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  • III Encontro de Ecologia Política

    III Encontro de Ecologia Política

    Nos dias 11, 12, 13 e 19 de Abril decorre, entre Lisboa e Coimbra, o III Encontro de Ecologia Política. Em torno do tema “Comuns”, terão lugar oficinas, instalações artísticas e rodas de conversa, além das típicas comunicações académicas. Na convocatório do evento, pode-se ler: «O capitalismo levou à expropriação, privatização e sobre-exploração de terras, recursos, sistemas de governança e outros bens comuns, gerando dinâmicas de exploração, opressão e exclusão. Hoje, perante o agravamento da crise ecológica, que se sobrepõe a crises de cariz socioeconómico, o poder hegemónico avança com intervenções extrativistas por diferentes territórios, apresentadas como solução para um futuro dito mais sustentável e verde. Em resposta a tais ameaças, as comunidades que neles habitam organizam-se, mobilizam-se, resistem e recriam projetos autónomos e solidários em torno da defesa dos comuns – seja a terra, a água, a energia, os meios de produção, o conhecimento, entre muitos outros – por um futuro mais justo. As lutas em torno dos comuns e as múltiplas formas e práticas de defesa e emergência de ‘velhos’ e ‘novos’ comuns são uma janela aberta para pensar e reimaginar outros futuros possíveis e necessários, pela vida, justiça, dignidade e alegria.»

    Em certa medida invertendo o que sucedeu na edição anterior, em que se trouxe à universidade quatro activistas laborais e ambientais para um debate que partia do mote “Lutar contra a injustiça e pela justiça”, este ano procura-se levar o conhecimento académico além os limites universitários e permitir que seja forjado em espaços culturais, em jardins, na rua. Na tarde de 11 de Abril, o Cosmos Campolide acolherá uma oficina sobre o nexus agricultura, energia, turismo; o jogo colaborativo de consciencialização intergeracional sobre as intersecções entre economia e ecologia; a instalação “Sons da metamorfose”, que nos convida a experienciar o Bairro dos Anjos através da lente dos alunos do 4º ano da escola Sampaio Garrido; e a assembleia “Rumo a uma Rede de Ecologia Política”, que tem por objectivo tecer-se alianças, pelos diferentes territórios portugueses, entre investigadores, activistas e outros agentes empenhados em compreender e influenciar as relações entre sociedade, poder e eco-sistemas. Na tarde seguinte é a vez da Casa do Comum, no Bairro Alto, receber uma oficina sobre o entrelaçamento investigação-lutas ecológicas, seguida da instalação «Corpo-Algar», do Comite Efemero Transatlantico, cujo «som, imagens e experiências tácteis e cinéticas convidam a pisar este território devagarinho e “em vez de simplesmente operar na paisagem… a nos confundir com a paisagem” (Ailton Krenak)”»; se o tempo colaborar, terá lugar no Jardim do Príncipe Real a oficina «Arvorar-corpo», o local mais propício para o enraizamento de “pensares-sentires que incorporem o movimento coletivo de defesa dos bens comuns”. No sábado haverá ainda o percurso sonoro “Cada passo, uma constelação”, que convida «a atravessar e ser atravessado,» pelo Vale de Chelas, «palco de uma experiência utópica de desenho de cidade destinada a colmatar problemas habitacionais» que acabou por transformá-la numa «área fracturada em relação ao resto da cidade». Nas manhãs do dia 11 e 12, decorrerão ainda, entre o ISCTE-IUL e o ICS-UL, comunicações sobre crise, trabalho, saúde, floresta, ruralidade, urbanidade, sistemas agro-alimentares, energia, clima, governança, artes, pedagogias populares, conflitos e resistências.

    Já em Coimbra, o dia 19 de Abril começa com a oficina “Mapeando os Corpos-Territórios das nossas lutas”, seguida do plenário “Ecologia, Trabalho e Reprodução: entre investigação e política!». À tarde, o Centro de Estudos Sociais é palco de duas instalações – «Frutas Sanas, Cuerpos Quemados» e «Zona a Sacrificar» – e uma ronda de conversa sobre os potenciais e desafios dos «Baldios» para o reforço comunitário e a sustentabilidade. O evento termina na República do Bota Abaixo, com um jantar comunitário, após uma conversa sobre Escolas de Ecologias Feministas de Saberes e a assembleia «Consolidando a Rede de Ecologia Política».

    A realização de um evento que promove reflexões, memórias e aspirações em torno dos «Comuns» e dos processos de fazer-em-comum não poderia ser mais oportuno: «Aproximando-se a celebração dos 50 anos do 25 de Abril de 1974, um período em que a revolta popular das e dos que não tinham voz se fez ouvir e que foi marcado por inúmeros processos e experiências de emancipação social, como a ocupação de fábricas e herdades e iniciativas coletivas de auto-gestão, assim como a conquista de vários direitos sociais e políticos em torno da habitação, da saúde, do trabalho, entre outros, é oportuno refletir sobre quais as ameaças, resistências e emergências que os comuns enfrentam hoje e sobre que inspirações- podem estes patrimónios de luta e as suas heranças trazer às lutas atuais.»

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    Website do evento:
    https://cria.org.pt/en/comuns

  • Confluência pela Agroecologia

    Confluência pela Agroecologia

    No passado dia 20 de abril, o jornal Mapa juntou-se à confluência pela Agroecologia, em Torres Vedras. O mote, dado pelo GAIA – Grupo de Acção e Intervenção Ambiental, pela associação Terra Sintrópica e pelo Instituto Politécnico de Viseu, foi lançar a semente de uma rede nacional agroecológica, com a ajuda dos professores Clara Nichols e Miguel Altieri. 

    O encontro, organizado por um grupo de ativistas e investigadores comprometid@s, reuniu mais de 200 pessoas de vários pontos do país, muitas delas agricultoras, dinamizadoras sociais, ativistas ou académicas. Respondendo ao desafio da organização do evento de criar um mapeamento coletivo das várias experiências agroecológicas no território português, o objetivo do encontro, que aconteceu no Centro Ambiental de Torres Vedras, foi a sistematização de projetos e iniciativas já em curso. Divididos por núcleos regionais, pequenos grupos trabalharam a partir de uma proposta estruturada de mapeamento dinâmico, identificando elementos-chave nas suas regiões, potencialidades e desafios. Longe de pretender um mapeamento exaustivo, o encontro serviu como ferramenta de reflexão para a criação de uma rede agroecológica nacional. 

    [ngg src=”galleries” ids=”14″ display=”basic_imagebrowser”]Após a experiência de reflexão sobre o que já existe em Portugal, Nichols e Altieri falaram da sua experiência ao longo dos anos, desde que se formaram como agrónomos nos anos 80 na América Latina, e sobre as resistências que encontraram dentro da academia e outras instituições. Professores em Berkeley (CA, EUA), de nacionalidades chilena e colombiana, são uma referência mundial nesta área de conhecimento, que definem como a combinação do conhecimento científico contemporâneo com o conhecimento milenar camponês, de modo a criar sistemas de produção sustentáveis que melhorem e protejam os ecossistemas. Defendem ainda a agroecologia como um movimento que não dissocia os modos de produção agrícola das condições económicas, sociais ou culturais que lhes são inerentes. 

    De facto, como sublinhou o casal de Professores, o movimento pela agroecologia na América Latina começou debaixo, pela mão de camponeses, sem qualquer apoio estatal ou institucional, até se tornar, hoje em dia, no paradigma que a própria FAO (Food and Agriculture Organization) apresenta nos seus documentos. Neste processo, que Altieri descreve como uma cooptação, o apelo da agroecologia cresceu em popularidade e credibilidade.
    Entre as várias ideias e experiências partilhadas, Altieri destacou a importância da soberania alimentar nos projetos que visitou em Portugal, independentemente dos seus modelos agrícolas. Segundo o que disse à assistência, é possível observar como funcionam os princípios agroecológicos nos projetos, independentemente de estes praticarem agricultura biodinâmica, permacultura, agricultura regenerativa ou sintrópica. Perante esta diversidade de chapéus/práticas, bem representadas no encontro, a agroecologia pode ser, sugeriu Altieri, o conjunto de princípios políticos que une as diferentes escolas de produção agrícola.

    Clara Nichols explicou-nos que a primeira rede por eles começada, a SOCLA, Sociedad Científica Latinoamericana de Agroecología (https://soclaglobal.com/), começou junto d@s agricultores, que eram quem estava a produzir alimentos de modo sustentável, muitas vezes encontrando soluções para as crises de abastecimento e alterações climáticas, de modo a que estes pudessem estar em contacto com investigadores, fazendo assim com que as suas boas práticas se disseminassem.
    Nichols também mencionou a importância da identidade cultural dos territórios agroecológicos, frisando como é importante o orgulho na ruralidade e nas manifestações culturais próprias de cada região. Uma vez que a educação dada no campo é uma educação das cidades, é importante combater a falta de valor e autorreconhecimento, relembrando as populações rurais e urbanas da importância dos sistemas alimentares sustentáveis. Relembrando que há vida nas tuas vilas porque os teus agricultores não usam agrotóxicos. Há vida nos teus bairros porque os teus agricultores trazem polinizadores. Há vida nas tuas cidades porque os teus agricultores produzem alimentos saudáveis e mantêm as águas limpas, promovendo assim uma melhoria incalculável na saúde pública.

    [ngg src=”galleries” ids=”15″ display=”basic_imagebrowser”]Como não podia deixar de ser, a discussão das alterações climáticas serviu para reforçar a necessidade desta rede nacional agroecológica que se vai tentar formar em Portugal. Do encontro saíram já propostas concretas que serão postas em prática ao longo do próximo ano, de forma colaborativa. Será através da identificação dos perigos globais, da partilha de experiências de sucesso e da união nas causas comuns que se poderá desenhar uma ação coletiva de proteção ecológica e resiliência perante as crises que se adivinham.

     


    Texto de  Margarida Lima [m.lima@jornalmapa.pt] e  Sandra Faustino [sandra.faustino@jornalmapa.pt]
    Fotografias de Outros Ângulos

  • Zapatistas e Mulheres no centro dos Encontros Intergalácticos

    Zapatistas e Mulheres no centro dos Encontros Intergalácticos

    O Esquadrão 421, a primeira comitiva zapatista a chegar à Europa, participou em Julho nos encontros de mulheres na ZAD francesa de Notre-Dame-des-Landes, por ocasião dos Encontros Intergalácticos. O Jornal MAPA, em parceria com a Guilhotina.Info, esteve no local revisitando aquela que foi a maior luta contra megaprojectos das últimas décadas na Europa e escutando diversas resistências, com destaque para as lutas das mulheres.

    A ZAD de Notre-Dame-des-Landes, a mais conhecida das «Zonas A Defender», é hoje muito diferente da ocupação de terras que encontrámos até 2018. A partir desse ano, com a vitória do movimento e o abandono do projecto do aeroporto, foi dado início a um processo de normalização de relações com o Estado, marcado por conflitos internos e por uma brutal onda de ataques policiais.

    Até então, a ZAD era um espaço que existia em (quase) total autonomia do Estado e do sistema capitalista. Fora da jurisdição das autoridades e da lei francesa, em grande parte desconectadas das redes públicas de água e electricidade, cerca de duas centenas de pessoas habitavam os ambientes mais improváveis desta Zona a Defender – desde quintas expropriadas pelo Estado por «interesse público» a cabanas no cimo das árvores ou, no meio de um lago, uma cabana flutuante. Enormes hortas colectivas, que durante boa parte do ano asseguravam a autonomia alimentar das habitantes e das visitantes, coexistiam com estradas e caminhos repletos de barricadas. Carcaças de antigos carros da polícia transformados em canteiros. Enormes buracos escavados para impedir a passagem da polícia num eventual novo ataque. Cabanas e uma torre de madeira construídas sobre o próprio alcatrão, perscrutando o horizonte em busca de alguma visita inoportuna.

    Sinais da força que permitiu enfrentar e vencer a operação repressiva que assolou a ZAD com uma intensidade nunca antes vista entre o outono de 2012 e a primavera de 2013, na chamada Operação César. Uma força vinda da enorme diversidade de pessoas, grupos, abordagens e estratégias que partilhavam o território, numa realidade repleta de contradições e conflitos, com tanto caminho por fazer em muitos campos. E, ainda assim, eco desse “mundo onde caibam muitos mundos” de que falam os zapatistas, exactamente por essa diversidade, descentralização e autonomia.

    A ZAD continua. Neste momento, cerca de 260 pessoas habitam a zona, umas em grupo, outras sozinhas, organizadas em diferentes colectivos, cooperativas e projectos

    Em 2018, o Estado soube pôr em prática a máxima “dividir para reinar” e entregou ao movimento um presente envenenado. A par do abandono do projecto do aeroporto, anunciou o início de um processo de regularização em que as comunidades deveriam apresentar candidaturas para que fossem avaliadas e emitidas decisões sobre a sua permanência na zona. O movimento, antes unido pela oposição ao aeroporto, fragmentou-se. Geraram-se conflitos entre pessoas e grupos que queriam, a todo o custo, manter a ZAD como estava e outros e outras que estavam dispostas a negociar com o Estado para conseguir manter pelo menos alguns dos espaços e alguma da autonomia. Nesse ano, logo após terem sido retiradas, como sinal de “boas intenções” por parte do movimento, as barricadas de uma das duas estradas que atravessam a zona, a route des chicanes, a polícia voltou a atacar e destruiu a maior parte dos espaços na zona leste da ZAD.

    Agora, à chegada a Notre-Dame-des-Landes, vêem-se poucos sinais da luta contra o aeroporto, que anteriormente decoravam as beiras das estradas, os jardins e as fachadas das casas. Os acessos estão em óptimas condições e as estradas dentro da zona estão asfaltadas e praticamente imaculadas. Não há sinais de barricadas nem carcaças de carros. Não há cabanas nem torres. Imensos espaços colectivos, comunidades e projectos desapareceram sem deixar rasto. Até a cabana flutuante foi destruída.

    E, ainda assim, apesar de todas as transformações que tiveram início em 2018, a ZAD continua. Neste momento, cerca de 260 pessoas habitam a zona, umas em grupo, outras sozinhas, organizadas em diferentes colectivos, cooperativas e projectos. Cada uma procurando, a seu modo, continuar a desenvolver formas de vida e de organização alternativas.

    E é aqui que surgem, por ocasião da invasão zapatista da Europa, os Encontros Intergalácticos. Um mundo de possibilidades e encontros entre gentes e lutas dos mais variados contextos e geografias.

    ZAD_Fernanda_Fernández

    «Muitas lutas para viver, um mesmo coração para lutar» – Encontro de Mulheres e Dissidências

    A 27 de Julho, véspera do início dos encontros, chegava a Nantes uma caravana marítima de mulheres. Catorze mulheres em três veleiros, vindas de diferentes partes da Bretanha. Navegaram para «visibilizar as suas lutas» e para «tomar os seus lugares num mundo marítimo marcado pela dominação patriarcal e colonial».

    Entraram pelo rio Loire e desembarcaram na vila de Couëron, na periferia ocidental da cidade de Nantes, onde eram esperadas por algumas dezenas de pessoas em alegre rebeldia. Presentes estavam também Marijose, Lupita, Carolina, Ximena e Yuli do Esquadrão 421. Já em terra, as marinheiras apresentaram às zapatistas uma canção escrita a bordo.

    «Agora as zapatistas chegam à Europa
    algumas de barco, outras de avião (…)
    Chegámos finalmente
    e os nossos sonhos tornam-se
    a cada dia um pouco mais realidade
    Mulheres e dissidências de aqui e de acolá
    Unamos as nossas forças
    Temos de nos revoltar!»

    Na ZAD de Notre-Dame-des-Landes, a Ambazada e o campo que vai até à Wardine, no princípio do Caminho de Suez, foram os espaços centrais dos Encontros Intergalácticos. Durante os dois primeiros dias, estes espaços foram ocupados pelo encontro de mulheres e pessoas trans e não binárias sob o lema «Muitas lutas para viver, um mesmo coração para lutar». Uma oportunidade rara para, à escala internacional, mulheres e dissidências partilharem experiências e ideias, debaterem e construírem as suas lutas e resistências. Dois dias em que foi possível usufruir de espaços seguros de discussão, mas também de diversão e lazer, espectáculos e concertos, sem a presença de homens – algo ainda mais raro.

    O Esquadrão esteve presente através das quatro mulheres e de Marijose, uma outroa, a palavra que as zapatistas utilizam para referir as pessoas que não se revêm na visão binária do género. Na cerimónia de abertura, tomaram a palavra para fazer as mesmas intervenções que, desde a sua chegada a Vigo em 22 de junho, tinham vindo a fazer em todos os actos públicos em que participaram: dizem o seu nome, a língua que falam, de onde vêm e onde vivem, e que são 100% zapatistas.

    Em todas as actividades em que estão presentes, registam pormenorizadamente nos seus cadernos o que acontece, o que é falado e discutido. Estão mandatadas pelas suas comunidades para conhecer as lutas e resistências «de baixo e à esquerda» deste continente que, no desembarque na Galiza, rebaptizaram de Terra Insubmissa. E tudo o que vêm, ouvem e vivem cá, transmitem-no às suas comunidades.

    E, na maior parte do tempo, permaneceram em silêncio. Algum raro momento houve em que, em grupos mais pequenos, tomaram a palavra, como por exemplo para explicar como funcionam as escuelitas zapatistas. Mas nunca emitiram opiniões nem posicionamentos, nem falaram em actividades grandes, o que causou desapontamentos e levantou questões por onde passaram. Muitas de nós nos perguntámos, nestas e noutras ocasiões, porque não tomavam a palavra. Entre conversas, possíveis explicações foram surgindo: que não estão mandatadas para falar; que o Esquadrão não é uma delegação de Escuta e Palavra, mas apenas de Escuta; que, sendo apenas sete entre as quase duas centenas previstas chegar, não falam para não ganhar protagonismo; que não falariam enquanto a entrada das restantes delegações continuasse a ser negada. A chegada das companheiras, prevista para o início de Julho, viria a acontecer apenas em Setembro, já então coincidindo com o regresso do Esquadrão 421 a Chiapas.

    Ao longo do atribulado processo da viagem zapatista, vamos aprendendo que tudo leva o seu tempo e que não há que tentar perceber tudo de uma vez. Dizia o Subcomandante Marcos, num comunicado de 3 de Março de 2001 dirigido ao Congresso Nacional Indígena: «Desconfia de quem muito fala, e escuta atento a quem sábio se cala.»

    No acto de encerramento deste encontro de dois dias, o Esquadrão é convidado a intervir. Acede em subir ao palco. Marijose pega no microfone e diz: «Estas são as nossas palavras.»

    Silêncio.
    Longos minutos de silêncio.
    E termina: «Muchas gracias

    Z de ZAD, Z de Zapata

    30 de Julho, dia de transição entre os dois encontros. Ao início da noite realiza-se, no imponente Farol da Rolandière, o ritual de abertura do evento misto. Um habitante da ZAD começa por contar um episódio que se desenrolara em torno de um posto avançado do exército mexicano em território zapatista, um posto de madeira e cheio de frestas. A certa altura, os zapatistas decidem fazer um ataque com a sua “força aérea” contra o posto, atirando pelas frestas dezenas de aviões de papel, cada um com um poema ou uma frase dirigida aos soldados. Conta a história que um deles dizia algo como «sabemos que vocês são pobres tal como nós, mas são ainda mais pobres pois venderam as vossas vidas àqueles que nos dominam e oprimem».

    A multidão permanece em silêncio, impressionada. Pela torre de vigilância usada, na altura dos confrontos, para perscrutar o horizonte em busca da polícia – uma das poucas estruturas que ainda resiste depois das expulsões de 2018 –, sobe uma mulher. De avião de papel na mão e apenas com a sua voz, sobrepondo-se ao vento forte que sopra, faz chegar aos ouvidos da multidão uma ária revolucionária francesa.

    Rolandière_Farol_FernandaFernández

    Quando chega ao topo da torre, a mulher lança o avião de papel, enquanto outras companheiras atiram outros 176 aviões, um por cada zapatista d’A Extemporânea. Em baixo, as pessoas recebem os aviões, dando simbolicamente a mão aos zapatistas que tentam entrar na Europa. É acesa uma fogueira, alumiando dezenas de tochas com Zs na ponta – Z de ZAD, Z de Zapatistas e Z de todas as zonas a defender. Após uma marcha nocturna, o acto termina enterrando os aviões na terra lavrada, num dos locais que antes fora palco de confrontos entre polícias e zadistas.

    Auto-organização feminista contra as agressões

    Os dias não-mistos deram lugar aos dias mistos, mas a resistência das mulheres continuou a ocupar um lugar central. Ressoava ainda a violação que ocorreu nos Encontros anteriores, em 2020, denunciada publicamente ao microfone durante o próprio encontro, e que abalou a ZAD.

    Atitudes, agressões e dinâmicas sexistas nos espaços colectivos haviam sido tema de debate ao longo dos anos em muitas das comunidades e assembleias da ZAD. No entanto, a ausência de um espaço colectivo que agregasse todos e todas as habitantes, fruto das primeiras fracturas que surgiram depois do fim da Operação César, impedia que certos problemas fossem enfrentados de forma colectiva. O debate geral e profundo na zona, surgido em reacção ao choque provocado por aquela violação, levou à criação de uma iniciativa para combater o sexismo em grandes eventos – a Festivities Fight Sexism. A FFS teve uma forte presença visual nos espaços do Encontro, com imensos cartazes contra as agressões sexistas e sexuais, e um número de denúncia e apoio afixado em todo o recinto, nos acampamentos e parques de estacionamento, através do qual as vítimas podiam entrar em contacto com companheiras da organização.

    Logo na noite de transição entre os dois encontros, denúncias de agressões e de gravações não consentidas de companheiras a dançar levaram as companheiras da FFS a implementar um protocolo contra as violências sexistas – foi criada uma zona segura em frente ao palco como espaço não-misto, equipas percorriam constantemente o recinto, uma equipa permanente dava apoio às vítimas e, durante a noite, grupos auto-organizados de mulheres acompanhavam as companheiras no regresso ao acampamento. Foi ainda feito o apelo para que, nas conferências e discussões, fosse dada prioridade à voz das mulheres, e foram agendadas várias reuniões não-mistas para avaliar o desenrolar do encontro e do protocolo.

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    As palavras do que se escutou

    Dezenas de actividades transportaram-nos através do tempo e do espaço às mais diferentes resistências. Desde a resistência à ditadura no Chade às revoltas dos anos 60 na Argélia, desde a revolução sudanesa de 2018 às lutas actuais nos Balcãs, passando pela experiência da Comuna de Paris no ano do seu 150.º aniversário. Falou-se de feminismo decolonial, de género e educação e de justiça transformadora em resposta às violências de género. Numa assembleia com a Rede de Entreajuda Verdade e Justiça, conhecemos a luta travada em França pelas famílias das vítimas das violências policiais e do racismo de Estado.

    Um dos temas centrais foi, naturalmente, as lutas pela terra e pelo território, por entre críticas às lógicas de mercado e à sociedade industrial. Uma das actividades centrou-se na crítica à ordem eléctrica, apresentada por uma rede de pessoas e colectivos de lutas ligadas à energia (contra o nuclear, as eólicas e as linhas de alta velocidade). Noutra actividade, procuraram-se os pontos comuns entre as lutas contra o Tren Maya, o movimento No TAV no Vale do Susa e a resistência à linha de alta velocidade HS2 em Inglaterra. Conhecemos ainda a Soulévements de la Terre, uma rede de lutas locais em França cujo objectivo é impulsionar um movimento de resistência à agro-indústria e ao extractivismo. Com a articulação de movimentos camponeses, ocupações de terras e experiências de auto-subsistência e auto-organização comunitária, a rede realiza acções massivas, de três em três meses, de apoio às lutas travadas no terreno.

    Outro dos pontos altos deste encontro foi a discussão «Resistências territoriais e construção de autonomias duradouras» em torno dos movimentos curdos, zapatistas e kanak, um povo originário em luta por autonomia na Nova Caledónia, que permanece uma colónia francesa. Um antigo presidente de câmara em Bakur (a parte do Curdistão na Turquia), um representante do Centro Democrático Curdo em França e duas internacionalistas de regresso de Rojava juntaram-se a um militante independentista Kanak e a duas militantes do movimento de apoio às zapatistas para partilhar as diferentes formas de vida, organização e produção construídas nestes territórios em busca de autonomia. Discutiu-se a correlação de forças no enfrentamento com o Estado, estratégias para suster as autonomias em situações adversas (governamentais, militares ou económicas) e o papel do internacionalismo.

    Ao longo do atribulado processo da viagem zapatista, vamos aprendendo que tudo leva o seu tempo e que não há que tentar perceber tudo de uma vez

    Por fim, o encontro presencial entre pessoas envolvidas na organização da Viagem pela Vida em diversos territórios – Suíça, Euskal Herria, Chipre, Roménia, Dinamarca, França, Portugal, Catalunha, País Valenciano, Cantábria e Andaluzia –, possibilitou a partilha das lutas e contextos das geografias presentes e as formas e desafios da organização. No tema da comunicação, falou-se de como a exclusividade da comunicação virtual acaba por deixar de fora quem não tem smartphone, as populações idosas, etc., e reforçou-se o exemplo e a necessidade de cartazes nas ruas, das rádios livres e outros meios de comunicação independentes. O que levou também a sublinhar a importância da presença e convivência a nível local e de bairro, destacando-se o exemplo de Barcelona, onde a organização desta viagem está baseada na criação de articulações entre colectivos, movimentos, projectos e espaços em cada um dos bairros.

    Com apenas dois homens entre uma dezena de mulheres desde as diferentes geografias da Viagem pela Vida, foi destacado o papel preponderante da participação feminina neste processo, e especialmente de mulheres migrantes. Uma mudança de paradigma num continente em que os movimentos reproduzem ainda bastantes dinâmicas sexistas e racistas, e frente aos quais os Encontros Intergalácticos assumiram ser esta uma questão central a partilhar com as zapatistas que a Europa acolhe.

     


    Fotografias de  Fernanda Fernández


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #32, OutubroDezembro 2021.


    #Esquadrão421 #comitivazapatista #ZAD #EncontrosIntergalácticos #mulheres #lutasdasmulheres #encontro #zapatistas #mapa32

     

  • A Viagem Zapatista Pela Vida

    A Viagem Zapatista Pela Vida

    A Europa recebeu no passado dia 22 de junho, em Vigo, o Esquadrão 421, a primeira delegação zapatista da Viagem pela Vida composta por 4 mulheres, 2 homens e 1 outroa, como se chamam as zapatistas que não cabem na visão binária do género. Depois de uma breve, mas emocionada, escala na ilha da Horta, nos Açores, a delegação indígena maia que cruzou o oceano Atlântico a bordo d’A Montanha, foi recebida com efusão na cidade galega por mais de uma centena de pessoas vindas de geografias de toda a Europa e do mundo: Grécia, Alemanha, França, Suíça, Itália, República Checa, Suécia, México, Irão, País Basco, Portugal, Catalunha e várias outras partes da Península Ibérica, e, claro, de várias partes da Galiza. Como relatou a Guilhotina.info, que cobriu presencialmente esses dias, a Assembleia de Vigo da Xira pola Vida acolheu, a salvo das fortes chuvas que assolavam a região, pessoas das mais diferentes origens e contextos num ambiente de resistência, de encontro, criação e discussão. No relato de uma das muitas assembleias então realizadas, «uma pessoa do México fala emocionada da vontade de estar com as suas irmãs zapatistas e a “poeta analfabeta” e antifascista galega, Luz Fandino, relembra o legado do franquismo no estado espanhol e a importância da união face àqueles que nos querem “roubar a vida”. Na mesma assembleia decide-se, por fim, uma data e hora para a recepção da delegação zapatista: terça-feira, dia 22 de junho, pelas 17 horas.»

    E à hora marcada deu-se início à «invasão zapatista» acolhida em alegre «rendição» pelas diferentes geografias da Europa de baixo, como foi designada o destino da Viagem pela Vida. No desembarque, as terras do «velho» continente foram rebatizadas pelos insurgentes maias de SLUMIL K’AJXEMK’OP, que significa «Terra Insubmissa» ou «Terra que não se resigna, que não desmaia».

    Até meados de julho cerca de 150 zapatistas estão previstos chegar por avião a Paris, uma vez ultrapassados os deliberados obstáculos que o estado mexicano se empenhou em colocar na atribuição dos passaportes. Os zapatistas em diferentes grupos percorrerão a Europa determinando e procurando conciliar uma agenda certamente escassa para os muitos convites que lhes chegaram nos últimos meses.

    Pela região portuguesa

    À data de fecho da edição do Jornal MAPA não existia uma agenda de atividades, a qual aguarda a definição pelos zapatistas. Mas os desejos conhecidos são já bastantes. Como referia o Subcomandante Galeano no fim de junho às gentes na geografia europeia, a missão principal assumida pelos zapatistas resulta em «ouvir, preencher-nos de perguntas, partilhar pesadelos e, claro, sonhos». «É por isso que aceitamos principalmente os convites daqueles que querem ouvir e falar. Porque o nosso principal objectivo não é eventos de massas – embora não os excluamos – mas a troca de histórias, conhecimentos, sentimentos, avaliações, desafios, fracassos e sucessos». «Porque, no que diz respeito às questões sociais, temos em alta estima a análise e avaliação daqueles que arriscam a sua pele na luta contra a máquina, e somos cépticos em relação àqueles que, do exterior, dão a sua opinião, avaliam, aconselham, julgam e condenam ou absolvem.»

    Os convites na região portuguesa, no seguimento do expresso por Galeano, partem de cada um dos contextos locais, mas com evidentes pontos de contacto. No Baixo Alentejo, entre Odemira e Ferreira do Alentejo, há um desejo de partilha das lutas em torno do extrativismo e das agroindústrias, assim como à volta das relações dos migrantes e comunidades, nesse cenário de transformação do território, sem esquecer a autonomia das comunidades locais e a neoruralidade. Este é um fio condutor que se estende para os montados de Montemor-o-Novo, onde pesa ainda querer-se falar dos processos de gentrificação que já chegaram ao meio rural.

    “Deu-se início à «invasão zapatista» acolhida em alegre «rendição» pelas diferentes geografias da Europa de baixo.”

    Outra linha mestra que encontramos nesses e em todos os demais lugares portugueses que endereçaram convites, passa pela vontade em encontros de mulheres e ou de pessoas queer/não binárias. Em Coimbra há ensejo para um encontro para refletir sobre o corpo como território: resistências e lutas de mulheres e transfeministas do local ao global. Em Lisboa a ideia de um encontro das mulheres zapatistas com mulheres negras.

    Na capital as vontades reunidas expressam sobretudo a importância em dar a conhecer as comunidades racializadas, cruzando zapatistas com os territórios constantemente em resistência e luta. Bairros como a Cova da Moura, Boba ou Jamaica poderão vir a ser percorridos pelos zapatistas, com um convite à conversa sobre o quotidiano das lutas contra a violência policial e racial, ou em torno das questões da habitação. Temas que se repetem nas partilhas desejosas de falar da habitação a partir das repúblicas estudantis de Coimbra, como das lutas de outros moradores. Nessa cidade ganha forma ainda o desejo de um encontro com as comunidades ciganas e as suas lutas.

    Ao encontro dos contextos de lutas locais uma outra ideia estruturante nos convites, mais públicos ou mais privados, são efetivamente as lutas pelo território da região e as movimentações várias em torno das lutas ecológicas. Algo bem presente no proposto acolhimento nas serranias beirãs do centro de Portugal, assim como no norte do país. Aí perspetiva-se a possibilidade de um encontro com os zapatistas nas Terras do Barroso nalguma das muitas ocasiões que os movimentos e aldeias que lutam contra a mineração prometem vir a agitar este verão.

    Outras ideias e desejos terão chegado aos zapatistas. E todos eles vêm acompanhados de um igual convite de mesas corridas, cantares, música, bailes e jogos de futebol.

     


    Ilustração [em destaque] de Ana Farias


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #31, Julho|Setembro 2021.

  • Okupação rural

    Okupação rural

    Por Francisco Colaço Pedro
    franciscocolacopedro@gmail.com

    Nas encostas dos Pirinéus espanhóis, multiplicam-se há décadas as okupações de aldeias deixadas ao abandono durante o franquismo. No final do Verão passado, o MAPA subiu as montanhas do Alto Aragão até às Jornadas de Resistência e Okupação Rural. Partilham-se ideias e práticas de autogestão no campo e lança-se um apelo – o de recuperar a antiga ruralidade para experimentar uma nova sociedade.

    okupa rural

    Um casal idoso deu-me a última boleia do dia. Para além do colorido templo budista para onde descem e do asfalto estreito e serpenteante onde me deixam, não vislumbro outros traços de mão humana. Sobra-me a serenidade da montanha – e várias horas de marcha.
    Desço um trilho na floresta quando ela surge enfim, em plano picado, enquadrada pela lua, as montanhas e o clamor duma multidão: a Casa Selba. Não são senão dois velhos casarões de pedra perdidos no monte. Porquê aqui toda esta gente? E porquê todas as fotos que têm percorrido as redes sociais clamando “A Selba fica!”, “Aldeias vivas!” ?

    Nestas duas casas cabe um encontro, e em duas palavras cabe uma ideia: okupação rural.

    “Pertencemos a uma geração de gente ‘expulsa’ das cidades, que se tornaram escaparates onde tudo o que se pode fazer é comprar e vender. Escolhemos a okupação rural como modo de vida. Cada vez somos mais a sentir a necessidade de deixar de alimentar a máquina do crescimento infinito, a colaborar para manter vivos territórios abandonados, tentando viver de modo mais coerente connosco mesmas e com o que nos rodeia”, lê-se no apelo às Jornadas de Resistência e Okupação Rural na Casa Selba.
    Deste casario cuja memória remonta a 1600, talvez não sobrassem hoje senão pedras caídas por terra. Foi em 2010 que um grupo de pessoas vindas de Barcelona reabilitou as casas, recuperou as hortas, olivais e pomares e limpou o monte abandonado. Quando em abril de 2017 souberam que lhes esperava um julgamento por usurpação, as reacções de solidariedade correram a cordilheira e atravessaram fronteiras, e culminaram neste encontro.

    Há quem venha de Lakabe (lakabe.org), aldeia navarra ocupada há quase 40 anos. Há quem venha da Can Masdeu (canmasdeu.net), antiga leprosaria na periferia de Barcelona okupada para dar lugar a uma comunidade de vida, um centro social e hortas colectivas. Se estes são porventura os nomes mais conhecidos, existem dezenas de okupações e colectivos rurais espalhados pelos Pirinéus – a maior parte aqui, na província de Huesca.

    Lutxo e os seus filhos vieram desde Sieso de Jaca (siesodejaca.es). “Estes encontros são como sentir que tomas parte de algo”, conta-me quando nos sentamos na terra. “Fazemos todas mais ou menos face às mesmas dificuldades e alegrias, e é um momento de colectivizá-las, procurar soluções, e não se sentir tão bicho raro.” Os dias são repletos de actividades “que em cada encontro vão mudando: podem ir de resolução de conflitos a coisas mais práticas como reparar uma moto-serra.” No programa de hoje há um workshop de electricidade, uma conversa sobre infiltração de polícia nos grupos radicais, e outra sobre os Luditas.
    “Há muita gente a quem interessa uma forma de vida parecida, e estas jornadas são a oportunidade de vir conhecer um sítio, conhecer gente com quem se tenha afinidade”, acrescenta. “Podem criar-se novos projectos, ou entrar-se nos que já existem.”
    “Há dois anos que não havia encontro, mas eles já acontecem há mais de vinte”, revela Martin, que vive na quinta Nizibar, comprada colectivamente no lado francês da cordilheira. É ele quem tenta hoje reactivar a Llamada del Cuerno, o “boletim de agitação e contra-informação rural” publicado desde 2000, e o blogue da Rizoma, rede de colectivos rurais. Mostra-me também o “Manual básico de supervivência em comunidade”, uma fanzine que vai sendo actualizada com contribuições dos vários colectivos e encontros (disponível em colectivosrurales.wordpress.org).

    “Queremos tornar visível esta forma de viver, e tudo o que criamos, para que possa ser reapropriado e transmitido”, explica Martin, “fazer uma ligação com a cidade e dar vontade a mais pessoas de vir para estes lugares colectivos e ocupados no campo, alimentar esta energia.”

    ‘Okupar foi os meus estudos’

    Pedras e telhas passam de mão em mão, levantam-se muros, preparam-se vigas, trabalham-se hortas… Esta é outra vocação destes encontros: “O lugar onde acontece, durante aqueles dias, tem um monte de mãos que o vai ajudar a avançar”, explica Lutxo. O centro das atenções é o enorme telhado de uma das casas. “O mesmo se passou com o telhado da nossa casa comum – juntámo-nos 150 pessoas e fizemo-lo numa semana”.
    Em Sieso de Jaca vivem hoje 30 pessoas, entre adultas e crianças. Foi em 2005 que Lutxo e as suas companheiras puseram fim às décadas de silêncio e abandono. “As primeiras obras foram as mais duras. Tínhamos de levar água em garrafas para trabalhar, usar uma bateria de carro para iluminação. Ficávamos todos na mesma casa. Era tudo muito precário.”

    Apesar das incertezas, construíam projectando-se no futuro. “Tens sempre a dúvida sobre se te vão expulsar. Mas desde o momento em que chegámos começámos logo a concretizar o que fazer e como fazer – que casa reconstruir, que horta abrir. Decidimos não fazer as construções de forma precária ou provisória, mas aprender e pôr ali toda a nossa força e conhecimentos. Houve então uma explosão de empoderamento, de seguir com o projecto para a frente.”

    okupa rural

    Pouco a pouco foram crescendo. Hoje há instalação de água e electricidade de fontes renováveis. As ovelhas pastam nas colinas, as crianças brincam nos bosques. Numa assembleia semanal procuram consensos sobre os assuntos da comunidade. As visitas são bem-vindas e convidadas a participar nos trabalhos comuns. Numa das casas há uma faixa de solidariedade com a Casa Selba, noutra um enorme símbolo okupa. “Os edifícios grandes estão destinados a uso comum. Almoçamos todos juntos na cozinha colectiva.”
    Se a maioria continua a fazer trabalhos fora da comunidade, “a evolução é a de ter uma economia comum cada vez mais forte”. Para já esta inclui serigrafia, fabrico de mel e de licores com o que colhem na aldeia, a companhia de teatro Burbuleta, que cria e produz obras na aldeia para as fazer rodar pelo país, e ainda campos de férias com crianças e adolescentes. “Levamos seis ou sete anos fazendo-o, é super rico para a aldeia. Muitos miúdos que viveram ali os seus acampamentos continuam a vir visitar e a envolver-se.”

    Ao contrário das várias companheiras com cursos universitários, Lutxo nunca estudou. “Cheguei muito jovem a um projecto destes – e isso foram os meus estudos. Desenvolvi-me mais como pessoa, a nível afectivo e de inteligência emocional, através da vida tão intensa. É como uma tomada de controlo sobre si mesmo. Eu podia decidir cada dia o que fazia. Se abro a torneira, sei de onde vem a água. Sei que tenho de ter lenha para me aquecer no inverno, e faço-o eu com as minhas companheiras. Sei de onde vem a comida, trabalho-a, vejo-a crescer. Fui tomando consciência do que é a ruralidade”.
    Lutxo refere-se à antiga ruralidade: aquela em que os habitantes haviam aprendido a manter o seu ecossistema, a renová-lo. “Quando começa a modernizar-se, a entrar o estado a dizer como se tem de fazer as coias, a usar-se o papel-moeda, começa o declínio. Desde a revolução industrial que o campo começa a morrer, e agora está a agonizar.”

    Até aos anos 60, estas aldeias de Navarra e Aragão, como por todo o campo espanhol, ainda fervilhavam de vida. “O franquismo acabou de esvaziar todas estas aldeias, com uma visão do género ‘esta parte de Espanha vai ser isto, aquela vai ser aquilo’”, concorda Martin. “Aqui era expulsar toda a gente para irem trabalhar nas fábricas, plantar pinhais nos terraços férteis das aldeia, e construir barragens para criar reservas de água para as planícies agrícolas de Saragoça.”

    A Selba é propriedade da Confederación Hidrográfica del Ebro (CHE), que a expropriou em 1963 para a construção da barragem do Grado. Só nesta região, a CHE forçou 13 mil pessoas a abandonar as suas aldeias de sempre, deixando um vasto território abandonado e um sem-fim de memórias sepultadas debaixo de água.

    Foi a partir dos anos 80 que pessoas da cidade começaram a reapropriar-se destes lugares e fazê-los reviver. “Reapropriar-se dum lugar onde seja quem o habita a decidir realmente aquilo que quer”, afirma Martin, “não mais haver essa pressão por parte dum estado centralizado, que vem de cima e que está lá apenas para nutrir um sistema capitalista.” Mais do que a auto-suficiência, busca-se uma autonomia em relação a esse sistema e uma interdependência assente numa economia solidária.
    Indo para além da mera crítica e do activismo de rua pontual, uma comunidade ocupada é para muitas uma forma de activismo mais holística. Em vez de apenas lutar contra o sistema – viver a alternativa e passar os ideais à prática do quotidiano.

    ‘Não lhes pedimos nada, só queremos viver tranquilas’

    Só à terceira tentativa o despejo aconteceu: vinte todo-o-terreno com um exército de anti-distúrbios, detendo 30 pessoas e ferindo outras tantas, puseram fim à experiência de ocupação. Estávamos em 1997, na aldeia de Sasé, aqui em Huesca, onde o colectivo Colores tinha recuperado casas, estábulos, moinhos e instalado uma escola. A acção brutal levou a meses de protestos e trouxe o tema da okupação rural para as ruas e para os media.

    Desde então, a ocupação de aldeias e território rural abandonado tem gozado de vinte anos duma certa tranquilidade. Estas aldeias são território público, propriedade das autarquias ou entidades estatais, nalgumas das áreas mais despovoadas do estado espanhol. Muitas estão longe de qualquer estrada. Um isolamento que as mantém menos visíveis e acessíveis para as autoridades.
    “Faziamos tudo a pé! E aqui a polícia não vem a pé para te expulsar, nem que lhes pagassem o dobro”, contam-me. “A verdade é que eles não acreditavam que nós fôssemos realmente ficar.” As condições são duras, os invernos longos e frios – poucos criam no arrojo de jovens simples da cidade para manter tais projectos. E eles brotaram como cogumelos.
    No entanto, nos últimos meses voltaram as pressões e ameaças, e a Casa Selba foi a primeira a vê-las chegar à porta. Em maio de 2017 enfrentaram um julgamento por usurpação. “A CHE não só nos quer expulsar, como ainda que levemos sanções económicas e penais”, contam no seu blog. Foram absolvidas, mas permanecem em risco de despejo. Entretanto, ao abrigo da famosa “lei mordaça” que surgiu em resposta ao movimento 15M, o governo de Huesca passou uma multa de 500€ pela organização da manifestação de solidariedade que decorreu no exterior do tribunal, sem quaisquer incidentes.

    Mais a sul, outro alucinante exemplo desta repressão é a aldeia de Fráguas em Guadalajara. As pessoas que a ocuparam em 2012 têm sido, dada a proximidade a Madrid, uma forte fonte de inspiração para um retorno ao campo e à autogestão, e foram acarinhadas pelos antigos moradores, expropriados pelo franquismo em 1968. Pelo crime de dar vida a esta aldeia, enfrentam agora penas de quatros ano e meio de prisão e de 26.000 euros para pagar o derrube das casas que elas mesmas reconstruíram.
    Na Selba como em Sieso de Jaca, a acção directa pela ocupação acontece frequentemente depois de contactos – frustrados – com a administração local. Mas nem sempre.

    Em 1986 um grupo de pessoas apresentou ao governo de Aragão um projecto de reconstrução e repovoação de aldeias no vale da Solana, solicitando a sua cedência legal à associação Artiborain. Hoje ela agrupa as aldeias de Aineto, Ibort, Artosilla e Solanilla, onde vivem 150 pessoas. O projecto promove a opção de usar responsavelmente no lugar de comprar individual ou mesmo colectivamente, propondo “realizar nas aldeias uma convivência diferente, baseada na não propriedade individual dos espaços e no uso partilhado e solidário dos recursos”, e procurar uma “relação harmoniosa com a natureza”.

    A legalização permanece um tema controverso. “Todos os projectos que se tornaram legais rapidamente se tornaram aborrecidos, foram-se conformando com as leis e a regulação e envolvem mais dinheiro”, diz uma vizinha.
    A maior parte das okupações procura conseguir alguma tolerância e reconhecimento por parte das autoridades, para ter menor risco de despejo e maior segurança para o seu futuro. Mas tal pode significar impostos, vistorias de casas autoconstruídas, constrangimentos burocráticos, multas… uma institucionalização e assimilação pelo estado que compromete a autonomia da comunidade.
    Em Sieso, as habitantes venceram recentemente uma longa luta pelo recenseamento no município. “A okupaçao é ilegal porque alguns assim o decidiram”, lembra Lutxo. “Sinto-me com legitimidade total de usar num contexto rural estes espaços que foram sustentáveis durante séculos, que são património da humanidade.”

    Pela história e pelo território

    “Espero que esta cronologia de projectos colectivos de gente que (e espero não ofender ninguém) não tem ido ao campo só para pastar, mas que busca também uma mudança social de base, se siga ampliando e actualizando.” Lutxo e um vizinho de Sieso introduzem assim uma pequena história do movimento de okupação rural, que os fez dar-se conta do quanto ela vai rica e longa.
    Para a contar podemos viajar cem anos no tempo e até ao Vale de Santiago em Odemira. A Comuna da Luz foi ali criada em 1917 por António Gonçalves Correia e terá sido a primeira comunidade anarquista em Portugal. Com cerca de quinze pessoas, havia-se dedicado à agricultura e ao fabrico de calçado, praticando o vegetarianismo e o naturismo, experimentando um modelo educativo inspirado pelo pedagogo e anarquista espanhol Francisco Ferrer. Esse sonho de provar que era possível substituir o Estado burguês por uma organização social mais justa durou apenas dois anos. Associada ao surto grevista dos trabalhadores rurais que varreu o Alentejo e ao assassinato de Sidónio Pais, a Comuna da Luz foi alvo de repressão e António Gonçalves Correia preso.

    Martin vê as raízes da okupação rural no movimento anarquista desde o início do século passado, e que em Espanha foi tão presente: durante a guerra de Espanha, entre 1936 e 39, vários grupos anarquistas levaram à prática a colectivização da terra.
    Foi a partir dos anos 50 que a ditadura franquista e a modernização provocaram enormes migrações do campo para as cidades. E por essas três mil aldeias deixadas ao abandono, vários grupos vêm desde os anos 80 instalando projectos colectivos. Entre 1990 e 1993 existiu a Federação Anarquista Ibérica de Colectividades do Campo, e tiveram início os “encontros de okupação rural”. Na sequência dum deles, em 2008, surgiu a Rizoma, rede de colectivos rurais. Procura ligar tanto ocupações como colectivos em terras compradas ou arrendadas, que tenham uma economia ligada à terra e vivam em comunidade, e queiram “promover a transformação social, interdependência, auto-gestão e cooperação horizontal”.
    Para lá das aldeias abandonadas, a afinidade e solidariedade estende-se às ocupações que defendem lugares contra a construção de grandes projectos: a ZAD em Nantes, o Anti-TAV no Valle de Susa, a floresta Hambach em Colónia, a Anti-MAT em Girona. “Os objectivos são comuns, a defesa do território e experimentar novas formas de vida, ao mesmo tempo que se procuram fórmulas de emancipação individual e colectiva”, lia-se no apelo das jornadas.

    Nos últimos anos, a vaga de consciencialização e activismo que varreu o Estado espanhol com o 15M contribuiu para difundir a okupação rural. Exemplo disso é Libres – La serie de okupación rural (libreslaserie.es). Financiada por crowdfunding e registada sob licença Creative Commons, a série foi lançada na internet em 2013 e premiada por todo o mundo. Vários repovoadores, no entanto, criticam-na por veicular uma imagem irrealista, superficial e estereotipada do que é okupar uma aldeia.

    ‘Não por falta de alfaces’

    Hoje “estamos numa fase de grande questionamento”, confessa Martin. “Não conseguimos trazer novas pessoas, nem fazer esse trabalho de comunicação em relação à gente na cidade. Os lugares e as redes locais estão frágeis, têm dificuldade em durar no tempo.”
    Tal como aconteceu aqui na Casa Selba, é comum um projecto que começa com uma dezena de pessoas seguir apenas com uma família. “Muitas estão cansadas de viver fechadas nas suas aldeias em condições super duras. Não é o mesmo nível de conforto da cidade, e está-se isolado de tudo, com muito menos relações sociais”, lembra Martin.

    Em 2008, Lakabe promoveu o primeiro “Desenredos”, um encontro que se passou a realizar de aldeia em aldeia. Com o lema “não só de horta vivemos”, e a consciência de que quase todos os projectos colectivos falham “não por falta de alfaces, mas por falta de entendimento entre o grupo”, foca-se nos vários aspectos da vida comunitária: partilha emocional, relações humanas, resolução de conflitos, género, poder, comunicação, sexualidade.

    “Acreditamos que estamos a fazer algo diferente, e acabamos por usar os mesmos esquemas mentais que nos fizeram procurar uma alternativa”, lê-se numa edição da Llamada del Cuerno. As aldeias okupadas são antes de mais espaços de aprendizagem – implicam autoquestionamento e não ser demasiado dogmático nos seus ideais.
    As crianças correm pelos terraços da Selba repletos de alecrim neste final de verão. “Aprendo contigo e contigo caminho. Encanta-me tudo o que já partilhámos. Quero-te livre. E quero-me livre contigo.” Em torno dos acordes duma guitarra e das chamas duma fogueira, canta-se La Otra. “Dizem que dá medo a liberdade. Não senti-la nunca mais, medo me dá.”
    Martin, quanto a ele, não se imagina viver numa cidade. “Muitas vezes as pessoas partem para a cidade para procurar o anonimato. Para o bem e para o mal, quando vivemos no campo não podemos ser anónimos. Quando o tecido é realmente denso e há um espírito de aldeia, sentimos que fazemos parte duma família.”