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Lendo: Hardcore e pirataria

Hardcore e <i>pirataria</i>

Hardcore e pirataria


A propósito de uma compilação-benefit para o capítulo português da Sea Shepherd, editado pela Believe Hardcore 1 , que reúne vinte bandas da cena punk-hardcore nacional.

O território cinge-se cada vez mais ao propósito de servir a circulação de mercadorias. E é apenas enquanto mercadoria que também nós encontramos a liberdade para nos movermos dentro das suas barreiras.

Pouco nos resta para lá do movimento que nos leva entre a habitação e o trabalho ou entre a habitação e o centro comercial. Esse parece ser o principal significado de estar confinado: liberdade para só circular entre espaços privatizados. Acabou o espaço público. O espaço público é uma app. Quando chegar o recolher obrigatório, até as ruas ou bairros das nossas habitações serão pouco mais do que paisagem. Só restarão as paredes que nos cercam. E é nessa prisão que vemos a escassez abater-se sobre nós. Vemo-nos cada vez mais esvaziados para que aqueles que sempre se encheram de nós possam continuar a fazê-lo; e com cada vez menos obstáculos. O futuro parece não reservar muito mais possibilidades senão a de nos tornarmos uma espécie de piratas. Deslocações furtivas de um ponto ao outro, provavelmente entre territórios clandestinos e libertados onde o Estado nunca se deu bem; raids estratégicos a tudo aquilo de que nos desapossaram e a tudo aquilo que se apossou dos nossos lugares, movendo-se e ocupando as ruas que nos vedaram: é esse o horizonte que já se avista, apesar de ainda não ouvirmos as sirenes para recolher e os corpos policiais e militares ainda não terem a exclusividade de caminhar pelas ruas.

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Felizmente os piratas nunca deixaram de existir. E alguns permaneceram em alto mar, em desafio constante dos limites territoriais e dos fluxos de produção e distribuição de mercadorias. Foi o caso da Sea Shepherd Conservation Society (SSCS). Fundada em 1977, pelo Capitão Paul Watson, co-fundador e dissidente da Greenpeace, a SSCS tomou como missão impedir a destruição dos oceanos e do ambiente pela acção directa. O respeito incondicional pelas convenções legais e políticas, as campanhas de marketing e a espectacularidade circense seguidas pela generalidade das organizações ambientais, como aquela que Paul Watson ajudou a fundar e veio a renegar, eram demasiado estreitos para responder à urgência de evitar um mundo em colapso. Mesmo quando actuou contra práticas punidas por leis internacionais, a SSCS foi alvo de perseguições por parte de vários Estados, entre eles o norte-americano e o japonês, frequentemente sob a acusação de ecoterrorismo (uma daquelas ironias: para o Estado é terrorista ecológico quem procura impedir a destruição ambiental e não quem o destrói). Em 2019, fundou-se em Portugal um capítulo desta organização, com o propósito principal de desenvolver, em território nacional, acções de consciencialização contra determinadas práticas e promover algumas actividades de defesa ambiental.

Felizmente os piratas nunca deixaram de existir. E alguns permaneceram em alto mar, em desafio constante dos limites territoriais e dos fluxos de produção e distribuição de mercadorias.

Vem isto a propósito de uma compilação-benefit para o capítulo português da Sea Shepherd, editado pela Believe Hardcore, que reúne vinte bandas da cena punk-hardcore nacional. Chega vinte e três anos depois do mítico Split-CD dos portugueses X-Acto e dos norte-americanos Ignite, também a reverter para a SSCS. Esta edição reúne veteranos (como os New Winds, Simbiose e For the Glory) e projectos mais recentes (Cicatriz, Dead End ou Fonte), sonoridades oldschool, new school e post-hardcore ou até o hip-hop vegan straight edge de GAEA. Só por dar conta da diversidade da «cena» portuguesa, a que muitos se dedicam a escrever obituários todos os anos, a compilação já merecia a atenção de todos os apreciadores do género. Mas ser um benefit, com todo o dinheiro a reverter para a SSCS, dá-lhe o significado que muitas vezes falta ao cliché associado ao punk-hardcore: mais do que música.

Esta edição saiu numa altura em que também a cultura se viu confinada. Aqueles que não se importaram com a sua industrialização, vêem-se agora enredados nas dificuldades de escoar comercialmente uma mercadoria incapaz de saciar a ganância voraz daqueles a quem o medo e a saúde pública se mostram mais capazes de fazer crescer o seu poder e os seus monopólios. Pelo caminho lixaram-se também aqueles que nunca confundiram cultura com uma prateleira do supermercado, recusando-se a reduzi-la a uma actividade de lazer ou de entretenimento, mas que, independentemente disso, tinham que pagar as contas. Restam aqueles que nunca reservaram uma linha da sua folha de Excel para a cultura. E são esses que nos dão esta compilação. Não são melhores nem piores, mas são quem há mais tempo conhece as artes da sedição e da marginalidade de que em breve necessitaremos. Como os piratas de outros tempos, ajudarão a desviar a cultura (seja sob que forma for) dos caminhos em que querem encerrá-la e não permitirão que se torne uma mercadoria de luxo para aqueles a quem o actual estado de coisas melhor serve.

 


Artigo publicado no JornalMapa, edição #29, Dezembro 2020|Fevereiro 2021.


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Written by

Diogo Duarte

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