros a debater: «se deve ser facilitada a participação e a actuação da Frontex em Estados não pertencentes à UE; como é que a Frontex poderá ser mobilizada para realizar deportações de um país terceiro para outro; qual o papel que a Frontex deve desempenhar no sistema global de centros de regresso».

    Com esta previsão de criação de «centros de regresso» (campos de deportação) em Estados não pertencentes à UE, a Presidência convida as delegações a debater se a Frontex «(…) deve poder ajudar os Estados-Membros que celebram acordos com países terceiros sobre centros de regresso para pessoas em situação irregular na UE.»

    A nota conclui perguntando às delegações: quais são os principais obstáculos às sugestões acima; como imaginam acordos de trabalho mais flexíveis entre a Frontex e países terceiros; se o Regulamento da Frontex deve ser alterado; e se os Estados-Membros apoiam a participação da Frontex em deportações de um país terceiro para outro, bem como a assistência aos Estados-Membros na deportação de pessoas para «centros de regresso».

    A segunda nota da Presidência à mesma comissão explora se e como o mandato da Frontex deve ser alargado no contexto das «ameaças híbridas». Descrevendo essas ameaças como um «desafio fundamental nas fronteiras externas» da UE, a nota começa por apresentar definições provisórias de «ameaças híbridas» e, em seguida, centra-se na «instrumentalização/militarização» da migração como exemplo.

    A nota da Presidência refere sugestões de Estados-Membros não identificados de que o papel e o mandato da Frontex devem ser alargados para combater as ameaças híbridas. A Presidência convida então os delegados a debater «se e como o mandato da Frontex (…) precisa de ser alterado para garantir que a Frontex possa apoiar eficazmente os Estados-Membros confrontados com a instrumentalização e possivelmente outras ameaças híbridas, tais como as recentes violações do espaço aéreo por drones e outros objectos voadores utilizados para o contrabando.»

    Notícia parcialmente traduzida daqui.