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  • Pacto sobre Migração e Asilo: o acordo cada vez mais próximo

    Pacto sobre Migração e Asilo: o acordo cada vez mais próximo

    A 20 de Dezembro, Comissão Europeia, o Parlamento Europeu e a Presidência espanhola do Conselho regozijavam-se com o acordo que finalmente põe em prática o Novo Pacto sobre Migração e Asilo. Um Pacto sinistro, digno de ter sido parido pela mais extrema das direitas.

    Ao fim de mais de três anos de negociações, «a Presidência espanhola do Conselho e o Parlamento Europeu chegaram a acordo sobre os principais elementos políticos de cinco regulamentos fundamentais que irão reformular profundamente o quadro jurídico da UE em matéria de asilo e migração», anunciou em comunicado o Conselho da UE, a estrutura que junta os Estados-membros. O que quer dizer que o famoso Pacto sobre Migração e Asilo, de que temos vindo a falar há tanto tempo, conseguiu finalmente impor-se e ultrapassar o crivo moral, democrático e respeitador de direitos e dignidades que as mentes mais ingénuas costumam ver no Parlamento Europeu.

    Em concreto, foram acordadas cinco leis «que abrangem a todas as fases da gestão do asilo e da migração, desde o rastreio dos migrantes irregulares quando chegam à UE, à recolha de dados biométricos, os procedimentos para a apresentação e tratamento dos pedidos de asilo, as regras para determinar qual o Estado-membro responsável pelo tratamento de um pedido de asilo e a cooperação e solidariedade entre os países e a forma de lidar com situações de crise, incluindo casos de instrumentalização de migrantes». O acordo ainda preliminar, que deverá ser aprovado nos próximos meses primeiro pelo Parlamento e, mais tarde, pelo Conselho, surge dias depois de a Frontex ter afirmado que o número de «travessias irregulares» para o território europeu foi o mais alto desde 2016. Ultrapassaram os 335 mil incidentes nos primeiros 11 meses do ano, de acordo com a agência fronteiriça.

    Um conjunto de leis que a deputada europeia Isabel Santos, do PS e, portanto, uma das responsáveis pelo «sim» do Parlamento Europeu, considera pouco «humanizado». Parvin A., uma mulher que foi espancada, detida e expulsa da Grécia seis vezes, tem outras palavras, numa voz a que a Amnistia Internacional deu eco: «Se realmente avançarem com este Novo Pacto, isso será contra qualquer tipo de direitos humanos ou de refugiados. Estão a brincar com a vida de pessoas vulneráveis e em perigo». Outra voz que se ouve no mesmo artigo é a de Michele LeVoy, directora da Plataforma para a Cooperação Internacional sobre Migrantes Indocumentados (PICUM, na sua sigla em inglês): «O Pacto sobre Migrações, na sua forma actual, abre a porta a abusos, dando o apoio implícito e explícito da UE à privação arbitrária de liberdade e às graves violações dos direitos humanos que se tornaram comuns nas fronteiras da UE ou na sua proximidade».

    Numa carta aberta enviada, ainda antes do acordo final, à Comissão Europeia, à Presidência (espanhola) do Conselho e ao Parlamento Europeu, cerca de 50 ONG escreveram: «Se for adoptado no seu formato actual, [o Pacto] normalizará o recurso arbitrário à detenção de migrantes, incluindo crianças e famílias, aumentará a discriminação racial, utilizará procedimentos de “crise” para permitir a expulsão de migrantes e fará com que as pessoas regressem aos chamados “países terceiros seguros”, onde correm o risco de violência, tortura e detenção arbitrária».

    Aos Estados mais expostos à pressão migratória, nomeadamente os mediterrânicos, este Pacto permite uma gestão fronteiriça mais elástica, pagando a Estados «seguros», como a Turquia, a Líbia, o Egipto ou a Tunísia para fazerem o trabalho de polícia fronteiriça ainda nos seus territórios, reduzindo as garantias processuais de forma a aumentar as deportações, limitando o acesso à assistência jurídica para os requerentes de asilo, reforçando a legitimidade dos pushbacks [ref] A este respeito, num documento interno da Presidência espanhola que indicava o andamento das negociações com o Parlamento Europeu (PE) e definia algumas linhas vermelhas para chegar a acordo com esse mesmo PE, podia ler-se: «O acordo final garantirá um procedimento fronteiriço obrigatório eficaz e significativo, com plena aplicação da ficção jurídica de não-entrada, que constitui um elemento-chave da reforma». O que isto significa, na prática, é que, apesar de as pessoas estarem fisicamente presentes no território de um Estado-membro da UE, a lei decretará que elas ainda não entraram efetivamente nesse Estado-membro – e, portanto, podem ser sujeitas a detenção e rastreio nas fronteiras, com vista a uma rápida deportação. Para além disso, o Conselho não aceitou o controlo das operações de vigilância das fronteiras – muitas das quais conduzem, obviamente, a expulsões violentas de pessoas que procuram segurança.[/ref], aumentando o recurso à detenção. Os grupos de defesa dos direitos humanos que estão a fazer uma última tentativa para travar o Pacto alertaram para o facto de que dar às autoridades o poder de submeter as pessoas que já se encontram na UE ao procedimento de rastreio aumentará «o risco de caracterização racial das pessoas que vivem e vêm para a Europa, independentemente da sua cidadania ou estatuto de residência», uma vez que os funcionários tratarão a cor da pele como um indicador do estatuto de migrante.

    Aos Estados que ficam mais longe das fronteiras externas da UE, o Pacto define um mecanismo de «solidariedade obrigatória» que, em teoria, significaria a disponibilidade de todo o território da UE partilhar o abrigo dos refugiados que, dessa forma, deixavam de pressionar o Estado onde tinham chegado. Na prática, como afirmou Sara Prestianni, da EuroMed Rights, «os Estados podem simplesmente esquivar-se às suas responsabilidades pagando armas, muros e campos de detenção em Estados fronteiriços ou em países terceiros com um historial sombrio em matéria de direitos humanos», para além duma coima de 20 mil euros por cada refugiado que um Estado membro recuse receber.


    Fotografia [em destaque] de:  Julie Ricard na Unsplash

  • Massacre de Melilla: as fronteiras são actos de violência

    Massacre de Melilla: as fronteiras são actos de violência

    A 24 de Junho, cerca de 2,000 pessoas tentaram saltar a vedação entre Marrocos e Melilla. A repressão foi brutal e resultou em 40 mortos, de longe o maior número de vítimas numa só tentativa de cruzar esta fronteira. Um resultado que sublinha a natureza mortífera das políticas fronteiriças da UE.

    Concertinas

    Melilla é uma das duas cidades espanholas autónomas localizadas em continente africano, ou seja, um dos dois únicos pontos de entrada terrestre na UE a partir de África, fazendo fronteira com Marrocos através de uma barreira de seis metros de altura e 11,5 Km de extensão. Toda a cidade é, aliás, uma espécie de prisão invertida, salpicada de fossos, torres de vigia, cães de guarda, patrulhamentos constantes. A BBC Brasil chama-lhe «a fronteira mais fortificada da Europa». Essa barreira é constituída por altos muros encimados por concertinas, onde se concentram e se mutilam, quando não se extinguem, sonhos e ansiedades. As concertinas, apesar do nome alegremente musical, são, na verdade, um tipo de arame farpado – estruturas tubulares de aço, rígidas, com acabamentos de lâminas afiadas.

    Os relatos das tentativas de salto raramente têm finais felizes. Mesmo quando conseguem passar, as pessoas nunca o fazem sem consequências graves, que vão de tíbias partidas a cortes em tendões. Os panos, mesmo os mais grossos, não são suficientes para evitar as lâminas das concertinas. Para quem não consegue atravessar, o destino é quase certo: espancamento, detenção e envio forçado para a fronteira sul de Marrocos.

    Perto de Melilla, na serra de Nador, milhares de pessoas vivem à espera de ver chegar o dia em que consigam transpor o muro, rumo à Europa prometida. De tempos a tempos, a polícia marroquina faz incursões, as mais das vezes violentas, com recurso a força bruta, intimidações e destruição das barracas onde sobrevivem.

    Esses migrantes utilizam a chamada rota ocidental, uma das rotas mediterrânicas habituais usadas pelos africanos subsaarianianos para chegar à Europa. Um número cada vez maior tem escolhido esta via, dado o aumento do risco da rota oriental, via Turquia, e da central, via Líbia, depois dos acordos de «gestão de fluxos fronteiriços» que a UE firmou com estes dois Estados. Do mesmo modo, a rota que atravessa Marrocos tem-se tornado cada vez mais mortal e pela mesma razão: a UE paga a Estados não membros para sujarem as mãos por ela. No caso, Marrocos, conforme demos nota aqui.

    O salto para a morte

    Na manhã de 24 de Junho, cerca de 2.000 pessoas desceram de Nador, aproximaram-se da fronteira e começaram a saltar a vedação. Foram violentamente reprimidas por forças conjuntas marroquinas e espanholas. De acordo com um balanço das autoridades locais, o número de mortos é de pelo menos 18, enquanto várias ONG afirmam que as vítimas são na realidade muitas mais: pelo menos 37 (um número posteriormente actualizado para 40), de acordo com a conhecida activista espanhola Helena Maleno, porta-voz de Caminando Fronteras. A ONG Walking Borders confirmou esses números e informou ainda que havia 35 internados em estado grave.

    As tentativas de salto são praticamente diárias. Muitas vezes efectuadas em grupos pequenos. De quando em quando, há uma destas «avalanches», que servem, não só como tentativa real de transpor a fronteira, mas também como visibilização da brutalidade com que são tratadas diariamente. Um grupo tão impressionante de pessoas torna impossível que as autoridades consigam abafar os acontecimentos. E, na verdade, no próprio dia, já circulavam imagens de um jovem de 20 anos que permanecia pendurado no alto da cerca, apesar do arame farpado e do sistema de electrificação. Em baixo, do lado marroquino, dois agentes tentavam fazer com que caísse, atirando-lhe pedras. Quando finalmente desceu da cerca, foi empurrado para um amontoado de pessoas, cerca de 500 migrantes deitados no chão, alguns aparentemente já mortos, sob a vigilância violenta dos guardas marroquinos. As imagens divulgadas no Twitter da Associação Marroquina dos Direitos Humanos (AMDH) mostram essa cena que tem tanto de habitual como de distópica.

    Omar Naji, activista da AMDH, foi uma das poucas testemunhas no local. Numa entrevista publicada no ENASS, um meio de comunicação digital marroquino independente, afirmou que os migrantes, do Sudão e de outros lugares da África subsaariana, foram atirados ao chão, muitos deles feridos e deixados sem tratamento médico durante várias horas. Um morador de Nador, Tareq (nome fictício), contava à jornalista do El País no local: «Era tudo sangue, tudo sangue… sangue na cabeça, pele rasgada, pés partidos, mãos partidas», acrescentando que «os que não tinham morrido acabaram por morrer, bateram-lhes muito».

    Algumas ONGs conseguiram obter informações em hospitais, esquadras e através dos próprios migrantes e relataram que a maioria das mortes se deu ao cair da cerca da fronteira ou por asfixia ou esmagamento junto à vala, na debandada. Os maus-tratos policiais, com bastonadas constantes no amontoado de gente, também foram denunciados, assim como o facto de, durante as primeiras horas da crise, os migrantes gravemente feridos não terem recebido atendimento médico. Ainda nas palavras de Helena Maleno: «Estiveram lá todos desde o meio-dia, ali, atirados ao chão, ao sol, a sangrar». «As vítimas agonizaram durante horas sob os olhares cruéis dos que deviam socorrê-los e não o fizeram».

    A EuroMed Rights, uma rede de 80 organizações de direitos humanos na Europa e na região do Mediterrâneo, divulgou uma declaração assinada por 45 grupos marroquinos e europeus de direitos humanos onde afirma que este acontecimento era previsível, dado o histórico de prisões em massa, buscas em campos de refugiados e transferências à força de refugiados para o sul de Marrocos. A EuroMed Rights disse ainda: «No último ano e meio, os refugiados em Nador foram privados de medicamentos e cuidados de saúde. Os seus acampamentos são queimados e os seus bens são levados embora e a já escassa comida é destruída, ao mesmo tempo que qualquer água potável que eles tenham é confiscada».

    Estes 40 mortos são o «símbolo trágico das políticas da União Europeia e da externalização das suas fronteiras», escrevem, num comunicado, cinco organizações não-governamentais espanholas e marroquinas. «A morte destes jovens africanos nas fronteiras da “fortaleza europeia” sublinha a natureza mortífera da cooperação securitária em matéria de migração entre Marrocos e Espanha», lê-se ainda no texto. Ou, nas palavras bem mais abrangentes da Assembleia Anti-Fascista de Londres, este massacre, que, «longe de ser um incidente isolado, se está a transformar na norma por toda a Europa», não nasce do comportamento de determinado governo, é antes o «resultado directo da lógica das fronteiras e dos Estados-Nação, que divide, desumaniza e mata pessoas com base em linhas arbitrárias num mapa». Uma lógica que não se implementa apenas nas fronteiras físicas dum país, mas «em muitos níveis da sociedade, com acesso desigual a saúde, habitação, educação e emprego, com criminalização e perseguição pelas autoridades e com a disseminação duma retórica anti-imigração que transforma toda a gente num guarda fronteiriço».

    O migrante como invasor violento

    O massacre de Melilla aconteceu cinco dias antes da cimeira da NATO em Madrid, que acabou por definir um novo conceito estratégico para a organização. Os meios de comunicação, na sua simplificação habitual, informaram-nos que se tratou de apontar a Rússia e a China como os inimigos principais. Do lado de fora das notícias, ficou o facto de, da agenda política da NATO, fazer igualmente parte a imigração enquanto ameaça à segurança do «ocidente», numa abordagem armada aos fluxos migratórios que se desenha desde a cimeira que a Aliança realizou em 2010, em Lisboa.

    Pedro Sánchez, chefe do executivo de Madrid, em reacção ao sucedido, afirmou que se tratara dum «ataque violento e organizado», um «ataque à integridade territorial» de Espanha, por detrás do qual haveria «máfias que traficam seres humanos». Um argumento também partilhado pelo governo marroquino. Referindo-se à resposta policial, o presidente do governo espanhol assegurou que tudo «foi bem resolvido», colocando o adjectivo «violento» do lado dos migrantes. Tais comentários entendem-se melhor à luz do facto de este massacre ter acontecido três meses depois da cedência de Sánchez às pretensões do rei Mohamed VI sobre o plano de autonomia do Saara Ocidental em troca duma mão de ferro marroquina no controlo dos migrantes.[ref]As relações entre Espanha e Marrocos deterioraram-se em 2021, quando Espanha permitiu que o líder da Frente Polisário, Brahim Ghali, recebesse tratamento de saúde no seu território, sem informar o governo marroquino. Em resposta, Marrocos fez vista grossa a 8.000 migrantes, incluindo 1.500 menores, que entraram em Ceuta durante dois dias. Em Março, Marrocos e Espanha chegaram a um acordo de cooperação para restabelecer as relações, principalmente sobre o território do Saara Ocidental, uma ex-colónia espanhola que Marrocos anexou. O acordo de Março reforçou a cooperação conjunta para reduzir a migração com destino à Europa.[/ref]

    A este propósito, o comunicado da Plataforma das Associações e Comunidades Subsaarianas em Marrocos, da Caminando Fronteras, ATTAC, AMSV e AMDH é lapidar: «O reatar da cooperação securitária na área das migrações entre Marrocos e Espanha, em Março, resultou na multiplicação das acções coordenadas entre os dois lados, medidas marcadas por violações dos direitos humanos das pessoas em migração».

    Nos dias seguintes, as autoridades marroquinas iniciaram o habitual envio forçado e selvagem de migrantes para outros locais do país, mais longe da fronteira com a UE, nomeadamente Khouribga (Juribga), Beni Mellal, Fqih Bensaleh (Beni Amir), Errachidia e Tarudante. No final de Junho, isso acontecera já a cerca de 1.300 pessoas, algumas delas gravemente feridas. «Forçado», dizemos, porque nada é perguntado a quem é metido em camionetas e enviado para essas localizações, e «selvagem», porque apenas aparentemente baseado na lei 02-03 (de 2018), que permite estes expedientes mas obriga a que tenham algum tipo de controlo judiciário, coisa que raramente acontece.

    Para além disso, houve ainda um grupo de refugiados, todos sudaneses, que ficaram em prisão preventiva. As acusações: insultos e violência sobre agentes da autoridade e forças da ordem no exercício das suas funções; desobediência; destruição de bens públicos; posse de armas brancas; atentado à ordem pública e a pessoas e bens; assalto e agressão com arma; facilitação e organização da saída de um grupo de estrangeiros do território nacional de forma clandestina; entrada e saída de território nacional de forma clandestina. Uma lista longa de alegados delitos, 36 arguidos, repartidos entre dois grupos, onde existe um refugiado menor – eis os componentes deste processo.

    Os advogados dos migrantes (arranjados por organizações de defesa dos direitos humanos) exigiram, na primeira audiência, a 4 de Julho, um relatório das autoridades, de forma a poderem preparar a defesa. Exigiram ainda a libertação provisória dos arguidos mas esta exigência caiu em saco roto e foi recusada pelo tribunal. Uma audiência posterior, de 19 de Julho, deu o veredicto: 33 pessoas condenadas a 11 meses de prisão efectiva. Omar Naji, da AMDH Nador, exprimiu o seu descontentamento com esta decisão: «este julgamento foi muito severo, eles trataram os dossiers de todos os refugiados da mesma forma, sem ter em conta a situação de cada um e, nesse sentido, a próxima etapa é dirigirmo-nos ao Tribunal da Relação (Cour d’appel) para defender os direitos destes refugiados», que, no dia anterior, tinham declarado a sua inocência.

    Não se fala mais nisso

    Várias ONG, assim como as Nações Unidas ou a EuroMed Rights, já pediram uma investigação profunda e independente ao massacre de Melilla, de forma a determinar responsabilidades, assim como para identificação das vítimas e entrega dos seus corpos às famílias. Naji disse que foram contactados por famílias de jovens do Sudão que se acredita estarem entre as vítimas, mas não tiveram permissão para ver os corpos ou as dezenas de migrantes feridos.

    Entretanto, de acordo com o jornal The Guardian, há activistas que acusam Marrocos de tentar encobrir a violência de Melilla, enterrando os mortos sem investigação ou autópsia, e sem fazer qualquer tipo de esforço para identificar os corpos, preservá-los de maneira digna e permitir determinar a causa das mortes.

    No final de mais de 2 semanas após o massacre e com dezenas de migrantes que continuavam (e continuam) desaparecidos, perante o silêncio das autoridades marroquinas e a complacência e o apoio da UE, e perante a falta de seguimento dada ao assunto, a AMDH tentou contactar o hospital de Nador para «verificar algumas imagens que recebemos de migrantes que suspeitamos estarem mortos. Recusaram-se a colaborar, dizendo que essa informação diz respeito ao ministério do interior».

    A 20 de Julho, a AMDH apresentava publicamente a sua versão dos incidentes de Melilla num relatório de 21 páginas a que chamou “A tragédia no posto fronteiriço de Bario Chino: um crime desprezível das políticas migratórias europeias, espanholas e marroquinas”. De acordo com esta ONG, há 64 pessoas desaparecidas, «dezenas de feridos e de expulsões devido a uma repressão sem precedentes por parte das autoridades marroquinas com a cumplicidade dos seus homólogos espanhóis». O número de pessoas desaparecidas foi obtido graças a uma recolha de testemunhos e informações directamente junto das famílias dos desaparecidos, principalmente sudaneses. «Continuamos a receber mensagens, com fotografias da identidade de pessoas que podem ter desaparecido, que verificamos e publicamos nas nossas redes sociais», diz a AMDH Nador. A associação foi à morgue com fotografias das pessoas desaparecidas para identificar os corpos, mas foi-lhe recusada a entrada.

    Migrantes: peões num jogo racista

    A grande e recente empatia com os migrantes ucranianos, já se sabia, não existe quando se está perante pessoas não brancas. Nem nos governos de direita do leste europeu nem nos «progressistas» do extremo ocidental. Pelo que é preciso dizer que estas mortes são deliberadas: um produto directo e esperado da falta de vias legais de migração e da subcontratação de gestão de migrantes que a UE faz em territórios onde sabe que as autoridades têm mais margem de manobra. Uma margem que – também é sabido pelos líderes europeus, ainda que constantemente retirado do foco das suas opiniões públicas – não tem grandes limites. E, se pensarmos mais profundamente, não se pode apontar o dedo exclusivamente aos governantes.

    A Europa-Fortaleza consegue, assim, mais uma vitória na arte de intimidação de migrantes e requerentes de asilo, ao mesmo tempo que os pinta, a todos, como invasores violentos. Uma política, uma atitude e um discurso que vão ao encontro da agenda das forças de extrema-direita que prosperam um pouco por todo o território europeu. Esta reto-alimentação entre fascistas e Estados ditos democráticos é uma das linhas da espiral negativa em direcção a uma cada vez maior e mais brutal violência fronteiriça etno-nacionalista.

    Como sempre, as fronteiras existem apenas em função do grau de pobreza e de melanina na epiderme e estes migrantes são menos do que meros peões num jogo político, são pessoas descartáveis e não desejadas. No caso do massacre do passado dia 24 de Junho, assim como no da situação na fronteira entre a UE e a Bielorrússia, de que demos conta aqui e aqui, sem esquecer o muito bem conhecido caso da fronteira turco-grega ou o menos relatado inferno da «rota dos Balcãs», já não se pode falar apenas em «deixar morrer». Na verdade, o que se passa é, basicamente, um assassinato, uma vez que se impedem as pessoas de atravessar uma fronteira com um risco muito concreto e muito elevado para as suas vidas. Não é negligência. É, no mínimo, dolo. As negociações entre a UE e os Estados a quem entrega o seu policiamento fronteiriço são levadas a cabo à custa de vidas humanas.

     

  • Solidariedade de armazém

    Solidariedade de armazém

    A Comissão [Europeia] congratula-se com o facto de os Estados-membros terem acordado hoje o início da implementação de um mecanismo de solidariedade voluntária, oferecendo relocalizações, contribuições financeiras e outras medidas de apoio aos Estados-membros necessitados. Este é um passo significativo para o Novo Pacto sobre Migração e Asilo da Comissão Europeia, particularmente sobre a necessidade de proporcionar solidariedade equilibrada com responsabilidade». Estas eram as palavras iniciais do comunicado de imprensa da Comissão Europeia (CE) do passado dia 22 de Junho, onde anunciava, então, o arranque definitivo desse «mecanismo de solidariedade» entre estados que vêem os migrantes como fardos, objectos sem consciência nem vontade com os quais é preciso lidar em modo de gestor de armazém.

    Campo de refugiados de Szeged (Sul da Hungria)
    Campo de refugiados de Szeged (Sul da Hungria)

    Nesse mesmo comunicado, apareciam ainda as reacções de Margaritis Schinas, Vice-Presidente da CE para a Promoção do Modo de Vida Europeu, que não esconde que o objectivo não passa de facto pela garantia de dignidade das pessoas que migram, tratando-se, antes, de «ajudar a aliviar de imediato alguma da pressão sobre os estados-membros que, pela geografia, recebem a maioria das chegadas à UE». Mattea Weihe, porta-voz da ONG Sea-Watch, coloca o seu dedo exactamente neste ferida: «Solidariedade com quem? No centro do mecanismo de solidariedade voluntária não estão os direitos de quem procura protecção mas a opção dos estados da UE de comprarem o abandono das suas responsabilidades à custa das pessoas em movimento».

    O mecanismo de solidariedade voluntária é, então, uma ferramenta de recolocação de migrantes noutros países que não os de chegada (e também os que sejam resgatados no mar). Isto, claro, sem que essas pessoas sejam consultadas, no seguimento lógico duma política que dá prioridade a manter os números de chegadas baixos em detrimento da resolução dos problemas que são a raiz dos fluxos migratórios ou até da mera criação de um sistema sustentável de partilha de responsabilidades. Este «novo» mecanismo surge na sequência dum encontro ministerial informal que decorreu a 3 de Fevereiro, em Lille. Na altura, a presidência francesa da UE propôs que os estados membros chegassem a um acordo de solidariedade voluntária. O acordo do passado dia 22 de Junho foi o tiro de partida para a sua implementação. Aí se pode confirmar que inclui, no seu âmbito, o Mediterrâneo, a Grécia e Chipre. Envolve a recolocação de migrantes, assumida como o «método prefencial de solidariedade», mas afirma prontamente que também será possível ser-se «solidário» através do apoio financeiro para a externalização de controlos fronteiriços ou para a fortificaçao das fronteiras e dos centros de detenção. Dá prioridade às pessoas «com necessidade de de chegada dos migrantes e que abre as portas a uma estratégia de filtragem de quem «interessa» e de quem «não interessa» ainda antes do início do processo de pedido de asilo.

    Ou seja, de acordo com o que diz Stephanie Pope, da organização Oxfam, trata-se de um mecanismo que «permite aos países da UE escolherem os seus requerentes de asilo a dedo. Também lhes permite afastá-los e, em vez de lhes proporcionar asilo, pagar por uma Europa Fortaleza, facturando a vigilância fronteiriça e os centros de detenção». O que é, afinal, a mera legitimação do status quo: «Permite aos países da UE continuarem a fugir às suas responsabilidades para com os refugiados e deixar os países nas fronteiras da UE a gerir a resposta da Europa aos refugiados. Como os últimos anos demonstraram, isto resultará em sistemas de acolhimento e asilo sobrecarregados, campos sobrelotados de pessoas deixadas no limbo e mais pushbacks nas fronteiras da Europa», diz ainda Stephanie Pope.

  • As políticas mortais da Europa-Fortaleza

    As políticas mortais da Europa-Fortaleza

    «No período 1993-2022, mais de 48.647 mortes podem ser imputadas à militarização das fronteiras, às políticas de detenção e às deportações»

    As “Políticas mortais da Europa-Fortaleza” é uma campanha da rede UNITED contra as consequências fatais da construção da Europa-Fortaleza. Esta rede tem monitorizado essas mortes e tem vindo, desde 1993, a construir uma “Lista de mortes de refugiados”. Esta lista sumariza informação do onde, do quando e em que circunstâncias essas pessoas morreram. «Em todos os casos de morte há mais documentação guardada no arquivo. Os dados são recolhidos através de investigação própria, de informação recebida das 550 redes de organizações em 48 países e de especialistas locais e investigadores no campo das migrações».

    Trata-se, assim, de uma lista em permanente actualização, cujos números são tornados públicos numa base anual, e que se traduz num mapa que não se limita, longe disso, às fronteiras externas da União Europeia. No passado dia 20 de Junho, Dia Mundial do Refugiado, a UNITED lançou os números actualizados dessa lista, afirmando que, «no período 1993-2022, mais de 48.647 mortes podem ser imputadas à militarização das fronteiras, às políticas de detenção e às deportações». O total é cerca de 4 mil mortes mais elevado do que há um ano. Uma contabilidade que está, por certo, incompleta. Nas palavras da própria rede, «é muito provável que haja ainda mais milhares», acrescentando que «estas são as consequências de quando a Europa fecha a porta e os olhos».

  • Uma fronteira segura é aquela que não existe

    Uma fronteira segura é aquela que não existe

    Contra o sistema de categorização de pessoas (um relato da No Borders Team / Poland)

    Ao longo da história, a humanidade tem migrado constantemente. O movimento de pessoas de lugar para lugar tem sido a força motriz por detrás da emergência de civilizações e da disseminação de invenções e ideias que viajaram com os grupos em movimento. Este processo não é, portanto, nada de novo ou invulgar. Também não precisamos de procurar exemplos distantes no tempo para nos apercebermos de que todos nós fomos migrantes em alguma fase da história. Há apenas 80 anos atrás, a Segunda Guerra Mundial forçou milhões de pessoas em todo o mundo a vaguear, muitas vezes de forma perigosa e contra a sua vontade. Basta olhar para as memórias dos nossos avós que foram forçados a abandonar as suas casas, que de repente se viram sob o domínio de outro país.

    As causas da migração contemporânea não são diferentes daquelas que conhecemos do passado. São o resultado de conflitos armados, anexações, limpeza étnica, alterações climáticas e pressões económicas. Neste momento, vale a pena responder à pergunta: quem é actualmente responsável pelo agravamento das condições de vida de milhões de pessoas, que são assim obrigadas a procurar outras áreas para viver?

    Há anos que os países do Norte global e que as empresas transnacionais têm vindo a tirar o seu capital dos conflitos locais e da miséria dos habitantes das áreas afectadas. Isto vai desde as guerras no Médio Oriente pelo controlo dos campos de petróleo e gás, passando pela exploração neocolonial e pelo apoio aos genocídios em África, até ao apoio tácito a organizações fanáticas que ajudam a desestabilizar regiões inteiras e fornecem um pretexto para a intervenção armada como parte do “estabelecimento da democracia”. As empresas ocidentais de armamento e energia estão a construir as suas fortunas com base na morte e exploração de pessoas. A prosperidade do Primeiro Mundo baseia-se na exploração do resto.

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    O impacto das alterações climáticas é muitas vezes negligenciado quando se considera a migração. Um factor cada vez mais visível que obriga as pessoas a abandonar os seus locais de residência são as guerras causadas pela diminuição dos recursos de água potável e terras férteis, e a consequente fome. Devemos, portanto, lembrar que a grande maioria das emissões de gases com efeito de estufa para a atmosfera é da responsabilidade do grande capital. Este é mais um exemplo de privatização dos lucros enquanto os custos são transferidos para os mais pobres. As empresas estão a tirar partido da mão-de-obra barata nos países do Sul global, ao mesmo tempo que destroem os ecossistemas. Esta é uma situação em que as pessoas são roubadas dos frutos do seu trabalho, bem como do ambiente natural em que viveram até à data. É a parte mais pobre da humanidade que suporta todos os terríveis custos da ideologia neoliberal do crescimento infinito do PIB, que só pode crescer absorvendo recursos escassos, exploração e conflitos armados que alimentam a economia.

    Por outro lado, os migrantes são também necessários para o crescimento do capitalismo no Primeiro Mundo, porque o sistema necessita de mão-de-obra barata. São também necessários para disciplinar o resto da sociedade através do medo. É por isso que todas as declarações da extrema-direita sobre a “necessidade de fronteiras estanques” e slogans sobre o “colapso da civilização europeia” não são levadas a sério pelos políticos fascistas; servem apenas para ganhar apoio numa sociedade intimidada.

    O fascismo é um instrumento do mundo capitalista, que este utiliza quando se sente ameaçado. No entanto, para que os migrantes cumpram a função prevista, é necessário mantê-los com medo. A existência precária, a ameaça de deportação, permissão ou recusa de trazer a própria família – todos estes são instrumentos de pressão através dos quais as autoridades querem manter o controlo absoluto sobre as pessoas. É uma espécie de campo de trabalho do século XXI que gostaria de oferecer às pessoas duas opções: trabalho duro e debilitante com salários correspondentemente baixos, ou privação de direitos e deportação para um lugar onde a sua vida ou saúde correria risco. A situação actual na fronteira oriental da Polónia é precisamente um dos resultados dos processos acima descritos. As autoridades introduziram um estado de emergência, tornando impossível a ajuda aos migrantes. Os guardas fronteiriços polacos e bielorussos estão deliberadamente a condenar essas pessoas a uma morte cruel, conduzindo-as para a floresta, sabendo bem que o outro lado fará o mesmo – espancando-as no processo, destruindo os seus smartphones e outros pertences pessoais. Os meios de comunicação social, que deveriam defender os direitos humanos e fornecer informações fiáveis, estão eles próprios a tornar-se participantes num jogo político em que as pessoas são tratadas como peões. É claro que fotografias de crianças deitadas na lama são bom material para notícias sensacionais. No entanto, ainda se concentram nas situações de pessoas com experiência migratória como tragédias individuais na melhor das hipóteses, sem se concentrarem na sua natureza sistémica.

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    Para nós não é importante se as crianças, as mulheres, os idosos ou os homens jovens são sujeitos a violência por parte das autoridades. Cada pessoa tem o direito de viver em condições que não ameacem a sua vida e de ser tratada com dignidade. Consideramos que este direito é superior aos direitos estabelecidos pelas autoridades. Não nos interessa se uma instituição reconhece um grupo de pessoas como refugiados políticos ou migrantes económicos. Consideramos esta divisão como completamente artificial e servindo para criar mais divisões entre aqueles que podem ser ajudados e aqueles que não merecem ajuda. Esta divisão é um resultado directo do conceito de fronteiras tal como o conhecemos hoje.

    Sabemos muito bem da história que as fronteiras nacionais não são uma entidade natural nem objectiva – são, antes de mais, uma criação ideológica. Graças à sua existência, estabelecimento, mudança, abertura e encerramento, é possível disciplinar as sociedades. É fácil esquecer tudo isto quando somos doutrinados desde a infância a considerar as fronteiras quase sagradas, pelas quais devemos dar as nossas vidas. Numa altura em que, viajando na Europa, dificilmente sentimos a sua existência. Isto é perfeitamente claro quando olhamos para os argumentos anti-imigrantes. Uma das afirmações mais comuns é que os migrantes devem “de forma normal” pedir asilo numa embaixada, em vez de se deslocarem pela floresta. Este é o abismo que separa o Primeiro Mundo de todos os outros. Um abismo tão grande que os privilegiados não podem sequer imaginar o destino daqueles que o sistema coloca abaixo deles. Porque na realidade é muito difícil imaginar uma situação em que não se possa viajar livremente pelo mundo, ocupar um emprego em qualquer lugar e viver onde se queira. O outro, por outro lado, não tem o direito de deixar o lugar onde vive – quando se trata de liberdade de circulação, que é um dos direitos humanos mais essenciais, o outro é escravo do facto de que só em certa medida pode decidir o seu próprio destino. A única razão pela qual existe tanta desigualdade é porque nasceu num outro lugar.

    A fronteira é assim um instrumento para manter a dependência e subordinação global. Vivemos numa era de declaração de preocupação generalizada sobre o enorme aumento da desigualdade entre os mais ricos e a grande maioria das pessoas. Esta tendência é manifestada por grandes instituições de caridade, generosamente subsidiadas por homens de negócios, e um número crescente de políticos. Entretanto, os representantes do grande capital e da política estão a fazer tudo para preservar o status quo e manter a dependência dos países do Sul global.

    noborders_polandOs meios de comunicação social já conseguiram habituar-nos ao facto de que a vida humana tem um valor diferente consoante o lado da fronteira de onde uma pessoa vem. Neste mundo artificialmente criado, a morte de um adolescente palestiniano não é a mesma tragédia que a morte de alguém que tinha um passaporte israelita, e a morte de um soldado da coligação que ocupa o Afeganistão é uma tragédia “maior” do que o assassinato em massa numa aldeia habitada por afegãos. “Não havia polacos entre as vítimas”.

    O sistema actual e as pessoas que o servem ainda vivem no profundo século XX. O facto de não sermos nós a pagar pelas alterações climáticas não deve, contudo, ser tranquilizador. As previsões sucessivas sobre o aquecimento global e os seus efeitos na humanidade são cada vez mais pessimistas. O problema não irá desaparecer; pelo contrário, irá crescer e afectar a maioria das pessoas ao longo do tempo. Afastar esta
consciência e tratar a migração actual como uma onda que passará se apenas as fronteiras forem suficientemente apertadas não é apenas ingénuo, mas acima de tudo uma ilusão perigosa. A ideia de estados e fronteiras, de tentar separar-nos do resto do mundo por um muro, levar-nos-á a uma guerra que todos perderemos.

    As fronteiras nunca serão estanques. As fronteiras não existem para proteger as pessoas. A única hipótese de enfrentar tanto a situação actual como a futura é uma completa mudança de pensamento sobre o mundo, sobre a vida social e os nossos valores.

    APELO A ACÇÕES DE SOLIDARIEDADE!

    Há vários meses que assistimos a um jogo político entre a União Europeia, a Rússia, a Polónia e a Bielorrússia. Como frequentemente aconteceu nos anos anteriores, pessoas privadas das suas casas e à procura de uma vida melhor tornaram-se números para as autoridades estatais. Tratadas como instrumentos neste conflito, suportam os seus custos directos. Morrem na fronteira, são torturadas, espancadas, violadas e maltratadas de todas as formas possíveis. A situação em que se encontram é um resultado directo da política anti-imigração da União Europeia, que está a ser utilizada sem escrúpulos pelo regime de Lukashenka.

    Como movimento sem fronteiras na Polónia, queremos convidar para actividades coordenadas todos os grupos na Europa que partilham a ideia de um mundo sem fronteiras. Queremos exercer pressão sobre as autoridades polacas e da União Europeia e expressar solidariedade com todos os viajantes. Qual a forma destas acções, deixamos ao vosso critério. Manifestações em frente a embaixadas e consulados polacos, acender velas, campanhas de graffiti, faixas, benefits, acontecimentos, etc. Que estas actividades façam parte da nossa oposição à militarização das fronteiras e à restrição do direito de circulação.

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    A nossa luta desenrola-se a muitos níveis. Por um lado, está profundamente enraizada nas nossas vidas – diz respeito ao espaço em que nos encontramos, às pessoas e às nossas relações quotidianas. Ao mesmo tempo, os movimentos de base que estão em oposição aos Estados, às grandes empresas e a todas as ideologias baseadas na escravatura; são capazes de provocar a mudança global que é necessária para o mundo. A construção comunitária e a solidariedade não são muitas vezes tão espectaculares como a opressão do Estado. É mais fácil contar os tanques, as tropas e os milhares de milhões gastos na manutenção do sistema. No entanto, os resultados das actividades dos grupos de base são muitas vezes mais duradouros e mudam muito mais. Mesmo o que parecia permanente. As nossas acções parecem muitas vezes lembrar-nos de faíscas que se acendem por um momento na escuridão. Mas são as faíscas que provocam os fogos!

    Quaisquer perguntas, sugestões, ideias ou contactos, escreve-nos para no_borders_team[at]riseup.net

     


    Fotografias de  No Borders Team | Poland


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  • UE faz da Grécia um laboratório de políticas anti-refugiados

    UE faz da Grécia um laboratório de políticas anti-refugiados

    No passado dia 7 de Junho (e numa altura em que se celebram os 70 anos da Convenção de 1951 sobre Refugiados), o ministro grego da Migração e Asilo e o ministro-adjunto dos Negócios Estrangeiros anunciaram uma Declaração Ministerial Conjunta, onde consideravam formalmente que a Turquia é «um país terceiro seguro» para todos os requerentes de asilo da Síria, Afeganistão, Somália, Paquistão e Bangladesh.

    Para se ter noção do que se fala, em 2020, dois terços (66%) dos requerentes de asilo na Grécia vinham de um dos cinco países listados. No mesmo período e no mesmo país, essas eram também as proveniências de 77% de toda a gente a quem foi concedida protecção internacional.

    Duas das organizações que trabalham perto das comunidades migrantes nas ilhas gregas, a PRO ASYL e a Refugee Support Aegean (RSA), alertam para que esta declaração do governo grego irá fazer com que dezenas de milhar de pessoas enfrentem um risco de repulsão (refoulement). «Ficarão novamente encurraladas e desesperadas, nas ilhas e no continente, detidas, sem acesso a trabalho, casa ou assistência. Esta decisão irá criar outra geração de seres humanos “rejeitados”, marginalizados, sem documentos nem direitos, alimentando ainda mais as redes de contrabando e exploração a todos os níveis».

    Estas organizações acusam ainda a UE de ter uma agenda escondida de descarte de migrantes e afirmam que, «para além dos efeitos imediatos nas vidas dos refugiados, esta decisão constituirá também o pretexto para a retirada do governo das políticas básicas de protecção dos refugiados e para garantir o seu acesso à habitação, cuidados de saúde, educação e integração.»

    Finalmente, a PRO ASYL e a RSA consideram que «através da Decisão Ministerial Conjunta 42799/7-6-2021, a Grécia transforma-se mais uma vez num laboratório de anomalia institucional das políticas anti-refugiados.»

    A 14 de Julho, o Concelho grego para os Refugiados, o Fórum grego sobre refugiados, a Liga helénica para os direitos humanos e a RSA levaram a cabo uma conferência de imprensa online sobre o apertar das políticas de exclusão de refugiados em fuga para a Grécia, no seguimento desta decisão do governo grego de considerar a Turquia como um «país terceiro seguro». Esta conferência de imprensa pode ser vista na totalidade aqui.

     


    Fotografia [em destaque] de Elias Marcou