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  • Há que violentar o sistema

    Há que violentar o sistema

    Passavam apenas quatro anos da Revolução de Abril de 1974, e já havia quem quisesse mandar tudo abaixo. Em 1978, na primeira gravação Punk feita em Portugal, os Aqui D’el Rock lançavam o mote para violentar o sistema, «a coisa (…) que de tanto mudar continua igual» (in Há que violentar o sistema). Fundados num dos territórios mais miseráveis da cidade de Lisboa, o Bairro do Relógio, conhecido como Bairro do «Cambodja», os Aqui D’el Rock usavam a música para anunciar que, para muita gente, pouca coisa tinha mudado. Para além da persistência da pobreza, do desemprego e do tédio quotidiano, as possibilidades abertas pela revolução esbarravam no conservadorismo dos costumes. Mesmo a música, tão importante para a revolução e para o período que se lhe seguiu, insistia em continuar virada para dentro e indiferente às rupturas estéticas que explodiam noutros países. As formas de expressão cultural toleradas e domesticadas pelo regime ditatorial deram lugar a outro cânone, dominado pela música de intervenção e mais interessado em celebrar um certo povo e tradição do que em desbravar novos caminhos. Reflexo disso era a opinião de Zeca Afonso que, anos antes, criticava aqueles que importavam «música fabricada na Europa e na América» e considerava o Ié-Ié (o nome dado ao Rock em Portugal) um «ritual do chinfrim», «a expressão de um processo de decadência de uma sociedade» e «destituído de valores intelectuais».

    Mais do que a pretensão de chocar os papás e os vizinhos, ou fazer carreira artística, a intenção era “violentar o sistema” pós-revolucionário que fazia do presente e do futuro uma miragem de promessas.

    A democracia só lentamente se foi fazendo sentir na criação musical, especialmente nas áreas urbanas. Os instrumentos, e o tempo para aprender a dominá-los, eram um luxo acessível a poucos. E no Rock que se fazia em Portugal nos anos 70 predominavam as marcas de um certo elitismo que celebrava o virtuosismo. O próprio Punk desenvolve-se em Portugal pela mão dos «meninos-bem» da Avenida de Roma. É neste cenário que surge uma «pedrada no charco» chamada Aqui D’el Rock, tão distante dos «amanhãs que cantam» da revolução como do conforto da burguesia lisboeta. Contra o «sistema que nos querem meter pelos cornos abaixo» e contra um socialismo que não passava de uma «reformulação do sistema capitalista» (in Rock em Portugal, Maio/ Junho de 1978), Zé Serra (bateria), Fernando Gonçalves (baixo), Alfredo Pereira (guitarra) e Óscar Martins (guitarra e voz) pegavam em instrumentos em elevado estado de degradação, ou fabricados pelos próprios, e estreavam-se nos palcos em Abril de 1978. No mesmo ano gravavam o single Há que violentar o sistema, com o Lado B ocupado pela música Quero tudo, onde o vocalista Óscar cantava «sem vontade nem futuro». Em 1979, saía o segundo e último single da banda, Eu não sei. A capa já denunciava o desvio para a New Wave que se concretizaria pouco depois, com um grafismo mais colorido e o nome da banda em néon, mas a música era ainda mais imediata e directa do que no registo de estreia. Nas letras mantinha-se a mesma atitude: Eu não sei prometia «não deixar nenhum símbolo de pé» e em Dedicada (A quem nos rouba) a mensagem disparava «para quem nos rouba/ a quem nos rouba/ morre, morre se puderes/ morres, se um dia vier». Em 1981, em parte para escapar do estigma Punk, os Aqui D’el Rock davam lugar aos Mau-Mau e adoptavam uma sonoridade mais polida, desaparecendo definitivamente pouco tempo depois.

    Tudo isto seria suficiente para celebrar a recente reedição destes singles, em formato LP, pela Zerowork Records – edição a que se junta um poster desdobrável com um texto do fundador Zé Serra, fotos ao vivo, a lista de todos os concertos da banda, uma das primeiras entrevistas que deram e, como não podia deixar de ser, as letras. Mas há mais motivos para aplaudir o gesto da Zerowork. Desde logo, porque o lugar dos Aqui D’el Rock na história da música portuguesa nem sempre mereceu o destaque devido. O seu lugar no panteão do Punk em Portugal é incontestável, mas a sua importância dilui-se na de outras bandas surgidas em simultâneo, e sem registos sonoros, como os Faíscas e os Minas & Armadilhas, cujos membros fizeram posteriormente carreira artística (p. ex. Pedro Ayres Magalhães) ou afirmaram com maior destaque a sua voz no espaço público (p. ex. Paulo Borges). Não fossem estes dois singles e, provavelmente, os Aqui D’el Rock ocupariam uma nota de rodapé ainda mais discreta. Pelo estatuto marginal que tinham na «movida» artística lisboeta então em ascensão, os betinhos da Avenida de Roma viam os Aqui D’el Rock, já na altura, como oportunistas, e, posteriormente, procurando firmar o seu pioneirismo, nunca deixaram de relativizar o estatuto Punk da banda do Bairro do «Cambodja». Para Rui Pregal da Cunha (Heróis do Mar, LX 90), o Punk nem tinha grande nexo num país recém-saído de uma revolução; era uma moda importada que rapidamente viria dar lugar a outra, tal como o percurso destes ilustres pioneiros demonstrava. Os Aqui D’el Rock, contudo, não foram atraídos para o Punk pelo aparato estético do estilo. Sem posses para viajar para os epicentros dos acontecimentos que abalavam a Europa ou para adquirir as novidades discográficas, o Punk dos Aqui D’el Rock não se afirmava pelas roupas certas e pelos alfinetes espetados na cara. Mais do que a pretensão de chocar os papás e os vizinhos ou fazer carreira artística, a intenção era «violentar o sistema» pós-revolucionário que fazia do presente e do futuro uma miragem de promessas. O guião, construíam-no eles próprios, conjugando a realidade que conheciam com os rumores dispersos que chegavam a este país à beira mar plantado.

    Reafirmar o lugar dos Aqui D’el Rock na história do Punk em Portugal, tal como o faz a edição da Zerowork Records, é confrontar uma memória elitista da cultura portuguesa.

     


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #32, Outubro|Dezembro 2021.

  • Hiroshima Palastina

    Hiroshima Palastina

    Uma das formas mais eficazes para não ter de tomar posição sobre um assunto é descartá-lo através da fórmula «é uma situação complexa» (como se houvesse alguma coisa simples). Israel devia ter essas palavras escritas na bandeira, tantas são as vezes que servem para relativizar o projecto colonial, o regime de apartheid e a limpeza étnica do povo palestiniano por que são responsáveis há décadas. A complexidade desta «situação» particular é adensada por factores emocionais e históricos. Não há como não sentir um misto de perplexidade e de desconforto ao ver o Estado de Israel repetir os mesmos actos que vitimaram o povo judeu ao longo de séculos e séculos de perseguição. E não há como não recordar que o holocausto foi feito mesmo à nossa porta e com a nossa conivência. Foi ontem e os seus fantasmas ainda convivem nas fotos e nas memórias de muitas famílias.

    Para além destes complexos de culpa, na tolerância ocidental escondem-se, ainda, com pouca discrição, os mesmos preconceitos e mecanismos de que se fizeram muitos genocídios. O racismo e os processos de construção da identidade que insistem em estabelecer uma diferença entre um «nós» e um «eles» continuam a alimentar comunidades. E a legitimação dos actos mais perversos por via de processos de «racionalização» sinistros não desapareceram. Israel, ainda por cima, parece-se «connosco». É vista como um bastião de democracia num mar de fundamentalismos. Participa na Eurovisão e nas competições desportivas europeias, tem gente jovem e progressista e é um paraíso queer e vegan. Podia muito bem ser na Europa. No fundo, o que torna a «situação complexa» e faz de Israel um país melhor do que os «outros» é – parafraseando os punks israelitas Dir Yassin – «pedir desculpa quando mata inocentes»; é os seus «soldados terem olhos azuis e escreverem poesia»; é usar tecnologia militar avançada e não ter esconderijos nem recorrer a pedras, mísseis toscos e bombistas suicidas (in “All our planes have returned safely”).

    Talvez ajude deixarmos de nos deslumbrar com alegadas afinidades «identitárias» e largar a insistência em confundir a história do povo judaico com o Estado de Israel. O assunto perde parte da sua complexidade se recusarmos cair na armadilha da «culpa» e da «vergonha» que tantas vezes serve os interesses dos mais poderosos. E é de poder que se trata. Episódios como esses fazem parte de um mesmo contínuo irredutível a religiões ou culturas: fazem parte de uma história de poder. Só a presença de forças mais insidiosas permite compreender que aqueles que ainda têm visíveis as feridas de um passado recente possam fazer do holocausto que as provocou um pechisbeque, como alguém dizia na televisão há dias. Nenhum Yom HaShoah (Dia da Memória do Holocausto) evitará que o passado se repita enquanto não forem destruídas as estruturas e os mitos que sustêm a persistência das formas de dominação e de autoridade que alimentaram os actos mais tenebrosos da história da humanidade.

    AkrabutPosto isto, é possível compreender que quem vive num Estado militar e seja doutrinado no ódio para com o vizinho desde que nasce possa acreditar que reside num Oásis protegido por um muro. O que não é tão compreensível é que os cidadãos do «mundo ocidental» dito democrático dêem as cambalhotas mais espalhafatosas para justificar cada crime cometido por Israel. Especialmente quando, há décadas, nos chegam vozes do território israelita que não demonstram a mesma tolerância com o governo do sítio onde vivem e nasceram. Foi, aliás, na cena punk-hardcore israelita que se concentraram algumas das expressões mais dissonantes. Particularmente pujante nos anos 90, dela jorraram palavras e acções que poucos no Ocidente se atrevem a pronunciar com medo de serem rapidamente estigmatizados e apodados de «anti-semitas». A banda que mais terá contribuído para a explosão da cena punk-hardcore israelita foi Nekhei Na’atza, surgida na primeira metade da década de 90 e movida por um profundo desprezo por um Estado fundado na religião e no militarismo (o primeiro EP, editado 1994, intitulava-se Renounce Judaism). Em 1997, tornar-se-ia a primeira banda punk a lançar um LP em Israel, Hail the New Regime. Na capa, o então recém-nomeado primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, o mesmo que anos depois voltaria a ocupar o cargo e nele permanece até aos nossos dias, aparecia a fazer uma saudação romana. Um dos legados mais importantes de Nekhei Na’atza foi a influência que teve na renúncia e na deserção do serviço militar obrigatório por uma parte da juventude israelita que circulava no meio underground, o que a tornou um alvo frequente das autoridades. Das suas cinzas surgiriam os já referidos Dir Yassin, banda que viria a alcançar maior projecção internacional. Formada em 1997, fez de cada uma das suas músicas a garantia de que não soariam apenas «músicas calmas e bonitas» enquanto as bombas continuassem a cair (in “Brotherly Mass Grave”). Na denúncia destemida da ocupação da Palestina pelo Estado Israelita não hesitavam em usar a palavra «genocídio» e em denunciar o «complexo do holocausto» como uma desculpa (in “Independence Day”).

    Foi na cena punk-hardcore israelita que se concentraram algumas das expressões mais dissonantes.

    Nos dias que correm a virulência da «cena» punk israelita parece ter esmorecido. Para isso terá contribuído o crescimento da extrema-direita na sociedade e no Estado israelitas e uma dinâmica demográfica em que muitos dos seus integrantes emigraram para fugir ao serviço militar, para além de um número maior de imigrantes entrou no país em busca da «terra prometida». Para Federico Gomez, vocalista dos Nekhei Na’atza, a sociedade israelita é hoje mais intolerante e racista do que era nos anos 90. Como consequência, a crítica à ocupação da Palestina tornou-se mais dissimulada e a mensagem mais críptica e focada na vida dentro do Estado de Israel. Algumas das excepções podem ser encontradas na compilação Standing Together Against Annexation, que foi lançada em 2020 e reúne 38 bandas de punk israelitas, na sua maioria com letras em hebraico. Entre elas encontramos nomes como Akrabut, Kids Insane (que já tocaram em Portugal), Useless ID, Deaf Chonky e MooM. No geral, confirmam-se as referências menos directas à ocupação e as críticas dirigem-se mais para a «doutrina do medo» e para a «cultura de violência» de um Estado militar. Mas em bandas como os Akrabut, na música “Hiroshima Palastina” (também nome do EP que lançaram em 2018), encontramos preservada a intransigência dos anos 90. Há pouco, em plena ofensiva israelita, deixavam nas redes sociais uma pequena frase: «ninguém viverá em paz enquanto a Palestina não for livre». O que nos recorda que os bombardeamentos podem ter parado entretanto, mas a paz continua a ser uma miragem.

    Bandas e compilações como estas podem parecer pouco mais do que pedras lançadas a tanques. Mas, para além do impacto que têm no próprio contexto asfixiante em que existem, recordam-nos que o Estado de Israel nunca agradou sequer a muitos daqueles que pretende representar. Para os mais púdicos, talvez ajude a classificar aquilo que fazem nos termos adequados e que de complexo tem pouco:«“limpeza étnica», «colonização» e «apartheid». Libertem a Palestina!

     


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #31, Julho|Setembro 2021.


    #palestina #apartheid #nekheina’atza #diryassin #punk #Israel #música #punk-hardcore #mapa31

     

  • Hardcore e pirataria

    Hardcore e pirataria

    A propósito de uma compilação-benefit para o capítulo português da Sea Shepherd, editado pela Believe Hardcore[ref] facebook.com/believehcdistro[/ref] , que reúne vinte bandas da cena punk-hardcore nacional.

    O território cinge-se cada vez mais ao propósito de servir a circulação de mercadorias. E é apenas enquanto mercadoria que também nós encontramos a liberdade para nos movermos dentro das suas barreiras.

    Pouco nos resta para lá do movimento que nos leva entre a habitação e o trabalho ou entre a habitação e o centro comercial. Esse parece ser o principal significado de estar confinado: liberdade para só circular entre espaços privatizados. Acabou o espaço público. O espaço público é uma app. Quando chegar o recolher obrigatório, até as ruas ou bairros das nossas habitações serão pouco mais do que paisagem. Só restarão as paredes que nos cercam. E é nessa prisão que vemos a escassez abater-se sobre nós. Vemo-nos cada vez mais esvaziados para que aqueles que sempre se encheram de nós possam continuar a fazê-lo; e com cada vez menos obstáculos. O futuro parece não reservar muito mais possibilidades senão a de nos tornarmos uma espécie de piratas. Deslocações furtivas de um ponto ao outro, provavelmente entre territórios clandestinos e libertados onde o Estado nunca se deu bem; raids estratégicos a tudo aquilo de que nos desapossaram e a tudo aquilo que se apossou dos nossos lugares, movendo-se e ocupando as ruas que nos vedaram: é esse o horizonte que já se avista, apesar de ainda não ouvirmos as sirenes para recolher e os corpos policiais e militares ainda não terem a exclusividade de caminhar pelas ruas.

    compilacao

    Felizmente os piratas nunca deixaram de existir. E alguns permaneceram em alto mar, em desafio constante dos limites territoriais e dos fluxos de produção e distribuição de mercadorias. Foi o caso da Sea Shepherd Conservation Society (SSCS). Fundada em 1977, pelo Capitão Paul Watson, co-fundador e dissidente da Greenpeace, a SSCS tomou como missão impedir a destruição dos oceanos e do ambiente pela acção directa. O respeito incondicional pelas convenções legais e políticas, as campanhas de marketing e a espectacularidade circense seguidas pela generalidade das organizações ambientais, como aquela que Paul Watson ajudou a fundar e veio a renegar, eram demasiado estreitos para responder à urgência de evitar um mundo em colapso. Mesmo quando actuou contra práticas punidas por leis internacionais, a SSCS foi alvo de perseguições por parte de vários Estados, entre eles o norte-americano e o japonês, frequentemente sob a acusação de ecoterrorismo (uma daquelas ironias: para o Estado é terrorista ecológico quem procura impedir a destruição ambiental e não quem o destrói). Em 2019, fundou-se em Portugal um capítulo desta organização, com o propósito principal de desenvolver, em território nacional, acções de consciencialização contra determinadas práticas e promover algumas actividades de defesa ambiental.

    Felizmente os piratas nunca deixaram de existir. E alguns permaneceram em alto mar, em desafio constante dos limites territoriais e dos fluxos de produção e distribuição de mercadorias.

    Vem isto a propósito de uma compilação-benefit para o capítulo português da Sea Shepherd, editado pela Believe Hardcore, que reúne vinte bandas da cena punk-hardcore nacional. Chega vinte e três anos depois do mítico Split-CD dos portugueses X-Acto e dos norte-americanos Ignite, também a reverter para a SSCS. Esta edição reúne veteranos (como os New Winds, Simbiose e For the Glory) e projectos mais recentes (Cicatriz, Dead End ou Fonte), sonoridades oldschool, new school e post-hardcore ou até o hip-hop vegan straight edge de GAEA. Só por dar conta da diversidade da «cena» portuguesa, a que muitos se dedicam a escrever obituários todos os anos, a compilação já merecia a atenção de todos os apreciadores do género. Mas ser um benefit, com todo o dinheiro a reverter para a SSCS, dá-lhe o significado que muitas vezes falta ao cliché associado ao punk-hardcore: mais do que música.

    Esta edição saiu numa altura em que também a cultura se viu confinada. Aqueles que não se importaram com a sua industrialização, vêem-se agora enredados nas dificuldades de escoar comercialmente uma mercadoria incapaz de saciar a ganância voraz daqueles a quem o medo e a saúde pública se mostram mais capazes de fazer crescer o seu poder e os seus monopólios. Pelo caminho lixaram-se também aqueles que nunca confundiram cultura com uma prateleira do supermercado, recusando-se a reduzi-la a uma actividade de lazer ou de entretenimento, mas que, independentemente disso, tinham que pagar as contas. Restam aqueles que nunca reservaram uma linha da sua folha de Excel para a cultura. E são esses que nos dão esta compilação. Não são melhores nem piores, mas são quem há mais tempo conhece as artes da sedição e da marginalidade de que em breve necessitaremos. Como os piratas de outros tempos, ajudarão a desviar a cultura (seja sob que forma for) dos caminhos em que querem encerrá-la e não permitirão que se torne uma mercadoria de luxo para aqueles a quem o actual estado de coisas melhor serve.

     


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #29, Dezembro 2020|Fevereiro 2021.


    #acçãodirecta #BelieveHardcore #benefit #compilacao #mapa29 #punk #seashepherd #piratas

     

  • Histórias impossíveis

    Histórias impossíveis

    “(…)não é possível escrever uma história do punk, mas é certamente possível escrever muitas histórias do punk. Diria que tantas quantas quem decide escrevê-las ou tantas quantas as experiências individuais de quem o vive ou viveu”

    Será possível escrever uma história do punk? E será que faz falta a alguém? Há uns números atrás abri as páginas do livro As Palavras do Punk nesta crónica, livro esse que partindo da sociologia oferece um retrato histórico do punk e do hardcore em Portugal. Como se viu pela crónica passada, não tive grande coisa de positivo para dizer sobre a referida obra. Mas, para arrumar o assunto, fique claro que o fracasso do livro não tem nada que ver com o esforço, a intenção e a paixão que a autora Paula Guerra dedica ao tema. Tem sim que ver, acima de tudo, com o caminho escolhido para dar um sentido afirmativo à pergunta que abre este texto. Em poucas palavras, e para não me repetir, o subtítulo promete “uma viagem fora dos trilhos pelo Portugal contemporâneo” e o que nos oferece é um punk arrastado para dentro dos trilhos mais calcorreados e gastos quer da historiografia portuguesa quer de algum discurso sociológico, deixando-nos, no fim, um punk calçado com uns ténis imaculados e umas solas impecáveis, sem o mais leve indício de ter percorrido qualquer caminho. Um punk inofensivo e desinteressante, pouco mais do que uma identidade juvenil, em que dificilmente se reconhece a repulsa, o desconforto, o entusiasmo, a novidade, em suma, a intensidade sentida por muitos daqueles que com ele se cruzaram e vão cruzando.

    As respostas breves às perguntas iniciais são não e não. A história do punk interessa a quem o viveu acima de tudo como memorabilia, como viagem para satisfazer um certo vazio nostálgico, e dificilmente pode ser feita sem cristalizar o seu dinamismo e heterogeneidade. Mesmo as tendências mais disruptivas – e, talvez, especialmente estas – dão excelentes mercadorias e mostram-se muito atractivas a quem lhes pretende colocar uma trela. Não que isto seja uma razão para deixar de escrever tal história. Afinal, não há fuga possível num mundo em que até um balde de merda pode ser posto à venda no ebay. O interesse em escrever tal história existe, também por isso, como resposta a essas cristalizações e a apropriações por gente alheia que se interessa pelo «exotismo» do punk mas que não tem outra forma de agarrá-lo senão à martelada. Trocando isto por miúdos, e correndo o risco de ser apelidado de aldrabão, não é possível escrever uma história do punk, mas é certamente possível escrever muitas histórias do punk. Diria que tantas quantas quem decide escrevê-las ou tantas quantas as experiências individuais de quem o vive ou viveu. E há formas de fazê-lo sem transformá-lo numa borboleta amestrada. O livro duplo Corta-e-Cola: Discos e Histórias do PUNK em Portugal, escrito por Afonso Cortez, e Punk Comix: Banda Desenhada e Punk em Portugal, do Marcos Farrajota, editado em formato split pela Chili Com Carne (2017), oferece-nos, nem mais nem menos, duas histórias impossíveis do punk em Portugal, ambas profusamente ilustradas. Tanto uma como a outra abraçam com sucesso essa impossibilidade e fazem-no a partir de perspectivas e com fins completamente distintos.

    A metade do livro que responde mais directamente àqueles que se renderam à beleza do morto e passaram a ostentá-lo na lapela, dando ao punk ares de glória e reclamando-o como medalha num currículo feito às suas avessas, é Corta-e-Cola do Afonso Cortez. Responde às sedações académicas e identitárias que lhe vão sendo administradas recusando defini-lo e procurando-o, antes, «na voz de quem lá esteve». Usa as capas dos discos editados em Portugal, entre 1977 e 1998, com o seu mau gosto, ousadia ou provocação, para espreitar essa coisa contraditória, fragmentada e em «em permanente mutação» (p. 15) a que chamamos punk. O livro não pretende ser senão isso. Tendo sido em muito maior número as bandas que nunca deixaram qualquer registo, e indo o punk muito para lá quer da sua cultura material quer da música, todas as outras histórias ficam por escrever. Mas, como nos mostra o Afonso Cortez, pegar nesse pormenor da experiência do punk permite-nos abordar a enorme quantidade de vivências que coexistiram ou aconteceram ao longo deste período e reclamaram a mesma designação – mesmo quando elas foram diferentes ou inconciliáveis ao ponto de parecer não haver outra possibilidade de diálogo senão aos gritos ou à pancada.

    Marcos Farrajota, em Punk Comix, pega a coisa de forma ainda mais estrambólica e faz jus como ninguém à ideia de «história impossível». A banda desenhada será, provavelmente, algo tão bizarro quanto o punk para historiar ou dissecar como se fosse um rato num laboratório. E, por isso, o punk serve perfeitamente o propósito de passear pelo percurso da BD portuguesa e espreitar o que esta conta sobre aquele. Digamos que narrar tal relação quase inexistente só é exequível pela fluidez e indomabilidade dos dois, o que lhe permite procurar e esmiuçar não só as representações do punk nas tiras por cá publicadas, mas, acima de tudo, as hipotéticas contaminações mútuas, nomeadamente pelo espírito DIY, independente e até algo marginal que caracteriza muitas das suas expressões. O livro lê-se tão bem que o seu propósito é cumprido com distinção: «ser lido tão rapidamente como se ouve um LP dos Ramones». E cumpre ainda outra coisa assinalável: o de ser, muito provavelmente, o primeiro trabalho de teor historiográfico a citar o Jornal Mapa, reconhecendo-lhe, justamente, um lugar na história (infelizmente, não consigo indicar o lugar da citação porque esta metade do livro não está numerada, mas confiem em mim).

    Ambos os livros valem por si só, mas não deixam de ser formas de resistir aos usos oportunistas e soporíferos que se vão fazendo do punk. Seja como for, nem tudo é sobre resistência. Às vezes o prazer distrativo de uma boa leitura é suficiente. Mesmo que um gajo tenha escolhido como máscara para respirar neste mundo «um ar de guerra permanente com o sistema» (Corta-e-Cola, p. 25), a verdade é que também se cansa e precisa de baixar as armas, deleitando-se somente com estas visitas museológicas e com a exposição em vitrines do que viveu e não pode ser revivido da mesma forma.

    corta e cola

    Corta-e-Cola: Discos e Histórias do PUNK em Portugal (1978-1998)/Punk Comix
    Afonso Cortez e Marcos Farrajota
    Chilli con Carne/Thisco
    2017

     


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #24, Agosto|Outubro 2019.