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  • Refugiados na Líbia organizam um crowdfunding para ajudar à sua sobrevivência e à sua luta

    Refugiados na Líbia organizam um crowdfunding para ajudar à sua sobrevivência e à sua luta

    «Estamos expostos a raptos, ataques de milícias e extorsão», afirmou um manifestante depois de o ACNUR fechar o seu centro de dia comunitário em Tripoli.

    Um grupo de cerca de 1600 pessoas tem-se manifestado diariamente à porta do centro de dia comunitário (CDC) da agência das Nações Unidas para os refugiados (ACNUR), em Tripoli, ao longo dos últimos três meses, exigindo ser enviadas para um local seguro, conforme fomos dando conta aqui, aqui, aqui e aqui.

    Os refugiados que estão acampados no centro da capital da Líbia lançaram agora uma campanha de crowdfunding para angariação de fundos para medicamentos, comida e abrigo e para ajudar a cobrir os custos do seu protesto prolongado.

    «Estamos a angariar fundos para ajudar a combater a nossa situação angustiante», disse Yambio David Oliver, originário do Sudão do Sul e porta-voz dos Refugees In Libya – assim são conhecidos enquanto grupo.

    «Precisamos de medicamentos e comida. Precisamos de comprar faixas e tinta. Precisamos de pagar a renda e encontrar abrigo e muitas outras coisas», acrescentou em entrevista ao site The Civil Fleet. Também para manter o mundo a par da situação, para aspirar a receber maior solidariedade, é preciso dinheiro: «dados [móveis], apoio técnico, material eléctrico».

    De acordo com Yambio Olivier, neste último mês, as coisas pioraram no local. «Alguns dos nossos activistas foram raptados por forças de segurança diferentes, várias milícias», afirmou. «Há alguns dias», continuou, «o ACNUR começou a desmontar o seu CDC, à porta do qual temos estado acampados, e a colocar as suas instalações em várias localizações, o que aumenta o nosso sofrimento. Estamos expostos a raptos, ataques de milícias e extorsão.

    Corremos mesmo o risco de sermos despejados à força do local em que estamos. O ACNUR reuniu uma lista dos manifestantes no dia 22 de Dezembro do ano passado e prometeu-nos assistência monetária, kits de higiene, comida, sacos plásticos e intervenções médicas. Mas, até agora [6 de Janeiro], nada disso foi feito. O nosso desespero continua a aumentar para um nível insuportável de solidão e angústia, quando olhamos para os nossos futuros. A comunidade internacional mantém-se calada à medida que os nossos apelos para que sejamos evacuados para local seguro sobem de tom».

    Podes contribuir no crowdfunding aqui: gofundme.com/f/solidarityrefugeesinlibya

     


    Fotografia [em destaque] de  Yambio David Oliver
, retirada de https://thecivilfleet.wordpress.com/


    #ACNUR #Tripoli #crowdfunding #solidariedade #refugiados #líbia #fronteiras #migraçōes

     

  • O meu filho nasceu na rua, em frente à ACNUR

    O meu filho nasceu na rua, em frente à ACNUR

    A história de Abdelkarim Isaak Khamis e da sua família, da fuga do Genocídio de Darfur ao nascimento de um novo filho, na rua, sem apoio médico, às portas da ACNUR em Saraj, Tripoli.


    Abdelkarim Isaak Khamis tem 43 anos e vem de Darfur, no Sudão. É casado com duas mulheres e tem nove filhos, três dos quais estão casados, estando os outros a viver com ele. Saiu do Sudão em 2005, em fuga do Genocídio de Darfur, e procurou refúgio no Chade, um país vizinho que lhe concedeu asilo, a ele e à sua família. Ficaram a viver no campo de refugiados de Jebel.

    Infelizmente, apesar de o Chade lhe ter oferecido hospitalidade, havia muitas coisas que não conseguia resolver, uma vez que vivia sob ameaça de indivíduos não identificados e de tribalismo dentro do campo de refugiados que, por vezes, resultava em perda de bens e de dinheiro. Apresentou este cenário à ACNUR e ao governo do Chade, mas nenhum deles fez nada que lhe devolvesse a segurança. Pediu muitas vezes para ser colocado noutro local, inclusivamente depois de ser reconhecido como «refugiado». E afirma que a sua vida e a das suas crianças estava em risco.

    Sem resposta, não teve outra opção que não fugir e a Líbia pareceu-lhe o vizinho mais indicado. Em Março deste ano foi lá que chegou com a sua família de 13 pessoas. Depois da chegada a Seba, o seu filho de 21 anos, Abdelraziq, e o seu genro foram raptados e, até hoje, não sabe nada do primeiro. Abdelkarim Isaak Khamis ficou completamente perdido, entre dificuldades culturais e linguísticas e com toda a destruição interna relacionada com o desaparecimento de Abdelraziq.

    Dirigiu-se à ACNUR para pedir asilo na Líbia e foi-lhe concedida uma «entrevista de registo» ao fim de três meses. Contou a história dos raptos, mas a ACNUR não reagiu a não ser para dizer que não podiam fazer nada. Deram-lhe apoio dois meses depois do seu registo.

    Teve sempre dificuldades em dar de comer aos seus seis filhos e às suas duas esposas com os parcos recursos que a ACNUR lhe dava. Procurou emprego e, uma vez que é alfaiate, arranjou trabalho na zona de Gargaresh, para onde se mudou. Acrescenta que sempre viveu de forma pacífica mas com recursos limitados para alimentar mulheres e filhos e pagar a renda ou tratar alguém da família que ficasse doente.
    Afirma que sobreviveu ao ataque a Gargaresh, porque o seu senhorio o informou de que as autoridades líbias estavam para chegar e ele fugiu horas antes das rusgas. Dirigiu-se, então, para os escritórios da ACNUR em Tripoli, em busca de segurança e protecção.

    Contactou a agência tanto por telefone como em pessoa mas ninguém o quis ouvir. Tentou explicar à ACNUR que a sua mulher estava grávida e muito perto da dar à luz, mas foi de novo ignorado.
    «As minhas mulheres, as minhas crianças, tiveram de dormir no chão, sem nada que nos cobrisse.

    Deixámos a nossa casa sem nada, na esperança de voltar um dia, mas esse dia nunca chegou, apenas pesadelos. Falta-me comida para alimentar a minha família. Falta-me dinheiro para ter acesso a cuidados de saúde para a minha mulher grávida. Transformei-me num pai inútil aos olhos da minha família. Estive a ponto acabar com a minha vida, mas olhava para minha mulher grávida e pensava no filho que estava para nascer. Foi isso que me salvou do suicídio».

    «A minha mulher deu à luz no dia 31 de Outubro, na rua, à frente aos escritórios da ACNUR. Em vez de estar feliz ou aliviado, nesse dia, senti vergonha por não ser capaz de mudar tal destino. Lembrei-me das cenas de destruição em Darfur e comparei-as com estas, as da minha vida e dos meus filhos abandonados na rua, sem comida sequer para uma mãe que está a amamentar».

    «Sinto medo de quase tudo, das noites sem dormir, das barrigas vazias e do som das vozes dos meus filhos a pedirem-me comida. Tivemos de sentir o odor a urina até que se transformou no nosso perfume. Olhei para as minhas filhas no seu período menstrual e vi-as cobertas de sangue. Tive de ir buscar cartões para que os usassem como pensos higiénicos. Uma vida que não é uma vida, mas uma vida, porque é uma vida» – diz com tristeza o homem de 43 anos que continua a sofrer, juntamente com os seus filhos e o recém-nascido, ao dormirem sem abrigo à porta da ACNUR, na zona de Saraj, em Tripoli. Não têm comida, fraldas, leite, água potável, acesso a casas de banho, fazem as necessidades em sacos plásticos, urinam em garrafas vazias e dormem entre o lixo.

    Abdelkarim espera que, um dia, o mundo se possa lembrar dele, o possa ouvir, o possa amar, proteger e trazê-lo, a ele e à sua família, para um lugar seguro. «Sou um pai iletrado, nunca tive oportunidade de ir à escola. Quero que os meus filhos o possam fazer e que aprendam, não quero que vivam em locais destruídos por guerras. As minhas crianças não são más e acredito que podem fazer muitas coisas boas se lhes derem oportunidade», disse ainda o deprimido Abdelkarim ao mesmo tempo que fitava o céu.
    Acrescentou que a sua filha de cinco anos está doente há quatro anos. Foi-lhe diagnosticada anemia e não está a ser tratada desde que chegaram à Líbia, porque ele não tem dinheiro para a levar ao hospital.

    [original publicado aqui a 6 de Dezembro 2021]


    #fronteiras #UE #prisões #centrosdedetenção #migrantes #Líbia #mediterrâneo #pushbacks #ACNUR #Darfur

  • Uma ave sem ninho nem comida

    Uma ave sem ninho nem comida

    Habib Ousmane, um senegalês de 28 anos, conta a sua história, do pushback na fronteira da UE à fuga das prisões que são os centros de detenção de migrantes na Líbia.


    Saí do meu país em 2016 e, depois, cheguei à Líbia. Aqui tenho sido detido muitas vezes. E acabei aprisionado em troca de resgate. Apesar de tudo, tentei atravessar o Mediterrâneo cinco vezes e, a cada uma, fui interceptado e trazido de volta para os centros de detenção líbios. Ainda me lembro da minha última viagem, em Maio deste ano, à qual se seguiu todo um novo caos.

    Fui interceptado no mar e levado para a base naval de Tripoli a 17 de Maio de 2021. O processo de desembarque foi lento, eu não tinha relógio, mas levou muito tempo, porque me doía o rabo, depois de tanto tempo sentado. O tratamento é sempre mau, com espancamentos, estalos e insultos. Enfiaram-nos num autocarro e conduziram-nos para a prisão de Khotshal (Mabani). Dois dias depois, eu e outros fomos transferidos para Gharyan.

    Fui levado para Gharyan no dia 20 de Maio, fui novamente maltratado, com torturas sem sentido, e éramos forçados a ir trabalhar. Muitas vezes dormíamos sem ter comido, e quem pedisse alimento era espancado sem misericórdia.

    Então, a 20 de Junho, houve uma grande explosão. De início, eram pequenos disparos de armas, depois foi aumentando. Tomados pelo medo, já que o fumo nos circundava, começámos a gritar aos guardas para que abrissem as portas. Gritámos e gritámos, batemos na portas, mas ninguém apareceu.

    Deu-se essa primeira explosão e, infelizmente, a segunda atingiu a nossa cela, fazendo-a cair sobre nós. Foi o caos, sangue e pessoas a implorar ajuda em várias línguas. Depois da explosão, houve muito fumo e fogo.

    Os guardas apareceram e dispararam para o ar, de forma a que não escapássemos. Fecharam-nos noutra sala e levaram os feridos e os mortos. O meu amigo Faye era um jovem da Gâmbia, com vinte e poucos anos, que perdeu ambas as pernas por causa da explosão. E o nigeriano Ebuka, nos seus 30 anos, levou com um tijolo nas costelas.

    A explosão aconteceu entre a oração ASR e a Magrib, mas não sei a hora exacta, pois não tinha relógio. Na cela, comigo, havia 72 pessoas de várias nacionalidades: Nigéria, Gana, Senegal, Gâmbia e Camarões. A explosão não durou muito, mas ainda ouvimos as pequenas balas durante algum tempo. E o fumo também ficou.

    Toda a gente estava a tentar espreitar lá para fora, eu não tive oportunidade. Mas o fumo entrou na nossa cela e sufocou-nos.

    Os guardas levaram-nos para outra sala por voltas das 20h. O edifício ficava atrás do edifício principal do centro de detenção.

    Vi seis pessoas feridas e apenas conhecia o nome de duas. Algumas pessoas caíram, inanimadas, toda a gente estava a tentar sobreviver e ninguém se concentrou nos que tombaram. Os guardas vieram e levaram os feridos, que nunca mais se voltaram a juntar nós até ao dia em que eu escapei.
    Não faço ideia se os levaram para o hospital, se os prenderam noutro local ou se os mataram. Perguntei-me se algum líbio tinha morrido durante a explosão, mas não vi nenhum líbio morto, por isso segui o meu caminho.

    O edifício colapsou sobre eles, alguns ficaram com ferimentos de graus variados. Outros, mais infelizes, morreram. Antes da explosão, tinham batido na porta e gritado e chorado em vão. Os guardas não os ajudaram até que a explosão se deu. Então, os guardas voltaram para os impedir de fugirem. O edifício que caiu ficava do lado esquerdo do edifício principal do centro de detenção. Não consegui ver nada por causa das grades.

    Houve mortos e feridos, edifícios destruídos e armazéns transformados em cinzas.

    Os armazéns onde as milícias guardam as suas balas e munições pesadas. Vi seis pessoas feridas e corpos sem vida que não consegui contar por estar muito preocupado. No fim, os guardas levaram-nos para outra cela. Não faço ideia onde enterraram os que morreram. Houve tortura… de categoria. Alguns eram espancados, outros fechados em isolamento, outros ainda impedidos de comer. Por uma questão de extorsão, dão-te sempre um telefone para ligares à tua família para que pague a tua libertação. O valor varia entre 2500 e 5000 dinares líbios [N.T.: entre 500 e 1000 euros], num preçário que tem ligações às nacionalidades: as pessoas da Eritreia, Somália e Egipto pagam sempre preços mais altos.

    Os guardas movimentam-se permanentemente com armas e é muito difícil perceber se estes homens armados pertencem ao governo. Para mim, são tudo milícias. Porque nenhum soldado de um governo maltrataria pessoas desta forma.

    Aconteceram muitas coisas mas eles mantiveram-nos, a mim e aos meus grupos, sempre presos.

    Felizmente conseguiu-se fugir. Eles trouxeram trabalhadores para reconstruir a prisão e tiveram de nos tirar das celas e foi aí que tivemos oportunidade de escapar. O director do centro de detenção, Usama Halfawi, trouxe pessoas para recuperar os estragos e, então, tiraram-nos das celas, escoltados pelos guardas, mas nós éramos muitos e a maioria tentou fugir e, felizmente, eu estive entre os sortudos. Quando fugíamos do centro de detenção ouvimos os guardas a gritar e a disparar para o ar, mas nada nos impediu de avançar em direcção às montanhas. Caminhámos, caminhámos com as barrigas vazias e sem a certeza de irmos sobreviver.

    Passámos dois dias nos montes; à procura de formas de sair dali. Conseguimos finalmente chegar à estrada, completamente exaustos e esfomeados. Vários táxis pararam, mas a tarifa era demasiado alta para nós e os nossos amigos em Tripoli também tinham pouco.

    Discutimos preços com vários até que um homem nos seus cinquenta anos apareceu e ofereceu um preço razoável, olhou para o nosso desespero e perguntou (Jama wein) de que pais éramos. Enrolei-me um bocado, porque o meu árabe não era assim tão bom, mas consegui fazê-lo perceber que vínhamos do Senegal.

    Levou-nos à loja, comprou-nos água e snacks. Estávamos de novo em Gargaresh, onde os meus amigos e companheiros tinham estado impacientemente à minha espera.

    O reencontro foi maravilhoso, um momento em que esqueces todas as tuas dores e em que o cansaço nos teus ossos já não é pesado. Abraçámo-nos e trocámos saudações.

    Levei algumas semanas para recuperar da fadiga e da raiva que senti quando vi o destino de um homem nas mãos de outro.

    Um mês depois, comecei a trabalhar, poupei dinheiro a assentar tijolos, consegui pagar a minha renda. Mas ainda estava preso na Líbia, ainda pensava constantemente em como acordar do pesadelo líbio.

    Infelizmente, é Outubro, e o que eu mais temia aconteceu. Eram 3h da manhã, uma noite de terça-feira, quando fui acordado por disparos de artilharia. Levantei-me e andei dum pequeno canto para o outro, a tentar perceber o que tinha acontecido, o que estava a acontecer e o que ia acontecer a seguir. Não encontrei resposta para os meus pensamentos apreensivos. Fiquei angustiado ao precipitar-me para as minhas poupanças, porque sei que os nossos apartamentos são severamente atacados por grupos armados para nos roubarem. Achei que desta vez seria o mesmo. Já eram 4h30 quando olhei para o meu smartphone cuja rede estava em modo de emergência. Tentei ligar, mas não havia sinal da Al-Madar, o meu fornecedor de rede. Desci as escadas para saber dos meus amigos, coitados, andavam de um lado para o outro, tal como eu, o que aumentava à medida que os disparos se aproximavam do nosso apartamento.

    Deixei-os e subi para o terceiro andar, onde vivia. Peguei nas minhas poupanças e voltei a descer para as enterrar, mas a hora triste chegara e ouvi as palavras líbias Gamis alwota, eidek foug, senta-te e mãos ao ar. Foi o que fiz, ao mesmo tempo que sete homens mascarados com uniformes negros me rodeavam e outros subiam para onde os meus companheiros viviam.

    Um dos mascarados atingiu-me com a coronha da sua AK-47 e ficou com as minhas poupanças. Caí de tremuras e choro. Já outros me tinham revistado os bolsos e ficado com o meu telemóvel. Puseram-me algemas de plástico.

    Fomos, depois, agrupados e levados para a prisão Khotshal. Fiquei traumatizado ao entrar nesta prisão pela segunda vez. Os guardas estacionaram-nos uns em cima dos outros. O dia passou sem que nos tenha sido dada comida ou água.

    Isto durou dias, estávamos todos com fome, exaustos e traumatizados. As pessoas fartavam-se de bater na porta, mas os guardas nunca as abriram. Estávamos fechados em hangares sem janelas, houve quem sentisse dificuldade em respirar, as pessoas urinavam-se frequentemente, por si abaixo e nos locais onde se sentavam e dormiam.

    Uma semana mais tarde, ouvimos pessoas de outros hangares a gritar, a gritar. Tentei saber o que estava a acontecer, até que ouvi disparos e o som da porta a ser deitada abaixo pelos detidos em fúria. Foi a esperança que nos levou a levantar-nos e a avançar em direcção à porta que empurrámos com todas as nossas forças. Felizmente abriu e conseguimos fugir. Não tinha para onde ir e não podia voltar a Gargaresh. Juntei-me às pessoas sudanesas que marchavam para a zona de Seraj e fomos andando até encontrarmos grupos acampados nos passeios da rua. Juntei-me a eles e, desde então, não tenho para onde ir. Vejo pessoas a serem registadas pela ACNUR, mas sou constantemente relembrado de que a ACNUR não é para nós, pessoas da África Ocidental.

    Estou sem esperança, a viver como uma ave sem ninho nem comida. Apenas espero ser levado para um local seguro, mas não ser repatriado para o meu país.

    [original publicado aqui a 28 de Novembro de 2021]


    Legenda da fotografia em destaque – “Habib Ousmane segura uma criança sudanesa de dois anos durante o sit-in nos escritórios da ACNUR em Tripoli, onde milhares de pessoas estão acampar desde o início de Outubro para exigirem ser levadas para locais seguros”.


    #fronteiras #UE #prisões #centrosdedetenção #migrantes #Líbia#mediterrâneo #pushbacks

     

  • Está a ACNUR-Líbia a apoiar as autoridades líbias a maltratar os refugiados?

    Está a ACNUR-Líbia a apoiar as autoridades líbias a maltratar os refugiados?

    Em Outubro, o Jornal MAPA dava conta da situação de milhares de migrantes e requerentes de asilo que, depois de perseguidos, torturados e detidos pelas autoridades líbias, se tinham concentrado à porta da ACNUR (Agência da ONU para Refugiados) em busca de auxílio, numa situação que se mantém até agora. Hoje, trazemos um relato retirado (numa tradução o menos retocada possível) do site Refugees in Lybia.

    No início de Outubro, as autoridades líbias e os seus mecanismos de segurança, incluindo forças militares de várias entidades, varreram todo o bairro de Gargaresh, um bairro dominado por milhares de refugiados, requerentes de asilo e imigrantes. A ACNUR nega ter sido informada sobre estas conspirações maléficas contra as pessoas com que se preocupa, que viviam no bairro. Como é que um governo levaria a cabo ataques tão violentos contra refugiados e requerentes de asilo sem informar a comissão responsável pelos assuntos dos refugiados?

    Fugas de informação dizem que a ACNUR, a OIM (Organização Internacional para as Migrações) e agentes fundamentais do governo líbio realizaram uma reunião para discutir as questões relacionadas com a migração e os refugiados antes do ataque a Gargaresh. A maioria das vítimas do ataque e das rusgas foram pessoas refugiadas e requerentes de asilo que o governo tinha obrigações legais de proteger, mas que, em vez disso, foram amontoadas como criminosas, detidas arbitrariamente em centros de detenção desumanos, tanto oficiais como não oficiais. Isto durou dias e, durante uma semana, a ACNUR nunca reagiu a estes incidentes nem às dificuldades que os refugiados tiveram de enfrentar, às violações, torturas, extorsões, trabalhos forçados e graves violações de direitos humanos equivalentes a crimes contra a humanidade.

    No entanto, ao fim de uma semana de fome e torturas, os já moribundos refugiados e requerentes de asilo detidos no chamado centro de detenção Al Mabani conseguiram escapar, apesar das dezenas de mortos e das centenas de feridos. Todos eles direccionaram as suas bússolas para a sede da ACNUR em Seraj, na esperança de serem protegidos e de porem fim aos receios que têm sentido constantemente desde que se encontram em território líbio. A ACNUR, em vez de os abraçar, fechou as suas portas e suspendeu todas as suas actividades no centro de dia comunitário, onde milhares de pessoas tinham acampado a pedir para serem evacuadas para países onde pudessem ser protegidas.

    Refugiados_Libia

    Estes refugiados auto-organizaram-se então, iniciaram uma manifestação pacífica, apelando à evacuação, e estenderam os seus apelos às autoridades líbias para que libertassem os detidos, mas sem eco por parte do governo, que não esboçou reacção, e da ACNUR, que se manteve calada.

    No dia 12 de Outubro, a ACNUR realizou uma reunião com os representantes dos manifestantes onde foram discutidas várias coisas mas, não se tendo chegado a acordo, a ACNUR convidou também o ministro da migração ilegal, o Sr. Al Khoja, e o líder da comunidade do bairro de Seraj. Poucos momentos depois, um jovem sudanês foi morto a tiro por milícias desconhecidas. O objectivo era assustar os manifestantes, uma vez que os funcionários do governo indicaram assim o que poderia acontecer se os manifestantes se recusassem a cooperar. As autoridades tinham proposto levar os manifestantes ao centro de detenção de Ain Zara, mas os refugiados recusaram a oferta porque sabiam exactamente o que lhes aconteceria atrás das grades.

    No dia 13 de Outubro, a ACNUR convocou uma segunda reunião e reiterou os seus apelos aos manifestantes para dispersarem e se afastarem do centro de dia comunitário. Ameaçaram fechar permanentemente o escritório e largar a sua bandeira, pois disseram que a única garantia de segurança para os manifestantes era a bandeira da ACNUR no edifício e, uma vez largada, seriam atacados pelas milícias e pelos vizinhos zangados que já se sentiam cansados das multidões. Os refugiados ignoraram todas estas ameaças enquanto marchavam em direcção à liberdade e à protecção com as suas últimas forças.

    Durante a permanência às portas da ACNUR, os refugiados têm sido constantemente ameaçados, espancados e roubados, tanto por milícias desconhecidas como pelos seus vizinhos. E a ACNUR tem-se mantido calada sobre todas estas atrocidades a que os seus refugiados estão sujeitos.

    E não é só isso.
    A ACNUR recusou-se a fornecer abrigo, assistência médica e outros tipos de assistência para salvar vidas a refugiados que acamparam no seu escritório principal; optaram por alcançar pessoas em locais que não foram afectados pelo ataque violento e maldoso de Gargaresh.
    Depois, no dia 31 de Outubro, a ACNUR convocou uma terceira reunião, desta vez com o chefe de missão da ACNUR, Jean Paul Cavalieri. Dezenas de questões foram discutidas e os refugiados expressaram as suas precárias condições de vida e, por conseguinte, mantiveram-se fiéis à sua exigência de evacuação. Os refugiados pediram à ACNUR que defendesse a libertação dos seus irmãos detidos em condições desumanas, expostos a violações, torturas, extorsões, etc.

    A ACNUR afirmou não ser capaz de proteger os seus refugiados e requerentes de asilo, e também que não irá evacuar os refugiados que acamparam no seu gabinete. Também disse que só defenderão a libertação dos detidos se os manifestantes dispersarem e se afastarem das suas instalações.

    Posteriormente, a ACNUR apertou e fortificou as suas forças de segurança, que eram verdadeiras milícias armadas a guardar o seu escritório principal. No dia 7 de Novembro, manifestantes que estavam pacificamente a abanar as suas pancartas foram severamente espancados e feridos pelos guardas armados da ACNUR. No dia seguinte, um jovem foi esfaqueado pelos mesmos guardas. Então, no dia 24 de Novembro, A ACNUR ordenou às suas milícias armadas que incendiassem as tendas pertencentes aos refugiados sem abrigo. E, até à data, A ACNUR não respondeu às questões colocadas pelas organizações internacionais de direitos humanos e activistas. Continuaram a ignorar o sofrimento dos refugiados que acampavam no seu gabinete.

    Sem vergonha, ontem, dia 2 de Dezembro, A ACNUR declarou à imprensa que o seu centro de dia comunitário seria encerrado até ao final do ano. No seu comunicado pode ler-se:

    «Centro de Dia Comunitário (CDC) fechará até ao final do ano.
    É com profundo pesar que a ACNUR e os seus parceiros anunciam o encerramento do centro de dia comunitário em Tripoli. Como não conseguimos abrir o centro durante a maior parte dos últimos dois meses, acreditamos que a melhor forma de ajudar aqueles que tentam aceder aos nossos serviços nas áreas urbanas de Tripoli é desenvolver mais soluções alternativas.
    Juntamente com os nossos parceiros, CESVI e IRC (Comité Internacional de Salvamento), estamos a trabalhar arduamente para encontrar soluções para continuar a prestar serviços que salvam vidas a refugiados e requerentes de asilo vulneráveis, tal como anteriormente prestados no CDC. Isto inclui serviços médicos e psicossociais, prestação de assistência pecuniária de emergência e artigos básicos de socorro, bem como aconselhamento jurídico (prestado pelo NRC, o Conselho Norueguês para os Refugiados).
    A prestação de assistência de emergência em dinheiro noutras partes de Tripoli já começou e, na medida do possível, esforçar-nos-emos por reforçá-la, incluindo cuidados médicos, dinheiro de emergência, alimentação e renovação da documentação da ACNUR.»

    Este movimento deixou os refugiados perplexos, contemplando a razão pela qual a ACNUR optou por abandoná-los a esta situação horrenda. E a questão é: por quanto tempo é que a ACNUR tem de encerrar e suspender todas as suas actividades nas suas sedes e instalações, alegando que os manifestantes estão a impedir outros manifestantes que são mais vulneráveis de aceder aos seus serviços? Enquanto trabalham secretamente em locais diferentes para pessoas que não foram afectadas pelo desenvolvimento de Gargaresh, deixando para trás as mulheres e crianças mais vulneráveis a dormir nas ruas? E após o encerramento do seu centro de dia comunitário, para onde têm de ir os sem-abrigo, refugiados sem abrigo? O que é que impede a ACNUR de lhes proporcionar alojamento temporário? Será que a ACNUR está a dizer às milícias – aqui estão as vossas presas, venham detê-las?

    A ACNUR há muito que coopera com o governo líbio nos pontos de desembarque de refugiados e requerentes de asilo interceptados no mar Mediterrâneo pelos chamados guardas costeiros líbios. Nesses pontos de desembarque, aparecem com falinhas mansas, fornecendo biscoitos e água aos interceptados, e prometendo-lhes liberdade e que fariam tudo o que fosse necessário para os levar para um local seguro. Neste ponto, as vítimas traumatizadas e exaustas dos pushbacks nas fronteiras da UE recebem uma esperança que dura apenas horas. Quando o processo de desembarque está concluído, o pessoal da ACNUR afasta-se, deixando para trás estes refugiados para o destino desconhecido e bem planeado concebido pelos estados italiano e europeus.

    São levados para centros de detenção inacessíveis para a ACNUR, que sabe exactamente o que acontece às mulheres e crianças enquanto são detidas nestes campos de concentração. Fingem e fazem publicações nos meios de comunicação social enquanto, na realidade, a Líbia está a incendiar o inferno para imigrantes e refugiados.

    Por estes dias, milhares de refugiados e requerentes de asilo continuam retidos em campos de concentração desumanos geridos pelas milícias líbias, tanto oficiais como não oficiais. A ACNUR assegurou até agora a libertação de 115 detidos em duas operações diferentes, primeiro a 11 de Novembro, onde 57 indivíduos foram libertados do centro de detenção de Ain Zara, na sequência das suas detenções em Outubro. A segunda, a 23 de Novembro, onde 58 requerentes de asilo foram libertados do centro de detenção de Tariq Sekka.

    Até à data, a ACNUR continua a ignorar os apelos dos refugiados que anseiam por protecção e são agora abandonados em locais impróprios para viver, sem acesso a casas de banho, cuidados de saúde, alimentação e abrigos. A ACNUR continua a fazer conspirações contra refugiados inocentes.

    Os problemas dos refugiados continuam por resolver e os seus destinos são definidos pelos Estados da UE e depois abraçados pelos líbios dentro dos seus territórios.

    Continuamos a exigir protecção e evacuação para países onde possamos ser protegidos e respeitados. A ACNUR deve ser clara e transparente se não for capaz de nos proteger. Devem fechar todos os seus escritórios e sair da Líbia, deixem-nos morrer sabendo que não temos ninguém a trabalhar e a beneficiar com propagandas feitas com os nossos nomes.

    Actualizações diárias em https://www.refugeesinlibya.org/dailyupdate

     


    #refugiados  #Líbia #ACNUR #OIM #RefugeesinLybia #UE # fronteiras #direitoshumanos

     

  • Na Líbia, a barbárie é europeia

    Na Líbia, a barbárie é europeia

    No seguimento do escalar da violência da campanha persecutória levada a cabo pelas autoridades líbias, milhares de migrantes estão, desde o início de Outubro, em frente ao Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), em Tripoli, para exigir a sua evacuação imediata para um país seguro.

    Nos primeiros dias de Outubro, as autoridades líbias procederam a inúmeras rusgas nos subúrbios de Tripoli, à procura de migrantes, acabando por deter mais de cinco mil pessoas, de acordo com números da Organização Internacional para as Migrações (OIM). Quem conseguiu fugir dirigiu-se para as instalações do ACNUR em Tripoli. Para o mesmo local, dirigiu-se também quem conseguiu escapar do centro de detenção Ghot Shaal. Nem todos, porém: na situação caótica que se gerou no seguimento da fuga de centenas de pessoas por um buraco na vedação, os guardas acabaram por matar seis pessoas.

    Desde então, entre 3 e 4 mil pessoas estão na rua, a exigir evacuação imediata para um país seguro. Sem comida, sem água e sem abrigo, expostas ao calor e à muita chuva e sem acesso a cuidados médicos. No dia 12, o ACNUR propôs que os migrantes reunissem com o Departamento para Combater a Imigração Ilegal (DCIM – uma estrutura que faz parte do ministério líbio da administração interna) de forma a encontrarem uma solução conjunta. A sugestão do DCIM tomou a forma de um convite para que fossem ao centro de detenção em Ain Zara, o que foi imediatamente recusado pelos manifestantes. Perante o impasse, a ACNUR pediu-lhes que fossem embora e deixassem de ocupar a rua.

    As autoridades líbias limitam-se a fazer o trabalho para o qual foram pagas pelo seu cliente: evitar, a
    todo o custo, que os migrantes cheguem a terreno europeu.

    Liberdade ou morte

    O que está a suceder neste momento em Tripoli é o resultado das políticas da União Europeia (UE), que externalizam fronteiras e promovem a detenção de migrantes sem se preocuparem com a duração ou as condições dessa detenção. As autoridades líbias limitam-se a fazer o trabalho para o qual foram pagas pelo seu cliente: evitar, a todo o custo, que os migrantes cheguem a terreno europeu.

    LibiaNa Líbia, os migrantes africanos nunca estão seguros. Seja nas ruas, onde estão expostos ao racismo, aos raids policiais, onde enfrentam muitas vezes a morte, o rapto ou o trabalho forçado, seja nos centros de detenção «oficiais», onde são sistematicamente torturados. O que está em jogo, então, não é apenas a exigência da evacuação destes 3 ou 4 mil migrantes para países seguros, mas a de todos os migrantes que, neste momento, estão em território líbio.

    A rede Abolish Frontex recebeu uma declaração da Líbia, onde se podia ler:
    «Nós, refugiados na Líbia desde 2017 até agora, estamos cansados de esperar sem soluções para os nossos problemas. […] Depois, o governo fez rusgas contra nós com todas as suas forças e prendeu-nos e ficou-nos com os nossos bens pela quinta vez. Fugimos da prisão e fomos para o ACNUR. Que não quis saber de nós e não nos quis ajudar. […]. Exigimos a evacuação para um país seguro, ou então o ACNUR terá de enviar o governo líbio para nos matar a todos em frente aos escritórios do ACNUR. Porque perdemos os nossos irmãos e as nossas irmãs, há 5 mil (há quem diga 10 mil) ainda em centros de detenção, sujeitos a tortura, com crianças e com fome. E 350 feridos pela polícia, e 34 que foram mortos quando escapávamos e mais o refugiado sudanês que morreu já às portas do ACNUR. […] Exigimos às organizações humanitárias que intervenham imediatamente de forma a evacuarem os refugiados da Líbia. Repetimos: Basta! Basta de mortes, basta de sofrimento. A Líbia é impiedosa, sem vida possível, sem humanidade!»

    Preocupação na Europa

    LibiaPor cá, o eco destes acontecimentos impressionantes e dramáticos não existe de todo. As notícias têm corrido muito depressa em algumas redes sociais mas não furam o bloqueio noticioso que parece ter caído sobre um assunto que, à primeira vista, deveria chamar a atenção de qualquer jornalista. Aproveitando este silêncio, uma outra notícia chega sorrateira, também ela sem alarido público: A Comissão Europeia pretende entregar novos e modernos barcos à guarda costeira líbia, mesmo depois de um relatório das Nações Unidas descrever as condições dos centros de detenção de migrantes nesse país como passíveis de serem consideradas «crimes contra a humanidade». Isto inclui «motivos razoáveis para acreditar» que o assassinato, a tortura e o rapto de migrantes fazem parte de um ataque sistemático e generalizado dirigido a esta população.

    «Exigimos a evacuação para um país seguro, ou então a ACNUR terá de enviar o governo líbio para nos matar a todos».

    Perseguidas no mar e na rua ou torturadas nas instalações oficiais, às portas da ACNUR estão pessoas que preferem morrer ali mesmo – de fome, frio, doença ou a tiro de espingarda policial – a ir para um qualquer centro de detenção de migrantes na Líbia. Nos gabinetes de Bruxelas, entre um chá e um aperto de mão, ultimam-se os pormenores para mais um negócio que fará com que ainda mais pessoas caiam em mãos comprovadamente criminosas.

    A barbárie mora aqui.

     


    Fotografias de RefugeesinLibya [https://twitter.com/RefugeesinLibya]

  • Líbia: a costa da Europa

    Líbia: a costa da Europa

    Nos últimos dias de Julho, os navios Ocean Viking, da SOS Mediterranee, e Sea Watch 3, da Sea Watch International, juntamente com o barco Nadir, da ONG alemã Resqship, resgataram cerca de 800 pessoas de embarcações à deriva no Mediterrâneo. Isto sucedeu numa altura em que a guarda costeira líbia aumentara a agressividade das suas acções e, no espaço de 48 horas, interceptara mais de mil pessoas, perfazendo um total de 18 mil até aos dias de hoje, se tivermos em conta apenas o ano de 2021.

    Há muito que a UE é acusada de criar polícias fronteiriças por procuração, de forma a que Estados como a Líbia façam o que a Europa não pode fazer sem violar grosseiramente os direitos humanos e as leis internacionais: interceptar migrantes e impedi-los de chegar a costas europeias. Migrantes esses que, depois de retirados do mar pelas autoridades líbias, são, nas palavras de Safa Msehli, porta-voz das Nações Unidas para as migrações, «levados para instalações de detenção deploráveis, onde enfrentam ainda mais abusos e exploração».

    O Jornal MAPA tem analisado a política de «externalização de fronteiras» da UE e não tem podido senão dar eco a estas acusações. A Frontex, por seu lado, tem-nas negado repetidamente. Em Abril, contudo, uma investigação acabou por demonstrar a sua pertinência. E, no passado dia 31 de Julho, a missão civil de reconhecimento aéreo Seabird deu-nos mais uma confirmação, ao afirmar ter testemunhado a ajuda da Frontex à guarda costeira líbia na detecção de barcos em perigo na área de busca e salvamento de… Malta, uma prática que tem tanto de ilegal quanto de corriqueira.

    A chamada Rota Central do Mediterrâneo, que parte da Líbia em direcção a Itália, ou Malta, é uma das mais mortais para quem procura uma vida nova na UE. A Organização Internacional de Migrações acabou de informar que o registo de mortes na primeira metade de 2021 quase duplicou em comparação com o mesmo período de 2020. Até este momento, sabe-se da morte de 1,113 pessoas. E sabe-se também que muitas das que não morreram acabaram algures na Líbia, detidas em acampamentos inumanos ou entregues a uma qualquer máfia local.

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    Fotografias de Flavio Gasperini | SOS Mediterranee