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Lendo: Zapatistas e Mulheres no centro dos Encontros Intergalácticos

Zapatistas e Mulheres no centro dos Encontros Intergalácticos

Zapatistas e Mulheres no centro dos Encontros Intergalácticos


O Esquadrão 421, a primeira comitiva zapatista a chegar à Europa, participou em Julho nos encontros de mulheres na ZAD francesa de Notre-Dame-des-Landes, por ocasião dos Encontros Intergalácticos. O Jornal MAPA, em parceria com a Guilhotina.Info, esteve no local revisitando aquela que foi a maior luta contra megaprojectos das últimas décadas na Europa e escutando diversas resistências, com destaque para as lutas das mulheres.

A ZAD de Notre-Dame-des-Landes, a mais conhecida das «Zonas A Defender», é hoje muito diferente da ocupação de terras que encontrámos até 2018. A partir desse ano, com a vitória do movimento e o abandono do projecto do aeroporto, foi dado início a um processo de normalização de relações com o Estado, marcado por conflitos internos e por uma brutal onda de ataques policiais.

Até então, a ZAD era um espaço que existia em (quase) total autonomia do Estado e do sistema capitalista. Fora da jurisdição das autoridades e da lei francesa, em grande parte desconectadas das redes públicas de água e electricidade, cerca de duas centenas de pessoas habitavam os ambientes mais improváveis desta Zona a Defender – desde quintas expropriadas pelo Estado por «interesse público» a cabanas no cimo das árvores ou, no meio de um lago, uma cabana flutuante. Enormes hortas colectivas, que durante boa parte do ano asseguravam a autonomia alimentar das habitantes e das visitantes, coexistiam com estradas e caminhos repletos de barricadas. Carcaças de antigos carros da polícia transformados em canteiros. Enormes buracos escavados para impedir a passagem da polícia num eventual novo ataque. Cabanas e uma torre de madeira construídas sobre o próprio alcatrão, perscrutando o horizonte em busca de alguma visita inoportuna.

Sinais da força que permitiu enfrentar e vencer a operação repressiva que assolou a ZAD com uma intensidade nunca antes vista entre o outono de 2012 e a primavera de 2013, na chamada Operação César. Uma força vinda da enorme diversidade de pessoas, grupos, abordagens e estratégias que partilhavam o território, numa realidade repleta de contradições e conflitos, com tanto caminho por fazer em muitos campos. E, ainda assim, eco desse “mundo onde caibam muitos mundos” de que falam os zapatistas, exactamente por essa diversidade, descentralização e autonomia.

A ZAD continua. Neste momento, cerca de 260 pessoas habitam a zona, umas em grupo, outras sozinhas, organizadas em diferentes colectivos, cooperativas e projectos

Em 2018, o Estado soube pôr em prática a máxima “dividir para reinar” e entregou ao movimento um presente envenenado. A par do abandono do projecto do aeroporto, anunciou o início de um processo de regularização em que as comunidades deveriam apresentar candidaturas para que fossem avaliadas e emitidas decisões sobre a sua permanência na zona. O movimento, antes unido pela oposição ao aeroporto, fragmentou-se. Geraram-se conflitos entre pessoas e grupos que queriam, a todo o custo, manter a ZAD como estava e outros e outras que estavam dispostas a negociar com o Estado para conseguir manter pelo menos alguns dos espaços e alguma da autonomia. Nesse ano, logo após terem sido retiradas, como sinal de “boas intenções” por parte do movimento, as barricadas de uma das duas estradas que atravessam a zona, a route des chicanes, a polícia voltou a atacar e destruiu a maior parte dos espaços na zona leste da ZAD.

Agora, à chegada a Notre-Dame-des-Landes, vêem-se poucos sinais da luta contra o aeroporto, que anteriormente decoravam as beiras das estradas, os jardins e as fachadas das casas. Os acessos estão em óptimas condições e as estradas dentro da zona estão asfaltadas e praticamente imaculadas. Não há sinais de barricadas nem carcaças de carros. Não há cabanas nem torres. Imensos espaços colectivos, comunidades e projectos desapareceram sem deixar rasto. Até a cabana flutuante foi destruída.

E, ainda assim, apesar de todas as transformações que tiveram início em 2018, a ZAD continua. Neste momento, cerca de 260 pessoas habitam a zona, umas em grupo, outras sozinhas, organizadas em diferentes colectivos, cooperativas e projectos. Cada uma procurando, a seu modo, continuar a desenvolver formas de vida e de organização alternativas.

E é aqui que surgem, por ocasião da invasão zapatista da Europa, os Encontros Intergalácticos. Um mundo de possibilidades e encontros entre gentes e lutas dos mais variados contextos e geografias.

ZAD_Fernanda_Fernández

«Muitas lutas para viver, um mesmo coração para lutar» – Encontro de Mulheres e Dissidências

A 27 de Julho, véspera do início dos encontros, chegava a Nantes uma caravana marítima de mulheres. Catorze mulheres em três veleiros, vindas de diferentes partes da Bretanha. Navegaram para «visibilizar as suas lutas» e para «tomar os seus lugares num mundo marítimo marcado pela dominação patriarcal e colonial».

Entraram pelo rio Loire e desembarcaram na vila de Couëron, na periferia ocidental da cidade de Nantes, onde eram esperadas por algumas dezenas de pessoas em alegre rebeldia. Presentes estavam também Marijose, Lupita, Carolina, Ximena e Yuli do Esquadrão 421. Já em terra, as marinheiras apresentaram às zapatistas uma canção escrita a bordo.

«Agora as zapatistas chegam à Europa
algumas de barco, outras de avião (…)
Chegámos finalmente
e os nossos sonhos tornam-se
a cada dia um pouco mais realidade
Mulheres e dissidências de aqui e de acolá
Unamos as nossas forças
Temos de nos revoltar!»

Na ZAD de Notre-Dame-des-Landes, a Ambazada e o campo que vai até à Wardine, no princípio do Caminho de Suez, foram os espaços centrais dos Encontros Intergalácticos. Durante os dois primeiros dias, estes espaços foram ocupados pelo encontro de mulheres e pessoas trans e não binárias sob o lema «Muitas lutas para viver, um mesmo coração para lutar». Uma oportunidade rara para, à escala internacional, mulheres e dissidências partilharem experiências e ideias, debaterem e construírem as suas lutas e resistências. Dois dias em que foi possível usufruir de espaços seguros de discussão, mas também de diversão e lazer, espectáculos e concertos, sem a presença de homens – algo ainda mais raro.

O Esquadrão esteve presente através das quatro mulheres e de Marijose, uma outroa, a palavra que as zapatistas utilizam para referir as pessoas que não se revêm na visão binária do género. Na cerimónia de abertura, tomaram a palavra para fazer as mesmas intervenções que, desde a sua chegada a Vigo em 22 de junho, tinham vindo a fazer em todos os actos públicos em que participaram: dizem o seu nome, a língua que falam, de onde vêm e onde vivem, e que são 100% zapatistas.

Em todas as actividades em que estão presentes, registam pormenorizadamente nos seus cadernos o que acontece, o que é falado e discutido. Estão mandatadas pelas suas comunidades para conhecer as lutas e resistências «de baixo e à esquerda» deste continente que, no desembarque na Galiza, rebaptizaram de Terra Insubmissa. E tudo o que vêm, ouvem e vivem cá, transmitem-no às suas comunidades.

E, na maior parte do tempo, permaneceram em silêncio. Algum raro momento houve em que, em grupos mais pequenos, tomaram a palavra, como por exemplo para explicar como funcionam as escuelitas zapatistas. Mas nunca emitiram opiniões nem posicionamentos, nem falaram em actividades grandes, o que causou desapontamentos e levantou questões por onde passaram. Muitas de nós nos perguntámos, nestas e noutras ocasiões, porque não tomavam a palavra. Entre conversas, possíveis explicações foram surgindo: que não estão mandatadas para falar; que o Esquadrão não é uma delegação de Escuta e Palavra, mas apenas de Escuta; que, sendo apenas sete entre as quase duas centenas previstas chegar, não falam para não ganhar protagonismo; que não falariam enquanto a entrada das restantes delegações continuasse a ser negada. A chegada das companheiras, prevista para o início de Julho, viria a acontecer apenas em Setembro, já então coincidindo com o regresso do Esquadrão 421 a Chiapas.

Ao longo do atribulado processo da viagem zapatista, vamos aprendendo que tudo leva o seu tempo e que não há que tentar perceber tudo de uma vez. Dizia o Subcomandante Marcos, num comunicado de 3 de Março de 2001 dirigido ao Congresso Nacional Indígena: «Desconfia de quem muito fala, e escuta atento a quem sábio se cala.»

No acto de encerramento deste encontro de dois dias, o Esquadrão é convidado a intervir. Acede em subir ao palco. Marijose pega no microfone e diz: «Estas são as nossas palavras.»

Silêncio.
Longos minutos de silêncio.
E termina: «Muchas gracias

Z de ZAD, Z de Zapata

30 de Julho, dia de transição entre os dois encontros. Ao início da noite realiza-se, no imponente Farol da Rolandière, o ritual de abertura do evento misto. Um habitante da ZAD começa por contar um episódio que se desenrolara em torno de um posto avançado do exército mexicano em território zapatista, um posto de madeira e cheio de frestas. A certa altura, os zapatistas decidem fazer um ataque com a sua “força aérea” contra o posto, atirando pelas frestas dezenas de aviões de papel, cada um com um poema ou uma frase dirigida aos soldados. Conta a história que um deles dizia algo como «sabemos que vocês são pobres tal como nós, mas são ainda mais pobres pois venderam as vossas vidas àqueles que nos dominam e oprimem».

A multidão permanece em silêncio, impressionada. Pela torre de vigilância usada, na altura dos confrontos, para perscrutar o horizonte em busca da polícia – uma das poucas estruturas que ainda resiste depois das expulsões de 2018 –, sobe uma mulher. De avião de papel na mão e apenas com a sua voz, sobrepondo-se ao vento forte que sopra, faz chegar aos ouvidos da multidão uma ária revolucionária francesa.

Rolandière_Farol_FernandaFernández

Quando chega ao topo da torre, a mulher lança o avião de papel, enquanto outras companheiras atiram outros 176 aviões, um por cada zapatista d’A Extemporânea. Em baixo, as pessoas recebem os aviões, dando simbolicamente a mão aos zapatistas que tentam entrar na Europa. É acesa uma fogueira, alumiando dezenas de tochas com Zs na ponta – Z de ZAD, Z de Zapatistas e Z de todas as zonas a defender. Após uma marcha nocturna, o acto termina enterrando os aviões na terra lavrada, num dos locais que antes fora palco de confrontos entre polícias e zadistas.

Auto-organização feminista contra as agressões

Os dias não-mistos deram lugar aos dias mistos, mas a resistência das mulheres continuou a ocupar um lugar central. Ressoava ainda a violação que ocorreu nos Encontros anteriores, em 2020, denunciada publicamente ao microfone durante o próprio encontro, e que abalou a ZAD.

Atitudes, agressões e dinâmicas sexistas nos espaços colectivos haviam sido tema de debate ao longo dos anos em muitas das comunidades e assembleias da ZAD. No entanto, a ausência de um espaço colectivo que agregasse todos e todas as habitantes, fruto das primeiras fracturas que surgiram depois do fim da Operação César, impedia que certos problemas fossem enfrentados de forma colectiva. O debate geral e profundo na zona, surgido em reacção ao choque provocado por aquela violação, levou à criação de uma iniciativa para combater o sexismo em grandes eventos – a Festivities Fight Sexism. A FFS teve uma forte presença visual nos espaços do Encontro, com imensos cartazes contra as agressões sexistas e sexuais, e um número de denúncia e apoio afixado em todo o recinto, nos acampamentos e parques de estacionamento, através do qual as vítimas podiam entrar em contacto com companheiras da organização.

Logo na noite de transição entre os dois encontros, denúncias de agressões e de gravações não consentidas de companheiras a dançar levaram as companheiras da FFS a implementar um protocolo contra as violências sexistas – foi criada uma zona segura em frente ao palco como espaço não-misto, equipas percorriam constantemente o recinto, uma equipa permanente dava apoio às vítimas e, durante a noite, grupos auto-organizados de mulheres acompanhavam as companheiras no regresso ao acampamento. Foi ainda feito o apelo para que, nas conferências e discussões, fosse dada prioridade à voz das mulheres, e foram agendadas várias reuniões não-mistas para avaliar o desenrolar do encontro e do protocolo.

ZAD_Fernanda_Fernández

As palavras do que se escutou

Dezenas de actividades transportaram-nos através do tempo e do espaço às mais diferentes resistências. Desde a resistência à ditadura no Chade às revoltas dos anos 60 na Argélia, desde a revolução sudanesa de 2018 às lutas actuais nos Balcãs, passando pela experiência da Comuna de Paris no ano do seu 150.º aniversário. Falou-se de feminismo decolonial, de género e educação e de justiça transformadora em resposta às violências de género. Numa assembleia com a Rede de Entreajuda Verdade e Justiça, conhecemos a luta travada em França pelas famílias das vítimas das violências policiais e do racismo de Estado.

Um dos temas centrais foi, naturalmente, as lutas pela terra e pelo território, por entre críticas às lógicas de mercado e à sociedade industrial. Uma das actividades centrou-se na crítica à ordem eléctrica, apresentada por uma rede de pessoas e colectivos de lutas ligadas à energia (contra o nuclear, as eólicas e as linhas de alta velocidade). Noutra actividade, procuraram-se os pontos comuns entre as lutas contra o Tren Maya, o movimento No TAV no Vale do Susa e a resistência à linha de alta velocidade HS2 em Inglaterra. Conhecemos ainda a Soulévements de la Terre, uma rede de lutas locais em França cujo objectivo é impulsionar um movimento de resistência à agro-indústria e ao extractivismo. Com a articulação de movimentos camponeses, ocupações de terras e experiências de auto-subsistência e auto-organização comunitária, a rede realiza acções massivas, de três em três meses, de apoio às lutas travadas no terreno.

Outro dos pontos altos deste encontro foi a discussão «Resistências territoriais e construção de autonomias duradouras» em torno dos movimentos curdos, zapatistas e kanak, um povo originário em luta por autonomia na Nova Caledónia, que permanece uma colónia francesa. Um antigo presidente de câmara em Bakur (a parte do Curdistão na Turquia), um representante do Centro Democrático Curdo em França e duas internacionalistas de regresso de Rojava juntaram-se a um militante independentista Kanak e a duas militantes do movimento de apoio às zapatistas para partilhar as diferentes formas de vida, organização e produção construídas nestes territórios em busca de autonomia. Discutiu-se a correlação de forças no enfrentamento com o Estado, estratégias para suster as autonomias em situações adversas (governamentais, militares ou económicas) e o papel do internacionalismo.

Ao longo do atribulado processo da viagem zapatista, vamos aprendendo que tudo leva o seu tempo e que não há que tentar perceber tudo de uma vez

Por fim, o encontro presencial entre pessoas envolvidas na organização da Viagem pela Vida em diversos territórios – Suíça, Euskal Herria, Chipre, Roménia, Dinamarca, França, Portugal, Catalunha, País Valenciano, Cantábria e Andaluzia –, possibilitou a partilha das lutas e contextos das geografias presentes e as formas e desafios da organização. No tema da comunicação, falou-se de como a exclusividade da comunicação virtual acaba por deixar de fora quem não tem smartphone, as populações idosas, etc., e reforçou-se o exemplo e a necessidade de cartazes nas ruas, das rádios livres e outros meios de comunicação independentes. O que levou também a sublinhar a importância da presença e convivência a nível local e de bairro, destacando-se o exemplo de Barcelona, onde a organização desta viagem está baseada na criação de articulações entre colectivos, movimentos, projectos e espaços em cada um dos bairros.

Com apenas dois homens entre uma dezena de mulheres desde as diferentes geografias da Viagem pela Vida, foi destacado o papel preponderante da participação feminina neste processo, e especialmente de mulheres migrantes. Uma mudança de paradigma num continente em que os movimentos reproduzem ainda bastantes dinâmicas sexistas e racistas, e frente aos quais os Encontros Intergalácticos assumiram ser esta uma questão central a partilhar com as zapatistas que a Europa acolhe.

 


Fotografias de  Fernanda Fernández


Artigo publicado no JornalMapa, edição #32, OutubroDezembro 2021.


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Written by

Francisco Norega

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