Categoria: Destaque

  • Grandes projectos turístico-imobiliários ameaçam a orla costeira entre Tróia e Melides

    Grandes projectos turístico-imobiliários ameaçam a orla costeira entre Tróia e Melides

    Num cenário actual que nos leva a questionar e desconstruir a monocultura do turismo, os grandes promotores imobiliários e o governo apostam no regresso em força dos resorts. Em 2010, o Plano Regional de Ordenamento do Território do Alentejo prometera que o litoral alentejano seria a nova meca do investimento turístico e imobiliário em Portugal. A crise financeira global travou esse ímpeto, mas uma década depois a sentença está a ser cumprida. Oito enormes projectos turísticos, a piscar o olho às elites estrangeiras, ameaçam um dos últimos redutos do litoral ibérico selvagem. O Movimento Dunas Livres conta-nos esta triste história à beira-mar – e apela a que actuemos por um final mais feliz.

     

    Todos conhecemos a história: de Norte a Sul, a costa portuguesa vive acometida por uma constante pressão de artificialização por parte da indústria turístico-imobiliária. Actualmente existem instrumentos de ordenamento do território, como Planos de Ordenamento da Orla Costeira (POOC), Reserva Ecológica Nacional (REN) ou delimitação de Áreas Protegidas (ex. Parque Natural do Sudoeste Alentejano), exactamente por se reconhecer que, no passado, essa predação da construção desregrada alterou de forma irreversível e indesejada a nossa preciosa “janela para o mar”. O caos urbano em cima das praias do Algarve, Figueira da Foz ou Póvoa do Varzim são disso exemplos fáceis. O que se passa actualmente com a alteração dos princípios basilares do Parque Natural do Sudoeste Alentejano, permitindo a invasão de estufas para agricultura intensiva em cima de falésias, ou a iminente construção de mais um hotel em São João d’Arens são exemplos escusados, ao qual se vem juntar mais um caso, aqui descrito.

    A orla costeira entre Tróia e Sines conseguiu sobreviver surpreendentemente bem preservada até agora. Constitui, por isso, um dos últimos redutos do litoral ibérico selvagem hoje em dia – algo que, com certeza, só continuará a aumentar o seu valor para as gerações futuras. São cerca de 65 km de praias praticamente virgens, seguidas de um cordão dunar muito bem conservado, como poucos ainda existem na Europa, e que abriga depois uma extensa faixa de florestas Pinus de protecção e produção. As dunas que se estendem da península de Tróia até Melides albergam uma biodiversidade rara, incluindo espécies de flora endémicas e ameaçadas – sendo que muitas delas estão protegidas a nível europeu pela Directiva Habitats da Rede Natura 2000. Localizam-se adjacentemente à Reserva Natural do Estuário do Sado (RNES) ou na Zona Especial de Conservação da Comporta-Galé (ZEC-CG).

    Obviamente que tamanha região de natureza intacta junto ao Oceano Atlântico não passa despercebida, sobretudo aos investidores ávidos do turismo de luxo. Nos anos 70, a Torralta, na ponta da península troiana, era anunciada pelo regime da ditadura como “o maior empreendimento turístico de sempre” do país. Uma ambição que acabou por se desmoronar (ou salvar) com o 25 de Abril, mas que deixou a sugestão de um grande complexo turístico para esse local, uma ideia que foi resgatada pela SONAE em 1997 e hoje reside encarnada no Troia Resort: hotéis, marina, campo de golfe, casino, centro de conferências, apartamentos e aldeamentos de moradias, residenciais ou turísticos.

    Construíram-se na Torralta as maiores piscinas da Europa à época, depois abandonadas e destruídas.
    Construíram-se na Torralta as maiores piscinas da Europa à época, depois abandonadas e destruídas.

    8 km a sul localiza-se, desde início dos anos 90, a urbanização de Soltróia, um conjunto de condomínios e moradias de veraneio, munidos de piscina e relvados em forte contraste com o ambiente natural da península arenosa, cujo estreito corredor ecológico foi aí interrompido por esse tampão, literalmente “do lado do mar ao lado do rio”. Em 2012, surgiu mais uma unidade turístico-residencial, colada a Soltróia pela margem norte, designada por Pestana Tróia Eco-Resort (do grupo hoteleiro Pestana). Assim se encontra ocupada a península de Tróia actualmente, embora, como veremos, não por muito mais tempo.

    Na sua base situa-se a localidade da Comporta e começa a maior propriedade privada dos tempos modernos em Portugal: a Herdade da Comporta, ex-pertença do Grupo Espírito Santo (GES) com 12.500 hectares de pinhal, campos de arroz, hortos e outras produções agro-silvo-pastoris (ver a sua história na reportagem do Mapa “Comporta: Entre os Espíritos da terra e do turismo”). Conta também com 12 km de areal pelo que, naturalmente por via das amizades da família de banqueiros, chamou a atenção de uma elite estrangeira como um retiro eco-chique. A atracção da realeza espanhola, do Mónaco, da Jordânia, de figuras da política francesa como Sarkozy e Carla Bruni, do designer Christian Louboutin ou, mais recentemente, Madonna no seu mediático passeio a cavalo pela praia, tem ajudado a vender a imagem da Comporta na imprensa estrangeira como “a nova Ibiza ou Hamptons da Europa”.

    A Herdade da Comporta tinha já planeadas, dentro do seu Fundo de Investimento Imobiliário Fechado, duas grandes Áreas de Desenvolvimento Turístico – as ADT 2 e ADT 3, entre outros loteamentos, que obtiveram aprovações Favoráveis Condicionadas a Março de 2011 e Agosto de 2010, pelas respectivas Câmaras Municipais de Alcácer do Sal e de Grândola. A recente queda de Ricardo Salgado, julgado por crimes de corrupção financeira, ditou a expropriação dos bens do GES pelo Estado Português, que infelizmente se decidiu logo após – e debaixo de consensual e argumentada oposição por parte de várias ONGA’s nacionais – pelo retalho da propriedade e venda a promotores imobiliários, nomeadamente ao consórcio formado pela Vanguard Properties (francesa) e pela Amorim Luxury.

    Esta rápida alienação da Herdade da Comporta (pertença breve do erário público) por empresas privadas, o Plano de Urbanização da Península de Tróia – estipulado contemporaneamente à constituição da RN do Estuário do Sado para terrenos justapostos e da qual ficaram forçadamente excluídos por linhas rectas – dividido em Unidades Operativas de Planeamento (UNOP), a retirada pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento do Alentejo (que trata das respectivas Avaliações de Impacte Ambiental) de outros terrenos da REN na Comporta para se tornarem lotes de construção, a par das recentes aquisições de duas outras grandes herdades na freguesia de Melides por multinacionais estrangeiras (para execução de empreendimentos turísticos já aprovados) devem pois ser escrutinados, e averiguado se uma visão de desenvolvimento sustentável ou defesa do interesse público nacional estão efectivamente em curso.

    A mudança que aí vem

    No mapa abaixo, damos então a conhecer como está para mudar a paisagem costeira entre Tróia e Melides, de forma radical, quer em termos geográficos, económicos, sociais e ambientais. Ao todo identificam-se um total de oito grandes e novos projectos turísticos: quatro deles sobre dunas, quatro com plano de construcção de campo de golfe, seis com dimensões superiores às localidades da Comporta, Carvalhal e Melides.

    Infografia sobre os Projectos Turísticos, já construídos ou planeados, entre Tróia e Melides. Fonte: Movimento Dunas Livres
    Infografia sobre os Projectos Turísticos, já construídos ou planeados, entre Tróia e Melides. Fonte: Movimento Dunas Livres

    Não se percebe como, em 2020, perante acordos e compromissos internacionais como a Agenda 2030, o Acordo de Paris, a Convenção sobre a Diversidade Biológica e a nova Década das Nações Unidas para a Restauração de Ecossistemas (2021-2030), se avança para tamanha alteração ao carácter de uma região sem a consulta extensiva e informação devida das comunidades locais e povo português. De facto, a reunião da informação relativa a cada um destes projectos, e no seu conjunto, tem-se mostrado deveras impenetrável no que respeita ao acesso a documentos de disponibilidade obrigatória para os cidadãos, como Avaliações e Declarações de Impacte Ambiental, ou a notícias de transacções imobiliárias desta importância, sub-representadas e dispersas na imprensa nacional.

    Segundo esta nova disposição, a metade noroeste da península de Tróia ficará para sempre urbanizada. O pouco espaço que sobrava devoto à natureza entre o Tróia Resort e Soltróia será finalmente aglutinado por um resort Club Med na UNOP 3, um investimento superior a 20 milhões de euros da sociedade francesa Lagune Tróia para construir cinco edifícios hoteleiros circulares, com capacidade para 600 camas turísticas, mais dois corpos rectangulares destinados a alojamento de funcionários e outras infra-estruturas dispersas.

    O Tróia Resort alongar-se-á para a margem estuarina, marcada como UNOP 4, num dito formato “Eco-Resort”, que pretende estabelecer um novo hotel junto às Ruínas Romanas de Tróia assim como um aldeamento turístico, com capacidade conjunta para mais 700 camas. Aí se localiza a laguna conhecida como Caldeira de Tróia, uma zona húmida particularmente relevante para espécies ao abrigo da Directiva Aves da Rede Natura 2000.

    O Conjunto Turístico “Na praia”, do grupo Ferrado Nacomporta I, detido pela multimilionária espanhola Sandra Ortega (herdeira do império da Zara e muitas outras marcas têxteis), será o derradeiro vizinho sul de Soltróia. Para aqui estão projectados um hotel e três aldeamentos turísticos de cinco estrelas, perfazendo um total de 123 unidades de alojamento e 506 camas, mais equipamentos de desporto e lazer (como um SPA, um Núcleo de Eventos e Desporto, com campo de ténis, ginásio e piscina, restaurante, loja e recepção). Constata-se que, por sua vez, o terreno vizinho destas UNOP 7 e 8, a sul, é a Reserva Botânica das Dunas de Tróia (pertencente à RNES) e, dado que com estas são partilhadas na íntegra as características ecológicas e o excelente estado de conservação da comunidade florística e formação geológica que levaram à classificação de Reserva Botânica, parece uma ironia política a atribuição do mais alto nível de protecção a um dos lotes e a de autorização de construção a outro igualmente significante. Objectivamente, a ausência destas parcelas do traçado original da RN do Estuário do Sado carece de lógica científica e tem motivado surpresa junto de quem descobre este facto legal.

    As ADT 2 e 3, ex-propriedades da Herdade da Comporta e no presente capitalizadas pelo consórcio Vanguard Properties-Amorim Luxury como já foi mencionado, tornar-se-ão os megalómanos complexos Comporta Links e Comporta Dunes, respectivamente. No total destes dois (Terras da Comporta), o investimento previsto será de 1500 milhões de euros, num prazo estimado entre 8 e 15 anos, aplicados em 1.380 hectares, onde serão criados seis hóteis, três hóteis-apartamento, dois campos de golfe e 11 aldeamentos turísticos e loteamentos residenciais, para construção até 1000 casas. O início das obras está apontado para Setembro deste ano, sendo que é prevista a construção paralela de duas “minicidades” para albergar a grande quantidade de trabalhadores temporários e precários, necessários no pico do empreendimento de projectos com tais dimensões. Há pois que considerar que, uma vez terminadas as obras, o futuro dessas “minicidades” e dos seus “habitantes temporários” se revela muito incerto. A Vanguard Properties detêm ainda a Muda Reserve, cuja fase de construção da infra-estrutura da zona urbana já começou. A conclusão desta infra-estrutura para as suas 50 Quintas, 50 Casas e 50 Vilas da Aldeia está calendarizada para Março de 2021.

    Continuando para sul, e dentro da faixa costeira de 5 km regulada por lei nos POOC, deparamo-nos com os restantes dois projectos em Melides que vêm completar, o que parece ser, a estratégia de fazer desta região um destino turístico de golfe, apenas acessível a uma elite estrangeira. A Herdade do Pinheirinho, a 750m da água, entrevê já um campo de golfe desbravado no pinhal (assim como o Comporta Dunes). Foi este ano adquirida pela Vic Properties, que anunciou um investimento próximo de 500 milhões de euros para construção de hotéis, moradias e espaços de comércio, além do campo de golfe; sendo que numa primeira fase, está prevista a construção de um hotel, 450 moradias e 250 apartamentos. A Costa Terra planeia construir mais um campo de golfe, outros três hotéis, quatro aldeamentos turísticos e 204 moradias. Esta propriedade também transitou de donos, em 2019, para a posse da norte-americana Discovery Land Company, uma criadora de resorts de luxo, com portefólio nos EUA, México, República Dominicana e Bahamas.

    Este modelo de desenvolvimento económico não só extinguirá a continuidade ecológica da região, provavelmente a sua característica mais apreciada pela sociedade actual e futura; evidentemente, também transformará a demografia e economia locais através da conversão de um vasto espaço, até agora um habitat natural ou com cariz agroflorestal, num complexo residencial e turístico.

    Outro factor importante a ter em consideração, sobretudo quando se fala de impermeabilização do solo, é o de que a península de Tróia inteira é, na verdade, uma enorme duna geomorficamente dinâmica. Duas décadas dentro do novo milénio, é inadmissível a falha em reconhecer os serviços do ecossistema providenciados por este notável tesouro geográfico. Ao mediar o encontro do Sado com o Oceano Atlântico, cria e abriga a baía do Estuário do Sado, morada de uma flora e fauna emblemáticas, da qual os golfinhos-roazes constituem o exemplo mais popular, ou as pradarias marinhas, cujo reconhecimento está a crescer globalmente. (Calcula-se que a integridade destas tenha sido afectada, tão recentemente como Dezembro de 2019, pelas dragagens no Porto de Setúbal.) Os sistemas dunares bem desenvolvidos, que se prolongam para além da linha do mar, desempenham um papel fundamental na protecção contra a erosão costeira, sendo que esta função assume especial importância na região em causa, devido à ameaça da subida do nível das águas do mar e da intrusão da cunha salina na bacia do Estuário do Sado. Não se deve também esquecer a importância da manutenção desta formação arenosa sob coberto de vegetação para a recarga do aquífero do Tejo-Sado, essencial às populações e economias locais e regionais.

    A salvaguarda de recursos hídricos saudáveis, através de uma utilização ponderada, vê-se posta em causa com o advento de quatro campos de golfe a uma região árida de substrato arenoso – algo particularmente escandaloso, desnecessário e caro para o povo português. O aumento do número de urbanizações neste território coloca outra pressão óbvia sobre os recursos hídricos do aquífero do Sado, além de representar um dispêndio extra de electricidade que, funcionando todo o ano, serve apenas alguns meses pois a afluência a estes complexos é marcadamente sazonal – veja-se o actual desempenho de Soltróia.

    A sazonalidade típica destas actividades é outro ponto notável e débil do alegado desenvolvimento que se provirá às comunidades locais. A instabilidade do emprego, acompanhada da gentrificação decorrente que, naturalmente se pode vir a esperar, e o consequente aumento das rendas para habitação dentro das localidades levanta dúvidas quanto a uma efectiva fixação de jovens nesta região, com uma população pouco densa e já de si envelhecida. Esta expectativa, associada à situação já falada de um afluxo repentino de trabalhadores migrantes para possibilitar a construção de empreendimentos com esta súbita escala, sugestiona problemas de coesão social no futuro local – tudo isto em simultâneo com a entrega a investidores particulares, maioritariamente estrangeiros, de poderes decisivos para o futuro ambiental e social do território.

    O Movimento Dunas Livres

    É neste contexto de preocupação que surge o Movimento pelas Dunas Livres – um colectivo informal que nasce da necessidade de um conjunto de cidadãos informados de dar voz a estas motivações no debate público e mobilizar a população para pressionar os decisores políticos a agir.

    Defendemos a protecção integral das dunas, que deveriam estar já mais amplamente e assertivamente abrangidas por regimes de protecção da natureza, considerando o conhecimento científico actual. Apelamos à revisão oficial dos planos que regulamentam o ordenamento do território local, bem como a reavaliação do impacto ambiental dos projectos em causa, e à urgência de um programa de levantamento científico da biodiversidade, qualidade dos habitats e do estado de conservação, para que decisões a qualquer nível possam ser tomadas com base em informações actualizadas. Propomos uma suspensão imediata do início das construções de empreendimentos turísticos para além do que existe actualmente – que consideramos ser mais do que suficiente. (Os resorts de ecoturismo continuam a ser resorts. O facto de os impactos ambientais previstos serem menores não faz diferença quando continuam a ser significativos.

    As Avaliações de Impacte Ambiental dos próprios projectos apresentaram por diversas vezes pareceres negativos, ou duvidosos, ou altamente condicionados, ou cujas solicitações são actualmente consideradas não aplicáveis, por serem irrealistas ou publicadas há mais de uma década.) De outra forma, corremos o risco de perder irreversivelmente o património único deste lugar.

    Consideramos que a fruição das praias e natureza envolvente deve ser acessível a todos, sendo que a visita destas praias e habitats de forma sustentável não passa pelo desenvolvimento de um “tecido turístico de luxo” – o modelo de planeamento estratégico em que se tem vindo a basear o ordenamento territorial da orla costeira Sado-Sines e que se apresenta como sendo a única alternativa ao turismo de massas. Antes propomos outros modelos de desenvolvimento que contemplem, por exemplo, o estabelecimento de uma rede de transportes públicos a preços praticáveis para a população geral, a par da sensibilização para comportamentos que respeitem os ecossistemas e a implantação de passadiços que evitem o pisoteio das dunas, ou a revitalização de Setúbal como pólo residencial próximo destes destinos de turismo natural. Acreditamos que soluções de longo prazo, alternativas, são possíveis e merecem ser muito mais profundamente discutidas.

    Identificamos uma evidente necessidade de acção concreta para a proteção das dunas da construcção insustentável – para isso é essencial informar e sensibilizar os cidadãos. Disponibilizamos informação com base em conhecimento científico actual que suporte a acção de todxs os que connosco venham a tomar consciência e participar activamente nas decisões estruturantes de ordenamento do território, que é nosso. Um Movimento, como este, precisa que o máximo de cidadãos informados se lhe junte.

    No passado dia 3 de Julho, mobilizámos cerca de 600 pessoas a participar na consulta pública do Plano de Gestão da Zona Especial de Conservação (ZEC) Comporta/Galé. Estas são áreas protegidas a nível europeu pela Directiva Habitats da Rede Natura 2000. Em Portugal, foram temporariamente designadas como Sítios de Importância Comunitária, e foi dado um prazo para a elaboração dos detalhados planos de gestão que concederia o estatuto de ZEC. Mais uma vez, Portugal falha os prazos e, por pressão europeia, inicia finalmente este processo ao submeter planos de gestão que ficam aquém do expectável, com base em cartografias desatualizadas e com objectivos que não se traduzem em medidas de gestão concretas. São planos de gestão que não gerem, podes ler mais sobre este assunto neste artigo do Público. A Península de Tróia apresenta características ecológicas (habitas e espécies) muito semelhantes às descritas neste plano de gestão, que não a inclui, e assim, os subscritores do nosso parecer, concordaram connosco no apelo à extensão desta área protegida à Península de Tróia e ao melhoramento do seu plano de gestão.

    Enquanto aguardamos os resultados da análise, preparamos já a nossa próxima grande acção. Enviaremos uma carta aberta aos decisores políticos, que tenham algum poder para travar este desastre ambiental, e que poderás subscrever. Será necessário um número significativo de assinantes, para fazer jus ao ambicioso pedido que se advém. Se estiveres a ler este artigo, deixamos-te este apelo. Fica atentx às nossas redes sociais e ajuda esta voz a falar mais alto. Partilha as nossas palavras e subscreve as nossas acções, pois mais virão certamente, pelas Dunas Livres da construção insustentável, para sempre, e pelo investimento num futuro verdadeiramente valioso para as populações locais e vindouras. Vem agir pela defesa de um património de valor incalculável para o Mundo – porque a natureza preservada é o verdadeiro luxo!


    Texto de Movimento Dunas Livres (Facebook | Instagram)


    Versão integral do artigo publicado no JornalMapa, edição #28, Agosto|Outubro 2020.

  • A Cervejaria Galiza e o trabalho da (auto)gestão

    A Cervejaria Galiza e o trabalho da (auto)gestão

    Em finais de 2019, um grupo de trabalhadores de hotelaria da Cervejaria Galiza, no Porto, ocupou o restaurante e assumiu a sua gestão. O MAPA falou com António Ferreira, membro da Comissão de Trabalhadores atualmente responsável pela empresa, sobre o processo que conduziu a esta solução: o que o motivou, as alterações que produziu, as limitações que enfrenta.

    Em finais de 2019, um fenómeno raro, parte de um passado cada vez mais longínquo, aconteceu no Porto, mais propriamente na Cervejaria Galiza. Perante o cenário de encerramento da empresa, e da consequente perda de emprego dos seus trabalhadores, estes organizaram-se e assumiram a gestão do estabelecimento.

    A situação remonta a 2011, altura em que, segundo António Ferreira, trabalhador da Galiza há mais de trinta anos, «viemos depois a saber de um desfalque de cerca de 2 milhões de Euros, dos quais 1 milhão e 800 mil ao Estado, portanto, Segurança Social e Finanças, e, a partir daí, passámos por um período algo conturbado». A tentativa de resolução destes problemas passou então pelo recurso a um Processo Especial de Revitalização (PER), encabeçado por um gestor. Além do pagamento do salário dos trabalhadores a prestações, este plano incluiu o fecho do estabelecimento às segundas-feiras, a alteração dos produtos, «de menor qualidade», e o aumento dos preços praticados: «Nós fomos alertando, porque víamos os clientes a fugir (não estavam habituados a esse tipo de confeção) e ele ia fazendo ouvidos moucos».

    Os parcos resultados alcançados, manifestos no não pagamento do subsídio de natal de 2018, levaram os trabalhadores da Galiza a organizar uma greve em inícios de novembro do ano passado. Poucos dias depois, surgiriam os primeiros sinais da tentativa de encerramento da empresa. «Fizemos greve no sábado, dia 9, e no domingo, trabalhámos normalmente. Na segunda, encerrou. Foi quando eu fiquei alerta. Entretanto, já por volta das cinco e meia da tarde, apareceu um outro colega que também não mora longe. Estivemos a falar os dois, eu disse-lhe que desconfiava, ele disse-me que também estava desconfiado e, então, começámos a revezar-nos no sentido de não estarmos aqui muito tempo. […] Entraram sem nós darmos conta – certamente até nos estariam a ver – e, às nove, nove e dez […] esse colega telefonou-me a dizer: “venha rápido, eles estão cá dentro e já está aqui o fogão à beira da porta e mais umas coisas”».

    A mobilização dos trabalhadores da Galiza (…) viria a impedir a retirada de equipamento por parte dos proprietários

    A mobilização dos trabalhadores da Galiza, em coordenação com o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Hotelaria, Turismo, Restaurantes e Similares do Norte, viria a impedir a retirada de equipamento por parte dos proprietários. «Viemos todos para o local e, quando a entidade patronal percebeu que já havia gente à porta, deixaram de fazer o que estavam a fazer e tentaram sair. […] A partir do momento em que o empregado de escritório, que estava com a entidade patronal, meteu a mão à porta para abrir, a gente ocupou. Não deixámos sair ninguém. […] A advogada tentou que saíssemos, a gente disse que não saía. Ela tentou que a polícia nos pusesse na rua. A polícia, por sua vez, disse que, tratando-se dum problema laboral em que não tinha havido qualquer tipo de violência, ninguém tinha partido nada, não se tinha estragado nada, não podia intervir. Tinha apenas de tomar conta da ocorrência e, de resto, era um problema para nós resolvermos. Ao fim de três horas de negociação, já com o sindicato, a senhora convenceu-se que era melhor haver alguém para tomar conta da casa enquanto a situação não se resolvesse. Nós dissemos logo desde início, mal ocupámos, que íamos pôr tudo no sítio e que, na terça-feira de manhã, o restaurante ia abrir normalmente, porque nós queremos o nosso posto de trabalho e queremos trabalhar».

    cervejaria galiza

    Foi então criada uma comissão de trabalhadores, responsável pela gestão do estabelecimento. O processo não foi fácil. Além do cansaço, derivado das noites passadas no restaurante a salvaguardar o equipamento, os trabalhadores vêem-se obrigados a assumir novas funções, essenciais a uma mínima administração da empresa, com menos pessoal, uma vez que algumas pessoas saíram da empresa. «Eu estou mais ligado à parte das compras e também gerir o pessoal, porque 30 pessoas não é fácil. Há cansaço, a parte psicológica começa a vir ao de cima, às vezes há incompreensões e também é preciso gerir essa parte, chamar as pessoas, falar com elas, tentar compreendê-las e isso é um muito desgastante. […] Depois tinha de me preparar para começar a trabalhar como empregado de mesa e foi um desgaste muito grande. […] Mantivemos aquilo que estava em termos de horários e em termos de funções. Os chefes de cozinha, balcão e mesas têm as funções deles, qualquer alteração tem de ser reportada a nós [comissão de trabalhadores]; não sendo nada importante nós resolvemos, sendo alguma coisa que nos ultrapasse reportamos à entidade patronal.

    A autogestão enquanto resposta isolada no seio de um mercado (…) revela-se incapaz de produzir uma alteração significativa na vida dos seus trabalhadores

    Uma prioridade foi concedida ao pagamento dos valores em dívida, inclusivamente aos próprios trabalhadores, um objetivo cumprido graças às centenas de pessoas que, nos dias seguintes, se dirigiram ao restaurante em solidariedade. «Logo no fim do primeiro mês, pagámos o subsídio de natal de 2018 – a solidariedade foi muito grande, a faturação quase duplicou – e o mês de Outubro na totalidade, pela primeira vez ao fim de muitos anos. O mês seguinte, a mesma coisa: o mês de Dezembro correu bem. Pagámos o mês de Dezembro, pagámos o subsídio de natal de 2019, e ainda ficámos com alguns ativos. Também entregámos dinheiro à entidade patronal: do dinheiro que ia sobrando; a gente fazia a gestão ficando com uma determinada quantia para as compras seguintes, e para aquilo que ia aparecendo, e fomos entregando em tranches o que sobrou, uma vez que era preciso pagar a advogados, era preciso pagar ao senhorio […]. Vamos agora, no dia 30, pagar o ordenado de Janeiro.

    Inicialmente, o objetivo da comissão de trabalhadores apontava para a criação de uma cooperativa, «três ou quatro elementos ficarem com isto e, depois, entre todos, criamos aqui um ambiente mais familiar, entre colegas que se conhecem há muitos anos. Isso seria o ideal, mas penso que, infelizmente, é impossível […] Mesmo com uma negociação de 150 meses com a Segurança Social,que é possível fazer, nós teríamos um pagamento mensal de cerca de 11.000 euros, mas depois tínhamos o problema das finanças. […] Acaba por ser complicado, porque pedir a pessoas com 30 ou 40 anos de casa uma mudança ou outra de horário para ajustar… Nem tentámos isso, mantivemos tudo como estava, porque já bastava a pressão do dia-a-dia e estarmos a criar outro tipo de conflito só ia complicar as coisas. É pena o montante da dívida ser tão grande. Se não fosse tão grande, sermos nós a ficar com isto, se calhar, seria um caso a pensar. Sendo assim, é uma responsabilidade muito grande».

    O montante em dívida conduz a que as esperanças dos trabalhadores se depositem no interesse de novos investidores, fruto do processo de mediação entre comissão de trabalhadores, sindicato, entidade patronal e Instituto de Apoio às Pequenas e Médias Empresas e à Inovação (IAPMEI).

    Ao mesmo tempo, a ocupação e autogestão não deixam de revelar um poder dos trabalhadores, a prova real de que é possível produzir sem mandar, nem obedecer, constituindo uma tática eficaz na luta contra o desemprego.

    À primeira vista, as possibilidades em cima da mesa parecem ser pouco auspiciosas, dado que o cenário possível é o da revitalização do restaurante por uma nova empresa, garantindo-se desta forma a manutenção dos empregos. Porém, o próprio relato de António Ferreira não deixa de apontar os limites de uma solução que passasse por uma cooperativa gerida pelos próprios trabalhadores.

    A avaliar por exemplos passados [ref] Sobre a experiência de autogestão durante os anos de 1974 e 1975 ver a obra O Futuro era Agora: O Movimento Popular do 25 de Abril (AAVV, 1994, Edições Dinossauro).[/ref], a autogestão enquanto resposta isolada no seio de um mercado, com os seus devidos concorrentes e fornecedores, revela-se incapaz de produzir uma alteração significativa na vida dos seus trabalhadores, chegando mesmo a aumentar o seu trabalho. Ao mesmo tempo, a ocupação e autogestão não deixam de revelar um poder dos trabalhadores, a prova real de que é possível produzir sem mandar, nem obedecer, constituindo uma tática eficaz na luta contra o desemprego.

     


    Texto de ZNM [babyfacesilva@gmail.com]
    Ilustração de  Catarina Santos


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #26, Fevereiro|Abril 2020.

  • Ocupação em tempos de pandemia

    Ocupação em tempos de pandemia

    A pandemia de Covid-19 tem, por um lado, aprofundado desigualdades sociais e situações de exploração económica, mas, por outro, servido de alavanca para uma série de experiências e práticas de liberdade e autonomia. Um destes casos é a ocupação de casas, que ressurgiu na decorrência do súbito corte nos salários, da burocratização e demora dos apoios institucionais, bem como da inexistência de estruturas habitacionais facilmente disponíveis para quem delas carece. No entanto, alguns destes projetos de ocupação em Lisboa, Setúbal e Algés têm sido objeto de tentativas de despejo, e algumas logradas.

    O caso com maior repercussão pública foi o da SEARA- Centro de Apoio Mútuo de Santa Bárbara, prédio ocupado em Lisboa que servia de acolhimento a pessoas em situação de sem-abrigo ou precariedade, onde podiam satisfazer necessidades do dia-a-dia dificultadas pela pandemia como tomar banho, lavar a roupa, ter acesso a pontos de eletricidade ou simplesmente sentir calor humano face ao isolamento estatuído ou usufruir conforto. Um fundo imobiliário internacional, detentor do prédio, contratou uma empresa de segurança privada para expulsar os habitantes. No dia 8 de Junho milhares de pessoas manifestaram-se contra o recurso à justiça privada com a conivência institucional, assim como contra a repressão policial, que marcaram o desterrar desta semente que germinara no coração da cidade.

    A Alternadora é uma ocupação em Setúbal, que se define como um «espaço gerido por um coletivo de amigxs que por vezes organizam atividades abertas ao mundo exterior». Nos últimos tempos tem sido alvo de pressões por parte de um indivíduo que se intitula como o novo arrendatário do espaço e que tem sido apoiado por um grupo de homens. A polícia presenciou algumas das situações, sufragando por vezes os agressores que, na última vez, arrombaram o portão com uma carrinha e depois levaram-no com eles. No lado oposto da cidade sadina, na subida para a Baixa de Palmela, uma casa inserida numa propriedade com armazéns e terreno foi ocupada no início do confinamento. Após uma contestação inicial dos proprietários, em que a polícia ficou sensível aos motivos alegados pelo pequeno grupo de novos habitantes, a estratégia passou a ser de intimidação, incluindo armas de fogo e aposição de cadeado. O fim do confinamento e a pressão e ameaças crescentes determinaram o abandono da casa.

    Voltando à capital, durante o confinamento obrigatório, um prédio chegou a albergar trinta pessoas, maioritariamente artistas de rua. Em Junho o proprietário deu um prazo para saírem, prorrogando-o pois muitas pessoas não conseguiam encontrar teto. No fim, a entrada do edifício foi barrada com uma porta em ferro. Noutra colina de Lisboa um hostel que tinha deixado de ser explorado foi ocupado. Durante o mês de Julho, uma funcionária da proprietária convenceu a polícia a deslocar-se ao local alegando que ali estaria a ser cometido um crime grave. Seis patrulhas procederam à detenção e encaminhamento para a esquadra dos sete ocupantes que acabaram por ser libertados com a obrigação de se apresentarem no tribunal no dia seguinte. Ali, o ministério público suspendeu provisoriamente o processo mediante o pagamento de uma multa de 300€ a cada um dos expulsos.

    Finalmente, em Algés a quinta de S. José, onde se insere um convento que remonta à época medieval reconhecido como património cultural cujo acesso esteve aberto à população no passado. Também detido por um fundo imobiliário internacional, que conseguiu uma polémica aprovação pelo município de um projeto de condomínio privado, a pressão para a saída do espaço rapidamente se manifestou assim que tomaram conhecimento da ocupação por um grupo maioritariamente constituído por mulheres. Apesar destas terem salvaguardado a degradação do edifício em que residiam, obtido o reconhecimento dos vizinhos e construído um forno de cerâmica, em início de Julho sob forte pressão do fundo foram impelidas a sair da quinta.

    Em comum, estes casos têm o facto do despejo não ter sido determinado judicialmente e executado pelas forças de autoridade, sendo levado a cabo por empresas de segurança privada ou outros trabalhadores, assumindo funções para as quais não estão habilitados e que carecem de cobertura legal.

    De notar que é frequente a presença de pessoas sem a situação administrativa regularizada e que, perante o risco de serem identificadas pelas autoridades e o receio de verem a sua situação documental prejudicada, preferem sair da casa.

    Estes episódios são exemplificativos de uma realidade muito mais extensa e profunda no âmbito dos quais se atenta contra os mais elementares valores éticos, humanos e de solidariedade, sendo por isso objecto de regulação desde o nível internacional ao local. Neste particular, atente-se à recente Lei de Bases da Habitação, nomeadamente ao disposto no seu artigo 13º, com a epígrafe “Protecção e Acompanhamento no Despejo”. A gravidade destes atropelos, designadamente ao serem perpetrados em circunstâncias de especial e pública vulnerabilidade, merecem uma reflexão alargada com vista à identificação de medidas e ao delineamento de estratégias que salvaguardem e garantam uma ocupação segura e estável.


    Texto de André Silvestre


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #28, Agosto|Outubro 2020.

  • Estamos juntos, estamos fortes

    Estamos juntos, estamos fortes

    Nos bairros da periferia de Lisboa a solidariedade auto-organizada existe desde antes da pandemia. Nestas comunidades, já antes confinadas em territórios de exclusão e conflito, nasceram redes de entreajuda como a Nu Sta Djunto, que agora no Casal de São Brás (Amadora) dinamizou um ponto solidário de recolha e distribuição de bens alimentares.

    Quando a pandemia e o estado de emergência assolou Susana, uma das pessoas que faz parte da Nu Sta Djunto (NSD), um movimento informal de entreajuda nos bairros periféricos da grande Lisboa, rapidamente procurou actuar, com uma certeza adquirida nos oito anos do colectivo: «não estávamos a reagir, não fomos apanhados na curva, já andávamos a fazer as coisas e já tínhamos uma resposta concreta, e foi só reforçá-la, foi só enquadrá-la». De imediato ligou para o Sinho, do Casal de São Brás, mais conhecido como Boba, na periferia da Amadora: «Ei, continuamos a estar juntos, e imagino que agora aí se estejam a acentuar as necessidades e que seja preciso actuar…» A resposta já estava em marcha e veio nas palavras de Sinho: «Sim, mana, estamos aqui, vamos agora reunir na associação de moradores e já estamos aí alerta e organizados para agir, porque, sim, a necessidade está a crescer».

    O Ponto Solidário da Boba

    O próprio Sinho, como é conhecido José Baessa De Pina, explicou ao Jornal MAPA como nasceu o Ponto Solidário da Associação dos Cavaleiros de São Brás. «Fazendo parte do Nu Sta Djunto, esta é uma iniciativa que venho fazendo desde há muito tempo com vários membros da comunidade e de fora da comunidade. Achei que era muito importante neste momento termos uma rede na comunidade a combater esta situação, por isso desafiei as associações que trabalham na comunidade da Boba: a Associação Efeito Dominó, Associação Desportiva da Amadora, Associação Cavaleiros de São Brás e o Boba Studio. Como eles trabalham todos com crianças e conhecem a realidade de cada uma delas, foi um bom ponto de partida para saber quais são as verdadeiras dificuldades na comunidade. Também já tínhamos uma lista de pessoas que precisam de apoio, uma lista desde o tempo do NSD, já sinalizadas por mim, pelo Boss e por outra malta do NSD. Não foi muito difícil, porque já tinha uma estrutura e muitas pessoas e voluntários: logo que a iniciativa avançou, eles chegaram logo à frente.» Ao grupo de voluntários do Nu Sta Djuntu Boba, junto com as associações acima, a rede de partilha e de donativos rapidamente se estendeu a gente anónima e a outras associações e colectivos, como a Associação Passa Sabi, Mira Ativa, o Moinho da Juventude, a SOS Racismo, a Campanha Anti Racista de Apoio Imediato Lisboa, a Djass Afrodescendentes e a Nasce Renasce.

    Na Boba, o ponto solidário auto-organizado, «é dirigida mesmo a quem não tem os alimentos básicos para ter numa casa. A essa pessoa é necessário logo o apoio. Temos famílias numerosas, com o problema agora do lay off muitos estão em casa, pois tivemos que sinalizar pessoas que até tinham trabalho, mas agora não têm. Começámos a campanha no dia 21 (de Abril) e até agora tivemos que acompanhar muitas famílias que até têm pessoas a trabalhar, mas com o lay off, as restrições e o confinamento, tivemos que apoiar várias famílias que não estávamos habituados a apoiar, porque não estavam sinalizadas». Essa procura aumentou e extravasou a comunidade do bairro. «Houve bastante procura de várias famílias e nós também estendemos a rede a outras comunidades, pois começamos já a ver que o problema não é só dentro da comunidade, também fora da comunidade. Nos arredores de São Brás, Casal da Mira, Casal da Serra da Mina, Casal de Cambra, Reboleira… E começamos a criar redes de contactos entre amigos de várias comunidades que sinalizam as próprias famílias de cada comunidade, e tem sido fácil. Tem tido muita procura, mas nós também só conseguimos dar aquilo que temos, portanto vamos fazendo aquilo que a gente pode».

    A iniciativa foi voluntária, uma resposta natural posta em marcha e que nos bairros periféricos de Lisboa se soma ao trabalho desenvolvido por associações que são verdadeiros faróis das comunidades, como é, também na Amadora, o caso da Associação do Moinho da Juventude, na Cova da Moura. Esta associação é hoje uma reconhecida instituição de solidariedade social, que nasceu nesse bairro há 30 anos e que, inserida na rede de emergência alimentar da Segurança Social, é responsável por uma cantina social, que fornece refeições gratuitas, e que agora se viu a braços com escassos recursos e apoios para a tamanha e elevada procura como a que situação do Covid-19 despoletou.

    No ponto solidário que nasceu por mão dos moradores da Boba, como nos relata Sinho, «a organização é voluntária, cada um faz o que pode, onde pode: divulgação, partilhas nas redes sociais e temos um espaço físico onde podem lá levar os alimentos não perecíveis, para separarmos e fazermos o cabaz. Temos grupos voluntários que se oferecem para levar os cabazes às famílias que nos vão pedindo de fora da comunidade, por exemplo Odivelas, Agualva-Cacém, Queluz, Reboleira».

    Ao mesmo tempo, a par do aumento de procura da ajuda, a vivência em tempos de pandemia nestes bairros tem acentuado ainda a posição de exclusão e conflito a que estes territórios e comunidades já se viam confinados. Quando perguntámos, então, em estado de emergência, que problemas estavam a vivenciar por causa das restrições impostas, Sinho reiterou a realidade que vem sempre ao de cima nestas comunidades: «o que eu tenho sentido é que há maior repressão policial; há pouca informação por parte do Estado sobre prevenção, cuidados; e quando a polícia chega é mesmo para repreender: com cassetete na mão, a instigar problemas, mais entre a classe juvenil, que se encontra na rua de vez em quando a algumas horas da tarde. E a polícia, de vez em quando, vem  com algumas atitudes que para mim não é de sensibilização. É mais a repressão, o que não fazem em outros sítios em que tem havido vários delitos de comportamento da quarentena, e onde, na comunidade, eles têm outra abordagem para com o cidadão. Tenho visto aqui alguns vídeos a passar na comunidade da Cova da Moura, de Vale de Cambra, e vê-se que a atitude é de repressão, e com alguma violência gratuita.»

    Nu Sta Djunto Li Kê Terra, 2017

    Uma tomada de posição

    Garras, com quem, junto com Susana, falámos acerca da história do Nu Sta Djunto, um colectivo de entreajuda que não precisou de uma pandemia para nascer, sentiu-se pessoalmente recompensado quando falou com Sinho: percebeu que as coisas já estavam todas em andamento. A organização de eventos, e falamos de concertos de Hip-Hop, tem sido a face mais visível deste colectivo, que nesses momentos angaria comida e outros bens para os bairros por onde vão passando. Para Garras, «sempre que fazemos coisas estamos a criar sementes também. E quando as pessoas experimentam qualquer coisa e vêem que resulta, depois aplicam-na em vários momentos da sua vida. Sinto que, às tantas, temos estado estes oito anos a fazer determinadas coisas que possam ter surgido também como sementes que germinam facilmente numa fase destas», como ali na Boba e em muitos bairros à volta da Amadora. «Ao termos experimentado, antes e em determinados locais, essa confiança, de que é possível e de que somos capazes de o fazer, enquanto moradores do bairro e enquanto pessoas sensíveis ao assunto, acaba por ainda surgir mais facilmente».

    A história do NSD «surge num cruzamento entre anarquistas e rappers, eles também anarquistas mas de descendência cabo-verdiana e que vivem na periferia de Lisboa, pegando um bocado na ferramenta do rap como forma de ser solidário e de conseguir criar uma estrutura de entreajuda em determinados bairros, e que depois se foi alargando a mais e mais bairros. Esta estrutura seria sempre de apoio mútuo, com a participação de todas as pessoas: as pessoas que poderiam receber ajuda também participavam de alguma forma, nos eventos, nas distribuições ou nas recolhas. A ideia era ser todo um processo horizontal.» Tudo começa «entre pessoas que estão de uma maneira ou outra dentro dos bairros, dentro das periferias, e surge naturalmente por haver o contacto direto com estas necessidades, mas também com estas dependências das estruturas institucionais.»

    Para Susana, o NSD é uma tomada de posição «partindo de uma análise em que sentimos que há um diálogo entre as estruturas sociais do Estado, que é hierárquico e que pressupõe a manutenção da dependência. É um diálogo que pede sempre algo em troca, de quem usufrui de determinado serviço. E querendo aqui dar resposta a necessidades muito básicas – e esse é o ponto de partida – aquilo que faz é uma tomada de posição, encontrando na autonomia e na horizontalidade uma resposta criativa e directa: a estarmos organizados entre nós e autonomamente. Reconhecendo também que as políticas sociais e do estado continuam sempre a deixar muitas pessoas à margem, porque de uma forma ou outra não se enquadram naquilo que são os pressupostos e aquilo que o sistema impõe».

    Foi, pois, refere Garras, «dentro desse espaço de análise dessa dinâmica institucional e dessa dependência, e na capacidade de a questionar e de criar alternativas, que surge o NSD. Esta questão do rap crioulo é uma fórmula de luta, uma expressão artística que surge como forma de criar eventos em que se mistura a cultura com a luta e com a solidariedade. E isto é aqui uma base, uma base que é bastante ideológica, que toca a vários pontos-base também, a várias necessidades básicas, mas é bastante ideológico na forma de organização e naquilo que são os valores que para nós são anarquistas». O que, como prossegue Susana, «são assentes na horizontalidade, na autogestão». Uma tomada de posição ideológica, mas na verdade «bastante espontânea, sempre assente numa comunicação, nas relações entre diferentes bairros e das pessoas que lá eram, os rappers sobretudo». A «coisa foi crescendo a partir daí, a partir do contacto directo com as pessoas e estando nos bairros numa relação direta e horizontal, em que as relações se iam estabelecendo, as necessidades iam-se conhecendo e as respostas também iam surgindo de uma forma espontânea, criativa, autónoma e horizontal. E, sim, é sobretudo uma tomada de posição, uma resposta para a vida, porque estávamos a actuar sobre o quotidiano.» Para o NSD «é nos buracos que o sistema deixava que nós nos posicionávamos e nos fortalecíamos, era na resposta a essas coisas que organizávamos a nossa ação»

    E uma vez imersos no tempo da pandemia, Susana salienta-nos que «a partir daí foi ter a certeza de que isto é só uma situação em que a necessidade se acentua, porque os buracos do sistema, o sistema vive deles, e numa situação destas só crescem, ou o buraco fica maior. Então, é ter a certeza de que os valores e as práticas do apoio mútuo, da horizontalidade e da autonomia têm de ser uma resposta quotidiana nossa, enquanto anarquistas, que nos posicionamos contra determinado modelo, contra este sistema que teima.» Esta perceção vai por sua vez ao encontro da dinâmica dos bairros, quando em «contactos com malta ativa nos bairros se percebeu que as coisas lá já estavam a acontecer». «Quando a necessidade é grande, e nos bairros isso acontece muito, estas respostas fora do sistema, criativas, e estas tomadas de posição são coisas que fazem parte do ADN dos bairros. E é isso que o próprio sistema ensaia de querer aniquilar, são todas essas respostas que metem medo ao Estado, e é isso que pode criar laços importantes entre nós e estes territórios.»

     

    Nu Sta Djunto

    Estamos todos juntos

    Nos últimos meses repetido até à exaustão, o lema do Nu Sta Djunto – Estamos Juntos –, tem perdido o verdadeiro sentido, quando ecoado por políticos e pivots de telejornais. Essa perda deliberada de sentido tem guiado o Jornal MAPA a perguntar, às várias iniciativas que abordamos na série #PandemiaSolidária, o significado de «solidariedade», tantas vezes confundida com «caridade» e «assistencialismo».

    Para Garras «na verdade todas as estruturas de ajuda que vem por parte do Estado e das instituições acabam por ser uma relação de poder e unilateral, e aí sim, de caridade. É para mim aí a grande diferença entre caridade e solidariedade. A solidariedade surge de igual para igual, entre mim e ti, e de ti para mim, e colada necessariamente com estes valores de entreajuda e apoio mútuo; enquanto a caridade é uma relação de poder, que vem das instituições, que é unilateral e que perpetua uma relação de dependência. Nesse sentido, NSD surge como uma forma de contrariar essa dinâmica e de propor uma outra forma de organização, e uma forma de organização que não depende de estados, de poderes institucionais ou de qualquer tipo de poder, e que surge de uma forma horizontal, de uma forma de nos entreajudarmos nas nossas necessidades mais básicas e não só, de criarmos rede, de criarmos comunidade, de criarmos uma forma de vida mais conjunta, mais colectiva».

    Como acentua Susana «não há aqui esta relação entre quem é privilegiado e quem não é, quem está em necessidade e quem não está: existem pessoas que reconhecem os problemas e decidem posicionar-se perante eles. Não há aqui uma relação hierárquica: há uma horizontalidade nas decisões e nas acções. Não há um perpetuar de um diálogo hierárquico: para teres determinada ajuda tens de te enquadrar naquilo que o Estado define enquanto percurso de um bom ou de uma boa cidadã. Não se trata desse diálogo, frequente, das estruturas sociais para com as pessoas: trata-se sim de uma resposta autónoma que pretende também, mais do que uma cena pontual, que possa ter uma resposta contínua para suprir determinadas necessidades. Ou seja, não pressupõe aqui o assistencialismo directo. Não, tem um valor e uma ação muito maior, e o nome vai ao encontro disso: é o Estarmos Juntos para nos entreajudarmos e para nos posicionarmos. Não é essa questão de estarmos passivos e à espera de ajuda de quem está por cima. Não, damos a mão e seguimos em frente, no nosso caminho, autonomamente.»

    Uma outra dimensão de solidariedade, afasta-a, segundo Garras, da caridade: «Para mim a solidariedade está muito ligada com processos de luta. A vida de uma mãe solteira afro-descendente que vive na Europa, que tem trabalhos precários, que vive num bairro social, esta mulher, esta pessoa está em luta. Na nossa vida, esta organização por classes, a relação centro da cidade, periferia da cidade, isto é uma luta, isto cria desigualdade, cria barreiras; a violência policial nos bairros, a violência policial contra movimentos que se oponham ao estabelecido, isto é tudo uma luta. E, como nós nos entreajudamos, nós estamos a ser solidários nesta luta, a esta vida que nos impõem, a esta forma de organização que nos impõem. Estarmos juntos uns com outros e entreajudarmo-nos nas bases, isso para mim é solidariedade com quem está em luta. Por outro lado, assistencialismo é um conceito que está ligado aos assistentes sociais, a esta resposta do Estado, a essa relação de dependência perpetuada que tem o interesse que seja assim. É por isso também que os bairros de auto-construção são comunidades completamente paralelas ao que está estabelecido e que acabam por ter estruturas realmente de entreajuda, que acabam por ter estruturas  que substituem e opõem-se aquilo que é imposto, seja a rede de alimentação, à rede de luz, à rede de saneamento e higiene, à rede de saúde. Às pessoas estarem umas para as outras, em vez de comprarem ou prestarem serviços. Tudo isto, aos olhos do Estado, tem de ser destruído, e por isso é que estes bairros de auto-construção estão todos a ser dizimados e as pessoas são colocadas em bairros sociais onde as pessoas são muito mais facilmente isoladas e controladas, um bocado nesta perspectiva de dividir para conquistar. O assistencialismo surge nessa tentativa de destruição destas estruturas. A solidariedade surge para fortalecer e para tornar possível estas bases destas comunidades; e surge como necessidade óbvia para que estas comunidades funcionem.»

    Por isso, Sinho espera «que essa iniciativa, todos os movimentos do Casal da Boba e não só, todos os movimentos que têm participado nessas iniciativas em rede, o Moinho da Juventude, Associação Passa Sabi, a Djass Afrodescendentes, todos esses movimentos  que ajudam no silêncio, que  continuemos com essa rede de partilha e de solidariedade, que acompanhem essa situação, não só alimentar: há vários outros problemas – medicamentos, habitação, educação – que vamos ter de acompanhar. Em rede acredito que podemos colmatar alguns problemas. Nós não queremos fazer o papel de Estado, nos não somos o Estado, mas não podemos virar a cara a esse problema que é real, que está à nossa frente, e não podemos ficar indiferentes a essa situação.»

     


    Ponto Solidário da Associação dos Cavaleiros de São Brás

    Podes entregar bens alimentares perecíveis na Associação Cavaleiros de São Brás – Rua Jacinto Baptista, n.º 4 A; Casal da Boba Amadora – ou fazendo um donativo para a Associação Desportiva da Amadora: IBAN PT50 0033 0000 45512980934 05.

    Estamos juntos, estamos fortes.  Nu sta djunto, Nu sta forti.

     


    Este artigo faz parte da série #PandemiaSolidária.

     

     

    ***

    Assina o Mapa
    Assina o Mapa

     

  • A «tragédia grega» da UE no Mediterrâneo

    A «tragédia grega» da UE no Mediterrâneo

    A União Europeia (UE) tem, neste momento, três operações no Mediterrâneo. A da parte oriental chama-se Poseidon e pretende vigiar a fronteira marítima entre a Turquia e a Grécia. No Mediterrâneo central, o seu nome é Themis e serve, acima de tudo, para apoiar Itália na vigilância das suas fronteiras. Das três missões, é a única que tem o salvamento de migrantes em perigo como um dos objectivo primordiais e isso acaba por se reflectir no número de resgates que efectuou, que é muito maior do que o que conseguiram as outras missões. Finalmente a terceira, que dá pelo nome de Indalo e actua no Mediterrâneo ocidental, orienta-se sobretudo para o apoio ao Estado Espanhol na vigilância das suas fronteiras (principalmente) com Marrocos.

    Até 31 de Maio de 2015, existiu ainda a operação Triton, substituída em Junho pela operação Sophia, que nasceu para «acabar com o modelo de negócio dos passadores e traficantes de seres humanos no Mediterrâneo» e que se manteve activa até ao passado dia 31 de Março. O seu foco saía oficialmente do território europeu, largava a mera «vigilância de fronteiras», para se centrar em território norte-africano, na Líbia, abraçando o trabalho policial de detecção e destruição de alegadas redes de traficantes e seus respectivos instrumentos de crime.

    A partir da operação Sophia, o resgate de migrantes em perigo passou a ser um efeito secundário de uma outra acção que pretendia, acima de tudo, que não se lançassem sequer ao mar. Em alternativa, o «programa de financiamento da União Europeia permite que a guarda-costeira líbia pegue nos migrantes e refugiados resgatados no mar e os reenvie ilegalmente para o país, que tem um sistema de detenção onde é sabido que se praticam tráfico, tortura e escravatura», disse Valentina Azarova, jurista da Rede Global de Acção Legal, em entrevista à Euronews. O número de migrantes que resgatou é, por isso e sem surpresa, muito menor do que o das outras operações marítimas da UE. O resultado foi, aliás, como já demos conta em edições anteriores do Jornal Mapa, nada mais do que um crescimento paralelo da letalidade da rota e dos seus preços.

    De qualquer das formas, todas as missões que, há mais ou menos uma década, patrulham o Mediterrâneo partem de uma lógica que, de uma forma ou de outra, tem sempre que ver com migrações. Independentemente da agenda que se possa encontrar por trás de cada légua percorrida pelos vários navios europeus, a razão oficial de ali estarem tem tido sempre a gestão de fluxos migratórios como ponto de partida.

    Isso acabou.

    Contextualizemos

    A forma de a questão líbia ser encarada no ocidente tem o seu quê de comédia. Se à luta entre Kadhafi e as várias oposições que nasceram da onda de protestos populares de 2011 se chamou «guerra civil», neste momento, aos combates entre várias facções e as novas forças de segurança do Estado chama-se «conflito interno». Nos últimos tempos, este conflito agravou-se, com o general líbio Chalifa Haftar, um dos senhores da guerra, a rasgar, há pouco, o acordo de partilha de poder da ONU de 2015 e a abandonar as tentativas de tréguas mediadas pela comunidade internacional.

    O tempo parece perfeito para uma nova missão naval, ou melhor, para a substituição da missão que privilegia as relações com a Líbia. No seguimento da Conferência de Berlim sobre a Líbia, de 19 de Janeiro de 2020, e de muitas discussões posteriores, a operação Sophia morria e nascia, então, a operação Irini. O discurso oficial explica-a com poucos rodeios: «A Irini terá por missão essencial a aplicação do embargo ao armamento imposto pela ONU, através da utilização de meios aéreos, de satélite e marítimos. A missão poderá, em especial, inspeccionar navios no alto mar ao largo da costa da Líbia que se suspeite transportarem armamento ou material relacionado com origem ou destino na Líbia». O mandato inicial da Operação Irini, nome da deusa grega que simboliza a paz, durará até 31 de Março de 2021. Poderá, ou não, ser alargado no tempo.

    A Irini terá ainda, como missões secundárias, «vigiar e recolher informações sobre exportações ilícitas de petróleo» e «contribuir para o reforço das capacidades e formação da guarda costeira e da marinha líbias para a execução de tarefas associadas à aplicação da lei no mar». Há referências ao combate ao tráfico humano, mas os planos operacionais são confidenciais e os pormenores não existem. Os documentos públicos não definem a colocação posterior dos refugiados que venham a ser recolhidos pelos barcos da operação Irini, o que causa fundadas preocupações quanto ao privilegiar do mecanismo da deportação imediata. De facto, Malta já fez saber que, se esta questão não for decidida (a seu contento), bloqueia a missão.

    Se, no final de contas e tal como aconteceu com a operação Sophia, o desfecho resultar no aumento de mortes tanto na própria Líbia quanto na travessia mediterrânica ou no processo de «devolução» forçada de migrantes para a Líbia, logo se verá. «Só poderemos avaliar a eficácia quando a operação estiver a decorrer», afirmou Nathalie Loiseau, eurodeputada francesa no grupo liberal. Brincar com vidas humanas é realmente coisa para habitantes do Olimpo. Talvez por isso as missões navais da UE tenham nomes de divindades da Grécia antiga – para trazer ares de cultura clássica à igualmente clássica tragédia dos migrantes que os deuses vêem como comédia.

     

    A paz é a guerra

    Nem todos os países da UE participam nesta missão (Portugal participa com quatro militares da Marinha e da Força Aérea) e, mantendo o tom clássico, poderíamos até ser levados a dizer que as negociações que deram origem à Irini mais depressa deveriam ter resultado no baptismo de Éris, a deusa que os gregos guardavam para a discórdia. Uma discórdia provocada por uma espécie de Atena invertida, pelo que se depreende do que nos diz o site da Euronews: «Os governos da Hungria e da Áustria argumentam que a missão Irini poderá ser usada, indevidamente, para resgatar migrantes e requerentes de asilo em perigo no mar Mediterrâneo, já que existe essa obrigatoriedade na lei internacional.»

    Uma «sabedoria» que acabou vertida na decisão oficial do Conselho Europeu sobre a operação Irini. Um estado membro pode, individualmente, fazer com que a frota abandone uma determinada área marítima de forma imediata e durante até oito dias. Há países que pretendem, com esta salvaguarda, evitar novas operações de resgate de migrantes no futuro, exigindo a retirada urgente se tal estiver a acontecer. Surge, nesse sentido, em pleno documento oficial, a expressão «efeito de atracção», que sugere que a existência de capacidade de salvamento no mar – que a Irini tem – leva os migrantes a escolher locais que passem por onde haja essa capacidade. Uma teoria sem qualquer base provatória, que é amplamente refutada e que tem envenenado o debate institucional sobre resgates no mar.

    Pela primeira vez, uma missão da UE no Mediterrâneo assume um carácter exclusivamente militar e considera a título oficial que resgatar migrantes em perigo é uma consequência incomodativa e indesejada da lei internacional. Uma escalada militar que faz parecer a operação Sophia um ritual iniciático para aprendizes de Ares. A mesma UE que arma e treina uma das partes do conflito que ajudou a criar há nove anos militariza agora o Mediterrâneo para garantir um embargo de armas que, em nove anos, nunca foi mais do que disfuncional, utilizando para isso o nome de uma deusa ligada à ideia de paz. Uma esquizofrenia que faz jus às referências à Grécia clássica, não fosse ela própria pejada de deuses, também eles, pouco menos do que esquizofrénicos. No final da farsa, Irini é, afinal, uma espécie de Perséfone, a guardiã dos mortos.

     


     

    Assina o Mapa
    Assina o Mapa
  • «A missão é bloquear isto nesta geração»

    «A missão é bloquear isto nesta geração»

    No Jornal MAPA anterior, a actualização do processo de luta contra a mineração acabava a 25 de Janeiro, com a manifestação em Montalegre. Neste número continuamos a informar sobre os passos que essa luta tem dado desde então. Um luta que, apesar do distanciamento individual, não entrou em quarentena.

    Em Janeiro, o Secretário de Estado Adjunto e da Energia, João Galamba, anunciava para o mês seguinte um «roteiro de apresentação da nova lei das minas», que previa reuniões à porta fechada com as autarquias afectadas. No Minho, o Movimento SOS Serra d’Arga antecipou-se e, logo a 30 de Janeiro, iniciou, em Ponte de Lima, o seu próprio roteiro de conversas com as cinco Câmaras Municipais onde se insere a Serra d’Arga, uma roda de conversas que terminaria a 12 de Fevereiro, em Viana do Castelo. Era uma forma de saber a posição exacta de cada executivo camarário e, ao mesmo tempo, de colocar alguma pressão que resultasse numa resposta negativa aquando da anunciada (mas não cumprida, como veremos) visita de Galamba.

    Em Ponte de Lima, o autarca Victor Mendes reafirmou a «oposição da autarquia a todos os projectos de prospecção e exploração de lítio». Caminha afirmou que não aceita a mineração em «áreas protegidas ou a proteger», o que pode ser visto como falta de vontade de se comprometer com um rotundo «não» para a generalidade dos territórios que estão sob a sua alçada. Da reunião com o presidente da Câmara de Vila Nova de Cerveira saiu um comunicado conjunto, em forma de «nota de imprensa», de clara oposição ao projecto mineiro, numa «área [que] tem memória histórica com o exemplo de Covas», onde «ainda hoje se vivem as consequências nefastas da mineração realizada no século passado». O presidente da Câmara de Paredes de Coura foi categórico em defender que o caminho será sempre o da conservação e requalificação do território e nunca o da exploração mineira. Em Viana do Castelo, o Movimento SOS Serra d’Arga foi recebido pelo vereador do Planeamento, Gestão Urbanística, Desenvolvimento Económico, Mobilidade e Coesão Territorial, Luís Nobre, devido à ausência do presidente da Câmara, que se encontrava em Bruxelas a participar no Comité das Regiões. De acordo com Carlos Seixas, porta-voz do Movimento, o vereador Luís Nobre afirmou ter existido «falta de objectividade e rigor nos pedidos de prospecção e exploração de minerais que chegaram, em Julho, à Câmara Municipal» e que «a mesma falta de objectividade e rigor coloca-se em relação à definição da área da Serra d’Arga que irá a concurso público. Nessa medida, referiu que a Câmara Municipal só podia ser contra o projecto».

    De qualquer forma, sabia-se já que, para além dos contratos anteriormente anunciados em Montalegre e Boticas, seriam abrangidas nove áreas. A saber: Serra d’Arga, Barro/Alvão, Seixo/Vieira, Almendra, Barca Dalva/Canhão, Argemela, Guarda, Segura e Maçoeira. O mapa de todas estas áreas pode ser consultado em miningwatch.pt.

     

    Galamba não foi a Viana…

    Para 15 de Fevereiro, data prevista para que João Galamba fosse a Viana do Castelo para o tal roteiro de apresentação dos princípios base da nova lei das minas junto das autarquias envolvidas, cinco movimentos[ref]Movimento SOS Serra d’Arga; Corema – Associação de Defesa do Património/Movimento de Defesa do Ambiente e Património do Alto Minho; SOS Terras do Cávado; SOS Serra da Cabreira; Em Defesa da Serra da Peneda e do Soajo.[/ref] convocaram um protesto que visava «exigir ao governo respeito pelos cidadãos». «Os efeitos calamitosos dos projectos de mineração a céu aberto na Serra d’Arga e restantes áreas do Minho com que pretendem esventrar o território e pôr em causa, de forma irreversível, a qualidade de vida das populações não são negociáveis nem, tão-pouco, objecto de medidas de compensação e de minimização. Queremos dizer que na Serra d’Arga não se fará nem um furo. Queremos dizer que este projecto de mineração não serve. Que o desenvolvimento local não se faz desta forma», afirmou Carlos Seixas.

    Na semana que antecedeu a manifestação de Viana, mais precisamente a 10 de Fevereiro, dezassete associações e movimentos[ref]Associação Guardiões da Serra da Estrela; Associação Montalegre Com Vida; Associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso; CERVAS – Centro de Ecologia, Recuperação e Vigilância de Animais Selvagens; Corema – Associação de Defesa do Património/Movimento de Defesa do Ambiente e Património do Alto Minho; Em Defesa da Serra da Peneda e do Soajo; GAF – Grupo Aprender em Festa; Movimento ContraMineração Beira Serra; Movimento ContraMineração Penalva do Castelo, Mangualde e Sátão; Movimento de Cidadãos por uma Estrela Viva; Movimento de Defesa do Ambiente e Património do Alto-Minho; Movimento Lisboa Contra as Minas; Movimento Não às Minas – Montalegre; Movimento SOS Serra d’Arga; SOS Serra da Cabreira – Bastões ao Alto!; PNB – Povo e Natureza do Barroso; SOS Terras do Cávado.[/ref] entregaram ao Ministério do Ambiente e da Acção Climática (MAAC) um «pedido de transparência pública», manifestando a «sua profunda apreensão relativamente ao procedimento opaco na atribuição de direitos de prospecção, pesquisa e exploração de lítio e minerais associados em vastas áreas do território» e constatando que «a forma de actuar do MAAC não garante informação clara, transparente e abrangente às populações potencialmente afectadas e à sociedade civil em geral.» Este pedido vinha acompanhado de exigências: a divulgação pública dos locais e das datas do roteiro de apresentação às autarquias da nova lei base 54/2015; e a participação pública nas mesmas apresentações, seja por via directa, com participação do público interessado, ou por via indirecta, dando acesso a representantes de movimentos e associações locais e regionais, às ONGs de carácter regional ou nacional, à comunicação social e a outros representantes da sociedade civil.

    Entretanto, na reunião com a Câmara de Viana do Castelo, o Movimento SOS Serra d’Arga foi informado de que Galamba, afinal, não compareceria. Nos dias seguintes, percebeu-se que todo o roteiro tinha sido anulado. Mas a manifestação programada para receber o Secretário de Estado Adjunto e da Energia manteve-se apesar da anunciada ausência do visitante. De demonstração directa de repúdio pelo plano mineiro do governo, a manifestação transformou-se em «festa pela sustentabilidade ambiental, pela defesa da nossa região, da nossa água, dos nossos terrenos agrícolas, da nossa herança e património», nas palavras de Carlos Seixas. O mesmo que, na manhã de 15 de Fevereiro, no início do protesto, lançou o recado: «Não haverá nem um buraco. Estamos dispostos a ir até onde for necessário. Cada passo que o governo dê, nós estaremos lá.»

     

     

    … mas a mobilização manteve-se

    Mais uma vez, tal como acontecera em Montalegre, na véspera da manifestação de Viana, o jornal Público trazia para a sua primeira página uma notícia potencialmente desmobilizadora, titulando que um «novo projecto de decreto-lei permite a autarquias travar projectos de prospecção de minérios». Ao escolher esse título, escondia o que acabava por dizer no interior da própria notícia: «no caso de concursos públicos, como o do lítio, a posição das câmaras não é vinculativa». Os movimentos convocantes viram a coisa da forma que se pode ver na sua reacção pública do dia 14 de Fevereiro: «As alterações constantes no projecto de decreto-lei do governo, relativas à nova lei da mineração e hoje veiculadas na imprensa, em nada alteram a legislação vigente aplicada ao futuro concurso público de prospecção/exploração de lítio. Os movimentos cívicos que lutam pela defesa do território português contra a especulação e mineração de lítio e de outros recursos minerais consideram que a difusão dessa informação, por parte do governo e neste timing específico, constitui uma tentativa desleal de manipulação da opinião pública sobre todo este processo e de desmobilização dos cidadãos da sua luta, num momento em que se verifica o adensar da mediatização das acções populares. Mais, ilustra a falta de transparência constantemente usada pelas entidades governamentais, reforçando assim os nossos argumentos.»

    No próprio dia da manifestação, o mesmo jornal Público titulava: «Lítio: Boticas, Montalegre e Argemela excluídas do próximo concurso para pesquisa de lítio». Ao escolher esse título, de novo escondia o que acabava por dizer no interior da própria notícia, ou seja, que esses três locais já estão com contratos assinados e um deles até já viu o seu Estudo de Impacto Ambiental (EIA) entregue: «as áreas são excluídas por já terem concessões atribuídas e por se encontrarem ainda em fase de avaliação de impacte ambiental». As populações das zonas referidas viram a coisa da forma que se pode ver na reacção pública subscrita por 6 associações no dia 15 de Fevereiro: «Numa sociedade em que a informação se difunde à velocidade de um clique, e na qual a maior parte dos leitores apenas lê os cabeçalhos das notícias, consideramos que o que deveria ser serviço público sério e totalmente imparcial degenerou num pasquim de propaganda manipulativa, intencionalmente direccionada para os mais incautos, ou seja, para todos aqueles que constituem a massa da “opinião pública”. Foi também com enorme surpresa que, ao lermos o conteúdo das notícias, tivemos conhecimento que o Sr. Secretário de Estado João Galamba já concedeu as três licenças de exploração acima referidas, e não apenas a de Montalegre como até agora noticiado; assim, para além da concessão da Mina da Sepeda à Lusorecursos, ficámos a saber também que a Mina do Barroso foi licenciada à Savannah Resources e a Mina da Argemela à parceria PANNN/Almina, SGPS., decorrendo já os processos de avaliação ambiental.»

    Apesar disso, compareceram em Viana do Castelo, naquela manhã de sábado, mais de 400 pessoas para uma concentração que, depois, incluiu uma marcha festiva mas combativa, com vários cortes de trânsito, até à central Praça da República, local dos discursos finais.

     

    «Não daremos um só passo atrás»

    Uma semana mais tarde, a 22 de Fevereiro, o Secretário de Estado da Agricultura e do Desenvolvimento Rural, Nuno Russo – que foi em representação de António Costa – visitou, em Seia, a feira do queijo e foi recebido por uma manifestação – «Futuro minado? Não, obrigado!». Os movimentos locais (nas palavras dos próprios, o «Movimento ContraMineração Beira-Serra e o Movimento Cidadãos por uma Estrela Viva em representação de todos os outros») aproveitaram a presença do governante para lhe entregar uma carta onde exigiam transparência de processos e uma visão a longo prazo para as zonas rurais e declaravam a sua oposição à retirada de poder decisório às autarquias locais. Sobre este último ponto, refira-se que essa retirada de poder teve a ver com as dificuldades que o governo estava a ter em conseguir a adesão da totalidade das autarquias ao seu projecto de novo aeroporto no Montijo. Pedro Nuno Santos, ministro das Infraestruturas, defendeu que a lei que permite aos municípios vetar a construção, por exemplo, do aeroporto do Montijo «é desajustada e desproporcional pelo poder de veto que dá, no limite, a um só município». Para o governante, um município não «deve ter o poder absoluto» de condicionar «o interesse nacional». Uma coisa aparentemente longínqua mas que os movimentos anti-mineração compreenderam que iria, no futuro, servir para impor as minas à revelia das vontades ou das decisões locais.

    A petição que o Movimento SOS Serra d’Arga entregara na Assembleia da República (AR) a meio de Janeiro (e a que fizemos referência na edição do jornal MAPA de Fevereiro-Abril 2020) seguiu o seu caminho e apesar de perder actualidade (tratava-se, lembremos, de solicitar o chumbo da medida proposta no orçamento referente à abertura do concurso público, orçamento esse que, entretanto, tinha já sido aprovado), fez com que o porta-voz desse movimento se deslocasse para uma audição perante a Comissão de Ambiente, Energia e Ordenamento do Território da AR, onde exigiu a suspensão imediata do concurso público para prospecção de lítio naquele território do Alto Minho. Na declaração apresentada nessa audição pode ler-se: «Está na altura de ouvirem as gentes da serra, a gentes do interior, que não se resignam a ver a sua região destruída. Pedimos-vos, por isso, que exijam, de imediato, a suspensão deste programa governamental de exploração mineira. Trago-vos do Alto Minho o seguinte recado: não aceitaremos nem um só furo. Faremos tudo o que for necessário para travar a entrada das máquinas na nossa terra. Estamos aqui em defesa da Serra d’Arga, mas também do Barroso, da Argemela, da Beira Interior e de todas as comunidades em perigo de desastre ecológico e asseguramos-vos o seguinte: não daremos um só passo atrás».

     

     

    A mineração em tempo de pandemia

    No mesmo dia em que Marcelo Rebelo de Sousa declarava o estado de emergência nacional, foi publicado no Jornal de Notícias (mas no Jornal do Fundão, por exemplo só foi publicado a 26 de Março) um Aviso, com data de 10 de Março, no qual se fazia público que a empresa PANNN, Consultores de Geociências, Lda. voltava a lançar um pedido de exploração mineira a céu aberto para a Serra da Argemela, idêntico ao que já tinha sido divulgado no início de 2017. Ou seja, este pedido de concessão surgia no seguimento de um já longo processo de contestação à exploração, com avanços e recuos por parte da empresa, que em determinado momento terá optado por uma exploração experimental, parecendo agora voltar ao modelo inicial. Refira-se que aconteceu porque o prazo para entrega do EIA (referente ao pedido de 2017) à Agência Portuguesa do Ambiente caducara em Fevereiro.

    «Volvidos 3 anos desde o primeiro pedido, em tudo idêntico ao recentemente lançado, e face ao claro aproveitamento por parte da empresa requerente do natural alheamento das pessoas num país mergulhado numa crise pandémica e em estado de emergência, a Associação Guardiões da Serra da Estrela decidiu reabrir a petição e recolha de assinaturas que, em 2017, iniciou o processo de luta contra a exploração mineira.» Eis o que se podia ler no texto que essa associação lançou para anunciar a reabertura dessa petição. Para além disso, o pedido estava patente para consulta, nas horas de expediente, na Direcção Geral de Energia e Geologia (DGEG), em Lisboa, pelo que o Grupo pela Preservação da Serra da Argemela (GPSA) anunciou considerar não estarem reunidas as condições para os cidadãos poderem contestar «por escrito» o procedimento no prazo de 30 dias a contar da data de publicação do aviso.

    De facto, é, no mínimo, estranho que a DGEG tenha visto esta data como oportuna para publicitar este aviso. O GPSA punha as coisas desta forma: «(…) num tempo em que a humanidade se debate com um dos problemas mais sérios da sua existência, num tempo em que os governos decretam planos de emergência colectiva e de confinamento obrigatório, reduzindo ao essencial o contacto entre pessoas e instituições, num tempo em que no nosso país é publicada uma lei que prevê medidas excepcionais de resposta à situação epidemiológica, de resposta a uma calamidade pública, permitindo, nomeadamente, o adiamento dos procedimentos administrativos (Lei nº 1-A /2020 de 19 de Março). Mas é precisamente neste mesmo tempo que uma instituição do Estado vem, no seguimento de um já longo historial de reclamações sobre um pedido para a instalação de uma exploração mineira na Serra da Argemela (sita nos concelhos da Covilhã e do Fundão), convocar os cidadãos interessados para, no prazo de 30 dias após a data da publicação do aviso, reclamarem por escrito, informando ainda que o pedido está patente para consulta dentro das horas de expediente na DGEG, em Lisboa. Que mal viria ao mundo se esta publicitação fosse adiada para data mais oportuna? No respeito pela citada lei, cujas medidas já vinham sendo anunciadas e discutidas pelo menos desde o Conselho de Ministros de 12 de Março, o adiamento não teria sido mesmo um imperativo? Cada um de nós pode optar pela escolha da interpretação que melhor lhe aprouver. No que respeita à posição do GPSA só pode ser a de repudiar e lamentar profundamente esta atitude, reveladora, no mínimo, de uma grande falta de humanismo e de compreensão pelos mais elementares princípios de ética que devem reger uma sociedade.»

    «No dia 14 de Abril, foi finalmente tornado público o processo na página electrónica da Direcção-Geral de Energia e Geologia, idêntico ao de 2017 mas acompanhado por uma nota assinada pela Dra. Cristina Lourenço, sub-directora da DGEG, na qual enquadra esta republicação com o sentido de “oportunidade”, omitindo a verdadeira justificação para tal facto: o prazo para entrega do EIA, no âmbito da Avaliação Ambiental, caducou no dia 07 de Fevereiro de 2020. Assim se respeita a lei, e dissimuladamente se concedem oportunas regalias a uma empresa nestes tempos de emergência nacional». Eis o que se podia ler, dias mais tarde, nas redes sociais da Associação Guardiões da Serra da Estrela.

    Finalmente, apenas a 16 de Abril, a própria DGEG pareceu dar-se conta do que fizera e, num destaque informativo, anunciava a suspensão do período de consulta pública relativamente ao pedido para um contrato de exploração da PANN na Serra d’Argemela «até o fim do Estado de Emergência».

     

     

    A luta não faz quarentena

    A resposta pública era, por questões de afastamento social da população, limitadíssima. Na rua nada havia a fazer. As manifestações eram desaconselháveis e estavam, de facto, proibidas, por exemplo. Mesmo as habituais reuniões e, acima de tudo, as sessões de esclarecimento foram adiadas para o pós-Covid. As populações, as associações e os colectivos anti-mineração estavam de mãos atadas e limitavam-se à demonstração de repúdio pelos meios que lhes eram possíveis: os jornais locais e as redes sociais.

    Sabendo que o que se seguirá à pandemia será uma crise económica e social de grande escala, alguns movimentos prevêem que esse será o cenário perfeito para o governo conseguir implementar definitivamente o plano de fomento mineiro que as populações têm conseguido atrasar e até impedir. Antecipando-se a isso, nove deles[ref]Em Defesa da Serra da Peneda e do Soajo; Lisboa Contras as Minas; Movimento SOS Terras do Cávado; PNB – Povo e Natureza do Barroso; Movimento SOS Serra d’Arga; Movimento Não às Minas – Montalegre; Associação Guardiões da Serra da Estrela; Movimento ContraMineração Beira Serra; Associação Montalegre com Vida.[/ref] lançaram, no início de Abril, um comunicado conjunto (que está, desde então, aberto a novas subscrições) que exige que, da mesma forma que foram suspensos os despedimentos e os despejos, também o território deveria ser deixado em paz. No mesmo documento alerta-se para o facto de, durante o surto vírico, se ter percebido que «é preciso salvaguardar a nossa agricultura, o nosso património, os nossos solos, a nossa água e a nossa biodiversidade – estes sim, a nossa verdadeira fonte de riqueza». O comunicado anuncia ainda que não deixarão que a crise seja argumento para a destruição do território. «Estamos certos que depois da pandemia (…), a nossa sociedade estará mais forte do que nunca para se defender, para defender o direito das populações de decidir sobre o seu modelo de desenvolvimento. Um modelo que respeita a terra, respeita a água, respeita a Vida». Finalmente, os «prometidos subsídios europeus para a extracção mineira devem ser canalizados para o que verdadeiramente interessa: as pessoas. Rejeitar esta mudança de paradigma é não apenas pouco ético – na conjuntura actual, é criminoso.»

    Também no início de Abril, Paulo Torres, do Movimento Lisboa Contra as Minas iniciava aquilo a que chamou «Conversas em Quarentena», um ciclo de encontros virtuais em que se propõe olhar para a questão da mineração através de várias lentes. No dia 9 desse mês, a primeira conversa decorreu com quase 30 pessoas e destinou-se sobretudo a uma análise da situação a partir duma apresentação inicial feita pelo próprio Paulo Torres, a que se seguiu uma conversa livre, que contou com a participação de alguns colectivos e movimentos activos nesta luta, assim como pessoas da Geota ou da Rede para o Decrescimento.

    O jornal MAPA também esteve «presente» e, das notas tiradas, sobressaem as que dizem respeito à água e à sua importância. Note-se que a água que as populações captam para si está a entre 30 e 70 metros de profundidade. Com as minas a ameaçarem buracos bem mais profundos, é todo o sistema hidrológico que pode estar em causa, o que é extraordinariamente relevante, principalmente em zonas onde ela, seja para rega ou para consumo humano directo, não é, em muitos casos, canalizada. O secretismo do processo é outra pedra de toque das críticas feitas ao governo, havendo até o receio de haver «muita coisa a passar-se neste momento sem estarmos a saber». Também alvo de críticas, tão tristes quanto ferozes, é o «desrespeito por tudo o que não seja urbano» e o facto de que, «aqui ou no Congo, a mineração é quase sempre um acto de colonização».

    As já parcas protecções do território caem uma atrás da outra: «a própria União Europeia já informou os governos da forma de dar a volta à Rede Natura 2000: basta compensar noutro lado», ouviu-se da Serra da Estrela. De onde chegou também a informação de que a ameaça se está a aproximar: A mina em «Cáceres já está a rolar». Não se pode confiar sequer nas agências de protecção do ambiente, é preciso implementar o «conceito de “direitos da natureza”, um conceito intimamente ligado ao dos “direitos das comunidades”», ouvia-se a partir de Lisboa.

    Também de centros urbanos chegavam as ideias de «mudança de paradigma», «alteração do nosso modo de vida», «fim do modelo extractivista», «reinvenção da mobilidade». Das zonas que poderão ser mais directamente afectadas, as preocupações que são vocalizadas são bastante mais concretas. «Ainda não conseguimos chegar a toda a gente aqui». Os jovens parecem estranhamente alheados desta questão. «Para receber o secretário de Estado [da Agricultura e do Desenvolvimento Rural], em Seia, para a feira do queijo, falámos com a malta da Greve Climática e… nem obtivemos resposta». Chegar aos jovens e conseguir que as cidades «tenham a noção do que querem fazer ao território rural que as alimenta» são duas das preocupações mais imediatas de quem teve de parar de fazer sessões de esclarecimento ou manifestações. Mas não se irá estar à espera de quem quer que seja para resolver esta questão, como se ouvia de Montalegre: «a missão é bloquear isto nesta geração».

    As «Conversas em Quarentena» continuaram no dia 16 de Abril, quando muitos dos vários movimentos envolvidos nesta luta se apresentaram para dar a «conhecer as lutas, medos e sonhos das pessoas que estão pela protecção das suas regiões e contra o desenfreado plano de mineração proposto», e continuaram pelas quintas-feiras seguintes, num ritmo semanal que, à data de publicação do jornal MAPA, ainda se mantém.