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Lendo: A vida faz-se de acasos e valores

A vida faz-se de acasos e valores

A vida faz-se de acasos e valores


Uma viagem ao passado de José Hipólito dos Santos que nos traz memória de tempos sombrios, cada vez mais parecidos com os que vivemos agora.

Um livro de José Hipólito dos Santos, ainda em projecto, mas já com vários textos prontos a publicar, foi encontrado no seu computador pessoal, em 2020, pela filha, Irene, três anos após a sua morte. Atraíra-lhe a atenção o nome da pasta: «A vida faz-se de acasos e valores», dentro encontrou esta obra «quase pronta» que viria a ser editada no passado mês de Junho pela editora Letra Livre, depois de cinco anos dedicados por Irene Hipólito dos Santos à sua organização e a «intervenções tímidas» explicadas na introdução.

Acasos e valores levaram Hipólito a participar na Revolta de Beja (1962), cujo fracasso o levaria à prisão e um ano e meio depois ao exílio na Argélia. Ali, foi um dos fundadores da JAPPA (Junta de Acção Patriótica dos Portugueses na Argélia) e representante do MAR (Movimento de Acção Revolucionária) na FPLN (Frente Patriótica de Libertação Nacional). Em 1968 vivia em Paris e aderiu à LUAR (Liga de União e Acção Revolucionária), que abandonou dois anos depois. Todas estas organizações tinham por objectivo «libertar Portugal pela acção armada do povo». Poucos dias depois do 25 de Abril de 1974 regressou a Portugal. Em Janeiro de 1975 foi eleito presidente da AIL (Associação dos Inquilinos Lisbonenses), função que assumiria até 1979. Viveu o PREC, «processo revolucionário em curso», organizado no PRP-BR (Partido Revolucionário do Proletariado – Brigadas Revolucionárias), de que foi dirigente até 1978. Deste percurso Hipólito deixou testemunho das suas vivências nas obras que publicou 1, à excepção das da militância no PRP-BR 2.

Hipólito revisita episódios vividos já narrados nas sua obras, mas desta vez encontrando-lhe novos sentidos, num processo de «rememoração [que] se dá a partir de novos ângulos e prismas»

Em A Vida Faz-se de Acasos e Valores, prefaciado e posfaciado, respectivamente, pelas historiadoras Irene Flunser Pimentel e Susana Martins, Hipólito revisita episódios vividos já narrados nas sua obras, mas desta vez encontrando-lhe novos sentidos, num processo de «rememoração [que] se dá a partir de novos ângulos e prismas», revelando aspectos ocultos «como se estivessem submersos nos meandros das histórias pessoais». Esta «repetição da lembrança permite a revelação de aspectos marcantes, que nas primeiras abordagens ficam fora de campo, incorporando-os para os tornar memória», como realça Irene na introdução do livro.

Embora pouco ou nada comum num livro autobiográfico, o primeiro texto versa o encarceramento do autor pela PIDE e, assim, destaca a grande importância da prisão na sua vida. «Assunção da Sua Própria Liberdade» 3, é o testemunho da não aceitação do regime ditatorial, originalmente apresentado no II Congresso de Psicodrama Psicanalítico, em 2012. Nele Hipólito narra a experiência de preso. O convite à colaboração com a polícia. O primeiro espancamento. Os curros do Aljube. A primeira semana de tortura do sono (que se repetiria mais duas vezes ao longo dos quatro meses seguintes), o isolamento, interrogatórios, espancamentos. E, depois de narrar aspectos de tudo o referido, reflexiona sobre a tortura física «como instrumento para fazer falar e para que se espalhasse a ideia de que a PIDE era tenebrosa, para paralisar toda a acção individual e colectiva». Mas também explica como em circunstâncias tão adversas se pode sentir prazer em pequenas coisas como «respirar o ar fresco da madrugada ou ouvir o eléctrico a passar», e a determinação para «viver, sobreviver, numa situação em que se é reduzido a nada, mantendo a consciência do valor próprio, de que é uma situação transitória da qual se sairá de cabeça levantada». Termina este texto recordando que «não há que subestimar a atitude individual do resistente nas alturas em que a submissão colectiva está instalada. A resistência tem sempre a sua origem em grupos restritos, sem os quais a luta contra a submissão não encontra base de apoio».

Um quarto das páginas do livro é dedicado às «Memórias de Infância em Tempos de Guerra». Leva- -nos numa viagem ao seu passado, narrando com os olhos do tempo de criança e de adolescente como era a vida então, como foi o seu percurso desde tenra idade, servindo-se de recordações do Porto, onde nasceu, de Almeida, Vilar Formoso, Viana do Castelo, Lisboa, terras onde o seu pai, guarda-fiscal, foi sendo colocado; memórias escolhidas e avivadas no processo da passagem à escrita dessas vivências.

O tema da prisão perpassa o livro e volta a estar em foco noutros dois textos: «Um Natal na Prisão de Caxias», o relato de uma iniciativa pouco conhecida em que participou, reveladora do engenho de presos para subverter as normas repressivas, aproveitando neste caso a quadra natalícia, no Reduto Sul do Forte de Caxias, em Dezembro de 1962. E «Claridade ou como Conceber a Resistência», a transcrição incompleta (os últimos 15 minutos não foram gravados) de uma comunicação apresentada por Hipólito no Museu do Aljube, em 2017, onde disserta sobre a sua estada nos curros, de que foi um dos recordistas e de que só se livrou com uma greve de fome, interrompida com a sua transferência para o Forte de Caxias; explica donde lhe veio o conhecimento para «ludibriar algumas regras e aliviar este quadro opressor e repressivo»; e reflexiona criticamente sobre a orientação do PCP aos seus militantes presos, vertida no célebre manual de comportamento na polícia «Se Fores Preso, Camarada…».

Noutro capítulo, «A Prisão como Corolário Natural de uma Época», deixa reflectida a sua vida desde a entrada com dezassete anos no mundo do trabalho, ao mesmo tempo que prosseguia os estudos em cursos nocturnos, até à saída para o exílio em 1963. Nele dá a conhecer o processo de formação como economista na condição de trabalhador-estudante. O Serviço Militar como oficial miliciano. O contacto com António Sérgio. O envolvimento no MUDJ (Movimento de Unidade Democrática Juvenil). A integração no Ateneu Cooperativo, onde conheceu ex-dirigentes e ex-militantes do PCP e anarquistas, libertados havia pouco de várias prisões do país. O pedido de audiência a Salazar. A entrada para a Seara Nova, revista de grande prestígio intelectual conhecida pela sua oposição ao regime. A candidatura de Humberto Delgado. A participação no Movimento da Sé. O envolvimento na Revolta de Beja, que o levará à prisão. Num gesto raro em ex-presos políticos, reconhece ter-se visto obrigado a falar na PIDE, após sessões de tortura, admitindo ter reunido com outros camaradas com o objectivo de difundir notícias sobre a tomada do quartel de Beja, sendo que a sua implicação real nos acontecimentos foi de facto muito maior que o reconhecimento de que «sabia que se preparava alguma coisa» e a participação nesta reunião, admitida também no interrogatório.

A libertação de Hipólito sob caução e a ida para o exílio são relatadas em «Por Terras das Arábias (1963-1967) e alguns Prolongamentos», onde nos conta o ambiente dos opositores portugueses instalados na Argélia recém independente e «carente de quadros experientes». Pouco tempo depois da chegada, ele e a companheira, Maria Luísa Gabão, desempenhavam funções de responsabilidade numa importante cooperativa de hotéis e restaurantes. Dois anos depois, face ao «mau ambiente político e relacional no meio português» e à «degradação do contexto político e económico argelino», mudam-se para Marrocos onde Hipólito assumirá a direcção financeira de uma empresa pública de turismo e Maria Luísa as mesmas funções numa empresa de construção. Ali passaram outros dois anos, «Marrocos tinha-se tornado um pesadelo, fazendo-nos viver numa situação política mais grave do que aquela que nos obrigara a sair de Portugal», e decidiram prosseguir o seu exílio em Paris, coincidindo com a sua adesão à LUAR. Os «Prolongamentos» a que se refere no título deste texto são os relatos do regresso a estes países do norte de África mais de uma década depois para curtas estadias, onde comenta em breves resenhas as mudanças, para pior, que foi encontrar. E aproveita para escrever brevemente sobre a sua experiência de dois meses numa missão como perito das Nações Unidas na Mauritânia, em 1985, onde pôde «apreciar a forma como se trabalhava nas diversas agências: os relatórios e pareceres eram forjados em hotéis, copiando o que outros peritos já tinham escrito sobre o assunto».

Embora se trate de um livro essencialmente autobiográfico, Hipólito incluiu-lhe «Um Militante Libertário (Personagem Sabiamente Polémico)», texto em que aborda de ângulos diversos Moisés da Silva Ramos, «uma vida dedicada a uma causa para lá de si», uma biografia curta deste seu amigo anarquista; e «A Participação de Libertários em Movimentos para Derrubar a Ditadura Salazarista», texto onde descreve o papel do movimento anarquista em Portugal desde a forte repressão sofrida nos anos 1920, que quase o aniquilou. Recorda que «milhares de anarquistas ou de supostos tais foram presos, deportados para sítios inóspitos, mortos. Foi uma repressão violenta, intensa e sem contemplações legais, como nunca existiu contra os comunistas. […] Nos anos 40 e 50 os comunistas tomaram o lugar dos anarquistas na aura da resistência ao fascismo». Conta ainda como descobriu verdadeiramente o anarquismo no Ateneu Cooperativo e narra episódios das iniciativas contra a ditadura em que ele próprio participou, nomeando os outros libertários partícipes.

Irene encontrou «A Vida é feita de Acasos e Valores» quando pesquisava para um texto sobre a relação entre Adolfo Kaminsky, um dos mais importantes falsificadores de «papéis» da Resistência Francesa durante a Segunda Guerra Mundial, e o seu pai, «um dos alunos excelentes» que teve, o primeiro português a quem ensinou as artes da falsificação. Entrevistou o casal Adolfo e Leïla Kaminsky e achou por bem incluir essa conversa num capítulo deste livro, que também é seu. «Em Jeito de Conclusão» é o texto da sua autoria onde tenta retomar a parte não gravada da comunicação de José Hipólito dos Santos no Museu do Aljube, «a partir da memória do que ali afirmou e das múltiplas conversas que tivemos».

Os textos de José Hipólito dos Santos, escritos em momentos diferentes, entre os anos 2007 e 2017, de agradável leitura, tratam essencialmente de lembrança do que foi a ditadura e do seu longo e singular percurso de luta pela liberdade. São contributos importantes para a preservação desta memória e, simultaneamente, revelam conhecimentos e reflexões úteis para quem resiste e luta por uma sociedade mais justa.

……..

Texto de Fernando Silva, publicado no Jornal MAPA nr. 48 [Jan.- Mar. 2026]

 

 

Notas:

  1. A sua vida de lutador anti-fascista e libertário e a sua obra escrita foram abordadas com algum pormenor por mim em “A Constância de José Hipólito dos Santos”, um artigo in memoriam publicado na edição nr. 19 do Jornal Mapa. Ler aqui: (https://jornalmapa.pt/2018/02/28/in-memoriam-constancia-jose-hipolito-santos/).
  2. A transcrição integral de uma entrevista filmada por mim, em 2016, sobre a sua participação no PRP-BR, encontra-se disponível junto ao espólio de J.H.S., no CD25 de Abril, da Universidade de Coimbra. Pode ser lida, expurgada, aqui: https://contributosabril.wordpress.com. No CD25 de Abril está depositada a transcrição de outra entrevista sua, datada de 2014, sem autor, centrada também no PRP-BR.
  3. Publicado originalmente, em A Ideia, 2016.

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Jornal Mapa

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