Etiqueta: Mulheres

  • Reclamar o verde, entrevista com Vandana Shiva

    Reclamar o verde, entrevista com Vandana Shiva

    A guardiã de sementes e activista ecofeminista aponta a exploração de lítio como potenciadora de novos desastres ambientais que estão a ser cometidos em nome da economia verde.


    Sentada à tarde na cabana, encontrei Vandana Shiva na sua quinta Navdanya, enquanto o sol envolvia as árvores em Uttarakhand, no Norte da Índia. Nesta quinta à porta dos Himalaias, participávamos em atividades agrícolas diárias, cavando, semeando e cozinhando em sintonia com os ciclos de mudança da estação. Navdanya – nove sementes – é «um movimento centrado na Terra e nas mulheres, liderado por agricultores para a proteção da diversidade biológica e cultural.» Juntos conservam o património de sementes de alimentos nutritivos e resistentes ao clima, em mais de 150 bancos de sementes comunitários, guardando, partilhando e cultivando livremente variedades de sementes nativas. Fundado há mais de trinta e cinco anos, o movimento que se espalha agora por 22 estados da Índia, tem na sua origem valores anti-globalização, e práticas como a agroecologia e a agricultura orgânica regenerativa. Celebrando a diversidade da vida e as múltiplas formas de intervenção na biosfera como um ato político de regeneração da Terra, Navdanya é também um importante centro internacional para a reflexão crítica nos moldes do Ecofeminismo e das Ecofilosofias mais amplas, acolhendo cursos regulares.

    Foi neste local de encontro restaurativo que conheci Vandana Shiva e tive a oportunidade de conversar com ela sobre como o seu trabalho como ativista cresceu ao longo das décadas. Mas também como a região da sua quinta enfrentou desafios semelhantes aos da Península Ibérica, e se transformou ao longo dos tempos pelas mãos de comunidades activas que continuam a reclamar a vida.

    Margarida Mendes (MM): Como mudou o papel das mulheres na soberania alimentar e ecológica desde que escreveu o seu livro Staying Alive: Women, Ecology, and Development em 1988? Como viu essa transformação?

    Vandana Shiva (VS): Quando escrevi Staying Alive a grande ameaça era a desflorestação. Desde então, é claro que a alimentação e a agricultura são o ataque central ao planeta, às pessoas, às comunidades e às mulheres. Deste modo, o papel das mulheres na defesa da soberania alimentar está muito mais articulado agora, sim. Isto é o que sabemos em Navdanya. Não havia Navdanya quando escrevi Staying Alive e, com o tempo, a evolução de Navdanya concluiu que são as mulheres que realmente se preocupam com as sementes e que realmente conhecem a Agricultura e por isso estão na liderança.

    Vandana

    MM: E sente uma grande transformação nos últimos trinta anos?

    VS: Porque o mundo se transformou. Não acho que as mulheres fizeram isso, acho que as mulheres continuam a fazer o que estavam a fazer. Só que há mais espaço para elas serem ouvidas. A transformação está no sistema dominante e, portanto, na relevância do conhecimento e das competências das mulheres.

    MM: Estou interessada na sua perspectiva sobre equidade e abundância. Quais foram as principais ações e passos que testemunhou, ou tomou, para a recuperação dos bens comuns?

    VS: Sementes. Começando pelas sementes, é claro que a razão pela qual formei a Navdanya foi porque as corporações queriam possuir a semente, e patentea- -la, privatiza-la, e torná-la num monopólio. Eu sabia não só que a semente é um bem comum, mas que defender este bem comum requer novas formas criativas, coisas que não tinham sido antes feitas. As pessoas estavam a guardar as suas sementes ao nível doméstico, mas agora tínhamos que criar bancos comunitários de sementes para defender os bens comuns. Tivemos que nos começar a organizar a um nível diferente, tanto em termos da própria comunidade, como em termos de lidar com o poder corporativo, a ganância e o cerco às sementes. Esse tem sido o trabalho de
    Navdanya nos últimos 35 anos.

    São as mulheres que realmente se preocupam com as sementes e que realmente conhecem a Agricultura.

    MM: Também fez algum ativismo contra a mineração na região do Doon Valley, certo?

    VS: Aqui mesmo. Nós salvamos estas montanhas. Na verdade, fui solicitada a fazer um estudo pelo Ministério do Meio Ambiente. Naquela época éramos muito poucos os que falávamos e escrevíamos sobre ecologia. E porque tinha trabalhado com Chipko (movimento ambiental), o Ministério encontrou-me e pediu-me para fazer o estudo. O nosso estudo levou ao encerramento da mina, o que foi uma decisão muito importante do Supremo Tribunal em 1983. Demonstrámos que o calcário deixado nas montanhas é água que sustenta toda a economia do vale. O calcário retirado da montanha é matéria-prima e sustenta as grandes indústrias de cimento. Conseguimos demonstrar que o impacto da economia extractiva estava a gerar lucros para alguns, mas a deixar todo o vale vulnerável. Aldeias estavam a ser destruídas, os rios estavam a desaparecer, literalmente. E tudo isto documentamos de uma forma científica muito profunda. Foi isso que levou o Supremo Tribunal a dizer que, porque a água é vida e a vida deve continuar, a mineração deve parar porque está a minar a vida. Esse foi um caso muito importante.

     

    Vandana

    MM: Identifico-me com isso, porque neste momento em Portugal, onde não ocorreram incêndios florestais, há mineração de lítio em planeamento. Existem inúmeras concessões em disputa e também existem debates prementes em torno da mineração no mar profundo. Conseguimos travar os progressos em torno da mineração no mar profundo e impor uma moratória, mas tem havido uma enorme batalha entre os pequenos agricultores, as pessoas das montanhas e o governo sobre o lítio, governo que acaba de cair por corrupção neste preciso momento. Na verdade, corrupção ambiental.

    VS: Infelizmente o lítio é um caso claro pelo qual estes novos desastres ambientais estão a ser cometidos em nome da economia verde. É por isso uma dupla tragédia. Toda a gente sabe que se se convertessem todos os carros que hoje funcionam com diesel e gasolina em veículos elétricos a lítio, não haveria lítio suficiente no planeta. Mesmo se destruirmos o planeta, não conseguiremos realizar este projeto. Portanto, não se precipite. Esta é basicamente uma forma de, não apenas continuar as actividades extractivas que são agora trabalho verde, mas pior, criar um novo sistema de exclusão total das pessoas das decisões sobre os seus recursos e os ecossistemas. Isso é o que chamo de «Democracia da Terra», quando as pessoas, como parte da terra, tendo a Terra em conta e defendendo os seus direitos, também defendem os seus direitos. Esta é a ditadura definitiva sobre o planeta, com uma garra verde: a apropriação das terras.

    MM: O que vivemos é uma apropriação de terras a um nível sem precedentes. Em Portugal estão a expropriar enormes quantidades de terra e a derrubar árvores para construirem parques solares, ao mesmo tempo que se dividem ecossistemas.

    VS: O verde tornou-se o novo chapéu. Infelizmente, quando fiz o estudo da «Revolução Verde», mesmo nessa altura o verde tinha sido mal utilizado. Porque era o nome da agricultura industrial com produtos químicos e chamavam-lhe «A Revolução Verde». Portanto, a própria integridade do verde está em risco.

    MM: Como podemos lutar contra os dragões do greenwashing?

    VS: Continuando as lutas que vimos a travar e construindo alianças mais amplas. Reclamando o verde. Não deixando que os nossos oponentes afirmem ser verdes, chamemos-lhe antes indústrias extractivas em aceleração.

    Vandana

    MM: já agora que fala destas montanhas…As bacias hidrográficas da Índia, mas também de outras partes do mundo, têm mudado exponencialmente. Quais poderiam ser os passos presentes e futuros para a recuperação dos recursos hídricos?

    VS: Aqui mesmo nesta quinta, esta era uma quinta desertificada, uma plantação de eucaliptos. Estive recentemente em Portugal e, sabe, lutei contra o eucalipto em 1981 no estado de Karnataka, no sul do país. Fiz um estudo de auditoria ecológica do cultivo de eucalipto em áreas secas, que estão a ser levadas à desertificação. Mas mesmo em zonas húmidas, não é uma árvore boa para os ecossistemas. Porque, introduzida pelo homem, tem uma absorção de água muito elevada e não cria solo. Esta era uma terra desertificada, uma plantação de eucaliptos. Se pegasse o solo, ele simplesmente escorregava das mãos. Quando irrigávamos, tínhamos que irrigar a cada segundo ou terceiro dia. E desde que começámos a trabalhar na quinta e iniciamos a produção orgânica e a biodiversidade, os níveis de água aumentaram 21 metros. Porque a infiltração está a aumentar e o escoamento de águas é menor. Estamos a utilizar 70% menos irrigação do que quando começámos porque agora o solo está a reter humidade. De modo que, para qualquer bacia hidrográfica, os três passos necessários para regenerar o sistema hídrico são: em primeiro lugar, parar de tratar o rio como um depósito de poluição e como um receptor de descargas dos sistemas industriais. É aí que a água está a morrer. Portanto, o nosso slogan para o Ganges é «deixem-no fluir
    ininterruptamente». Parem com as barragens que estão a causar enormes desastres, e deixem-no fluir puramente, pois afinal ele é a nossa mãe sagrada. A segunda coisa que precisamos de fazer é acabar com as práticas da Revolução Verde. Essa é a razão do excesso e do dumping excesivo de tóxicos. Pesticidas e fertilizantes estão a destruir os corpos d’água. E a terceira coisa que temos de fazer é investir na agricultura orgânica regenerativa, que traz água de volta aos ecossistemas. Porque a agricultura biológica regenerativa é a regeneração da água.

    Apesar de todo o poder do agronegócio, os pequenos esforços das comunidades não só salvaram as sementes, para que haja milho para crescer, mas também lhe trouxeram respeito.

    MM : Pode falar sobre os projetos de Navdanya, aqui no Vale Doon e nas montanhas em seu redor? Eu sei que a algumas horas de distância vocês têm vários projetos comunitários em curso nos Himalaias.

    VS: Nasci nesta região e trabalho aqui desde os tempos do Chipko. Cresci aqui, a partir dos anos 70 entrei em comunidades e quando comecei a guardar sementes, claro que comecei aqui. Fui às comunidades que conheço e incentivei-as a guardar sementes. E à medida que Navdanya assumiu formas mais organizadas nos quatro vales — porque nos sistemas montanhosos pensamos sempre em vales — basicamente encorajámos os agricultores a conservar e guardar as suas sementes e a criar bancos comunitários de sementes. Nós treinamo-los em agricultura biológica, pois tinham-se esquecido, visto que a formação da Revolução Verde chegou até à última aldeia. Então tivemos que desviá-los disso e ajudá-los a lembrarem- -se dos seus sistemas agrícolas. E terceiro, porque me disseram: «agora que conservamos toda esta diversidade, tem que nos ajudar, porque a nossa diversidade de mercados acaba de ser destruída». Foi então que ajudei a criar sistemas de distribuição para eles. Porque crescem as montanhas, crescem as raias, e os alimentos esquecidos, o milhete ou milho-miúdo, etc…Nós ajudamo-los, e dissemos que esse alimento esquecido deveria ser o alimento do futuro. E estou muito feliz porque, quando fiz o estudo da Revolução Verde, o milho–miúdo estava a ser chamado de cultura primitiva, que deveria ser eliminado da agricultura, mas este ano é o ano do milho- -miúdo! Apesar de todo o poder do agronegócio, os pequenos esforços das comunidades não só salvaram as sementes, para que haja milho para crescer, mas também lhe trouxeram respeito.

    Vandana

    MM: Qual é a mensagem que gostaria de deixar aos jovens activistas que estão agora a surgir e às gerações futuras?

    VS: A primeira coisa que lhes diria é que a colonização da natureza, a colonização das mulheres, e a colonização do futuro, que são as gerações futuras, é uma só colonização. E a descolonização nos nossos tempos precisa de uma aliança entre os “três”. Entre os direitos da natureza, os direitos das mulheres, os direitos da juventude. Há uma tentativa de colocar os humanos contra a Terra, de colocar constantemente os idosos contra os jovens, mas vocês sabem que diferentes fases da vida são diferentes fases da vida. E eu diria aos jovens: bem, juntem-se a nós, aqui! Aqui fora, faço nesta cabana a Universidade dos avós, para aprender com os mais velhos. No próximo ano vou fazer muitas Universidades de avós, para que os jovens não se esqueçam da cultura. Porque as mulheres ainda conhecem as suas canções, mas os jovens ouvem Bollywood. Portanto, transferir as artes, transferir a cultura é muito importante.

    A última coisa que gostaria de dizer aos jovens é: sim, estamos numa situação terrível e o colapso não é apenas algo que está a ser testemunhado, mas sobre o qual se fala constantemente. Por essa razão, muitos jovens pensam que não há nada que possamos fazer. Mas acho que esse é o último passo que devemos dar, porque pode fazer-se tudo. Como membros da comunidade terrestre, trabalhando com a Terra, podemos regenerar-nos. Vejo isso através da humilde experiência aqui em Navdanya, vi milagres nesta quinta! Bem, se isso estivesse a acontecer em todos os lugares! Então, como disse à Greta quando ela me encontrou em Paris, ótimo, protesta às sextas- feiras, faz greve às sextas-feiras, mas os restantes seis dias regenera a Terra. Faz algo para trazer de volta o seu solo, para trazer de volta a sua água, para trazer de volta a sua biodiversidade, para trazer de volta os seus insectos. E há tantas maneiras de fazer isso! Considera isso como a tua atividade a 90% e isso te trará esperança. Isso te dará a tua identidade e será a resposta para o teu futuro e para o futuro da Terra.


    Texto e fotografias de  Margarida Mendes


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #41, Abril|Junho 2024.

  • Zapatistas e Mulheres no centro dos Encontros Intergalácticos

    Zapatistas e Mulheres no centro dos Encontros Intergalácticos

    O Esquadrão 421, a primeira comitiva zapatista a chegar à Europa, participou em Julho nos encontros de mulheres na ZAD francesa de Notre-Dame-des-Landes, por ocasião dos Encontros Intergalácticos. O Jornal MAPA, em parceria com a Guilhotina.Info, esteve no local revisitando aquela que foi a maior luta contra megaprojectos das últimas décadas na Europa e escutando diversas resistências, com destaque para as lutas das mulheres.

    A ZAD de Notre-Dame-des-Landes, a mais conhecida das «Zonas A Defender», é hoje muito diferente da ocupação de terras que encontrámos até 2018. A partir desse ano, com a vitória do movimento e o abandono do projecto do aeroporto, foi dado início a um processo de normalização de relações com o Estado, marcado por conflitos internos e por uma brutal onda de ataques policiais.

    Até então, a ZAD era um espaço que existia em (quase) total autonomia do Estado e do sistema capitalista. Fora da jurisdição das autoridades e da lei francesa, em grande parte desconectadas das redes públicas de água e electricidade, cerca de duas centenas de pessoas habitavam os ambientes mais improváveis desta Zona a Defender – desde quintas expropriadas pelo Estado por «interesse público» a cabanas no cimo das árvores ou, no meio de um lago, uma cabana flutuante. Enormes hortas colectivas, que durante boa parte do ano asseguravam a autonomia alimentar das habitantes e das visitantes, coexistiam com estradas e caminhos repletos de barricadas. Carcaças de antigos carros da polícia transformados em canteiros. Enormes buracos escavados para impedir a passagem da polícia num eventual novo ataque. Cabanas e uma torre de madeira construídas sobre o próprio alcatrão, perscrutando o horizonte em busca de alguma visita inoportuna.

    Sinais da força que permitiu enfrentar e vencer a operação repressiva que assolou a ZAD com uma intensidade nunca antes vista entre o outono de 2012 e a primavera de 2013, na chamada Operação César. Uma força vinda da enorme diversidade de pessoas, grupos, abordagens e estratégias que partilhavam o território, numa realidade repleta de contradições e conflitos, com tanto caminho por fazer em muitos campos. E, ainda assim, eco desse “mundo onde caibam muitos mundos” de que falam os zapatistas, exactamente por essa diversidade, descentralização e autonomia.

    A ZAD continua. Neste momento, cerca de 260 pessoas habitam a zona, umas em grupo, outras sozinhas, organizadas em diferentes colectivos, cooperativas e projectos

    Em 2018, o Estado soube pôr em prática a máxima “dividir para reinar” e entregou ao movimento um presente envenenado. A par do abandono do projecto do aeroporto, anunciou o início de um processo de regularização em que as comunidades deveriam apresentar candidaturas para que fossem avaliadas e emitidas decisões sobre a sua permanência na zona. O movimento, antes unido pela oposição ao aeroporto, fragmentou-se. Geraram-se conflitos entre pessoas e grupos que queriam, a todo o custo, manter a ZAD como estava e outros e outras que estavam dispostas a negociar com o Estado para conseguir manter pelo menos alguns dos espaços e alguma da autonomia. Nesse ano, logo após terem sido retiradas, como sinal de “boas intenções” por parte do movimento, as barricadas de uma das duas estradas que atravessam a zona, a route des chicanes, a polícia voltou a atacar e destruiu a maior parte dos espaços na zona leste da ZAD.

    Agora, à chegada a Notre-Dame-des-Landes, vêem-se poucos sinais da luta contra o aeroporto, que anteriormente decoravam as beiras das estradas, os jardins e as fachadas das casas. Os acessos estão em óptimas condições e as estradas dentro da zona estão asfaltadas e praticamente imaculadas. Não há sinais de barricadas nem carcaças de carros. Não há cabanas nem torres. Imensos espaços colectivos, comunidades e projectos desapareceram sem deixar rasto. Até a cabana flutuante foi destruída.

    E, ainda assim, apesar de todas as transformações que tiveram início em 2018, a ZAD continua. Neste momento, cerca de 260 pessoas habitam a zona, umas em grupo, outras sozinhas, organizadas em diferentes colectivos, cooperativas e projectos. Cada uma procurando, a seu modo, continuar a desenvolver formas de vida e de organização alternativas.

    E é aqui que surgem, por ocasião da invasão zapatista da Europa, os Encontros Intergalácticos. Um mundo de possibilidades e encontros entre gentes e lutas dos mais variados contextos e geografias.

    ZAD_Fernanda_Fernández

    «Muitas lutas para viver, um mesmo coração para lutar» – Encontro de Mulheres e Dissidências

    A 27 de Julho, véspera do início dos encontros, chegava a Nantes uma caravana marítima de mulheres. Catorze mulheres em três veleiros, vindas de diferentes partes da Bretanha. Navegaram para «visibilizar as suas lutas» e para «tomar os seus lugares num mundo marítimo marcado pela dominação patriarcal e colonial».

    Entraram pelo rio Loire e desembarcaram na vila de Couëron, na periferia ocidental da cidade de Nantes, onde eram esperadas por algumas dezenas de pessoas em alegre rebeldia. Presentes estavam também Marijose, Lupita, Carolina, Ximena e Yuli do Esquadrão 421. Já em terra, as marinheiras apresentaram às zapatistas uma canção escrita a bordo.

    «Agora as zapatistas chegam à Europa
    algumas de barco, outras de avião (…)
    Chegámos finalmente
    e os nossos sonhos tornam-se
    a cada dia um pouco mais realidade
    Mulheres e dissidências de aqui e de acolá
    Unamos as nossas forças
    Temos de nos revoltar!»

    Na ZAD de Notre-Dame-des-Landes, a Ambazada e o campo que vai até à Wardine, no princípio do Caminho de Suez, foram os espaços centrais dos Encontros Intergalácticos. Durante os dois primeiros dias, estes espaços foram ocupados pelo encontro de mulheres e pessoas trans e não binárias sob o lema «Muitas lutas para viver, um mesmo coração para lutar». Uma oportunidade rara para, à escala internacional, mulheres e dissidências partilharem experiências e ideias, debaterem e construírem as suas lutas e resistências. Dois dias em que foi possível usufruir de espaços seguros de discussão, mas também de diversão e lazer, espectáculos e concertos, sem a presença de homens – algo ainda mais raro.

    O Esquadrão esteve presente através das quatro mulheres e de Marijose, uma outroa, a palavra que as zapatistas utilizam para referir as pessoas que não se revêm na visão binária do género. Na cerimónia de abertura, tomaram a palavra para fazer as mesmas intervenções que, desde a sua chegada a Vigo em 22 de junho, tinham vindo a fazer em todos os actos públicos em que participaram: dizem o seu nome, a língua que falam, de onde vêm e onde vivem, e que são 100% zapatistas.

    Em todas as actividades em que estão presentes, registam pormenorizadamente nos seus cadernos o que acontece, o que é falado e discutido. Estão mandatadas pelas suas comunidades para conhecer as lutas e resistências «de baixo e à esquerda» deste continente que, no desembarque na Galiza, rebaptizaram de Terra Insubmissa. E tudo o que vêm, ouvem e vivem cá, transmitem-no às suas comunidades.

    E, na maior parte do tempo, permaneceram em silêncio. Algum raro momento houve em que, em grupos mais pequenos, tomaram a palavra, como por exemplo para explicar como funcionam as escuelitas zapatistas. Mas nunca emitiram opiniões nem posicionamentos, nem falaram em actividades grandes, o que causou desapontamentos e levantou questões por onde passaram. Muitas de nós nos perguntámos, nestas e noutras ocasiões, porque não tomavam a palavra. Entre conversas, possíveis explicações foram surgindo: que não estão mandatadas para falar; que o Esquadrão não é uma delegação de Escuta e Palavra, mas apenas de Escuta; que, sendo apenas sete entre as quase duas centenas previstas chegar, não falam para não ganhar protagonismo; que não falariam enquanto a entrada das restantes delegações continuasse a ser negada. A chegada das companheiras, prevista para o início de Julho, viria a acontecer apenas em Setembro, já então coincidindo com o regresso do Esquadrão 421 a Chiapas.

    Ao longo do atribulado processo da viagem zapatista, vamos aprendendo que tudo leva o seu tempo e que não há que tentar perceber tudo de uma vez. Dizia o Subcomandante Marcos, num comunicado de 3 de Março de 2001 dirigido ao Congresso Nacional Indígena: «Desconfia de quem muito fala, e escuta atento a quem sábio se cala.»

    No acto de encerramento deste encontro de dois dias, o Esquadrão é convidado a intervir. Acede em subir ao palco. Marijose pega no microfone e diz: «Estas são as nossas palavras.»

    Silêncio.
    Longos minutos de silêncio.
    E termina: «Muchas gracias

    Z de ZAD, Z de Zapata

    30 de Julho, dia de transição entre os dois encontros. Ao início da noite realiza-se, no imponente Farol da Rolandière, o ritual de abertura do evento misto. Um habitante da ZAD começa por contar um episódio que se desenrolara em torno de um posto avançado do exército mexicano em território zapatista, um posto de madeira e cheio de frestas. A certa altura, os zapatistas decidem fazer um ataque com a sua “força aérea” contra o posto, atirando pelas frestas dezenas de aviões de papel, cada um com um poema ou uma frase dirigida aos soldados. Conta a história que um deles dizia algo como «sabemos que vocês são pobres tal como nós, mas são ainda mais pobres pois venderam as vossas vidas àqueles que nos dominam e oprimem».

    A multidão permanece em silêncio, impressionada. Pela torre de vigilância usada, na altura dos confrontos, para perscrutar o horizonte em busca da polícia – uma das poucas estruturas que ainda resiste depois das expulsões de 2018 –, sobe uma mulher. De avião de papel na mão e apenas com a sua voz, sobrepondo-se ao vento forte que sopra, faz chegar aos ouvidos da multidão uma ária revolucionária francesa.

    Rolandière_Farol_FernandaFernández

    Quando chega ao topo da torre, a mulher lança o avião de papel, enquanto outras companheiras atiram outros 176 aviões, um por cada zapatista d’A Extemporânea. Em baixo, as pessoas recebem os aviões, dando simbolicamente a mão aos zapatistas que tentam entrar na Europa. É acesa uma fogueira, alumiando dezenas de tochas com Zs na ponta – Z de ZAD, Z de Zapatistas e Z de todas as zonas a defender. Após uma marcha nocturna, o acto termina enterrando os aviões na terra lavrada, num dos locais que antes fora palco de confrontos entre polícias e zadistas.

    Auto-organização feminista contra as agressões

    Os dias não-mistos deram lugar aos dias mistos, mas a resistência das mulheres continuou a ocupar um lugar central. Ressoava ainda a violação que ocorreu nos Encontros anteriores, em 2020, denunciada publicamente ao microfone durante o próprio encontro, e que abalou a ZAD.

    Atitudes, agressões e dinâmicas sexistas nos espaços colectivos haviam sido tema de debate ao longo dos anos em muitas das comunidades e assembleias da ZAD. No entanto, a ausência de um espaço colectivo que agregasse todos e todas as habitantes, fruto das primeiras fracturas que surgiram depois do fim da Operação César, impedia que certos problemas fossem enfrentados de forma colectiva. O debate geral e profundo na zona, surgido em reacção ao choque provocado por aquela violação, levou à criação de uma iniciativa para combater o sexismo em grandes eventos – a Festivities Fight Sexism. A FFS teve uma forte presença visual nos espaços do Encontro, com imensos cartazes contra as agressões sexistas e sexuais, e um número de denúncia e apoio afixado em todo o recinto, nos acampamentos e parques de estacionamento, através do qual as vítimas podiam entrar em contacto com companheiras da organização.

    Logo na noite de transição entre os dois encontros, denúncias de agressões e de gravações não consentidas de companheiras a dançar levaram as companheiras da FFS a implementar um protocolo contra as violências sexistas – foi criada uma zona segura em frente ao palco como espaço não-misto, equipas percorriam constantemente o recinto, uma equipa permanente dava apoio às vítimas e, durante a noite, grupos auto-organizados de mulheres acompanhavam as companheiras no regresso ao acampamento. Foi ainda feito o apelo para que, nas conferências e discussões, fosse dada prioridade à voz das mulheres, e foram agendadas várias reuniões não-mistas para avaliar o desenrolar do encontro e do protocolo.

    ZAD_Fernanda_Fernández

    As palavras do que se escutou

    Dezenas de actividades transportaram-nos através do tempo e do espaço às mais diferentes resistências. Desde a resistência à ditadura no Chade às revoltas dos anos 60 na Argélia, desde a revolução sudanesa de 2018 às lutas actuais nos Balcãs, passando pela experiência da Comuna de Paris no ano do seu 150.º aniversário. Falou-se de feminismo decolonial, de género e educação e de justiça transformadora em resposta às violências de género. Numa assembleia com a Rede de Entreajuda Verdade e Justiça, conhecemos a luta travada em França pelas famílias das vítimas das violências policiais e do racismo de Estado.

    Um dos temas centrais foi, naturalmente, as lutas pela terra e pelo território, por entre críticas às lógicas de mercado e à sociedade industrial. Uma das actividades centrou-se na crítica à ordem eléctrica, apresentada por uma rede de pessoas e colectivos de lutas ligadas à energia (contra o nuclear, as eólicas e as linhas de alta velocidade). Noutra actividade, procuraram-se os pontos comuns entre as lutas contra o Tren Maya, o movimento No TAV no Vale do Susa e a resistência à linha de alta velocidade HS2 em Inglaterra. Conhecemos ainda a Soulévements de la Terre, uma rede de lutas locais em França cujo objectivo é impulsionar um movimento de resistência à agro-indústria e ao extractivismo. Com a articulação de movimentos camponeses, ocupações de terras e experiências de auto-subsistência e auto-organização comunitária, a rede realiza acções massivas, de três em três meses, de apoio às lutas travadas no terreno.

    Outro dos pontos altos deste encontro foi a discussão «Resistências territoriais e construção de autonomias duradouras» em torno dos movimentos curdos, zapatistas e kanak, um povo originário em luta por autonomia na Nova Caledónia, que permanece uma colónia francesa. Um antigo presidente de câmara em Bakur (a parte do Curdistão na Turquia), um representante do Centro Democrático Curdo em França e duas internacionalistas de regresso de Rojava juntaram-se a um militante independentista Kanak e a duas militantes do movimento de apoio às zapatistas para partilhar as diferentes formas de vida, organização e produção construídas nestes territórios em busca de autonomia. Discutiu-se a correlação de forças no enfrentamento com o Estado, estratégias para suster as autonomias em situações adversas (governamentais, militares ou económicas) e o papel do internacionalismo.

    Ao longo do atribulado processo da viagem zapatista, vamos aprendendo que tudo leva o seu tempo e que não há que tentar perceber tudo de uma vez

    Por fim, o encontro presencial entre pessoas envolvidas na organização da Viagem pela Vida em diversos territórios – Suíça, Euskal Herria, Chipre, Roménia, Dinamarca, França, Portugal, Catalunha, País Valenciano, Cantábria e Andaluzia –, possibilitou a partilha das lutas e contextos das geografias presentes e as formas e desafios da organização. No tema da comunicação, falou-se de como a exclusividade da comunicação virtual acaba por deixar de fora quem não tem smartphone, as populações idosas, etc., e reforçou-se o exemplo e a necessidade de cartazes nas ruas, das rádios livres e outros meios de comunicação independentes. O que levou também a sublinhar a importância da presença e convivência a nível local e de bairro, destacando-se o exemplo de Barcelona, onde a organização desta viagem está baseada na criação de articulações entre colectivos, movimentos, projectos e espaços em cada um dos bairros.

    Com apenas dois homens entre uma dezena de mulheres desde as diferentes geografias da Viagem pela Vida, foi destacado o papel preponderante da participação feminina neste processo, e especialmente de mulheres migrantes. Uma mudança de paradigma num continente em que os movimentos reproduzem ainda bastantes dinâmicas sexistas e racistas, e frente aos quais os Encontros Intergalácticos assumiram ser esta uma questão central a partilhar com as zapatistas que a Europa acolhe.

     


    Fotografias de  Fernanda Fernández


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #32, OutubroDezembro 2021.


    #Esquadrão421 #comitivazapatista #ZAD #EncontrosIntergalácticos #mulheres #lutasdasmulheres #encontro #zapatistas #mapa32

     

  • Mulheres em luta pelos direitos das pessoas presas

    Mulheres em luta pelos direitos das pessoas presas

    Vera Silva, antropóloga do Centro em Rede de Investigação em Antropologia e do Observatório Europeu das Prisões, é voluntária em projeto com mulheres presas no Estabelecimento Prisional de Santa Cruz do Bispo. É uma das proponentes da REDE, Plataforma Sociedade Civil e Prisões criada em 2020.

    Apresenta-nos a REDE?

    A REDE Entregrades é uma iniciativa promovida por várias pessoas e organizações da sociedade civil com intervenção nas prisões, no sentido de ampliar a discussão sobre o sistema prisional, na procura de soluções que melhorem a situação das pessoas enredadas nas prisões: pessoas presas, ex-presas, familiares e profissionais da prisão. Um debate praticamente inexistente em Portugal. Tem promovido fóruns mensais, a decorrer online desde julho, com grande adesão e participação. Até ao momento, já aderiram à REDE mais de 60 pessoas, a título individual e em representação de organizações. A estratégia descentralizada e a mobilização em torno da defesa dos direitos das pessoas presas, enquanto princípio que conduz a ação, tem permitido um debate bastante crítico e revelador da situação nas prisões, que resulta da confluência de diferentes experiências, localizações e perspetivas sobre a prisão. Um saldo bastante positivo desta iniciativa, única no contexto português e que surgiu num período complexo que reitera a urgência de ação coletiva sobre as prisões.

    A petição «Todos juntos por ti recluso», redigida em setembro por um grupo de familiares, deu origem a concentrações de protesto. De que se tratou?

    O movimento «Todos juntos por ti recluso» é impulsionado por um grupo de mulheres de várias regiões do país que têm familiares presos/as. Após quase quatro meses sem acesso a visitas, estas foram retomadas gradualmente a 15 de junho com regras especiais sob recomendações da Direção Geral de Saúde, que levaram à colocação de parlatório, à redução para uma visita semanal de 30 minutos e à limitação de duas pessoas por visita. O Estado investiu 300 mil euros na instalação de 675 parlatórios em prisões e centros educativos, e a informação, não oficial, que tem circulado é de que serão para manter, pelo menos nos próximos dois anos.

    Face a esta situação, no dia 4 de setembro manifestaram-se em Lisboa pelo direito às relações familiares e entregaram uma carta reivindicativa no Ministério da Justiça e na Direção Geral de Reinserção e dos Serviços Prisionais (DGRSP), exigindo o direito às visitas dentro dos trâmites que a lei nacional e internacional prevê e ainda a continuidade da aplicação da Lei 9/2020, que decreta as medidas excecionais de flexibilização de penas em período de pandemia. Eram mulheres, cerca de 20, do norte, centro e sul do país, de diferentes idades, entre os 20 e os 80 anos, algumas com as crianças a acompanhá-las. Durante a manifestação falaram dos vários problemas nas prisões: a falta de cuidados de saúde, medicamentos, material de proteção, a crónica má alimentação, a falta de informação e a inexistente reinserção social. As dificuldades que enfrentam para dar apoio e visitar. Muitas famílias têm de viajar centenas de quilómetros para terem apenas meia hora de visita. Os parlatórios foram também objeto de queixas: dificuldades de audição, que impedem o diálogo, e nenhum contacto físico é permitido.

    A manifestação teve início em frente ao Ministério da Justiça e seguiu para a DGRSP, concentrando-se nas imediações do edifício. A Ministra da Justiça e o Diretor Geral recusaram recebê-las pessoalmente. Essa recusa, bem como a não cobertura mediática das reivindicações, demonstra a clara indiferença e invisibilização social a que são remetidas estas mulheres e crianças. Esta manifestação, bem como outras concentrações de protesto à porta de prisões que aconteceram no início da crise pandémica, demonstra-nos que são as mulheres quem se tem mobilizado e quem suporta, nas comunidades, as consequências do encarceramento.

    À data em que falamos, a situação em Tires, das mulheres reclusas, é assustadora, com disseminação de casos de Covid-19 e a indiferença instalada…

    Infelizmente não me surpreende que o primeiro surto de Covid-19 identificado nas prisões tenha sido em Tires, pelas condições que esta prisão tem, e porque tendencialmente as mulheres e transgénero presas são sujeitas a uma maior negligência e violência. A gestão desta prisão face a este surto, apesar de só agora ser mediatizada, tem sido alvo de denúncias nos últimos meses, por parte de mulheres presas, familiares nas redes sociais, e recentemente pela Ordem dos Advogados. Falta de celas com o mínimo de condições, serviços médicos precários, falhas na distribuição de produtos de higiene e de limpeza, falta de comida, os produtos na cantina são caros e muitas não têm dinheiro para suprir, desta forma, as necessidades básicas, fecho nas celas durante 22h, e limitações no acesso a advogados, o que tem servido para o silenciamento sobre as condições em Tires. A prática do segredo institucional é comum nas prisões. Da minha experiência de investigação em Tires, durante 2019 até ao início de 2020, não me foi facilitada a circulação nas alas e pavilhões prisionais. Os relatos que consegui recolher confirmam vários dos problemas agora denunciados publicamente. Acrescento, ainda, que além da difícil situação das mulheres mães e crianças na prisão e das que têm os filhos/as no exterior, também tenho conhecimento de mulheres que, desde março, não têm visitas dos/as filhos/as que vivem em instituições de acolhimento de menores.

    A maioria dos problemas que se vivem hoje nas prisões não são excecionais, são velhos problemas que se intensificaram e multiplicaram. Os efeitos da crise pandémica agravaram as condições de vida dentro das prisões, promoveram um maior fechamento destas instituições à sociedade civil, o aumento da violência institucional, a limitação do acesso a bens essenciais e do contacto com familiares e amigos, a deterioração dos precários serviços de saúde e da saúde mental e física das pessoas presas.

    Sabe mais em: rede-entregrades.pt

     


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #29, Dezembro 2020|Fevereiro 2021.

  • Acendemos uma pequena Luz

    Acendemos uma pequena Luz

    chiapas

    Mais de 7000 mulheres encontraram-se de 8 a 10 de Março de 2018 nas montanhas de Chiapas. Este foi o primeiro encontro internacional convocado pelas zapatistas, no qual participaram mais de 2000 mulheres Zapatistas e 5000 mulheres de mais de 28 países.

    A 7 de março de 2018, a três horas de San Cristobal de las Casas, o Caracol de Morelia abre as suas portas para os milhares de mulheres que chegam em autocarros de todo o país. Em cima do portão, vigiado por mulheres do Exército Zapatista de Libertação Nacional (ELZN), está pendurada uma enorme faixa com a frase «Bem-vindas, mulheres do mundo» e em baixo outra faixa com a frase «proibido homens». Foi decidido colectivamente entre as zapatistas que os homens não podem entrar porque é importante haver encontros só entre mulheres, não para ser separatista, mas para criar uma oportunidade de conviver num espaço onde se organizem e se confrontem problemas que afetam unicamente as mulheres neste mundo patriarcal. «Pensamos que só assim, entre mulheres, podemos falar e ouvir, olhar, festejar sem o olhar dos homens, não importa se são homens bons ou homens maus». Este encontro foi organizado por assembleias constituídas unicamente por mulheres. Porque, como dizem elas, «Não é trabalho dos homens nem do sistema dar-nos a liberdade. Pelo contrário, o trabalho do sistema capitalista patriarcal é manter-nos dominadas. Se queremos ser livres, temos de conquistar a liberdade nós mesmas, como mulheres que somos». O objectivo do encontro foi partilhar a experiência de lutas contra os «maus governos que, não só nos utilizam, nos reprimem, nos roubam e nos desprezam como seres humanos, mas também que nos reutilizam, nos reprimem, nos roubam e nos desprezam por sermos mulheres».

    chiapas

    Durante três dias, mais de 7000 mulheres discutiram sobre saúde, educação, lesbianismo, racismo, etc., mas sobretudo falou-se da violência de género e da violência de estado. Desenvolveram-se mais de 180 workshops e debates, jogou-se futebol e basquetebol, viram-se obras de teatro, falou-se e pintou-se em conjunto. O encontro foi aberto pelas mulheres zapatistas com a apresentação dos 5 caracoles (centros administrativos do território e comunidades zapatistas) e da história de como, em cada um, começou a organização entre mulheres. A Insurgente Erika iniciou o discurso sublinhando que elas, mesmo não tendo os estudos e talvez não tendo lido tantos livros como as mulheres da cidade, têm tanta raiva e tanta coragem como todas as que sofrem chingaderas, porque vivem o desprezo, a humilhação, as burlas, a violência, os golpes e as mortes por serem mulheres, por serem indígenas, por serem pobres e agora também por serem zapatistas. E esta exploração e esta violência não são feitas unicamente por homens, senão também por mulheres que dela participam.

    Neste encontro, elas não querem julgar nem ser julgadas, nem pediram que lutem por elas, assim como elas não lutaram pelas outras. Afirmaram que existem muitas diferenças entre as lutas em várias partes do mundo, mas que uma coisa é certa: este «pincho sistema» capitalista existe em toda a parte. E que todas devem lutar contra um sistema que faz crer e pensar que as mulheres valem menos.

    chiapas

    No México vivem 15 milhões de indígenas que hoje em dia sofrem discriminação, enfrentam a pobreza, o difícil acesso à saúde pública, a falta de alimentos e o ensino institucional, que as educa a abandonar por completo o seu território, a sua cultura e a sua identidade. Um território estatal em que já 7,8% está em mãos de empresas mineiras ou de empresas dedicadas à exploração de terras. Muitas vezes estas terras pertencem a comunidades indígenas que acabam por ser expropriadas. Também em outras zonas de interesse turístico, as terras comunitárias (terras sem proprietário para uso das comunidades) são vendidas pelos municípios e pelos governos corruptos a investidores estrangeiros. A própria população indígena é afastada dos olhares dos turistas. Este encontro de mulheres abriu a possibilidade de organização e partilha de táticas de luta entre as diferentes comunidades indígenas e outras partes do mundo.

    Muitos debates focaram-se na auto-organização e em como recuperar velhos conhecimentos de maneira a afrontar um sistema neoliberal. Deu-se grande importância e voz às mães em luta cujos filhos e filhas foram assassinadas ou estão desaparecidas por causa de um estado que actua baseando-se na opressão, na criminalização, na violência e na morte.

    chiapas

    Mais de 10000 mulheres foram mortas nos últimos 5 anos no México, mas menos de 20% destes casos foram classificados como feminicídios. A maior parte dos crimes ficam por resolver, provavelmente, porque não é do interesse do estado. O feminicídio define-se como um acto de violência extrema contra as mulheres, que entra dentro de um conceito mais vasto que é a violência de género.

    «O feminicídio não é exclusivamente um acto homicida, mas estende-se também a um contexto mais complexo, que inclui a trama social e política que o encobre e que fornece os mecanismos para que este permaneça impune» (Julia Monarrez, 2009). Uma sociedade patriarcal que, através de estruturas, propaganda, rituais, tradições e ações quotidianas que reproduzem a dominação constante sobre as mulheres, faz com que aumente a violência de género, que serve ao próprio sistema para se manter em pé. O feminicídio é um crime de ódio: matar uma mulher pelo facto de ser mulher. Esta violência extrema estendeu-se a todo o país. Quase 7 mulheres são assassinadas por dia no México. O feminicídio segundo a lei: «Comete o delito de feminicídio quem, por razões de género, prive uma mulher da sua vida»; mas só 11 dos 32 estados da federação juntaram outras 7 razões pelas quais se define o feminicídio. Aliás, ainda há estados que aplicam «crime passional» em vez de feminicídio, em que a agressão é considerada como sendo feita sob um estado de «emoção violenta». Muitos feminicídios são cometidos por maridos ciumentos ou familiares e frequentemente são escondidos como suicídios. Esta impunidade está estreitamente ligada ao violento e corrupto governo Mexicano. As famílias que pedem justiça e o conhecimento da verdade encontram muitas vezes razões para desconfiarem das autoridades. No encontro, as familiares que lutam sustentam que nas zonas mais tensas, onde a taxa de feminicídios e de desaparecimentos é alta, como por exemplo na Ciudad Juárez, estes crimes estão relacionados com os grandes projetos governamentais ou estrangeiros de exploração de terras, como as indústrias mineiras ou as petrolíferas. É uma estratégia para aterrorizar a população em zonas economicamente débeis, para militarizá-las e posteriormente desalojá-las. Assim como o número de feminicídios, também o número de desaparecidas é altíssimo, igualmente encoberto pelo governo Mexicano. Entre elas, muitas ativistas e estudantes que são brutalmente assassinadas pela polícia federal, nacional ou pelos próprios militares. Estavam também presentes no encontro as mães dos 43 estudantes desaparecidos em Aotzinpa em 2014. Sabendo perfeitamente quem cometeu estes crimes, o governo quer encerrar as investigações e ainda ameaça as famílias que não se calam enquanto não se souber a verdade. Todas elas, juntamente com outras famílias de outros países, como por exemplo as «madres de mayo» da Argentina, prometeram encontrar-se no próximo ano.

    chiapas

    Em todos os debates e workshops estavam presentes pelo menos 10 zapatistas de maneira a levar os conteúdos às suas comunidades. O encontro em si estava muito bem organizado e não faltou nada, desde a comida até às casas de banho. Ao redor do caracol estava o ELZN, para vigiar a zona. Infelizmente, aconteceu uma companheira curda, algumas argentinas e também algumas gregas terem sido impedidas de entrar no México, pelas autoridades mexicanas no aeroporto, por irem participar no encontro.

    “Foi um encontro muito especial, carregado de emoções
    Com uma energia única de 7000 mulheres que LUTAM”.

    chiapas

    No primeiro dia, as mulheres zapatistas surpreenderam-nos brutalmente. Cada uma com uma vela na mão, 2000 mulheres em fila, deslumbraram-nos com estas palavras:

    Acendemos uma pequena luz.
    Leva-a, irmã e companheira
    Leva-a quando te sentes triste,
    quando tens medo,
    quando sentes que é muito dura a luta e a vida.
    Leva-a no teu coração,
    nos teus pensamentos,
    no teu interior,
    e não fiques com ela, irmã e companheira,
    mas Leva-a às desaparecidas
    Leva-a às assassinadas
    às prisioneiras
    às violadas
    às culpadas
    às abusadas
    Leva-a a todas as violadas de diferentes modos
    Leva-a às imigrantes
    às exploradas
    Leva-a aos mortos
    Leva-a e diz-lhes a todos e todas que não estão sozinhas,
    que lutarás por elas
    que lutarás pela verdade e pela justiça
    e que vale a pena a sua dor
    que lutarás tão forte que a sua dor não se repetirá em nenhuma outra mulher.
    Leva-a e transforma-a em raiva em coragem e em decisão
    Leva-a e une-a com outras luzes
    Leva-a
    E se continua nos teus pensamentos que não haverá nem justiça, nem liberdade
    no sistema capitalista patriarcal
    então voltaremos a encontrar-nos para incendiar o sistema
    e talvez te juntes a nós
    Cuidado que ninguém apague este fogo
    até que não fique nada mais que cinza.

    Texto e fotografias de Mimic

  • Jornadas: as Prisões e as Mulheres

    Jornadas: as Prisões e as Mulheres

    De 30 de junho a 2 de julho decorreram as Jornadas: as Prisões e as Mulheres, no Centro de Cultura e Intervenção Feminista da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), em Lisboa.

    A organização das jornadas foi levada a cabo por um conjunto de pessoas de diferentes coordenadas geográficas, profissionais e interventivas, com o apoio da UMAR e do Observatório Europeu das Prisões. Os objetivos que nos moveram foram visibilizar, informar e refletir sobre a situação das mulheres no sistema prisional; pensar a prisão como instituição política: usos e práticas; promover o diálogo conjunto entre pessoas, coletivos e associações, profissionais, pessoas presas, ex-presas e respetivos familiares/pessoas relativas; partilhar experiências e aprendizagens com grupos de apoio a pessoas presas e de luta contra a impunidade do sistema prisional e, por fim, coletivamente definir estratégias de ação. Partindo destes objetivos foram sugeridos os motes para as rodas de conversa: toda a prisão é uma prisão política; a prisão para as mulheres; redes familiares e prisões, e grupos de apoio e de resistência de mulheres presas. Participaram, como animadoras das conversas, profissionais na área do direito, técnicas sociais, ativistas de diferentes grupos que têm trabalho com mulheres, crianças e jovens, bem como grupos que no Brasil, na Galiza e no País Basco intervêm nas prisões.

    A prisão resulta de opções governativas e legislativas que, além de responsáveis pela gestão dos espaços prisionais, definem o que é crime, a prática do crime e as respetivas consequências jurídicas – entre as quais a prisão efetiva. Por isso, é necessário perceber os seus usos e benefícios para a manutenção da ordem política, económica e social. Controlar, punir e castigar, legitimando a subalternização de determinados grupos sociais, foi sempre a principal função da prisão moderna. Roldana imprescindível de uma política de exclusão, reiterou-se que a prisão é obsoleta, uma vez que é incapaz de resolver os fins a que juridicamente se propõe – ressocialização e reinserção. Restando-lhe, então, cumprir (excessivamente) com a função punitiva e do castigo. Sobre isto foi expresso que em Portugal não existe vontade política de mudar e olhar para outros modelos e opções penais.

    Tal como nos diz Angela Davis (norte-americana, ex-presa política dos Black Panthers, investigadora ativista feminista e abolicionista das prisões), a prisão torna-se num meio de fazer com que as pessoas desapareçam, sob a falsa promessa de que também desaparecerão os problemas que elas representam…, perceção esta reproduzida socialmente não só pelos sistemas político-legais. Contudo, se a prisão resolvesse os fenómenos “criminais”, e tendo em consideração toda a prática histórica da prisão, isto implicaria que os “crimes” que levaram e levam as pessoas à prisão estariam hoje resolvidos, o que não é verdade. Em Portugal, segundo dados estatísticos, existiam 627 mulheres presas (5,4%) em 2010. Em 2017 este número sobe para 872 (6,3%), o que revela um aumento de 28% de mulheres presas. Por comparação, ao nível europeu, enquanto que em 2015, em Portugal, as mulheres presas correspondiam a 6,1% do total da população prisional, a média europeia era de 5,3%. Já as mulheres de cidadania estrangeira presas em Portugal, no mesmo ano, representavam 26,6% do total das mulheres presas, enquanto que a média europeia era de 20,4%.

    A volatilidade do sistema jurídico-penal passa pela definição dos crimes, o que é tudo menos um sistema natural, antes construído para e pelos grupos de poder e segundo os interesses políticos e económicos dos governos. A definição de crime é, então, política e subjetiva, sendo ilustrativo o exemplo dado do aborto que, até 2007, estava previsto como crime e foi desde então descriminalizado até às 12 semanas. Embora muitas mulheres tenham sido punidas e presas por abortarem, não foram perseguidas e presas todas as mulheres que o praticaram, até pela incapacidade do sistema penal e prisional em fazê-lo, já que é uma prática comum no percurso de vida de muitas mulheres. O mesmo aconteceu com a despenalização do consumo de drogas que, apesar de ser praticado por uma larga percentagem da população, levou e leva apenas uma franja do tecido social ao sistema de justiça e às prisões.

    Daqui decorre a desigualdade na aplicação da lei: as penas e as condenações não são iguais para todas as pessoas. Tal como o acesso à saúde ou a proteção na infância não são iguais para todas, o acesso à justiça também não o é. Por exemplo, no acesso à defesa parte-se do pressuposto jurídico de que estamos todas em igualdade de circunstância perante o sistema de justiça, o que é falso. Quem não tem recursos económicos, para além de não poder ser ela própria autora da sua defesa (porque o sistema em Portugal não o permite), tem de recorrer à advocacia oficiosa. Em média, uma advogada oficiosa recebe 200 euros por processo, valor esse que tem de suportar as despesas de deslocação (podem ser-lhes atribuídos casos em diferentes regiões do país) e independentemente do tempo de resolução do processo – que pode arrastar-se ao longo de vários anos. Sob estas condições, fica comprometido o cumprimento do seu papel de defesa nos processos que lhes são entregues. Por outras palavras, quem não tem recursos para pagar a sua defesa pode estar condenada logo à partida. Porém, isto não deve ser considerado como um mero acaso ou fruto da desorganização do sistema jurídico, mas sim como um requisito fundamental para o funcionamento do sistema político-legal, como crucial para a manutenção da ordem política e económica e para a respetiva legitimação do poder através da naturalização das desigualdades, culpabilizando determinados sujeitos e (re)criando bodes expiatórios alvo de retaliação por parte do Estado.

    No concernente aos usos políticos da prisão foi, ainda, discutido o fato de o Estado português ter sido já consecutivamente condenado pelo Tribunal dos Direitos Humanos (20 vezes entre 2005 e 2015) devido à criminalização e punição da liberdade de expressão, através da aplicação da provisão legal obsoleta sobre a prática de injúria e difamação. Portugal é o único país da Europa que prevê a pena de prisão para casos de difamação e injúria, agravada em 50% se dirigida a um órgão constitucional ou a um magistrado, um advogado ou um funcionário público. A classe política escuda-se da crítica através da censura e punição. Neste âmbito, o representante do Movimento de Libertação da Maria de Lurdes (MLML) afirmou que a pena de Maria de Lurdes teve um agravamento de 2 para 3 anos de prisão efetiva como consequência das alegadas ofensas dirigidas à magistratura. Maria de Lurdes foi condenada por crime de injúria agravada e presa, no Estabelecimento Prisional (EP) de Tires, a 29 de setembro de 2016, para cumprir uma pena de 3 anos. Face a este cenário, o MLML decidiu que a luta do movimento deveria direcionar-se para a abolição desta provisão legal. Segundo o representante do MLML, em conformidade com os dados do Observatório dos Direitos Humanos em Portugal, existem 11 presas políticas, por crime de injúria – 2 mulheres e 9 homens com penas entre os 33 meses e os 57 dias – mas há um grupo muito mais alargado com processos deste género, porque é comum com o crime de difamação acumularem-se outros crimes como injúria agravada, difamação agravada, denúncia caluniosa, ofensa a organismo coletivo e perturbação da ordem constitucional e, assim, existem 168 recursos neste momento.

    O movimento de Mulheres Livres do Curdistão (TJA) participou desta conversa através do envio de um comunicado sobre a situação política na Turquia e Curdistão, a perseguição política, o encarceramento massivo de pessoas pelo regime de Erdogan – principalmente depois da suposta tentativa de golpe de Estado em julho de 2016 -, bem como sobre as condições desumanas a que são sujeitas as pessoas nas prisões turcas. Nas suas palavras, as prisões são instituições de repressão do sistema hegemónico patriarcal capitalista no mundo inteiro. O sistema prisional serve não só para invisiblizar e individualizar as causas dos denominados ou definidos crimes, mas primeiramente assegura o silenciamento da oposição política e resistência social[ref]Pode ler-se o comunicado aqui[/ref].

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    Considerando a estratificação de género e económica, subjacente aos contextos socioculturais heteropatriarcais, colonialistas e capitalistas, as que são criminalizadas e encarceradas são aquelas que atravessam a rota da exclusão, da discriminação, da pobreza e da violência. A maioria dos crimes a que as mulheres são condenadas, no contexto português, está ligada ao tráfico de droga – normalmente pequeno tráfico e retalhista, em muitos casos como estratégia de sobrevivência. Catarina Fróis, na apresentação do seu livro Mulheres Condenadas – Histórias de Dentro da Prisão, falou-nos sobre as mulheres presas em Odemira. A maioria destas mulheres tem trajetórias com contato prévio com instituições, muito prolongado, tais como a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), a Segurança Social e a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens. Portanto, a institucionalização não acontece apenas no momento da prisão. A autora, com este livro, pretende trazer trajetórias de vida que podemos acompanhar e que não se centram só na forma como as pessoas vivem a prisão, mas propõe refletir sobre a prisão de mulheres, mulheres presas e mulheres na prisão – isto porque, em alguns casos, nas suas palavras, a sensação com que nós ficamos é que aquelas mulheres estavam já presas a um ciclo de pobreza, de violência e de exclusão social muito anterior ao momento de encarceramento.

    No entanto, no contexto português, as mulheres enredadas no sistema prisional são invisibilizadas nas reivindicações e intervenção dos movimentos sociais, nomeadamente dos feministas. Nos discursos e intervenções de combate à violência de género as presas continuam a ser excluídas. A experiência da Associação Contra Exclusão pelo Desenvolvimento (ACED), partilhada por Ricardo Loureiro, na denúncia de queixas sobre as prisões portuguesas, destaca 5 casos que envolveram mulheres: a morte de uma mulher em Tires; a preocupação de mães e companheiras de presos sobre uma greve e tensão na prisão; os maus tratos de guardas prisionais contra uma mulher presa em Santa Cruz do Bispo; uma mulher vítima de abuso sexual por parte de uma guarda prisional no momento da revista, e um casal de mulheres castigadas pela sua orientação sexual. Em 2015, a taxa média de mortes nas prisões portuguesas era o dobro da taxa média europeia. A perceção de que as prisões portuguesas são um paraíso esbarra na realidade das queixas e experiência das pessoas presas, familiares e amigos/as.

    Pensar sobre as mulheres e as prisões implica pensar, também, em outras duas dimensões de análise: as mulheres presas e as mulheres que visitam as prisões. As mulheres presas estão sujeitas a violência física (por exemplo, agressões), psicológica, emocional, verbal e sexual, a estigma/preconceito, são discriminadas, sujeitas a represálias e invisibilizadas socialmente. As mulheres que visitam as prisões estão sujeitas ao mesmo tipo de processos, ficando ainda sujeitas a uma terceira jornada diária (trabalho, trabalho doméstico e visitas/preparação de visitas) e vivem em situação de vulnerabilidade económica, ficando muitas vezes sozinhas com crianças a seu cargo. Não podemos esquecer o papel de cuidadoras imposto às mulheres. Quando uma mulher é presa toda a família é penalizada o que, para Aurora Rodrigues, constitui uma questão política. São especialmente penalizadas as crianças, uma vez que as mulheres, além de serem responsabilizadas pelos cuidados, são, também e geralmente, as provedoras de recursos para os núcleos familiares.

    A prisão, diferentemente do imaginário (re)criado pelas estruturas que a gerem e pelos media, é uma instituição central para a (re)organização política e económica, que consome e gera bens e serviços, estando presente nas vidas de uma maioria silenciada. Ela coexiste com as vidas de muitas comunidades, famílias e crianças para quem a prisão é uma realidade quotidiana e comum. As redes familiares e reclusão foram mote para uma roda de conversa animada por Sofia Freitas, da rede Children of Prisoners in Europe, e por Carla Mendes, do Projeto Trampolim, em Coimbra. O Projeto Trampolim E6G, apoiado pela Câmara Municipal de Coimbra, centra a sua ação na ocupação de tempos livres e na prevenção dos comportamentos de risco de crianças e jovens, e tem como objetivo geral a inclusão social e a promoção da igualdade de oportunidades. Das 125 crianças com quem trabalham, atualmente, 34 têm ou tiveram familiares detidos/as (desde março de 2017); 12 já tiveram mãe, pai ou ambos detidos; 22 têm mãe, pai ou ambos detidos (2 têm a mãe detida, 3 têm ambos detidos e 17 têm o pai detido), e 13 outros jovens têm familiares diretos detidos. Dos 42 jovens (menores de idade), 2 têm ou tiveram mãe, pai ou ambos detidos, e 3 foram ou ainda estão detidos.

    Os territórios de intervenção do projeto são o Bairro do Ingote, Bairro da Rosa e Centro de Estágio Habitacional do Campo do Bolão (para famílias de etnia cigana). Os dois primeiros são bairros sociais muito associados ao tráfico de droga, onde acontecem muitas detenções e rusgas. As rusgas, as detenções e as visitas à prisão afetam emocionalmente as crianças, verificando-se alterações da rotina. Durante a semana e em período escolar é necessário faltar às aulas para poderem visitar a família presa; o fim-de-semana é passado em deslocações e visitas na prisão e, nos casos em que a pessoa presa é a mãe, implica uma deslocação acrescida de Coimbra para o Porto (Santa Cruz do Bispo) e/ou Lisboa (Tires). A prisão gera, também, uma responsabilização dos/as irmãos/ãs mais velhos/as que muitas vezes assumem as responsabilidades sobre aqueles mais novos/as, o que revela impactos ao nível do rendimento escolar. Como consequências geradas pela prisão, destaca-se a diminuição da vinculação emocional com o/a parente detido/a, a instabilidade emocional (tristeza, revolta, depressão), o impacto na escola (comportamentos agressivos, opressores), os oprimidos que se tornam opressores, a dificuldade de expressão emocional/sentimental, aumento das reações agressivas e impulsivas, os comportamentos de risco (furto, consumos e agressão), são maior suscetibilidade a discriminação na escola e a baixo rendimento escolar.

    Um estudo realizado pelo projeto destacou que as crianças/jovens revelaram muita ansiedade e nervosismo no momento antecedente à visita, e tristeza no momento da despedida. Por outro lado, as mães revelaram ansiedade antes da visita, culpabilização pela situação, tristeza na despedida, a consciência do impacto das despesas associadas à visita (deslocação, bens…), bem como a perda do crescimento dos/as filhos/as. Face a um quadro social e emocional frágil, os/as crianças e jovens sofrem, igualmente, os efeitos da prisão, pelo que a importância de projetos deste género calcula-se a partir de uma mediação familiar e escolar, bem como pelo apoio psicológico prestado aos/às jovens, e a soma destas intervenções traduz-se na tentativa de desviar estes/as jovens da rota da exclusão.

    Sobre o encarceramento e institucionalização de crianças e jovens referimos que, contrariamente ao estabelecido por lei, há em Portugal vários casos de jovens com menos de 21 anos a cumprir penas em prisões para adultos. Mais ainda, um número considerável de menores encontra-se a cumprir medidas tutelares educativas em instituições. Em Portugal, mais de metade da população prisional é constituída por pessoas que, desde crianças, passaram por várias instituições estatais tais como centros educativos, instituições de acolhimento e, finalmente, prisões.

    Sofia Freitas, da rede Children of Prisoners in Europe, revelou-nos que atualmente existem, na Europa, cerca de 1 milhão de crianças com pai e/ou mãe presos, e que estas crianças estão sujeitas a processos de estigma (por exemplo, ao nível do preenchimento da ficha escolar), isolamento social, vergonha e medo. O estigma social não permite que estas crianças tenham voz para falarem sobre o que sentem e/ou procurarem apoio. As detenções, as rusgas e o facto de as crianças assistirem a estas situações, muitas das vezes com violência por parte da polícia, são geradoras de impactos negativos, nomeadamente ao nível escolar e comportamental. Referiu também a 3ª jornada das mulheres com familiares presos/as, apresentando um caso que acompanhou de uma mulher que tinha diversos familiares presos e era mãe solteira, sendo a única pessoa que assegurava toda a dinâmica no exterior.

    Da investigação, evidenciou que as relações familiares construtivas melhoram a qualidade de vida das crianças. Sugeriu que o Centro de Apoio Familiar e Apoio Parental (CAFAP) pode ser um serviço que deve responder e apoiar estas famílias, e que é preciso repensar a manutenção das relações familiares nas situações de reclusão. Por outro lado, os laços familiares permitem contribuir para a redução da reincidência. Recomenda a promoção dos direitos das crianças com mãe e/ou pai em prisão, direitos estes que têm sido invisibilizados; a realização de sessões sobre este tema em particular; a formação de diversos agentes (educação, justiça, polícias, saúde…), e a criação de visitas familiares. No seguimento desta roda de conversa foi projetado o documentário Anti-Mulleres. Existir Mal, que nos mostra o movimento galego Nais Contra a Impunidad, constituído por mulheres que têm ou tiveram filhas/os presas/os, e que se insurgem denunciando a repressão, a tortura e a impunidade do sistema prisional no Estado espanhol.

    Estas jornadas não poderiam neglicenciar a vertente da ação coletiva de combate e de resistência às prisões e, por isso, foram convidados movimentos associativos do Brasil (Pastoral Carcerária Nacional e Elas Existem – Mulheres Encarceradas) e País Basco (Salhaketa), para trocarem as suas experiências de modo a proporcionar aprendizagens, uma vez que a dinâmica de oposição às prisões é praticamente inexistente em Portugal. Uma linha transversal atravessou as três exposições: as prisões são feitas por e para homens, pelo que daí resulta um agravamento da experiência da reclusão para as mulheres. Estes três coletivos unem-se pela política de exposição e denúncia – jurídica e pública – de violações à integridade das mulheres encarceradas, posicionamento este que, tal como referido por Petra (Pastoral Carcerária brasileira), é incompatível com a lógica prisional. Daí resulta, por um lado, a restrição de acesso às prisões de ações desta tipologia e, por outro, a manutenção de movimentos (religiosos, de voluntariado) dentro das prisões que veiculam o discurso institucional. Se na realidade portuguesa isto também se verifica, o contributo da Salhaketa (País Basco) permitiu-nos pensar na necessidade de apoiar, de trabalhar igualmente com as pessoas que também sofrem as consequências do encarceramento, nomeadamente os familiares.

    Por fim, apresentamos algumas conclusões retiradas destas jornadas. É crucial pensarmos que a retaliação exercida pelo Estado numa condenação pelo sistema penal tem, na sua base, o mesmo sentimento de retaliação exercida na exclusão e discriminação diariamente performatizadas. Esta é uma ideia base, fundamental, para haver uma real ação de subversão e de transformação política em que todas nos responsabilizamos, o que implica a compreensão dos mecanismos que reforçam e reproduzem este sistema social punitivo e a lógica prisional.

    Também ficou claro que a estratégia passa por tornar as pessoas diretamente afetadas pelo sistema prisional as protagonistas da ação sobre as prisões, ao invés de serem apenas objeto das formas de assistencialismo. Assim, defendemos maiores recursos para a autonomização das pessoas na defesa dos seus direitos e na construção das nossas vidas. Consequentemente, isto implica uma responsabilização realmente coletiva e individual para a construção de sistemas de justiça equitativos que desmantelem a lógica punitiva.

    Esta dinâmica de transformação convida, igualmente, a ouvir e a atuar conjuntamente com as/os profissionais que diretamente trabalham com as pessoas vulnerabilizadas e condicionadas à rota prisional, pese embora a sua prática ser limitada por vários constrangimentos institucionais. Este argumento é corroborado pelo facto de o sistema prisional não poder ser entendido isoladamente, uma vez que, tal como já foi referido, mais de metade das pessoas presas têm percursos de institucionalização desde crianças. Neste sentido, é crucial desenvolverem-se estratégias de comunicação e pedagogia em espaços comuns de entendimento e de partilha de aprendizagens entre todas: presas, familiares e pessoas relativas, ativistas, investigadoras e profissionais sociais, do direito, entre outras. Estratégias estas fundamentais para que se criem e desenvolvam ferramentas e recursos realmente eficazes para a desconstrução do paradigma penal hierárquico-punitivo e, consequentemente, para a construção de sociedades sem prisões.

    Coletivo Organizador das Jornadas


    A Associação Rosa Imunda acolheu um jantar-benefit para as Jornadas
    As Prisões e as Mulheres, ao qual se seguiu a apresentação do livro Mulheres Guerreiras – A caminho da liberdade, bem como um debate em torno das questões levantadas pelo encarceramento de mulheres. O livro é um dos resultados do projeto PoeZine – oficina de poesia experimental e fanzine, desenvolvido no Estabelecimento Prisional (EP) Feminino de Santa Cruz do Bispo, e subdivide-se na fanzine escrita pelas pessoas privadas da liberdade e num conjunto de textos de pessoas convidadas. Desde logo nos chamou a atenção o fato de as autoras detidas terem sido excluídas do seu lançamento, que ocorreu no mesmo EP aquando de umas jornadas sobre a saúde em meio prisional, aspeto este que, de certa forma, ilustra os “mistérios da fé” de uma parceria público-privada entre o Estado e a Santa Casa da Misericórdia do Porto, para a gestão partilhada desse EP.

    A conversa iniciou-se com as tensões e paradoxos inerentes à forma como se concretizou o projeto, passando à reflexão sobre os projetos artísticos de envolvimento comunitário em contexto prisional. Debateu-se sobre a dificuldade de projetos deste tipo assumirem a sua potência política e artística, porque quase sempre são acanhados intencionalmente pelo poder hierárquico e pervertidos pela instituição e regime vigentes. Isto é, acontece que estes projetos servem, também, para cumprir os objetivos institucionais, mais preocupados com a sua vertente ocupacional e terapêutica do que com o encontro/confronto com as subjetividades das pessoas privadas da liberdade, nomeadamente com a revelação da violência (sistemática e social) a que estão sujeitas. Assim, mina-se a possibilidade destas se colocarem e expressarem como sujeitas desejantes, pensantes e falantes, fora daquilo que seriam as nossas expetativas e projeções.

    A partir deste projeto foi possível refletir sobre o impacto de iniciativas deste género para as pessoas encarceradas, as que as dinamizam e a instituição. Uma análise romântica verá este projeto como um espaço exótico de expressão poética prisional que chega ao exterior, enquanto que um olhar mais crítico não pode descurar os benefícios colhidos pelas dinamizadoras destas iniciativas e pelas instituições. Neste sentido, é significativa a afirmação do dinamizador do PoeZine: o que acontece é que acabamos também por contribuir para a institucionalização pacífica daquelas pessoas num contexto especialmente violento. Por um lado, o exótico reflete-se, também, a partir dos CV’s das dinamizadoras, na medida em que trabalhar nestes contextos proporciona uma sobrevalorização dos seus percursos – benefícios estes altamente assimétricos em comparação com o impacto destas iniciativas na vida das pessoas privadas da liberdade. Por outro lado, salientou-se que através destes projetos não financiados, o Estado se desresponsabiliza parcialmente da sua suposta missão de ressocialização, embora estas instituições acabem por se apropriar destes projetos para veicular a imagem do “bom samaritano”.

    Ocupou grande parte da conversa o dilema com que estes projetos se debatem: por um lado, ao serem potencialmente perversos legitimando o discurso institucional, por outro, ao constituírem uma oportunidade para as pessoas detidas de combaterem os efeitos do encarceramento. Assim, perguntou-se: quais as estratégias que podem subverter a lógica prisional, contribuindo para a problematização da instituição? Na base desta pergunta está a escrita tímida das mulheres sobre o que à partida seria expetável culpa, arrependimento, saudade, família, ao invés de uma crítica desejável ao sistema em si. Aspeto este que deve ser entendido à luz do contexto do projeto mas, por outro lado, note-se que o fato de os seus textos terem extrapolado os muros permite-nos questionar, no limite, toda a rota da exclusão, na qual a prisão é um instrumento crucial. Ou seja, mesmo que a disseminação desta zine tenha sido limitada (e é interessante questionar porquê), e apesar de a maioria dos textos das reclusas serem “simples”, é importante realçar o seu papel na diminuição da distância entre o dentro e o fora ao permitirem, quando atingem o exterior, a reflexão e problematização do sistema prisional.

    Por último, destaca-se a diferença física entre a obra Mulheres Guerreiras – A Caminho da Liberdade e a zine (das reclusas), por contraste fotocopiada num caderno, cuidadosamente editada digitalmente, com textos de pessoas externas mais ou menos ligadas às temáticas suscitadas pela zine. Desigualdade esta que aponta para um desequilíbrio da relação de forças, acabando por reproduzi-las, e que, infelizmente, não é assumida nem criticada nas notas de apresentação do coordenador do projeto. Os lugares de privilégio e opressão em que cada dimensão está dão-se simplesmente como naturais.

     

    Huma e Lindorfo