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Lendo: Histórias impossíveis

Histórias impossíveis

Histórias impossíveis


“(…)não é possível escrever uma história do punk, mas é certamente possível escrever muitas histórias do punk. Diria que tantas quantas quem decide escrevê-las ou tantas quantas as experiências individuais de quem o vive ou viveu”

Será possível escrever uma história do punk? E será que faz falta a alguém? Há uns números atrás abri as páginas do livro As Palavras do Punk nesta crónica, livro esse que partindo da sociologia oferece um retrato histórico do punk e do hardcore em Portugal. Como se viu pela crónica passada, não tive grande coisa de positivo para dizer sobre a referida obra. Mas, para arrumar o assunto, fique claro que o fracasso do livro não tem nada que ver com o esforço, a intenção e a paixão que a autora Paula Guerra dedica ao tema. Tem sim que ver, acima de tudo, com o caminho escolhido para dar um sentido afirmativo à pergunta que abre este texto. Em poucas palavras, e para não me repetir, o subtítulo promete “uma viagem fora dos trilhos pelo Portugal contemporâneo” e o que nos oferece é um punk arrastado para dentro dos trilhos mais calcorreados e gastos quer da historiografia portuguesa quer de algum discurso sociológico, deixando-nos, no fim, um punk calçado com uns ténis imaculados e umas solas impecáveis, sem o mais leve indício de ter percorrido qualquer caminho. Um punk inofensivo e desinteressante, pouco mais do que uma identidade juvenil, em que dificilmente se reconhece a repulsa, o desconforto, o entusiasmo, a novidade, em suma, a intensidade sentida por muitos daqueles que com ele se cruzaram e vão cruzando.

As respostas breves às perguntas iniciais são não e não. A história do punk interessa a quem o viveu acima de tudo como memorabilia, como viagem para satisfazer um certo vazio nostálgico, e dificilmente pode ser feita sem cristalizar o seu dinamismo e heterogeneidade. Mesmo as tendências mais disruptivas – e, talvez, especialmente estas – dão excelentes mercadorias e mostram-se muito atractivas a quem lhes pretende colocar uma trela. Não que isto seja uma razão para deixar de escrever tal história. Afinal, não há fuga possível num mundo em que até um balde de merda pode ser posto à venda no ebay. O interesse em escrever tal história existe, também por isso, como resposta a essas cristalizações e a apropriações por gente alheia que se interessa pelo «exotismo» do punk mas que não tem outra forma de agarrá-lo senão à martelada. Trocando isto por miúdos, e correndo o risco de ser apelidado de aldrabão, não é possível escrever uma história do punk, mas é certamente possível escrever muitas histórias do punk. Diria que tantas quantas quem decide escrevê-las ou tantas quantas as experiências individuais de quem o vive ou viveu. E há formas de fazê-lo sem transformá-lo numa borboleta amestrada. O livro duplo Corta-e-Cola: Discos e Histórias do PUNK em Portugal, escrito por Afonso Cortez, e Punk Comix: Banda Desenhada e Punk em Portugal, do Marcos Farrajota, editado em formato split pela Chili Com Carne (2017), oferece-nos, nem mais nem menos, duas histórias impossíveis do punk em Portugal, ambas profusamente ilustradas. Tanto uma como a outra abraçam com sucesso essa impossibilidade e fazem-no a partir de perspectivas e com fins completamente distintos.

A metade do livro que responde mais directamente àqueles que se renderam à beleza do morto e passaram a ostentá-lo na lapela, dando ao punk ares de glória e reclamando-o como medalha num currículo feito às suas avessas, é Corta-e-Cola do Afonso Cortez. Responde às sedações académicas e identitárias que lhe vão sendo administradas recusando defini-lo e procurando-o, antes, «na voz de quem lá esteve». Usa as capas dos discos editados em Portugal, entre 1977 e 1998, com o seu mau gosto, ousadia ou provocação, para espreitar essa coisa contraditória, fragmentada e em «em permanente mutação» (p. 15) a que chamamos punk. O livro não pretende ser senão isso. Tendo sido em muito maior número as bandas que nunca deixaram qualquer registo, e indo o punk muito para lá quer da sua cultura material quer da música, todas as outras histórias ficam por escrever. Mas, como nos mostra o Afonso Cortez, pegar nesse pormenor da experiência do punk permite-nos abordar a enorme quantidade de vivências que coexistiram ou aconteceram ao longo deste período e reclamaram a mesma designação – mesmo quando elas foram diferentes ou inconciliáveis ao ponto de parecer não haver outra possibilidade de diálogo senão aos gritos ou à pancada.

Marcos Farrajota, em Punk Comix, pega a coisa de forma ainda mais estrambólica e faz jus como ninguém à ideia de «história impossível». A banda desenhada será, provavelmente, algo tão bizarro quanto o punk para historiar ou dissecar como se fosse um rato num laboratório. E, por isso, o punk serve perfeitamente o propósito de passear pelo percurso da BD portuguesa e espreitar o que esta conta sobre aquele. Digamos que narrar tal relação quase inexistente só é exequível pela fluidez e indomabilidade dos dois, o que lhe permite procurar e esmiuçar não só as representações do punk nas tiras por cá publicadas, mas, acima de tudo, as hipotéticas contaminações mútuas, nomeadamente pelo espírito DIY, independente e até algo marginal que caracteriza muitas das suas expressões. O livro lê-se tão bem que o seu propósito é cumprido com distinção: «ser lido tão rapidamente como se ouve um LP dos Ramones». E cumpre ainda outra coisa assinalável: o de ser, muito provavelmente, o primeiro trabalho de teor historiográfico a citar o Jornal Mapa, reconhecendo-lhe, justamente, um lugar na história (infelizmente, não consigo indicar o lugar da citação porque esta metade do livro não está numerada, mas confiem em mim).

Ambos os livros valem por si só, mas não deixam de ser formas de resistir aos usos oportunistas e soporíferos que se vão fazendo do punk. Seja como for, nem tudo é sobre resistência. Às vezes o prazer distrativo de uma boa leitura é suficiente. Mesmo que um gajo tenha escolhido como máscara para respirar neste mundo «um ar de guerra permanente com o sistema» (Corta-e-Cola, p. 25), a verdade é que também se cansa e precisa de baixar as armas, deleitando-se somente com estas visitas museológicas e com a exposição em vitrines do que viveu e não pode ser revivido da mesma forma.

corta e cola

Corta-e-Cola: Discos e Histórias do PUNK em Portugal (1978-1998)/Punk Comix
Afonso Cortez e Marcos Farrajota
Chilli con Carne/Thisco
2017

 


Artigo publicado no JornalMapa, edição #24, Agosto|Outubro 2019.


Written by

Diogo Duarte

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