Etiqueta: #mapa32

  • Barroso, terra que respira vida e semeia luta

    Barroso, terra que respira vida e semeia luta

    As encostas verdes confundem-se com o azul dos céus, ouve-se o voo manso das aves de rapina, sente-se o cheiro das árvores em fruto. Depois de tantos quilómetros percorridos por entre estradas sinuosas, ei-la: Covas do Barroso. Estamos em pleno mês de agosto e a estação estival é particularmente dura nesta aldeia transmontana: o sol vai alto, o ar quente penetra os poros da pele, o vento seco ressequindo-a. Mas, apesar do calor, aqui, onde confluem os rios Covas e Couto, tudo respira vida. E respira luta também.

    Chego para o Acampamento em Defesa do Barroso, uma iniciativa organizada pelas populações locais, em luta há três anos contra o maior projeto de mineração de lítio a céu aberto em solo europeu — Mina do Barroso Lithium Project, como lhe chama quem com ele quer lucrar: a multinacional Savannah Ressources. As gentes barrosãs, contam, para esta atividade, com o apoio da Greve Climática Estudantil, da Caravana Zapatista Pela Vida, da Cicloficina do Porto e dos meios de comunicação independentes Guilhotina.info, PtRevolutionTV e Jornal MAPA. Mas rapidamente percebem que a solidariedade se alastra muito para lá destes coletivos e muito além das fronteiras nacionais. Tal como eu, centenas ouviram soar o grito de alerta «Não à Mina, Sim à Vida!» e ao Barroso acorreram para defendê-lo. Atravessaram montes, vales, colinas, regiões, países, continentes. Barroso, território de luta onde várias geografias se misturam.

    Durante cinco dias, mais de centena e meia de corpos construiu um espaço comunitário, autogerido e horizontal, onde o trabalho reprodutivo — desde a preparação das refeições à limpeza dos espaços — era repartido entre todas; onde se partilharam memórias, histórias e vivências; onde se trocaram conhecimentos, saberes e experiências.

    Logo no primeiro dia, ouvimos as populações locais falar do seu modo de vida em estreita simbiose com a natureza. Começam por nos explicar como funciona o sistema de divisão das águas de rega, um sistema intergeracional e comunitário, através do qual a água é dividida pelos lameiros segundo uma ordem previamente estabelecida pelos diferentes ameiros segundo acordo prévio entre os diferentes proprietários. Este sistema, simbolicamente apelidado «torna da água», mostra bem como a água é considerada um «bem comum». Mas não só a água é gerida de forma comunal: também parte da terra está nas mãos da comunidade. Com efeito, em Covas, há cerca de 2.000 hectares de terrenos baldios, segundo a estimativa de Aida Fernandes, Presidente do Conselho Diretivo dos Baldios de Covas do Barroso. O baldio é um tipo de propriedade de cariz especificamente comunitária, cuja administração e propriedade são da responsabilidade dos compartes[ref] Os «compartes» são os titulares dos baldios. São compartes todo/as o/as cidadã/os com residência na área onde se situam os correspondentes imóveis, no respeito pelos usos e costumes reconhecidos pelas Comunidades Locais, podendo também ser atribuída pela Assembleia de Compartes a qualidade de compartes a cidadãos não residentes.[/ref]. Os baldios são, para Aida, «a parte mais importante nesta luta. A maioria destes projetos [de mineração] são em baldios.» Ora, a larga maioria — para não dizer a totalidade — do/as compartes de Covas está contra o projeto da mina de lítio, pelo que, embora o governo possa, segundo a Lei[ref] A Lei nº 68/93 de 4 de Setembro que rege os baldios foi alterada pela Lei nº 89/97 de 30 de Julho e pela Lei nº 72/2014 de 2 de Setembro.[/ref], expropriar os terrenos «por motivos de utilidade pública», a contestação popular não o facilitará. Afinal, aqui, onde a terra é de quem a trabalha, as gentes não se deixam comprar. Aida conta inclusive que, nos últimos tempos, cada vez mais pessoas afluem à Assembleia de Compartes, pois as decisões são tomadas exclusivamente por quem delas participa. Este espaço de decisão promove, assim, uma cidadania ativa, engajada, direta, onde é dada voz, espaço e cuidado a quem conhece e vive da terra.

    Ora, esta terra — onde a água flui em abundância, a vista se perde no verde, e do solo fértil brota alimento para todas — encontra-se ameaçada: as elites políticas e económicas querem «esventrar» estes montes em busca de um mineral-chave para a transição energética: o lítio.

    Covas do Barroso ilustra perfeitamente os paradoxos da transição energética europeia. Esta aldeia, onde as serras se cobrem de poejos e medronheiros, onde em cada canto se respira ar puro com cheirinho a hortelã-pimenta, e onde a noite pinta o céu de milhares de estrelas, está a ser transformada numa «zona de sacrifício verde»

    Barroso, as serras do lítio tornado ouro

    Em Dezembro de 2019, a Comissão Europeia anunciou a sua nova estratégia de crescimento — o Pacto Ecológico Europeu (PEE). O PEE procura «encaminhar a Europa para um processo de transformação numa sociedade justa e próspera, com impacto neutro no clima e dotada de uma economia moderna, eficiente em termos de recursos e competitiva», lê-se no website oficial. No ano seguinte, os chefes de Estado europeus comprometeram-se a reduzir em pelo menos 55% as emissões de gases com efeito de estufa (GEE) até 2030, com o objetivo de atingir a neutralidade carbónica até 2050.

    Ora, para abolir os combustíveis fósseis, a UE tem de apostar em fontes de energia alternativas. Entre elas, o lítio aparece como prioritário — há mesmo quem lhe chame o «novo ouro”/ «ouro branco” ou ainda o «petróleo branco». Em Setembro de 2020, a UE adicionou este mineral à sua lista de matérias-primas críticas e o Vice-Presidente da Comissão Europeia, Maroš Šefčovič, anunciou que seriam necessárias «18 vezes mais lítio até 2030 e 60 vezes mais até 2050» para efeitos de armazenamento de energia e, sobretudo, para alimentar os automóveis elétricos, que a Eurelectric prevê serem 40 milhões em circulação nas estradas europeias nos próximos 9 anos. Foi assim — de rompante e silenciosamente — que esta rocha branca inundou as narrativas políticas e os mercados financeiros, tornando-se um dos minerais mais cobiçados por todo o mundo.

    O lítio — concebido como um elemento estratégico de preservação da soberania energética europeia (e, consequentemente, como prioridade securitária) — é imaginado pelo governo português como uma oportunidade de colocar o país numa posição de liderança dentro da UE. Entre 2016 e 2019, o governo autorizou requerimentos para prospecção e pesquisa de minerais em 19,3% do seu território. Volvidos cinco anos do início das prospecções, hoje, em 2021, o início da exploração mineira de lítio avança a passos largos. E é em Covas do Barroso que se inicia esta jornada.

    Nos montes que servem de pasto às ovelhas, cabras e vacas, a multinacional britânica Savannah Ressources quer criar a primeira mina a céu aberto de lítio da Europa. O projeto da Savannah prevê a construção de várias minas a céu aberto (uma delas com 600 metros de comprimento, 500 de largura e 150 de profundidade) que se estenderiam por uma área de 542 hectares, sendo que no Estudo de Impacte Ambiental (EIA) se antecipa a sua ampliação para 594ha.

    Barroso

    Barroso, uma «zona de sacrifício verde»

    A concretizar-se, a mina despojaria esta aldeia da sua atual e histórica identidade pastoril, silvícola e agrícola. Em 2017, o Barroso foi coroado com o prestigiado selo «Património Agrícola Mundial», atribuído pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Esta distinção reconhece a importância das práticas ancestrais de cultivo das terras e de tratamento do gado: é este modo de trabalhar que faz desta região uma das regiões com maior biodiversidade do país e que lhe tem garantido uma maior resiliência face às alterações climáticas. O selo da FAO é também uma confirmação daquilo que as populações e aliadas têm vindo a gritar nos últimos três anos: «o Barroso é que é verde!». Com efeito, por muito que as elites políticas pintem de verde os projetos de mineração, inventando termos como green mining, dificilmente se pode ignorar a previsível destruição sócio-ambiental trazida por uma mina a céu aberto de um tamanho equivalente a quase 600 campos de futebol.

    Nesse sentido, Covas do Barroso ilustra perfeitamente os paradoxos da transição energética europeia. Esta aldeia, onde as serras se cobrem de poejos e medronheiros, onde em cada canto se respira ar puro com cheirinho a hortelã-pimenta, e onde a noite pinta o céu de milhares de estrelas, está a ser transformada numa «zona de sacrifício verde». «Zonas de sacrifício» são aqueles lugares que não contam, que podem ser envenenados, esventrados, empobrecidos, em nome do progresso e do desenvolvimento capitalistas. Mais que uma «zona de sacrifício», o Barroso tornou-se numa «zona de sacrifício verde», isto é, um território cuja pilhagem, exploração e destruição são justificadas em nome da transição energética “verde” que os nossos governos desejam e fomentam.

    A narrativa hegemónica do capitalismo extractivista «verde» chegou, pois, a um ponto de contradição interna brutal. Contam-nos: para deixar de poluir, há que necessariamente esventrar o Norte de Portugal (e todos os territórios onde há lítio). Sossegam-nos: as minas serão todas elas «verdes», isto é, ecologicamente responsáveis. Mas a fábula do green mining não passa disso mesmo: uma fábula. Uma fábula absurda: «como se pode justificar a destruição de patrimónios biodiversos em nome do combate às alterações climáticas?»

    Ao mesmo tempo, a retórica oficial — focada exclusivamente na emissão de GEE, sobretudo de dióxido de carbono (CO2) — ignora os muitos outros problemas ecológicos que nos assolam. Ignora a sexta extinção em massa em curso, a desflorestação e desmatamento contínuos, ou ainda o esvaziamento e a plastificação dos oceanos, assim como as monoculturas mortíferas que proliferam mundo-afora. A narrativa CO2-cêntrica da «transição energética», ao menosprezar todos estes outros problemas, cria igualmente a falsa ilusão de que podemos resolver a crise ecológica tratando de um sintoma apenas.

    É por isso que a «transição energética» em curso não constitui «transição» nenhuma: não atacando a «raiz» da crise, não será possível transitar para um outro modelo de organização política, económica e social. Pelo contrário: a forma como o processo de descarbonização da sociedade e da economia está a ser levado a cabo reproduz as mesmas visões e estruturas de poder que criaram e agravaram as crises ecológica, ambiental, social e política que atravessamos. Esta foi uma «transição» planeada e dirigida de cima para baixo, não auscultando as populações nem respeitando as vozes e corpos que estão na linha da frente (do sacrifício); baseia-se na destruição da Natureza e na espoliação dos territórios, privando as populações locais do seu sustento e destruindo biodiversidade regenerativa; permite que as elites económicas e financeiras continuem a lucrar desenfreadamente à custa da exploração dos corpos-territórios humanos e não-humanos; e ainda mantém o mesmo modelo de circulação, baseado na mobilidade individual e sustentado pelo apelo consumista. De facto, uma transição energética sem uma redução drástica nos níveis de energia apenas resultará num aumento da necessidade de extração, transformação e transporte de matérias primas e de bens de consumo — precisamente os agentes da destruição massiva de ecossistemas. Em suma: de nenhuma «transição» se trata quando são as mesmas elites político-económicas a decidir do seu rumo e a lucrar com ela, mantendo as populações e os seus territórios numa posição subalterna e dependente, e perpetuando a destruição da vida.

    Barroso

    Barroso, palco de lutas por futuros-de-vida

    O futuro de minas-a-céu-aberto-e-carros-elétricos-individuais é movido pela força crua, mecânica, acelerada e tecnocientífica do capitalismo predatório extrativista. Foi este mesmo modelo de «fazer-e-pensar-mundo» que nos trouxe até aqui. Por isso, perante níveis de destruição socioecológica crescentes e face à profunda crise existencial que atravessamos, urge adotar outros ritmos-paisagens-tempos. Ritmos que nos envolvam-com-a-terra, dela cuidando e com ela aprendendo. Ritmos lentos, regenerativos, participativos, horizontais. Ritmos de Vida.

    Estes ritmos-de-vida baseiam-se em visões alternativas do futuro — um futuro comum, solidário, harmonioso, cuidador, participativo, convidativo, igualitário. Ritmos de vida que se aproximem daquele passado comunitário que ainda susbiste em muitas zonas do nosso interior, tão abandonado pelo Estado, como é o caso de Covas do Barroso. Onde esse passado foi apagado, de Norte a Sul do país, as populações têm vindo a organizar-se para criar essas alternativas — desde quintas agroecológicas a comunidades regenerativas, passando por assembleias populares, cooperativas ou cozinhas comunitárias. De Norte a Sul, em todos os territórios ameaçados pelos ritmos-de-morte, as populações têm-se unido para lutar por ritmos-de-vida. Em Covas do Barroso, as populações, com as mulheres na linha da frente, resistem há séculos à marcha predatória da agricultura intensiva, sobrevivem há décadas ao desinvestimento estatal e lutam há anos contra o avanço do capitalismo extrativista.

    Esta luta, os locais sabem-no, é internacional. Por mais que os poderes governativos e mediáticos tentem deslegitimar e estigmatizar os movimentos, dizendo que as populações não se insurgiriam caso o megaprojeto mineiro fosse proposto numa outra parte do globo, as populações locais tecem redes de apoio e solidariedade internacionais e reconhecem a importância da crítica e da ação sistémicas. O Acampamento, por exemplo, bem o refletiu, tendo permitido que pessoas de diferentes geografias se encontrassem para partilhar as suas experiências de luta contra a mineração. Numa das noites, por exemplo, dezenas de habitantes de Covas juntaram-se na praça principal da aldeia, o Largo do Cruzeiro, para ouvir uma mensagem de solidariedade vinda diretamente do Atlântico Sul, de um companheiro da coordenação nacional (Brasil) do Movimento Sem Terra (MST), que relembrou: «Nós estamos enfrentando o sistema capitalista e toda essa lógica destrutiva que impede a emancipação dos seres humanos e da natureza. Nós do MST, deste território de luta, dizemos: Não às Minas, Sim às Vidas! Internacionalizemos a luta, internacionalizemos a esperança!»

    Por todo o mundo, as soluções semeiam-se: é preciso cultivá-las. Cultivar redes de solidariedade internacional — ancoradas em práticas locais — é o que nos permitirá construir outros futuros, abandonando este sistema, doentio e caduco, que tudo explora, dizima e consome, e abraçando um novo, ao serviço e em simbiose com as pessoas e a natureza. Em Covas do Barroso, este futuro é parte do quotidiano e as populações não abdicarão dele. Como canta Carlos Libo (nome artístico de Carlos Gomes Gonçalves, apicultor local), na sua canção Exploração, «tua terra dá fartura / sustento pro ano inteiro / a alegria de quem vive em Barroso / não se compra com dinheiro». As gentes barrosãs sabem que, se é para haver futuro, ele será «verde» — o «verde» da natureza, de quem dela vive, e de quem dela cuida. Esse «verde» que é de todos os feitios – é fruto, é flor, é serra, é gado, mas não é mineração!

     


    Texto de  Mariana Riquito – Investigadora Júnior no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (CES-UC). Ecofeminista anticapitalista. Acredita que outros mundos, mais justos, são possíveis.


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #32, Outubro|Dezembro 2021.


    #covasdobarroso #mineraçãodelítio #barroso #luta #lítio #minaacéuaberto #mapa32

     

  • A Força Aérea Zapatista aterra em Viena com Chiapas à beira da Guerra Civil

    A Força Aérea Zapatista aterra em Viena com Chiapas à beira da Guerra Civil

    Cerca de 170 zapatistas chegaram a Viena, poucos dias depois do regresso ao México do Esquadrão 421. Na capital austríaca, antes de se dividirem em grupos para visitar todos os territórios da Europa e chegarem a Portugal em Novembro, participaram em vários protestos e encontros, numas boas-vindas ensombradas pelo sequestro de dois companheiros zapatistas em Chiapas. O território está à beira da guerra civil, com as comunidades zapatistas de raiz maia a enfrentarem um crescente número de agressões por parte de grupos paramilitares e do narcotráfico.

    No coração da Europa Central, a 14 de Setembro de 2021, uma centena de mulheres, homens e crianças zapatistas aterraram em Viena a sexta cidade mais populosa da União Europeia. Com documentação completa e bilhete na mão, vacinas e protocolos sanitários garantidos, as zapatistas conseguiram romper o racismo transatlântico, que tudo fez para impedir esta viagem. A delegação aerotransportada A Extemporânea deve o seu nome ao racismo de um México que considera «extemporâneos» os seus povos originários e ao racismo da Europa Fortaleza que, escudada nas regulamentações sanitárias, procurou durante meses travar a entrada das zapatistas.

    No aeroporto de Viena concentraram-se dezenas de colectivos de toda a Europa. Quando o primeiro grupo d’ A Extemporânea cruzou a porta das chegadas, ouviram-se aplausos, gritos de «Zapata vive, la lucha sigue!», «EZLN!», «los pueblos unidos jamás serán vencidos» e canções revolucionárias em várias línguas. No exterior do aeroporto, mulheres austríacas e migrantes deram as «boas-vindas à vossa casa» em alemão e em espanhol. Com camisa azul, chapéu, viseira de protecção sanitária e com o rosto tapado apenas por uma máscara, prescindindo pela primeira vez do lenço vermelho e do passa-montanhas, o Subcomandante Insurgente Moisés tomou o microfone para dirigir-se aos anfitriões da Europa e falar sobre a defesa da Mãe Terra. «Vai-se acabar a natureza. É isso que viemos dizer-vos. Não acreditam? Vão vê-lo», avisa. «De nome já sabemos quem é: é o capitalismo». «Os governantes não vão fazer nada, porque são cúmplices do capitalismo. Eles são os que se põem de acordo para levar a cabo a destruição. Ninguém vai lutar por nós, ninguém vai defender-nos por nós, daquilo que faz o capitalismo. Jamais. Desde os nossos tetravós, falando de 500 anos, é o que vemos. Ninguém, absolutamente ninguém, vai lutar por nós.»

    O discurso recua ao primeiro do ano da insurgência zapatista. «Nós, as zapatistas e os zapatistas, estamos aqui graças às nossas companheiras e companheiros que caíram no amanhecer de 1994, quando saímos a lutar contra o mau governo. Estamos aqui graças àscompanheiras e companheiros caídos na resistência e na rebeldia. A nossa rebeldia e resistência é que nós queremos governar-nos como povos. Nós não queremos matar, nós não queremos morrer. O problema é que não nos dão a oportunidade de fazer o que nós pensamos como homens e mulheres. E é o que vimos fazendo ao longo de 28 anos: não estamos a disparar, não estamos a matar, nem queremos morrer. Queremos a Vida», expressou à Europa o porta-voz do EZLN.

    No dia seguinte chegou o restante grupo de mais de 70 homens zapatistas. A escassos metros da porta das chegadas internacionais, um grupo de anfitriãs migrantes tomou a palavra: «Queridas Compas, as migrantes de língua castelhana e portuguesa na geografia de Viena saúdam-vos e dão-vos as boas-vindas! Somos um colectivo que se juntou para vos acompanhar e reunir convosco, a delegação zapatista. Queremos assegurar-nos de que a voz dos migrantes se escuta nas diferentes frentes da organização da Viagem pela Vida na Áustria. Perguntámo-nos: “Como teríamos gostado de ser recebidos quando chegámos desde o outro lado do oceano?” E respondemos que alguém nos podia ter dito as seguintes palavras: nós, os precarizados, nós, os racializados, nós que lutamos por ter uma voz migrante, nós que falamos alemão com sotaque, na geografia chamada Viena, saudamos-vos e damos-vos as boas-vindas! A nossa casa é a vossa casa.»

    Os e as companheiras recém-chegadas estavam sorridentes e alegres por pisar pela primeira vez, e depois de uma longa espera, o solo europeu.

    Subcomandante Moisés
    Subcomandante Moisés à chegada no aeroporto de Viena. Fotografia de Isabel Mateos.

    A valsa de Viena e os feminicídios na Áustria

    A Fuerza Aérea Zapatista acabava de aterrar numa terra insubmissa, cuja história de dor e resistência é o verso do postal dos palácios em estilo rococó nas margens do Danúbio. Ricardo Loewe, do Comité de Solidariedade México-Salzburgo, explicou aos meios de comunicação independentes que, «junto com a Polónia e Hungria, a Áustria é um país do antigo império dos Habsburgo que hoje carrega a bandeira do racismo da Europa. É mais que triste, indignante, dá raiva, porque aqui existem reminiscências dramáticas de um fascismo que nunca desapareceu, que é vigente. E, ainda assim, estamos a receber a delegação zapatista! Não é por acaso que vêm a Viena, onde há muitos grupos que nutrem uma grande simpatia pelo zapatismo».

    Para além da cripta imperial onde turistas podem visitar o túmulo de Maximiliano, ou a herança colonial do «penacho de Moctezuma que parece uma galinha morta», Loewe, de 80 anos, recorda-nos também o passado da «Viena vermelha», anterior à ditadura fascista de Dolfus; um marxismo austríaco cristalizado na Praça Friedrich Engels; mas também as lutas das mulheres e dissidências de género, o movimento okupa e a cultura da luta anarco-comunista, «pequena, mas bem-estruturada, sem partido».

    um grande contingente de mulheres maias zapatistas juntou-se a uma concentração para exigir justiça para Shukri e Fadumo, duas mulheres de origem somali assassinadas dois dias antes em Viena

    Ao final da tarde de quinta-feira, 16 de Setembro, pouco mais de 48 horas depois de chegarem à capital austríaca, um grande contingente de mulheres maias zapatistas juntou-se a uma concentração para exigir justiça para Shukri e Fadumo, duas mulheres de origem somali assassinadas dois dias antes em Viena. Na concentração convocada pelo colectivo Ni Una Menos-Austria, em frente à monumental igreja de Karlsplatz, as companheiras ouviram, aplaudiram e filmaram diferentes intervenções de mulheres somalis e de outros países de África, Médio Oriente, Europa e América Latina, que se expressaram nas suas diferentes línguas. Ao seu lado, centenas de jovens mulheres feministas carregavam bandeiras e cartazes contra o patriarcado e o racismo.

    O toque do sino da igreja de Karlsplatz não conseguiu calar as vozes altas nem os silêncios das mulheres expressando as suas dores e a sua raiva. «Nem uma menos!», «Alerta Feminista!» e «Stoppt den femizid!». Uma vibração anti-patriarcal, anti-racista e internacionalista marcava a primeira marcha europeia da Secção Miliciana Ixchel-Ramona, no protesto contra o 21.º feminicídio que assolou a Áustria no presente ano de 2021.

    Sequestros em Chiapas provocam protestos internacionais

    No dia seguinte, cerca de 20 mulheres e 30 homens zapatistas reforçavam o contingente internacional que se concentrava em frente à embaixada do México, no luxuoso centro histórico vienense. À chegada na Europa, o primeiro objectivo impusera-se na denuncia ao paramilitarismo e na exigência do aparecimento com vida de dois companheiros das bases de apoio do EZLN.

    José Antonio Sánchez Juárez e Sebastián Núñez Pérez, integrantes da Junta de Bom Governo Nuevo Amanecer en Resistencia y Rebeldía por la Vida y la Humanidad do Caracol 10 de nome Floreciendo la Semilla Rebelde, situado em Patria Nueva, haviam sido sequestrados a 11 de Setembro na comunidade 7 de Febrero, município de Ocosingo, Chiapas. A localidade é a sede da ORCAO, uma organização paramilitar que há vários meses tem vindo a perpetrar uma série de acções criminosas contra as Bases de Apoio do EZLN na comunidade autónoma Moisés-Gandhi.

    Em frente do edifício monumental da diplomacia mexicana, e nos dias seguintes em mais de uma dezena de cidades europeias, activistas denunciaram a cumplicidade do governo federal de López Obrador, bem como de Rutilio Escandón, governador de Chiapas, nos ataques paramilitares perpetrados contra camponeses maias zapatistas, mas também contra companheiros defensores dos direitos humanos. Por fim, em comunicado do EZLN publicado a 19 de Setembro intitulado “Chiapas à Beira da Guerra Civil”, este anuncia que os esforços de ambos os lados do atlântico, aliados à intervenção de organizações de defesa dos direitos humanos e dos párocos de San Cristóbal de las Casas e de Oxchuc, haviam dado frutos. Após oito dias sequestrados, os dois companheiros foram devolvidos com vida às suas comunidades.

    «O Governo de Chiapas não só encobre os bandos de narcotraficantes, como também alenta, promove e financia grupos paramilitares, como os que atacam continuamente comunidades em Aldama e Santa Marta», lê-se no comunicado, que denuncia estas acções com o objectivo de «provocar uma reacção do EZLN com o fim de destabilizar um estado cuja governabilidade pende por um fio». O comunicado termina, num tom que há muito já não se escutava da parte dos zapatistas: «Deixem já de jogar com a vida e a liberdade dos Chiapanecos. Noutra ocasião já não haverá comunicado. Ou seja, não haverá palavras, mas feitos.»

    A mobilização internacional convocada pelo EZLN voltou a sair às ruas no dia 24 de Setembro, em dezenas de localidades no México, Estados Unidos, Brasil e em mais de meia centena de cidades e vilas europeias, para exigir um fim das provocações por parte dos paramilitares e dos governantes e para pôr um ponto final «no culto à morte que professam». Raúl Romero, académico da Universidade Nacional Autónoma do México que acompanha o zapatismo, dá conta do espírito vivido: «alguns dizem, com essa arrogância que acompanha a ignorância, que o zapatismo já não é apelativo, que já passou de moda, que o seu tempo se acabou. Vejam. Escutem. Está a nascer algo novo, um novo tempo, o tempo dos povos.»

    Concentração
    Concentração frente à embaixada do México. Fotografia de Lorena Salamanca.

    Encontros na resistência a mega-projectos

    Na manhã de sábado, anterior à libertação de José e Sebastián, uma delegação zapatista teve pela primeira vez um encontro público com uma resistência ao mau governo (conceito que os zapatistas usam para os governos dos de cima, por oposição às suas Juntas de Bom Governo). Neste que é um dos grandes centros da hidra capitalista, foi montado um impressionante acampamento em Lobau, nos arredores de Viena, para proteger um ecossistema raro dos planos do governo austríaco de aí construir uma auto-estrada atravessando a maior reserva natural da cidade, zona protegida desde 1978 e parte do Parque Nacional Danúbio-Auen desde 1996. Cerca de 60 homens e mulheres zapatistas encontraram-se com jovens e ambientalistas que resistem desde Agosto e que lhes contaram a história do local, o projecto e o porquê de defenderem esta que é a única paisagem do seu género que permanece ecologicamente intacta não só na cidade, mas em toda a Europa Central.

    Entre intervenções e perguntas de parte a parte, discutiram-se estratégias de resistência para defender o território – falou-se de pacifismo, desobediência civil, ocupação e violência. Os activistas locais explicam que todo o movimento em Lobau é pacífico e que essa é uma condição fundamental para manter o amplo apoio da vizinhança. Embora sejam maioritariamente jovens a pernoitar no acampamento, vizinhos e vizinhas vêm colaborando e ajudando, e deixam que os jovens acampados tomem banho nas suas casas. Dão mesmo conta de um acordo com a polícia para que, caso o protesto se mantenha não-violento, esta avise os ocupantes com um dia de antecedência, na eventualidade de ser dada ordem de despejo.

    Entre intervenções e perguntas de parte a parte, discutiram-se estratégias de resistência para defender o território – falou-se de pacifismo, desobediência civil, ocupação e violência.

    Não imaginamos quão estranho isto será para quem vem do México, onde a violência é prato do dia e a polícia apenas mais uma força de repressão e violência gratuita. «E se vocês não saírem?», perguntam as zapatistas. Explicam que, face a uma ordem de despejo, se não aceitarem sair pelo seu próprio pé, detêm-nos por 24 horas e voltam a soltá-los, sem nenhuma acusação. Ou seja, que «não se passa nada, e voltamos a acampar». O subcomandante Moisés, surpreendido, replica desconcertado: «É como se eu te dissesse “Vou rebentar a tua mãe”, e tu dissesses “não, não o faças”, e depois eu já não o faço», perguntando-lhes de seguida se realmente esse tipo de acções tem resultados. Para já, desde que começaram as ocupações em Lobau, os trabalhos de construção estão parados.

    A zona de Lobau é o que resta de um enorme ecossistema húmido que se estendia pelas margens do Danúbio, destruído no processo de terraplanagem com vista à expansão e industrialização da capital austríaca, nos finais do século XIX. Naquilo que eventualmente ajuda a explicar a referida concertação pacifista, a região guarda a memória dos protestos ocorridos neste Parque Natural em 1984, a primeira vez que a desobediência civil foi amplamente aceite como uma estratégia. O plano de uma central hidro-eléctrica culminara na ocupação do local por centenas de pessoas, travando os trabalhos. A violenta intervenção de 800 polícias, para expulsar os cerca de três mil manifestantes que permaneciam no local, provocou confrontos, feridos e uma onda de indignação em Viena, onde 40 mil pessoas se manifestaram no mesmo dia da expulsão. Temendo a eclosão de uma revolta, o governo anunciou a suspensão dos trabalhos e o Supremo Tribunal a sua proibição. A ocupação foi terminada e, meses mais tarde, o projecto definitivamente abandonado. Desde esse ano, praticamente todos os mega-projectos na Áustria são enfrentados por algum movimento popular.

    A visita a Lobau termina após a visita a outros dois acampamentos mais pequenos montados no estaleiro das obras. Um grupo de mulheres zapatistas decidiu aguardar em Lobau pelo almoço para o qual tinham sido convidadas. A conversa flui num registo informal e é partilhada a história do movimento zapatista desde 1986, a preparação do levantamento de 1994 e o papel dos e das promotoras de saúde e educação, colocando-se um foco especial na participação das mulheres em todo o processo. Sem esquecer também o consumo de álcool nas comunidades, raiz de problemas tanto em contexto militar como em contexto familiar, e como, enquanto comunidades e povos, decidiram enfrentá-lo. No acampamento de Lobau, ouvimos: «as zapatistas vêm dar esperança, inspiram-nos com tudo o que já conseguiram construir em Chiapas. São uma verdadeira biblioteca andante».

    feminicidios
    Zapatistas em concentração contra os femícidios. Fotografia de Lorena Salamanca.

    Numa varanda em Viena

    Os grupos de Escuta e Palavra que compõem A Extemporânea começaram, a 22 de Setembro, a deslocar-se para as geografias que compõem a primeira zona da Viagem pela Vida – Alemanha, Escandinávia, Europa de Leste e Balcãs. Ao final da tarde desse mesmo dia, aterrou em Viena a delegação de 16 pessoas do Congresso Nacional Indígena (CNI-CIG) e da Frente de Povos em Defesa da Água e Terra (FPDTA).

    Dois dias mais tarde, o CNI e a FPDTA participaram, com dezenas de zapatistas ainda presentes, na marcha da Greve Climática Mundial. Vinte mil pessoas tomaram as ruas da capital austríaca num percurso de 4 kms exigindo justiça climática, acções urgentes para combater o aquecimento global, uma mudança de sistema e apoiando à resistência contra a construção da auto-estrada em Lobau. A manifestação terminou no parlamento austríaco e, depois das intervenções da organização e da actuação de uma banda local, subiram ao palco duas companheiras que fizeram ressoar a mensagem dos povos indígenas do México. Frente à majestosa varanda onde Hitler discursou em 1938, perante centenas de milhares de pessoas, consumando a anexação nazi, Libertad, uma companheira zapatista, contou a história de uma mulher:

    «Não importa a cor da sua pele, porque tem todas as cores. Não importa o seu idioma, porque escuta todas as línguas. Não importa a sua raça e a sua cultura, porque nela habitam todos os modos. Não importa o seu tamanho, porque é grande e, ainda assim, cabe numa mão. Todos os dias e a todas as horas, essa mulher é violentada, golpeada, ferida, violada, burlada, desprezada. Um macho exerce sobre ela o seu poder, todos os dias e a todas horas. Ela vem até nós, mostra-nos as suas feridas, as suas dores, as suas tristezas, e só lhe damos palavras de consolo, de pena, ou ignoramo-la. Talvez, como esmola, lhe dêmos algo para que cure as suas feridas, mas o macho continua a sua violência.

    Nós e vocês sabemos em que é que termina isto. Ela será assassinada e, com a sua morte, morrerá tudo. Podemos continuar a dar-lhe palavras de alento e remédios para os seus males. Ou podemos dizer-lhe a verdade: o único medicamento que poderá curá-la e saná-la por completo é enfrentar e destruir quem a violenta. E podemos também, e em consequência, unir-nos a ela e lutar a seu lado.
    A essa mulher, nós, os povos zapatistas, chamamos-lhe “Mãe Terra”. Ao macho que a oprime e a humilha, ponham-lhe o nome, o rosto e a forma que quuiserem. Nós, os povos zapatistas, chamamos a esse macho assassino por um nome: capitalismo.

    E chegámos a esta geografia para vos perguntar: vamos continuar a pensar que com pomadas e calmantes se solucionam os golpes de hoje, ainda que saibamos que amanhã será maior e mais profunda a ferida? Ou vamos lutar juntos com ela?

    Nós, as comunidades zapatistas, decidimos lutar junto a ela, por ela e para ela.»

    acampamento
    Encontro no acampamento de Lobau. Fotografia de Lorena Salamanca.

    É, então, a vez de Isabel, uma mulher otomi do Congresso Nacional Indígena, tomar a palavra:

    «Hoje estamos a ver que, os que vivemos na cidade, não temos direito a ela e, aos que estamos nas nossas aldeias, nos despojam. Temos aí muitas empresas que nos vêm enganando sobre o que é progresso, temos a termoeléctrica, o comboio maya, parque eólicos, os pais de ayotzinapa, e os agroquímicos que aqui, em países desenvolvidos, já não se vendem, pelo que os levam para os nossos povos para matar-nos a todas e a todos.

    Hoje estamos aqui todos os povos do outro lado do mundo para caminhar juntas e juntos. Por isso nós, como Conselho Indígena de Governo, estamos a caminhar junto com as nossas irmãs e irmãos zapatistas. Esta é uma Viagem pela Vida porque, se se acaba a Mãe Terra, se a matamos entre todas e entre todos, vamos acabar junto com ela, vamos morrer junto com ela. E daqui lhes dizemos, ao capitalismo e ao patriarcado, que a única coisa que queremos é a nossa autonomia, as nossas aldeias, as nossas águas livres de contaminação. Não queremos mais capitalismo, não queremos mais empresas. E também lhes dizemos que não esquecemos, não capitulamos, e até à vitória… Zapata vive!».

    A multidão responde: «La lucha sigue!»

    Ao contrário do discurso de Hitler, estes dois discursos não irão aparecer nos livros de história. Mas cumprem o papel de, através da escuta e da palavra, semear essa resistência e essa rebeldia que é o principal objectivo desta Viagem pela Vida.

    Durante estes dias, à porta fechada, as zapatistas, o CNI e a FPDTA realizaram diversos encontros de Escuta e Palavra com mulheres migrantes de línguas portuguesa e castelhana, com mulheres palestinianas e com várias outras comunidades e lutas em Viena, para tratar dos assuntos que trazem à Europa estes povos indígenas.

     


    Partes deste artigo têm por base os trabalhos colectivos dos Medios Libres en Viena e publicadas originalmente em castelhano e em português na RadioZapatista.org, Pozol.org e Guilhotina.info

    Fotografia [em destaque] de Amehd Coca


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #32, Outubro|Dezembro 2021.


    #Viena #zapatistas #AExtemporânea #insurgênciazapatista #EZLN #feminicídios #protestosinternacionais #resistência #CongressoNacionalIndígena #ViagempelaVida #mapa32

     

  • Floresta Colonial: a eucaliptização de Moçambique

    Floresta Colonial: a eucaliptização de Moçambique

    Sob o pretexto do «reflorestamento», da «descarbonização» e a troco de «empregos», na última década, a expansão gigantesca da monocultura do eucalipto pela Portucel Moçambique tem levado ao fim das terras comunais e das machambas que garantiam a perene sobrevivência de comunidades rurais, condenadas a viver sem nada e impotentes perante o desenvolvimento do eucalipto.

    ilustraçao_álvaro_nogueira
    Ilustração de Álvaro Nogueira.

    A floresta eucalipto em Portugal deixou o ecossistema autóctone como uma longínqua lembrança do que fomos territorialmente e culturalmente há mais de meio século atrás. Depois dos grandes incêndios, a Navigator Company – ex-Grupo Portucel Soporcel, detentora da Portucel Moçambique e líder europeia da produção de pasta e papel – enfrentou uma forte contestação ao crescimento da eucaliptização e apostou em Moçambique, aquela que é a sua nova grande exploração, realizada sob o manto e o financiamento da «economia verde».

    No passado mês de Julho entrou em Portugal a primeira carga de eucalipto oriunda de Moçambique, iniciando a exportação do projecto de 356 mil hectares dirigido pela Portucel Moçambique. A área é três vezes maior do que a área que a Navigator Company controla em Portugal e foi atribuída pelo governo moçambicano em 2009 e 2011 numa concessão renovável a 50 anos. Em nome da redução de emissões de carbono e sob a égide de programas de desenvolvimento, sustentabilidade e combate às alterações climáticas, a fileira moçambicana do eucalipto surge apoiada pelo Banco Mundial através do Programa de Investimento Florestal (FIP: Forest Investment Program) conduzido pela International Finance Corporation (IFC), a quem cabem 20% das ações da Portucel Moçambique.

    O investimento do FIP no âmbito do programa REDD+ (Reducing Emissions from Deforestation and Forest Degradation) em Moçambique, o MozFIP, enquadra-se no Programa Nacional de Desenvolvimento Sustentável e no Projeto «Floresta em Pé». Um orçamento de 47 milhões de dólares anunciado na página do MozFIP, numa combinação de subvenções e empréstimos, e que geograficamente abarca 8,9 milhões de hectares, num total de 16 distritos nas províncias da Manica, Zambézia e Cabo Delgado. Em 2016, a IFC anunciara um investimento em curso de 30 milhões de dólares e outros 24 milhões a caminho. Até ao final de 2019, o investimento anunciado pela Portucel Moçambique somava já 120 milhões de dólares em 13 500 hectares de eucalipto. Na previsão da Portucel para esta primeira fase, os números poderão chegar a 260 milhões de dólares de investimento; 40 mil hectares de plantação; a construção de uma fábrica de estilha de madeira; e com o objectivo de exportação de um milhão de toneladas, uma faturação anual na ordem dos 100 milhões de dólares. Uma segunda etapa prevê outros 2,3 mil milhões de dólares de investimento, 120 mil hectares de floresta e a uma fábrica de pasta para papel, subindo a parada para uma faturação de mais de mil milhões de dólares anuais.

    «O Governo abriu a porta para as empresas e investidores e a fechou para o povo. O que está a acontecer é uma nova forma de colonialismo onde a empresa é a novo colonizador das terras»

    O financiamento à Portucel Moçambique e às grandes empresas florestais pelo FIP surge ao abrigo da «Redução de Emissões no Sector Florestal através de plantações Florestais com Grandes Investidores». Com contribuições globais de 785 milhões de dólares, o FIP resulta num mecanismo florestal do quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima nos países em desenvolvimento, visando a conservação, gestão sustentável das florestas e melhoria dos stocks de carbono florestal. Moçambique é um dos 23 países contemplados, entre o Bangladesh, Brasil, Burkina Faso, Camboja, Camarões, República do Congo, Costa do Marfim, Congo, Equador, Gana, Guatemala, Guiana, Honduras, Indonésia, Laos, México, Nepal, Peru, Ruanda, Tunísia, Uganda e Zâmbia.

    Para o Plano de Investimento Florestal, este modelo empresarial e a atividade florestal de plantação «contribuirá de facto para o sequestro de carbono em toda a geografia em que é implementado» e «os investidores estão também profundamente preocupados com as florestas indígenas que se encontram dentro e em redor das plantações da Portucel, dentro da paisagem do mosaico, e estão a investigar formas de as preservar.» Porém, o relatório de apresentação de 2016 do FIP não esconde que «será exercida uma maior pressão sobre os elementos não plantados da paisagem. Estas terras são actualmente utilizadas para a agricultura, para a madeira, para a produção de carvão vegetal, para lenha, e para uma vasta gama de produtos florestais não lenhosos, incluindo plantas medicinais, bem como alimentos de emergência para serem consumidos durante os períodos de fome. A preocupação é que o aumento da pressão sobre as áreas restantes pode levar a uma perda de benefícios para as comunidades locais dessas áreas, resultando numa redução global da prosperidade se a perda de benefícios das áreas restantes não plantadas superar o complexo de benefícios a serem derivados das plantações.»

    Nesse cenário, a solução promovida «é o emprego e o emprego secundário para os membros da comunidade» e um novo território moldado pelas chamadas «Novas Florestas Multiusos, com operadores de concessões florestais naturais e utilizadores comunitários, bem como plantações florestais comerciais e a sua interacção com as comunidades». A interacção equaciona «equilibrar as necessidades de desenvolvimento comercial com a preservação de áreas florestais naturais» e acusa as comunidades das más práticas da «agricultura itinerante e as colheitas florestais insustentáveis e ilegais». De acordo com o modelo empresarial, que ordena o território, «os benefícios para as comunidades virão do envolvimento na plantação de árvores, madeira produção, comercialização e transformação, o que criará oportunidades para os cultivadores de fora para diversificar os meios de subsistência e aumentar a resiliência. A restauração de terras degradadas irá melhorar as funções dos ecossistemas, a viabilidade dos habitats e os benefícios sociais.» Na legitimação do modelo enquanto «participativo e inclusivo», como país piloto do FIP, Moçambique recebeu 4.5 milhões de dólares americanos do Mecanismo de Doação Dedicado para Comunidades Locais (DGM), uma subsecção destinada a «garantir direitos aos Povos Indígenas e Comunidades Locais». Mas as vozes que se ouvem das comunidades e de diversos grupos moçambicanos contrariam as promessas idílicas do novo modelo territorial.

    Moçambique_Portucel

    Terra a troco de uma chapa de zinco

    Anabela Lemos, directora do grupo moçambicano Justiça Ambiental (JA!) declarava, em Julho de 2021, que «a Portucel Moçambique afirma que as suas plantações estão a melhorar as condições de vida das comunidades rurais e a trazer desenvolvimento económico para Moçambique. Na realidade, este projeto neocolonialista está a usurpar terra e meios de subsistência a milhares de famílias camponesas, deixando as mesmas sem opções de vida. Enquanto as famílias camponesas perdem tudo que de mais valor tem a Portucel exporta madeira de baixo valor por mais de 11.000 km para abastecer as fábricas da Navigator em Portugal e ainda afirma que está a contribuir para o desenvolvimento das mesmas. As promessas feitas às comunidades de empregos, vidas melhores e infraestrutura aprimorada foram todas quebradas.»

    No «papel», a Portucel apresenta-se como uma empresa sustentável, tendo mesmo a melhor avaliação dos últimos anos no ESG Risk Rating 2020, que avalia os riscos relacionados com factores ambientais, sociais e formas de gestão. Na verdade, esta avaliação deveu-se ao acordo estabelecido com o banco BBVA para o lançamento do produto financeiro Papel Comercial Green em Portugal em 2019, ano em que a empresa foi também distinguida pelo Carbon Disclosure Project como líder global na actuação climática corporativa. A semântica ambiental, no caso da Portucel Moçambique apoiada pela organização não governamental internacional World Wide Fund for Nature (WWF), projecta, na sua campanha corporativa «O Nosso Contributo para Moçambique», a imagem de comunidades saudáveis e felizes. A realidade no terreno é bem diferente.

    Tentando divulgar o real impacto do investimento da Portucel em Moçambique, vários grupos moçambicanos têm vindo a registar imagens e testemunhos, e promovido estudos, debates e encontros de informação, utilizando ao máximo os meios disponíveis para combater a desinformação passada para a Europa sobre o Eucalipto nas suas terras, ao mesmo tempo que procuram apoiar e organizar os camponeses.

    Em 2017, a Ação Académica para o Desenvolvimento das Comunidades Rurais (ADECRU), uma organização da sociedade civil fundada em Outubro de 2007 por jovens estudantes universitários, lançou a campanha «Um Hectare! Uma Folha de Zinco!», registando testemunhos de várias comunidades afectadas pela monocultura de eucalipto. As histórias recuam a 2010/2011, quando a Portucel iniciou o contacto com as populações para plantar eucalipto em Moçambique com promessas de lhes melhorar a vida. Após os acordos políticos, a empresa contactou os chefes das comunidades para convencer os locais a entregar as suas machambas – terrenos de cultivo familiares – e a trabalhar para a empresa. Apesar dos valores multimilionários da facturação, os pagamentos eram frequentemente feitos não com dinheiro, mas com chapas de zinco, cimento, comida…

    Apesar dos valores multimilionários da facturação, os pagamentos eram frequentemente feitos não com dinheiro, mas com chapas de zinco, cimento, comida…

    Num desses registos, Augusto Cassiene, agricultor a quem foram prometidos 50 anos de trabalho, viu nas promessas da Portucel a fuga à pobreza, mas quando começaram os trabalhos começaram os problemas.

    Não havia equipamento, tendo a empresa dito que quando recebessem podiam ir comprar catanas, botas e luvas para trabalhar. Augusto trabalhou 4 meses na empresa sem receber ordenado ou as chapas de zinco e diz-se derrotado pelos «buscateiros» da empresa. Augusto entregou 3 hectares que a empresa avaliou em 12 chapas de zinco e hoje, como muitos dos habitantes locais, vê-se obrigado a alugar machambas noutras comunidades. Num sentimento comum de quem perdeu as machambas e o seu futuro como comunidade, conclui desolado: «Eu não ganhei nada. Ele é que ganhou. Eu trabalhei, eu não recebi chapa… Eu perdi».

    Angélica Simão foi uma das camponesas a quem os líderes locais pediram para aceitar entregar as terras comunitárias para plantio de eucalipto. Ao seu lado, no registo vídeo da ADECRU, Araque Simão testemunha o modus operandi da empresa na sua localidade. «Primeiro, tiraram as casas, depois as machambas». A pouca água que servia a comunidade e atraía animais deixou de correr, e agora só ao pé dos eucaliptos se consegue água, nas lagoas de regadio da empresa. «Aqui não tem água. A bomba de água que empresa deixou trabalhou uns meses, ninguém vem arranjar». Quando as terras comuns acabaram, a Portucel começou a pedir as machambas particulares, que não eram pagas, mas trocadas por vencimento, placas de zinco e sementes melhoradas.

    Não satisfeito com a ocupação das terras, este modelo empresarial e territorial aumenta os problemas e a dependência das comunidades locais, ao distribuir sementes melhoradas através do seu Programa de Desenvolvimento Social e ao desviar as águas para optimizar o seu produto. Estes são os primeiros passos para desaparecerem as sementes tradicionais em proveito do mercado dos Organismos Geneticamente Modificados.

    Noutro testemunho, Assita Américo recorda como a sua comunidade foi contactada em 2010 pela Portucel. Meses depois já não pensavam na empresa, mas em 2012 a empresa voltou, quando já ninguém acreditava nas suas promessas subjacentes ao pedido para que a comunidade trocasse os terrenos das melhores machambas pelo plantio de eucalipto e por trabalho. Mas, a pouco e pouco, com a pressão social, financiada pela empresa, as pessoas começaram a entregar as suas terras e machambas, e mesmo algumas pessoas que não tinham um hectare pediam dinheiro emprestado para comprar mais terreno e entregar à empresa em troca de emprego, para assegurar o seu futuro e o da geração seguinte. Assita relata que a empresa devastou tudo, machambas activas e saudáveis, e até as provisões de milho para o inverno. «Era tudo perda para a população». Recorda-se do técnico do Ministério da Agricultura apresentar documentos que diziam que eles não estavam a fazer nada com a terra e a empresa sim, pelo que só ia respeitar a empresa. Pois, como as terras não estão registadas, podem fazer o que querem com elas. Sob as ameaças de que não tinham registos e com medo de ir para a cadeia, a comunidade via-se de mãos atadas, enquanto a empresa avançava. «Já não temos saída, estamos a cultivar noutras comunidades. Aqui já ninguém cultiva. Todas essas machambas de eucalipto eram as nossas machambas» diz Assita.

    Verónica Simão tinha uma terra no meio das outras, que foram vendidas. Mantendo a única machamba activa, já não tinha ajuda para a capinar e, sozinha, era muito difícil fazê-lo. Acabou por vender também um hectare com a promessa de 12 chapas de Zinco, das quais só recebeu seis.

    Moçambique_Portucel

    E o papel da sustentabilidade!?

    A propósito destes testemunhos, Perito Traquinho, representante da ADECRU, dá como evidente a violação dos direitos humanos e do direito à soberania alimentar. A subida das queixas de comunidades contra a implementação de grandes projectos de plantio de eucalipto em Moçambique tornou-se impossível de escamotear. Comunidades inteiras perderam as suas terras e habitações para a Portucel, e são várias famílias que perdem a capacidade de gerir as suas vidas. Daí resulta, de acordo com a portuguesa QUERCUS, a exigência, por parte de diversas ONG a trabalhar em Moçambique, de que sejam revogadas as concessões da Portucel Moçambique, face aos impactos negativos que as plantações estão a ter na subsistência e segurança alimentar das comunidades agrícolas rurais, e em cerca de 24 000 famílias que podem ser impactadas pela futura expansão das plantações.

    Em 2010, activistas brasileiros da Rede Alerta contra o Deserto Verde registaram a sua visita a Moçambique num vídeo com o nome «Ninguém come eucalipto! Em Moçambique também não!». Aí, Batista Moto, camponês moçambicano, diz que aceitaram as plantações porque são muito pobres e queriam melhorar a sua condição social, mas mais uma vez a verdade foi outra: o trabalho é escasso, sazonal e mal pago, passando a viver muitas vezes nas bermas das estradas que rasgam a nova paisagem de eucaliptos.

    Em 2021, mais de uma década depois, no dia 21 de Setembro, Dia Internacional Contra as Monoculturas, teve lugar o Encontro Internacional «Como Resistir às Plantações de Monocultura», organizado pela ADECRU, a Justiça Ambiental (JA!), a Missão Tabita, a Associação de Jovens Combatentes Montes Errego, o Fórum Carajás – Brasil, a Fundação Suhode da Tanzânia, Amigos da Terra Moçambique, o Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (Brasil) e o Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais (WRM). Do evento saiu uma Carta pública alertando para «o perigo real de uma expansão gigantesca de monoculturas de árvores no mundo», sob o falso pretexto de «reflorestamento», denunciando um relatório produzido em 2019 pelo Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) e a WWF-Quénia que identifica uma área de 500 mil hectares em 10 países africanos apta para o plantio de monoculturas de árvores por empresas privadas.

    Em troca de emails com activistas da JA! ao Jornal MAPA, estes sublinhavam como «a narrativa da Portucel e da indústria de monocultura tem que ser destruída. A Portucel gaba-se imenso das suas largas extensões de terra plantada, gasta fortunas em publicidade para convencer os distraídos que vieram para Moçambique para ajudar os “desgraçadinhos” dos moçambicanos, que têm tanta terra e nem sabem o que fazer com esta. Isto é mentira, é completamente falso. 

    “Resmas de Papel”, ilustração de Pedro Hermínio.

    A Portucel adquiriu através do Estado terras ocupadas por comunidades locais, terras que servem de meio de subsistência a estas comunidades e depois, por meio de promessas de vida melhor, convenceu-as que, ao ceder as suas terras, teriam empregos e vida melhor. Na realidade, e se se conhece um pouco o processo de aquisição de terra em Moçambique, a Lei protege as comunidades locais, e estas devem ser consultadas e devem concordar com a cedência de terra. No entanto, a grande maioria destas comunidades locais não têm conhecimento da Lei, dos seus direitos, nem tão pouco que podem recusar-se a ceder terra. E, agravando esta falta de conhecimento das Leis e dos seus direitos, há também uma enorme barreira, que é a língua: embora o português seja a língua nacional, não é do domínio de todos, e estas consultas comunitárias devem sempre ser traduzidas nas diferentes línguas locais. Infelizmente, esta falta de educação, de conhecimento e, em muitos casos, de empoderamento comunitário leva à submissão ao governo e aos “chefes”. Todos os processos de consulta comunitária são acompanhados pelos “chefes” e poucos ousam desafiar o que é dito nestas consultas, para além de que são também muitas vezes selecionados os que devem estar presentes e os devem falar. E assim foi com a Portucel.»

    Um dos ecos da Carta pública «Como resistir às plantações de monocultura?» foi a peça «Plantio industrial de eucaliptos e pinheiros empobrece comunidades no centro de Moçambique», transmitida pela radio Voz da América, na qual Cade Augusto, morador em Manica, garantiu que «a minha comunidade ficou mais pobre, porque as plantações de eucaliptos fazem sombra às nossas machambas de milho e mapira, definhando as plantas, e a água está a tornar-se cada vez mais escassa, porque essas plantações industriais sugam muita quantidade». Noutro testemunho, Marta Bengala que vira a sua machamba ser ocupada pelo eucalipto em 2013, sendo transferida para uma zona infértil a quase 30 kms de sua casa, referia agora que «as plantações de eucalipto já atingiram a nova machamba e devo ser transferida novamente para um outro lugar, no distrito de Muanza, quase 50 kms mais longe. Como vou produzir e me sustentar?»

    «Se o eucalipto fosse um alimento, seria bem melhor, mas não é. Além disso, as empresas destroem as árvores nativas e usam produtos químicos que contaminam o solo e a água. Poços e rios secaram e a água potável ficou escassa.»

    Todo este impacto do investimento da Portucel e de outras empresas de papel nas zonas rurais de Moçambique tem levado os camponeses ao desespero. As falsas promessas da Portucel são reconhecidas em todas as províncias.

    Na carta pública de 2021, unindo diversas frentes de contestação, é sublinhado que «há anos, estas comunidades resistem às plantações de monocultura de eucalipto das empresas Green Resources em Moçambique e na Tanzânia, da empresa Portucel em Moçambique; da empresa Investimentos Florestais de Moçambique (IFM) e as plantações de monocultura de seringueira da empresa Mozambique Holdings em Moçambique». Pelo que «resolveram romper o silêncio imposto pela pandemia e denunciar mais uma vez que as empresas de eucalipto e seringueira chegaram nas suas terras – em alguns casos há muitos anos atrás – com promessas de desenvolvimento, um futuro com escolas, hospitais, energia e pontes. No entanto, denunciam que nenhuma destas promessas foi cumprida. E pior, os eucaliptos e seringueiras ocuparam e destruíram as terras férteis das machambas e hoje as famílias não têm mais como se alimentar e algumas não tem mais onde morar. Se o eucalipto fosse um alimento, seria bem melhor, mas não é. Além disso, as empresas destroem as árvores nativas e usam produtos químicos que contaminam o solo e a água. Poços e rios secaram e a água potável ficou escassa. Em vez de construir pontes, as empresas destruíram pontes com as suas máquinas pesadas, sem se preocupar em repará-las. As comunidades sentem medo de atravessar as áreas de monoculturas. Mesmo já a ocupar extensas áreas, as empresas querem ocupar ainda mais terras.»

    Chegando a uma constatação: «toda esta situação está a causar muito sofrimento, muita fome nas comunidades e afecta de forma particular as mulheres. O Governo abriu a porta para as empresas e investidores e a fechou para o povo. O que está a acontecer é uma nova forma de colonialismo onde a empresa é a novo colonizador das terras». E a um sentido muito claro: «mesmo que as empresas não parem de expandir, mesmo que tentem intimidar e ameaçar, nós comprometemo-nos a continuar a unir-nos na luta contra as monoculturas e a destruição e usurpação de terras; mesmo que as empresas e governos nos insultem, vamos continuar a buscar formas para que as comunidades possam retomar os seus territórios»

     


    Texto de João Vinagre e Filipe Nunes


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #32, Outubro|Dezembro 2021.


    #Moçambique #PortucelMoçambique #Portucel #NavigatorCompany #economiaverde #comunidadesrurais #eucalipto #floresta #mapa32

     

  • Zapatistas e Mulheres no centro dos Encontros Intergalácticos

    Zapatistas e Mulheres no centro dos Encontros Intergalácticos

    O Esquadrão 421, a primeira comitiva zapatista a chegar à Europa, participou em Julho nos encontros de mulheres na ZAD francesa de Notre-Dame-des-Landes, por ocasião dos Encontros Intergalácticos. O Jornal MAPA, em parceria com a Guilhotina.Info, esteve no local revisitando aquela que foi a maior luta contra megaprojectos das últimas décadas na Europa e escutando diversas resistências, com destaque para as lutas das mulheres.

    A ZAD de Notre-Dame-des-Landes, a mais conhecida das «Zonas A Defender», é hoje muito diferente da ocupação de terras que encontrámos até 2018. A partir desse ano, com a vitória do movimento e o abandono do projecto do aeroporto, foi dado início a um processo de normalização de relações com o Estado, marcado por conflitos internos e por uma brutal onda de ataques policiais.

    Até então, a ZAD era um espaço que existia em (quase) total autonomia do Estado e do sistema capitalista. Fora da jurisdição das autoridades e da lei francesa, em grande parte desconectadas das redes públicas de água e electricidade, cerca de duas centenas de pessoas habitavam os ambientes mais improváveis desta Zona a Defender – desde quintas expropriadas pelo Estado por «interesse público» a cabanas no cimo das árvores ou, no meio de um lago, uma cabana flutuante. Enormes hortas colectivas, que durante boa parte do ano asseguravam a autonomia alimentar das habitantes e das visitantes, coexistiam com estradas e caminhos repletos de barricadas. Carcaças de antigos carros da polícia transformados em canteiros. Enormes buracos escavados para impedir a passagem da polícia num eventual novo ataque. Cabanas e uma torre de madeira construídas sobre o próprio alcatrão, perscrutando o horizonte em busca de alguma visita inoportuna.

    Sinais da força que permitiu enfrentar e vencer a operação repressiva que assolou a ZAD com uma intensidade nunca antes vista entre o outono de 2012 e a primavera de 2013, na chamada Operação César. Uma força vinda da enorme diversidade de pessoas, grupos, abordagens e estratégias que partilhavam o território, numa realidade repleta de contradições e conflitos, com tanto caminho por fazer em muitos campos. E, ainda assim, eco desse “mundo onde caibam muitos mundos” de que falam os zapatistas, exactamente por essa diversidade, descentralização e autonomia.

    A ZAD continua. Neste momento, cerca de 260 pessoas habitam a zona, umas em grupo, outras sozinhas, organizadas em diferentes colectivos, cooperativas e projectos

    Em 2018, o Estado soube pôr em prática a máxima “dividir para reinar” e entregou ao movimento um presente envenenado. A par do abandono do projecto do aeroporto, anunciou o início de um processo de regularização em que as comunidades deveriam apresentar candidaturas para que fossem avaliadas e emitidas decisões sobre a sua permanência na zona. O movimento, antes unido pela oposição ao aeroporto, fragmentou-se. Geraram-se conflitos entre pessoas e grupos que queriam, a todo o custo, manter a ZAD como estava e outros e outras que estavam dispostas a negociar com o Estado para conseguir manter pelo menos alguns dos espaços e alguma da autonomia. Nesse ano, logo após terem sido retiradas, como sinal de “boas intenções” por parte do movimento, as barricadas de uma das duas estradas que atravessam a zona, a route des chicanes, a polícia voltou a atacar e destruiu a maior parte dos espaços na zona leste da ZAD.

    Agora, à chegada a Notre-Dame-des-Landes, vêem-se poucos sinais da luta contra o aeroporto, que anteriormente decoravam as beiras das estradas, os jardins e as fachadas das casas. Os acessos estão em óptimas condições e as estradas dentro da zona estão asfaltadas e praticamente imaculadas. Não há sinais de barricadas nem carcaças de carros. Não há cabanas nem torres. Imensos espaços colectivos, comunidades e projectos desapareceram sem deixar rasto. Até a cabana flutuante foi destruída.

    E, ainda assim, apesar de todas as transformações que tiveram início em 2018, a ZAD continua. Neste momento, cerca de 260 pessoas habitam a zona, umas em grupo, outras sozinhas, organizadas em diferentes colectivos, cooperativas e projectos. Cada uma procurando, a seu modo, continuar a desenvolver formas de vida e de organização alternativas.

    E é aqui que surgem, por ocasião da invasão zapatista da Europa, os Encontros Intergalácticos. Um mundo de possibilidades e encontros entre gentes e lutas dos mais variados contextos e geografias.

    ZAD_Fernanda_Fernández

    «Muitas lutas para viver, um mesmo coração para lutar» – Encontro de Mulheres e Dissidências

    A 27 de Julho, véspera do início dos encontros, chegava a Nantes uma caravana marítima de mulheres. Catorze mulheres em três veleiros, vindas de diferentes partes da Bretanha. Navegaram para «visibilizar as suas lutas» e para «tomar os seus lugares num mundo marítimo marcado pela dominação patriarcal e colonial».

    Entraram pelo rio Loire e desembarcaram na vila de Couëron, na periferia ocidental da cidade de Nantes, onde eram esperadas por algumas dezenas de pessoas em alegre rebeldia. Presentes estavam também Marijose, Lupita, Carolina, Ximena e Yuli do Esquadrão 421. Já em terra, as marinheiras apresentaram às zapatistas uma canção escrita a bordo.

    «Agora as zapatistas chegam à Europa
    algumas de barco, outras de avião (…)
    Chegámos finalmente
    e os nossos sonhos tornam-se
    a cada dia um pouco mais realidade
    Mulheres e dissidências de aqui e de acolá
    Unamos as nossas forças
    Temos de nos revoltar!»

    Na ZAD de Notre-Dame-des-Landes, a Ambazada e o campo que vai até à Wardine, no princípio do Caminho de Suez, foram os espaços centrais dos Encontros Intergalácticos. Durante os dois primeiros dias, estes espaços foram ocupados pelo encontro de mulheres e pessoas trans e não binárias sob o lema «Muitas lutas para viver, um mesmo coração para lutar». Uma oportunidade rara para, à escala internacional, mulheres e dissidências partilharem experiências e ideias, debaterem e construírem as suas lutas e resistências. Dois dias em que foi possível usufruir de espaços seguros de discussão, mas também de diversão e lazer, espectáculos e concertos, sem a presença de homens – algo ainda mais raro.

    O Esquadrão esteve presente através das quatro mulheres e de Marijose, uma outroa, a palavra que as zapatistas utilizam para referir as pessoas que não se revêm na visão binária do género. Na cerimónia de abertura, tomaram a palavra para fazer as mesmas intervenções que, desde a sua chegada a Vigo em 22 de junho, tinham vindo a fazer em todos os actos públicos em que participaram: dizem o seu nome, a língua que falam, de onde vêm e onde vivem, e que são 100% zapatistas.

    Em todas as actividades em que estão presentes, registam pormenorizadamente nos seus cadernos o que acontece, o que é falado e discutido. Estão mandatadas pelas suas comunidades para conhecer as lutas e resistências «de baixo e à esquerda» deste continente que, no desembarque na Galiza, rebaptizaram de Terra Insubmissa. E tudo o que vêm, ouvem e vivem cá, transmitem-no às suas comunidades.

    E, na maior parte do tempo, permaneceram em silêncio. Algum raro momento houve em que, em grupos mais pequenos, tomaram a palavra, como por exemplo para explicar como funcionam as escuelitas zapatistas. Mas nunca emitiram opiniões nem posicionamentos, nem falaram em actividades grandes, o que causou desapontamentos e levantou questões por onde passaram. Muitas de nós nos perguntámos, nestas e noutras ocasiões, porque não tomavam a palavra. Entre conversas, possíveis explicações foram surgindo: que não estão mandatadas para falar; que o Esquadrão não é uma delegação de Escuta e Palavra, mas apenas de Escuta; que, sendo apenas sete entre as quase duas centenas previstas chegar, não falam para não ganhar protagonismo; que não falariam enquanto a entrada das restantes delegações continuasse a ser negada. A chegada das companheiras, prevista para o início de Julho, viria a acontecer apenas em Setembro, já então coincidindo com o regresso do Esquadrão 421 a Chiapas.

    Ao longo do atribulado processo da viagem zapatista, vamos aprendendo que tudo leva o seu tempo e que não há que tentar perceber tudo de uma vez. Dizia o Subcomandante Marcos, num comunicado de 3 de Março de 2001 dirigido ao Congresso Nacional Indígena: «Desconfia de quem muito fala, e escuta atento a quem sábio se cala.»

    No acto de encerramento deste encontro de dois dias, o Esquadrão é convidado a intervir. Acede em subir ao palco. Marijose pega no microfone e diz: «Estas são as nossas palavras.»

    Silêncio.
    Longos minutos de silêncio.
    E termina: «Muchas gracias

    Z de ZAD, Z de Zapata

    30 de Julho, dia de transição entre os dois encontros. Ao início da noite realiza-se, no imponente Farol da Rolandière, o ritual de abertura do evento misto. Um habitante da ZAD começa por contar um episódio que se desenrolara em torno de um posto avançado do exército mexicano em território zapatista, um posto de madeira e cheio de frestas. A certa altura, os zapatistas decidem fazer um ataque com a sua “força aérea” contra o posto, atirando pelas frestas dezenas de aviões de papel, cada um com um poema ou uma frase dirigida aos soldados. Conta a história que um deles dizia algo como «sabemos que vocês são pobres tal como nós, mas são ainda mais pobres pois venderam as vossas vidas àqueles que nos dominam e oprimem».

    A multidão permanece em silêncio, impressionada. Pela torre de vigilância usada, na altura dos confrontos, para perscrutar o horizonte em busca da polícia – uma das poucas estruturas que ainda resiste depois das expulsões de 2018 –, sobe uma mulher. De avião de papel na mão e apenas com a sua voz, sobrepondo-se ao vento forte que sopra, faz chegar aos ouvidos da multidão uma ária revolucionária francesa.

    Rolandière_Farol_FernandaFernández

    Quando chega ao topo da torre, a mulher lança o avião de papel, enquanto outras companheiras atiram outros 176 aviões, um por cada zapatista d’A Extemporânea. Em baixo, as pessoas recebem os aviões, dando simbolicamente a mão aos zapatistas que tentam entrar na Europa. É acesa uma fogueira, alumiando dezenas de tochas com Zs na ponta – Z de ZAD, Z de Zapatistas e Z de todas as zonas a defender. Após uma marcha nocturna, o acto termina enterrando os aviões na terra lavrada, num dos locais que antes fora palco de confrontos entre polícias e zadistas.

    Auto-organização feminista contra as agressões

    Os dias não-mistos deram lugar aos dias mistos, mas a resistência das mulheres continuou a ocupar um lugar central. Ressoava ainda a violação que ocorreu nos Encontros anteriores, em 2020, denunciada publicamente ao microfone durante o próprio encontro, e que abalou a ZAD.

    Atitudes, agressões e dinâmicas sexistas nos espaços colectivos haviam sido tema de debate ao longo dos anos em muitas das comunidades e assembleias da ZAD. No entanto, a ausência de um espaço colectivo que agregasse todos e todas as habitantes, fruto das primeiras fracturas que surgiram depois do fim da Operação César, impedia que certos problemas fossem enfrentados de forma colectiva. O debate geral e profundo na zona, surgido em reacção ao choque provocado por aquela violação, levou à criação de uma iniciativa para combater o sexismo em grandes eventos – a Festivities Fight Sexism. A FFS teve uma forte presença visual nos espaços do Encontro, com imensos cartazes contra as agressões sexistas e sexuais, e um número de denúncia e apoio afixado em todo o recinto, nos acampamentos e parques de estacionamento, através do qual as vítimas podiam entrar em contacto com companheiras da organização.

    Logo na noite de transição entre os dois encontros, denúncias de agressões e de gravações não consentidas de companheiras a dançar levaram as companheiras da FFS a implementar um protocolo contra as violências sexistas – foi criada uma zona segura em frente ao palco como espaço não-misto, equipas percorriam constantemente o recinto, uma equipa permanente dava apoio às vítimas e, durante a noite, grupos auto-organizados de mulheres acompanhavam as companheiras no regresso ao acampamento. Foi ainda feito o apelo para que, nas conferências e discussões, fosse dada prioridade à voz das mulheres, e foram agendadas várias reuniões não-mistas para avaliar o desenrolar do encontro e do protocolo.

    ZAD_Fernanda_Fernández

    As palavras do que se escutou

    Dezenas de actividades transportaram-nos através do tempo e do espaço às mais diferentes resistências. Desde a resistência à ditadura no Chade às revoltas dos anos 60 na Argélia, desde a revolução sudanesa de 2018 às lutas actuais nos Balcãs, passando pela experiência da Comuna de Paris no ano do seu 150.º aniversário. Falou-se de feminismo decolonial, de género e educação e de justiça transformadora em resposta às violências de género. Numa assembleia com a Rede de Entreajuda Verdade e Justiça, conhecemos a luta travada em França pelas famílias das vítimas das violências policiais e do racismo de Estado.

    Um dos temas centrais foi, naturalmente, as lutas pela terra e pelo território, por entre críticas às lógicas de mercado e à sociedade industrial. Uma das actividades centrou-se na crítica à ordem eléctrica, apresentada por uma rede de pessoas e colectivos de lutas ligadas à energia (contra o nuclear, as eólicas e as linhas de alta velocidade). Noutra actividade, procuraram-se os pontos comuns entre as lutas contra o Tren Maya, o movimento No TAV no Vale do Susa e a resistência à linha de alta velocidade HS2 em Inglaterra. Conhecemos ainda a Soulévements de la Terre, uma rede de lutas locais em França cujo objectivo é impulsionar um movimento de resistência à agro-indústria e ao extractivismo. Com a articulação de movimentos camponeses, ocupações de terras e experiências de auto-subsistência e auto-organização comunitária, a rede realiza acções massivas, de três em três meses, de apoio às lutas travadas no terreno.

    Outro dos pontos altos deste encontro foi a discussão «Resistências territoriais e construção de autonomias duradouras» em torno dos movimentos curdos, zapatistas e kanak, um povo originário em luta por autonomia na Nova Caledónia, que permanece uma colónia francesa. Um antigo presidente de câmara em Bakur (a parte do Curdistão na Turquia), um representante do Centro Democrático Curdo em França e duas internacionalistas de regresso de Rojava juntaram-se a um militante independentista Kanak e a duas militantes do movimento de apoio às zapatistas para partilhar as diferentes formas de vida, organização e produção construídas nestes territórios em busca de autonomia. Discutiu-se a correlação de forças no enfrentamento com o Estado, estratégias para suster as autonomias em situações adversas (governamentais, militares ou económicas) e o papel do internacionalismo.

    Ao longo do atribulado processo da viagem zapatista, vamos aprendendo que tudo leva o seu tempo e que não há que tentar perceber tudo de uma vez

    Por fim, o encontro presencial entre pessoas envolvidas na organização da Viagem pela Vida em diversos territórios – Suíça, Euskal Herria, Chipre, Roménia, Dinamarca, França, Portugal, Catalunha, País Valenciano, Cantábria e Andaluzia –, possibilitou a partilha das lutas e contextos das geografias presentes e as formas e desafios da organização. No tema da comunicação, falou-se de como a exclusividade da comunicação virtual acaba por deixar de fora quem não tem smartphone, as populações idosas, etc., e reforçou-se o exemplo e a necessidade de cartazes nas ruas, das rádios livres e outros meios de comunicação independentes. O que levou também a sublinhar a importância da presença e convivência a nível local e de bairro, destacando-se o exemplo de Barcelona, onde a organização desta viagem está baseada na criação de articulações entre colectivos, movimentos, projectos e espaços em cada um dos bairros.

    Com apenas dois homens entre uma dezena de mulheres desde as diferentes geografias da Viagem pela Vida, foi destacado o papel preponderante da participação feminina neste processo, e especialmente de mulheres migrantes. Uma mudança de paradigma num continente em que os movimentos reproduzem ainda bastantes dinâmicas sexistas e racistas, e frente aos quais os Encontros Intergalácticos assumiram ser esta uma questão central a partilhar com as zapatistas que a Europa acolhe.

     


    Fotografias de  Fernanda Fernández


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #32, OutubroDezembro 2021.


    #Esquadrão421 #comitivazapatista #ZAD #EncontrosIntergalácticos #mulheres #lutasdasmulheres #encontro #zapatistas #mapa32

     

  • NÃO NOS CONQUISTARAM

    NÃO NOS CONQUISTARAM

    O Esquadrão 421 em Madrid nos 500 anos da Resistência Indígena

    Crónica dos primeiros eventos da Caravana Zapatista pela Vida na geografia ibérica de Slumil K’ajxemk’op, ou Terra Insubmissa, como foi rebaptizada a Europa no momento do desembarque zapatista. Uma viagem ao passado colonial e à desumanização hoje dos migrantes, num apelo à reimaginação da história e à reactivação das redes de apoio para cada uma das nossas grandes e pequenas lutas.

    Em outubro de 2020 foi tornada pública a partir de Chiapas, no México, a intenção de fazer uma Caravana Zapatista pela Vida através dos 5 continentes. Com o tratamento epistolar que caracteriza o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), foi comunicado que esta travessia sem precedentes começaria pelo continente Europeu. Preparava-se uma delegação composta por companheiros/as/oas dos municípios e comunidades autónomas de Chiapas, do Congresso Nacional Índigena (CNI – CIG) e da Frente de Povos em Defesa da Água e Terra de Morelos, Puebla e Tlaxcala que viajariam pelo mar e pelo ar, com mais de uma centena de pessoas. Em abril de 2021 soubemos que a delegação marítima teria o nome de Esquadrão 421 e em junho que a aerotransportada seria A Extemporânea.

    A Travessia Zapatista começou no dia 3 de maio no porto de Isla Mujeres (Quintana Roo, México). Esta ilha faz parte dos lugares que veneravam a Ixchel, a mesma deusa maia da fertilidade que dá sentido a esta volta ao mundo pois, tal como na mitologia longínqua ela o enunciou: «do Oriente veio a morte e a escravidão, que amanhã navegue para o Oriente a vida e a liberdade nas palavras dos meus ossos e o meu sangue». Três décadas após a proclamação do Fim da História por Francis Fukuyama, cumpre-se a profecia de Ixchel através de uma Travessia com uma mensagem que desafia a imaginar uma sociedade global longe das lógicas da hegemonia capitalista.

    Depois de seis meses de preparação, o Esquadrão 421, integrado por Lupita, Carolina, Ximena, Yuli, Felipe, Bernal e Marijose – 4 mulheres, 2 homens e uma outroa –, partiu do Caracol Morelia com rumo ao golfo do México. Antes do embarque, como parte do ritual de despedida deste território maia, as sete integrantes reuniram-se com os tercios compas, os comandantes David, Zebedeo e a comandanta Hortensia, com integrantes do Congresso Nacional Indígena, e claro, com o coordenador desta travessia, o Subcomandante Moisés (chamado com carinho Moi). Depois, subiram a bordo d’A Montanha, uma embarcação de pesca construída em 1903 e tripulada pelo Capitão Ludwig, Gabriela, Ete e Carl da Alemanha e Edwin da Colômbia.

    A Montanha fez a sua travessia ao longo de 52 dias e fez apenas uma paragem, nos Açores, onde atracou pela primeira vez no dia 11 de junho. Daí seguiu rumo a Vigo, onde a delegação marítima zapatista desembarcou a 22 de junho. Devido aos sucessivos atrasos d’A Extemporânea, o Esquadrão 421 foi o único grupo de Zapatistas presente nos encontros realizados entre junho e o início de setembro em cidades como Mérida, Valência, Barcelona, Toulouse, Paris e Berna, entre outras. Enquanto esta delegação se deslocava através dos diferentes territórios, as mais de 170 pessoas da delegação aerotransportada enfrentaram inúmeros obstáculos na obtenção dos passaportes e das autorizações necessárias para sair do México rumo à Europa. Por um lado, o seu próprio estado-nação não os considerava como cidadãos, exigindo-lhes mais e diferentes documentos a cada uma das repetidas viagens de Chiapas à cidade do México para tratar de burocracias. Por outro lado, a já conhecida Fortaleza Europa continuava a alimentar os seus exigentes trâmites (que raramente se aplicam a europeus e a homens de negócios no geral) num racismo aguçado e mascarado pelo securitarismo sanitário que dizem ser necessário para enfrentar a pandemia do Coronavírus (mesmo com a delegação inteiramente vacinada).

    Desde Portugal, vários integrantes dos núcleos que organizam a Caravana Zapatista pela Vida deslocaram-se a diferentes territórios para participar nos eventos que compreendiam esta primeira fase de uma travessia simbólica de reimaginação pacífica da conquista colonial. Foi dessa maneira que fomos acompanhando, ao longo de três meses, alguns dos passos do Esquadrão 421 na sua descoberta de alguns dos recantos de Slumil K’ajxemk’op, ou Terra Insubmissa, como foi rebaptizado o continente europeu no momento do desembarque em Vigo.

    «A nombre de las mujeres, niños, hombres, ancianos y, claro, otroas zapatistas, declaro que el nombre de esta tierra, a la que sus naturales llaman ahora “Europa”, de aquí en adelante se llamará: SLUMIL K´AJXEMK´OP, que quiere decir “Tierra Insumisa”, o “Tierra que no se resigna, que no desmaya”. Y así será conocida por propios y extraños mientras haya aquí alguien que no se rinda, que no se venda y que no claudique.»
    Marijose, outroa tojolabal da floresta fronteiriça, Vigo, 22 de junho de 2021.

    zapatistas_madrid
    Fotografia de Guilhotina.info.

    Guerreiros da Luz Dançante

    Um dos momentos mais esperados desta viagem foi a contestação de uma data histórica: a suposta conquista do maior império do que é hoje o México celebrar-se-ia no dia 13 de agosto em Madrid. Os preparativos para esse momento começaram três dias antes com assembleias, eventos artísticos, concertos e reuniões para organização e logística. No Centro Social Autogestionado La Tabacalera, o Esquadrão 421, movimentos locais e internacionalistas partilharam o momento de construir alguns materiais simbólicos para a manifestação do grande dia (como aviões de papel, em alusão à Extemporânea, retida no México). Logo no segundo dia, dada a grande afluência, a reunião foi numa Horta Urbana comunitária: um espaço ao ar livre, espaçoso e agradável. Apresentados uns aos outros, contámos como nos organizámos para receber as Zapatistas em cada uma das nossas geografias. Uns organizavam-se por regiões, noutros a gestão era centralizada. Uma das frases que marcou uma das discussões em torno da chamada das Zapatistas àqueles que são «de baixo e à esquerda» foi um desabafo de uma companheira proveniente dos EUA: «porque as pessoas entendem o país como o estado capitalista que é, mas esquecem-se que este tem um outro lado de rebeldia, resistência e insubmissão que precisamos de visibilizar».

    Nesse dia, assim como no anterior, as refeições comunitárias aconteceram no espaço 3peces3, gerido assembleariamente, com uma dinâmica programação social, política e cultural. O final da tarde foi passado na periferia de Madrid, ao som do ska-punk e da cumbia de Boikot e Amparanoia, num concerto organizado pela CGT, sindicato de tendência anarco-sindicalista.

    O dia 13 de agosto, enquanto data de início da Resistência índigena à colonização, começou na Porta do Sol de Madrid com uma dança-ritual de limpeza e cura. É comum encontrar esta prática no Zócalo, a praça central em frente ao Palácio de Governo e à Sé na Cidade do México: xamãs e curandeiros Astecas reúnem-se diariamente para festejar a defesa heróica das suas resistências ancestrais – já não são guerreiros com armas, são guerreiros da palavra. Desta vez, foi o quilómetro-zero da capital espanhola, um dos principais corações do colonialismo, que foi ocupado por uma impressionante dança ritualística, protagonizada pelo Círculo de Dança Guerreros de Luz Danzantes.

    Em Madrid, o Esquadrão 421, depois de navegar os 1,8 quilómetros que separam a Porta do Sol da Praça de Colombo e perante milhares de pessoas, inscreveu na história a sua presença «desde baixo e à esquerda» no mesmo local que constantemente aglomera autoridades e seguidores da ultra-direita conservadora da Espanha. Além deste ser o centro de manifestações nacionalistas, cada pedra que compõe a sua arquitectura reafirma o pensamento monolítico do Cristóvão Colombo como conquistador de uma terra longínqua, símbolo da subtracção de terras, e de Hernán Cortés, orquestrador do extermínio dos povos indígenas e da queda de Tenochtitlan [ref] Cristóvão Colombo chegou às Américas em 1492, Hernán Cortés às margens de Veracruz (México) em 1519 e o que se dizia ser a queda de Tenochtitlan foi em 1521.[/ref], a antiga capital Asteca.

    Esta é a primeira etapa do que poderíamos chamar uma contra-pedagogia colonial baseada na invenção de um mito, uma ficção e uma realidade. Qual é a ficção aqui? O monólogo dos colonizadores sobre o extermínio e invisibilização das comunidades indígenas no mundo inteiro.

    Qual é o mito aqui? Assistimos à geração de um mito fundacional, de uma epistemologia transoceânica. Pensar no Zapatismo hoje é pensar que os oceanos não são só as veias do extractivismo e da submissão. Pelo contrário, constituem um caminho para a solidariedade internacional e a reactivação das redes de apoio para cada uma das nossas grandes e pequenas lutas:

    «Cuéntenos su historia. No importa si es grande o pequeña. Cuéntenos su historia de resistencia, de rebeldía. Sus dolores, sus rabias, sus “no” y sus “sí”. Porque nosotras las comunidades zapatistas hemos venido a escuchar y a aprender la historia que hay en cada habitación, en cada casa, en cada barrio, en cada comunidad, en cada lengua, en cada modo y en cada ni modos. Porque, después de tantos años, hemos aprendido que en cada disidencia, en cada rebeldía, en cada resistencia, hay un grito por la vida. Y, según nosotros los pueblos zapatistas, de eso se trata todo: de la vida.»
    do Comunicado lido pelo Esquadrão 421 em Madrid (13/08/2021)

    Qual é a realidade aqui? A intervenção de corpo presente do Esquadrão diante de nós. Nesse sentido, a realidade é um lapsus que nos permite teletransportar entre uma multiplicidade de tempos. Tempos existentes através de metáforas, ironias e contestações à história.

    «¿no dudó usted también de que los zapatones iban a invadir Europa? ¿Ah, verdad? Todos los seres que aquí se detallan, existen en la realidad. Si alguien no se imagina que esto sea posible, no es culpa de la realidad. Más bien es que le falta imaginación.»
    Subcomandante Galeano na comunicado Calamidad Zapatista (2019 – 2020)

    zapatistas_madrid
    Fotografia de Fernanda Fernández.

    Os nossos corpos comuns

    A viagem zapatista sublinhou como as transferências entre continentes significam um desafio crítico aos privilégios que um cidadão do Norte global tem na hora de viajar para qualquer lugar do mundo. Apercebemo-nos das dificuldades que enfrentam continuamente os imigrantes ao redor do mundo. O que é vivido pelos imigrantes ilegais é uma realidade que para muitos resulta distante e, não obstante, está mais próxima do que pensamos.

    Na manhã de 7 de agosto, os Lisboetas acordaram com a notícia do graffiti feito no Padrão dos Descobrimentos: «Velejando cegamente por dinheiro, a humanidade afunda-se num mar escarlate». Há barcos e barcos, há viagens e viagens. As mercadorias e os grandes cruzeiros transitam pelo mundo sem fronteiras visíveis. E, entretanto, os oceanos são enormes cemitérios. No Mediterrâneo, todos os dias flutuam corpos negros ao largo das costas de diferentes países europeus ou afundam-se ossadas nas profundezas deste líquido salgado onde já repousavam os rastos náufragos da escravidão.

    É esta a conexão entre a história passada e o nosso presente, entre o que foi a colonização e o que é hoje a imigração: o sistema de controle da vida especializou-se no uso de corpos aptos para trabalhar, para reproduzir-se e para esterilizar-se, hoje de forma mais sofisticada. A necromáquina aniquila tudo o que considera indesejável. Na realidade que nos apresentam os Zapatistas, as próprias ruas de Chiapas estão a ser inundadas por grandes caravanas de Haitianos, Venezuelanos e Africanos, particularmente Senegaleses, que deambulam pelo sul e centro da América Latina após múltiplas travessias marítimas forçadas. O seu destino é uma grande fronteira cada vez mais impenetrável. Aqueles que conseguem chegar vivos, passam os dias à espera de asilo político nos Estados Unidos da América, país que fecha tal possibilidade com uma infinidade de requisitos jurídicos e a execução de deportações massivas. O papel do México nesta difícil situação é utilitário. O programa Quedate en México obriga os requerentes de asilo a ficar à espera de uma resposta nas cidades fronteiriças, convertendo o país num tampão para os rios de gente que procuram atravessar a fronteira. Tal como o são a Turquia e Marrocos para a Fortaleza Europa.

    O passado e o presente colonial e neocolonial europeu reconhece como único cenário possível o descobrimento expansionista. Uma colonização baseada na expropriação e no despojo em nome da propriedade privada e no acto – contínuo até hoje – de sufocar outras formas de pensar e viver. A nossa catástrofe social encontra-se precisamente nas pretensões universalistas fundadas na separabilidade e na excepcionalidade do Ocidente ao declarar-se como executor do tempo e da inventiva do mundo. Dessa maneira aparecem as dicotomias entre sociedades desenvolvidas e subdesenvolvidas, centros e periferias, locais e estrangeiros, nós e os outros. As últimas guerras do Capital Global são, acima de tudo, conflitos locais e regionais que espalham destruição numa disputa eterna pelos recursos naturais. Sem o clima de medo e repulsa do diferente e do estrangeiro, sem a falsa narrativa do «Outro» enquanto perigoso e indigno, seria mais difícil justificar os muros, físicos e legais, e os programas de deportação para conter as centenas de milhares de pessoas que fogem de conflitos armados, no Médio Oriente e no continente africano, que o Ocidente criou ou alimentou. É cada vez mais claro que essa vitória ocidental significa a destruição do meio ambiente, precarização, dor, fome. Numa palavra, morte para todas e todos.

    zapatistas_madrid
    Fotografia de Guilhotina.info.

    Tem início o ano 501

    O que está a propor-nos o Zapatismo? A urgência desta Caravana pela Vida é, em primeiro lugar, a reimaginação da história da humanidade, da memória colectiva e da aceitação da diferença étnica e geográfica através de um novo cenário de descobrimentos, pacífico, onde as divisões que outrora foram impostas se dissolvem para expor o inimigo comum: o capitalismo feroz. A resposta à hegemonia da história é feita pelos Zapatistas através desta travessia que inverte os papéis “da conquista de Espanha por mar”, num ato simbólico de descolonização com dois momentos: o desembarque ou ato de possessão, em Vigo, e uma invasão inversa, pacífica e consentida, iniciada de forma discreta pela viagem do Esquadrão 421 através da Península Ibérica, França e Suíça, e consumada de forma retumbante neste 13 de agosto.

    «No venimos a traer recetas, a imponer visiones y estrategias, a prometer futuros luminosos e instantáneos, plazas llenas, soluciones inmediatas. Ni venimos a convocarles a uniones maravillosas. Estamos buscando otros rincones y queremos aprender de ellos. (…) Pero no es en actos grandes, sino que en los lugares donde ustedes resisten, se rebelan, luchan. Tal vez a alguien le parezca que nos interesan los grandes actos y el impacto mediático, y así valoren los éxitos y fracasos. Pero nosotros hemos aprendido que las semillas se intercambian, se siembran y crecen en lo cotidiano, en el suelo propio, con los saberes de cada quien.»
    do Comunicado lido pelo Esquadrão 421 em Madrid (13/08/2021)

    O pronunciamento Zapatista na Praça de Colombo inverte a narrativa linear de submissão e invisibilização. A invenção da história como progresso tornou as sociedades ancestrais antiquadas e, nessa medida, periféricas ao Norte global. A reimaginação do mito e a realidade que o Zapatismo está a imprimir na actualidade através desta viagem perturba esta narrativa ao se deslocarem fisicamente, desde as profundezas do estado de Chiapas, para esse Norte, para o centro, e desafiarem o seu calendário. Em vez do ano 0 do calendário cristão, tomam 1521, o início da resistência indígena, como ponto de referência. Ambas as decisões criam um novo tropos dentro do guião hegemónico instituído pelos conquistadores, mas também pelos maus governos da América Latina que, de tempos em tempos, com manobras mediáticas se mascaram de “progressistas e de esquerda”, ou fomentam um nacionalismo que promove as culturas indígenas, mas apenas enquanto objectos antropológicos e etnográficos. Contra esse guião instituído, os Zapatistas transformam o espaço – a Europa passa a ser o lugar de uma ocupação temporária sem pretender substituir o centro pela periferia – e o tempo – com o seu novo calendário.

    Face aos 500 anos da suposta conquista do México, anunciam 501 delegados, que virão em várias vagas para a Europa. E ao contrário de assinalarem os 500 anos com os olhos no passado, prepararam o futuro: o ano 501 em que percorrerão os recantos desta terra insubmissa.

    «Quienes formamos el Escuadrón Marítimo Zapatista, y que nos conocen como el Escuadrón 421, hoy estamos frente a ustedes, pero sólo somos el antecedente de un grupo más grande. Hasta 501 delegados. Y somos 501 sólo para demostrarles a los malos gobiernos que vamos delante de ellos. Mientras ellos simulan un festejo falso de 500 años, nosotros, nosotras, nosotroas, vamos ya en lo que sigue: la vida. En el año 501 habremos de recorrer los rincones de esta tierra insumisa.»
    do Comunicado lido pelo Esquadrão 421 em Madrid (13/07/20)

    zapatistas_madrid
    Fotografia de Lorena Salamanca.

    Outro paradigma da colonização que os Zapatistas põem na linha de fogo é aquele que tem determinado o lugar dos povos indígenas: ao posicioná-los no lugar da representação e não da presença; no lugar da ancestralidade e não do mundo futuro; limitando-os a certas zonas do planeta. Não obstante, quando a deterioração da sua situação é iminente, não é de admirar que as suas resistências silenciadas procurem altifalantes. O cerco explodiu e até o lugar mais recôndito está em risco. Esta viagem inversa é precisamente a relocalização destas posições. O Esquadrão são sete, porque sete são os pontos cardeais, mas estes pontos são dinâmicos, já não se encontram fixados no lugar em que os geógrafos, os humanistas, e os Estados-Nação decidiram localizá-los. Os mapas são aquelas representações incómodas que há algumas centenas de anos começaram a determinar as fronteiras do mundo que conhecemos hoje, são convenções feitas de esquemas arbitrários que dividem ideologicamente o indivisível, como uma cordilheira ou uma parte do mar. Nos atlas encontramos a sistematização da norma: a esfera torna-se um plano e divide-se em quatro partes; para o Leste há a sua contraparte o Oeste, e para o Norte há o Sul… não terá já chegado a hora de romper com essas estruturas que desenham tão esquematicamente o mundo?

    «Dicen que somos ignorantes, retrasados, conservadores, opositores al progreso, pre-modernos, bárbaros, incivilizados, inoportunos e inconvenientes… Tal vez estamos atrasados porque como mujeres que somos o como otroas, podemos salir a pasear sin temor de que nos ataquen, nos violen, nos descuarticen, nos desaparezcan. Tal vez estamos en contra del progreso porque nos oponemos a los megaproyectos que destruyen la naturaleza y nos destruyen como pueblos, y que heredan muerte para las generaciones que siguen. Tal vez estamos en contra de la modernidad porque nos oponemos a un tren, una carretera, una presa, una termoeléctrica, un centro comercial, un aeropuerto, una mina, un depósito de material tóxico, la destrucción de un bosque, la contaminación de ríos y lagunas, el culto a los combustibles fósiles. Tal vez somos atrasados porque honramos a la tierra en lugar de al dinero. Tal vez somos bárbaros porque cultivamos nuestros alimentos. Porque trabajamos para vivir y no para ganar paga. Tal vez somos inoportunos e inconvenientes porque nos gobernamos a nosotros mismos como pueblos que somos. Porque consideramos el trabajo de gobierno como un trabajo más de los comunitarios que habremos de cumplir. Tal vez somos rebeldes porque no nos vendemos, porque no nos rendimos, porque no claudicamos. Tal vez somos todo eso que dicen de nosotros.»
    do Comunicado lido pelo Esquadrão 421 em Madrid (13/08/2021)

    A mensagem é directa, nem os colonizadores centenários nem os maus governos de hoje os conquistaram. Não nos conquistaram! Apesar da violência infligida sobre os povos indígenas através dos séculos, na reimaginação deste novo cenário de conquista, os seus corpos e a sua viagem são o testemunho vivo desta outra história. Por outra parte, esse grito de rebeldia, impresso na enorme faixa que precedia ao barco zapatista durante a mobilização na capital espanhola, abre interrogações sobre a definição da palavra conquistar.

    «Y también decimos que sólo con la destrucción total de ese sistema será posible que cada quien, según su modo, su calendario y su geografía, habrá de levantar otra cosa. No perfecta, pero sí mejor. Y a eso que se construya, a esas nuevas relaciones entre los seres humanos y entre la humanidad y la naturaleza, se le pondrá el nombre que a cada quien le dé la gana. Y sabemos que no será fácil. Que no lo es ya. Y sabemos bien que no podremos solos, cada quien en su parcela combatiendo contra la cabeza de la hidra que le toca padecer, mientras el corazón del monstruo se rehace y crece todavía más.»
    do Comunicado lido pelo Esquadrão 421 em Madrid (13/08/2021)

    Na contemporaneidade, parece que esta nova definição se enquadra numa porta aberta para as múltiplas resistências e também numa total e global rejeição do sistema moderno e das suas retóricas civilizatórias e extractivistas sobre a terra e sobre os corpos.

    Obrigada Esquadrão 421! Temos saudades vossas.

    «Porque vivir no es sólo no morir, no es sobrevivir. Vivir como seres humanos es vivir con libertad. Vivir es arte, es ciencia, es alegría, es baile, es lucha. Y claro, vivir también es estar en desacuerdo con una u otra cosa, discutir, debatir, confrontar.»
    as palavras de Lupita ressoaram na Praça de Colombo, mas
    ressoam acima de tudo nos nossos corações (Madrid, 13/08/2021)

     


    Texto de Lorena Salamanca, Raquel Pedro e Francisco Norega
    Ilustração de IX


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #32, Outubro|Dezembro 2021.


    #caravanazapatista #esquadrão421 #madrid #travessiazapatista #zapatistas #terrainsubmissa #mapa32

  • Está nas ruas o número 32 do Jornal MAPA!

    Está nas ruas o número 32 do Jornal MAPA!

    Está nas ruas o mais recente Jornal MAPA, o último de 2021, com destaque para a Caravana Zapatista pela Vida que tem circulado pela Europa. Destaque também para as mobilizações deste Verão contra a mineração no Barroso, para a acção neo-colonial da Portucel em Moçambique, e para a grande vaga de demissões nos EUA que tem acompanhado a epidemia de Covid-19. Nas páginas interiores, podemos ler sobre o fecho ao público do Parque da Comenda, em Setúbal, sobre os jantares solidários na esplanada do RDA, ou ainda sobre as ligações directas entre a exportação europeia de armas e o movimento de refugiados. Continua a série de entrevistas «Testemunhos do Capitalismo Verde», onde se ouvem comunidades directamente afectadas pela mineração de lítio, e aborda-se também como os governos pretendem confiar a solução da crise energética aos mesmos que a provocaram. A alimentação enquanto escolha política e social merece também destaque, assim como o viés de género de chatbots como a Siri ou Alexa. Neste número 32, desafiamos a história contada sobre Otelo, desconfiamos do projecto legislativo dos «direitos da natureza» e reflectimos sobre o actual contexto de «pós-verdade» numa entrevista à filósofa brasileira Alyne Costa. De novo, o Jornal MAPA documenta a história da falsificação como forma de resistência, e oferece uma secção cultural com análises de livros (“O Bode Expiatório”, de René Girard, e “Contra o Leviatã, Contra a Sua História”, de Fredy Perlman), discos (re-edição dos singles dos Aqui D’el Rock) e poesia. O número 32 fecha com Ana Rita Serra fazendo um ponto de situação das políticas de habitação e da sua persistêncoa em ser guião do racismo estrutural português, e com José Smith Vargas a desenhar-nos um unboxing do jogo «Autonomia Zapatista», cuja venda contribuiu para financiar a Caravana Zapatista.

    Tudo isto pode ser comprado em qualquer dos pontos de venda do Jornal MAPA [https://www.jornalmapa.pt/distribuicao/], ou no conforto da tua gruta, se fores assinante [https://www.jornalmapa.pt/assinatura-do-jornal].