Autor: Francisco Norega

  • A Força Aérea Zapatista aterra em Viena com Chiapas à beira da Guerra Civil

    A Força Aérea Zapatista aterra em Viena com Chiapas à beira da Guerra Civil

    Cerca de 170 zapatistas chegaram a Viena, poucos dias depois do regresso ao México do Esquadrão 421. Na capital austríaca, antes de se dividirem em grupos para visitar todos os territórios da Europa e chegarem a Portugal em Novembro, participaram em vários protestos e encontros, numas boas-vindas ensombradas pelo sequestro de dois companheiros zapatistas em Chiapas. O território está à beira da guerra civil, com as comunidades zapatistas de raiz maia a enfrentarem um crescente número de agressões por parte de grupos paramilitares e do narcotráfico.

    No coração da Europa Central, a 14 de Setembro de 2021, uma centena de mulheres, homens e crianças zapatistas aterraram em Viena a sexta cidade mais populosa da União Europeia. Com documentação completa e bilhete na mão, vacinas e protocolos sanitários garantidos, as zapatistas conseguiram romper o racismo transatlântico, que tudo fez para impedir esta viagem. A delegação aerotransportada A Extemporânea deve o seu nome ao racismo de um México que considera «extemporâneos» os seus povos originários e ao racismo da Europa Fortaleza que, escudada nas regulamentações sanitárias, procurou durante meses travar a entrada das zapatistas.

    No aeroporto de Viena concentraram-se dezenas de colectivos de toda a Europa. Quando o primeiro grupo d’ A Extemporânea cruzou a porta das chegadas, ouviram-se aplausos, gritos de «Zapata vive, la lucha sigue!», «EZLN!», «los pueblos unidos jamás serán vencidos» e canções revolucionárias em várias línguas. No exterior do aeroporto, mulheres austríacas e migrantes deram as «boas-vindas à vossa casa» em alemão e em espanhol. Com camisa azul, chapéu, viseira de protecção sanitária e com o rosto tapado apenas por uma máscara, prescindindo pela primeira vez do lenço vermelho e do passa-montanhas, o Subcomandante Insurgente Moisés tomou o microfone para dirigir-se aos anfitriões da Europa e falar sobre a defesa da Mãe Terra. «Vai-se acabar a natureza. É isso que viemos dizer-vos. Não acreditam? Vão vê-lo», avisa. «De nome já sabemos quem é: é o capitalismo». «Os governantes não vão fazer nada, porque são cúmplices do capitalismo. Eles são os que se põem de acordo para levar a cabo a destruição. Ninguém vai lutar por nós, ninguém vai defender-nos por nós, daquilo que faz o capitalismo. Jamais. Desde os nossos tetravós, falando de 500 anos, é o que vemos. Ninguém, absolutamente ninguém, vai lutar por nós.»

    O discurso recua ao primeiro do ano da insurgência zapatista. «Nós, as zapatistas e os zapatistas, estamos aqui graças às nossas companheiras e companheiros que caíram no amanhecer de 1994, quando saímos a lutar contra o mau governo. Estamos aqui graças àscompanheiras e companheiros caídos na resistência e na rebeldia. A nossa rebeldia e resistência é que nós queremos governar-nos como povos. Nós não queremos matar, nós não queremos morrer. O problema é que não nos dão a oportunidade de fazer o que nós pensamos como homens e mulheres. E é o que vimos fazendo ao longo de 28 anos: não estamos a disparar, não estamos a matar, nem queremos morrer. Queremos a Vida», expressou à Europa o porta-voz do EZLN.

    No dia seguinte chegou o restante grupo de mais de 70 homens zapatistas. A escassos metros da porta das chegadas internacionais, um grupo de anfitriãs migrantes tomou a palavra: «Queridas Compas, as migrantes de língua castelhana e portuguesa na geografia de Viena saúdam-vos e dão-vos as boas-vindas! Somos um colectivo que se juntou para vos acompanhar e reunir convosco, a delegação zapatista. Queremos assegurar-nos de que a voz dos migrantes se escuta nas diferentes frentes da organização da Viagem pela Vida na Áustria. Perguntámo-nos: “Como teríamos gostado de ser recebidos quando chegámos desde o outro lado do oceano?” E respondemos que alguém nos podia ter dito as seguintes palavras: nós, os precarizados, nós, os racializados, nós que lutamos por ter uma voz migrante, nós que falamos alemão com sotaque, na geografia chamada Viena, saudamos-vos e damos-vos as boas-vindas! A nossa casa é a vossa casa.»

    Os e as companheiras recém-chegadas estavam sorridentes e alegres por pisar pela primeira vez, e depois de uma longa espera, o solo europeu.

    Subcomandante Moisés
    Subcomandante Moisés à chegada no aeroporto de Viena. Fotografia de Isabel Mateos.

    A valsa de Viena e os feminicídios na Áustria

    A Fuerza Aérea Zapatista acabava de aterrar numa terra insubmissa, cuja história de dor e resistência é o verso do postal dos palácios em estilo rococó nas margens do Danúbio. Ricardo Loewe, do Comité de Solidariedade México-Salzburgo, explicou aos meios de comunicação independentes que, «junto com a Polónia e Hungria, a Áustria é um país do antigo império dos Habsburgo que hoje carrega a bandeira do racismo da Europa. É mais que triste, indignante, dá raiva, porque aqui existem reminiscências dramáticas de um fascismo que nunca desapareceu, que é vigente. E, ainda assim, estamos a receber a delegação zapatista! Não é por acaso que vêm a Viena, onde há muitos grupos que nutrem uma grande simpatia pelo zapatismo».

    Para além da cripta imperial onde turistas podem visitar o túmulo de Maximiliano, ou a herança colonial do «penacho de Moctezuma que parece uma galinha morta», Loewe, de 80 anos, recorda-nos também o passado da «Viena vermelha», anterior à ditadura fascista de Dolfus; um marxismo austríaco cristalizado na Praça Friedrich Engels; mas também as lutas das mulheres e dissidências de género, o movimento okupa e a cultura da luta anarco-comunista, «pequena, mas bem-estruturada, sem partido».

    um grande contingente de mulheres maias zapatistas juntou-se a uma concentração para exigir justiça para Shukri e Fadumo, duas mulheres de origem somali assassinadas dois dias antes em Viena

    Ao final da tarde de quinta-feira, 16 de Setembro, pouco mais de 48 horas depois de chegarem à capital austríaca, um grande contingente de mulheres maias zapatistas juntou-se a uma concentração para exigir justiça para Shukri e Fadumo, duas mulheres de origem somali assassinadas dois dias antes em Viena. Na concentração convocada pelo colectivo Ni Una Menos-Austria, em frente à monumental igreja de Karlsplatz, as companheiras ouviram, aplaudiram e filmaram diferentes intervenções de mulheres somalis e de outros países de África, Médio Oriente, Europa e América Latina, que se expressaram nas suas diferentes línguas. Ao seu lado, centenas de jovens mulheres feministas carregavam bandeiras e cartazes contra o patriarcado e o racismo.

    O toque do sino da igreja de Karlsplatz não conseguiu calar as vozes altas nem os silêncios das mulheres expressando as suas dores e a sua raiva. «Nem uma menos!», «Alerta Feminista!» e «Stoppt den femizid!». Uma vibração anti-patriarcal, anti-racista e internacionalista marcava a primeira marcha europeia da Secção Miliciana Ixchel-Ramona, no protesto contra o 21.º feminicídio que assolou a Áustria no presente ano de 2021.

    Sequestros em Chiapas provocam protestos internacionais

    No dia seguinte, cerca de 20 mulheres e 30 homens zapatistas reforçavam o contingente internacional que se concentrava em frente à embaixada do México, no luxuoso centro histórico vienense. À chegada na Europa, o primeiro objectivo impusera-se na denuncia ao paramilitarismo e na exigência do aparecimento com vida de dois companheiros das bases de apoio do EZLN.

    José Antonio Sánchez Juárez e Sebastián Núñez Pérez, integrantes da Junta de Bom Governo Nuevo Amanecer en Resistencia y Rebeldía por la Vida y la Humanidad do Caracol 10 de nome Floreciendo la Semilla Rebelde, situado em Patria Nueva, haviam sido sequestrados a 11 de Setembro na comunidade 7 de Febrero, município de Ocosingo, Chiapas. A localidade é a sede da ORCAO, uma organização paramilitar que há vários meses tem vindo a perpetrar uma série de acções criminosas contra as Bases de Apoio do EZLN na comunidade autónoma Moisés-Gandhi.

    Em frente do edifício monumental da diplomacia mexicana, e nos dias seguintes em mais de uma dezena de cidades europeias, activistas denunciaram a cumplicidade do governo federal de López Obrador, bem como de Rutilio Escandón, governador de Chiapas, nos ataques paramilitares perpetrados contra camponeses maias zapatistas, mas também contra companheiros defensores dos direitos humanos. Por fim, em comunicado do EZLN publicado a 19 de Setembro intitulado “Chiapas à Beira da Guerra Civil”, este anuncia que os esforços de ambos os lados do atlântico, aliados à intervenção de organizações de defesa dos direitos humanos e dos párocos de San Cristóbal de las Casas e de Oxchuc, haviam dado frutos. Após oito dias sequestrados, os dois companheiros foram devolvidos com vida às suas comunidades.

    «O Governo de Chiapas não só encobre os bandos de narcotraficantes, como também alenta, promove e financia grupos paramilitares, como os que atacam continuamente comunidades em Aldama e Santa Marta», lê-se no comunicado, que denuncia estas acções com o objectivo de «provocar uma reacção do EZLN com o fim de destabilizar um estado cuja governabilidade pende por um fio». O comunicado termina, num tom que há muito já não se escutava da parte dos zapatistas: «Deixem já de jogar com a vida e a liberdade dos Chiapanecos. Noutra ocasião já não haverá comunicado. Ou seja, não haverá palavras, mas feitos.»

    A mobilização internacional convocada pelo EZLN voltou a sair às ruas no dia 24 de Setembro, em dezenas de localidades no México, Estados Unidos, Brasil e em mais de meia centena de cidades e vilas europeias, para exigir um fim das provocações por parte dos paramilitares e dos governantes e para pôr um ponto final «no culto à morte que professam». Raúl Romero, académico da Universidade Nacional Autónoma do México que acompanha o zapatismo, dá conta do espírito vivido: «alguns dizem, com essa arrogância que acompanha a ignorância, que o zapatismo já não é apelativo, que já passou de moda, que o seu tempo se acabou. Vejam. Escutem. Está a nascer algo novo, um novo tempo, o tempo dos povos.»

    Concentração
    Concentração frente à embaixada do México. Fotografia de Lorena Salamanca.

    Encontros na resistência a mega-projectos

    Na manhã de sábado, anterior à libertação de José e Sebastián, uma delegação zapatista teve pela primeira vez um encontro público com uma resistência ao mau governo (conceito que os zapatistas usam para os governos dos de cima, por oposição às suas Juntas de Bom Governo). Neste que é um dos grandes centros da hidra capitalista, foi montado um impressionante acampamento em Lobau, nos arredores de Viena, para proteger um ecossistema raro dos planos do governo austríaco de aí construir uma auto-estrada atravessando a maior reserva natural da cidade, zona protegida desde 1978 e parte do Parque Nacional Danúbio-Auen desde 1996. Cerca de 60 homens e mulheres zapatistas encontraram-se com jovens e ambientalistas que resistem desde Agosto e que lhes contaram a história do local, o projecto e o porquê de defenderem esta que é a única paisagem do seu género que permanece ecologicamente intacta não só na cidade, mas em toda a Europa Central.

    Entre intervenções e perguntas de parte a parte, discutiram-se estratégias de resistência para defender o território – falou-se de pacifismo, desobediência civil, ocupação e violência. Os activistas locais explicam que todo o movimento em Lobau é pacífico e que essa é uma condição fundamental para manter o amplo apoio da vizinhança. Embora sejam maioritariamente jovens a pernoitar no acampamento, vizinhos e vizinhas vêm colaborando e ajudando, e deixam que os jovens acampados tomem banho nas suas casas. Dão mesmo conta de um acordo com a polícia para que, caso o protesto se mantenha não-violento, esta avise os ocupantes com um dia de antecedência, na eventualidade de ser dada ordem de despejo.

    Entre intervenções e perguntas de parte a parte, discutiram-se estratégias de resistência para defender o território – falou-se de pacifismo, desobediência civil, ocupação e violência.

    Não imaginamos quão estranho isto será para quem vem do México, onde a violência é prato do dia e a polícia apenas mais uma força de repressão e violência gratuita. «E se vocês não saírem?», perguntam as zapatistas. Explicam que, face a uma ordem de despejo, se não aceitarem sair pelo seu próprio pé, detêm-nos por 24 horas e voltam a soltá-los, sem nenhuma acusação. Ou seja, que «não se passa nada, e voltamos a acampar». O subcomandante Moisés, surpreendido, replica desconcertado: «É como se eu te dissesse “Vou rebentar a tua mãe”, e tu dissesses “não, não o faças”, e depois eu já não o faço», perguntando-lhes de seguida se realmente esse tipo de acções tem resultados. Para já, desde que começaram as ocupações em Lobau, os trabalhos de construção estão parados.

    A zona de Lobau é o que resta de um enorme ecossistema húmido que se estendia pelas margens do Danúbio, destruído no processo de terraplanagem com vista à expansão e industrialização da capital austríaca, nos finais do século XIX. Naquilo que eventualmente ajuda a explicar a referida concertação pacifista, a região guarda a memória dos protestos ocorridos neste Parque Natural em 1984, a primeira vez que a desobediência civil foi amplamente aceite como uma estratégia. O plano de uma central hidro-eléctrica culminara na ocupação do local por centenas de pessoas, travando os trabalhos. A violenta intervenção de 800 polícias, para expulsar os cerca de três mil manifestantes que permaneciam no local, provocou confrontos, feridos e uma onda de indignação em Viena, onde 40 mil pessoas se manifestaram no mesmo dia da expulsão. Temendo a eclosão de uma revolta, o governo anunciou a suspensão dos trabalhos e o Supremo Tribunal a sua proibição. A ocupação foi terminada e, meses mais tarde, o projecto definitivamente abandonado. Desde esse ano, praticamente todos os mega-projectos na Áustria são enfrentados por algum movimento popular.

    A visita a Lobau termina após a visita a outros dois acampamentos mais pequenos montados no estaleiro das obras. Um grupo de mulheres zapatistas decidiu aguardar em Lobau pelo almoço para o qual tinham sido convidadas. A conversa flui num registo informal e é partilhada a história do movimento zapatista desde 1986, a preparação do levantamento de 1994 e o papel dos e das promotoras de saúde e educação, colocando-se um foco especial na participação das mulheres em todo o processo. Sem esquecer também o consumo de álcool nas comunidades, raiz de problemas tanto em contexto militar como em contexto familiar, e como, enquanto comunidades e povos, decidiram enfrentá-lo. No acampamento de Lobau, ouvimos: «as zapatistas vêm dar esperança, inspiram-nos com tudo o que já conseguiram construir em Chiapas. São uma verdadeira biblioteca andante».

    feminicidios
    Zapatistas em concentração contra os femícidios. Fotografia de Lorena Salamanca.

    Numa varanda em Viena

    Os grupos de Escuta e Palavra que compõem A Extemporânea começaram, a 22 de Setembro, a deslocar-se para as geografias que compõem a primeira zona da Viagem pela Vida – Alemanha, Escandinávia, Europa de Leste e Balcãs. Ao final da tarde desse mesmo dia, aterrou em Viena a delegação de 16 pessoas do Congresso Nacional Indígena (CNI-CIG) e da Frente de Povos em Defesa da Água e Terra (FPDTA).

    Dois dias mais tarde, o CNI e a FPDTA participaram, com dezenas de zapatistas ainda presentes, na marcha da Greve Climática Mundial. Vinte mil pessoas tomaram as ruas da capital austríaca num percurso de 4 kms exigindo justiça climática, acções urgentes para combater o aquecimento global, uma mudança de sistema e apoiando à resistência contra a construção da auto-estrada em Lobau. A manifestação terminou no parlamento austríaco e, depois das intervenções da organização e da actuação de uma banda local, subiram ao palco duas companheiras que fizeram ressoar a mensagem dos povos indígenas do México. Frente à majestosa varanda onde Hitler discursou em 1938, perante centenas de milhares de pessoas, consumando a anexação nazi, Libertad, uma companheira zapatista, contou a história de uma mulher:

    «Não importa a cor da sua pele, porque tem todas as cores. Não importa o seu idioma, porque escuta todas as línguas. Não importa a sua raça e a sua cultura, porque nela habitam todos os modos. Não importa o seu tamanho, porque é grande e, ainda assim, cabe numa mão. Todos os dias e a todas as horas, essa mulher é violentada, golpeada, ferida, violada, burlada, desprezada. Um macho exerce sobre ela o seu poder, todos os dias e a todas horas. Ela vem até nós, mostra-nos as suas feridas, as suas dores, as suas tristezas, e só lhe damos palavras de consolo, de pena, ou ignoramo-la. Talvez, como esmola, lhe dêmos algo para que cure as suas feridas, mas o macho continua a sua violência.

    Nós e vocês sabemos em que é que termina isto. Ela será assassinada e, com a sua morte, morrerá tudo. Podemos continuar a dar-lhe palavras de alento e remédios para os seus males. Ou podemos dizer-lhe a verdade: o único medicamento que poderá curá-la e saná-la por completo é enfrentar e destruir quem a violenta. E podemos também, e em consequência, unir-nos a ela e lutar a seu lado.
    A essa mulher, nós, os povos zapatistas, chamamos-lhe “Mãe Terra”. Ao macho que a oprime e a humilha, ponham-lhe o nome, o rosto e a forma que quuiserem. Nós, os povos zapatistas, chamamos a esse macho assassino por um nome: capitalismo.

    E chegámos a esta geografia para vos perguntar: vamos continuar a pensar que com pomadas e calmantes se solucionam os golpes de hoje, ainda que saibamos que amanhã será maior e mais profunda a ferida? Ou vamos lutar juntos com ela?

    Nós, as comunidades zapatistas, decidimos lutar junto a ela, por ela e para ela.»

    acampamento
    Encontro no acampamento de Lobau. Fotografia de Lorena Salamanca.

    É, então, a vez de Isabel, uma mulher otomi do Congresso Nacional Indígena, tomar a palavra:

    «Hoje estamos a ver que, os que vivemos na cidade, não temos direito a ela e, aos que estamos nas nossas aldeias, nos despojam. Temos aí muitas empresas que nos vêm enganando sobre o que é progresso, temos a termoeléctrica, o comboio maya, parque eólicos, os pais de ayotzinapa, e os agroquímicos que aqui, em países desenvolvidos, já não se vendem, pelo que os levam para os nossos povos para matar-nos a todas e a todos.

    Hoje estamos aqui todos os povos do outro lado do mundo para caminhar juntas e juntos. Por isso nós, como Conselho Indígena de Governo, estamos a caminhar junto com as nossas irmãs e irmãos zapatistas. Esta é uma Viagem pela Vida porque, se se acaba a Mãe Terra, se a matamos entre todas e entre todos, vamos acabar junto com ela, vamos morrer junto com ela. E daqui lhes dizemos, ao capitalismo e ao patriarcado, que a única coisa que queremos é a nossa autonomia, as nossas aldeias, as nossas águas livres de contaminação. Não queremos mais capitalismo, não queremos mais empresas. E também lhes dizemos que não esquecemos, não capitulamos, e até à vitória… Zapata vive!».

    A multidão responde: «La lucha sigue!»

    Ao contrário do discurso de Hitler, estes dois discursos não irão aparecer nos livros de história. Mas cumprem o papel de, através da escuta e da palavra, semear essa resistência e essa rebeldia que é o principal objectivo desta Viagem pela Vida.

    Durante estes dias, à porta fechada, as zapatistas, o CNI e a FPDTA realizaram diversos encontros de Escuta e Palavra com mulheres migrantes de línguas portuguesa e castelhana, com mulheres palestinianas e com várias outras comunidades e lutas em Viena, para tratar dos assuntos que trazem à Europa estes povos indígenas.

     


    Partes deste artigo têm por base os trabalhos colectivos dos Medios Libres en Viena e publicadas originalmente em castelhano e em português na RadioZapatista.org, Pozol.org e Guilhotina.info

    Fotografia [em destaque] de Amehd Coca


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #32, Outubro|Dezembro 2021.


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  • Zapatistas e Mulheres no centro dos Encontros Intergalácticos

    Zapatistas e Mulheres no centro dos Encontros Intergalácticos

    O Esquadrão 421, a primeira comitiva zapatista a chegar à Europa, participou em Julho nos encontros de mulheres na ZAD francesa de Notre-Dame-des-Landes, por ocasião dos Encontros Intergalácticos. O Jornal MAPA, em parceria com a Guilhotina.Info, esteve no local revisitando aquela que foi a maior luta contra megaprojectos das últimas décadas na Europa e escutando diversas resistências, com destaque para as lutas das mulheres.

    A ZAD de Notre-Dame-des-Landes, a mais conhecida das «Zonas A Defender», é hoje muito diferente da ocupação de terras que encontrámos até 2018. A partir desse ano, com a vitória do movimento e o abandono do projecto do aeroporto, foi dado início a um processo de normalização de relações com o Estado, marcado por conflitos internos e por uma brutal onda de ataques policiais.

    Até então, a ZAD era um espaço que existia em (quase) total autonomia do Estado e do sistema capitalista. Fora da jurisdição das autoridades e da lei francesa, em grande parte desconectadas das redes públicas de água e electricidade, cerca de duas centenas de pessoas habitavam os ambientes mais improváveis desta Zona a Defender – desde quintas expropriadas pelo Estado por «interesse público» a cabanas no cimo das árvores ou, no meio de um lago, uma cabana flutuante. Enormes hortas colectivas, que durante boa parte do ano asseguravam a autonomia alimentar das habitantes e das visitantes, coexistiam com estradas e caminhos repletos de barricadas. Carcaças de antigos carros da polícia transformados em canteiros. Enormes buracos escavados para impedir a passagem da polícia num eventual novo ataque. Cabanas e uma torre de madeira construídas sobre o próprio alcatrão, perscrutando o horizonte em busca de alguma visita inoportuna.

    Sinais da força que permitiu enfrentar e vencer a operação repressiva que assolou a ZAD com uma intensidade nunca antes vista entre o outono de 2012 e a primavera de 2013, na chamada Operação César. Uma força vinda da enorme diversidade de pessoas, grupos, abordagens e estratégias que partilhavam o território, numa realidade repleta de contradições e conflitos, com tanto caminho por fazer em muitos campos. E, ainda assim, eco desse “mundo onde caibam muitos mundos” de que falam os zapatistas, exactamente por essa diversidade, descentralização e autonomia.

    A ZAD continua. Neste momento, cerca de 260 pessoas habitam a zona, umas em grupo, outras sozinhas, organizadas em diferentes colectivos, cooperativas e projectos

    Em 2018, o Estado soube pôr em prática a máxima “dividir para reinar” e entregou ao movimento um presente envenenado. A par do abandono do projecto do aeroporto, anunciou o início de um processo de regularização em que as comunidades deveriam apresentar candidaturas para que fossem avaliadas e emitidas decisões sobre a sua permanência na zona. O movimento, antes unido pela oposição ao aeroporto, fragmentou-se. Geraram-se conflitos entre pessoas e grupos que queriam, a todo o custo, manter a ZAD como estava e outros e outras que estavam dispostas a negociar com o Estado para conseguir manter pelo menos alguns dos espaços e alguma da autonomia. Nesse ano, logo após terem sido retiradas, como sinal de “boas intenções” por parte do movimento, as barricadas de uma das duas estradas que atravessam a zona, a route des chicanes, a polícia voltou a atacar e destruiu a maior parte dos espaços na zona leste da ZAD.

    Agora, à chegada a Notre-Dame-des-Landes, vêem-se poucos sinais da luta contra o aeroporto, que anteriormente decoravam as beiras das estradas, os jardins e as fachadas das casas. Os acessos estão em óptimas condições e as estradas dentro da zona estão asfaltadas e praticamente imaculadas. Não há sinais de barricadas nem carcaças de carros. Não há cabanas nem torres. Imensos espaços colectivos, comunidades e projectos desapareceram sem deixar rasto. Até a cabana flutuante foi destruída.

    E, ainda assim, apesar de todas as transformações que tiveram início em 2018, a ZAD continua. Neste momento, cerca de 260 pessoas habitam a zona, umas em grupo, outras sozinhas, organizadas em diferentes colectivos, cooperativas e projectos. Cada uma procurando, a seu modo, continuar a desenvolver formas de vida e de organização alternativas.

    E é aqui que surgem, por ocasião da invasão zapatista da Europa, os Encontros Intergalácticos. Um mundo de possibilidades e encontros entre gentes e lutas dos mais variados contextos e geografias.

    ZAD_Fernanda_Fernández

    «Muitas lutas para viver, um mesmo coração para lutar» – Encontro de Mulheres e Dissidências

    A 27 de Julho, véspera do início dos encontros, chegava a Nantes uma caravana marítima de mulheres. Catorze mulheres em três veleiros, vindas de diferentes partes da Bretanha. Navegaram para «visibilizar as suas lutas» e para «tomar os seus lugares num mundo marítimo marcado pela dominação patriarcal e colonial».

    Entraram pelo rio Loire e desembarcaram na vila de Couëron, na periferia ocidental da cidade de Nantes, onde eram esperadas por algumas dezenas de pessoas em alegre rebeldia. Presentes estavam também Marijose, Lupita, Carolina, Ximena e Yuli do Esquadrão 421. Já em terra, as marinheiras apresentaram às zapatistas uma canção escrita a bordo.

    «Agora as zapatistas chegam à Europa
    algumas de barco, outras de avião (…)
    Chegámos finalmente
    e os nossos sonhos tornam-se
    a cada dia um pouco mais realidade
    Mulheres e dissidências de aqui e de acolá
    Unamos as nossas forças
    Temos de nos revoltar!»

    Na ZAD de Notre-Dame-des-Landes, a Ambazada e o campo que vai até à Wardine, no princípio do Caminho de Suez, foram os espaços centrais dos Encontros Intergalácticos. Durante os dois primeiros dias, estes espaços foram ocupados pelo encontro de mulheres e pessoas trans e não binárias sob o lema «Muitas lutas para viver, um mesmo coração para lutar». Uma oportunidade rara para, à escala internacional, mulheres e dissidências partilharem experiências e ideias, debaterem e construírem as suas lutas e resistências. Dois dias em que foi possível usufruir de espaços seguros de discussão, mas também de diversão e lazer, espectáculos e concertos, sem a presença de homens – algo ainda mais raro.

    O Esquadrão esteve presente através das quatro mulheres e de Marijose, uma outroa, a palavra que as zapatistas utilizam para referir as pessoas que não se revêm na visão binária do género. Na cerimónia de abertura, tomaram a palavra para fazer as mesmas intervenções que, desde a sua chegada a Vigo em 22 de junho, tinham vindo a fazer em todos os actos públicos em que participaram: dizem o seu nome, a língua que falam, de onde vêm e onde vivem, e que são 100% zapatistas.

    Em todas as actividades em que estão presentes, registam pormenorizadamente nos seus cadernos o que acontece, o que é falado e discutido. Estão mandatadas pelas suas comunidades para conhecer as lutas e resistências «de baixo e à esquerda» deste continente que, no desembarque na Galiza, rebaptizaram de Terra Insubmissa. E tudo o que vêm, ouvem e vivem cá, transmitem-no às suas comunidades.

    E, na maior parte do tempo, permaneceram em silêncio. Algum raro momento houve em que, em grupos mais pequenos, tomaram a palavra, como por exemplo para explicar como funcionam as escuelitas zapatistas. Mas nunca emitiram opiniões nem posicionamentos, nem falaram em actividades grandes, o que causou desapontamentos e levantou questões por onde passaram. Muitas de nós nos perguntámos, nestas e noutras ocasiões, porque não tomavam a palavra. Entre conversas, possíveis explicações foram surgindo: que não estão mandatadas para falar; que o Esquadrão não é uma delegação de Escuta e Palavra, mas apenas de Escuta; que, sendo apenas sete entre as quase duas centenas previstas chegar, não falam para não ganhar protagonismo; que não falariam enquanto a entrada das restantes delegações continuasse a ser negada. A chegada das companheiras, prevista para o início de Julho, viria a acontecer apenas em Setembro, já então coincidindo com o regresso do Esquadrão 421 a Chiapas.

    Ao longo do atribulado processo da viagem zapatista, vamos aprendendo que tudo leva o seu tempo e que não há que tentar perceber tudo de uma vez. Dizia o Subcomandante Marcos, num comunicado de 3 de Março de 2001 dirigido ao Congresso Nacional Indígena: «Desconfia de quem muito fala, e escuta atento a quem sábio se cala.»

    No acto de encerramento deste encontro de dois dias, o Esquadrão é convidado a intervir. Acede em subir ao palco. Marijose pega no microfone e diz: «Estas são as nossas palavras.»

    Silêncio.
    Longos minutos de silêncio.
    E termina: «Muchas gracias

    Z de ZAD, Z de Zapata

    30 de Julho, dia de transição entre os dois encontros. Ao início da noite realiza-se, no imponente Farol da Rolandière, o ritual de abertura do evento misto. Um habitante da ZAD começa por contar um episódio que se desenrolara em torno de um posto avançado do exército mexicano em território zapatista, um posto de madeira e cheio de frestas. A certa altura, os zapatistas decidem fazer um ataque com a sua “força aérea” contra o posto, atirando pelas frestas dezenas de aviões de papel, cada um com um poema ou uma frase dirigida aos soldados. Conta a história que um deles dizia algo como «sabemos que vocês são pobres tal como nós, mas são ainda mais pobres pois venderam as vossas vidas àqueles que nos dominam e oprimem».

    A multidão permanece em silêncio, impressionada. Pela torre de vigilância usada, na altura dos confrontos, para perscrutar o horizonte em busca da polícia – uma das poucas estruturas que ainda resiste depois das expulsões de 2018 –, sobe uma mulher. De avião de papel na mão e apenas com a sua voz, sobrepondo-se ao vento forte que sopra, faz chegar aos ouvidos da multidão uma ária revolucionária francesa.

    Rolandière_Farol_FernandaFernández

    Quando chega ao topo da torre, a mulher lança o avião de papel, enquanto outras companheiras atiram outros 176 aviões, um por cada zapatista d’A Extemporânea. Em baixo, as pessoas recebem os aviões, dando simbolicamente a mão aos zapatistas que tentam entrar na Europa. É acesa uma fogueira, alumiando dezenas de tochas com Zs na ponta – Z de ZAD, Z de Zapatistas e Z de todas as zonas a defender. Após uma marcha nocturna, o acto termina enterrando os aviões na terra lavrada, num dos locais que antes fora palco de confrontos entre polícias e zadistas.

    Auto-organização feminista contra as agressões

    Os dias não-mistos deram lugar aos dias mistos, mas a resistência das mulheres continuou a ocupar um lugar central. Ressoava ainda a violação que ocorreu nos Encontros anteriores, em 2020, denunciada publicamente ao microfone durante o próprio encontro, e que abalou a ZAD.

    Atitudes, agressões e dinâmicas sexistas nos espaços colectivos haviam sido tema de debate ao longo dos anos em muitas das comunidades e assembleias da ZAD. No entanto, a ausência de um espaço colectivo que agregasse todos e todas as habitantes, fruto das primeiras fracturas que surgiram depois do fim da Operação César, impedia que certos problemas fossem enfrentados de forma colectiva. O debate geral e profundo na zona, surgido em reacção ao choque provocado por aquela violação, levou à criação de uma iniciativa para combater o sexismo em grandes eventos – a Festivities Fight Sexism. A FFS teve uma forte presença visual nos espaços do Encontro, com imensos cartazes contra as agressões sexistas e sexuais, e um número de denúncia e apoio afixado em todo o recinto, nos acampamentos e parques de estacionamento, através do qual as vítimas podiam entrar em contacto com companheiras da organização.

    Logo na noite de transição entre os dois encontros, denúncias de agressões e de gravações não consentidas de companheiras a dançar levaram as companheiras da FFS a implementar um protocolo contra as violências sexistas – foi criada uma zona segura em frente ao palco como espaço não-misto, equipas percorriam constantemente o recinto, uma equipa permanente dava apoio às vítimas e, durante a noite, grupos auto-organizados de mulheres acompanhavam as companheiras no regresso ao acampamento. Foi ainda feito o apelo para que, nas conferências e discussões, fosse dada prioridade à voz das mulheres, e foram agendadas várias reuniões não-mistas para avaliar o desenrolar do encontro e do protocolo.

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    As palavras do que se escutou

    Dezenas de actividades transportaram-nos através do tempo e do espaço às mais diferentes resistências. Desde a resistência à ditadura no Chade às revoltas dos anos 60 na Argélia, desde a revolução sudanesa de 2018 às lutas actuais nos Balcãs, passando pela experiência da Comuna de Paris no ano do seu 150.º aniversário. Falou-se de feminismo decolonial, de género e educação e de justiça transformadora em resposta às violências de género. Numa assembleia com a Rede de Entreajuda Verdade e Justiça, conhecemos a luta travada em França pelas famílias das vítimas das violências policiais e do racismo de Estado.

    Um dos temas centrais foi, naturalmente, as lutas pela terra e pelo território, por entre críticas às lógicas de mercado e à sociedade industrial. Uma das actividades centrou-se na crítica à ordem eléctrica, apresentada por uma rede de pessoas e colectivos de lutas ligadas à energia (contra o nuclear, as eólicas e as linhas de alta velocidade). Noutra actividade, procuraram-se os pontos comuns entre as lutas contra o Tren Maya, o movimento No TAV no Vale do Susa e a resistência à linha de alta velocidade HS2 em Inglaterra. Conhecemos ainda a Soulévements de la Terre, uma rede de lutas locais em França cujo objectivo é impulsionar um movimento de resistência à agro-indústria e ao extractivismo. Com a articulação de movimentos camponeses, ocupações de terras e experiências de auto-subsistência e auto-organização comunitária, a rede realiza acções massivas, de três em três meses, de apoio às lutas travadas no terreno.

    Outro dos pontos altos deste encontro foi a discussão «Resistências territoriais e construção de autonomias duradouras» em torno dos movimentos curdos, zapatistas e kanak, um povo originário em luta por autonomia na Nova Caledónia, que permanece uma colónia francesa. Um antigo presidente de câmara em Bakur (a parte do Curdistão na Turquia), um representante do Centro Democrático Curdo em França e duas internacionalistas de regresso de Rojava juntaram-se a um militante independentista Kanak e a duas militantes do movimento de apoio às zapatistas para partilhar as diferentes formas de vida, organização e produção construídas nestes territórios em busca de autonomia. Discutiu-se a correlação de forças no enfrentamento com o Estado, estratégias para suster as autonomias em situações adversas (governamentais, militares ou económicas) e o papel do internacionalismo.

    Ao longo do atribulado processo da viagem zapatista, vamos aprendendo que tudo leva o seu tempo e que não há que tentar perceber tudo de uma vez

    Por fim, o encontro presencial entre pessoas envolvidas na organização da Viagem pela Vida em diversos territórios – Suíça, Euskal Herria, Chipre, Roménia, Dinamarca, França, Portugal, Catalunha, País Valenciano, Cantábria e Andaluzia –, possibilitou a partilha das lutas e contextos das geografias presentes e as formas e desafios da organização. No tema da comunicação, falou-se de como a exclusividade da comunicação virtual acaba por deixar de fora quem não tem smartphone, as populações idosas, etc., e reforçou-se o exemplo e a necessidade de cartazes nas ruas, das rádios livres e outros meios de comunicação independentes. O que levou também a sublinhar a importância da presença e convivência a nível local e de bairro, destacando-se o exemplo de Barcelona, onde a organização desta viagem está baseada na criação de articulações entre colectivos, movimentos, projectos e espaços em cada um dos bairros.

    Com apenas dois homens entre uma dezena de mulheres desde as diferentes geografias da Viagem pela Vida, foi destacado o papel preponderante da participação feminina neste processo, e especialmente de mulheres migrantes. Uma mudança de paradigma num continente em que os movimentos reproduzem ainda bastantes dinâmicas sexistas e racistas, e frente aos quais os Encontros Intergalácticos assumiram ser esta uma questão central a partilhar com as zapatistas que a Europa acolhe.

     


    Fotografias de  Fernanda Fernández


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #32, OutubroDezembro 2021.


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