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Lendo: Uma ave sem ninho nem comida

Uma ave sem ninho nem comida

Uma ave sem ninho nem comida


Habib Ousmane, um senegalês de 28 anos, conta a sua história, do pushback na fronteira da UE à fuga das prisões que são os centros de detenção de migrantes na Líbia.


Saí do meu país em 2016 e, depois, cheguei à Líbia. Aqui tenho sido detido muitas vezes. E acabei aprisionado em troca de resgate. Apesar de tudo, tentei atravessar o Mediterrâneo cinco vezes e, a cada uma, fui interceptado e trazido de volta para os centros de detenção líbios. Ainda me lembro da minha última viagem, em Maio deste ano, à qual se seguiu todo um novo caos.

Fui interceptado no mar e levado para a base naval de Tripoli a 17 de Maio de 2021. O processo de desembarque foi lento, eu não tinha relógio, mas levou muito tempo, porque me doía o rabo, depois de tanto tempo sentado. O tratamento é sempre mau, com espancamentos, estalos e insultos. Enfiaram-nos num autocarro e conduziram-nos para a prisão de Khotshal (Mabani). Dois dias depois, eu e outros fomos transferidos para Gharyan.

Fui levado para Gharyan no dia 20 de Maio, fui novamente maltratado, com torturas sem sentido, e éramos forçados a ir trabalhar. Muitas vezes dormíamos sem ter comido, e quem pedisse alimento era espancado sem misericórdia.

Então, a 20 de Junho, houve uma grande explosão. De início, eram pequenos disparos de armas, depois foi aumentando. Tomados pelo medo, já que o fumo nos circundava, começámos a gritar aos guardas para que abrissem as portas. Gritámos e gritámos, batemos na portas, mas ninguém apareceu.

Deu-se essa primeira explosão e, infelizmente, a segunda atingiu a nossa cela, fazendo-a cair sobre nós. Foi o caos, sangue e pessoas a implorar ajuda em várias línguas. Depois da explosão, houve muito fumo e fogo.

Os guardas apareceram e dispararam para o ar, de forma a que não escapássemos. Fecharam-nos noutra sala e levaram os feridos e os mortos. O meu amigo Faye era um jovem da Gâmbia, com vinte e poucos anos, que perdeu ambas as pernas por causa da explosão. E o nigeriano Ebuka, nos seus 30 anos, levou com um tijolo nas costelas.

A explosão aconteceu entre a oração ASR e a Magrib, mas não sei a hora exacta, pois não tinha relógio. Na cela, comigo, havia 72 pessoas de várias nacionalidades: Nigéria, Gana, Senegal, Gâmbia e Camarões. A explosão não durou muito, mas ainda ouvimos as pequenas balas durante algum tempo. E o fumo também ficou.

Toda a gente estava a tentar espreitar lá para fora, eu não tive oportunidade. Mas o fumo entrou na nossa cela e sufocou-nos.

Os guardas levaram-nos para outra sala por voltas das 20h. O edifício ficava atrás do edifício principal do centro de detenção.

Vi seis pessoas feridas e apenas conhecia o nome de duas. Algumas pessoas caíram, inanimadas, toda a gente estava a tentar sobreviver e ninguém se concentrou nos que tombaram. Os guardas vieram e levaram os feridos, que nunca mais se voltaram a juntar nós até ao dia em que eu escapei.
Não faço ideia se os levaram para o hospital, se os prenderam noutro local ou se os mataram. Perguntei-me se algum líbio tinha morrido durante a explosão, mas não vi nenhum líbio morto, por isso segui o meu caminho.

O edifício colapsou sobre eles, alguns ficaram com ferimentos de graus variados. Outros, mais infelizes, morreram. Antes da explosão, tinham batido na porta e gritado e chorado em vão. Os guardas não os ajudaram até que a explosão se deu. Então, os guardas voltaram para os impedir de fugirem. O edifício que caiu ficava do lado esquerdo do edifício principal do centro de detenção. Não consegui ver nada por causa das grades.

Houve mortos e feridos, edifícios destruídos e armazéns transformados em cinzas.

Os armazéns onde as milícias guardam as suas balas e munições pesadas. Vi seis pessoas feridas e corpos sem vida que não consegui contar por estar muito preocupado. No fim, os guardas levaram-nos para outra cela. Não faço ideia onde enterraram os que morreram. Houve tortura… de categoria. Alguns eram espancados, outros fechados em isolamento, outros ainda impedidos de comer. Por uma questão de extorsão, dão-te sempre um telefone para ligares à tua família para que pague a tua libertação. O valor varia entre 2500 e 5000 dinares líbios [N.T.: entre 500 e 1000 euros], num preçário que tem ligações às nacionalidades: as pessoas da Eritreia, Somália e Egipto pagam sempre preços mais altos.

Os guardas movimentam-se permanentemente com armas e é muito difícil perceber se estes homens armados pertencem ao governo. Para mim, são tudo milícias. Porque nenhum soldado de um governo maltrataria pessoas desta forma.

Aconteceram muitas coisas mas eles mantiveram-nos, a mim e aos meus grupos, sempre presos.

Felizmente conseguiu-se fugir. Eles trouxeram trabalhadores para reconstruir a prisão e tiveram de nos tirar das celas e foi aí que tivemos oportunidade de escapar. O director do centro de detenção, Usama Halfawi, trouxe pessoas para recuperar os estragos e, então, tiraram-nos das celas, escoltados pelos guardas, mas nós éramos muitos e a maioria tentou fugir e, felizmente, eu estive entre os sortudos. Quando fugíamos do centro de detenção ouvimos os guardas a gritar e a disparar para o ar, mas nada nos impediu de avançar em direcção às montanhas. Caminhámos, caminhámos com as barrigas vazias e sem a certeza de irmos sobreviver.

Passámos dois dias nos montes; à procura de formas de sair dali. Conseguimos finalmente chegar à estrada, completamente exaustos e esfomeados. Vários táxis pararam, mas a tarifa era demasiado alta para nós e os nossos amigos em Tripoli também tinham pouco.

Discutimos preços com vários até que um homem nos seus cinquenta anos apareceu e ofereceu um preço razoável, olhou para o nosso desespero e perguntou (Jama wein) de que pais éramos. Enrolei-me um bocado, porque o meu árabe não era assim tão bom, mas consegui fazê-lo perceber que vínhamos do Senegal.

Levou-nos à loja, comprou-nos água e snacks. Estávamos de novo em Gargaresh, onde os meus amigos e companheiros tinham estado impacientemente à minha espera.

O reencontro foi maravilhoso, um momento em que esqueces todas as tuas dores e em que o cansaço nos teus ossos já não é pesado. Abraçámo-nos e trocámos saudações.

Levei algumas semanas para recuperar da fadiga e da raiva que senti quando vi o destino de um homem nas mãos de outro.

Um mês depois, comecei a trabalhar, poupei dinheiro a assentar tijolos, consegui pagar a minha renda. Mas ainda estava preso na Líbia, ainda pensava constantemente em como acordar do pesadelo líbio.

Infelizmente, é Outubro, e o que eu mais temia aconteceu. Eram 3h da manhã, uma noite de terça-feira, quando fui acordado por disparos de artilharia. Levantei-me e andei dum pequeno canto para o outro, a tentar perceber o que tinha acontecido, o que estava a acontecer e o que ia acontecer a seguir. Não encontrei resposta para os meus pensamentos apreensivos. Fiquei angustiado ao precipitar-me para as minhas poupanças, porque sei que os nossos apartamentos são severamente atacados por grupos armados para nos roubarem. Achei que desta vez seria o mesmo. Já eram 4h30 quando olhei para o meu smartphone cuja rede estava em modo de emergência. Tentei ligar, mas não havia sinal da Al-Madar, o meu fornecedor de rede. Desci as escadas para saber dos meus amigos, coitados, andavam de um lado para o outro, tal como eu, o que aumentava à medida que os disparos se aproximavam do nosso apartamento.

Deixei-os e subi para o terceiro andar, onde vivia. Peguei nas minhas poupanças e voltei a descer para as enterrar, mas a hora triste chegara e ouvi as palavras líbias Gamis alwota, eidek foug, senta-te e mãos ao ar. Foi o que fiz, ao mesmo tempo que sete homens mascarados com uniformes negros me rodeavam e outros subiam para onde os meus companheiros viviam.

Um dos mascarados atingiu-me com a coronha da sua AK-47 e ficou com as minhas poupanças. Caí de tremuras e choro. Já outros me tinham revistado os bolsos e ficado com o meu telemóvel. Puseram-me algemas de plástico.

Fomos, depois, agrupados e levados para a prisão Khotshal. Fiquei traumatizado ao entrar nesta prisão pela segunda vez. Os guardas estacionaram-nos uns em cima dos outros. O dia passou sem que nos tenha sido dada comida ou água.

Isto durou dias, estávamos todos com fome, exaustos e traumatizados. As pessoas fartavam-se de bater na porta, mas os guardas nunca as abriram. Estávamos fechados em hangares sem janelas, houve quem sentisse dificuldade em respirar, as pessoas urinavam-se frequentemente, por si abaixo e nos locais onde se sentavam e dormiam.

Uma semana mais tarde, ouvimos pessoas de outros hangares a gritar, a gritar. Tentei saber o que estava a acontecer, até que ouvi disparos e o som da porta a ser deitada abaixo pelos detidos em fúria. Foi a esperança que nos levou a levantar-nos e a avançar em direcção à porta que empurrámos com todas as nossas forças. Felizmente abriu e conseguimos fugir. Não tinha para onde ir e não podia voltar a Gargaresh. Juntei-me às pessoas sudanesas que marchavam para a zona de Seraj e fomos andando até encontrarmos grupos acampados nos passeios da rua. Juntei-me a eles e, desde então, não tenho para onde ir. Vejo pessoas a serem registadas pela ACNUR, mas sou constantemente relembrado de que a ACNUR não é para nós, pessoas da África Ocidental.

Estou sem esperança, a viver como uma ave sem ninho nem comida. Apenas espero ser levado para um local seguro, mas não ser repatriado para o meu país.

[original publicado aqui a 28 de Novembro de 2021]


Legenda da fotografia em destaque – “Habib Ousmane segura uma criança sudanesa de dois anos durante o sit-in nos escritórios da ACNUR em Tripoli, onde milhares de pessoas estão acampar desde o início de Outubro para exigirem ser levadas para locais seguros”.


#fronteiras #UE #prisões #centrosdedetenção #migrantes #Líbia#mediterrâneo #pushbacks

 


Written by

Teófilo Fagundes

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