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  • Semana de Luta pelo Futuro | 11 a 15 Maio

    Semana de Luta pelo Futuro | 11 a 15 Maio

    No seu manifesto, o movimento Fim ao Fóssil afirma que «segue as pisadas do movimento estudantil anti-fascista que declarou luto académico para se organizar e lutar contra a ditadura e fez diversas ações disruptivas em massa, como a grande ocupação da cantina velha a 11 de Maio».

    Aproveitando a simbologia dessa data, o Fim ao Fóssil convoca «uma semana de ações por saúde, habitação, energia, alimentação e educação; pelo fim às guerras e genocídios; para travar piores catástrofes climáticas; pelo fim a um sistema de destruição». Essa semana começa exactamente a 11 de Maio e culmina, no dia 15, às 18h30, numa concentração em frente à sede do governo (campo pequeno, Lisboa).

    Lembrando que «quando o governo decide ser complacente com todos estes ataques e se recusa a proteger as pessoas, nós protegemo-nos e lutamos umas pelas outras», convidam «todas as pessoas e organizações que querem lutar pela existência de um futuro onde queiramos viver, e por um presente justo e digno para todas, a juntarem-se a nós».

    Mais info aqui.

  • Kyriakos vive! – o caso de Ambelokipoi

    Kyriakos vive! – o caso de Ambelokipoi

    Na véspera do 25 de Abril, é na outra ponta do Mediterrâneo que termina o julgamento do «caso de Ambelokipoi», um dos casos mais relevantes para a cena anarquista ateniense dos recentes anos. Marianna Manoura acaba condenada a 19 anos de prisão e Dimitra Zarafeta a 8, enquanto que Nikos Romanos, A.Z. e Dimitris são ilibados, após um ano e meio de prisão à espera de julgamento.

    Foi a 31 de Outubro de 2024 que ocorreu uma explosão num apartamento em Ambelokipoi, uma zona central de Atenas. A explosão deixou Kyriakos Ksymitiris sem vida e Marianna Manoura com ferimentos graves, que levariam à sua hospitalização. Na sequência desta explosão, foram presas Marianna e as restantes pessoas acima mencionadas, tendo sido criada por parte do aparelho estatal e dos media toda uma narrativa para demonizar o movimento anarquista e para tentar enquadrar estas pessoas como parte de uma «organização terrorista». Este artigo procura dar seguimento a um texto publicado pelo Jornal MAPA sobre o mesmo tema – o seu intuito é contar os acontecimentos e contextualizá-los, assim como honrar a memória de Kyriakos e a luta das companheiras ao longo deste processo.

    Kyriakos Ksymitiris
    Um de nós/ dos nossos
    Companheiro para sempre
    Nas ruas de fogo
    – tradução de um dos cânticos ouvidos no último ano e meio em eventos e manifestações anarquistas em Atenas.

    O Caso

    «No dia 31.10, no terceiro andar de um apartamento na Rua Arkadias (Atenas), durante o manuseamento de explosivos pelo meu camarada e guerrilheiro Kyriakos Ksymitiris, ocorreu uma explosão com a trágica consequência da sua morte. (…) Percebi que mesmo que a linha de ação do meu camarada tivesse sido abruptamente interrompida, a sua vida e as suas escolhas na luta seriam um flash histórico de resistência determinada, consistência e dedicação.» (Marianna Manoura, em «O que dá sentido à vida dá sentido à morte», disponível em athens.indymedia.org).

    No seguimento desta explosão, Marianna foi levada para o hospital Evangelismos, ficando entubada e inconsciente durante os 3 dias seguintes. Mal acordou, começou o assédio por parte dos agentes da polícia, que procuravam obter amostras de sangue e que insistiam em estar presentes na sala onde se encontrava durante as visitas de 5 minutos da sua família.

    Retomou a consciência e, passados 5 dias, foi subitamente levada para uma ala de isolamento, vigiada 24/7 por polícias estáticos e outros quantos móveis nos corredores que levavam à ala. A 15 de novembro, apenas um dia após a segunda operação a que foi submetida, Marianna foi levada para a prisão feminina de Korydallos, com condições sanitárias deploráveis e sem acesso aos cuidados médicos e medicação necessários.

    Começava assim a preparação da narrativa «anti-terrorista», colocando Marianna e Kyriakos no centro e acrescentando amigos, camaradas e estranhos conforme fosse necessário para justificar esta mesma narrativa.

    Em sequência disto, Dimitra foi detida (com toda a pompa e circunstância) ao apresentar-se voluntariamente no aeroporto de Atenas,em regresso do estrangeiro onde residia há anos. A «pista» que a incriminava: ter entregue as chaves do apartamento a Marianna e Kyriakos, sob o pretexto de hospedar conhecidos destes que vinham de fora do país. Dimitris, por sua vez, foi detido simplesmente por ter sido ele a entregar as chaves do apartamento ao proprietário do imóvel, algo que lhe tinha sido pedido por Dimitra. Nikos Romanos e A.K. foram também detidos 20 dias depois, com base em alegadas impressões digitais parciais num saco de plástico encontrado no apartamento.

    Estavam assim reunidas as condições para a acusação de «organização terrorista» sob o artigo 187A, que define que uma tal organização só pode ser legalmente qualificada a partir de 3 membros integrantes.

    Luta armada em território grego

    É de relembrar que este evento não é isolado naquilo que é a história anarquista, nomeadamente em território grego. Para além das muitas ações diretas e confrontos diários com a polícia nas ruas ao longo dos últimos 50 anos, o movimento anarquista grego tem sido marcado pela luta armada de diversos grupos, particularmente na primeira década dos anos 2000, entre eles a Luta Revolucionária (EA), Vontade do Povo, ENEDRA, Conspiração das Células de Fogo (SPF), 6 de Dezembro, Continuação Revolucionária, OPLA, Fação de Revolucionários, Thanasis Klaras, Incendiários de Consciência, Rocinante, Proteção de Guerrilheiros Proletários, incluindo de outras tendências que não a anarquista.

    Hoje em dia, a luta mantém-se ativa neste campo. Estes grupos, indivíduos e ações, provenientes de várias correntes anarquistas e anti-autoritárias, são inseparáveis da história do anarquismo grego. Juntamente com a infinidade de okupações, cantinas comunitárias e todo o tipo de formas de luta que caraterizam o movimento neste território, formaram e continuam a moldar aquilo que é a luta anarquista na Grécia.

    Julgamento

    O julgamento decorreu entre os dias 1 e 24 de Abril de 2026, após 17 meses de adiamento, tendo terminado com a condenação das duas companheiras a penas especialmente pesadas, tendo em conta os factos apurados. Durante todo o julgamento, uma multidão reuniu-se antes das sessões à porta do tribunal em apoio aos arguidos, onde foi recebida por todo um aparato policial, levando a confrontos no dia 24, quando a sentença foi dada e a polícia tentava levar as companheiras presas.

    Se a libertação de Nikos, Dimitris e A.K. podem ser consideradas uma vitória, as penas longas aplicadas a Marianna e a Dimitra são um murro no estômago. Estas duas companheiras mantiveram-se firmes nas suas convicções durante todo o processo, fazendo chegar cá fora vários textos escritos a partir da prisão de Korydallos, denunciando as condições das suas prisões e de todo o processo judicial, revelando a importância da luta, da memória de Kyriakos e da coragem que é necessária para arriscar a vida na luta por novos mundos.

    Este foi um julgamento altamente politizado, desde a construção do processo pelo Ministério Público e pela polícia, até aos testemunhos das famílias de Kyriakos e Marianna. O estado grego adoptou uma estratégia para tentar esmagar o movimento anarquista: tentou enquadrá-lo no seu todo como «terrorista» para tentar virar o povo contra ele, negou cuidados médicos a Marianna e arrastou os limites legais em que podiam ser mantidos os companheiros presos sem julgamento, e apelou a penas pesadas de forma vingativa para pressionar legal e psicologicamente todas as pessoas envolvidas na resistência.

    Em simultâneo, o estado grego tem procurado acelerar gentrificação de Exarcheia através da construção de uma estação de metro na praça principal do bairro, agora fechada aos moradores, e do policiamento militarizado 24/7 das suas ruas. Tem perseguido okupas por todo o país nos últimos anos, com detenções massivas processos em tribunal abertos quase diariamente envolvendo membros do movimento, entre várias outras medidas. O estado intensifica assim a sua perseguição a todas as que ousam desafiá-lo, tentando derrubar tudo no caminho.

    Agora

    Hoje, a luta continua – o movimento grego enfrenta estes dias um outro importante julgamento pelo caso da resistência ao despejo da comunidade de okupas de Koukaki, e as ações não param. Caso daí resultem penas de prisão, serão as primeiras na Grécia no que diz respeito a okupações. Em Atenas, tal como em todo o sítio onde exista vida, continuará a haver quem resista – e quem, não se limitando a isso, ataque. Quem acredite que tomar conta das nossas vidas e expandir a nossa ação a todas as frentes é algo que não pode ser deixado para amanhã.

    Que a memória de Kyriakos, de Sara Ardizzone, de Alessandro Mercogliano, de Alfredo Costa e dos mártires de Chicago, assim como de todas as anarquistas que morreram a lutar contra o estado e o sistema capitalista, nos fortaleçam e inspirem – rumo ao que há de vir.

    «Atacar o sistema é uma decisão voluntária de profunda empatia». «Se algo é certo, é que o nome do camarada Kyriakos Ksymitiris ficará marcado na memória ao inspirar todos os que lutam por um mundo de liberdade, igualdade e solidariedade. Lutando dentro e fora dos muros contra toda a exploração, opressão e isolamento. Aqueles que sonham com um amanhã diferente. Até que um sorriso de satisfação encontre o eco da libertação social e de classe».
    – Dimitra Zarafeta.

    «Mas ele olhou em redor, e viu o que se passava no mundo. Viu e sentiu que as pessoas sofriam com ansiedade da sua vida diária, com dificuldades económicas, com a exploração dos poderosos, de racismo, da iminente ameaça de guerra – todas estas dificuldades que, infelizmente, nunca estiveram ausentes das sociedades humanas. E ele tomou uma posição quanto a todos estes problemas. Escolheu lutar. (…) Eu não vim aqui para ver o meu filho julgado. Estou aqui para vos dar uma imagem dele e para que sintam a sua presença. No final das contas, ele tomou as suas responsabilidades a peito, da maneira mais exemplar. (…) Crianças que podiam viver uma vida fácil, sem grandes preocupações, mas escolheram lutar pelo que está certo, sentir a dor do outro como se sua fosse, e agir em solidariedade, lado a lado. Tal como fez o nosso filho. Encontro conforto em saber que o meu filho viveu e vive completo entre estas pessoas. E assim a sua falta torna-se uma presença».
    – excerto do depoimento dado no julgamento pela mãe de Kyriakos.

    «Que o dia 31.10 seja lembrado como um dia de luta, um dia de responsabilidade, um momento de resistência. Porque na luta não há espaço para cedências; não há espaço para barreiras e egos. Não há espaço para leis, convenções e limites. Porque a luta precisa de determinação e visão. Precisa de fé e compromisso, precisa de relações verdadeiras e generosas. Porque a luta precisa de pessoas humildes e prontas. Pessoas que são essencialmente rebeldes e consistentes. Pessoas como o Kyriakos, aquele ser humano maravilhoso que encheu o céu com a sua estrela ao lado de tantos camaradas que com a sua luz – mesmo atrás das grades – conseguem iluminar as nossas noites mais escuras. Estamos certos, vamos vencer.
    Kyriakos Ksymitiris vive.
    O estado e o capital são os únicos terroristas.
    Força e solidariedade a todos os camaradas presos.
    A solidariedade é a arma do povo.»
    – Marianna Manoura, em «O que dá sentido à vida dá sentido à morte» (disponível em athens.indymedia.org)

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    AUTOR: Nuno Bosque
    FOTOS: Alexandros Zampitoglu (@alex.zampitoglu) e athens.indymedia.org

  • Um MAPA para tempos de guerra

    Um MAPA para tempos de guerra

    Nestes tempos em que o estado de guerra permanente se instalou, a edição #49 do Jornal MAPA sai para as ruas a posicionar-se ao lado dos movimentos sociais. Dos EUA trazemos o testemunho de uma das vítimas do ICE e falamos sobre a crise social desencadeada pela perseguição de imigrantes. Analisamos o baixar das armas do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) e o que isso significa para a região, e olhamos para a Ucrânia, onde, com polémica, a deserção e a sabotagem não são as únicas saídas possíveis para anarquistas face à invasão russa. Analisamos também a mobilização social que em Janeiro assolou Turim por causa do despejo do centro social Askatasuna, e aproveitamos para dar a conhecer a rádio independente Blackout que emite a partir de Turim há mais de 20 anos.

    Da Galiza trazemos notícias de uma vitória popular contra a Altri e contra a indústria extractivista da pasta de papel, mas do Barroso relatamos a acumulação de apoios do Estado para o ataque ambiental em curso. De Lisboa trazemos um ponto de situação sobre a luta pelo Quartel da Graça; trazemos a história da bicicleta enquanto arma contra a ditadura do automóvel, e falamos sobre mulheres imigrantes, com as suas vidas perdidas e sitiadas entre fronteiras e fogões. Esta edição traz também reflexões sobre a decisão governamental de roubar direitos a pessoas trans, e demora-se no nenúfar vitória-régia (Victoria amazonica) para estimular a prática de uma ecologia queer. Também a partir de uma perspetiva queer, questionamos o apelo à criminalização do discurso de ódio, que supõe encontrar no Estado um interlocutor justo na hora de aplicar a lei e de gerir o crime.

    Na era da catástrofe, falamos sobre a organização popular e sobre o poder do «colectivismo de desastre», e acompanhamos como de costume as fronteiras da Europa Fortaleza. Partilhamos a história mais ou menos feliz da Casa da Horta, no Porto, trazemos um retrato do filósofo Diógenes, o habitual passeio futurista, a poesia, as palavras cruzadas, os cartoons e as recensões de livros. Tudo isto está na edição #49 do Jornal MAPA, à venda por todo o país e disponível para assinatura anual. Apoia o Jornal MAPA e contribui para a continuação deste projeto de informação crítica. Assina o jornal em https://www.jornalmapa.pt/assinatura-do-jornal/

  • Sudão: Isto não é uma guerra civil

    Sudão: Isto não é uma guerra civil

    Mais do que uma guerra civil, o conflito no Sudão é uma luta pelo poder e pelos recursos naturais, alimentada a partir do exterior e com o objectivo deliberado de impedir qualquer tentativa de auto-organização popular.

    O Sudão de Omar al-Bashir

    Omar al-Bashir chegou a Presidente do Sudão em 1989, no seguimento dum golpe de Estado que ele próprio dirigiu contra o eleito mas impopular primeiro-ministro, Sadiq al-Mahdi. Dirigiu o país com mão de ferro e teve o desaconselhável privilégio de, em 2009, ter sido o primeiro chefe de Estado em funções a ser alvo dum mandado internacional de captura pelo Tribunal Penal Internacional, que o considerou culpado de crimes contra a humanidade, genocídio e crimes de guerra.

    O programa de al-Bashir foi sempre o de aprofundar a islamização do país, com um forte discurso anti-ocidente irmanado com políticas do mais moderno capitalismo e um machado na mão contra trabalhadores, colectivos e minorias étnicas (não-árabes). A sua ligação ao Janjaweed, um conjunto de milícias sudanesas árabes comandado pelo general Hemedti, personagem com um longo historial de desumanidades, era também do conhecimento de toda a gente.

    A guerra no Darfur e a criação das FAR

    Na viragem para o século XXI, fervilhava no Darfur uma já longa tradição de instabilidade e conflitos, sobretudo por causa de tensões étnicas entre árabes e não-árabes e disputas pela posse de terra e água. Em 2003, explodiu um sangrento episódio de limpeza étnica. Para destruir a rebelião das tribos não-árabes da região, Omar al-Bashir deitou mão ao Janjaweed. Com patrocínio governamental, estas milícias levaram a cabo assassinatos e violações em massa, pilhagens, tortura, razias de aldeias e limpeza étnica. Foram responsáveis pela morte de entre 300 e 500 mil pessoas e pela deslocação forçada de outras 2,7 milhões até Outubro de 2006. Em 2013, estas forças foram reorganizadas e rebaptizadas pelo governo sudanês como FAR (Forças de Apoio Rápido).

    A queda de al-Bashir

    Al-Bashir não trouxe prosperidade ao Sudão e tudo piorou a partir de 2011, quando, ao fim de duas guerras (1955-72 e 1983- 2005) entre o governo central e as regiões do sul, o Sudão do Sul se tornou independente, deixando de fornecer divisas estrangeiras provenientes da venda de petróleo. A desvalorização da libra sudanesa, em 2018, provocou um aumento brutal do preço dos produtos importados, uma flutuação selvagem das taxas de câmbio e uma visível falta de dinheiro em circulação. Por essa altura, a inflação rondava os 70%.

    No final de 2018, eclodiram protestos em várias cidades sudanesas, por causa, sobretudo, do aumento do custo de vida, mas também pela teimosia com que al-Bashir decidira manter-se no poder, anunciando a sua recandidatura para além do que a Constituição permitia e para além do que ele próprio prometera. Tudo junto e não tardou a que os protestos se transformassem em pedidos de demissão e exigências para a construção de um novo regime de governação. À mobilização nas ruas, o governo respondeu com violência. No campo institucional, uma maior centralização do poder passou a ser a grande prioridade de al-Bashir, que, no dia 22 de Fevereiro de 2019, declarou o estado de emergência, dissolveu o governo nacional e militarizou os regionais.

    Mesmo sob a ameaça do «estado de emergência», os protestos massivos voltaram às ruas e houve notícias de soldados a defenderem os manifestantes das garras das forças policiais, uma divisão que culminaria na deposição de Omar al-Bashir, através dum golpe de Estado militar que deu o poder a um Conselho Militar de Transição (CMT).

    A «revolução»

    Os protestos, organizados e constituídos maioritariamente por mulheres (numa taxa que chegou várias vezes aos 70%), não pararam, exigindo aos militares recém-auto-empossados que dessem lugar a um forma civil de governo de transição, assim como outras reformas no Sudão. Chegou a haver negociações entre actores políticos da oposição civil e os militares do CMT para a formação de um novo governo, mas foram brutalmente terminadas em 3 de Junho de 2019, quando o próprio CMT, as FAR e outras forças de segurança governamentais responderam a uma manifestação assassinando 128 pessoas, violando 70 e deixando um enorme rol de feridos, no que ficou conhecido como o Massacre de Cartum.

    Em resposta ao massacre e às detenções que se lhe seguiram, foi levada a cabo uma greve geral de três dias e houve um apelo para acções de desobediência civil e de resistência não violenta até que o CMT entregasse o poder a forças civis. Novas negociações levaram a um plano de transição para um regime civil, com a partilha imediata dos poderes legislativo e executivo entre militares e civis, para além da promessa de investigações ao que se passou depois do golpe de Estado que depôs al-Bashir, nomeadamente ao Massacre de Cartum. Estas negociações deixaram de fora uma parte importante das reivindicações, sendo vistas por alguns sectores da sociedade sudanesa como o sequestro do potencial revolucionário do que estava a acontecer no país.

    De facto, para além do nível institucional, para onde toda a discussão sempre parece fugir, o Sudão era um país com uma sociedade bastante activa, cheia de grupos e coligações. Alguns desses grupos locais, que se tinham começado a organizar enquanto rede difusa em 2013, os chamados Comités de Resistência, tiveram um papel decisivo na organização e na mobilização dos protestos dirigidos ao CMT e poderiam ter tido um papel semelhante na futura organização do território.

    Os Comités de Resistência

    Eram estruturas horizontais, autónomas, em que participavam trabalhadores, desempregados e estudantes, que começaram a ter uma coordenação entre si para acções unificadas e que acabaram por conseguir construir uma rede fluída e descentralizada de activistas. Estes comités bebem de experiências da classe trabalhadora sudanesa dos anos 1990. Durante os protestos de 2019, auto-intitularam-se os «pilares e protectores da Revolução».

    Em declarações ao Midlle East Eye, um membro dos Comités de Resistência dizia: «Não temos lideranças, mas antes uma rede ampla e coordenação entre áreas residenciais vizinhas. Cada área tem todo o direito de trabalhar de acordo com as suas próprias circunstâncias e condições de segurança». «A autonomia organizacional está profundamente enraizada e é defendida como um princípio desde o início. Qualquer questão é discutida primeiro no nível mais baixo (as diferentes secções de um bairro), depois numa coordenação de bairro e, por fim, no nível mais alto (a coordenação estadual federal). Isso faz com que algumas decisões demorem muito tempo, devido a esse desejo de respeitar uma discussão compartilhada e não reproduzir um sistema em que as “elites políticas” tomam decisões rapidamente, sem consultar a base», dizia uma investigadora da Universidade de Cartum, entrevistada pelo Nouveau Parti Anticapitaliste de França.

    «Não temos lideranças, mas antes uma rede ampla e coordenação entre áreas residenciais vizinhas.»

    A posição dos Comités de Resistência é, hoje, estritamente pacifista e há mesmo a recusa explícita de posicionamento ao lado duma das forças beligerantes. O seu trabalho, em tempos de guerra, é de apoio humanitário, assistência médica, documentação de violações e crimes, juntar e fornecer informações sobre serviços (onde encontrar água, electricidade, pão), cuidar dos desaparecidos e enterrar os mortos, fornecer abrigo ou comida. O seu apelo à autodefesa orienta-se para comportamentos que possam proteger as pessoas da violência de qualquer dos exércitos, permitindo evacuações seguras, por exemplo.

    A guerra contra a revolução

    Ainda que os jogos institucionais fossem ganhando à organização de base, parte das reivindicações que estiveram na génese da «revolução» foram atendidas ou, pelo menos, abordadas. Coisas tão absurdas como a possibilidade de a polícia bater em mulheres por usarem calças foram abolidas. Também foram abolidas a mutilação genital feminina e a flagelação pública. A apostasia foi descriminalizada e foi levantada a proibição, com 39 anos, de os não-muçulmanos beberem álcool. Houve ainda melhorias na liberdade de imprensa e algum desmantelamento do sistema de vigilância do regime de al-Bashir.

    Economicamente, por outro lado, o país não arrancava. A inflação permanecia alta. Havia falta de divisas estrangeiras. A dívida pública tornou-se gigante e os preços não pararam de subir. No dia 25 de Outubro de 2021, o exército sudanês, dirigido pelo general Abdel Fattah al-Burhan, juntamente com Hemedti e as suas FAR, levaram a cabo um golpe de Estado militar e transformaram o Conselho de Soberania (uma espécie de «chefe de Estado» colectivo instituído pelo plano de transição) numa junta militar dirigida por al-Burhan.

    O corpo militar era, no entanto, constituído por duas facções que ora eram amigas ora eram rivais, por duas pessoas que vêem o poder como coisa unipessoal. Essa rivalidade inultrapassável acabou por estalar em Abril de 2023, dando origem a uma guerra que se prolonga até hoje. Um conflito a que não se deve chamar guerra civil, uma vez que se trata da contenda entre duas vontades pessoais de poder total. Um combate deste tipo é também uma luta contra qualquer potencial inimigo, ou seja, uma guerra contra o livre pensamento, a livre organização e qualquer ideia que contrarie a do poder centralizado numa pessoa. No fundo, contra as ideias que nortearam a tentativa de «revolução».

    Um conflito a que não se deve chamar guerra civil, uma vez que se trata da contenda entre duas vontades pessoais de poder total.

    No terreno, o conflito envolve sobretudo o governo internacionalmente reconhecido controlado pelas Forças Armadas Sudanesas (FAS), dirigidas pelo general Abdel Fattah al-Burhan, e os para-militares das FAR, dirigidas pelo general Hemedti. Nenhum dos lados articulou uma visão política clara e não há qualquer ideologia em jogo, qualquer plano para o futuro da região. O que alimenta o conflito é a vontade de posse das riquezas do país, que incluem grandes reservas de ouro, cobre e ferro, petróleo e produção agrícola.

    É o ouro, estúpido

    Ambas as facções lucram já com as riquezas dos territórios que controlam e com a sobre-exploração a que condenam os trabalhadores. A mineração é feita maioritariamente de forma artesanal, atirando milhares de pessoas para condições desumanas, como acontece com os sudaneses negros escravizados sobretudo pelas FAR. A transformação do Darfur num centro de mineração militarizado permitiu a Hemedti estabelecer um governo paralelo próprio.

    O sector aurífero foi, efectivamente, transformado em arma do crime. Tanto as FAS como as FAR assumiram o controlo de minas de ouro e utilizam as receitas para financiar a guerra. Estima-se que entre 80% e 85% do ouro sudanês seja contrabandeado para o exterior, principalmente para os Emirados Árabes Unidos (EAU). Nenhum dos lados tem interesse numa economia não-militar, que, a seus olhos, apenas colocaria em risco o controlo sobre os recursos e as fontes de receita.

    O maior desastre humanitário do momento

    A cronologia do conflito é complexa, entre avanços e recuos, «ocupações» e «libertações». De cessar-fogo não-cumprido em cessar-fogo não-cumprido. A cada episódio, as mesmas consequências sobre a chamada população civil. As vítimas principais são as mesmas de sempre: as mulheres, violadas quase como ritual, as minorias étnicas e as vozes críticas ou organizadas.

    Ambos os lados têm sido acusados de utilizar a fome como arma de guerra, ao atacarem os territórios mais férteis, ao obrigarem os agricultores a fugir e ao prenderem voluntários. Simplesmente porque querem impedir que a comida chegue a territórios controlados pelo inimigo.

    Esta guerra entre generais prolonga e amplia a maior crise humanitária dos nossos dias. Mais de metade da população vive em situação de carência. Há 8,9 milhões de pessoas deslocadas internamente e cerca de 4 milhões refugiadas em países vizinhos. A fome tornou-se generalizada e 637 mil pessoas enfrentam uma fome catastrófica. O sistema de saúde ruiu, a escassez de medicamentos é a regra e há epidemias de cólera desde 2024.

    De volta ao Darfur e a um massacre anunciado

    Os argumentos de pertença étnica tendem sempre a ver o outro como uma ameaça e, nesse sentido, são sempre potencialmente perigosos. No caso do conflito actual, ser não árabe, no Sudão, representa um risco de vida perante qualquer uma das facções. Se é verdade que as forças da FAR e as suas milícias aliadas têm sido especialmente brutais, as forças militares da FAS estão longe de ter as mãos limpas.

    No Darfur, tudo se amplia. De tal forma que, em declarações à sudanesa Radio Dabanga, em Junho de 2023, Mujeebelrahman Yagoub, Comissário Adjunto para os Refugiados no Darfur Ocidental, afirmava que a violência actual era pior do que a Guerra no Darfur em 2003 ou o genocídio ruandês em 1994.

    Os avanços e recuos do conflito levaram a uma divisão territorial entre Hemidti e al-Burhan, ficando o primeiro com territórios sob sua jurisdição sobretudo no Darfur. Até Novembro passado, El Fasher era única grande cidade da região que não estava nas mãos das FAR. El Fasher esteve sob cerco mais de 16 meses e, durante esse período, a fome campeava. Após a sua conquista, as FAR lançaram uma campanha de chacina com alvos étnicos e políticos, documentando os seus próprios massacres, as suas execuções sumárias, em vídeos que depois publicaram na internet.

    Este era um massacre anunciado. Cada conquista de território tem significado, de ambos os lados mas com especial brutalidade por parte das FAR, violência mortal sobre os combatentes que se rendam e violações e assassinatos em massa sobre as populações. Isto já tinha acontecido antes, nomeadamente em Geneina, no Verão de 2023, onde o cerco também não incluiu qualquer rota segura para civis e onde a violência atingiu níveis impensáveis.

    Este era um massacre anunciado.

    Mais de 500 dias de cerco a uma cidade em situação de fome, documentada por parte de forças que, em situações semelhantes, tinham levado a cabo limpezas étnicas, não chegaram para que a chamada comunidade internacional agisse. Os comunicados de repúdio na sequência da tomada de El Fasher seriam suportáveis se o massacre fosse uma surpresa. Assim, são lágrimas de crocodilo, de quem nada fez para o evitar.

    A União Europeia poderia, por exemplo, ter pressionado os seus parceiros na região para que fossem mais intervenientes na procura da paz, mas não o fez. O parco número de jornalistas a cobrirem o conflito, o silêncio das notícias do dia relativamente ao Sudão, a dificuldade em definir «bons» e «maus», tudo isto impossibilita a criação de uma opinião pública que exija uma posição sobre a maior crise humanitária do momento. Pressionar os EAU, por exemplo, para que deixem de alimentar a guerra pode afastar os investimentos que prometem à Europa. E, por fim, há aliados do ocidente a apoiar as duas partes.

    Investir na guerra

    A interferência estrangeira no Sudão está, de facto, apenas a prolongar a guerra. Sem o apoio desses outros actores, a guerra já teria chegado ao fim, principalmente por falta de armas e munições. Para além das suas riquezas minerais e agrícolas (de que a goma arábica, um ingrediente alimentar, farmacêutico e cosmético é exemplo, sendo o Sudão o seu maior produtor mundial), o país tem uma geografia que permite a quem o dominar ficar em posição de exercer influência em toda a região do Corno de África, bem como na África Subsaariana.

    A interferência estrangeira no Sudão está, de facto, apenas a prolongar a guerra.

    Os EAU são considerados o interveniente estrangeiro que mais investiu no conflito e o que mais contribui para sua eternização. Apoiam as FAR, que controlam vastas áreas das regiões de mineração de ouro no oeste do país. Para além disso, apoiam esta guerra contra o povo sudanês como parte de uma campanha regional mais ampla contra os movimentos da Primavera Árabe.

    Tal como os EAU, a Arábia Saudita está a tentar garantir rotas marítimas e proteger os seus investimentos a longo prazo. Tem apoiado abertamente as FAS sob o comando de al-Burhan. O Irão é também apoiante das FAS e há provas de que lhe fornece drones armados, em busca de influência na região.

    A Rússia começou por apoiar as FAR, através do Grupo Wagner, mas, em 2024, mudou a sua aliança para as FAS, em troca de uma base naval no país.

    O capitalismo chinês, por seu lado, vê no Sudão um ponto central para a sua Nova Rota da Seda e está interessado nos depósitos de ouro e na localização de Porto Sudão, no Mar Vermelho. A Amnistia Internacional afirma que a China armou ambos os lados do conflito. No entanto, as ligações a al-Burhan são visivelmente mais fortes.

    Para Abdel Fattah el-Sisi, presidente egípcio desde 2013, que tem reprimido a dissidência e as liberdades civis no seu território, um Sudão pacífico, livre e não-autocrático não é, de todo, do seu interesse. Para além disso, o Egipto está preocupado principalmente com as implicações do conflito na instabilidade no Rio Nilo. Apesar dum envolvimento limitado (uma vez que depende muito dos apoios financeiros dos EAU), há relatórios que afirmam que tem fornecido armas e treino às FAS.

    Solidariedade

    A denúncia da inércia do ocidente e a visibilização das atrocidades cometidas são peças fundamentais duma solidariedade internacional possível e desejável. As mobilizações pela Palestina são exemplos dessa solidariedade que podem ser replicados no caso do Sudão. No ano passado, por exemplo, a Vuelta, uma das corridas mais importantes do ciclismo profissional de topo, contou com a oposição de activistas da causa palestiniana, por causa da presença duma equipa que ostentava o nome do Estado de Israel. Nessa altura, a mais ganhadora equipa da actualidade também participava e conseguia passar incólume, apesar de ter o nome do interveniente estrangeiro que mais investiu na guerra do Sudão. A EAU Team Emirates, uma equipa de ciclismo, estará em Portugal, para a Volta ao Algarve, entre 18 e 22 de Fevereiro.

    Contra a invisibilidade promovida pelos fazedores de notícias e de militâncias e mesmo não havendo, aparentemente, um lado pelo qual tomar parte, a solidariedade é quase imperativa, perante a magnitude do que se está a passar. E, na verdade, há lados bem definidos. Os lados que sempre se antagonizaram e perante os quais sempre nos soubemos posicionar. O de cima, com dois generais e as suas tropas a atacarem sem escrúpulos o outro, o de baixo. A guerra não é civil: é dos militares contra os civis, usando a retórica da pertença e da superioridade étnico-cultural para deitar mão a riquezas e poder.

    Neste contexto, os apelos que recebemos do movimento anarquista sudanês tocam-nos especialmente. Notícias tristes de companheiros que morreram a defender El Fasher das garras das FAR, juntamente com as de outros jovens voluntários cujo único «crime» foi levar comida para os moradores da cidade. E, lá está, o apelo: «O mundo não deve ficar a observar-nos em silêncio. Os revolucionários em todo o lado devem conhecer os nossos sacrifícios e a nossa luta contra o terror capitalista selvagem, contra a autoridade sangrenta e contra a limpeza étnica sistemática».

    A guerra não é civil: é dos militares contra os civis, usando a retórica da pertença e da superioridade étnico-cultural para deitar mão a riquezas e poder.

    Estes anarquistas não pertenciam a nenhuma facção militar antes da guerra e, quando o cerco de El Fasher começou, não tiveram escolha a não ser defenderem-se. Lutaram ao lado das Forças de Autodefesa do Povo, que continuaram os combates na cidade mesmo após a retirada do comando da 6.ª Divisão das FAS. «Nós no Grupo Anarquista no Sudão perdemos camaradas; alguns dos nossos membros foram feridos e alguns morreram; outros enfrentam o perigo iminente de guerra. As nossas famílias sofrem de fome, falta de remédios e falta de comida. Acreditamos no anarquismo numa terra onde a autoridade está em todos os lados, e lutamos para nos defender, à nossa ideia e à nossa unidade. Hoje precisamos de ti».

    O Grupo Anarquista no Sudão foi fundado por estudantes e jovens trabalhadores em 2017. Durante a revolução, ajudou a organizar comités de resistência, assembleias de bairro que coordenavam protestos, greves e apoio mútuo. Depois dos militares retomarem o poder e de a guerra ter começado, muitos membros do grupo foram presos, mortos ou empurrados para a clandestinidade. Outros continuaram o trabalho em segredo: traduzindo e imprimindo textos anarquistas, fazendo educação política através da publicação Al Amal/Hope & Grassroots Organizing[ref]nr. 1 (https://libcom.org/article/issue-01) e nr. 2 (https://libcom.org/article/issue-02) disponíveis online.[/ref], administrando cozinhas comunitárias, ajudando famílias deslocadas e apoiando grupos de defesa locais. Com o apoio de redes anarquistas internacionais, incluindo Black Rose/Rosa Negra, o grupo adquiriu uma impressora para produzir material, embora a luta e a repressão constantes tenham limitado o seu uso.

    Para eles, esta não é simplesmente uma guerra entre dois generais, mas a destruição violenta da revolução que vinha a partir de baixo, um esmagamento deliberado de qualquer tentativa de auto-organização, autonomia ou poder popular.

    Uma campanha de angariação de fundos (aliás, «um esforço de apoio contínuo que facilitará doações recorrentes a organizadores anarquistas sudaneses») tem o seguinte texto introdutório: «Como internacionalistas, reconhecemos a nossa responsabilidade de apoiar e ampliar a sua luta. A sua organização anti-autoritária, o seu compromisso com a educação política e a sua coragem em promover o poder comunitário reflectem a luta global pela liberdade. As nossas lutas estão interligadas para além das fronteiras e o trabalho no Sudão faz parte do mesmo horizonte de libertação que procuramos em todos os lugares. Num momento em que as pessoas enfrentam guerra, autoritarismo e repressão, estes organizadores estão a levar adiante o trabalho de criar espaços para apoio mútuo, tomada de decisões colectivas e resistência. Os seus esforços lembram-nos que a libertação não pode ser imposta a partir de cima – deve ser construída a partir de baixo, juntos».

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    Publicado no Jornal Mapa nr. 48, Jan. – Mar. 2026

  • O matador de Sidónio Pais, vingador dos trabalhadores?

    O matador de Sidónio Pais, vingador dos trabalhadores?

    O cognominado «Presidente Rei» Sidónio Pais é abatido em Lisboa, com um tiro de revólver, na estação do Rossio. O autor do disparo, José Júlio da Costa, é presidente da Junta de Freguesia de Garvão, concelho de Odemira, de onde é oriundo. Segundo o testemunho de um residente em Garvão à data do acontecimento, o sindicalista libertário José dos Reis Sequeira, «ele era a pessoa mais cotada na terra, como lavrador, como comerciante e como político»[ref]José dos Reis Sequeira, Relembrando e Comentando – Memórias de um operário corticeiro, 1914-1938, Lisboa, A Regra do Jogo, 1978. [/ref], filiado no Partido Democrático[ref]Idem.[/ref]. «Tinha estado na Rotunda no 5 de Outubro de 1910 e feito carreira militar em Moçambique, Timor e Angola»[ref]Depoimento do agente Manuel Alves Oliveira. Citado na obra de Alberto Franco e Paulo Bragança, O Homem Que Matou Sidónio Paes, Lisboa, Guerra e Paz, 2008.[/ref].

    Esta história ocorre a 14 de Dezembro de 1918, no tempo em que os trabalhadores assalariados tinham de conquistar os seus direitos palmo a palmo, por meio de lutas quase sempre desiguais em que algumas vezes conseguiam a vitória do «almejado direito» e outras sofriam pesada derrota, como aconteceu na greve geral de Novembro desse ano convocada pela União Operária Nacional (UON), fundada em 1914. No mesmo ano em que se inicia a guerra interimperialista, dita I Guerra Mundial, em que Portugal irá participar ao lado dos Aliados.

    Como escreveu César Oliveira, «entre Maio de 1911 e Março de 1914 concretiza-se a ruptura das classes trabalhadoras com a república democrática»[ref]César de Oliveira, A Criação da União Operária Nacional, Porto, Afrontamento, 1973.[/ref]. Para os sindicalistas e anarquistas, o governo democrático da república actua como o regime anterior, defendendo os interesses do capitalismo, do qual se revela o mais fiel representante. A república democrática defende a liberdade enquanto esta não se torna um perigo para os privilégios dos que mandam. As classes trabalhadoras organizadas na UON combatem a lei da greve porque esta protege os amarelos (os fura-greves), de modo a permitir todas as manobras destinadas a acabar com as paralisações do trabalho. Lutam contra a lei do inquilinato, por aumentos salariais e contra o custo de vida. Constituem-se assim grupos de militantes e propagandistas que percorrem o Alentejo, as Beiras, o Algarve e Trás-os-Montes em sessões de divulgação e debate. Os trabalhadores rurais em luta reivindicativa constituem uma força pujante, realizando-se em 1912 o seu I Congresso.

    A Greve, nº 55, Ano II, Domingo, 15 de Setembro de 1918, Fundação Mário Soares / Alberto Pedroso

    Greve Geral

    No início de 1916, perante a grave situação económica que se vive, o conselho geral da UON propõe a greve geral contra o custo de vida, contra os atropelos ao horário de trabalho e a injustificada permanência de militantes operários nas prisões. Porém, sem abandonar a luta por aumento dos salários, a proposta de greve geral não chega a avançar, considerando a maioria que o movimento não terá sucesso. A 30 de Janeiro desse ano, pelo facto de se acentuarem as difíceis condições de vida das classes assalariadas, em Lisboa são assaltadas pela população algumas mercearias e padarias, alastrando essa revolta para o resto do país. Muitas pessoas, «levando à frente os administradores do concelho, [vão] encontrar muitos géneros sonegados, especialmente milho, a cuja distribuição procedem»[ref]Alexandre Vieira, Para a História do Sindicalismo em Portugal, Lisboa, Seara Nova, 1974.[/ref]. Foi um movimento espontâneo, inorgânico. Mas, entretanto, «a sede da UON [é] assaltada pela polícia e são presas as pessoas que se encontram nas suas dependências, o mesmo sucedendo em vários sindicatos, que [são] encerrados, como aquela o fora também»[ref]Idem.[/ref].

    Em Lisboa são assaltadas pela população algumas mercearias e padarias, alastrando essa revolta para o resto do país.

    Em 1917 a guerra interimperialista parece eternizar-se: a intervenção dos EUA injecta-lhe energia em benefício dos Aliados. Ao escurecer do dia 5 de Dezembro de 1917 dá-se um movimento insurreccional contra, segundo se diz, o envio de mais tropas para a guerra. O chefe do movimento é o major de artilharia Sidónio Pais, antigo ministro de governos da república burguesa, último plenipotenciário de Portugal em Berlim. Sidónio mobiliza os cadetes da escola de guerra e monta acampamento no Parque Eduardo VII. Embora a UON não esteja envolvida no movimento militar, muitos trabalhadores a ela ligados participam nesse movimento com a finalidade de se libertarem da opressão exercida pelo Partido Democrático de Afonso Costa. E os operários em armas no Parque Eduardo VII, em troca da sua participação no movimento militar insurreccional, exigem a libertação dos presos que se encontram na Penitenciária por «delitos de ordem económica e social», entre eles, o operário agrícola Gonçalves Tormenta, preso desde 1912[ref]João Gonçalves Tormenta foi condenado, em 1912, a 28 anos de prisão pela morte do administrador do concelho da Moita (Setúbal). Mas o autor dessa morte foi a população da Moita em revolta. Um ano após ter sido libertado, Gonçalves Tormenta foi definitivamente indultado.[/ref]. Quatro dias depois, a UON apresenta ao governo de Sidónio as suas reclamações: a libertação imediata dos indivíduos encarcerados nas mesmas condições, distribuídos por outras cadeias, a revogação da lei de 26 de Julho de 1893 sobre o direito de reunião, a abolição da censura, o estabelecimento de uma jornada máxima de 8 horas de trabalho para todos os ramos de actividade. Além disso, a UON reclama a utilização imediata dos terrenos incultos, quer baldios quer de propriedade particular, pelos sindicatos rurais, em benefício comum, em conformidade com as aspirações manifestadas no II Congresso dos Trabalhadores Rurais, realizado em Évora em Abril de 1913.

    Acção directa no consumo

    Para acabar com a acção nefasta dos intermediários, responsáveis pelo custo de vida através da especulação e do açambarcamento, a UON propõe que os municípios adquiram os bens alimentares essenciais para venda directa aos consumidores, propondo a representação de delegados seus, com mandato revogável a todo o momento, nas comissões criadas para essa finalidade. Em resposta, Sidónio Pais, o chefe da denominada «república nova», já com monárquicos colocados em lugares-chave (o que afasta muitos republicanos)[ref]Inicia-se com o sidonismo a actuação política organizada do «integralismo lusitano». Foi posteriormente uma das correntes ideológicas que se integraram no dito Estado Novo, no fascismo salazarista.[/ref], começa a proceder para com as classes trabalhadoras como os democráticos da «república velha» afonsina. São encerrados alguns sindicatos e vários sindicalistas são presos. E as greves multiplicam-se, porque as condições económicas se agravam.

    Numa moção publicada em quase todos os jornais, em 5 de Março de 1918, a UON exorta os assalariados a ingressarem nas suas associações laborais para «lograrem conquistas e respeito pelos seus direitos e fazer valer as suas reivindicações, pois mais uma vez lhes deve ter sido demonstrado que os trabalhadores só podem confiar no seu próprio esforço de classe, actuando colectiva e solidariamente fora da acção e influência de qualquer partido político»[ref]Alexandre Vieira, Almanaque de A Batalha, 1926.[/ref].

    Com este ânimo, claramente sindicalista revolucionário e anarquista (duas das particularidades mais significativas do movimento operário da época), a UON prepara-se para a greve geral nacional. São de imediato preparados comícios, «marcados para 15 de Setembro, tendo partido cinco delegados da UON para o Alentejo e Algarve, os quais, com igual número de representantes da Federação Rural, realizam, através daquelas províncias, dezenas de sessões preparatórias. Quarenta comícios públicos são organizados em vários centros industriais do País, comícios que as autoridades proíbem, a pretexto de “defesa da Ordem”, fazendo-se em seu lugar, por tal motivo, sessões nas sedes dos sindicatos, por entre violências da força armada, que em Montemor-o-Novo e em Alpiarça fuzila alguns trabalhadores»[ref]Alexandre Vieira, Para a História do Sindicalismo em Portugal, op. cit..[/ref]. A greve geral torna-se inevitável e é marcada para o dia 18 de Novembro. Mas o movimento marcado para esse dia «foi péssimo, por três motivos: primeiro, porque a pneumónica (terrível epidemia que dizimou milhares de vidas) grassava de um extremo ao outro do País; segundo, porque vinha de ser firmado o armistício e como tivesse baixado o preço de alguns artigos que não eram de primeira necessidade, o consumidor, na sua boa fé, supôs que as condições de vida iam melhorar; terceiro, porque numa consulta feita pelo comité central a 60 organismos sindicais de fora de Lisboa, a quase unanimidade deles se manifestou pela inoportunidade da greve naquela conjuntura, ao contrário do que sustentou a maioria dos representantes dos Sindicatos da capital»[ref]Idem.[/ref].

    Apesar disso, a greve é proclamada. Os ferroviários do Sul e Sueste, apesar de os militares ocuparem as estações, paralisam corajosamente. No Algarve, em Portimão, Tavira, Silves e Olhão os trabalhadores aderem, sendo mortos em Portimão alguns marítimos. E os trabalhadores de Setúbal também aderem. Mas no Norte do país a greve não suscita adesão, excepto na Póvoa de Varzim, Ovar e Gaia. Em Lisboa, só os operários gráficos mantêm uma paralisação de três dias, impedindo a saída dos jornais [ref]Idem.[/ref]. Os mais activos são os trabalhadores rurais do Alentejo. Em Évora mantêm-se oito dias em luta, seguidos pelas populações camponesas de S. Manços, Redondo, Torre de Coelheiros, Montemor, Santiago do Escoural, Sousel, Odemira e Vale de Santiago.

    É nestas últimas localidades que o espírito de combatividade se destaca. E é em Vale de Santiago que a população rural, vítima do açambarcamento de bens essenciais, da má paga e do desemprego, emprega o método insurreccional, como acontece na vizinha Andaluzia, para a conquista da riqueza social usurpada por minorias privilegiadas e para esta ser administrada pelos próprios trabalhadores. Cumprindo a aspiração proclamada no II Congresso dos Trabalhadores Rurais: a terra para os trabalhadores rurais, para uso comum.

    Greve Geral de 1918: sabotagem verificada na linha do sul e do sueste (Ilustração Portuguesa, nº 667, 2 de Dezembro de 2018)

    Acção Insurreccional

    Para estes últimos, em particular os do Alentejo, devido aos pornográficos latifúndios e ao seu modo de produção feudal, ao custo de vida e à opressão, a greve geral surge como a oportunidade de dar início à revolução social. Em Vale de Santiago chega assim «o momento de tomar conta das terras que trabalham, despojando os senhores»[ref]José dos Reis Sequeira, op. cit, [/ref]. O povo de Vale de Santiago percorre as ruas dando vivas à revolução social. «No centro da aldeia havia um celeiro, pertencente ao maior agrário da freguesia, António Eduardo Júlio, onde se encontraram 13 moios de trigo que ele se recusava a pôr à venda. O povo decide expropriá-lo, a fim de abastecer os que tinham fome»[ref]Declaração de Francisco Mestre, participante nos acontecimentos, em Os Trabalhadores Rurais do Alentejo e o Sidonismo, de Francisco Canais Rocha e Maria Rosalina Labaredas, edições 1 de Outubro, 1982.[/ref]. À noite, são «espalhados papéis com os dizeres: Viva a Greve Geral, o grupo dos Sovietes Portugueses, Abaixo os malandros, que têm os dias contados»[ref]Os Trabalhadores Rurais do Alentejo e o Sidonismo, op. cit.[/ref]. No dia 19, «os trabalhadores armam-se, sobretudo com as suas caçadeiras, e concentram-se no ponto mais alto da aldeia, o Cerro Alto, dispostos a defender-se, uma vez que em Odemira civis armados encerraram a Associação dos Trabalhadores Rurais e fizeram prisões»[ref]Ibidem.[/ref]. No Alto do Cerro os trabalhadores podem oferecer resistência. A Folha de Beja refere 60 homens armados que tomaram posição nos cerros que dominam a aldeia e afirma que tendo, acendido fogueiras e feito comida em comum, os trabalhadores terão percorrido as herdades tomando conta do gado e das terras[ref]Ibidem.[/ref].

    Como é prática de todos os governos, estes confiam às forças da ordem a função de reprimir por todos os meios a agitação popular. O governo de Sidónio mobiliza para ali uma força de cavalaria da GNR.

    «Eu vi desembarcar essa força na estação do caminho de ferro de Garvão. O José Júlio da Costa estaria por certo informado disso, pois apareceu na estação a fazer recepção a essa força. Apareceu a cavalo e logo que a tropa se encontrou preparada para marchar, o José Júlio tomou a frente como guia a indicar o caminho da região rebelde, direcção de Santa Luzia»[ref]José dos Reis Sequeira, op. cit.[/ref]. Mandado pelo governador civil do distrito de Beja, terá sido ele o interlocutor do conflito e «o negociador da rendição imediata e incondicional dos insurrectos, proposta que lhe foi transmitida de viva voz por um agrário de Vale de Santiago, em nome do representante do Governo»[ref]O Homem Que Matou Sidónio Paes, op. cit.[/ref]. O sobrinho de José Júlio, muitos anos mais tarde, disse que o tio tinha dado a sua palavra de honra e também a palavra de honra do governador civil que, «em troca pela deposição imediata das armas, os rurais poderiam retomar as suas vidas sem que viessem a sofrer quaisquer represálias ou perseguições»[ref]Idem.[/ref]

    A greve geral surge como a oportunidade de dar início à revolução social.

    Caça aos grevistas

    A Guarda Republicana ataca os trabalhadores insurrectos, José Júlio não estaria ao corrente do «plano traiçoeiro». (Mas tinha de estar? É óbvio que não). E os insurrectos acabam por debandar, sendo alguns capturados pelos campos. A população é barbaramente espancada e arrastada para fora de suas casas. A caça aos grevistas continua. «Ouviu-se dizer que José Júlio da Costa andou com a guarda pelos montes à caça dos cabecilhas da greve»[ref]José dos Reis Sequeira, obra citada.[/ref]. Sem julgamento e sem culpa formada, trinta trabalhadores rurais foram deportados para Luanda. José Júlio terá também levado a força repressiva à Comuna da Luz, onde viviam um grupo de sapateiros e suas famílias numa experiência de vida em comum, sendo ali encontrado um grupo de jovens refractários e desertores da guerra. A Comunidade experimental anarquista é destruída e o seu fundador, Gonçalves Correia, preso em Beja.

    José Júlio da Costa nunca esclareceu claramente o motivo que o levou a matar Sidónio Pais. Nunca chegou a haver um julgamento. Permanecendo assim um mistério. Alguns cronistas sugerem que tudo se deveu ao facto de ter sido traído na sua palavra. Chegam a afirmar que ele disparou três tiros, um deles para vingar os trabalhadores. Teria de se punir a si próprio pela colaboração que prestou ao governo sidonista. O que sabemos é talvez muito pouco. «Mas na questão da greve agiu como lavrador – proprietário –, como defensor do capitalismo, sem noção dos interesses partidários e sem consulta aos superiores hierárquicos do partido»[ref]Idem.[/ref].

    O certo é que, após o fracasso do movimento grevista, Sidónio Pais aproveita a oportunidade para «vibrar fundo golpe» na organização dos trabalhadores.

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    Texto de José Tavares, publicado no Jornal Mapa nr. 48, Jan. – Mar. 2026
    Imagem em destaque: Bilhete Postal (1918) “Assassinato de Sidónio Pais”, Fundação Mário Soares / Colecção Fundação Mário Soares/António Pedro Vicente

  • Como derrubar um governo em dois dias

    Como derrubar um governo em dois dias

    Sem medo das ruínas, a juventude do Nepal empurrou a elite política comunista para o abismo e abriu as portas à esperança de um novo país.

    No início de setembro, um movimento de protesto contra a corrupção do governo tomou as ruas do Nepal ditou a queda do primeiro-ministro K.P. Sharma Oli e despoletou uma insurreição generalizada que resultou na destruição total, pelo fogo, de mais de 100 edifícios na capital, Catmandu, entre os quais o parlamento, o ministério da saúde e o palácio da justiça. Sharma Oli governava graças a uma improvável coligação que incluía o Partido Comunista do Nepal (de carácter marxista-leninista), o Partido do Congresso (representante da direita) e ainda alianças com outros grupos conservadores inclusive monárquicos. Perante um cenário político em que tinham alternado no governo os líderes dos dois partidos vencedores (marxistas-leninistas e maoistas) da revolução dos anos 2005 e 2006 que derrubou uma monarquia decrépita, e uma população que assistia ao rápido empobrecimento do país, onde as desigualdades se aprofundavam cada vez mais, acelerando a diáspora interna (das áreas rurais para as urbanas) e a externa (cerca de 6 milhões de nepaleses), a juventude, na maioria com menos de 30 anos (a geração Z), assumiu a liderança dos movimentos de protesto desde a crise da covid-19, que em 2020 viu nascer o movimento Enough is Enough, (Já Basta)[ref]Enough is Enough foi um movimento de protesto surgido no Nepal em 2020, na sequência da gestão da pandemia da Covid-19 pelo governo. Durante mais de duas semanas milhares de pessoas manifestaram-se contra a inacção e corrupção do governo na forma como estava a lidar com a pandemia no país. A resposta violenta da polícia à primeira manifestação contribuiu para o alastrar do protesto, incluindo também vários activistas que entraram em greve de fome exigindo o aumento da testagem ao vírus.[/ref] surgido na sequência da gestão da pandemia da Covid-19 pelo governo.

    As manifestações de 8 e 9 de setembro foram o culminar de um rastilho que não parava de arder há anos. A 8 de setembro milhares de pessoas responderam à convocatória do movimento Gen Z contra vários episódios de corrupção e a aprovação recente de uma lei que permitia o bloqueio de várias redes sociais. Ao chegarem ao parlamento, os manifestantes foram reprimidos violentamente com fogo real por parte da polícia, tendo sido assassinados a sangue frio dezenas de jovens, alguns em idade escolar e com os uniformes das escolas vestidos. A indignação alastrou rapidamente e, no dia seguinte, já ninguém considerava a negociação com o governo uma opção. As manifestações de 9 de setembro rapidamente se transformaram numa insurreição generalizada, com o ataque a diversos edifícios governamentais, casas de políticos, pilhagens de cadeias de supermercados e também o edifício do hotel Hilton, inaugurado um ano antes como o hotel mais alto de Catmandu. Propriedade do filho de um político, o Hilton era também o símbolo da arrogância de uma elite popularizada nas redes sociais como «nepo babys» ou «nepo kids», filhos e netos de políticos que, sem qualquer pudor, ostentavam nas redes uma vida de luxo. A difusão destas imagens e a oposição generalizada às políticas do governo tinham sido razões pelas quais o governo decidiu avançar com a lei de bloqueio de algumas redes sociais, o que ajudou a inflamar ainda mais a revolta.

    O actual governo interino é liderado por Suhila Karki, uma antiga juíza do Supremo Tribunal do Nepal e a primeira mulher a assumir o cargo de primeira-ministra. Em poucos dias, 145 mil pessoas discutiram e levaram a votos a escolha da nova líder do país no Discord, uma plataforma associada a fãs de jogos de computador. «É irónico que o governo que baniu o Discord, aqui, acabasse por ser derrubado pelas pessoas através do próprio Discord», lia-se num comentário de uma jovem nepalesa à notícia da eleição de Suhila Karki.

    O novo Nepal vê-se obrigado a renascer sobre o sangue derramado de mais de 75 vítimas mortais. Num acto solene, Sushila Karki declarou oficialmente os manifestantes mortos como mártires, o Estado honrou os falecidos com uma cerimónia nacional de cremação e proclamou o dia 17 de setembro como dia oficial de luto nacional.

    Tal como nas revoltas do Bangladesh, em 2024, na Indonésia, em agosto de 2025, sem esquecer a guerra civil que se trava no Myanmar (ver aqui), as massas populares na Ásia mostraram a importância da crítica radical e anticapitalista. Os ataques de 9 de setembro nas principais cidades do Nepal tiveram como objectivo, para além dos edifícios governamentais, a cadeia de supermercados Bhatbhateni, o Choudhary Group (uma das maiores corporações financeiras do país) e a NCELL (a primeira operadora privada de telecomunicações móveis). Todos estes grupos são denunciados há anos por episódios de corrupção e fuga aos impostos, acumulando milhões sobre a miséria generalizada de uma população traída e sem esperança.

    As eleições para a formação do novo parlamento foram marcadas para 5 de março, a geração Z e a bandeira pirata do One Piece mantêm-se alerta.


    Texto publicado no Jornal MAPA nr. 48 [Jan. – Mar. 2026]