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  • A outra luz de Lisboa

    A outra luz de Lisboa

    Uma conversa com pessoas de diversos movimentos sociais leva-nos do centro à periferia da grande Lisboa. Começando pelas novas avenidas traçadas pelo boom imobiliário, o turiamo e a gentrificaçã0 passamos pelos becos sem saída do aumento das rendas, dos despejos e da crise de habitação para chegar aos novos caminhos que comunidades e moradores desenham na resistência e na luta pelo direito à habitação e à cidade.

    Recentemente, o quarteirão da Portugália esteve no centro do debate sobre o modelo de desenvolvimento urbanístico da cidade de Lisboa. Em causa está o Portugália Plaza, um mega-empreedimento que contará com cinco blocos, onde alguns dos edifícios terão mais de 40 metros de altura, e que estará situado no terreno vazio contíguo à histórica cervejaria Portugália, na Avenida Almirante Reis, em Lisboa. No website do promotor do projeto, o fundo de investimento imobiliário Sete Colinas, pouca informação se pode obter acerca das características específicas do empreendimento, mas relativamente à sua carteira de projetos podemos ler que estes «beneficiam de uma excelente centralidade e acessibilidades, de uma identidade social e cultural de referência, de vistas privilegiadas e de traços arquitetónicos distintivos que respiram a dinâmica das zonas onde estão inseridos».

    Uma posição diferente relativamente ao projecto foi demonstrada por algumas associações da freguesia de Arroios, onde este está inserido, durante a audição pública sobre o Portugália Plaza na Câmara Municipal de Lisboa, a 9 de julho deste ano.

    Uma das associações convidadas, o RDA69, apontou, na sua intervenção, que a freguesia de Arroios «tem sofrido uma forte pressão imobiliária e é um exemplo de como estas dinâmicas económicas e sociais operam, com pessoas forçadas a abandonar a sua casa e o seu bairro, espaços públicos de uso coletivo entregues a gestão privada, encerramento de espaços associativos, ou a aprovação de projetos urbanísticos contrários à regulamentação vigente em nome do interesse público. Neste quadro, a implantação de apartamentos novos, em prédios de arquitetura de autor, com construção de qualidade e todas as serventias, desde o estacionamento, aos serviços, passando pelo espaço central e as vistas que uma altura anormal permitem, não terá outro efeito senão inflacionar o valor do território circundante e consequentemente dos preços da propriedade e das rendas».

    a freguesia de Arroios tem sofrido uma forte pressão imobiliária (…) com pessoas forçadas a abandonar a sua casa e o seu bairro, espaços públicos de uso coletivo entregues a gestão privada, encerramento de espaços associativos

    Lisboa eufórica, em transformação

    Numa conversa informal no espaço Sirigaita, junto ao largo do Intendente, o jornal MAPA juntou à mesma mesa Rita Silva da associação Habita (habita.info), Ana da Assembleia de Ocupações de Lisboa (AOLX), Antonio Gori do coletivo Stop Despejos (stopdespejos.wordpress.com) e Catarina Carvalho da própria Sirigaita. Juntamente com muitos outros, estes coletivos têm, nos últimos anos, não apenas participado e organizado protestos, boicotes, acções de campanha e ocupações, mas também colocado na praça pública a questão do direito à habitação na zona de Lisboa, desde o ponto de vista dos seus maiores afetados: os moradores e as comunidades que habitam e vivem os bairros.

    A conversa começou por tirar uma fotografia geral e notar que o quarteirão da Portugália é apenas um entre uma avalanche de projetos imobiliários que estão projetados na zona da grande Lisboa e que é praticamente impossível mapear de forma exaustiva o frenético universo do investimento imobiliário, mas que, mesmo assim, seria importante conhecer alguns deles. Referiu-se o Palácio de Santa Helena, um edifício do séc XVII, situado no bairro de Alfama que será recuperado e onde nascerão apartamentos de luxo. O projeto é levado a cabo pelo fundo imobiliário Stone Capital, um fundo especializado no desenvolvimento e na gestão de ativos em Portugal. O antigo Hospital da Marinha, no Campo de Santa Clara, irá ser transformado num complexo de hotelaria, habitação e comércio pela mão de uma imobiliária francesa, depois de o Estado ter vendido o edifício por 18 milhões de euros em 2016. O quartel da Graça, um monumento público, será em breve concessionado ao grupo Azinor, propriedade dos hotéis Sana para aí nascer um hotel de cinco estrelas, resultado de um investimento na ordem dos 30 milhões de euros.

    O jardim da Glória, também na Graça, é outro dos projetos da Stone Capital. No logradouro de 0.6 hectares, anteriormente arborizado, será construído um condomínio de luxo. A Stone Capital tem mais de 40 projetos validados pela Câmara Municipal de Lisboa (CML), entre os quais se contam empreendimentos de luxo ou a conversão de espaços públicos em espaços comerciais. Na freguesia de Marvila, na Matinha, nascerá um dos maiores projetos imobiliários em Portugal. O projeto é promovido pela empresa VIC properties, responsável igualmente pelo “Prata Riverside Village”, um projeto de construção de 128000 m² e quase 700 apartamentos no Braço de Prata.

    Em Marvila, a empresa tenciona construir cerca de 2000 novas casa num espaço de 20 hectares. No passado mês de outubro, o jornal Expresso noticiava o investimento de 3000 milhões de euros em 33 projetos na zona ribeirinha de Lisboa, onde se espera que nasçam «parques urbanos, praças, novas linhas de elétrico, marinas, centros de investigação, museus, monumentos, habitação nova e reabilitada, comércio, parques de escritórios, hotéis, centros de congressos e espaços para startups». Mas também no outro lado do Tejo existem mega-empreendimentos a ganhar forma. Nos antigos terrenos da Lisnave nascerá a Cidade da Água ou, como foi apelidada, a Expo de Almada. Irá ocupar mais de 630 mil metros quadrados de frente ribeirinha e nela irão nascer zonas residenciais, escritórios, hotéis, áreas culturais, um terminal fluvial e uma marina.

    Como a economia não cresce, não há investimento no sector produtivo e uma parte desse capital vem para as cidades e para o imobiliário porque é um investimento sólido e seguro.

    Quando questionada sobre os efeitos que todos estes investimentos imobiliários têm na cidade, Rita Silva considera que devemos recuar na pergunta e perceber, antes de mais, as causas: «por que é que de repente há tantos empreendimentos e uma especulação brutal?». Explica-nos que estamos a viver uma fase de estagnação da economia, sobretudo depois da crise financeira global de 2008, mas que existe uma enorme quantidade de capital na esfera financeira por vários motivos, entre eles, as políticas do Banco Central Europeu que injetam enormes quantidades de dinheiro, não nos Estados, mas na banca.  Isto faz com que exista «muito capital especulativo a circular, a nível mundial».  Como a economia não cresce, não há investimento no sector produtivo e uma parte desse capital vem para as cidades e para o imobiliário, porque é um investimento sólido e seguro. Sobre quem são os promotores destes investimentos diz-nos que «são bancos, são fundos de investimento, são grandes fortunas, são empresas, são construtoras, são empresas imobiliárias, mas normalmente são capitais que são da esfera financeira e do capital estrangeiro».

    Rita Silva acrescenta ainda que, além desta injeção de capitais, «o que as políticas fazem, é incentivar ainda mais este processo, a todos os níveis, europeu, nacional ou municipal» e que estes processos combinados são «explosivos». Em agosto de 2018, Luís Mendes, geógrafo e investigador do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa e membro da Associação Morar em Lisboa, num artigo de opinião publicado no Jornal Económico, escrevia que a cidade de Lisboa estaria a viver «um pico de projeção internacional enquanto destino turístico, ao mesmo tempo que o seu mercado de habitação adquire formatos de ativo financeiro e atrai dinâmicas globais de procura e de investimento estrangeiro». Segundo o investigador, este processo foi alimentado por políticas governamentais que apoiaram uma «viragem neoliberal na política urbana». Estas políticas «fomentaram a atração de uma elite transnacional e favoreceram a financeirização do imobiliário e a reestruturação urbana na capital portuguesa.»

    habita

    Lisboa turística, em valorização

    Mas além destes, existem outros processos em jogo. Durante anos, alimentou-se o discurso sobre o esvaziamento do centro histórico da cidade. Para Ana, «isso também foi uma coisa muito boa de vender, essa ideia de que o centro histórico era habitado apenas por classe baixa. Essa visão de que o centro histórico estava sujo, e as pessoas tinham medo de lá ir, é uma narrativa construída. É verdade que existiam no centro histórico muitos prédios devolutos, mas o bairro não estava vazio. Muito pelo contrário, agora é que está a ficar vazio.»

    Justamente a reboque de um discurso que o caracterizava como um local pobre e como palco de tensões sociais propiciadoras de múltiplos perigos e ameaças, esse centro histórico foi sendo desvalorizado. Para as gerações anteriores, os locais privilegiados para a habitação demarcaram-se deste centro e as pessoas deslocaram-se para outros locais dentro de Lisboa, ou, na sua maioria, para locais mais periféricos. Assim, foi possível aproveitar essa situação de abandono e desinvestimento no centro histórico da cidade de Lisboa que, acompanhado por um processo de desenvolvimento das periferias, resultou numa desqualificação desse centro tornando o seu terreno menos valioso. A um preço mais acessível, o Estado, os especuladores e quem mais estiver interessado e possuir capital de investimento, puderam comprar terrenos e casas a um preço baixo, fazer obras, e especulá-los. Mas para que esta estratégia funcione, é preciso revalorizar esses centros urbanos, ou seja, para além de fazer obras, é necessário torná-los atrativos.

    A construção de cidade que temos vindo a assistir, cria assim novos pólos de atracão no seu centro. As dezenas de projetos previstos para Arroios, Alfama, Graça ou Marvila, são disso exemplos. A par destes, assistimos ainda ao surgimento de mega eventos como a conferência europeia sobre tecnologias “Web Summit”, que desde 2016 marca presença em Lisboa. Após duas edições realizadas em Lisboa, a Web Summit e o Governo Português anunciaram, em outubro de 2018, uma parceria a 10 anos que mantém a conferência na capital até 2028.

    «(…) é um investimento baseado na especulação, que não cria valor na sociedade em termos de redistribuição. O que este investimento está a produzir é uma polarização da sociedade, ou seja, maior desigualdade, porque como as pessoas que vivem e trabalham no nosso país têm cada vez menos acesso à habitação, ou têm que pagar cada vez mais por uma habitação, elas estão a empobrecer»

    A acrescentar a este panorama, e de acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), entre janeiro e junho de 2019, a indústria do turismo continuou a somar números. A nível nacional, o número de dormidas de turistas registado nesta primeira metade do ano cresceu 7,6%, em relação ao mesmo período do ano passado e só a Área Metropolitana de Lisboa (AML) contou com cerca de 8,53 milhões de dormidas.

    Apesar dos hotéis serem a opção mais escolhida, representando 83,6% de todas as dormidas, à frente do alojamento local (AL) e do turismo rural e de habitação, em termos de crescimento, os números do AL destacaram-se ao subir mais do que os hotéis: dispararam 15,8%, face aos 2,9% de subida do sector hoteleiro.

    Um estudo de impacte ambiental realizado pela CML aponta que o crescimento do turismo, juntamente com as facilidades das plataformas de arrendamento, tais como o Airbnb, fez com que o número de estabelecimentos de alojamento local no concelho de Lisboa tenha crescido exponencialmente na última década, tendo chegado a quase 18.000 em 2018, um valor que corresponde a 5% de stock de alojamentos familiares clássicos.

    A atividade turística é, portanto, um factor central e muitos dos projetos imobiliários em curso na região de Lisboa acompanham as necessidades de uma indústria em desenvolvimento, o que faz com esta seja um importante motor da dinâmica urbanística da cidade e da valorização do imobiliário. No documentário O que vai acontecer aqui?, da autoria do coletivo Left Hand Rotation, Rita Silva afirma que o investimento em imobiliário que verificamos é «um investimento baseado na especulação, que não cria valor na sociedade em termos de redistribuição. O que este investimento está a produzir é uma polarização da sociedade, ou seja, maior desigualdade, porque como as pessoas que vivem e trabalham no nosso país têm cada vez menos acesso à habitação, ou têm que pagar cada vez mais por uma habitação, elas estão a empobrecer». Ana conclui ainda que «as políticas resultam todas numa lógica de opressão dentro do sistema capitalista cuja ideia é criar maiores clivagens sociais. Basicamente, as pessoas estão a ser expulsas da cidade. O que está a acontecer não é um problema para os ricos, só é um problema para quem não tem dinheiro».

    Lisboa silenciosa, em contradição

    Lisboa tornou-se, nos últimos anos, numa cidade dinâmica e atrativa, que capta investimento nacional e estrangeiro e vive um período de euforia no mercado imobiliário. Mas este otimismo nos mercados contrasta com a cidade onde os seus habitantes sofrem os impactos dos intensos processos de valorização imobiliária, gentrificação e turistificação, e onde cresce a cada dia uma profunda crise de habitação, com os preços a disparar tanto no centro como nas periferias. Segundo dados divulgados no início de outubro pelo INE, Lisboa é o concelho com os preços mais elevados de Portugal e cuja renda média atinge pouco menos de 12€ por metro quadrado, o que representa um aumento de quase 13% relativamente ao mesmo período do ano passado. Um estudo recentemente publicado por investigadores da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas sobre segregação habitacional em Lisboa conclui que os gastos de habitação na AML correspondem a cerca de metade do rendimento médio disponível, um valor acima da taxa de esforço recomendada de 30%.

    Com o aumento do preço do arrendamento em Lisboa, a solução para muitos que não conseguem aí pagar casa é procurar casa em zonas menos centrais, tal como a margem sul do Tejo. Mas nesta zona também as rendas aumentam. No início de outubro, o jornal Expresso noticiava, com base em informações de agentes imobiliários, que em média, nos últimos sete anos, os preços das casas na margem Sul duplicaram. Antonio Gori refere ainda que «no Barreiro há quartos para alugar a 350, 400, 450 euros». O Barreiro, mas também Almada, Seixal ou a norte, a Amadora, são considerados como parte de Lisboa. Antonio refere-se a uma «cidade integrada».

    «[O isolamento] tem implicações em termos da saúde, da saúde mental, da criação de laços de comunidade, que são importantes para tudo isso mas também ao nível da luta. Porque tu estás a isolar pessoas que tinham espaços de encontro, que tinham ligações, que tinham redes, também de solidariedade e agora são obrigadas a saírem dos sítios que conhecem e a separarem-se dessas redes.»

    Apesar desta ideia de tudo ser parte de Lisboa, os grandes polos de emprego, comércio, serviços, turismo e lazer continuam a estar no centro da cidade, o que continua a implicar constantes deslocações de pessoas da periferias para o centro. Ou seja, apesar de uma gentrificação também das zonas periféricas, o grosso do poder continua concentrado no centro e as periferias continuam a estar reféns e dependentes desse centro. Rita Silva avança-nos que «em 2012, quando começa a Lei Cristas, havia 750 mil contratos de arrendamento no país e hoje há cerca de 330 mil. E isso foram casas que saíram do arrendamento e muitas estão a ir diretamente para apartamentos turísticos, muitas para venda, especulação, vistos gold, ou venda, porque rende vender».

    De acordo com dados da CML, o número de contratos de compra e venda de prédios urbanos em Lisboa aumentou 86% entre 2011 e 2017. Além disso, o valor destes contratos cresceu 12.5% no mesmo período. Uma das faces mais violentas e mais visíveis da crise da habitação gerada por todos estes processos é a proliferação de ações de despejo sobre os inquilinos aos quais não lhes é renovado o contrato ou que deixaram de poder pagar casa em que vivem. Uma realidade catalisada pela anterior Lei do Arrendamento Urbano, a chamada Lei Cristas, aprovada em 2012 na sequência da intervenção da Troika em Portugal e que veio liberalizar o mercado do arrendamento e agilizar as ações de despejo por parte dos proprietários. Tal como noticiou o jornal Público em julho de 2018, entre 8 de janeiro de 2013 e 30 de junho de 2018, o número de despejos foi de 2968 no município de Lisboa e de 1348 no município do Porto.

    Lisboa resistente, em conexão

    Os processos de despejos ou de ausência de renovação de contratos de arrendamento originam a expulsão ou a deslocação de pessoas para outros concelhos, outros bairros. Isso acarreta profundos efeitos sociais tais como a desintegração de comunidades mas também o isolamento. A propósito destas questões, Ana refere: «quando percebes que vais perder a casa pensas “mas para onde é que eu vou?”. E isso é um nó pelas tuas entranhas todas, não saberes para onde vais a seguir porque sabes que a coisa está completamente descontrolada. A cidade onde tu criaste os teus afetos, as tuas relações, de repente não cria espaço para ti. É muito estranho isso acontecer em termos de identidade».

    Catarina Carvalho explora mais a fundo o isolamento ao afirmar que este tem várias implicações: «tem implicações em termos da saúde, da saúde mental, da criação de laços de comunidade, que são importantes para tudo isso mas também ao nível da luta. Porque tu estás a isolar pessoas que tinham espaços de encontro, que tinham ligações, que tinham redes, também de solidariedade e agora são obrigadas a saírem dos sítios que conhecem e a separarem-se dessas redes. Essas redes acabam por cair e por se desfazer e isso tem impacto em todos os outros aspetos da luta. Eu acho que a luta pela habitação acaba por ser uma luta por todas as outras lutas porque sem ela nós estamos isolados. Sem a casa, sem a comunidade, sem a cidade».

    habita

    Nos últimos anos, muitas lutas dos movimentos sociais na grande Lisboa têm abraçado a ideia do “Direito à Cidade” e mostram que, apesar das cidades serem entendidas como espaços de segregação, separação e dominação existem, em contrapartida, diversos movimentos urbanos empenhados em superar o isolamento e reconfigurar a cidade de modo a que esta represente também um espaço de encontro, de criação de espaços comuns e de luta.

    Coletivos, grupos, movimentos, redes, comissões de moradores, assembleias e outras estruturas têm estado nas ruas a defender o direito à habitação mas também a fazer frente aos despejos e às demolições, a ocupar casas, a denunciar fundos de investimento, práticas abusivas de proprietários e atropelos aos direitos básicos, através de centenas de protestos e processos de luta. Recuando um pouco na história, durante o PREC, mas também durante os anos 90 e até ao início do século XXI, muitas foram as experiências e ações de ocupação de casa, sobretudo em Lisboa, Setúbal e Porto.

    Mais recentemente, em setembro de 2017, a Assembleia de Ocupações de Lisboa (AOLX) ocupou um prédio devoluto da CML na Rua Marques da Silva em Arroios e, em fevereiro de 2018. Em novembro de 2018, a Renascença publica um artigo intitulado “Mães Ocupas” que dá conta de diversas ocupações de casas camarárias devolutas na Alta de Lisboa, por famílias, na maior parte dos casos, monoparentais. De acordo com a notícia, são mães e são «solteiras, têm salários baixos e não conseguem suportar as rendas praticadas em Lisboa». Antonio Gori acompanhou este processo na Alta de Lisboa, no Lumiar e em Chelas: «Ali há lutas que são lutas quotidianas de pessoas que estão habituadas a lutar provavelmente desde que nasceram. E ali a CML tem o grande vício de deixar milhares de casas vazias. Há uma grande sobrelotação de famílias que têm uma casa. Há famílias onde vivem 15 pessoas num apartamento T3 de 80m2. Então, tendo as casas vazias ao lado, vão ocupar. E especialmente as mulheres, porque precisam de fugir de certas situações, ou precisam de dar abrigo aos próprios filhos ou porque ficaram sozinhas, ou porque não se dão bem com a família do namorado, há várias razões».

    Nos últimos anos, para além de ocupações, temos assistido também a manifestações pela habitação. Em março de 2018, um mês depois do despejo da casa ocupada pela AOLX, o Rock in Riot levou 2000 pessoas a ocupar a Avenida Almirante Reis durante cinco horas. Seis meses mais tarde, em setembro de 2018, um conjunto alargado de associações e coletivos lançou a iniciativa “Setembro de acção e luta pela habitação”, convocando manifestações para Lisboa e Porto. Em Lisboa, o protesto espelhou a diversidade de um movimento que se constitui de várias formas para atacar um problema que afeta pessoas de toda a AML.

    O problema da habitação já é muito antigo, afetava muitas outras populações, que não eram o centro da cidade visível, por exemplo imigrantes, população cigana, população abaixo do limiar da pobreza, têm problemas de habitação desde sempre.

    Entre as cerca de 1500 pessoas que protestaram entre o Largo do Intendente e a Ribeiras das Naus estavam diferentes coletivos e associações de moradores, associações culturais, cooperativas de consumo, associações ambientalistas, grupos feministas, não só do centro como da periferia. Os moradores do Bairro 6 de Maio e do Bairro da Torre, bem como o coletivo Nu Sta Djunto e a SOS Racismo, estiveram presentes e reviram-se na manifestação que se posicionava, de acordo com o seu comunicado, contra «o processo de especulação generalizada, com a privatização de espaços públicos e socioculturais».

    Afirmavam também ter como objetivo «discutir, denunciar, questionar e desafiar o modelo de desenvolvimento capitalista, que transforma a cidade num gigantesco negócio, subordinando-a às leis de mercado e excluindo os seus habitantes». Em 21 de janeiro de 2019, a Avenida da Liberdade, bem no centro de Lisboa, foi palco de uma violenta intervenção da PSP contra uma manifestação que protestava contra a intervenção policial, uns dias antes, no bairro do Jamaika. Foi nesta mesma avenida que, no passado dia 29 de setembro, uma assembleia aberta com centenas de pessoas marcou o fim do festival HabitAcção, uma iniciativa que decorreu durante todo o mês de setembro e contou com dezenas de atividades em diversos espaços.

    Inevitavelmente, de fora destas linhas ficam as restantes centenas de outras ações que tiveram lugar nos últimos anos de Norte a Sul de Portugal, organizadas por muitos outros coletivos, associações e grupos de moradores. Estas iniciativas mostram que o problema do isolamento entre pessoas e lutas é encarado de frente pelos movimentos sociais. Mas mostram também que o problema da habitação é, neste momento, transversal a um conjunto cada vez maior de pessoas, embora com diferentes níveis de visibilidade, do centro à periferia.

    E é aqui que a questão das relações entre o centro e a periferia se volta a colocar. Nas palavras de Rita Silva: «o problema não é só no centro, o problema é também nas periferias, as pessoas estão a ser despejadas na Amadora porque na Amadora também existe um processo de gentrificação. As periferias também estão a sofrer vários tipos de recomposição e estão a organizar processos de expulsão em que o elo mais fraco é aquele que vai sair. Parece que o problema da habitação chegou agora e que é um problema do centro, do centro histórico, mas não.

    O problema da habitação já é muito antigo, afetava muitas outras populações, que não eram o centro da cidade visível, por exemplo imigrantes, população cigana, população abaixo do limiar da pobreza, têm problemas de habitação desde sempre. Eu acho que devia haver muito mais articulação, dentro da resistência, devíamos tentar promover muitos mais processos de articulação entre o centro e a periferia.»

    Para Antonio Gori, as periferias funcionam muitas vezes como dormitórios. «Claro que há lojas, há mercados, há vida, porque as pessoas resistem e na resistência também se cria cultura, se cria uma vida, porque a vida é resistência, neste sentido. Nestas lutas as pessoas reivindicam também todos os outros serviços, não é só a habitação. Nestas lutas reivindicam o direito à saúde, direito a transportes. A maioria destas pessoas tem dois, três trabalhos e trabalham 12, 13, 14 horas por dia, muitos nas limpezas, nos hotéis, nos restaurantes, nos centros comerciais, no aeroporto, etc.»

    Ana acrescenta ainda que «o centro sempre se esqueceu da periferia. A habitação tem sido sempre uma questão nesses bairros, como outras também. Porque são pessoas que têm 14 horas de trabalho, saem de sol a sol e depois há esta coisa da habitação que é uma temática que, de repente, já não diz só respeito a estes bairros auto-construídos, de repente é uma problemática que diz respeito até à classe média, até à média-alta. De repente já é uma questão que diz respeito a muitas pessoas e isso faz com que se dê um olhar diferente à situação destes bairros que já se prolonga há muito tempo».

    A “Caravana pela Habitação”, uma iniciativa de setembro de 2017, com origem na Assembleia dos Moradores do Bairro 6 de Maio, Bairro da Torre e Bairro do Jamaika, tinha em vista ligar diferentes lutas e fazer pontes entre elas, reforçando a relação entre centro e periferias que, segundo o comunicado desta iniciativa, «apesar de diferenças de contexto, partilham uma condição comum de precariedade e exclusão social face à habitação». Consideram também que «é na ligação e articulação entre grupos, território e famílias que podemos reforçar-nos, que podemos ter uma voz, que podemos enfrentar os grandes interesses ligados ao imobiliário».

    Rita Silva lembra um dos episódios de luta da Caravana: “Houve um dia que fizemos uma sessão de apresentação [da Caravana pela Habitação]. Estavam lá pessoas do Bairro de Camarate, da Torre, a falar do corte da luz, que vivem há dois anos sem luz e sem água, em barracas, estavam também pessoas do Bairro 6 de Maio e da Rua dos Lagares. A Rua dos Lagares já tinha tido uma vitória, a renovação dos contratos de habitação por cinco anos. E as três fizeram uma apresentação no primeiro dia da Caravana pela Habitação, na associação Disgraça. Fala primeiro uma pessoa do problema das demolições no bairro 6 de Maio. A seguir vai outra da Torre – são duas mulheres negras a falar – a falar sobre a falta de luz, a falta de água num bairro onde já não se consegue viver. A pessoa da Rua dos Lagares é a terceira a falar e, de repente, com lágrimas nos olhos diz: “Eu agora adorava dizer que tenho uma vitória, mas eu nunca vou poder dizer que tenho uma vitória enquanto as minhas irmãs estão na situação em que estão”». A propósito de todas estas lutas, Rita Silva afirma: «é muito importante criar espaços de auto-gestão, de autonomia, que não seja só reivindicar.

    a luta pelo direito à cidade dos movimentos sociais, deverá ser também um luta anti-capitalista e de reivindicação de capacidade de decisão coletiva, e de ação sobre os processos de urbanização, sobre o modo como as cidades são feitas e refeitas.

    Acho que temos de andar em diferentes níveis de luta. O sonho é que se consiga vir a criar outros espaços de autonomia ainda mais poderosos e consistentes e que consigam também dar uma nova mensagem à sociedade. Se conseguíssemos fazer uma grande ocupação de um prédio vazio e viver lá com muitas famílias e fazer ali uma proposta diferente… Eu acho que isso era um sonho que se quer fazer e acho que um dia vamos fazer. Mas ao mesmo tempo, acho que não podemos ficar muito satisfeitas apenas porque temos um prédio que está ocupado e auto-gerido e depois há todo o resto do problema que continua a manter-se. Então eu acho que temos sempre de entrar na disputa na política também. As duas coisas são importantes e complementares».

    Ana lembra que o problema da gentrificação ou da especulação imobiliária é, afinal, o problema de uma forma de organização social capitalista de gerir as cidades, que tem aberto caminho a soluções de privatização e de segregação social em detrimento de soluções de democratização da habitação e do espaço urbano. Diz-nos ainda que «por mais importante que seja a habitação, não será ela, quanto a mim, a responsável por estes problemas todos. Faz parte é do sistema. Porque se o sistema fosse outro, a habitação não seria um problema». Dentro deste sistema que Ana descreve, a habitação ganha hoje, mais do que nunca, o estatuto de um privilégio ao alcance de cada vez menos pessoas.

    Por outras palavras, a construção das cidades encontra-se nas mãos de uma pequena elite política e económica com condições para moldá-la segundo as suas necessidades e desejos particulares. Por isso, a luta pelo direito à cidade dos movimentos sociais, deverá ser também um luta anti-capitalista e de reivindicação de capacidade de decisão coletiva, e de ação sobre os processos de urbanização, sobre o modo como as cidades são feitas e refeitas. Como afirma o geógrafo David Harvey, no seu livro Cidades Rebeldes – do direito à cidade à revolução urbana (2012): «Há muito trabalho a fazer, mas há sinais abundantes nos movimentos sociais urbanos ao redor do mundo de que existem muitas pessoas e uma massa crítica de energia política à disposição para fazê-lo».

     


    Texto de Catarina Leal [catarinafleal@gmail.com] e Guilherme Luz [@guixluz | gui.luz@jornalmapa.pt]

    Ilustraçōes de Emma Andreetti


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #25, Novembro 2019|Janeiro 2020.

  • O que se passa no Sado não pode passar ao lado

    O que se passa no Sado não pode passar ao lado

    No dia 9 de janeiro ocorreu o que os pescadores, ambientalistas e setubalenses temem e contra o qual lutam: a destruição do habitat do rio Sado. A pradaria marinha localizada na zona de Eurominas, no estuário do Sado, acabou soterrada na sequência do rebentamento de uma parede do tanque de contenção de águas da dragagem, provocando uma escorrência de sedimentos sobre a praia onde se encontra a pradaria. Esta dragagem destina-se a aprofundar o terminal Teporset, concessionado às empresas Secil e Cimpor para transporte de granéis sólidos, aumentando assim a acessibilidade ao porto de Setúbal. Uma dragagem que não careceu de estudo de impacto ambiental [ref] https://www.jornalmapa.pt/2020/05/15/a-draga-os-pescadores-e-o-ambiente/[/ref].

    O episódio vem sublinhar os receios fundados dos protestos contra as dragagens iniciadas em dezembro de 2019, após um Estudo de Impacto Ambiental tecnicamente «favorável condicional», confirmando ser um caminho para o desastre. A organização Ocean Alive, que trabalha para defender as pradarias marinhas do Sado, teme que a permanência das lamas nas pradarias destrua a maternidade de vida marinha.

    A Teporset, empresa concessionária do terminal portuário adjacente ao local, referiu em comunicado prever que «a ação das marés, em conjunto com condições atmosféricas favoráveis, promova a movimentação natural destes sedimentos, regularizando progressivamente a situação», prometendo ainda, sem qualquer especificação, «tomar as medidas consideradas apropriadas para acelerar o processo de recuperação natural do ecossistema, se tal se revelar necessário».

    SOS Sado

    Os trabalhos de dragagem em nome da Secil aumentam o impacto da cimenteira, como previu o movimento SOS Sado, que teme o efeito destas lamas no sapal [ref] Ecossistema de grande importância ecológica, que possui um papel preponderante no ciclo de
    matéria orgânica numa perspectiva de produtores primários.[/ref] da praia local, que não preocupa o Instituto de Conservação da Natureza e as Florestas (ICNF) por não considerar as lamas poluentes. No entanto, de acordo com a SOS Sado, o material dragado é «proveniente de uma zona do estuário onde vários estudos ao longo dos últimos vinte anos apontam presença de vários poluentes tóxicos em quantidades preocupantes e depositado num terminal que serve há vários anos de local de armazenamento e transporte de matérias como cimento, clínquer e, numa vida anterior, produtos metalúrgicos, [e que] é derramado em grande quantidade numa zona integrante da Reserva Natural do Estuário do Sado, soterrando fauna e flora ali presentes».

    O ICNF só se deslocou ao local nos dias 18 e 20 de janeiro, depois de a Associação Setúbal, Ambiente & Cidadania, em conjunto com a cooperativa Ocean Alive, terem denunciado a situação. Aí, confirmou o derramamento de lamas devido às más condições da bacia de retenção dos sedimentos da dragagem, construída em Zona de Proteção Especial (ZPE) e perto da área invadida pelas lamas, também uma Zona Especial de Conservação e ZPE do Estuário do Sado.

    A resistência por parte da população ao projecto das dragagens do Sado tem sido constante e diversa, defendendo a economia local, a preservação de espécies e habitat, a nostalgia de voltar a ver o Sado como uma casa para golfinhos, e continuando a irreverência sadina na luta de classes[ref] https://www.jornalmapa.pt/2019/02/19/o-povo-e-solidario-na-defesa-do-estuario/[/ref]. Em fevereiro de 2019 uma assembleia popular alertou para os problemas do projecto, com a participação de pescadores, especialistas ambientais, conservacionistas, movimentos sociais e populares. Mais do que uma luta ambiental, as implicações nocivas desta estrutura levam a uma luta social local, como testemunhado pela antropóloga Vanessa Amorim que tem vindo a abordar as comunidades piscatórias de Setúbal [ref] https://www.jornalmapa.pt/2020/05/26/entre-o-sustento-e-a-sustentabilidade/[/ref].

     


    Texto de João Vinagre
    Fotos de SOS Sado [https://www.facebook.com/sossado/]

  • Mulheres em luta pelos direitos das pessoas presas

    Mulheres em luta pelos direitos das pessoas presas

    Vera Silva, antropóloga do Centro em Rede de Investigação em Antropologia e do Observatório Europeu das Prisões, é voluntária em projeto com mulheres presas no Estabelecimento Prisional de Santa Cruz do Bispo. É uma das proponentes da REDE, Plataforma Sociedade Civil e Prisões criada em 2020.

    Apresenta-nos a REDE?

    A REDE Entregrades é uma iniciativa promovida por várias pessoas e organizações da sociedade civil com intervenção nas prisões, no sentido de ampliar a discussão sobre o sistema prisional, na procura de soluções que melhorem a situação das pessoas enredadas nas prisões: pessoas presas, ex-presas, familiares e profissionais da prisão. Um debate praticamente inexistente em Portugal. Tem promovido fóruns mensais, a decorrer online desde julho, com grande adesão e participação. Até ao momento, já aderiram à REDE mais de 60 pessoas, a título individual e em representação de organizações. A estratégia descentralizada e a mobilização em torno da defesa dos direitos das pessoas presas, enquanto princípio que conduz a ação, tem permitido um debate bastante crítico e revelador da situação nas prisões, que resulta da confluência de diferentes experiências, localizações e perspetivas sobre a prisão. Um saldo bastante positivo desta iniciativa, única no contexto português e que surgiu num período complexo que reitera a urgência de ação coletiva sobre as prisões.

    A petição «Todos juntos por ti recluso», redigida em setembro por um grupo de familiares, deu origem a concentrações de protesto. De que se tratou?

    O movimento «Todos juntos por ti recluso» é impulsionado por um grupo de mulheres de várias regiões do país que têm familiares presos/as. Após quase quatro meses sem acesso a visitas, estas foram retomadas gradualmente a 15 de junho com regras especiais sob recomendações da Direção Geral de Saúde, que levaram à colocação de parlatório, à redução para uma visita semanal de 30 minutos e à limitação de duas pessoas por visita. O Estado investiu 300 mil euros na instalação de 675 parlatórios em prisões e centros educativos, e a informação, não oficial, que tem circulado é de que serão para manter, pelo menos nos próximos dois anos.

    Face a esta situação, no dia 4 de setembro manifestaram-se em Lisboa pelo direito às relações familiares e entregaram uma carta reivindicativa no Ministério da Justiça e na Direção Geral de Reinserção e dos Serviços Prisionais (DGRSP), exigindo o direito às visitas dentro dos trâmites que a lei nacional e internacional prevê e ainda a continuidade da aplicação da Lei 9/2020, que decreta as medidas excecionais de flexibilização de penas em período de pandemia. Eram mulheres, cerca de 20, do norte, centro e sul do país, de diferentes idades, entre os 20 e os 80 anos, algumas com as crianças a acompanhá-las. Durante a manifestação falaram dos vários problemas nas prisões: a falta de cuidados de saúde, medicamentos, material de proteção, a crónica má alimentação, a falta de informação e a inexistente reinserção social. As dificuldades que enfrentam para dar apoio e visitar. Muitas famílias têm de viajar centenas de quilómetros para terem apenas meia hora de visita. Os parlatórios foram também objeto de queixas: dificuldades de audição, que impedem o diálogo, e nenhum contacto físico é permitido.

    A manifestação teve início em frente ao Ministério da Justiça e seguiu para a DGRSP, concentrando-se nas imediações do edifício. A Ministra da Justiça e o Diretor Geral recusaram recebê-las pessoalmente. Essa recusa, bem como a não cobertura mediática das reivindicações, demonstra a clara indiferença e invisibilização social a que são remetidas estas mulheres e crianças. Esta manifestação, bem como outras concentrações de protesto à porta de prisões que aconteceram no início da crise pandémica, demonstra-nos que são as mulheres quem se tem mobilizado e quem suporta, nas comunidades, as consequências do encarceramento.

    À data em que falamos, a situação em Tires, das mulheres reclusas, é assustadora, com disseminação de casos de Covid-19 e a indiferença instalada…

    Infelizmente não me surpreende que o primeiro surto de Covid-19 identificado nas prisões tenha sido em Tires, pelas condições que esta prisão tem, e porque tendencialmente as mulheres e transgénero presas são sujeitas a uma maior negligência e violência. A gestão desta prisão face a este surto, apesar de só agora ser mediatizada, tem sido alvo de denúncias nos últimos meses, por parte de mulheres presas, familiares nas redes sociais, e recentemente pela Ordem dos Advogados. Falta de celas com o mínimo de condições, serviços médicos precários, falhas na distribuição de produtos de higiene e de limpeza, falta de comida, os produtos na cantina são caros e muitas não têm dinheiro para suprir, desta forma, as necessidades básicas, fecho nas celas durante 22h, e limitações no acesso a advogados, o que tem servido para o silenciamento sobre as condições em Tires. A prática do segredo institucional é comum nas prisões. Da minha experiência de investigação em Tires, durante 2019 até ao início de 2020, não me foi facilitada a circulação nas alas e pavilhões prisionais. Os relatos que consegui recolher confirmam vários dos problemas agora denunciados publicamente. Acrescento, ainda, que além da difícil situação das mulheres mães e crianças na prisão e das que têm os filhos/as no exterior, também tenho conhecimento de mulheres que, desde março, não têm visitas dos/as filhos/as que vivem em instituições de acolhimento de menores.

    A maioria dos problemas que se vivem hoje nas prisões não são excecionais, são velhos problemas que se intensificaram e multiplicaram. Os efeitos da crise pandémica agravaram as condições de vida dentro das prisões, promoveram um maior fechamento destas instituições à sociedade civil, o aumento da violência institucional, a limitação do acesso a bens essenciais e do contacto com familiares e amigos, a deterioração dos precários serviços de saúde e da saúde mental e física das pessoas presas.

    Sabe mais em: rede-entregrades.pt

     


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #29, Dezembro 2020|Fevereiro 2021.

  • Celtas, mentiras e Viriato

    Celtas, mentiras e Viriato

    Todo o passado tem o seu modo de usar. A história não é um campo isento e à sua interpretação podem ser aplicadas as mais diversas fórmulas, consoante o modo como queremos ver o nosso passado, para sustentar as escolhas ideológicas do nosso presente. Nessa medida, o chamado Celtismo é para o ocidente europeu a matriz fundacional a partir da qual se ergueu, desde a Antiguidade grega e romana, o olhar diferenciador entre o civilizado, superior, e esse «Outro» céltico, inferior e bárbaro. Mais tarde, variações diversas a esta dicotomia implicariam uma visão oposta, uma noção romântica de «celta» que viria a estar na base da construção dos nacionalismos: a alteridade da resistência rude, primitiva, evocando imortais tempos de povos e heróis patriotas contra as hegemonias de Roma, do inimigo externo. O eterno pano de fundo das afirmações nacionalistas, sejam elas extremadas à direita ou à esquerda, tecido num fio narrativo anti-sistémico e de forte atractivo «espiritual», veio igualmente a albergar as propostas alternativas à modernidade capitalista, da new age de ficção naturista do «bom selvagem» ao regresso à rudeza pagã da vida entre os montes. Por fim, o Celtismo encenou a marca identitária de uma primordial construção supra-nacional europeia: resgatada ora pela União Europeia, ora pela emergente corrente da extrema-direita identitária de uma Europa branca e não-miscigenada. Por tudo isto, os Celtas são um nada inocente e sólido edifício da nossa memória colectiva.

    Tudo isto nos foi ensinado na escola, através da figura de Viriato, pai fundador da epopeia nacionalista lusa. Tudo isto nos foi apresentado como entretenimento, no cinema, na literatura, nos festivais celtas, em espectáculos musicais e nas feiras históricas descartáveis; inscrito em tatuagens nos nossos corpos; imerso nas nossas memórias; mercantilizado até à exaustão. Um atractivo e eficaz chamamento que se resume a uma impostura, uma sucessão de mentiras. A acumulação de «modos de ver» a história segundo uma narrativa fabricada por quem dita, pode e manda; ou recuperada no discurso de quem se opõe e resistes em prescindir da essência do celtismo: a narrativa do passado legitimador do Poder; ou, ainda, uma justificação ancestral de um passado que nos guie num sentimento de pertença e de identidade colectiva.

    O ponto-chave da questão do Celtismo é que este emerge de um discurso identitário que vinca a valoração e sobreposição ao «Outro»

    Para questionar a narrativa celta, não basta denegrir o celtismo popular, uma vez que o direito à construção das memórias não pode, nem será nunca, apanágio das academias. Tão pouco podemos considerar o celtismo como «mentira» sem explicar o que daí advém. A única certeza é que toda a análise histórica, conscientemente ou não, cria, desmonta ou reestrutura as imagens do passado, servindo, como dizia o historiador Eric Hobsbawm, não o fim da investigação especializada, mas a esfera pública do homem como ser político. Como refere Gonzalo Ruiz Zapatero, da Universidade Complutense de Madrid, um dos arqueólogos que mais têm reflectido sobre a historiografia dos celtas e sobre o «uso público» do passado nas sociedades contemporâneas, a academia, de tom aborrecido, nada pode perante as «esferas de informação popular da história. E, em quase todas elas, as imagens, as representações icónicas são fundamentais» e «nunca chegam a desaparecer de todo». Constatação que não deverá desarmar uma historiografia crítica que, pensando o passado, ajude a compreender melhor o presente para que nele se possa actuar. Clarificando «que não há uma resposta única e verdadeira», com a consciência «de que a historia contribuiu – e deve fazê-lo – para o desenvolvimento das identidades relacionais dos indivíduos».

    O olhar crítico deste artigo segue a preocupação acima exposta, aflorando quem foram os celtas, ou Viriato e os lusitanos, para nos centrarmos na «sociologia céltica» e nas raízes do celtismo como alicerce de nacionalismos, regionalismos e independentismos. Este é, assim, um olhar sobre o «modo de usar» o conceito de «celta», cuja fórmula simples e popular, segundo Silvia Alfayé, da Universidade de Zaragoza, alberga a ideia «de uma Europa céltica que encobre e alimenta uma ideologia xenófoba e fascista que encontrou no celta o herói das suas essências pátrias, implacável na luta contra o multiculturalismo, a mistura racial e o judaico-cristanismo». Esta ideologia corre assim a par, e tira proveito, de outros mais irrefutáveis e legítimos anseios da nossa modernidade que também recorrem ao celtismo moderno «para reconectar com dimensões espirituais perdidas de cada um, para articular modos-de-estar-no-mundo alternativos, para expressar identidades e sentimentos de pertença, construir utopias, legitimar reivindicações políticas, reactivar uma natureza mágica, desfrutar do ócio, vender produtos e atrair o turismo».

    Celtas: quem foram afinal?

    O nome keltoi foi dado pelos gregos da Antiguidade ao conjunto de povos da Europa Central e Ocidental a eles opostos: o seu «Outro», a que os romanos fizeram corresponderam ainda o termo Galli (Gauleses). A formulação da «identidade celta» depende, portanto, do olhar greco-romano sobre os povos da Idade do Ferro que habitavam regiões que viriam a ser ocupadas pelo império romano e que eram genericamente entendidas como «célticas». «Celta» é assim uma generalização de um vasto conjunto de povos de contornos indefinidos e que, organizados de forma tribal, se diferenciavam e concorriam entre si. Não é possível falar de uma qualquer unidade política, nem de uma organização comum, que nunca existiu para lá de pactos e de alianças de guerra pontuais.

    Implícita está a ideia de movimentações de populações cujo elo ancestral indo-europeu se multiplicou em vários povos de línguas célticas, elemento chave tomado até aos nossos dias para transmitir a ideia agregadora de uma cultura comum, de uma «civilização celta». Resultado dos estudos linguísticos dos séculos XVI a finais XIX, a noção de povos falantes de línguas célticas não implica, por si só, uma identidade étnica ou cultural. Mas a abordagem linguística, então associada à emergência do estado moderno, e a redefinição das identidades de grupo em termos étnicos, e mais tarde em nações, constitui-se como o principal argumento de um pretenso nexo de continuidade e relação entre os celtas da Antiguidade e os «celtas» de épocas mais tardias, medievais e modernas.

    Celtas
    Imagem da marcado tabaco “Celtas”, Espanha.

    Ao ramo linguístico, concorre adicionalmente o ar de família e filiação comum demonstrado pela partilha de rituais e de materiais variados que a arqueologia tipificou numa corrente de estilos artísticos. Uma vez mais, a partilha de expressões materiais comuns não é garantia da unicidade de um «povo celta». Não há um povo celta, mas muitos celtas. Cada um com a sua personalidade própria e com maior ou menor autonomia, consoante o jogo de forças.

    A sua movimentação deu-se, com maior enfoque a partir do séc. VIII antes da nossa era, da Europa Central à Turquia e a Portugal ou às Ilhas Britânicas, e partiu de circunstâncias várias, acossados por guerras, episódios climáticos ou pressões demográficas. O que importa não esquecer é que a sua instalação nos territórios que as fontes clássicas associam aos celtici – como seja o sudoeste da península ibéria, actual Alentejo e Extremadura Espanhola – é feita em miscenigação com as populações pré-existentes, da mesma forma como posteriormente ocorrerá com os romanos. A ideia de «pureza racial», preservando os traços arianos centro-europeus, é totalmente descabida. Já para não perguntar: o que garante, afinal, o título de «indígena»? A partir de quantos anos é que alguém é «indígena» num determinado lugar?

    Mas, na arqueologia proto-histórica, a identidade celta e continental assumiu uma primazia na senda do «paradigma racial» das bases étnicas dos Estados-Nacões. Tal busca de uma ancestralidade celta leva simultaneamente à redução da Europa a uma Europa céltica, quando os supostos territórios célticos ocupam apenas 30% do continente, deixando de fora os outros grupos pré-romanos. O certo é que esse paradigma valorou, na narrativa histórica, o discurso eminentemente difusionista das vagas populacionais celtas. No decorrer do primeiro milénio antes da nossa era, essa componente continental resultava na diferenciação, em torno do séc. V, de uma segunda Idade do Ferro, que na Península Ibérica contrastaria com uma anterior primeira Idade do Ferro orientalizante, sob a influência do mundo fenício e de reinos míticos como Tartessos, no sul peninsular. Um modelo que destacará a influência continental no interior da Península como o substrato étnico de castros governados por chefes guerreiros.

    Esta explicação tradicional da Idade do Ferro tem sido rebatida a favor do reconhecimento das especificidades e continuidades das realidades regionais peninsulares e de novos quadros conceptuais que não simplesmente o «céltico», que se segue ao «orientalizante», assim invertendo para segundo plano as visões de conjunto de escala europeia ou mediterrânica. Na actualidade, mesmo que uma parte da arqueologia mantenha a posição clássica do conceito étnico celta em relação a uma segunda Idade do Ferro (de raiz na cultura europeia de La Téne), impôs-se nas últimas décadas a necessidade de desconstruir e desfazer a categoria confusa e errónea criada em torno do céltico.

    Ponto de partida: o Outro

    O ponto-chave da questão do Celtismo é que este emerge de um discurso identitário que vinca a valoração e sobreposição ao «Outro». Essa formulação teve dois momentos principais, ao mesmo tempo contraditórios e complementares. Na acepção original de «celta», expressa por gregos e pelo domínio romano, essas populações são apresentadas em contraponto ao «civilizador» greco-romano, como o protótipo da «barbárie». Ao celta correspondia um tipo físico e psicológico com a ferocidade e o ardor guerreiros, de infindável desejo de liberdade e de práticas selvagens, embriagadas e extravagantes. Não esqueçamos: esse estereótipo não mais desaparecerá do discurso colonial, arauto da expressão civilizadora superior.

    Coube ainda aos autores greco-latinos, num segundo momento, a formulação do arquétipo celta do «bom selvagem» e «patriota», já nos finais do império romano, através de autores como Tácito, que reagia à avareza e amoralidade da Roma. Como refere Silvia Alfayé, consolida-se o modelo da simplicidade rústica, contemplando a «nobreza inocente do selvagem não corrompido pelos vícios sofisticados da civilização» e em que «a temeridade do combate se converte assim em heróica defesa da pátria, dos antepassados e da libertas». A figuração céltica servia então de cenário para acentuar os valores tradicionalistas a que a velha Roma degenerada deveria regressar.

    A dimensão política

    No seu «uso público» o celtismo está longe de poder ser encerrado como um problema histórico. É essencialmente uma questão sociológica, e do presente, em que a figura celta é projectada como um modelo utópico. Lidamos, diz-nos Silvia Alfayé, com «estereótipos, comunidades imaginárias e tradições, identidades e etnicidades célticas inventadas, que desempenharam um papel, esse sim histórico, inegável: a construção de entidades étnicas colectivas, projectos políticos e ideológicos, sejam nacionalismos, regionalismos ou discursos pan-europeistas».

    a «Epopeia dos Castros» de Viriato e dos lusitanos permanece congelada no passado. No passado saudosista do Estado Novo, entenda-se

    Nas sociedades contemporâneas esse uso político constitui-se como precedente da identidade e unidade política da União Europeia, ao mesmo tempo que é a inspiração por excelência das narrativas nacionalistas, onde o passado de confrontação guerreira com Roma é hoje parte do capital simbólico da identidade étnica construída intemporalmente contra o «inimigo exterior». Esta é a narrativa dos heróis fundadores, capazes de defender com a vida a pátria e a sua liberdade. E na síntese das opções centrípetas (europeístas) e separatistas, emerge a linha de pensamento identitário da extrema-direita, na qual a nostalgia do passado comum céltico e caucasiano guia o seu mito pan-europeista, pelo qual há que expulsar de todo o elemento externo que não se adeqúe na Europa (e no ocidente) a essa visão de celticidade.

    Rapidamente podemos adivinhar que, passados dois milénios, no discurso populista contra o «degenerado» ocidente ecoem os clamores tradicionalistas de Tácito sobre Roma. E no discurso autoritário que reclama a mão férrea dos velhos tempos e no reavivar dos fascismos revelam-se as figuras arquetípicas dos passados nacionais celtas.

    A invenção de uma Nação

    Em Portugal, a extrema-direita, por entre outros esqueletos no armário tradicionalista, racista e xenófobo português, parece não encontrar motivos de preocupação, dado que, da esquerda à direita, a cartilha memorial nacionalista pré-histórica em nada divergiu. Recuemos pois ao «nascimento da nação» portuguesa, não ao seu factual referente dinástico, mas ao passado étnico imaginado na construção do «português primordial».

    A figura mais presente como antepassado «luso» é o habitante dos castros. Os povos castrejos e lusitanos, possuidores de «uma nobreza de carácter e firmeza da defesa do território, tudo isto num quadro de rudeza bárbara», como resumiu Carlos Fabião, arqueólogo da Universidade de Lisboa, num dos vários artigos que endereçou ao tema. Um sentimento colectivo que expressa os arquétipos celtas forjados desde o século XIX na busca das raízes das nações europeias, «um dos grandes programas político-culturais dos românticos para a definição das “almas nacionais”». Ao contrário, porém, de outros espaços europeus, as fronteiras relativamente estáveis desde a Idade Média não obrigavam Portugal à resolução de um «problema nacional». Menos ainda regionalista e separatista. O que não escusou o ensejo erudito e politico português do forjar mítico dos antepassados na afirmação dos nacionalismos europeus.

    Partilhando esses arquétipos, os arqueólogos portugueses de finais do século XIX, como Martins Sarmento, ou dos inícios do século seguinte, como Leite de Vasconcellos, assumiram, porém, os Lusitanos e a Lusitânia pré-romana como um povo de origem indo-europeia, mas pré-célticos arianos. Quanto maior a antiguidade, maior a legitimação étnica, pelo que Martins Sarmento remonta os castros aos tempos neolíticos e ao megalitismo. E neste mundo castrejo ganhavam relevo as estátuas de guerreiros, identidade e símbolos da heroicidade lusa frente ao inimigo exterior.

    Mas a tal posição opunha-se um distinto modelo de etnogénese defendido por Alexandre Herculano, que colocava o nascimento de Portugal «da revolução (de um punhado de nobres do condado portucalense) e da conquista (sobre o sul islâmico)», o que, como refere Carlos Fabião, «servem bem distintos discursos filosóficos e políticos». Oliveira Martins, outro historiador de finais do século XIX, subscreveria Herculano: nada no passado pré-romano apontaria a qualquer individualidade étnica no espaço português.

    Os feitos militares contra os «mouros» (estes banidos da herança nacional) ou contra Castela e a Época dos Descobrimentos assumirão efectivamente a primazia no discurso nacionalista português.

    Já no século XX, será com o Estado Novo que a valoração étnica assumirá uma exaltação épica, pronta a corrigir o que era designado como «o erro de Herculano» e a favor dos «nossos antepassados lusitanos».

    Tal se deve essencialmente o arqueólogo Mendes Corrêa, cuja obra a editora portuguesa Contra Corrente, veículo da extrema-direita identitária em Portugal, anuncia reeditar. No seu primeiro volume da História de Portugal, que intitula de “Lusitânia Pré-romana” (1928) é reforçada o argumento da longevidade, evocando um «império megalítico atlântico» e destaca-se «a Epopeia dos Castros». Aí se afirma como Viriato e «os lusitanos marcam o seu papel histórico sobretudo como guerreiros ciosos da independência pátria, insubmissos perante o poder e a cultura dos invasores. Ao contrário dos tartéssios e turdetanos [povos do sul peninsular], pacíficos e facilmente influenciáveis por estranhos, eles mantêem tenazmente durante séculos a sua rebeldia indomável». Por isso, Mendes Corrêa não desarma: «com a morte de Viriato não findara entretanto a epopeia dos castros», entendidos como as «nossas remotas glórias, o lar puríssimo da grei, a longínqua e primordial explicação da nossa independência e do nosso papel no mundo». E como os tempos eram de vento em popa aos ares germanófilos arianos, os lusitanos seriam certamente «Pré-Celtas, que receberam a influência cultural e talvez antropológica dos Celtas». Como refere Carlos Fabião, acrescentaria ainda Mendes Corrêa o argumento etnográfico do mundo rural português. Este «era o que era, por constituir uma permanência arcaizante de hábitos e tradições milenares». Miseráveis, mas lusos. A ironia dos dignos representantes da simplicidade rústica que os gregos haviam evocado dois mil e quinhentos anos antes.

    A verdade é que a narrativa de Mendes Corrêa permanecerá como o discurso oficial do «nascimento da nação» no seu passado pré-romano. Impresso ao longo dos anos de ditadura de Salazar e inculcado pelas suas, hoje musealizadas, escolas primárias. E se Viriato surge notoriamente nos manuais escolares até à década de 1960, apenas vem a desvanecer o seu peso com a circunstância da entrada em cena das «guerrilhas» dos movimentos de libertação das colónias portuguesas. O certo é que a formulação heroificada da pátria em Viriato não mais descolou dos programas de ensino oficial antes e depois de 1974. Se o questionamento das epopeias pátrias portuguesas seguintes, como a dos Descobrimentos, tem vindo a suscitar justificadas discussões, já a «Epopeia dos Castros» de Viriato e dos lusitanos permanece congelada no passado. No passado saudosista do Estado Novo, entenda-se.

    Viriato
    Estátua de Viriato, Viseu.

    Celta pronto-a-vestir

    Por toda a Europa, os nacionalismos recorreram ao passado céltico como construção dos referenciais étnicos primordiais. Em França, a identidade gaulesa surge com a fundação por Napoleão, em 1805, da Academia Céltica, enaltecendo o mito do herói nacional Vercingetorix, chefe gaulês da batalha de Alésia. Já o nacional-socialismo nazi será porventura o exemplo extremo e mais conhecido da ideologia nacionalista xenófoba e totalitária construída sobre o paradigma celta e pelo qual Hitler ascendeu, popularizando a «superioridade natural» alemã.

    Em Espanha, que igualmente reclama o «seu» Viriato, o mosaico do pronto-a-vestir de celtismos varia entre o nacionalismo espanhol da ditadura de Franco e, após a transição democrática, as roupagens célticas mais ou menos independentistas das regiões autónomas a norte. A base racial «primordial» reconhecida popularmente em Espanha é a dos celtiberos, tanto de celtas como de iberos, apesar de o regime franquista ter ensaiado inicialmente um pan-celtismo. O lado fascista promovia, já em plena Guerra Civil de 1936-39, como nos fala Ruiz Zapatero, o espaço geográfico espanhol como uma realidade natural unitária, a unidade política e a unidade religiosa católica. Nessa exaltação nacional, como nos episódios de resistência ao invasor romano de Sagunto ou Numancia, defendia-se, em afinidade com a Alemanha nazi e a Itália fascista, uma sobrevalorização dos celtas e menos dos iberos. No fim de contas, os investigadores madrilenos mais influentes, como Martínez Santa-Olalla e Almagro Basch, haviam estudado na Alemanha a supremacia ariana. Mas, no pós-Segunda Guerra Mundial, depois dos processos de «eliminação» assiste-se à «recuperação» dos iberos, formulando os celtiberos como os «primeiros verdadeiros espanhóis», como nos finais do século XIX havia sido proposto. Hoje o celtibero permanece um emblema da extrema-direita contra os independentismos, seja proclamado pela estética nacional-católica, seja nas fileiras nazis, chamando a si a estética pagã pré-romana, ambos em oposição a qualquer mestiçagem cultural e étnica.

    Mas o celta, na sua luta frente ao opressor externo, é também atractivo junto das exaltações regionais ou independentismos nacionalistas das esquerdas comunistas. Como estatuto das comunidades autónomas, em 1978, o discurso nacional dos celtas deu lugar a uma explosão de «histórias nacionais», sobretudo na Galiza, Astúrias e Cantábria, tornadas regiões-marca de um celtismo popular em crescendo. Um processo em contra-ciclo com a região céltica mesetenha, ainda que sítios arqueológicos como Numancia tenham conseguido promover-se com sucesso enquanto «produto» turístico local e regional.

    a actual extrema-direita identitária e populista deste século cuidaram de não descurar as esferas de informação popular da história, alicerçando-as em imagens e fabricando poderosas representações icónicas em torno de três eixos: a raça, a pátria e o herói

    Na Galiza, a reconstrução histórica dos celtas recuará mesmo à acção política do séc. XIX, explicando a grande importância do celtismo na região, como exemplifica o clube de futebol Celta de Vigo. À semelhança da vizinha região portuguesa, que as fontes clássicas custavam já a diferenciar dos Galaicos, os castros são tradicionalmente lugares celtas, e também a Galiza tem os seus defensores de uma origem indígena (pré-histórica), e não celta, das suas tribos. Mas, como em Portugal, o celtismo é devedor não de qualquer debate arqueológico, mas de manifestações socio-ideológicas nascidas de um romantismo nacionalista, apoiado na mitologia e folclore galegos, na música popular tornada «celta», na imaginação popular ou mesmo no exoterismo contemporâneo neo-pagão.

    Crer, obedecer e consumir

    Todos estes celticismos nacionalistas de «alta intensidade» não poderiam perdurar sem os celticismos de «baixa intensidade». Há sempre um momento em que apelamos ao nosso lado neocelta num festival global de música celta ou na enésima feira de recriação histórica. Mais ainda quando somos próximos às ruínas de que os nossos avós falavam e que os arqueólogos vieram escavar. Nesse momento, todas as estratégias mercantilizadas e turísticas parecem não só fazer todo o sentido, para que o «castro» dos nossos avós não caia no esquecimento, como também se assemelham a uma justa recuperação dos nossos sentidos de pertença individual e local. Da nossa região, hoje periférica em tempos de globalização, mas que cremos central nesse passado remoto.

    Como enuncia Gonzalo Ruiz Zapatero, o poder que o passado exerce resulta da natureza destes ícones enquanto senhas de identidade e referentes de prestígio: «apresentam-se aos olhos do espectador completamente descontextualizados, mas rodeados de uma áurea de respeitabilidade pela sua antiguidade e pelas suas implicações históricas, independentemente de estas serem conhecidas ou não pelo observador.» Invocam três aspectos: a Origem; a Antiguidade – a raiz e nobreza de um antepassado comum – e o Progresso: a possibilidade de uma evolução dentro da identidade. Mas, mais que invocados, são-nos impostos. A cultura, enquanto instrumento de controlo social, dita-nos nas palavras de Rafael Sánchez Ferlosio: «esta é a tua herança histórica, este é o teu ADN cultural, esta é a tua inealável identidade».Por isso, os fascismos europeus do século passado e a actual extrema-direita identitária e populista deste século cuidaram de não descurar as esferas de informação popular da história, alicerçando-as em imagens e fabricando poderosas representações icónicas em torno de três eixos: a raça, a pátria e o herói. Consciente ou inconscientemente alimentados até à exaustão nos manuais escolares, em bandas-desenhadas, filmes, na imprensa, literatura, nos cancioneiros e poesias populares, nas práticas religiosas, nos produtos locais; ou até onde os mercados, a publicidade e a política nos podem levar. O importante é crer, não entender.

    Ponto de chegada: o Outro

    Assumindo a história como contributo ao desenvolvimento das identidades nas relações entre povos e indivíduos, importa desmontar mistificações em nada inocentes, como o celtismo. Apenas esse compromisso permite apelar à busca de novas referências colectivas e funções sociais, que não o quadro de referência celta e a intolerância étnica sobre a qual ele foi edificado.Com efeito, os estereótipos célticos, da valorização do local, da rusticidade e da relação com a natureza e da resistência pela liberdade, abrem outras possibilidades ao modo de ver o passado e um outro presente. Como conclui Ruiz Zapatero: «negar a existência dos celtas pré-históricos porque outros manipularam a sua origem é negar um passado possível». Não se trata assim de deixar de «demonstrar a nossa herança comum europeia e as nossas identidades regionais e de grupo», mas sim «e sobretudo empregar a história para demonstrar o disparate do conflito étnico, tanto no seu uso ilógico de símbolos e da história, como pelo dano que causa a quem se deixa levar por ele. Por isso, o caminho está na desconstrução da categoria celta impressa na história europeia desde há mais de 300 anos. Só a partir da crítica construtiva do conceito poderemos descobrir a realidade oculta por detrás dos clichés convencionais, clichés que nós fomos construindo e que estamos moralmente obrigados a desconstruir».

    O grande desafio coloca-se à formulação das identidades colectivas. E o celtismo é um exemplo do espelho de visões distorcidas reflectidas por essas identidades imaginadas. O celtismo pretende simplificar e encerrá-las num corpo único e rígido, social e étnico, negando a dinâmica e riqueza natural das variabilidades inscritas em qualquer identidade histórica socialmente construída. À semelhança dos nacionalismos – sejam eles quais forem – as ideologias identitárias, nas palavras de Júlio do Carmo Gomes «predispõem-se ao cerrar de fronteiras em vez de se abrirem ao nexo relacional com o outro». Não se expandem, antes contraem-se. Neste caso, o celtismo impõe, nos seus códigos, a moralidade eugenista e xenófoba dos «verdadeiros» e «primordiais», e adoptaa rigidez normativa de relações humanas feitas de exclusão e de punição. Esse olhar distorcido ao espelho recusa a relação perspectiva e evolutiva com o Outro. E esse é um passado que não deverá tornar-se presente, nem nos abrirá as portas ao futuro.

    Drúidas e pagãos

    Druidas

    O valor ideológico do celta como «Bom Selvagem» e a ideia de um modo de vida rude e simples apela a «uma balsâmica e atractiva utopia, na qual o indivíduo poderia recuperar a harmonia com a natureza, o sentido de pertença a uma comunidade orgânica, a comunicação com o mundo espiritual, a expressão livre e não normalizada das suas emoções e da sua criatividade e o desfrutar da vida». Assim ilustra a arqueóloga Silvia Alfayé o apelo celta a um modo de vida alternativo à modernidade e à sociedade tecno-industrial. Um modelo imaginado de rusticidade contendo «elementos de cultura local, uma etnicidade mística, uma associação com o rural que satisfaz as nostalgias ecológicas de culturas que sabiam “escutar a terra” e umas práticas religiosas distanciadas das ortodoxias estabelecidas».

    Nesse apelo dificilmente se poderá contrapor as falsidades das narrativas pseudo-históricas. A verificação científica é rejeitada em prol da «intuição» e da «visão interior». Nessa esfera, a errada concepção de um povo celta único baseia-se numa religião celta acriticamente tomada num todo europeu «onde pontuam druidas, rituais sacrificiais e megalítos – círculos de pedras, pedras de sacrifício, altares e santuários rupestres – que não são mais do que fruto do imaginário do sacerdócio druídico construído durante o romantismo» do século XIX.

    Este «modo de ver celta» encerra ainda o potencial de uma narrativa política pela qual a «celticidade pós-moderna se constrói em contraste permanente com os valores ideológicos do capitalismo, como uma reacção mas também como uma solução anti-sistema, gerando assim diversas, e ocasionalmente incluindo, identidades neocélticas contraditórias». Mas este campo alternativo é essencialmente uma narrativa espiritual, onde distintos e contraditórios sujeitos neo-celtas aludem a um neo-paganismo que faz uso de imagens, ritos e símbolos comuns associados à natureza. Estes, e os seus objectivos políticos e espirituais, revelam-se nos mais opostos possíveis: de neonazis a anarquistas, caricaturando.

    espiritualmente não há qualquer inocência nos modos de ver o passado céltico

    Também espiritualmente não há qualquer inocência nos modos de ver o passado céltico. A ética social subjacente às referidas contradições requer, por isso mesmo, não uma negação da espiritualidade, mas um acutilante olhar crítico e uma clarificação do seu uso. Importa resgatar as palavras de Júlio do Carmo Gomes à volta do paganismo e da espiritualidade no ocidente (Parte III da série Candomblé na edição 25 do Jornal MAPA): «a espiritualidade enquanto devir para a liberdade é uma coisa; a espiritualidade cooptada pelas instituições políticas da sociedade é coisa bem diversa».

    O celtismo que surge na reacção do romantismo à modernidade não poderia deixar de eleger o paganismo como um dos seus eixos centrais. Equiparou Júlio Gomes, paganismo e «homem selvagem» ao «antimodelo do homem civilizado». E esse é também o Outro da cultura greco-romana e judaico-cristã, personificado no celta. Por «paganismo» referimo-nos à generalidade das tradições religiosas politeístas, a cultos e a divindades veneradas em práticas profanas relacionadas com os elementos da natureza. Por «neo-paganismo» referimo-nos ao reviver dessas religiões europeias já extintas, e à recuperação da espiritualidade profana, popular, do mundo rural e natural. A equivalência possível com o neo-celtismo resulta das práticas espirituais de inspiração céltica, como neo-druidismos, a wicca, entre outras.

    É nessas distintas práticas, e não a espiritualidade que comparte a «nostalgia por um “cosmos encantado” pré-industrial», que os opostos se revelam. Como recorda Silvia Alfayé, por um lado, o nacional-socialismo nazi de Hitler contrapunha uma «alternativa religiosa e ética ao judaico-cristianismo», adequando o passado celta à popularização de uma «nova religião etno-pagã que misturava cultos solares, assembleias militares e elementos mitológicos germanos e escandinavos».

    Um etno-paganismo de extrema-direita ainda hoje bem presente em correntes musicais «nórdicas» do black metal à folk contemplativa, mas que remonta aos inícios do séc. XX, na edificação de uma «cultura alemã» higienista e eugenista (da qual resultará a colagem céltica aos corpos atléticos que ainda hoje perdura). Pelo lado oposto, sobretudo a partir dos anos 1960, desenvolvem-se nos movimentos ecologistas, de contestação da esquerda e anarquistas, um neo-paganismo como uma «religão verde», no qual o papel «druídico» feminino toma lugar no empoderamento das mulheres e dando lugar a comunidades e vivências alternativas. Elementos que hoje possibilitaram parte da emergência do eco-feminismo e de uma visão espiritual dos movimentos ambientalistas que reactivam «topografias sagradas atávicas mediante o ritual, contribuindo proactivamente à re-sacralização e re-mitificação do mundo».

    O neo-paganismo celta resulta assim, conforme exposto, num conceito de múltiplos usos, espelhando a diversidade dos caminhos do celtismo, a partir de uma mensagem tão simples como eficaz, de retorno à natureza ou a um passado impoluto.

    Viriato: a fabricação de um mito

    ViriatoViriato é o primeiro herói nacional. Chefe dos Lusitanos, com berço na Serra da Estrela, o proclamado povo pré-romano dos Portugueses. Viriato foi um chefe guerreiro, ilustrado por autores greco-latinos e contemporâneos como modelo estóico de virtudes: o homem natural, das montanhas, sóbrio e frugal, resistente às agruras do tempo e indomável guerreiro.

    Os arqueólogos Carlos Fabião e Amílcar Guerra, da Universidade de Lisboa, têm vindo a desmontar a elaboração mítica de Viriato. Se a figura mítica corresponde efectivamente ao «representante de uma sociedade cujos princípios e valores se diferenciavam substancialmente dos romanos e que lutou até ao fim contra uma submissão inevitável», já «não se pode, no entanto, transformar a questão viriatiana num problema de contornos nacionalistas. Definitivamente, Viriato não foi nem Português nem Espanhol. Foi e será sempre e apenas um Lusitano».

    Em termos geográficos o território chamado Lusitânia nunca chegou a consolidar-se antes da criação tardia da província romana com esse nome. Até aí «é pacificamente admitido que uma organização social complexa, uma concepção de Estado com implicação a nível da definição de limites estáveis e bem definidos são realidades absolutamente impensáveis no mundo lusitano». Disputar Viriato entre Portugal e Espanha (onde a resistência de Numancia ganhou maior peso como ícone nacionalista) é uma falsa questão, quando falamos num período em que as nacionalidades não tinham sentido.

    As referências aos Lusitanos, que as fontes clássicas relatam com a discrepância de dois séculos, são sempre uma criação romana designando uma entidade étnica de âmbito abrangente. O que conhecemos do seu território é, por um lado, a «cartografia» das movimentações militares das chamadas Guerras Lusitanas, na qual morre Viriato em 139 antes da nossa era, e que tem lugar não nas Beiras, mas nas paragens meridionais do sul peninsular português e espanhol. Por outro lado, e com contornos menos nítidos, a geografia de Ptolomeu situa os Lusitanos em contraponto com os Célticos a sul, os Turdetanos, no extremo sul da Península e os Vetões na área mesetenha, situando as tribos de Viriato entre o Douro e o Tejo, mas igualmente abarcando um amplo sector a Sul deste rio, que abarcava cidades como Évora, Cáceres ou Mérida (esta futura capital da distinta província romana da Lusitânia). A norte, Estrabão assinalará por sua vez a dificuldade da distinção, nas duas margens do Douro, entre Lusitanos e os Galaicos. Não tem pois qualquer sustentação continuar a querer fazer corresponder geograficamente o actual território português às duas antigas Lusitânias, antes e depois dos romanos.

    Viriato «mais do que um homem, de carne e osso, é um conjunto de “clichés”, chamemos-lhes assim, passíveis de serem colocados ao serviço dos mais diferentes interesses, ideologias ou regimes políticos

    Essa identificação deveu-se primeiramente a André de Resende, no século XVI, tomando como referência a província romana. A ele se deveu ainda a criação do neologismo «lusíadas», que nesse século dará nome ao poema épico nacional de Camões. Mas o enaltecimento da Lusitânia pré-romana e a heroificação de Viriato devem-se ao poema épico de Brás Garcia de Mascarenhas, publicado em finais do século XVII, e escrito no contexto da Restauração, no âmbito da qual o autor combateu as tropas filipinas na zona da Guarda, emulando a figura de Viriato. Com as versões populares desse poema, a lenda de Viriato nasceu para ficar.

    A sua biografia do inicio do século XX pelo alemão Adolf Schulten, estudioso de Numancia, consolidará Viriato como herói nacional para Portugal como para Espanha. Viriatos seriam também os voluntários fascistas portugueses que combatem ao lado de Franco na Guerra Civil de Espanha.

    Como escreviam Carlos Fabião e Amílcar Guerra, na década de 1990, Viriato «mais do que um homem, de carne e osso, é um conjunto de “clichés”, chamemos-lhes assim, passíveis de serem colocados ao serviço dos mais diferentes interesses, ideologias ou regimes políticos; e, acima de tudo, de gerarem processos de identificação (ou mimetismo) com chefes políticos ocasionais. Um “produto” com estas características, não poderia deixar de ser usado (e abusado) ao longo dos tempos». Um uso que não se ficou pelo estado Novo, mas que prossegue nos nossos dias, como é exemplo o recente filme português Viriato (2019). «A imagem de Viriato, tal qual foi construída, no passado, com outros intuitos e finalidades, é transponível para outros contextos sociais, políticos e culturais, praticamente sem grandes “retoque”. É a mesma imagem, produzida, difundida e consumida, passem as expressões, em contextos diversos e com propósitos distintos. É isso aliás que sublinha o seu carácter de “modelo ideal”, e lhe retira a dimensão humana. O herói é uma construção artificial, bem sucedida e popular, porque responde aos anseios de públicos diversificados, é bem a imagem da “virtude”».


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #28, Agosto|Outubro 2020.

  • Um novo MAPA nas ruas!

    Um novo MAPA nas ruas!

    Já está aí o Jornal MAPA nº29!

    Junto com a edição de Dezembro 2020 / Fevereiro 2021, segue para os assinantes o suplemento Lutas pelo Território. Neste número, em torno da luta das mulheres, revisita-se Emma Goldman, fala-se da economia feminista e soberania alimentar, das mulheres em luta pelos direitos das pessoas presas e dos direitos das mulheres grávidas em tempo de pandemia. Sem esquecer a revolução das mulheres na Polónia e a luta contra o femicídio no México. O Jornal MAPA continua a sua cronologia da luta contra a mineração e dá atenção às manifestações por justiça climática e às hortas populares na escarpa das Fontainhas no Porto. Fala do «Novo Pacto» da União Europeia para as migrações, da autodefesa sanitária comunitária na favela de Paraisópolis, e conta com reflexões sobre a cidade em decomposição, a soberania rural, a relação do fascismo e a precariedade entre os trabalhadores ou a educação livre em tempos de Big Brother. Entre outros assuntos mais nestas 48 páginas de informação critica. Não faltam motivos para a assinatura aqui (ou assinaturas@jornalmapa.pt) apoiando e garantindo a continuidade do MAPA.

    Jornal Mapa nº 29 (Dezembro 2020 - Fevereiro 2021)
    Jornal Mapa nº 29 (Dezembro 2020 – Fevereiro 2021)
  • Terra Batida – Lutas pelo Território

    Terra Batida – Lutas pelo Território

    Já anda por aí a edição suplementar do Jornal Mapa em parceria com o projeto Terra Batida (Parasita e pela Buala) e que está disponível nos eventos a decorrer no Festival Alkantara. Edição extra que os assinantes irão receber a partir da próxima semana junto com MAPA #29.

    Nesta edição de 16 páginas em torno das Lutas pelo Território, com capa ilustrada por Bego Claveria, Marta Lança e Rita Natálio apresentam “Estratégias para acarrar: Terra Batida”, uma sumula do projeto de artes e intervenção em curso; do Jornal MAPA Téofilo Fagundes lança “uma perspectiva libertária sobre a Luta contra a MIneração” e Filipe  Nunes dá conta de uma serie de lutas em torno da poluição das águas e conta a história dos protestos desde a década de 1950 no Rio Alviela; e reflecte ainda sobre as transformações da paisagem no Alentejo em “devedores à Terra”. No âmbito das residências Terra Batida, Ana Rita Teodoro e Alina Ruiz Folini propõem um oráculo para “ler Seres Vegetais” e religar alimento e afeto; Silvia das Fadas, a partir do anarquista Gonçalves Correia que lhe inspirou o filme “Luz, Clarão, Fulgor” escreve uma “Carta aos Rurais. Defensores da Terra chamados a cuidar da Terra” e Joana Levi, a propósito da performance Rasante, escreve sobre cegonhas em “Lixo Humano, Território Animal”.

    O mote desta edição comporta em «território» o desafio de se ultrapassar a redutora dimensão ambiental dos conflitos, sublinhando o lado social e a capacidade transformadora que estes processos desencadeiam. Nas comunidades e na relação humana com a natureza, seja ela individual ou coletiva. No potencial de subverter hierarquias ou os primados cegos da economia industrial. Na possibilidade de se regenerar a paisagem a partir da participação plena e direta das pessoas e de observação atenta do que os demais seres nos comunicam, integrando esse saber natural no ato humano que é hoje uma «paisagem».

    Este sentido de Lutas pelo Território lança ainda o desafio de ir além do nicho do ativista ambiental e do corpo técnico que lhe é acoplado. Ambas as dimensões, do ativismo e da argumentação científica, não são despiciendas, longe disso, mas encerrar uma luta nesse círculo é condenar o seu verdadeiro alcance popular. O envolvimento das populações nas lutas de mineração é disso o exemplo mais recente de como as lutas pelo território comportam um significado que emerge para lá do conflito ambiental.