Várias associações e movimentos de territórios que são alvo da «febre mineira» [ref]Associação Montalegre Com Vida; Associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso;
Corema – Associação de Defesa do Património | Movimento de Defesa do Ambiente e Património do Alto Minho; Em Defesa da Serra da Peneda e do Soajo; Movimento Minas Não; Movimento ContraMineração Beira Serra; Movimento Contramineração Sátão e Penalva; Movimento Estrela Viva; Movimento Não às Minas – Montalegre; Movimento SOS Serra d’Arga; PNB – Povo e Natureza do Barroso; SOS – Serra da Cabreira – BASTÕES ao ALTO!!; SOS Terras do Cávado; Fundação Montescola.[/ref] vão manifestar-se em Lisboa, no próximo dia 5 de Maio, a partir das 11h, junto ao Centro Cultural de Belém, para repudiar a narrativa «verde» que serve de mote à Conferência Europeia sobre Green Mining que aí decorre nesse dia no âmbito da presidência portuguesa da União Europeia (UE). Na véspera, a 4 de Maio, o Jornal MAPA, em conjunto com a Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, promove uma conversa com elementos desses movimentos sob o tema «Qual é a cor das minas aos olhos de quem lá vive?». E, ainda antes, no dia 1 de Maio, na Disgraça, há uma outra conversa, organizada pela Agenda virtual de luta contra as minas na Península Ibérica. Mais a norte, na Galiza, de 2 a 9 de Maio, a Contraminacción, rede contra a minaría destrutiva de Galiza organiza o seu 5º Encontro sobre os impactos da mineração.
«Aproveitando a ocasião da Conferência Europeia sobre Green Mining, que se realiza em Lisboa no próximo dia 5 de Maio e conta com a presença dos ministros do ambiente da zona Euro, os movimentos cívicos anti-mineração portugueses, juntamente com alguns parceiros estrangeiros, irão manifestar-se à porta do evento, junto ao Centro Cultural de Belém, às 11h, para mais uma vez declarar a sua oposição ao projecto de fomento mineiro do governo português». Eis o que se pode ler no comunicado que os grupos organizadores enviaram à imprensa a anunciar a manifestação em que pretendem alertar para a falácia que é a mineração verde, ou green mining», que, para estes colectivos, é apenas «uma outra forma de extractivismo e poluição, com consequências dramáticas para os territórios afectados, sobretudo a destruição do ambiente e dos recursos indispensáveis à vida e ao futuro das gerações vindouras».
Para enquadrar a manifestação, as associações e movimentos organizadores lançaram um Manifesto de repúdio à narrativa Green Mining, onde afirmam que a própria opção pelo método de mineração a céu aberto demonstra que a exploração «é impulsionada por proporcionar menores custos e maiores lucros» e não por qualquer preocupação ambiental ou social. O Manifesto começa por analisar o quadro político em que a febre do minério se dá, ou seja, o momento em que, depois da «crise económica de 2008, a Europa [se] viu confrontada com a necessidade de se aprovisionar de matérias-primas que designou críticas, antecipando circunstâncias geopolíticas e financeiras que pudessem obstaculizar o acesso aos seus fornecedores habituais». Ao mesmo tempo, perante a necessidade de combater as alterações climáticas, «a Europa traçou planos e objectivos de descarbonização alicerçados na substituição dos veículos com motores de combustão por veículos eléctricos (assumindo neste âmbito um compromisso com a indústria automóvel)». Em consequência, e ao invés de dar prioridade à redução do parque automóvel e à substituição do transporte individual pelo transporte colectivo, a UE «passou a afirmar a necessidade de desenvolver a produção de baterias, cujos componentes são, na sua generalidade, obtidos pelo recurso à mineração».
Para os signatários, estamos «perante um grave conflito entre Ecologia e Economia, uma vez que atingir um objetivo aparentemente benéfico para o Ambiente, assente numa eventual redução dos gases de efeito de estufa, passa por exigir o sacrifício de vastas áreas perdidas para a mineração. Uma verdadeira Economia, com uma gestão adequada do planeta e dos seus recursos finitos, deveria sempre ser ecologicamente sustentável, o que é incompatível com a indústria extractiva massiva».
Os promotores desse extractivismo são, assim, acusados de desenvolver «a narrativa do Green Mining» para ultrapassar a dificuldade de «obter aprovação da sociedade e das populações directamente afectadas» e também como forma de escamotear que «a mineração nunca é sustentável, uma vez que os recursos minerais não são renováveis». Para reforçar o seu ponto de vista, expõem detalhadamente uma quantidade de dados, entre os quais alguns relacionados com a perda de biodiversidade, a diminuição da área fértil, a «alteração, que pode ser permanente, do funcionamento hidrogeológico do subsolo», os «incalculáveis consumos de energia das operações de extracção, lavagem, concentração e transporte dos minérios», as possibilidades de reacções químicas que produzam ácido sulfúrico ou poluição radioactiva ou «a impossibilidade de retomar o uso dos terrenos mobilizados».
Finalmente, para além de notarem que «a participação cívica (…) é sistematicamente reduzida a consultas multi-stakeholder ou outros protocolos não vinculativos com as comunidades afectadas», os movimentos signatários «exigem a abolição do eufemismo Green Mining e do marketing Green Washing associado, e o acesso à informação verdadeira, clara e transparente que urge sobre as operações de fomento mineiro que envolvem Portugal e a União Europeia. Perspectivando o futuro, exigimos a adopção de um modelo de desenvolvimento que se afirme como intrinsecamente sustentável, assente na valorização do território, na preservação do ambiente e no papel activo da cidadania, factores promotores da qualidade de vida, do bem-estar social e do respeito pelos valores naturais, patrimoniais e culturais enquanto elementos de manutenção e construção da sociedade que pretendemos delegar para as gerações vindouras. A mineração nunca é verde!»
- Manifestação «Não há Minas Verdes» – 5 de Maio – 11h00 – CCB
- Conversa na Disgraça «A luta contra a mineração no Norte de Portugal e na Galiza» – 1 de Maio – 16h00
- Conversa na Casa da Achada «Mineração verde ou negra destruição?» – 4 de Maio – 18h30
- 5º Encontro sobre os impactos da mineração (Galiza)







As sessões foram intensas. A empresa vinha preparada para apresentar o seu discurso de extração de minério «quase sem impacto na segurança das populações e no ambiente», de «reaproveitamento e recirculação de águas», de «sem o uso de químicos». Talvez por subestimarem a inteligência no mundo rural, o que transpareceu foi que tudo se limitou a um procedimento cosmético, de mero protocolo, feito contra a vontade e, por isso, generalista, pobre e incapaz de responder à mais pequena dúvida que saísse do seu guião. A população e os movimentos contestatários, por outro lado, têm há muito a lição bem estudada, sabem exactamente como funciona o verde teatro publicitário da indústria mineira e iam à procura de desmontar os argumentos contrários.
A autarquia de Montalegre e a Junta de Salto são definitiva e incondicionalmente a favor da mineração e têm mais tendência para ser agressivos com os concidadãos que oficialmente representam do que com os gestores das empresas de mineração. Para além disso, esta pequena «vitória», este pequeno episódio de «não esclarecimento», indica também que a indústria, a exemplo do governo, acha que está a lidar com uma «cambada de gente humilde», que é como chamam a quem consideram ligeiramente pouco educado, quando não bronco ou até atrasado mental. Esta visão insultuosa das populações rurais é, neste momento, um dos grandes focos aglutinadores da luta. Tanto quanto não querer minas, estas populações estão fartas de ser tratadas como irrelevantes e dispensáveis, a quem nunca ninguém pergunta nada antes de lhes alterar profundamente o modo de vida.





Foi também recorrentemente lembrado pelas vozes anti-mineração na Casa da Achada que, mesmo pensando nos termos caros ao capitalismo, entre rebentamentos e poeiras, gasto excessivo e contaminação de águas, perda de produtividade agrícola, desvalorização dos terrenos circundantes e desaparecimento do investimento (para além do que é feito nas minas), o preço a pagar é claramente superior aos proventos anunciados. O truque, como sempre, é transferir os custos para as populações locais, os lucros para as empresas e os impostos para o Estado. A agricultura enquanto actividade económica deteriora-se, o terreno, que era também mealheiro, perde valor, a paisagem fica atractiva apenas para os raros que preferem ver uma cratera de 800 metros de diâmetro por 300 de profundidade a vistas mais naturais e verdejantes.