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  • Pela vida e pela dignidade do povo do Irão

    Pela vida e pela dignidade do povo do Irão

    O movimento zapatista mundial, ou melhor, «grupos, colectivos e pessoas de diferentes cantos do mundo em resistência e rebeldia», lançou uma declaração onde enquadra a revolta e a repressão iranianas numa tempestade global: «a tempestade do capitalismo, do imperialismo, do patriarcado e dos Estados que administram a morte enquanto falam de ordem, estabilidade ou segurança».

    Nessa declaração, onde se afirma «o direito inalienável dos povos à autodeterminação», é lembrado que «a liberdade não se exporta nem se negocia entre Estados» e também que «nenhuma intervenção imperial alguma vez trouxe justiça ou dignidade aos povos que diz “libertar”».

    Serve esta declaração para estender a mão ao povo iraniano, «não para o tutelar», mas para lembrar a toda a gente que é necessário «unir as lutas de baixo, de nos reconhecermos no destino comum de quem resiste ao capital, ao imperialismo e a todas as formas de dominação». Sem nos deixarmos cair nos maniqueísmos dos que «justificam o regime iraniano em nome de um suposto anti-imperialismo, ignorando que esse mesmo regime aplica ao seu povo lógicas de ocupação, apartheid, pilhagem e neoliberalismo» ou dos «que promovem alternativas reaccionárias, autoritárias e dependentes, que prometem a salvação enquanto reproduzem a dominação».

    Eis a declaração na íntegra:

    PELA VIDA E PELA DIGNIDADE DO POVO DO IRÃO

    Estamos a viver uma tempestade. Não é nova nem passageira. É a tempestade do capitalismo, do imperialismo, do patriarcado e dos Estados que administram a morte enquanto falam de ordem, estabilidade ou segurança. Nesta tempestade, os de cima disputam territórios, recursos e poder; os de baixo comprometem os seus corpos, as suas vidas, o medo e a esperança.

    No Irão, hoje, essa tempestade abate-se com uma violência particular. O povo iraniano voltou a mobilizar-se contra o regime da República Islâmica, que não hesitou em reprimir violentamente quem saiu às ruas. Estas mobilizações não são nem um acto isolado nem uma reacção momentânea: são o resultado acumulado de décadas de opressão política, exploração económica, violência patriarcal, repressão sistemática e negação de direitos. São lutas que nascem na base, da vida quotidiana sufocante, de quem já não pode e já não quer continuar a sobreviver em silêncio.

    Em cima, os governos e as potências avaliam a situação de um ponto de vista geopolítico. Calculam as vantagens, os equilíbrios regionais, as vias de abastecimento energético, as alianças oportunas. Em cima, o crime é normalizado, justificado ou dissimulado sob discursos de «estabilidade», «segurança» ou «realismo político». Em cima, mesmo quem se apresenta como inimigo do regime iraniano não hesita em legitimar o massacre, quando este serve os seus interesses.

    Em baixo, por outro lado, o povo iraniano luta pela vida.

    Em baixo, estão as mulheres que desafiam diariamente o controlo patriarcal.

    Em baixo, estão os trabalhadores e as trabalhadoras empobrecidos pelas políticas neoliberais.

    Em baixo, estão as dissidências sexuais, as minorias religiosas, os povos oprimidos, as pessoas que vivem nos subúrbios afectados pela crise da água, da habitação e do emprego.

    Em baixo, estão os que saíram às ruas repetidamente, muitas vezes de mãos vazias, sem organizações amplas – destruídas pela repressão – e que, ainda assim, avançaram mais do que qualquer oposição institucional.

    Denunciamos com firmeza a manipulação externa destas manifestações. Nenhuma potência estrangeira, nenhum governo do norte global, nenhum projecto imperialista tem o direito de usar o sofrimento do povo iraniano como um peça no seu tabuleiro. Essa instrumentalização não só distorce as lutas reais, como também coloca ainda mais em risco quem resiste, ao transformá-los em pretexto para uma repressão ainda mais brutal.

    Reafirmamos o direito inalienável dos povos à autodeterminação. A liberdade não se exporta nem se negocia entre Estados. Nenhuma intervenção imperial alguma vez trouxe justiça ou dignidade aos povos que diz «libertar». A história ensina-nos isso, e as ruínas deixadas pelo seu rastro confirmam-no inúmeras vezes.

    Há os que, de fora, olham para cima e não para baixo: que justificam o regime iraniano em nome de um suposto anti-imperialismo, ignorando que esse mesmo regime aplica ao seu povo lógicas de ocupação, apartheid, pilhagem e neoliberalismo; e há os que promovem alternativas reaccionárias, autoritárias e dependentes, que prometem a salvação enquanto reproduzem a dominação.

    São falsas oposições. Os de cima contra os de cima. O poder contra o poder. Lá em baixo, o povo está preso entre duas forças que se dizem opostas, mas que agem em conjunto.

    A nossa posição é clara: não estamos com os governos, estamos com os povos. Não com os Estados, mas com as pessoas que resistem. Não com as elites, mas com quem luta para viver.

    Hoje, enquanto o povo iraniano enfrenta o corte das comunicações, o estado de sítio e a militarização da vida quotidiana, apelamos a que se escutem os avisos das nossas companheiras zapatistas: a tempestade é global; quem pensar que não lhes diz respeito, que não é afectado, está enganado. Perante esta tempestade, não há salvadores nem soluções vindas de cima. O que há é a possibilidade – urgente – de unir as lutas de baixo, de nos reconhecermos no destino comum de quem resiste ao capital, ao imperialismo e a todas as formas de dominação.

    Estendemos a mão ao povo iraniano.

    Não para o tutelar.

    Não para falar em seu nome.

    Mas para lhe dizer: não estão sozinhos.

    Porque a luta no Irão é também a luta pela vida em todos os outros lugares. E porque só partindo de baixo, juntos, poderemos enfrentar a tempestade e imaginar o dia seguinte.

    Janeiro de 2026

    Para subscrever esta declaração, escreva para declaracion.iran@gmail.com
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    Texto retirado de Enlacezapatista
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  • Zapatistas: profissionais da esperança

    Zapatistas: profissionais da esperança

    No dia 29 de dezembro de 2023, partimos de San Cristóbal de las Casas, em Chiapas, em direção a leste onde, após 5 horas, segundo as instruções zapatistas, nos encontraríamos no Caracol VIII «Resistência e Rebelião: Um Novo Horizonte», local da grande celebração do 40º aniversário da fundação do EZLN e do 30º aniversário do levantamento armado de 1 de janeiro de 1994.

    Éramos três mulheres a viajar num percurso que se cruza com aldeias paramilitares e rapidamente nos deparámos com situações preocupantes: as estradas eram sinuosas, o nevoeiro era espesso, não havia sinal de telemóvel que nos permitisse informar onde estávamos e o que tornava o ambiente mais tenso era o aparecimento de adultos e crianças com armas e postos de controlo de homens com machetes, bloqueando a estrada com troncos de árvores. Só quando vimos a primeira placa do Território Autónomo Zapatista guardada por milicianos encapuçados com uniformes do EZLN é que respirámos de alívio. A noite estava a cair e, não tivessem lá estado, ter-se-ia tornado bastante perigosa. À chegada, fomos escoltados por quatro zapatistas em motas até outro Caracol, onde passaríamos a noite.

    Na manhã seguinte, de volta ao Caracol VIII, local do evento principal, o que vimos retratava claramente a utopia de um mundo em resistência e rebelião. À entrada, cinco ambulâncias do sistema de saúde autónomo aguardavam qualquer emergência e centenas de milicianos zapatistas encarregavam-se da segurança do evento. Os «tercios compas» (a equipa dos meios de comunicação livres zapatistas) documentavam a agitação da celebração e os caldeirões fumegantes de café, feijão e sopa de legumes, e as suas tortilhas artesanais davam as boas-vindas aos convidados. Destacava-se a figura de um chefe zapatista que coordenava maravilhosamente a cozinha como se fosse uma sinfonia. Éramos mais de 10.000 pessoas, entre estrangeiros, mexicanos e zapatistas.

    No levantamento armado de 1 de janeiro de 1994, os zapatistas recuperaram grandes extensões de terra das fazendas onde os povos indígenas sofriam exploração, fome, violência e morte, terras que a Igreja e os crioulos lhes tinham tirado durante o período colonial. É quase implausível que o Caracol VIII, onde fomos recebidos para a grande celebração do aniversário, e onde no dia a dia se constrói um sistema zapatista de governo autónomo, fosse, há apenas 30 anos, antes da revolta, a quinta de um latifundiário. Milhares de hectares onde os indígenas locais viviam e morriam como escravos, onde as crianças trabalhavam do nascer ao pôr do sol e onde a vida dos que hoje são zapatistas não valia nada. Esta foi a grande conquista do zapatismo: trazer dignidade e vida onde antes havia humilhação e morte.

    Agora as comunidades zapatistas não estão organizadas em núcleos de governo centralizado, agora a base é quem manda diretamente.

    Uma nova estrutura de autonomia zapatista: os bens comuns

    Para construir este complexo sistema de autogoverno, os zapatistas estão constantemente a fazer autocrítica, porque, como eles dizem, «não há um manual». A sua visão vai para além do futuro que todos nós já conhecemos. Como diria o Sup (agora Capitão Insurgente Marcos): «eles insistem em subverter até mesmo o tempo e erguer de novo, como se fosse uma bandeira, outro calendário». Nos mais recentes vinte comunicados publicados (enlacezapatista.ezln.org.mx), o EZLN declarou, após uma longa consulta a todos os povos zapatistas, que foi decidido alterar a estrutura de autogoverno que tinham até agora. Com efeito imediato, as Juntas de Buen Gobierno (JBG) e os Municípios Autónomos Rebeldes Zapatistas (MAREZ) fecham e a pirâmide inverte-se. Agora, as Bases de Apoio Zapatistas estão organizadas em GAL (Governos Autónomos Locais) e estes passam a ser o núcleo de toda a autonomia. Ou seja, agora as comunidades zapatistas não estão organizadas em núcleos de governo centralizado (JBG), agora a base é quem manda diretamente. É relevante pensar que, se antes havia doze núcleos de governos autónomos (JBG), agora há milhares de GAL zapatistas num gigantesco exercício de participação política de base.

    Outra das mudanças mais importantes é uma nova proposta que aponta para os bens comuns em toda a estrutura zapatista. Neste sentido, parte do território recuperado passa a ser de todos e de ninguém, ou seja, já não é apenas para uso exclusivo dos e das zapatistas, mas, por acordo, é terra de uso comum para quem quiser ir trabalhar nela. Também os seus sistemas de saúde, agroecologia e educação deixarão de estar apenas ao serviço das zapatistas e passarão a estar abertos a toda a comunidade que habita a zona, seja ela zapatista ou não.

    Estas mudanças assinalam uma clara expansão do sistema de autonomia e foram uma parte central da celebração. Através de várias peças de teatro representadas por centenas de jovens e crianças zapatistas foram explicadas em maior profundidade. O que está a ser re-planeado hoje, semeando as sementes do comum, destina-se às crianças do futuro. Nas palavras do Subcomandante Moisés, «nós (os zapatistas) temos de lutar para que esta criança, que vai nascer daqui a 120 anos, seja livre e seja o que quiser ser». A semente da autonomia que é plantada hoje é plantada para colher a liberdade na sétima geração que se segue.

    No seu longo percurso, o zapatismo manteve sempre a congruência entre o seu discurso, a sua ideologia e as suas ações. Mesmo quando o discurso tende para o realismo mágico, com histórias de homens e mulheres de milho, escaravelhos filósofos, baleias mapuches a nadar na selva e canoas a atravessar oceanos inteiros, as suas palavras, surpreendentemente, encontram sempre uma forma de se materializarem. Os zapatistas dizem que é preciso dar nome às coisas para que elas se tornem reais, e por isso dão nome a tudo o que vão construir. Nomeiam os seus territórios, as suas estruturas de autonomia, nomeiam os seus amigos e sobretudo os seus inimigos, nomeiam o passado e os seus antepassados, e nomeiam também o futuro que vão forjar. Nomear é um compromisso, é uma responsabilidade de que algo nasceu e implicará muito trabalho coletivo. Os Caracóis, os seus centros organizativos, por exemplo, têm cada um deles um nome dado pelo coração do povo. O Caracol Morelia chama-se «Turbilhão das nossas palavras», enquanto o Caracol Oventic se chama «Resistência e Rebelião para a Humanidade». Estes nomes, escolhidos em assembleias comunitárias, expressam em cada palavra a força da sua comunalidade e é através da sua construção do comum que as Zapatistas se afastam do paradigma hegemónico da governação sem coração, sem metáfora, sem esperança.

     


    Texto de  Lupita Valdez Castilla
    Fotografia [em destaque] de  Abril Rodríguez Cuevas

    @caravana.zapatista @slumilcinko


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #40, Janeiro|Março 2024.

  • A Força Aérea Zapatista aterra em Viena com Chiapas à beira da Guerra Civil

    A Força Aérea Zapatista aterra em Viena com Chiapas à beira da Guerra Civil

    Cerca de 170 zapatistas chegaram a Viena, poucos dias depois do regresso ao México do Esquadrão 421. Na capital austríaca, antes de se dividirem em grupos para visitar todos os territórios da Europa e chegarem a Portugal em Novembro, participaram em vários protestos e encontros, numas boas-vindas ensombradas pelo sequestro de dois companheiros zapatistas em Chiapas. O território está à beira da guerra civil, com as comunidades zapatistas de raiz maia a enfrentarem um crescente número de agressões por parte de grupos paramilitares e do narcotráfico.

    No coração da Europa Central, a 14 de Setembro de 2021, uma centena de mulheres, homens e crianças zapatistas aterraram em Viena a sexta cidade mais populosa da União Europeia. Com documentação completa e bilhete na mão, vacinas e protocolos sanitários garantidos, as zapatistas conseguiram romper o racismo transatlântico, que tudo fez para impedir esta viagem. A delegação aerotransportada A Extemporânea deve o seu nome ao racismo de um México que considera «extemporâneos» os seus povos originários e ao racismo da Europa Fortaleza que, escudada nas regulamentações sanitárias, procurou durante meses travar a entrada das zapatistas.

    No aeroporto de Viena concentraram-se dezenas de colectivos de toda a Europa. Quando o primeiro grupo d’ A Extemporânea cruzou a porta das chegadas, ouviram-se aplausos, gritos de «Zapata vive, la lucha sigue!», «EZLN!», «los pueblos unidos jamás serán vencidos» e canções revolucionárias em várias línguas. No exterior do aeroporto, mulheres austríacas e migrantes deram as «boas-vindas à vossa casa» em alemão e em espanhol. Com camisa azul, chapéu, viseira de protecção sanitária e com o rosto tapado apenas por uma máscara, prescindindo pela primeira vez do lenço vermelho e do passa-montanhas, o Subcomandante Insurgente Moisés tomou o microfone para dirigir-se aos anfitriões da Europa e falar sobre a defesa da Mãe Terra. «Vai-se acabar a natureza. É isso que viemos dizer-vos. Não acreditam? Vão vê-lo», avisa. «De nome já sabemos quem é: é o capitalismo». «Os governantes não vão fazer nada, porque são cúmplices do capitalismo. Eles são os que se põem de acordo para levar a cabo a destruição. Ninguém vai lutar por nós, ninguém vai defender-nos por nós, daquilo que faz o capitalismo. Jamais. Desde os nossos tetravós, falando de 500 anos, é o que vemos. Ninguém, absolutamente ninguém, vai lutar por nós.»

    O discurso recua ao primeiro do ano da insurgência zapatista. «Nós, as zapatistas e os zapatistas, estamos aqui graças às nossas companheiras e companheiros que caíram no amanhecer de 1994, quando saímos a lutar contra o mau governo. Estamos aqui graças àscompanheiras e companheiros caídos na resistência e na rebeldia. A nossa rebeldia e resistência é que nós queremos governar-nos como povos. Nós não queremos matar, nós não queremos morrer. O problema é que não nos dão a oportunidade de fazer o que nós pensamos como homens e mulheres. E é o que vimos fazendo ao longo de 28 anos: não estamos a disparar, não estamos a matar, nem queremos morrer. Queremos a Vida», expressou à Europa o porta-voz do EZLN.

    No dia seguinte chegou o restante grupo de mais de 70 homens zapatistas. A escassos metros da porta das chegadas internacionais, um grupo de anfitriãs migrantes tomou a palavra: «Queridas Compas, as migrantes de língua castelhana e portuguesa na geografia de Viena saúdam-vos e dão-vos as boas-vindas! Somos um colectivo que se juntou para vos acompanhar e reunir convosco, a delegação zapatista. Queremos assegurar-nos de que a voz dos migrantes se escuta nas diferentes frentes da organização da Viagem pela Vida na Áustria. Perguntámo-nos: “Como teríamos gostado de ser recebidos quando chegámos desde o outro lado do oceano?” E respondemos que alguém nos podia ter dito as seguintes palavras: nós, os precarizados, nós, os racializados, nós que lutamos por ter uma voz migrante, nós que falamos alemão com sotaque, na geografia chamada Viena, saudamos-vos e damos-vos as boas-vindas! A nossa casa é a vossa casa.»

    Os e as companheiras recém-chegadas estavam sorridentes e alegres por pisar pela primeira vez, e depois de uma longa espera, o solo europeu.

    Subcomandante Moisés
    Subcomandante Moisés à chegada no aeroporto de Viena. Fotografia de Isabel Mateos.

    A valsa de Viena e os feminicídios na Áustria

    A Fuerza Aérea Zapatista acabava de aterrar numa terra insubmissa, cuja história de dor e resistência é o verso do postal dos palácios em estilo rococó nas margens do Danúbio. Ricardo Loewe, do Comité de Solidariedade México-Salzburgo, explicou aos meios de comunicação independentes que, «junto com a Polónia e Hungria, a Áustria é um país do antigo império dos Habsburgo que hoje carrega a bandeira do racismo da Europa. É mais que triste, indignante, dá raiva, porque aqui existem reminiscências dramáticas de um fascismo que nunca desapareceu, que é vigente. E, ainda assim, estamos a receber a delegação zapatista! Não é por acaso que vêm a Viena, onde há muitos grupos que nutrem uma grande simpatia pelo zapatismo».

    Para além da cripta imperial onde turistas podem visitar o túmulo de Maximiliano, ou a herança colonial do «penacho de Moctezuma que parece uma galinha morta», Loewe, de 80 anos, recorda-nos também o passado da «Viena vermelha», anterior à ditadura fascista de Dolfus; um marxismo austríaco cristalizado na Praça Friedrich Engels; mas também as lutas das mulheres e dissidências de género, o movimento okupa e a cultura da luta anarco-comunista, «pequena, mas bem-estruturada, sem partido».

    um grande contingente de mulheres maias zapatistas juntou-se a uma concentração para exigir justiça para Shukri e Fadumo, duas mulheres de origem somali assassinadas dois dias antes em Viena

    Ao final da tarde de quinta-feira, 16 de Setembro, pouco mais de 48 horas depois de chegarem à capital austríaca, um grande contingente de mulheres maias zapatistas juntou-se a uma concentração para exigir justiça para Shukri e Fadumo, duas mulheres de origem somali assassinadas dois dias antes em Viena. Na concentração convocada pelo colectivo Ni Una Menos-Austria, em frente à monumental igreja de Karlsplatz, as companheiras ouviram, aplaudiram e filmaram diferentes intervenções de mulheres somalis e de outros países de África, Médio Oriente, Europa e América Latina, que se expressaram nas suas diferentes línguas. Ao seu lado, centenas de jovens mulheres feministas carregavam bandeiras e cartazes contra o patriarcado e o racismo.

    O toque do sino da igreja de Karlsplatz não conseguiu calar as vozes altas nem os silêncios das mulheres expressando as suas dores e a sua raiva. «Nem uma menos!», «Alerta Feminista!» e «Stoppt den femizid!». Uma vibração anti-patriarcal, anti-racista e internacionalista marcava a primeira marcha europeia da Secção Miliciana Ixchel-Ramona, no protesto contra o 21.º feminicídio que assolou a Áustria no presente ano de 2021.

    Sequestros em Chiapas provocam protestos internacionais

    No dia seguinte, cerca de 20 mulheres e 30 homens zapatistas reforçavam o contingente internacional que se concentrava em frente à embaixada do México, no luxuoso centro histórico vienense. À chegada na Europa, o primeiro objectivo impusera-se na denuncia ao paramilitarismo e na exigência do aparecimento com vida de dois companheiros das bases de apoio do EZLN.

    José Antonio Sánchez Juárez e Sebastián Núñez Pérez, integrantes da Junta de Bom Governo Nuevo Amanecer en Resistencia y Rebeldía por la Vida y la Humanidad do Caracol 10 de nome Floreciendo la Semilla Rebelde, situado em Patria Nueva, haviam sido sequestrados a 11 de Setembro na comunidade 7 de Febrero, município de Ocosingo, Chiapas. A localidade é a sede da ORCAO, uma organização paramilitar que há vários meses tem vindo a perpetrar uma série de acções criminosas contra as Bases de Apoio do EZLN na comunidade autónoma Moisés-Gandhi.

    Em frente do edifício monumental da diplomacia mexicana, e nos dias seguintes em mais de uma dezena de cidades europeias, activistas denunciaram a cumplicidade do governo federal de López Obrador, bem como de Rutilio Escandón, governador de Chiapas, nos ataques paramilitares perpetrados contra camponeses maias zapatistas, mas também contra companheiros defensores dos direitos humanos. Por fim, em comunicado do EZLN publicado a 19 de Setembro intitulado “Chiapas à Beira da Guerra Civil”, este anuncia que os esforços de ambos os lados do atlântico, aliados à intervenção de organizações de defesa dos direitos humanos e dos párocos de San Cristóbal de las Casas e de Oxchuc, haviam dado frutos. Após oito dias sequestrados, os dois companheiros foram devolvidos com vida às suas comunidades.

    «O Governo de Chiapas não só encobre os bandos de narcotraficantes, como também alenta, promove e financia grupos paramilitares, como os que atacam continuamente comunidades em Aldama e Santa Marta», lê-se no comunicado, que denuncia estas acções com o objectivo de «provocar uma reacção do EZLN com o fim de destabilizar um estado cuja governabilidade pende por um fio». O comunicado termina, num tom que há muito já não se escutava da parte dos zapatistas: «Deixem já de jogar com a vida e a liberdade dos Chiapanecos. Noutra ocasião já não haverá comunicado. Ou seja, não haverá palavras, mas feitos.»

    A mobilização internacional convocada pelo EZLN voltou a sair às ruas no dia 24 de Setembro, em dezenas de localidades no México, Estados Unidos, Brasil e em mais de meia centena de cidades e vilas europeias, para exigir um fim das provocações por parte dos paramilitares e dos governantes e para pôr um ponto final «no culto à morte que professam». Raúl Romero, académico da Universidade Nacional Autónoma do México que acompanha o zapatismo, dá conta do espírito vivido: «alguns dizem, com essa arrogância que acompanha a ignorância, que o zapatismo já não é apelativo, que já passou de moda, que o seu tempo se acabou. Vejam. Escutem. Está a nascer algo novo, um novo tempo, o tempo dos povos.»

    Concentração
    Concentração frente à embaixada do México. Fotografia de Lorena Salamanca.

    Encontros na resistência a mega-projectos

    Na manhã de sábado, anterior à libertação de José e Sebastián, uma delegação zapatista teve pela primeira vez um encontro público com uma resistência ao mau governo (conceito que os zapatistas usam para os governos dos de cima, por oposição às suas Juntas de Bom Governo). Neste que é um dos grandes centros da hidra capitalista, foi montado um impressionante acampamento em Lobau, nos arredores de Viena, para proteger um ecossistema raro dos planos do governo austríaco de aí construir uma auto-estrada atravessando a maior reserva natural da cidade, zona protegida desde 1978 e parte do Parque Nacional Danúbio-Auen desde 1996. Cerca de 60 homens e mulheres zapatistas encontraram-se com jovens e ambientalistas que resistem desde Agosto e que lhes contaram a história do local, o projecto e o porquê de defenderem esta que é a única paisagem do seu género que permanece ecologicamente intacta não só na cidade, mas em toda a Europa Central.

    Entre intervenções e perguntas de parte a parte, discutiram-se estratégias de resistência para defender o território – falou-se de pacifismo, desobediência civil, ocupação e violência. Os activistas locais explicam que todo o movimento em Lobau é pacífico e que essa é uma condição fundamental para manter o amplo apoio da vizinhança. Embora sejam maioritariamente jovens a pernoitar no acampamento, vizinhos e vizinhas vêm colaborando e ajudando, e deixam que os jovens acampados tomem banho nas suas casas. Dão mesmo conta de um acordo com a polícia para que, caso o protesto se mantenha não-violento, esta avise os ocupantes com um dia de antecedência, na eventualidade de ser dada ordem de despejo.

    Entre intervenções e perguntas de parte a parte, discutiram-se estratégias de resistência para defender o território – falou-se de pacifismo, desobediência civil, ocupação e violência.

    Não imaginamos quão estranho isto será para quem vem do México, onde a violência é prato do dia e a polícia apenas mais uma força de repressão e violência gratuita. «E se vocês não saírem?», perguntam as zapatistas. Explicam que, face a uma ordem de despejo, se não aceitarem sair pelo seu próprio pé, detêm-nos por 24 horas e voltam a soltá-los, sem nenhuma acusação. Ou seja, que «não se passa nada, e voltamos a acampar». O subcomandante Moisés, surpreendido, replica desconcertado: «É como se eu te dissesse “Vou rebentar a tua mãe”, e tu dissesses “não, não o faças”, e depois eu já não o faço», perguntando-lhes de seguida se realmente esse tipo de acções tem resultados. Para já, desde que começaram as ocupações em Lobau, os trabalhos de construção estão parados.

    A zona de Lobau é o que resta de um enorme ecossistema húmido que se estendia pelas margens do Danúbio, destruído no processo de terraplanagem com vista à expansão e industrialização da capital austríaca, nos finais do século XIX. Naquilo que eventualmente ajuda a explicar a referida concertação pacifista, a região guarda a memória dos protestos ocorridos neste Parque Natural em 1984, a primeira vez que a desobediência civil foi amplamente aceite como uma estratégia. O plano de uma central hidro-eléctrica culminara na ocupação do local por centenas de pessoas, travando os trabalhos. A violenta intervenção de 800 polícias, para expulsar os cerca de três mil manifestantes que permaneciam no local, provocou confrontos, feridos e uma onda de indignação em Viena, onde 40 mil pessoas se manifestaram no mesmo dia da expulsão. Temendo a eclosão de uma revolta, o governo anunciou a suspensão dos trabalhos e o Supremo Tribunal a sua proibição. A ocupação foi terminada e, meses mais tarde, o projecto definitivamente abandonado. Desde esse ano, praticamente todos os mega-projectos na Áustria são enfrentados por algum movimento popular.

    A visita a Lobau termina após a visita a outros dois acampamentos mais pequenos montados no estaleiro das obras. Um grupo de mulheres zapatistas decidiu aguardar em Lobau pelo almoço para o qual tinham sido convidadas. A conversa flui num registo informal e é partilhada a história do movimento zapatista desde 1986, a preparação do levantamento de 1994 e o papel dos e das promotoras de saúde e educação, colocando-se um foco especial na participação das mulheres em todo o processo. Sem esquecer também o consumo de álcool nas comunidades, raiz de problemas tanto em contexto militar como em contexto familiar, e como, enquanto comunidades e povos, decidiram enfrentá-lo. No acampamento de Lobau, ouvimos: «as zapatistas vêm dar esperança, inspiram-nos com tudo o que já conseguiram construir em Chiapas. São uma verdadeira biblioteca andante».

    feminicidios
    Zapatistas em concentração contra os femícidios. Fotografia de Lorena Salamanca.

    Numa varanda em Viena

    Os grupos de Escuta e Palavra que compõem A Extemporânea começaram, a 22 de Setembro, a deslocar-se para as geografias que compõem a primeira zona da Viagem pela Vida – Alemanha, Escandinávia, Europa de Leste e Balcãs. Ao final da tarde desse mesmo dia, aterrou em Viena a delegação de 16 pessoas do Congresso Nacional Indígena (CNI-CIG) e da Frente de Povos em Defesa da Água e Terra (FPDTA).

    Dois dias mais tarde, o CNI e a FPDTA participaram, com dezenas de zapatistas ainda presentes, na marcha da Greve Climática Mundial. Vinte mil pessoas tomaram as ruas da capital austríaca num percurso de 4 kms exigindo justiça climática, acções urgentes para combater o aquecimento global, uma mudança de sistema e apoiando à resistência contra a construção da auto-estrada em Lobau. A manifestação terminou no parlamento austríaco e, depois das intervenções da organização e da actuação de uma banda local, subiram ao palco duas companheiras que fizeram ressoar a mensagem dos povos indígenas do México. Frente à majestosa varanda onde Hitler discursou em 1938, perante centenas de milhares de pessoas, consumando a anexação nazi, Libertad, uma companheira zapatista, contou a história de uma mulher:

    «Não importa a cor da sua pele, porque tem todas as cores. Não importa o seu idioma, porque escuta todas as línguas. Não importa a sua raça e a sua cultura, porque nela habitam todos os modos. Não importa o seu tamanho, porque é grande e, ainda assim, cabe numa mão. Todos os dias e a todas as horas, essa mulher é violentada, golpeada, ferida, violada, burlada, desprezada. Um macho exerce sobre ela o seu poder, todos os dias e a todas horas. Ela vem até nós, mostra-nos as suas feridas, as suas dores, as suas tristezas, e só lhe damos palavras de consolo, de pena, ou ignoramo-la. Talvez, como esmola, lhe dêmos algo para que cure as suas feridas, mas o macho continua a sua violência.

    Nós e vocês sabemos em que é que termina isto. Ela será assassinada e, com a sua morte, morrerá tudo. Podemos continuar a dar-lhe palavras de alento e remédios para os seus males. Ou podemos dizer-lhe a verdade: o único medicamento que poderá curá-la e saná-la por completo é enfrentar e destruir quem a violenta. E podemos também, e em consequência, unir-nos a ela e lutar a seu lado.
    A essa mulher, nós, os povos zapatistas, chamamos-lhe “Mãe Terra”. Ao macho que a oprime e a humilha, ponham-lhe o nome, o rosto e a forma que quuiserem. Nós, os povos zapatistas, chamamos a esse macho assassino por um nome: capitalismo.

    E chegámos a esta geografia para vos perguntar: vamos continuar a pensar que com pomadas e calmantes se solucionam os golpes de hoje, ainda que saibamos que amanhã será maior e mais profunda a ferida? Ou vamos lutar juntos com ela?

    Nós, as comunidades zapatistas, decidimos lutar junto a ela, por ela e para ela.»

    acampamento
    Encontro no acampamento de Lobau. Fotografia de Lorena Salamanca.

    É, então, a vez de Isabel, uma mulher otomi do Congresso Nacional Indígena, tomar a palavra:

    «Hoje estamos a ver que, os que vivemos na cidade, não temos direito a ela e, aos que estamos nas nossas aldeias, nos despojam. Temos aí muitas empresas que nos vêm enganando sobre o que é progresso, temos a termoeléctrica, o comboio maya, parque eólicos, os pais de ayotzinapa, e os agroquímicos que aqui, em países desenvolvidos, já não se vendem, pelo que os levam para os nossos povos para matar-nos a todas e a todos.

    Hoje estamos aqui todos os povos do outro lado do mundo para caminhar juntas e juntos. Por isso nós, como Conselho Indígena de Governo, estamos a caminhar junto com as nossas irmãs e irmãos zapatistas. Esta é uma Viagem pela Vida porque, se se acaba a Mãe Terra, se a matamos entre todas e entre todos, vamos acabar junto com ela, vamos morrer junto com ela. E daqui lhes dizemos, ao capitalismo e ao patriarcado, que a única coisa que queremos é a nossa autonomia, as nossas aldeias, as nossas águas livres de contaminação. Não queremos mais capitalismo, não queremos mais empresas. E também lhes dizemos que não esquecemos, não capitulamos, e até à vitória… Zapata vive!».

    A multidão responde: «La lucha sigue!»

    Ao contrário do discurso de Hitler, estes dois discursos não irão aparecer nos livros de história. Mas cumprem o papel de, através da escuta e da palavra, semear essa resistência e essa rebeldia que é o principal objectivo desta Viagem pela Vida.

    Durante estes dias, à porta fechada, as zapatistas, o CNI e a FPDTA realizaram diversos encontros de Escuta e Palavra com mulheres migrantes de línguas portuguesa e castelhana, com mulheres palestinianas e com várias outras comunidades e lutas em Viena, para tratar dos assuntos que trazem à Europa estes povos indígenas.

     


    Partes deste artigo têm por base os trabalhos colectivos dos Medios Libres en Viena e publicadas originalmente em castelhano e em português na RadioZapatista.org, Pozol.org e Guilhotina.info

    Fotografia [em destaque] de Amehd Coca


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #32, Outubro|Dezembro 2021.


    #Viena #zapatistas #AExtemporânea #insurgênciazapatista #EZLN #feminicídios #protestosinternacionais #resistência #CongressoNacionalIndígena #ViagempelaVida #mapa32

     

  • Zapatistas e Mulheres no centro dos Encontros Intergalácticos

    Zapatistas e Mulheres no centro dos Encontros Intergalácticos

    O Esquadrão 421, a primeira comitiva zapatista a chegar à Europa, participou em Julho nos encontros de mulheres na ZAD francesa de Notre-Dame-des-Landes, por ocasião dos Encontros Intergalácticos. O Jornal MAPA, em parceria com a Guilhotina.Info, esteve no local revisitando aquela que foi a maior luta contra megaprojectos das últimas décadas na Europa e escutando diversas resistências, com destaque para as lutas das mulheres.

    A ZAD de Notre-Dame-des-Landes, a mais conhecida das «Zonas A Defender», é hoje muito diferente da ocupação de terras que encontrámos até 2018. A partir desse ano, com a vitória do movimento e o abandono do projecto do aeroporto, foi dado início a um processo de normalização de relações com o Estado, marcado por conflitos internos e por uma brutal onda de ataques policiais.

    Até então, a ZAD era um espaço que existia em (quase) total autonomia do Estado e do sistema capitalista. Fora da jurisdição das autoridades e da lei francesa, em grande parte desconectadas das redes públicas de água e electricidade, cerca de duas centenas de pessoas habitavam os ambientes mais improváveis desta Zona a Defender – desde quintas expropriadas pelo Estado por «interesse público» a cabanas no cimo das árvores ou, no meio de um lago, uma cabana flutuante. Enormes hortas colectivas, que durante boa parte do ano asseguravam a autonomia alimentar das habitantes e das visitantes, coexistiam com estradas e caminhos repletos de barricadas. Carcaças de antigos carros da polícia transformados em canteiros. Enormes buracos escavados para impedir a passagem da polícia num eventual novo ataque. Cabanas e uma torre de madeira construídas sobre o próprio alcatrão, perscrutando o horizonte em busca de alguma visita inoportuna.

    Sinais da força que permitiu enfrentar e vencer a operação repressiva que assolou a ZAD com uma intensidade nunca antes vista entre o outono de 2012 e a primavera de 2013, na chamada Operação César. Uma força vinda da enorme diversidade de pessoas, grupos, abordagens e estratégias que partilhavam o território, numa realidade repleta de contradições e conflitos, com tanto caminho por fazer em muitos campos. E, ainda assim, eco desse “mundo onde caibam muitos mundos” de que falam os zapatistas, exactamente por essa diversidade, descentralização e autonomia.

    A ZAD continua. Neste momento, cerca de 260 pessoas habitam a zona, umas em grupo, outras sozinhas, organizadas em diferentes colectivos, cooperativas e projectos

    Em 2018, o Estado soube pôr em prática a máxima “dividir para reinar” e entregou ao movimento um presente envenenado. A par do abandono do projecto do aeroporto, anunciou o início de um processo de regularização em que as comunidades deveriam apresentar candidaturas para que fossem avaliadas e emitidas decisões sobre a sua permanência na zona. O movimento, antes unido pela oposição ao aeroporto, fragmentou-se. Geraram-se conflitos entre pessoas e grupos que queriam, a todo o custo, manter a ZAD como estava e outros e outras que estavam dispostas a negociar com o Estado para conseguir manter pelo menos alguns dos espaços e alguma da autonomia. Nesse ano, logo após terem sido retiradas, como sinal de “boas intenções” por parte do movimento, as barricadas de uma das duas estradas que atravessam a zona, a route des chicanes, a polícia voltou a atacar e destruiu a maior parte dos espaços na zona leste da ZAD.

    Agora, à chegada a Notre-Dame-des-Landes, vêem-se poucos sinais da luta contra o aeroporto, que anteriormente decoravam as beiras das estradas, os jardins e as fachadas das casas. Os acessos estão em óptimas condições e as estradas dentro da zona estão asfaltadas e praticamente imaculadas. Não há sinais de barricadas nem carcaças de carros. Não há cabanas nem torres. Imensos espaços colectivos, comunidades e projectos desapareceram sem deixar rasto. Até a cabana flutuante foi destruída.

    E, ainda assim, apesar de todas as transformações que tiveram início em 2018, a ZAD continua. Neste momento, cerca de 260 pessoas habitam a zona, umas em grupo, outras sozinhas, organizadas em diferentes colectivos, cooperativas e projectos. Cada uma procurando, a seu modo, continuar a desenvolver formas de vida e de organização alternativas.

    E é aqui que surgem, por ocasião da invasão zapatista da Europa, os Encontros Intergalácticos. Um mundo de possibilidades e encontros entre gentes e lutas dos mais variados contextos e geografias.

    ZAD_Fernanda_Fernández

    «Muitas lutas para viver, um mesmo coração para lutar» – Encontro de Mulheres e Dissidências

    A 27 de Julho, véspera do início dos encontros, chegava a Nantes uma caravana marítima de mulheres. Catorze mulheres em três veleiros, vindas de diferentes partes da Bretanha. Navegaram para «visibilizar as suas lutas» e para «tomar os seus lugares num mundo marítimo marcado pela dominação patriarcal e colonial».

    Entraram pelo rio Loire e desembarcaram na vila de Couëron, na periferia ocidental da cidade de Nantes, onde eram esperadas por algumas dezenas de pessoas em alegre rebeldia. Presentes estavam também Marijose, Lupita, Carolina, Ximena e Yuli do Esquadrão 421. Já em terra, as marinheiras apresentaram às zapatistas uma canção escrita a bordo.

    «Agora as zapatistas chegam à Europa
    algumas de barco, outras de avião (…)
    Chegámos finalmente
    e os nossos sonhos tornam-se
    a cada dia um pouco mais realidade
    Mulheres e dissidências de aqui e de acolá
    Unamos as nossas forças
    Temos de nos revoltar!»

    Na ZAD de Notre-Dame-des-Landes, a Ambazada e o campo que vai até à Wardine, no princípio do Caminho de Suez, foram os espaços centrais dos Encontros Intergalácticos. Durante os dois primeiros dias, estes espaços foram ocupados pelo encontro de mulheres e pessoas trans e não binárias sob o lema «Muitas lutas para viver, um mesmo coração para lutar». Uma oportunidade rara para, à escala internacional, mulheres e dissidências partilharem experiências e ideias, debaterem e construírem as suas lutas e resistências. Dois dias em que foi possível usufruir de espaços seguros de discussão, mas também de diversão e lazer, espectáculos e concertos, sem a presença de homens – algo ainda mais raro.

    O Esquadrão esteve presente através das quatro mulheres e de Marijose, uma outroa, a palavra que as zapatistas utilizam para referir as pessoas que não se revêm na visão binária do género. Na cerimónia de abertura, tomaram a palavra para fazer as mesmas intervenções que, desde a sua chegada a Vigo em 22 de junho, tinham vindo a fazer em todos os actos públicos em que participaram: dizem o seu nome, a língua que falam, de onde vêm e onde vivem, e que são 100% zapatistas.

    Em todas as actividades em que estão presentes, registam pormenorizadamente nos seus cadernos o que acontece, o que é falado e discutido. Estão mandatadas pelas suas comunidades para conhecer as lutas e resistências «de baixo e à esquerda» deste continente que, no desembarque na Galiza, rebaptizaram de Terra Insubmissa. E tudo o que vêm, ouvem e vivem cá, transmitem-no às suas comunidades.

    E, na maior parte do tempo, permaneceram em silêncio. Algum raro momento houve em que, em grupos mais pequenos, tomaram a palavra, como por exemplo para explicar como funcionam as escuelitas zapatistas. Mas nunca emitiram opiniões nem posicionamentos, nem falaram em actividades grandes, o que causou desapontamentos e levantou questões por onde passaram. Muitas de nós nos perguntámos, nestas e noutras ocasiões, porque não tomavam a palavra. Entre conversas, possíveis explicações foram surgindo: que não estão mandatadas para falar; que o Esquadrão não é uma delegação de Escuta e Palavra, mas apenas de Escuta; que, sendo apenas sete entre as quase duas centenas previstas chegar, não falam para não ganhar protagonismo; que não falariam enquanto a entrada das restantes delegações continuasse a ser negada. A chegada das companheiras, prevista para o início de Julho, viria a acontecer apenas em Setembro, já então coincidindo com o regresso do Esquadrão 421 a Chiapas.

    Ao longo do atribulado processo da viagem zapatista, vamos aprendendo que tudo leva o seu tempo e que não há que tentar perceber tudo de uma vez. Dizia o Subcomandante Marcos, num comunicado de 3 de Março de 2001 dirigido ao Congresso Nacional Indígena: «Desconfia de quem muito fala, e escuta atento a quem sábio se cala.»

    No acto de encerramento deste encontro de dois dias, o Esquadrão é convidado a intervir. Acede em subir ao palco. Marijose pega no microfone e diz: «Estas são as nossas palavras.»

    Silêncio.
    Longos minutos de silêncio.
    E termina: «Muchas gracias

    Z de ZAD, Z de Zapata

    30 de Julho, dia de transição entre os dois encontros. Ao início da noite realiza-se, no imponente Farol da Rolandière, o ritual de abertura do evento misto. Um habitante da ZAD começa por contar um episódio que se desenrolara em torno de um posto avançado do exército mexicano em território zapatista, um posto de madeira e cheio de frestas. A certa altura, os zapatistas decidem fazer um ataque com a sua “força aérea” contra o posto, atirando pelas frestas dezenas de aviões de papel, cada um com um poema ou uma frase dirigida aos soldados. Conta a história que um deles dizia algo como «sabemos que vocês são pobres tal como nós, mas são ainda mais pobres pois venderam as vossas vidas àqueles que nos dominam e oprimem».

    A multidão permanece em silêncio, impressionada. Pela torre de vigilância usada, na altura dos confrontos, para perscrutar o horizonte em busca da polícia – uma das poucas estruturas que ainda resiste depois das expulsões de 2018 –, sobe uma mulher. De avião de papel na mão e apenas com a sua voz, sobrepondo-se ao vento forte que sopra, faz chegar aos ouvidos da multidão uma ária revolucionária francesa.

    Rolandière_Farol_FernandaFernández

    Quando chega ao topo da torre, a mulher lança o avião de papel, enquanto outras companheiras atiram outros 176 aviões, um por cada zapatista d’A Extemporânea. Em baixo, as pessoas recebem os aviões, dando simbolicamente a mão aos zapatistas que tentam entrar na Europa. É acesa uma fogueira, alumiando dezenas de tochas com Zs na ponta – Z de ZAD, Z de Zapatistas e Z de todas as zonas a defender. Após uma marcha nocturna, o acto termina enterrando os aviões na terra lavrada, num dos locais que antes fora palco de confrontos entre polícias e zadistas.

    Auto-organização feminista contra as agressões

    Os dias não-mistos deram lugar aos dias mistos, mas a resistência das mulheres continuou a ocupar um lugar central. Ressoava ainda a violação que ocorreu nos Encontros anteriores, em 2020, denunciada publicamente ao microfone durante o próprio encontro, e que abalou a ZAD.

    Atitudes, agressões e dinâmicas sexistas nos espaços colectivos haviam sido tema de debate ao longo dos anos em muitas das comunidades e assembleias da ZAD. No entanto, a ausência de um espaço colectivo que agregasse todos e todas as habitantes, fruto das primeiras fracturas que surgiram depois do fim da Operação César, impedia que certos problemas fossem enfrentados de forma colectiva. O debate geral e profundo na zona, surgido em reacção ao choque provocado por aquela violação, levou à criação de uma iniciativa para combater o sexismo em grandes eventos – a Festivities Fight Sexism. A FFS teve uma forte presença visual nos espaços do Encontro, com imensos cartazes contra as agressões sexistas e sexuais, e um número de denúncia e apoio afixado em todo o recinto, nos acampamentos e parques de estacionamento, através do qual as vítimas podiam entrar em contacto com companheiras da organização.

    Logo na noite de transição entre os dois encontros, denúncias de agressões e de gravações não consentidas de companheiras a dançar levaram as companheiras da FFS a implementar um protocolo contra as violências sexistas – foi criada uma zona segura em frente ao palco como espaço não-misto, equipas percorriam constantemente o recinto, uma equipa permanente dava apoio às vítimas e, durante a noite, grupos auto-organizados de mulheres acompanhavam as companheiras no regresso ao acampamento. Foi ainda feito o apelo para que, nas conferências e discussões, fosse dada prioridade à voz das mulheres, e foram agendadas várias reuniões não-mistas para avaliar o desenrolar do encontro e do protocolo.

    ZAD_Fernanda_Fernández

    As palavras do que se escutou

    Dezenas de actividades transportaram-nos através do tempo e do espaço às mais diferentes resistências. Desde a resistência à ditadura no Chade às revoltas dos anos 60 na Argélia, desde a revolução sudanesa de 2018 às lutas actuais nos Balcãs, passando pela experiência da Comuna de Paris no ano do seu 150.º aniversário. Falou-se de feminismo decolonial, de género e educação e de justiça transformadora em resposta às violências de género. Numa assembleia com a Rede de Entreajuda Verdade e Justiça, conhecemos a luta travada em França pelas famílias das vítimas das violências policiais e do racismo de Estado.

    Um dos temas centrais foi, naturalmente, as lutas pela terra e pelo território, por entre críticas às lógicas de mercado e à sociedade industrial. Uma das actividades centrou-se na crítica à ordem eléctrica, apresentada por uma rede de pessoas e colectivos de lutas ligadas à energia (contra o nuclear, as eólicas e as linhas de alta velocidade). Noutra actividade, procuraram-se os pontos comuns entre as lutas contra o Tren Maya, o movimento No TAV no Vale do Susa e a resistência à linha de alta velocidade HS2 em Inglaterra. Conhecemos ainda a Soulévements de la Terre, uma rede de lutas locais em França cujo objectivo é impulsionar um movimento de resistência à agro-indústria e ao extractivismo. Com a articulação de movimentos camponeses, ocupações de terras e experiências de auto-subsistência e auto-organização comunitária, a rede realiza acções massivas, de três em três meses, de apoio às lutas travadas no terreno.

    Outro dos pontos altos deste encontro foi a discussão «Resistências territoriais e construção de autonomias duradouras» em torno dos movimentos curdos, zapatistas e kanak, um povo originário em luta por autonomia na Nova Caledónia, que permanece uma colónia francesa. Um antigo presidente de câmara em Bakur (a parte do Curdistão na Turquia), um representante do Centro Democrático Curdo em França e duas internacionalistas de regresso de Rojava juntaram-se a um militante independentista Kanak e a duas militantes do movimento de apoio às zapatistas para partilhar as diferentes formas de vida, organização e produção construídas nestes territórios em busca de autonomia. Discutiu-se a correlação de forças no enfrentamento com o Estado, estratégias para suster as autonomias em situações adversas (governamentais, militares ou económicas) e o papel do internacionalismo.

    Ao longo do atribulado processo da viagem zapatista, vamos aprendendo que tudo leva o seu tempo e que não há que tentar perceber tudo de uma vez

    Por fim, o encontro presencial entre pessoas envolvidas na organização da Viagem pela Vida em diversos territórios – Suíça, Euskal Herria, Chipre, Roménia, Dinamarca, França, Portugal, Catalunha, País Valenciano, Cantábria e Andaluzia –, possibilitou a partilha das lutas e contextos das geografias presentes e as formas e desafios da organização. No tema da comunicação, falou-se de como a exclusividade da comunicação virtual acaba por deixar de fora quem não tem smartphone, as populações idosas, etc., e reforçou-se o exemplo e a necessidade de cartazes nas ruas, das rádios livres e outros meios de comunicação independentes. O que levou também a sublinhar a importância da presença e convivência a nível local e de bairro, destacando-se o exemplo de Barcelona, onde a organização desta viagem está baseada na criação de articulações entre colectivos, movimentos, projectos e espaços em cada um dos bairros.

    Com apenas dois homens entre uma dezena de mulheres desde as diferentes geografias da Viagem pela Vida, foi destacado o papel preponderante da participação feminina neste processo, e especialmente de mulheres migrantes. Uma mudança de paradigma num continente em que os movimentos reproduzem ainda bastantes dinâmicas sexistas e racistas, e frente aos quais os Encontros Intergalácticos assumiram ser esta uma questão central a partilhar com as zapatistas que a Europa acolhe.

     


    Fotografias de  Fernanda Fernández


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #32, OutubroDezembro 2021.


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  • Povos indígenas do Mexico junto com populações do Barroso contra as minas

    Povos indígenas do Mexico junto com populações do Barroso contra as minas

    Após uma semana de encontros na região de Barroso entre uma dúzia de pessoas de diferentes povos indígenas do México – no âmbito da Caravana Zapatista pela Vida – e os movimentos anti-mineração do Barroso, terá lugar este sábado,13 de Novembro, às 16h em frente à Câmara Municipal de Boticas, um acto público sob o mote “Não às Minas! Sim à Vida”. Está agenda em seguida uma conferência de imprensa com a presença de vários movimentos contra a mineração e do Congresso Nacional Indígena.

    Ao longo da semana que passou as/os zapatistas puderam testemunhar da parte das populações do Barroso o seu modo de vida, as práticas ancestrais de agricultura e pastoreio e as lutas em curso contra os diferentes projectos mineiros com que querem destruir a nossa região.

    O movimento Zapatista é formado por camponeses e indígenas mexicanos que defendem uma gestão mais democrática do território e o respeito pelos seus hábitos e tradições. Durante os últimos 30 anos, desenvolveram um sistema de auto-governo e autonomia em que o poder reside nas comunidades.

    Além das zapatistas, faz parte desta Viagem pela Vida também uma delegação do Congresso Nacional Indígena, que agrupa cerca de meia centena de povos originários do México. A “Viagem pela Vida” tem como objetivo partilhar a sua experiência numa luta por autonomia contra a agressão ao meio ambiente, ao seu território e às suas comunidades. O Congresso Nacional Indígena tem dado voz às lutas indígenas contra projectos mineiros, mega-projectos turísticos, como o Tren Maya, ou o “Proyecto Integral Morelos” que, em nome das supostas “energias verdes”, ameaça com a destruição de territórios onde, conforme referem os povos indígenas, «hoje há natureza, há cultura, há vida».

     

     


    #zapatistas #territórios #CongressoNacionalIndígena #ViagempelaVida #mineração #Barroso

     

  • NÃO NOS CONQUISTARAM

    NÃO NOS CONQUISTARAM

    O Esquadrão 421 em Madrid nos 500 anos da Resistência Indígena

    Crónica dos primeiros eventos da Caravana Zapatista pela Vida na geografia ibérica de Slumil K’ajxemk’op, ou Terra Insubmissa, como foi rebaptizada a Europa no momento do desembarque zapatista. Uma viagem ao passado colonial e à desumanização hoje dos migrantes, num apelo à reimaginação da história e à reactivação das redes de apoio para cada uma das nossas grandes e pequenas lutas.

    Em outubro de 2020 foi tornada pública a partir de Chiapas, no México, a intenção de fazer uma Caravana Zapatista pela Vida através dos 5 continentes. Com o tratamento epistolar que caracteriza o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), foi comunicado que esta travessia sem precedentes começaria pelo continente Europeu. Preparava-se uma delegação composta por companheiros/as/oas dos municípios e comunidades autónomas de Chiapas, do Congresso Nacional Índigena (CNI – CIG) e da Frente de Povos em Defesa da Água e Terra de Morelos, Puebla e Tlaxcala que viajariam pelo mar e pelo ar, com mais de uma centena de pessoas. Em abril de 2021 soubemos que a delegação marítima teria o nome de Esquadrão 421 e em junho que a aerotransportada seria A Extemporânea.

    A Travessia Zapatista começou no dia 3 de maio no porto de Isla Mujeres (Quintana Roo, México). Esta ilha faz parte dos lugares que veneravam a Ixchel, a mesma deusa maia da fertilidade que dá sentido a esta volta ao mundo pois, tal como na mitologia longínqua ela o enunciou: «do Oriente veio a morte e a escravidão, que amanhã navegue para o Oriente a vida e a liberdade nas palavras dos meus ossos e o meu sangue». Três décadas após a proclamação do Fim da História por Francis Fukuyama, cumpre-se a profecia de Ixchel através de uma Travessia com uma mensagem que desafia a imaginar uma sociedade global longe das lógicas da hegemonia capitalista.

    Depois de seis meses de preparação, o Esquadrão 421, integrado por Lupita, Carolina, Ximena, Yuli, Felipe, Bernal e Marijose – 4 mulheres, 2 homens e uma outroa –, partiu do Caracol Morelia com rumo ao golfo do México. Antes do embarque, como parte do ritual de despedida deste território maia, as sete integrantes reuniram-se com os tercios compas, os comandantes David, Zebedeo e a comandanta Hortensia, com integrantes do Congresso Nacional Indígena, e claro, com o coordenador desta travessia, o Subcomandante Moisés (chamado com carinho Moi). Depois, subiram a bordo d’A Montanha, uma embarcação de pesca construída em 1903 e tripulada pelo Capitão Ludwig, Gabriela, Ete e Carl da Alemanha e Edwin da Colômbia.

    A Montanha fez a sua travessia ao longo de 52 dias e fez apenas uma paragem, nos Açores, onde atracou pela primeira vez no dia 11 de junho. Daí seguiu rumo a Vigo, onde a delegação marítima zapatista desembarcou a 22 de junho. Devido aos sucessivos atrasos d’A Extemporânea, o Esquadrão 421 foi o único grupo de Zapatistas presente nos encontros realizados entre junho e o início de setembro em cidades como Mérida, Valência, Barcelona, Toulouse, Paris e Berna, entre outras. Enquanto esta delegação se deslocava através dos diferentes territórios, as mais de 170 pessoas da delegação aerotransportada enfrentaram inúmeros obstáculos na obtenção dos passaportes e das autorizações necessárias para sair do México rumo à Europa. Por um lado, o seu próprio estado-nação não os considerava como cidadãos, exigindo-lhes mais e diferentes documentos a cada uma das repetidas viagens de Chiapas à cidade do México para tratar de burocracias. Por outro lado, a já conhecida Fortaleza Europa continuava a alimentar os seus exigentes trâmites (que raramente se aplicam a europeus e a homens de negócios no geral) num racismo aguçado e mascarado pelo securitarismo sanitário que dizem ser necessário para enfrentar a pandemia do Coronavírus (mesmo com a delegação inteiramente vacinada).

    Desde Portugal, vários integrantes dos núcleos que organizam a Caravana Zapatista pela Vida deslocaram-se a diferentes territórios para participar nos eventos que compreendiam esta primeira fase de uma travessia simbólica de reimaginação pacífica da conquista colonial. Foi dessa maneira que fomos acompanhando, ao longo de três meses, alguns dos passos do Esquadrão 421 na sua descoberta de alguns dos recantos de Slumil K’ajxemk’op, ou Terra Insubmissa, como foi rebaptizado o continente europeu no momento do desembarque em Vigo.

    «A nombre de las mujeres, niños, hombres, ancianos y, claro, otroas zapatistas, declaro que el nombre de esta tierra, a la que sus naturales llaman ahora “Europa”, de aquí en adelante se llamará: SLUMIL K´AJXEMK´OP, que quiere decir “Tierra Insumisa”, o “Tierra que no se resigna, que no desmaya”. Y así será conocida por propios y extraños mientras haya aquí alguien que no se rinda, que no se venda y que no claudique.»
    Marijose, outroa tojolabal da floresta fronteiriça, Vigo, 22 de junho de 2021.

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    Fotografia de Guilhotina.info.

    Guerreiros da Luz Dançante

    Um dos momentos mais esperados desta viagem foi a contestação de uma data histórica: a suposta conquista do maior império do que é hoje o México celebrar-se-ia no dia 13 de agosto em Madrid. Os preparativos para esse momento começaram três dias antes com assembleias, eventos artísticos, concertos e reuniões para organização e logística. No Centro Social Autogestionado La Tabacalera, o Esquadrão 421, movimentos locais e internacionalistas partilharam o momento de construir alguns materiais simbólicos para a manifestação do grande dia (como aviões de papel, em alusão à Extemporânea, retida no México). Logo no segundo dia, dada a grande afluência, a reunião foi numa Horta Urbana comunitária: um espaço ao ar livre, espaçoso e agradável. Apresentados uns aos outros, contámos como nos organizámos para receber as Zapatistas em cada uma das nossas geografias. Uns organizavam-se por regiões, noutros a gestão era centralizada. Uma das frases que marcou uma das discussões em torno da chamada das Zapatistas àqueles que são «de baixo e à esquerda» foi um desabafo de uma companheira proveniente dos EUA: «porque as pessoas entendem o país como o estado capitalista que é, mas esquecem-se que este tem um outro lado de rebeldia, resistência e insubmissão que precisamos de visibilizar».

    Nesse dia, assim como no anterior, as refeições comunitárias aconteceram no espaço 3peces3, gerido assembleariamente, com uma dinâmica programação social, política e cultural. O final da tarde foi passado na periferia de Madrid, ao som do ska-punk e da cumbia de Boikot e Amparanoia, num concerto organizado pela CGT, sindicato de tendência anarco-sindicalista.

    O dia 13 de agosto, enquanto data de início da Resistência índigena à colonização, começou na Porta do Sol de Madrid com uma dança-ritual de limpeza e cura. É comum encontrar esta prática no Zócalo, a praça central em frente ao Palácio de Governo e à Sé na Cidade do México: xamãs e curandeiros Astecas reúnem-se diariamente para festejar a defesa heróica das suas resistências ancestrais – já não são guerreiros com armas, são guerreiros da palavra. Desta vez, foi o quilómetro-zero da capital espanhola, um dos principais corações do colonialismo, que foi ocupado por uma impressionante dança ritualística, protagonizada pelo Círculo de Dança Guerreros de Luz Danzantes.

    Em Madrid, o Esquadrão 421, depois de navegar os 1,8 quilómetros que separam a Porta do Sol da Praça de Colombo e perante milhares de pessoas, inscreveu na história a sua presença «desde baixo e à esquerda» no mesmo local que constantemente aglomera autoridades e seguidores da ultra-direita conservadora da Espanha. Além deste ser o centro de manifestações nacionalistas, cada pedra que compõe a sua arquitectura reafirma o pensamento monolítico do Cristóvão Colombo como conquistador de uma terra longínqua, símbolo da subtracção de terras, e de Hernán Cortés, orquestrador do extermínio dos povos indígenas e da queda de Tenochtitlan [ref] Cristóvão Colombo chegou às Américas em 1492, Hernán Cortés às margens de Veracruz (México) em 1519 e o que se dizia ser a queda de Tenochtitlan foi em 1521.[/ref], a antiga capital Asteca.

    Esta é a primeira etapa do que poderíamos chamar uma contra-pedagogia colonial baseada na invenção de um mito, uma ficção e uma realidade. Qual é a ficção aqui? O monólogo dos colonizadores sobre o extermínio e invisibilização das comunidades indígenas no mundo inteiro.

    Qual é o mito aqui? Assistimos à geração de um mito fundacional, de uma epistemologia transoceânica. Pensar no Zapatismo hoje é pensar que os oceanos não são só as veias do extractivismo e da submissão. Pelo contrário, constituem um caminho para a solidariedade internacional e a reactivação das redes de apoio para cada uma das nossas grandes e pequenas lutas:

    «Cuéntenos su historia. No importa si es grande o pequeña. Cuéntenos su historia de resistencia, de rebeldía. Sus dolores, sus rabias, sus “no” y sus “sí”. Porque nosotras las comunidades zapatistas hemos venido a escuchar y a aprender la historia que hay en cada habitación, en cada casa, en cada barrio, en cada comunidad, en cada lengua, en cada modo y en cada ni modos. Porque, después de tantos años, hemos aprendido que en cada disidencia, en cada rebeldía, en cada resistencia, hay un grito por la vida. Y, según nosotros los pueblos zapatistas, de eso se trata todo: de la vida.»
    do Comunicado lido pelo Esquadrão 421 em Madrid (13/08/2021)

    Qual é a realidade aqui? A intervenção de corpo presente do Esquadrão diante de nós. Nesse sentido, a realidade é um lapsus que nos permite teletransportar entre uma multiplicidade de tempos. Tempos existentes através de metáforas, ironias e contestações à história.

    «¿no dudó usted también de que los zapatones iban a invadir Europa? ¿Ah, verdad? Todos los seres que aquí se detallan, existen en la realidad. Si alguien no se imagina que esto sea posible, no es culpa de la realidad. Más bien es que le falta imaginación.»
    Subcomandante Galeano na comunicado Calamidad Zapatista (2019 – 2020)

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    Fotografia de Fernanda Fernández.

    Os nossos corpos comuns

    A viagem zapatista sublinhou como as transferências entre continentes significam um desafio crítico aos privilégios que um cidadão do Norte global tem na hora de viajar para qualquer lugar do mundo. Apercebemo-nos das dificuldades que enfrentam continuamente os imigrantes ao redor do mundo. O que é vivido pelos imigrantes ilegais é uma realidade que para muitos resulta distante e, não obstante, está mais próxima do que pensamos.

    Na manhã de 7 de agosto, os Lisboetas acordaram com a notícia do graffiti feito no Padrão dos Descobrimentos: «Velejando cegamente por dinheiro, a humanidade afunda-se num mar escarlate». Há barcos e barcos, há viagens e viagens. As mercadorias e os grandes cruzeiros transitam pelo mundo sem fronteiras visíveis. E, entretanto, os oceanos são enormes cemitérios. No Mediterrâneo, todos os dias flutuam corpos negros ao largo das costas de diferentes países europeus ou afundam-se ossadas nas profundezas deste líquido salgado onde já repousavam os rastos náufragos da escravidão.

    É esta a conexão entre a história passada e o nosso presente, entre o que foi a colonização e o que é hoje a imigração: o sistema de controle da vida especializou-se no uso de corpos aptos para trabalhar, para reproduzir-se e para esterilizar-se, hoje de forma mais sofisticada. A necromáquina aniquila tudo o que considera indesejável. Na realidade que nos apresentam os Zapatistas, as próprias ruas de Chiapas estão a ser inundadas por grandes caravanas de Haitianos, Venezuelanos e Africanos, particularmente Senegaleses, que deambulam pelo sul e centro da América Latina após múltiplas travessias marítimas forçadas. O seu destino é uma grande fronteira cada vez mais impenetrável. Aqueles que conseguem chegar vivos, passam os dias à espera de asilo político nos Estados Unidos da América, país que fecha tal possibilidade com uma infinidade de requisitos jurídicos e a execução de deportações massivas. O papel do México nesta difícil situação é utilitário. O programa Quedate en México obriga os requerentes de asilo a ficar à espera de uma resposta nas cidades fronteiriças, convertendo o país num tampão para os rios de gente que procuram atravessar a fronteira. Tal como o são a Turquia e Marrocos para a Fortaleza Europa.

    O passado e o presente colonial e neocolonial europeu reconhece como único cenário possível o descobrimento expansionista. Uma colonização baseada na expropriação e no despojo em nome da propriedade privada e no acto – contínuo até hoje – de sufocar outras formas de pensar e viver. A nossa catástrofe social encontra-se precisamente nas pretensões universalistas fundadas na separabilidade e na excepcionalidade do Ocidente ao declarar-se como executor do tempo e da inventiva do mundo. Dessa maneira aparecem as dicotomias entre sociedades desenvolvidas e subdesenvolvidas, centros e periferias, locais e estrangeiros, nós e os outros. As últimas guerras do Capital Global são, acima de tudo, conflitos locais e regionais que espalham destruição numa disputa eterna pelos recursos naturais. Sem o clima de medo e repulsa do diferente e do estrangeiro, sem a falsa narrativa do «Outro» enquanto perigoso e indigno, seria mais difícil justificar os muros, físicos e legais, e os programas de deportação para conter as centenas de milhares de pessoas que fogem de conflitos armados, no Médio Oriente e no continente africano, que o Ocidente criou ou alimentou. É cada vez mais claro que essa vitória ocidental significa a destruição do meio ambiente, precarização, dor, fome. Numa palavra, morte para todas e todos.

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    Fotografia de Guilhotina.info.

    Tem início o ano 501

    O que está a propor-nos o Zapatismo? A urgência desta Caravana pela Vida é, em primeiro lugar, a reimaginação da história da humanidade, da memória colectiva e da aceitação da diferença étnica e geográfica através de um novo cenário de descobrimentos, pacífico, onde as divisões que outrora foram impostas se dissolvem para expor o inimigo comum: o capitalismo feroz. A resposta à hegemonia da história é feita pelos Zapatistas através desta travessia que inverte os papéis “da conquista de Espanha por mar”, num ato simbólico de descolonização com dois momentos: o desembarque ou ato de possessão, em Vigo, e uma invasão inversa, pacífica e consentida, iniciada de forma discreta pela viagem do Esquadrão 421 através da Península Ibérica, França e Suíça, e consumada de forma retumbante neste 13 de agosto.

    «No venimos a traer recetas, a imponer visiones y estrategias, a prometer futuros luminosos e instantáneos, plazas llenas, soluciones inmediatas. Ni venimos a convocarles a uniones maravillosas. Estamos buscando otros rincones y queremos aprender de ellos. (…) Pero no es en actos grandes, sino que en los lugares donde ustedes resisten, se rebelan, luchan. Tal vez a alguien le parezca que nos interesan los grandes actos y el impacto mediático, y así valoren los éxitos y fracasos. Pero nosotros hemos aprendido que las semillas se intercambian, se siembran y crecen en lo cotidiano, en el suelo propio, con los saberes de cada quien.»
    do Comunicado lido pelo Esquadrão 421 em Madrid (13/08/2021)

    O pronunciamento Zapatista na Praça de Colombo inverte a narrativa linear de submissão e invisibilização. A invenção da história como progresso tornou as sociedades ancestrais antiquadas e, nessa medida, periféricas ao Norte global. A reimaginação do mito e a realidade que o Zapatismo está a imprimir na actualidade através desta viagem perturba esta narrativa ao se deslocarem fisicamente, desde as profundezas do estado de Chiapas, para esse Norte, para o centro, e desafiarem o seu calendário. Em vez do ano 0 do calendário cristão, tomam 1521, o início da resistência indígena, como ponto de referência. Ambas as decisões criam um novo tropos dentro do guião hegemónico instituído pelos conquistadores, mas também pelos maus governos da América Latina que, de tempos em tempos, com manobras mediáticas se mascaram de “progressistas e de esquerda”, ou fomentam um nacionalismo que promove as culturas indígenas, mas apenas enquanto objectos antropológicos e etnográficos. Contra esse guião instituído, os Zapatistas transformam o espaço – a Europa passa a ser o lugar de uma ocupação temporária sem pretender substituir o centro pela periferia – e o tempo – com o seu novo calendário.

    Face aos 500 anos da suposta conquista do México, anunciam 501 delegados, que virão em várias vagas para a Europa. E ao contrário de assinalarem os 500 anos com os olhos no passado, prepararam o futuro: o ano 501 em que percorrerão os recantos desta terra insubmissa.

    «Quienes formamos el Escuadrón Marítimo Zapatista, y que nos conocen como el Escuadrón 421, hoy estamos frente a ustedes, pero sólo somos el antecedente de un grupo más grande. Hasta 501 delegados. Y somos 501 sólo para demostrarles a los malos gobiernos que vamos delante de ellos. Mientras ellos simulan un festejo falso de 500 años, nosotros, nosotras, nosotroas, vamos ya en lo que sigue: la vida. En el año 501 habremos de recorrer los rincones de esta tierra insumisa.»
    do Comunicado lido pelo Esquadrão 421 em Madrid (13/07/20)

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    Fotografia de Lorena Salamanca.

    Outro paradigma da colonização que os Zapatistas põem na linha de fogo é aquele que tem determinado o lugar dos povos indígenas: ao posicioná-los no lugar da representação e não da presença; no lugar da ancestralidade e não do mundo futuro; limitando-os a certas zonas do planeta. Não obstante, quando a deterioração da sua situação é iminente, não é de admirar que as suas resistências silenciadas procurem altifalantes. O cerco explodiu e até o lugar mais recôndito está em risco. Esta viagem inversa é precisamente a relocalização destas posições. O Esquadrão são sete, porque sete são os pontos cardeais, mas estes pontos são dinâmicos, já não se encontram fixados no lugar em que os geógrafos, os humanistas, e os Estados-Nação decidiram localizá-los. Os mapas são aquelas representações incómodas que há algumas centenas de anos começaram a determinar as fronteiras do mundo que conhecemos hoje, são convenções feitas de esquemas arbitrários que dividem ideologicamente o indivisível, como uma cordilheira ou uma parte do mar. Nos atlas encontramos a sistematização da norma: a esfera torna-se um plano e divide-se em quatro partes; para o Leste há a sua contraparte o Oeste, e para o Norte há o Sul… não terá já chegado a hora de romper com essas estruturas que desenham tão esquematicamente o mundo?

    «Dicen que somos ignorantes, retrasados, conservadores, opositores al progreso, pre-modernos, bárbaros, incivilizados, inoportunos e inconvenientes… Tal vez estamos atrasados porque como mujeres que somos o como otroas, podemos salir a pasear sin temor de que nos ataquen, nos violen, nos descuarticen, nos desaparezcan. Tal vez estamos en contra del progreso porque nos oponemos a los megaproyectos que destruyen la naturaleza y nos destruyen como pueblos, y que heredan muerte para las generaciones que siguen. Tal vez estamos en contra de la modernidad porque nos oponemos a un tren, una carretera, una presa, una termoeléctrica, un centro comercial, un aeropuerto, una mina, un depósito de material tóxico, la destrucción de un bosque, la contaminación de ríos y lagunas, el culto a los combustibles fósiles. Tal vez somos atrasados porque honramos a la tierra en lugar de al dinero. Tal vez somos bárbaros porque cultivamos nuestros alimentos. Porque trabajamos para vivir y no para ganar paga. Tal vez somos inoportunos e inconvenientes porque nos gobernamos a nosotros mismos como pueblos que somos. Porque consideramos el trabajo de gobierno como un trabajo más de los comunitarios que habremos de cumplir. Tal vez somos rebeldes porque no nos vendemos, porque no nos rendimos, porque no claudicamos. Tal vez somos todo eso que dicen de nosotros.»
    do Comunicado lido pelo Esquadrão 421 em Madrid (13/08/2021)

    A mensagem é directa, nem os colonizadores centenários nem os maus governos de hoje os conquistaram. Não nos conquistaram! Apesar da violência infligida sobre os povos indígenas através dos séculos, na reimaginação deste novo cenário de conquista, os seus corpos e a sua viagem são o testemunho vivo desta outra história. Por outra parte, esse grito de rebeldia, impresso na enorme faixa que precedia ao barco zapatista durante a mobilização na capital espanhola, abre interrogações sobre a definição da palavra conquistar.

    «Y también decimos que sólo con la destrucción total de ese sistema será posible que cada quien, según su modo, su calendario y su geografía, habrá de levantar otra cosa. No perfecta, pero sí mejor. Y a eso que se construya, a esas nuevas relaciones entre los seres humanos y entre la humanidad y la naturaleza, se le pondrá el nombre que a cada quien le dé la gana. Y sabemos que no será fácil. Que no lo es ya. Y sabemos bien que no podremos solos, cada quien en su parcela combatiendo contra la cabeza de la hidra que le toca padecer, mientras el corazón del monstruo se rehace y crece todavía más.»
    do Comunicado lido pelo Esquadrão 421 em Madrid (13/08/2021)

    Na contemporaneidade, parece que esta nova definição se enquadra numa porta aberta para as múltiplas resistências e também numa total e global rejeição do sistema moderno e das suas retóricas civilizatórias e extractivistas sobre a terra e sobre os corpos.

    Obrigada Esquadrão 421! Temos saudades vossas.

    «Porque vivir no es sólo no morir, no es sobrevivir. Vivir como seres humanos es vivir con libertad. Vivir es arte, es ciencia, es alegría, es baile, es lucha. Y claro, vivir también es estar en desacuerdo con una u otra cosa, discutir, debatir, confrontar.»
    as palavras de Lupita ressoaram na Praça de Colombo, mas
    ressoam acima de tudo nos nossos corações (Madrid, 13/08/2021)

     


    Texto de Lorena Salamanca, Raquel Pedro e Francisco Norega
    Ilustração de IX


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #32, Outubro|Dezembro 2021.


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