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  • Pontos do MAPA – Mirabolante: ler é resistir!

    Pontos do MAPA – Mirabolante: ler é resistir!

    A livraria-café Mirabolante abriu em Odemira a 30 de novembro de 2024, num território onde escasseiam as livrarias. Talvez por ser óbvio que se tratava de uma necessidade premente, os sócios Sílvia Laureano Costa, Bruno Rodrigues e António Falcão conseguiram um apoio financeiro da Câmara Municipal para conseguirem abrir este espaço no concelho. A Mirabolante integra a Rede de Livrarias Independentes (ReLI), uma associação de apoio mútuo composta por livrarias portuguesas sem ligação a redes e cadeias dos grandes grupos editoriais e livreiros. É um dos pontos de distribuição do Jornal MAPA e tem como lema: ler é resistir.

    Podes dizer, a quem não conhece o espaço, o que encontra quando entra na livraria?
    António Falcão: A livraria não tem um estilo que seja restrito. Somos uma livraria generalista, temos boa literatura, temos livros em português, mas também noutras de línguas. Depois, temos um bocadinho do que se encontra aqui na terra, também de artesanato. Temos uma parede onde dispomos os artistas locais. Temos um café onde servimos comida saudável: temos café biológico, temos bolinhos feitos por especialistas da região. A nossa oferta é nesse campo. Somos ambientalistas e gostamos de boa literatura e procuramos dar o que é bom às pessoas que nos visitam.
    Tem muita gente aqui, há muitas nacionalidades em Odemira. Odemira é uma região super heterogénea em termos de comunidades diversas. E encontra-se toda a gente aqui. É incrível como às vezes elas se juntam sem saberem que se vão encontrar. E há muitos encontros especiais ali na livraria. É muito bom e especial presenciar isso. Acho que é um sítio que faltava aqui. Nós próprios gostávamos de ter um sítio, de viver num sítio onde exista um espaço como este. E no fundo a intenção não foi propriamente fazer um negócio lucrativo, mas antes dar algo às pessoas e ter essa faculdade aqui em Odemira.

    Pois, é um ponto de encontro! E tem programação ou acolhem programação?
    AF: Desde o princípio procuramos criar eventos ligados à literatura. Também temos a vertente juvenil e infantil. Temos um espaço dedicado às crianças na nossa livraria. E esse é um ponto onde as pessoas se iniciam na leitura. O nosso lema é: ler é resistir. Tu com a leitura consegues atingir muita coisa. É muito importante as pessoas darem os primeiros passos ali. E tem corrido muito bem. Tudo parte da nossa vontade de criar e dar alguma coisa às pessoas aqui de Odemira. Trazer escritores, estamos sempre a tentar trazer mais, lançar livros e fazer eventos. Ligar tudo um bocado com música e fazer trinta por uma linha. É isso que nós queremos fazer.
    Agora no nosso aniversário, para além das apresentações e dos lançamentos de livros e de trazer escritores, vamos lançar a nossa cerveja Mirabolante. Vai ser uma cerveja artesanal. E vamos também criar um clube de leitura. Vai chamar-se “Aldeia Mirabolante”. Queremos que as pessoas façam parte da Aldeia Mirabolante para terem mais acesso à leitura e aos livros.

    Como é que surgiu a possibilidade de terem o jornal MAPA à venda, de serem um ponto de distribuição?
    AF: Sempre gostei do MAPA, já era leitor antes de abrir a livraria. O MAPA é um jornal de informação crítica. Queremos dar essa informação às pessoas, que elas possam vir e ter esse conhecimento aqui. O jornal MAPA deve estar em todo o país. E damos os parabéns pela sua criação e consolidação também. É muito difícil fazer bom jornalismo atualmente em Portugal, e o MAPA é uma coisa incrível!

    Obrigada pelas palavras! E qual é o horário de abertura da livraria?
    AF: Nós estamos abertos desde as 9h da manhã às 7h da tarde. Nos sábados também abrimos entre as 10h e as 19h.

    Queres acrescentar mais alguma coisa?
    AF: O nome Mirabolante já existia dos meus sócios, eles já tinham feito esse processo de escolha. E essa coisa de Mira e de ter a relação com Odemira e com o Rio Mira não foi propositado. Foi apenas uma coincidência.

    …………….

    Entrevista publicada no Jornal MAPA nr. 48 [Jan. – Mar. 2026]

  • De Gaza a Odemira

    De Gaza a Odemira

    Com o 7 de outubro e o genocídio em Gaza, o cessar-fogo urge para, em oposição à guerra, enfraquecer os excessos na­cionalistas e racistas. Em trauma e sob vigilância sionista, as famílias e comunidades israelitas, que fizeram de sua casa o sudoeste alentejano, temem juntar a sua voz na defesa pela vida e com a Palestina. A realidade não pode ser ignorada, e perante a barbárie, o silêncio pode ser ensurdecedor.

    Odemira, primeiro sábado de 2024. Três meses depois do horror da incursão ter­rorista do Hamas de 7 de outubro em Israel e con­tabilizada a perda de cerca de 30.000 vidas palestinianas, entre mortos e sepultados nos escom­bros, depois da resposta do exér­cito israelita em Gaza. Dirijo-me a AlmaOhana, uma pequena comunidade de israelitas e pes­soas de outras nacionalidades, criada em 2021: uma mais das que veio repovoar o sudoeste alente­jano com o sonho de um estilo de vida regenerativo. A fogueira na rua do monte alentejano já aquece do frio invernal quem vai chegando para um «Círculo de Partilha para o Luto, Conforto e Compreensão em relação a Israel e à Palestina».

    Joey, Eva, Noy e Matthias, os anfitriões, juntam pela ter­ceira vez quem procura enten­der «como é que esta guerra está viva na comunidade local e internacional aqui no Alentejo, com o objetivo de fomentar uma nova cultura de apoio e união em pequenas comunidades que enfrentam conflitos globais». Já entre as paredes de taipa, aque­cidas pelas salamandras, a dança fluirá inicialmente por entre os 26 participantes aí reunidos. Confidencialmente, ouço quem toma a voz para expor o que vive e sente. Sobretudo, recolho em mim os medos, angústias, deses­pero e vergonha nas vozes israe­litas. Mais ainda porque, pela pri­meira vez, há duas palestinianas no círculo, cujas vozes, embar­gadas ou iradas, nos atingem em profundidade e sem concessões. A intensidade da dor e da perda, e a incompreensão absoluta da desumanidade em Israel e Gaza, une o círculo numa base comum, resumida ao mais básico: a defesa da vida e da paz.

    Tenho-me cruzado com gente que tem moldado este território, propondo modos de vida alterna­tivos, demonstrando a viabilidade de outras relações com a natureza, e garantindo um futuro saudável aos novos alentejanos, nascidos das mais de oitenta nacionali­dades registadas só no concelho de Odemira. Na última década, nos mercados entre a Aldeia das Amoreiras ou São Luís, o hebreu quase subsituiu o ecoar das vozes em inglês. As famílias e as comu­nidades israelitas chegaram em força aos vales e lugares recôn­ditos que pautam a cartografia hippie do território.

    Construir esta nova comunali­dade, tão empolgada na sua ves­timenta eco-alternativa, solicita aos israelitas, mais do que nunca, uma palavra sobre o drama humano em curso. Porém, o silên­cio imperou desde o 7 de outubro e tornou-se um peso demasiado incómodo face à inominável atro­cidade que fez do horror terro­rista um pretexto para aniquilar o povo palestiniano a uma escala sem precedentes nestes 75 anos de ocupação da Palestina. Nesse silêncio, compreensível na sua dor e trauma, o ódio abria cami­nho, forçando as pessoas a esco­lher lados, como se só pudesse haver dois lados. Sem se ouvir um afirmativo apelo ao cessar­-fogo. E foi deste incómodo que parti para escutar palestinianas, israelitas e quem mais se propôs viver no Alentejo o sonho de outro mundo, fugindo, outra palavra não haverá, da barbárie humana.

    Silêncio quando as crianças dormem, não quando são mortas.

    Eva, com quem falamos antes de nos encontrarmos na AlmaOhana, empenhou-se em criar um espaço de escuta e de fala sobre este tópico. «Como alemã, criticar as políticas de Israel coloca-te muito rapidamente na gaveta do anti-semitismo. As pessoas estão muito assustadas em falar». Cres­ceu com esse desafio e a sua pri­meira viagem fora da europa «foi a Israel, para tentar tirar um sen­tido disso». Aqui, no Alentejo, «vemo-nos uns aos outros na nossa dor, em círculos de partilha e nos mercados», mas «não falar­mos sobre isto não é natural. De que comunidade se trata afinal? Será que quando chegamos ao ponto de a questionar face a con­flitos globais ela simplesmente colapsa, porque apenas se reúne num nível light?». Daí o desafio de abordar em comunidade «tópicos pesados, onde podemos come­çar a construir uma nova cultura de apoio».

    Na busca de um «consenso básico sobre o que se está a pas­sar na nossa comunidade», o pri­meiro círculo de partilha teve lugar três semanas após o início da guerra. «Foi muito agitado, vivo e doloroso». O segundo decorreu mais calmamente, mas em ambos pesava a falta de duas palesti­nianas convidadas, a residir na zona. Não se sentiam à vontade, desde logo, pela diferença numé­rica com israelitas. Joey, nascido em Israel, contou-nos, por isso, que o grupo entendeu tomar uma posição contra o que se está a passar em Gaza, assim como pelo resgate dos reféns: «perce­cionar a dor em ambos os lados». «Por isso gostaria que os israe­litas ouvissem as vozes pales­tinianas, e claro que não estou a falar de todos os israelitas… Há muitos que não querem ouvir o outro lado».

    Estes encontros intimistas não escondem a intenção de se projetar na comunidade local, fortalecendo as iniciativas que, pese tardiamente, saíram à rua como a concentração pelo cessar-fogo que, uma semana antes, na vila de Odemira, a 29 de dezembro, reuniu dezenas de portugueses, israelitas, palestinianos e outras nacionalidades no largo frente à câmara municipal.

    Trauma. Culpa. Solidariedade.

    Essa concentração foi uma demonstração pública há muito aguardada pelas duas palestinianas residentes em Odemira com quem falámos. Aida, uma conhecida ativista pela paz da comunidade Tamera, coletivo que desde a primeira hora veio a público exigindo o cessar-fogo; e Haneen, uma jovem mãe de Gaza, com dois filhos, a residir na zona há cerca de 5 anos.

    Para Haneen «têm sido tempos muitos desafiadores, mas procuro estar rodeada de pessoas com quem posso falar, que compreendam a situação e mostrem solidariedade. Mas não posso mentir, houve muitos momentos em que me desliguei, pois vivi este tipo de atrocidades. Sobrevivi a quatro grandes agressões em Gaza. Estive em várias situações perto da morte, nem me lembro de todas…»

    Não lhe é fácil o exercício de equiparação, na escala dos horrores, entre o 7 de outubro e o genocídio que se passa em Gaza, razão pela qual não consegue lidar com o silêncio à sua volta. «Há pessoas que eu tenho como amigas na comunidade israelita e que não tomaram qualquer posição. A um deles perguntei se podia, ao meu lado, erguer um cartaz de cessar-fogo e respondeu-me que não o podia fazer. Como manténs a solidariedade se não és capaz de um tal ato? Desculpem, mas isto faz-me sentir muitas coisas ao mesmo tempo. Sinto-me desapontada». Esse amigo entende ser importante «querer levar as histórias de Gaza, a minha história pessoal, aos corações da sociedade israelita. E sim, eu quero que isso aconteça, mas ao mesmo tempo vejo que ele está com o medo de ser culpabilizado, de ser atacado». A incompreensão estende-se à comunidade, em particular, «que fala em desenvolver uma consciência, novos valores culturais, uma nova humanidade e trazendo novos modos de vida. E ver que isso não se relaciona com outros lugares no mundo».

    Haneen compreende que «ambos os povos estão a experienciar um trauma. O receio da perda das suas vidas e dos seus entes queridos. A sobrevivência. É algo que vem de um lugar de medo e de proteção, e que o governo israelita ativou nas pessoas para ter permissão de fazer o que quiserem. Mas, ao mesmo tempo, os palestinianos vivem sob ocupação há 75 anos e não podem continuar a viver dessa forma para sempre.

    Não se trata de escolher lados, mas de tomar consciência da realidade tal como ela é. Enquanto estivermos a negar a realidade nunca estaremos num novo caminho para prosseguir. Quando peço que tomem posição, trata-se de reconhecer uma realidade na qual eu sou afetada pela situação mais do que o outro. Há um desequilíbrio, e é isso que tento explicar».

    Aida nota que o perfil da maioria dos israelitas de que aqui falamos é «gente alternativa, com mentalidade de esquerda e um coração aberto». «A maioria deles vive num lugar de culpa pelo que se passa na Palestina» e o acontecimento traumático de 7 de outubro, deu-lhes «a possibilidade de se declararem igualmente vítimas. Isso fornece uma desculpa para se manterem em silêncio, o que é muito perigoso». É algo muito sensível, no qual será sempre «mais fácil ficar nessa resposta traumática, sentido a dor pelo teu próprio povo, sem tomares a responsabilidade de apelar claramente ao cessar-fogo e ao fim do genocídio dos palestinianos».

    «Esse trauma criado, de raiva e ódio, é escolher um lado. Estão a criar uma nova geração de Hamas e de soldados israelitas criminosos».

    A essa resposta traumática somam-se as circunstâncias particulares da condição israelita, bem distinta da palestiniana, o que, para Aida, pode igualmente explicar o silêncio. «Os israelitas que aqui estão, a sua maioria, estão financeiramente bem, com familiares, amigos, projetos e empresas em Israel. Mas Israel enlouqueceu sobre qualquer um que fale contra a guerra em Gaza». «Os israelitas serão culpabilizados se se posicionarem contra a guerra. Por isso, se o teu coração não é verdadeiramente revolucionário e se não está pronto para pagar o preço, e se tens uma bolha para estares no Alentejo, silencioso e bonito, então apenas cultivarás os teus vegetais e não falarás disso, do que se passa em Gaza. E isso é um silêncio de privilégio».

    Para Aida, o facto é que, «apesar da minha dor, eu tenho de me esforçar em pedir cooperação, pois eu sou quem é mais ferido. Por isso dirijo-me aos internacionais e locais que podem fazer algo, abrindo espaços onde palestinianos e israelitas possam falar. Eu acredito que as pessoas judaicas, com boas intenções e com amor, serão os melhores agentes. A sua voz é mais forte que a minha, porque para o povo deles eu ainda sou o inimigo. Mas se um judeu israelita falar com eles com a mesma energia, de amor e justiça, dirá que é tempo de reconciliação. Um judeu a falar disso tem mais valor, pelo que apelemos aos israelitas no Alentejo para criarmos algo fora da zona de conforto».

    odemira
    Fotografia de António Falcão

    Quebra de Confiança

    Alon e Pnina são uma família israelita que, no seu terreno, para os lados dos Lameiros, abre portas à comunidade nos muito concorridos mercados da Azula. O mercadinho de artesanato e afins, comida, música e dança tornou os domingos da Azula um ponto de encontro de referência. Juntámo-nos em dezembro passado no café Nativa, espaço da Regenerativa Cooperativa Integral em São Luís, numa conversa que se estendeu tarde adentro. Era a primeira vez, depois do 7 de outubro, que punham cá para fora as suas impressões e rapidamente o encontro resultou num improvisado círculo de partilha juntando-se à mesa quem mais por ali ansiava ouvir e falar sobre o assunto.

    O trauma do massacre do Hamas e a resposta genocida do exército israelita abalaram-nos visivelmente. Nas gavetas em sua casa ainda estão as t-shirts com Free Palestine estampado, que envergaram tal como muitos outros israelitas de esquerda que apoiaram os palestinianos anos a fio. Saíram de Israel após o conflito Israel-Gaza, de 2014, à data a maior operação militar israelita desde a Guerra de Gaza de 2008 (que contabilizou a morte de 2000 palestinos e 60 militares israelitas, números que ilustram bem a escalada da atual guerra). Haviam chegado a um ponto insuportável. «As nossas duas filhas, então com menos de 2 anos de idade, já aprendiam no jardim infantil em como se baixar e proteger a cabeça. Eu própria olhando para um muçulmano e receando, porque cresci assim, a ver bombas a explodir», conta Pnina. «Não quero que as minhas filhas os julguem assim, mas que deem uma oportunidade como seres humanos. Por isso saímos.»

    Para Pnina, o 7 de outubro «foi o momento mais difícil na minha vida como judia». Mais do que em 4 de novembro de 1995 quando Yitzhak Rabin foi morto. Então foi para matar o sonho da paz, agora foi um “assegura-te de que a paz não vai acontecer”». Desde então muitos mais israelitas vieram para cá e Pnina não precisa dizer o que transparece no seu olhar. «Os israelitas estão em trauma. O que se passou é algo que nenhum ser humano pode compreender. A maioria dos israelitas que foram mortos eram de esquerda, os que acreditavam na paz, voluntários que faziam o transporte de crianças doentes de Gaza para os hospitais em Israel, os únicos em Israel que davam a sua vida pela paz. E agora a confiança quebrou-se, não apenas com os árabes, mas com o governo israelita, pois o sentimento é que o exército do país não veio em seu socorro. Durante 24 horas as pessoas foram queimadas, raptadas, violadas e ninguém do exército israelita veio para os salvar.»

    «Se não está pronto para pagar o preço, e se tens uma bolha para estares no Alentejo, silencioso e bonito, então apenas cultivarás os teus vegetais e não falarás disso, do que se passa em Gaza. E isso é um silêncio de privilégio.»

    Sinto o resultado contraditório desta quebra de confiança. Por um lado, a dor quanto à inumanidade do Hamas sobre os israelitas. Esses, diz Pnina, «que davam a sua vida pela paz. Como é que a partir desse dia podemos olhar para os palestinianos e dizer que continuamos a acreditar na paz? Estou a falar das pessoas que eram muito radicais acerca da paz, os mais radicais em Israel. Viviam aí, havia amizade. E se lhes perguntares hoje, dizem-te: «vão lá e matem-nos!”. Pessoas que nunca na sua vida pensavam em matar palestinianos. Isso vem da dor e parte-se-me parte o coração ouvi-los reagir dessa forma tão adversa. É errado, terrível, mas eu não os consigo julgar. Vieram até às suas casas, às 7 da manhã, violaram as suas mulheres, mataram as suas filhas. Foi tão maldoso. Eu não consigo julgar, apenas dizer-lhes que têm de continuar a acreditar na paz».

    Por outro lado, a certeza das responsabilidades do governo israelita no que se passou. Em ter aberto as portas no dia 7 de outubro. Não hesitam em apelidar de louco e nazi a bibi” Netanyahu. «Foi ele quem matou o processo da paz e pagou ao Hamas, todos os meses, muito dinheiro, para que não houvesse qualquer solução política. Mantendo-lhes o estatuto, pensando que se manteriam quietos». Todo um enredo, criado pelos Estados Unidos e Israel, que potenciou o desfecho do Hamas. Já Aida nos apontara essa premeditação por parte do governo israelita, assim como as acusações de israelitas à inação do exército, que esperou «que matassem as nossas filhas e filhos para que pudessem implementar o planeado projeto económico e político. O projeto para um segundo nakba [êxodo palestino de 1948], de enviar Gaza para o deserto, para o Egipto e Jordânia, e tomar Gaza. Um projeto colonial que se está a expandir», e a que se junta a cooperação dos Estados Unidos e Israel para garantir o monopólio do gás natural do Levante à Europa, ao invés do gás russo ou iraniano.

    Posto isto, para Pnina, o contraditório assola-a naquilo que poderia significar vestir hoje a sua t-shirt free palestine, ou ao ver essas palavras nas paredes do mercado municipal de São Luís. «Free Palestine – eu morreria por uma Palestina livre mas hoje parece tudo misturado, as pessoas e as organizações terroristas». Quando na página da Azula «postei algumas coisas sobre os reféns, sobretudo os bebés raptados», Pnina diz-se surpreendida com as reações: «de como me atrevia a escolher lado pois a Azula é uma espécie de espaço comunitário. Mas nós somos israelitas, não posso bloquear isso. E sim, eu esperava da comunidade alternativa aqui que dissessem de forma muito clara depois do 7 de outubro: tragam de volta os bebés raptados e não apenas Palestina Livre! O 7 de outubro não é acerca de libertar a Palestina, mas acerca de terroristas que trouxeram tamanha dor».

    Por tudo isso Alon e Pnina compreendem o silêncio. «Uma das formas de reação foi fechar-nos em nós mesmos, o que é tomar um lado. O que é compreensível, mas não justificado». Alon não esconde que «é a primeira vez que falo mais do que dois minutos sobre o assunto, pois falei sobre isto toda a minha vida e estou cansado. Por isso decidi ir à minha vida, tratar das minhas crianças e ter uma comunidade aqui à minha volta. Criar o meu mundo e formar parte de um corpo forte juntos». Mas sabe que o que está em causa aqui «não é escolher um lado. O que está em causa aqui não tem a ver com os povos palestinianos ou israelitas». Pnina corrobora: «Isto não é acerca de palestinianos e israelitas, mas acerca do poder». Para Alon, esse «trauma criado, de raiva e ódio, é escolher um lado. Estão a criar uma nova geração de Hamas e de soldados israelitas criminosos».

    Compreender não é justificar

    Este consenso acerca da ilusão dos «dois lados» é algo que surge também na conversa que tive com Aida, na Tamera. «Não se trata de escolher lados, mas sim de tomar uma posição pela vida. Se há dois lados é entre a vida e contra a vida. E é muito fácil ver quem está pela vida e quem não o está. Eu apelo às comunidades israelitas que tomem uma posição pela vida e que façam uso do seu privilégio em falar, não contra Israel, nem contra o povo judeu, mas contra o governo e o exército de Israel». «Há um plano que é contra as pessoas, todas as pessoas. Não nos deixemos prender na posição entre israelitas e palestinianos».

    Não tomar lados começa assim por tomar consciência da realidade tal como ela é e a palavra ocupação vem colada ao estado de Israel. Como me contou Haneen: «eu cresci durante a ocupação. Crescemos todos em diferentes realidades, a minha é a ocupação. A dos tipos do Hamas é ocupação. Quando cresces em tal realidade, cresces sem compreender porque é que estamos a ser controlados, atacados. Lidando com perdas, uma e uma vez mais. Acredito que nós, palestinianos e israelitas, temos muito a desaprender, nomeadamente acerca das nossas histórias pessoais, de forma a alcançar um entendimento. Porque em Gaza, asseguro-te, há estes tipos do Hamas, mas há antes de mais um povo que quer apenas viver pacificamente, que realmente não quer violência, nem qualquer tipo de controle sobre as suas vidas. Eu sou uma simples pessoa de Gaza, uma simples jovem mulher com duas crianças, dizendo: queremos viver em paz. E a sociedade israelita precisa de ver isso. Há muita desaprendizagem e pontes a fazer para acabar com a ocupação e desmantelar este sistema que causa toda esta atrocidades e violência entre ambos os povos, o ódio, as matanças. Trata-se de desmantelar o sistema, pois enquanto este existir, como é que podemos vislumbrar outro caminho? Não sei como explicar, mas olhando para alguém do Hamas, e não estou a defendê-lo, mas a falar da realidade, que cresce, perdendo a sua mãe, as suas irmãs, irmãos, primos, em ataques, não tendo qualquer comida nem controlo sobre a sua vida, sem esperança por um futuro: como é que esperamos que ele venha a ser?».

    Razão pela qual, reitera Aida, «há uma grande diferença entre justificar e compreender». «Para os palestinianos em Gaza que tentaram de tudo, todas as medidas não violentas, pacíficas, culturais, poéticas, todas as formas de resistência, que lhe foram negadas, consigo compreender, no fundo do desespero, que também uses a violência para te libertares. Eu não o justifico, gostaria que não fosse assim, mas consigo compreendê-lo».

    Haneen assinala, à luz do que se está a passar, que Israel «vem de um lugar com um passado de trauma e de ter experienciado ele mesmo o que se passa. Podemos, sim, falar do holocausto, mas ao mesmo tempo do facto de não quererem ver o que se está a passar em Gaza, exatamente aquilo que lhes foi feito».

    Amor antes da Religião

    Alon e Pnina falam-nos, por sua vez, das suas raízes. «O nosso sangue é árabe, somos árabes judeus. A minha família [Pnina] vem da Líbia. Eu não tenho um lugar para voltar, mas eu acredito em Israel, tal como acredito que possamos viver juntos. Porque a minha cultura, a música, a comida, é mais árabe que israelita. Os meus pais falavam árabe e não hebreu, a minha avó não sabia uma palavra em hebreu. Mas depois disto que se passou, se eu disser que sou árabe judeu, olharão para mim como… Põem-me de lado».

    Para Alon, «se houvesse um deus, estas coisas não teriam acontecido, porque todos rezamos ao mesmo deus, somos irmãos, temos sangue vermelho e comemos do mesmo prato. Guardo do meu avô as palavras – amor antes da religião. A casa dele em Jerusalém fora-lhe oferecida por ser uma pessoa muito respeitada e na porta dizia salamalekum [que a paz esteja contigo em árabe]. Tinha amigos árabes que vinham no Shabat, sentados e comendo do mesmo prato. Sem diferenças culturais, mas numa comunidade, Jerusalém, em harmonia antes de Israel ser criada. A partir do momento em que esse nome é inventado pelos europeus, esse é o momento em que o caldo venenoso começou a ser cozinhado».

    «Há uma grande diferença entre justificar e compreender».

    «Por isso “amor antes da religião”. Porque a religião diz não matarás, mas dá-te a permissão para matar». A religião surge como o elefante na sala. No lugar mais religioso do planeta.

    Nessa ténue linha que separa a defesa da vida ou da morte, que a religião encobre, não pude deixar de partilhar a minha incredibilidade quanto à questão dos mártires. Porque é que quando os mortos não são mortos, são mártires? Diz-me Aida que «há que ir ao contexto cultural. Para uma criança que acabou de perder os seus pais, é mais fácil dizer que são mártires em vez de dizer que foram mortos. Sempre que existeuma luta coletiva, como esta que dura há 75 anos, em que lutas e és oprimido, precisas de justificar a vida dos que morrem. A ideia do martírio, que não é apenas árabe, fala de culturas onde a dignidade é mais importante que a vida. A dignidade é extremamente importante para os árabes». «Israel controla tudo à nossa volta. As nossas vidas são tão controladas que temos a convicção que somos esquecidos a não ser que façamos muito barulho; por isso, esta identidade de martírio é equivalente a um desespero profundo, de que a tua vida não tem significado se não viveres com dignidade».

    Aida lidou com a questão muito cedo na sua vida. «Há um slogan que vem da primeira intifada [1987] que dizia quando a violência eclodiu: “nós morreremos e a Palestina viverá livre”. Eu tinha 16 anos nessa altura e desafiei isso. Quando nós todos morrermos, que palestinianos viverão? E como slogan repliquei: “nós vivemos e fazemos a Palestina viver”. Disse-o e logo alguns homens, jovens palestinianos, vieram ter comigo: “como te atreves!! Pedir pela vida e vida pela Palestina”. Mas essa é a minha escolha».

    Como estás na tua comunidade?

    Ao longo destas conversas em Odemira, com origem em Gaza e Israel, fui desafiado em diversas ocasiões em expor e desfazer ideias feitas. Para Aida, a perda de sentido na frase Free Palestine, de que fala Pnina, resulta do erro fatal de misturar Palestina com o Hamas, que ambas concordam ter sido alimentado por Israel. Diz-nos Aida que, contra a OLP (Organização para a Libertação da Palestina), a organização de raiz socialista que defendeu desde 1988 a solução de dois estados, «o Hamas foi criado por Israel para dividir e controlar. E o Hamas fala de uma posição sem horizonte de esperança, onde a religião fala por ti, a extrema-direita fala por ti. O Hamas é a expressão desse desespero. Israel, com ajuda dos Estados Unidos, travou e acabou com qualquer proposta palestiniana liberal, inclusiva. Forçaram as pessoas a eleger pessoas como o Hamas em Gaza».

    Para Aida a questão com o Estado de Israel «é que não se trata da questão de “se estás aí”, mas de “como estás aí”. O governo israelita tornou claro, desde o início, que esse “como” é eliminando outras nações. Por tudo isto, «cabe-nos a nós, israelitas, palestinianos e todos, que criemos instituições e modos de dizer: não em nosso nome.»

    Um caminho que vai sendo trilhado nesta particular geografia humana das comunidades do sudoeste alentejano onde, como Alon nos disse, diferentes pessoas de diversas nacionalidades, israelitas e palestinianos, internacionais e locais, carregam consigo os seus «danos culturais». «Carregamos essa bagagem connosco. Nasci lá, os meus pais criaram-me lá, mas eu posso escolher onde morrer, e foi aqui que eu escolhi. Aqui me sinto em casa, mais do que em Israel. Em vez de termos dois lados, não nos podemos sentar e falar?».

     


    Texto de  Filipe Nunes (com a colaboração de Silvia das Fadas)


    Artigo publicado no Jornal Mapa, edição #40, Janeiro | Março 2024

  • Prácticas para um futuro com o qual valha a pena sonhar.

    Prácticas para um futuro com o qual valha a pena sonhar.

    O Fórum de Cooperativas Integrais 2023.

    Entre os dias 6 e 8 de Outubro realizou-se em São Luís (Odemira), nas instalações da Regenerativa, o 2º Fórum de Cooperativas Integrais. Ao todo, somou-se mais de uma centena de inscritos e mais de 30 entidades representadas, desde cooperativas a proto-cooperativas e grupos informais. Afinal, como um dos organizadores declarou na ronda de reflexões sobre o evento e o futuro da Rede de Cooperativas Integrais, os grupos informais e outras organizações presentes contribuem tanto para o cooperativismo integral como as cooperativas que incorporam no seu nome tal adjectivo. Nesse sentido, o que mais importa são os princípios cooperativos partilhados: adesão livre e voluntária; controlo democrático pelos cooperantes; participação económica dos cooperantes; autonomia e independência; educação, formação e informação; inter-cooperação; preocupação com a comunidade.

    Este último princípio parece remeter, neste contexto, tanto para os nossos territórios locais, quanto para os desafios globais que enfrentamos como comunidade humana e mais-que-humana. Durante estes três dias transpareceu uma transversal necessidade de transformação, de comprometimento para com a construção efectiva e pragmática de alternativas viáveis ao modelo capitalista, de tecer em conjunto discursos, prácticas e estratégias para um futuro com o qual valha a pena sonhar.

    Apoio mútuo

    coopO plano de actividades começou no pátio do espaço Co.Re. – um edifício utilizado pela cooperativa anfitrião sobretudo para actividades pedagógicas – com a apresentação das entidades presentes. Era notória a expansão do número de cooperativas integrais pelo território: as já presentes no forum do ano anterior, Minga em Montemor-o-Novo, Rizoma em Lisboa, Regenerativa em São Luís, Estação Cooperativa em Casa Branca, Alma Ohana em Odemira e, as entretanto formalizadas, Raiz Minhota no Minho, Coop 99  no Porto e T’Inspirar em Tomar. Ausente esteve a cooperativa Da Terra, que se estende pelas localidades de Aljezur, Vila do Bispo, Lagos, Odemira. O programa prosseguiu num amplo sótão revestido em madeira, onde representantes de duas redes internacionais – a Solidarius, uma comunidade internacional de intercâmbios económicos solidários, e a RIPESS, guarda-chuva que abrange redes continentais e nacionais de economia social e solidária, e que procura coordenar esforços a nível global pela transição para uma economia democrática, ecológica e não baseada no lucro.

    Nesse primeiro dia, no pátio do Co.Re, escutou-se o veterano da economia social e solidária catalã Jordi Estivill, que nos conta que o termo «economia social» surge pela primeira vez em Portugal no século XVIII, numa peça de teatro em que se contrapunha a economia dos ricos, baseada na ganância e na ostentação, com a dos pobre, derivada da satisfação de necessidades e aspirações modestas, assim como em princípios de solidariedade e de apoio mútuo. Jordi contrapõe a «economia social» actual com a «economia solidária», declarando que a primeira tem uma tendência reformista, enquanto a segunda se opõe explicitamente ao sistema socioeconómico capitalista. Explica o facto de existirem na Catalunha cerca de 16 500 iniciativas solidárias e 4500 cooperativas (tanto «íntegras» como desvirtuadas, mas maioritariamente íntegras, garante), além de hortas urbanas, mercados de troca directa, bancos de tempo e okupas, pela forte tradição do movimento operário e cooperativo na região (o que terá levado Barcelona a ser conhecida como «A Rosa de Fogo»), o processo pré-franquista de colectivização de terras, a quantidade de associações de vizinhos e a constante resistência contra o Estado espanhol.

    O professor sociólogo e economista deu-nos ainda o exemplo de Can Batlló, uma luta que congregou militantes e associações de vizinhos na reivindicação pelo espaço de uma antiga fábrica de têxteis de Barcelona e cuja estratégia foi colocar um relógio na praça central que marcava os dias que faltavam para a data em que município prometera ceder espaço à comunidade local. Quando esse dia chegou, vizinhos e activistas realizaram uma marcha para ocupar o edifício; no entanto, a massa crítica tinha atingido tal intensidade que o município se viu forçado a ceder a gestão do edifício à plataforma de composição heterogénea que reivindicava o espaço. Jordi contrapõe duas vias de cooperativismo: a de «Mondragón», baseada no crescimento vertical, e a dos «morangos», a via catalã, em que as cooperativas e outras iniciativas de economia solidária se distribuem pelo território, gerando um ecossistema cooperativo em constante expansão. O veterano é crítico das parcerias com o Estado, que, na sua opinião, «não funcionam, considerando que o movimento cooperativo deve ter por estratégia neutralizar ao máximo o poder do Estado dentro das suas esferas de acção. Exemplo desse ethos foi a rede que representa, a Xarxa d’Economia Solidària da Catalunya (XES), ter desenvolvido o seu próprio mecanismo para avaliar o quanto as iniciativas que a integram se aproximam dos princípios da economia solidária.

    As reflexões e os debates acompanharam o jantar no Espaço Nativa, cedendo porventura aos lentos e extensos ritmos do cante alentejano, que se que foi ecoando noite dentro, até o cansaço e o sono soarem mais alto.

    coop

    «Os 99% precisam de mudança»

    A segunda jornada foi inaugurada pelo economista e co-fundador a Cooperativa Integral Minga, Jorge Gonçalves, que abordou o conceito de «cooperativas integrais» – organizações democráticas que reúnem todos os ramos de actividade socioeconómica necessários ao viver. Jorge explicou que a própria Rochdale Society of Equitable Pioneers, criada em 1844 e cujos princípios ainda servem de base ao cooperativismo internacional, tinha já um propósito integral, que incluía a criação de uma loja onde os cooperantes podiam comprar a preços acessíveis todos os produtos de que necessitavam, comercializar os bens produzidos, criar empregos sob condições justas, disponibilizar serviços (sobretudo de educação e saúde/apoio aos idosos) e construir habitação própria. No entanto, observa, as regulamentações estatais começaram a limitar a actividade das cooperativas, obrigando à divisão entre cooperativas de consumidores e cooperativas de trabalhadores, cujos interesses eram díspares e, por vezes, antagónicos. O economista relembra também que António Sérgio, figura histórica da qual deriva a CASES, entidade que faz a articulação entre as cooperativas e o Estado Português, já advogava o «cooperativismo integral», cuja «meta» seria «dar o máximo desenvolvimento às cooperativas de consumo, tornando-as produtoras e também bancárias». Na sua perspectiva, «[o] melhor instrumento do progresso social é a cooperativa de consumo que se faz produtora para os seus próprios sócios, já na agricultura, já na fabricação, adquirindo terrenos, e montando oficinas, e sendo financiada pelo seu próprio banco».

    Em seguida, José Donado (Co.Re; Regenerativa) tomou a palavra para nos ajudar a imaginar o futuro da Rede de Cooperativas Integrais. Entre os objectivos enumerados, estão «o apoio na criação, manutenção e desenvolvimento de cooperativas integrais»; «aumentar a visibilidade das iniciativas de cooperativismo integral»; «representar as cooperativas integrais em Portugal»; «influenciar políticas e legislação em favor dos interesses do cooperativismo»; «partilhar recursos, bens, serviços e conhecimentos entre cooperativas»; «promover o consumo entre cooperativas»; «facilitar o contacto com outras iniciativas com valores convergentes a nível nacional e internacional».

    Então, foi a vez de Bernardo Fernandes (Rizoma) e Alina Santos fazerem um apanhado do percurso da rede desde a sua criação, no rescaldo do 1º Fórum de Cooperativas Integrais. Mencionaram-se os encontros mensais, as reuniões com outras entidades nacionais e internacionais, a produção de material informativo para a criação e manutenção de cooperativas integrais. Destaca-se a seguinte frase de Alina, co-fundadora da Coop 99: «só as poucas pessoas que levam uma vida confortável é que não procuram alternativas como as cooperativas integrais; os 99% precisam de mudança».

    Quando o intenso calor alentejano começou a tornar-se insuportável, as participantes deslocaram-se ao sótão para ouvir a apresentação da representante da CASES. Esta garantiu que, apesar de termos de seguir a lei, isso não tem de limitar a acção das cooperativas. Não obstante, reconheceu que a legislação específica é muito antiga e garantiu que há abertura para alterações, tanto em relação a organizações «mais conservadoras», como «mais alternativas», como seria o caso das cooperativas integrais.

    Seguiu-se a apresentação da representante da ANIMAR, que se apresenta como uma «rede de promoção da cidadania e do desenvolvimento local», desenvolvimento esse que garantiu ser definido «pelas próprias pessoas». Esta organização presta serviços de formação, consultoria, apoio jurídico, além de procurar fazer pressão política para legislação mais favorável à economia social e solidária.

    Para fechar a manhã, Michelle Chan, representante da Confecoop (Confederação Cooperativa Portuguesa), propôs-se abordar questões de fiscalidade de cooperativas, reconhecendo que os seus colegas contabilistas «não gostam de dar os seus trunfos a troco de nada». Portanto, decidiu revelar, ela mesma, informações relevantes sobre os benefícios fiscais de que podem desfrutar os cooperadores. Aproveitou ainda para esclarecer as diferenças entre um contrato de trabalho (regido pelo Código do Trabalho) e um acordo cooperativo (uma relação de não subordinação afecta ao Código Cooperativo), regime de auto-emprego practicado pela Pro Nobis como alternativa aos recibos verdes, cooperativa de que é co-fundadora. Por fim, enumerou alguns objectivos que a Confecoop irá perseguir; entre eles: incentivos fiscais para o auto-emprego, apoio técnico e financeiro, negociar a percentagem de IRC que incide sobre as cooperativas, entre outros benefícios fiscais.

    Entretanto, as participantes foram-se deslocando para o Espaço Nativa, onde o almoço precedeu a apresentação de Guilherme Luz sobre Comunidades de Energia. O membro da Coopérnico, a primeira e ainda única cooperativa de energia do país, começou por declarar que «energia é poder», ou seja, quem produz e gere a energia que consumimos controla, em grande medida, as nossas vidas. Para se evitar estar à mercê do mercado e das manobras comerciais de empresas privadas, Guilherme propõe um processo de democratização energética, em que grupos procuram atingir a autonomia (ou soberania) energética mediante modelos de «comunidades de energia», que podem assumir a figura legal de cooperativa ou de associação. Nas comunidades de energia a eletricidade é produzida de forma descentralizada (no caso de energia fotovoltaica, a energia pode ser captada sobre as casas dos próprios membros) para então ser distribuída pelos membros, que, como sucede na coopérnico, têm o direito a (e beneficiam de) participar na tomada de decisões.

    A seguinte actividade, chamada «espaço aberto» e que contou com a facilitação de André Vizinho (Regenerativa), foi realizada num parque de merendas localizado na colina em que acamparam várias participantes e no topo da qual assentava um velho moinho. As pessoas distribuíram-se por várias mesas de piquenique para falar de temas que iam desde governança e questões fiscais à pedagogia e moedas alternativas. No final, as respostas foram partilhadas, no campo de futebol adjacente, pelos responsáveis de cada mesa, precedidas e sucedidas de dinâmicas de grupo que faziam com que a diferença entre trabalho e diversão se esbatesse.

    Após o jantar, a noite prolongou-se com a DJ Chiara Grilli na mesa de misturas a desenterrar tesourinhos da lusofonia, desde Zeca Afonso a Buraka Som Sistema.

    coop

    «que valor queremos dar à vida»

    O último dia de Fórum começou com uma apresentação de Michelle Chan sobre questões legais e fiscais e seguiu para um plenário em que se partilharam reflexões sobre o fórum e aspirações para o futuro da Rede de Cooperativas Integrais. Entre outros temas, falou-se de aspirações ambiciosas, como «mudar de paradigma» e perceber colectivamente «que valor queremos dar à vida», mas também de questões mais pragmáticas, como «diminuir a complexidade da contabilidade e administração dentro das organizações» ou «partilhar recursos». Mencionou-se a necessidade de reforçar laços de confiança dentro e entre as cooperativas, de combater o individualismo, de demonstrar carinho mútuo e de desenvolver uma visão comum.

    Chamou-se também a atenção para o facto das cooperativas integrais também serem, em grande medida,«monoculturas», visto que os seus membros são relativamente homogéneos em termos de etnia, educação, classe social. Observou-se que as cooperativas não são um fim, mas um meio, que a cooperação transcende a cooperativa, e que não haveria necessidade de cooperativas se o Estado não nos obrigasse a facturar para vender o que quer que fosse. Abordou-se ainda a tensão entre visões mais pragmáticas (como a necessidade de ser-se economicamente sustentável) e posições mais ideológicas (como ser-se anti-capitalista). Ecoam as palavras do experiente Jordi Estivill: «Há apenas dois tipos de rede: as que buscam benefícios económicos e as redes ideológicas/políticas, e vocês não pertencem à primeira categoria». O plenário terminou com as contribuições que cada participante se compromete a oferecer à Rede de Cooperativas Integrais e com a promessa de que o próximo o fórum terá lugar no Minho.

    O Fórum encerrou, em espírito familiar, com um almoço de domingo no Espaço Nativa. As participantes foram trocando números e os abraços de despedida foram-se sucedendo. Ficam as promessas de visitas mútuas e do retomar das pontas soltas ao longo das reuniões da Rede de Cooperativas Integrais, «na terça terça-feira de cada mês».

  • CooperAcção ao Sul de Portugal: Ecos de uma rede de redes em germinação

    CooperAcção ao Sul de Portugal: Ecos de uma rede de redes em germinação

     

    A ideia, mesmo se vaga, é clara: reconhecer possibilidades concretas de cooperação e estabelecer ligações entre pessoas e organizações do Sul do país interessadas em agir nesse sentido. A estratégia passa por auscultar interesses e disponibilidades, visibilizar iniciativas e necessidades, e mobilizar acções de «co-criação comunitária». Entendida como o despoletar de um processo – sem grandes promessas ou prescrições – a iniciativa oferece pistas para quem quer compreender, estabelecer ou fortalecer redes comunitárias noutras partes do território.

    «Who is in my network,
    What links us, to be exact?
    Better ask to understand the force
    that cuts through rock the water’s course
    and binding like to like
    makes also opposites attract.»
    Susan Saxe – “Ask a stupid question” in Reclaim the earth

    CooperAcção ao Sul de Portugal

    «Mobilizar para ver o que acontece», como quem abana uma árvore para ver se a fruta cai – é a imagem que ocorre após ouvir uma breve apresentação da iniciativa CooperAcção ao Sul de Portugal.

    Somos dez pessoas sentadas à volta de uma mesa no fresco da Oficina São Luís, em Odemira. Há papéis, canetas, post-its, cartazes, um mapa, melancia e água fresca. Falamos em português, mas metade de nós como língua estrangeira. O espaço comunitário alberga o núcleo regional do Grupo de Acção e Intervenção Ambiental (GAIA Alentejo), onde o facilitador da sessão, Jose Donado, está a desenvolver o seu Serviço Voluntário Europeu desde Novembro de 2017. Temos pouco mais de duas horas para uma primeira abordagem à análise dos dados de um inquérito que pretendia auscultar «possibilidades de cooperação» e endereçar um «convite ao activismo comunitário» na região.

    A iniciativa – «continuamente co-criada por muita e diversa gente» – surge a partir de uma série de visitas que o voluntário galego de 23 anos fez a diversas comunidades da região e onde pode vivenciar e conversar sobre o tanto que está a ser feito pelo Baixo Alentejo: pessoas que cuidam da terra, do espírito e da comunidade – cultivando, curando, alimentando, criando – disseminando ideias e práticas que guiam um estilo de vida mais sustentável. Como potenciá-las em comum?
    «Os objectivos principais eram criar pontos de encontro entre as diferentes pessoas com interesses em comum, promovendo a criação de projetos comunitários. E ajudar as pessoas com necessidades a encontrar quem pudesse satisfazer estas necessidades dentro da própria comunidade», fomentando assim a auto-suficiência local, explica Jose sobre o embrião de projecto que pretende reconhecer e aprofundar esse sentido possível de comunidade.

    Não é a primeira investida com a intenção de estabelecer ligações entre pessoas e iniciativas da região: a CooperAcção ao Sul constrói-se aliás em diálogo com redes já estabelecidas, como a Rede Cooperar (ReCo), com enfoque na produção e distribuição agro-alimentar (ver Jornal Mapa nº 8, Dezembro de 2014), e a Regional Network e o seu Mapa da Autonomia Regional no Sul de Portugal, iniciado em meados de 2016 num encontro de comunidades em Tamera e que reúne hoje cerca de 130 iniciativas de produtores, fornecedores e espaços comunitários da região (mapa autonomia sul).

    Lançado em Junho de 2018 pelo GAIA Alentejo, o inquérito CooperAcção ao Sul de Portugal constrói-se sobre essas e outras iniciativas, actualizando-as e tentando aprofundá-las, em prol de uma «comunidade mais resiliente, sustentável, eficiente, participativa e auto-organizada».

    O que está a ser feito? O que falta fazer? Como podem as pessoas com vontade de cooperar estar mais perto umas das outras? Quais os interesses e necessidades comuns? O que dificulta a cooperação? Como contornar as barreiras? O que poderia uma rede de redes, “como organismo maior”, fazer em conjunto?

    (In)visibilidades e suas (im)possibilidades

    «Reconhecer as possibilidades» passa por mapear as necessidades e recursos existentes da região. Foi esse um dos gatilhos definidos na preparação conjunta do inquérito: «precisamos de dar visibilidade ao que na rede já existe e do que há necessidade, para assim criar domínios de interesse que vão favorecer o bem comum».

    Partindo de um conjunto concreto de iniciativas afins, bastante centradas em São Luís, o convite ao activismo comunitário passava então por dar a conhecer parte daquilo que já está em curso. Longe de representar um quadro completo das iniciativas comunitárias existentes na região, a lista partia claramente das afinidades de quem impulsionou a convocatória, deixando embora espaço para que outras pudessem vir a integrar. De fora fica «um número de iniciativas informais não declaradas que não tem contacto ou website», como apontou um dos participantes sobre a necessidade de vivência continuada no território para (re)conhecer (quanto mais compreender) a complexidade do ecossistema.

    À sua forma, a CooperAcção ao Sul abre com modéstia um espaço para que este entrosamento possa continuar a ser facilitado – convidando à submissão, actualização e mapeamento colectivo de iniciativas que queiram integrar a rede regional.

    CooperAcção ao Sul de Portugal

    Cooperar em quê? Complementos directos para a acção

    Apresentada como «instinto humano», nem para todos é imediato o significado de cooperação neste contexto alargado – «participação activa» é outra ideia que à partida levanta dúvidas entre os participantes. Para além de dar visibilidade a uma série de iniciativas abertas à comunidade, desvendando desse modo algumas possibilidades concretas de cooperar e participar, fazem-se também avanços na procura das necessidades individuais no colectivo, sejam elas materiais, sociais ou intelectuais.

    Começando pelas coisas simples como os intercâmbios de línguas, a partilha de boleias, as ajudadas no campo, ou a ligação entre potenciais espaços comunitários e dinamizadores de oficinas de diversas artes e ofícios. Ou a feliz coincidência entre quem produz alimentos de proximidade e quem tem cozinhas locais gratas por poder servi-los à sua clientela.

    Para identificar os interesses comuns e aqueles em que as pessoas gostariam de participar activamente, foi feito um levantamento a partir de temas genéricos considerados relevantes, desde a água e alimentação, às formas de organização social e governança. O consumo e produção agrícola local foi o tema mais consensual entre os participantes, com potencial para resultar na prática de forma mais imediata (através da integração na base de dados local da ReCo, onde produtores e consumidores já se ligam através das suas ofertas e das suas necessidades). As questões da ecologia e do meio-ambiente também estão visivelmente no centro das preocupações comuns, bem como a arte e a cultura comunitárias. Estes temas que movem a maioria serão os que mais provavelmente poderão resultar em grupos de reflexão-acção. O que fazer então com as minorias que apontam questões gritantes, como a «escravatura», a ameaça do fracking e o uso de glifosato nas estufas no Parque Natural?

    O síndrome das capelinhas, o «tabu dos camones» e outras barreiras à cooperação

    A extensão do território alentejano, o choque de culturas entre novos e velhos habitantes, e a diversidade linguística que hoje caracterizam o ecossistema local, são factores que podem estar a dificultar a almejada cooperação.
    No terreno percebe-se rapidamente a existência de uma certa fragmentação social, marcada por fossos de linguagem (oral ou cultural) que separam comunidades distintas: entre as falantes e não-falantes de português, ou entre os novos rurais e os «indígenas» locais. Abordar as questões da(s) língua(s) e do envolvimento com a comunidade local foi portanto objecto de especial interesse.

    CooperAcção ao Sul de Portugal

    Manter a chama acesa

    «Cabe a cada um de nós apreciar em que medida – por menor que seja – podemos contribuir para a criação de máquinas revolucionárias capazes de acelerar a cristalização de um modo de organização social menos absurdo que o atual.»
    Félix Guattari, Revolução Molecular: pulsações políticas do desejo

    Adoptando a metodologia da sociocracia para a tomada de decisões consensuais, numa sessão dinamizada no mês de Maio no Monte Mimo definiu-se colectivamente o «pensamento base do processo» da CooperAcção ao Sul de Portugal. Um dos pontos assentes foi a percepção da dificuldade em manter vivo este tipo de processos a longo prazo. Falou-se de experiências passadas e em curso, e de «um sentido de distanciamento, que se manifesta na falta de envolvimento nas tarefas de manutenção da rede».
    Trata-se do trabalho reprodutivo de cuidar da rede e nutrir a comunidade – muitas vezes invisível e pouco apoiado – mas fundamental para manter oleada a engrenagem de qualquer associação.

    Por agora, a activação de diferentes grupos de trabalho para dar continuidade à CooperAcção já está em curso, nomeadamente no que toca a análise de dados, programação web e mapeamento de iniciativas. A comissão de organização do evento de apresentação que deverá acontecer no final de Setembro também já iniciou trabalhos. Neste evento, ainda com local e data a definir, serão apresentados os resultados do inquérito, e pretende-se explorar possibilidades reais de cooperação, ligando pessoas e projectos com interesses comuns – para além de celebrar esse exercício salutar de convocar a comunidade a reflectir sobre ela própria.
    Exercício esse que tem despertado o interesse de outras comunidades em outros territórios, com vontade de adaptar o processo às suas realidades locais. Talvez a imagem não fosse do abanão da árvore para ver se a fruta cai, mas sim da pedra rasa lançada sobre a superfície do charco, provocando um movimento de ondas que se propagam concentricamente – como réplicas que abrem a possibilidade de círculos de redes a várias escalas.

    A evolução do projecto pode ser acompanhada no blog do GAIA Alentejo e na página de Facebook CooperAcção.

    Quadro-resumo dos resultados do inquérito

    O inquérito CooperAcção ao Sul de Portugal foi lançado a 7 de Junho de 2018, e em pouco mais de um mês recebeu 99 respostas através da internet ou em papel. A poucos dias do fecho desta edição recebemos os dados em bruto em primeira mão.

    Cerca de 60 participantes são residentes em Odemira, o concelho com maior área de Portugal e foco da atenção deste inquérito. Mas também houve várias contribuições de outras zonas do Alentejo e do Algarve. No que toca a representatividade etária e de género, 54 participantes identificaram-se como mulher e 39 como homem; mais de metade das participantes têm entre 31 e 50 anos de idade. Muitos são novos rurais, outros já se sentem locais, alguns voluntários temporários, poucos alentejanos de gema. A comunidade em estudo é fortemente internacional, com cerca de metade dos participantes oriunda de catorze países e quatro continentes – incluindo Alemanha, Israel, Reino Unido, Marrocos, Argentina e Brasil.

    Mapa Iniciativas Sul Alentejo
    [Clique na imagem para ver maior]

    CooperAcção ao Sul de Portugal
    [Clique na imagem para ver maior]

    Sobre as barreiras linguísticas que podem estar a impedir o avanço da cooperação, 75% dos inquiridos que não têm o português como língua materna afirmaram que gostariam de aprendê-la. No sentido inverso, 57% dos falantes de português gostariam de usufruir das possibilidades da rede para aprender novas línguas.

    Numa região mal servida de transportes públicos e onde as distâncias entre montes e localidades pesam por vezes nas solas («é já ali!»), a utilidade de uma rede de boleias também se revelou interessante para os inquiridos, com um quarto dos participantes a indicar disponibilidade regular para partilhar transporte, e cerca de 40% com disponibilidade irregular.

    CooperAcção
    Cartaz do próximo evento, no dia 5 de Outubro, em São Luís, Odemira.

    Texto por Sara Moreira [saritamoreira@gmail.com]
    Fotos por Dora Simay [daqui]
    Mapa por Anselmo Canha

  • Felizmente continua a haver luar (Setembro 2015)

    Felizmente continua a haver luar (Setembro 2015)

    luarPassámos Monchique, para trás fica a Serra da Brejeira, a aldeia da Santa Bárbara e, finalmente, entramos em São Teotónio. Odemira fica mais a norte, a uns quinze quilómetros. Viemos à «Feira Antiga», animação, artesanato, jogos tradicionais, baile. «Participe à moda antiga com trajes e acessórios», diz o cartaz. Ao lado está anunciado o «Jurassic World» no cinema de Odemira, com os dinossauros… São Teotónio é uma aldeia vazia, triste, pobre, casas por acabar, outras abandonadas. A «Feira Antiga» é no largo da Igreja, uns reformados alentejanos com os trajes, mesas e comidas, música, cafés abertos à volta. Não se pode dizer que o ambiente seja Woodstook ou mesmo Jazz no Rio. Mais no estilo da especialidade portuguesa da festa dos tristes. Damos uma volta ao largo e rapidamente começamos a sentir que estamos num lugar estranho, um lugar que é mais do que alentejano. Há casas velhas que parecem servir de dormitórios de gente com tipo físico mais oriental do que os habitantes tradicionais. Imigrantes, claro, imigrantes aos montes, que não fazem parte da Festa. Os búlgaros parecem os mais pobres e desgastados, no café que parece ser-lhes reservado alcoolizam-se a ver o futebol – o que já é um nítido sinal de integração –, os bengalis deambulam como se andassem à procura de trabalho, por vezes há um casal com crianças, os tailandeses têm ar mais enérgico, e os nepaleses, jovens, concentram-se no outro lado da praça, num café que parece também fazer ofício de dormitório. Há também brasileiros, vietnamitas, romenos e por aí fora… Os alentejanos da Festa parecem não reparar nesta presença exótica, ou fingem não reparar. Um ambiente estranho… Duas lojas despertam a atenção. Uma empresa de transporte faz carreiras entre São Teotónio, a Bulgária e a Roménia. A outra é uma agência de trabalho temporário, tudo escrito em inglês, que propõe «jobs» nos campos para gente de passagem. Chegámos a São Teotónio e encontrámos a globalização no meio do velho e pobre Alentejo.

    Voltamos à estrada, direção Zambujeira do Mar. Poucos quilómetros depois de São Teotónio o mistério desvenda-se: quilómetros e quilómetros de estufas a perder de vista, na zona haverá cerca de 1100 hectares. À entrada de uma minúscula povoação está o Café Benthai; tailandeses e vietnamitas bebem umas Sagres, sentados à porta. Há prato do dia tailandês. A imprensa chama a isto o sucesso das culturas no litoral alentejano. Resta saber se é sucesso ou crime. São culturas que necessitam de bom ar, boa água e bom tempo e muita mão-de-obra. A terra não é necessária, tudo é cultivado em substrato, com a ajuda da química. Mas como infelizmente também há terra, em breve ela estará, como a água, poluída. Seis mil toneladas de frutos vermelhos são produzidos por ano na zona de Odemira, dos quais 90% são exportados. O negócio está nas mãos, ou nos bolsos, da multinacional americana que domina o mercado, a Driscoll’s [Todos os dados e citações foram retirados do artigo de Carlos Dias publicado no Público de 30 de Junho 2015], dirigida em Portugal pelo Sr. Arnold Heeren, a qual criou, com capitais americanos, outras empresas para produzir, a Lusomorango por exemplo, que é dirigida pelo mesmo senhor que parece ser um personagem central do filme de horror. O Sr. Santos Andrade é o vice-presidente e está feliz. Como não havia de estar? A faturação da sociedade passou de cinco milhões de euros em 2005 para 36,8 milhões em 2014. «Odemira é uma zona estratégica para os pequenos frutos», diz o homem que fala como um coronel da guerra colonial. Também feliz, está o Sr. Gil Oliveira, que com orgulho patriótico diz : «Sou o maior produtor português deste fruto e detenho o recorde mundial com 24 toneladas por hectare». E ainda há gente que não acredita nas virtudes capitalistas da burguesia lusitana? Depois, a comercialização é feita pela Discroll’s. Que os americanos, mesmo no sul, não perdem o norte.

    O «sucesso» deve-se aos clientes do café Banthai, do café búlgaro e do café nepalês. Este tipo de cultura precisa em média de 12 pessoas por hectare. Num Alentejo vazio, entre velhos e emigrados há umas mulheres disponíveis para vender a sua força de trabalho, mas elas não querem trabalhar ao domingo?! Uma arrogância subversiva que deve vir do 25 Abril. O Sr. Gil prefere o novo proletariado, diz que os imigrantes apanham 4,5 quilos por hora e por pessoa em média. Fico a pensar o que isto quer dizer concretamente ao fim do dia, em que estado estariam os braços e os corpos do Arnold, do Andrade, do Gil e outros, se a tal suplício fossem submetidos ? Há mulheres búlgaras a apanharem 7 quilos, por mil euros «limpos», acrescenta um dos exploradores. Porque os salários são, evidentemente, em função da apanha. Nesta fase do campeonato intervém o Sr. Arnold para dizer umas palavras humanistas bem sentidas sobre as más condições de trabalho e de vida dos trabalhadores. Que procura evitar «as situações degradantes e as máfias». O indivíduo é um brincalhão. E o que faz para o evitar? Está claro que não faz nada, basta uma rápida passagem na zona para o saber. O Sr. Arnold mente como respira. Como é que estas centenas, milhares, de emigrantes chegam do Nepal e do Bangladeche até São Teotónio ? E em que condições chegam? E a que preço chegam ? A GNR não deve saber de nada. Quem poderia dar uns palpites sobre o assunto é o feio gajo da agência de trabalho temporário ou a loura empregada da agência de viagens. Mas, para ser franco, não indaguei… Esta mão-de-obra internacional, vivendo em condições miseráveis a milhares de quilómetros dos países de origem, é uma resposta provisória à questão da paz social. O gangue da Driscoll’s deve ter aprendido a lição com as revoltas nas estufas de Andaluzia, no princípio de 2000, quando os trabalhadores norte-africanos explorados nas dezenas de milhares de hectares de estufas de El Ejido (Almeria) se revoltaram obrigando o governo espanhol a intervir, criar melhores condições de habitação e impor melhores salários aos empresários. Neste canto perdido do Alentejo o cálculo frio dos criminosos da economia consiste em dar tempo ao tempo, explorar o máximo, destruir as terras e as águas, antes que se crie uma comunidade de classe entre trabalhadores que, por agora, nem entre eles se entendem. Mas o capitalismo, pelas condições de exploração que impõe, acaba por unificar esta gente, e o que vier depois será outra história, que não está escrita mas que é previsível. Os alentejanos, que tiveram uma história social violenta e rica estão anestesiados, os jovens emigraram ou suicidaram-se e os velhos andam a beber uns copos em «Festas Antigas». O grande partido do proletariado, o PCP, administra a região desde o 25 de Abril e parece brilhar pela ausência… Os nepaleses não votam e sabe-se lá se alguns até não serão maoistas, o que seria um abuso de confiança! Os funcionários reconhecem que a região esta a afundar-se, com velhos com reformas cada vez mais baixas, com mais pobres com RSI mais baixos, com mais desempregados. Como por todo lado a desertificação avança. De 2010 a 2014, a população do país diminuiu de 200 000 almas penadas e, em 3 anos, só no Baixo Alentejo, evaporaram-se umas 5 000 pessoas. Hoje a Questão Agrária que estudava o Álvaro Cunhal mudou de forma. Como na Andaluzia, os grandes proprietários já não são os latifundiários, são as grandes multinacionais da agroalimentar, muitas vezes também ligadas à grande distribuição. Bicharada que exige outro tipo de luta. Mas quem é que fala de luta? O PCP e a sua CGTP queixam-se, gritam suavemente, apelam à mobilização eleitoral, falam de uma política «patriótica», mas, face a estes mastodontes, não existem. Fazem ainda menos que os sindicalistas espanhóis. Ajudar os imigrantes a organizarem-se? Que aventureirismo! O Sr. Arnold da Driscoll’s até é capaz de ser pessoa civilizada, aceitar umas sugestões razoáveis e prometer umas coisinhas. Resta-nos imaginar a revolta que tal concentração proletária e tais condições de exploração tornam possível.

    A propósito de modernidade, vem à baila dizer também algo sobre a família Chiyu Lyu, o Alfeizerão e a luta política no seio da classe dirigente chinesa.

    Na New York Review of Books, («China: The Superpower of Mr. Xi», NY, Agosto 2015), Roderick MacFarquhar escreve um bom artigo sobre as fragilidades desta classe e os riscos da campanha de anticorrupção e de moralização da vida política do presidente Xi Jinping.

    Com o sorriso frio e cínico que se lhe conhece, o Sr. Xi apregoa: «a pureza moral é essencial para que os partidos marxistas continuem puros, e a integridade moral deve ser um traço fundamental para que os funcionários continuem limpos, honestos e íntegros». R. MacFarquhar começa por fazer uns cálculos simples. O partido tem 80 milhões de membros, e o próprio órgão de controlo do partido calcula que, no mínimo, 10% dos quadros de base são corruptos, o que representará uns oito milhões de funcionários. Se juntarmos a estes os milhões de esposas, filhos, familiares e parentes próximos, chega-se a uns 40 milhões de pessoas suscetíveis de serem perseguidas. Conclusão: abanar este gigantesco edifício corrupto significa deitar abaixo o partido, a estrutura de base do Estado da segunda potência mundial. Mais do que perigosa, a tarefa do camarada Xi é praticamente impossível.

    A natureza da burguesia vermelha chinesa assenta em valores que tem origem na sua formação recente: a desigualdade assumida, a agressividade e a arrogância, o poder do mais forte, a violência nua e crua. Num recente livro sobre as tendências rebeldes esmagadas por Mao durante a Grande Revolução Cultural, Yichung Wu (The Cultural Revolution at the Margins, Harvard University Press, 2014) mostra que a «Teoria da linha do sangue vermelho», esteve na origem da GRC, e a sua defesa justificou a terrível repressão das tendências radicais que a criticavam. A « teoria » atribuía «qualidades» particulares aos membros da elite partidária, as quais depois se «transformavam» em «características» quase naturais e transmissíveis de pais para filhos. Uma ideologia que serviu para reproduzir e consolidar a nova classe dirigente, que governa pela repressão aberta, não pela negociação ou pelo consenso interclassista. O que explica Tian anMen e hoje as respostas violentas aos movimentos de greve e de camponeses espoliados. A corrupção, que é apenas um dos aspetos desta especificidade de classe, foi depois reforçada pela força do desenvolvimento capitalista. Para R. MacFarquhar, o camarada Xi tem poucas opções e terá de contemporizar para evitar uma reação do aparelho. Nada melhor do que a aventura nacionalista para ocultar as dificuldades sem perder a face e mobilizar o povo. E assim a resposta à catástrofe de Tianjin – de que foi responsável direta a corrupção – acabou por ser um desfile militar mostrando a potência da China  no mundo…

    Mas a crise do político é também o resultado da crise da economia. O capitalismo chinês entra numa grave crise de rentabilidade, o investimento reduz-se e os capitais orientam-se para o campo especulativo com as consequências que se sabe sobre o agravamento da recessão global. À espera de clarificação política, insegura, a burguesia vermelha procura pôr o cacau especulativo em sítios mais tranquilos[ref]Na recente caída das bolsas chinesas, só em julho de 2015, evaporaram-se fundos equivalentes a seis vezes a dívida grega[/ref]. Aparecem assim os Vistos Gold, na Inglaterra, no Canada, em Espanha e em Portugal. Num país que está à venda, o Chico esperto dos submarinos procura captar umas centenas de milhares de euros dos capitais especulativos. A isso ele chama: « dinamizar a economia ». Como dizia o surrealista belga Camille Goemans, «Uma boa mentira vale mais do que um grande discurso!»

    E é assim que as ondas de choque deste tremor de terra chegaram a Alfeizerão. O Sr. Chiyu Lyu, membro da burguesia vermelha, tinha uma irmã que estudava na Alemanha e que se apaixonou por um imigrante, vindo a casar em Alfeizerão. Só que, na globalização, as histórias de amor acabam de maneira tenebrosa. O Chiyu Lyu veio à boda, gostou da Ginja de Alcobaça e decidiu comprar ali mesmo uns 7 hectares para construir uma colónia chinesa, 57 moradias de luxo, hotel, piscina, ténis, e mesmo uma escola de mandarim, tudo muito ecológico e segundo os princípios harmoniosos do Feng Shui. Que é a última obsessão da burguesia chinesa, que depois de ter criado um desastre ecológico sem precedente gosta de viver em redutos protegidos com ar puro. Só que os terrenos pertencem à Reserva Agrícola Nacional e há quem se ofusque. O Chyiu Lyu está furioso. Como assim, o que é isso da RAN? A China é a segunda potência mundial e estes camponeses estão a levantar obstáculos ao meu desejo pessoal? Campo de trabalho para esta gente, já!

    «Vamos andando», suspira o vizinho. «Levados, levados sim», cantava o hino fascista. E nisto estamos, entre a Driscoll’s e o Feng Shui de Alfeizerão. Entregues aos bichos! O que, obviamente, é inaceitável e não aceitamos. Como aconselhavam os anarquistas de 1920, deixemos o pessimismo para tempos melhores. O tempo trará outros possíveis.

    Setembro 2014,
    Jorge Valadas

  • Festa da Primavera, 21 de Março em Odemira

    Festa da Primavera, 21 de Março em Odemira

    Mercado de produtos locais e actividades diversas na festa da Primavera, dia 21 de Março, no Largo da Cooperativa de Consumo de Relíquias, em Odemira. Vai estar presente uma banca do Mapa e a Reco vai apresentar a palestra “O que é o TTIP, Tratado Transatlântico sobre o Comércio e Investimento? Suas implicações e ameaças”.

     

    FestaPrimavera

    evento no fb: https://www.facebook.com/events/416454118533318/