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Lendo: Relatos dispersos de organização popular formam uma frente conjunta de esperança.

Relatos dispersos de organização popular formam uma frente conjunta de esperança.

Relatos dispersos de organização popular formam uma frente conjunta de esperança.


A oposição interna na Rússia, a resistência das pessoas na Ucrânia e a solidariedade mundial com os refugiados desta guerra, que já são mais de 2 milhões de pessoas.

No 16º dia da invasão da Ucrânia por parte da Rússia, interessa-nos divulgar notícias e comunicados vindos de vários partes que dão conta de diferentes exemplos de como as pessoas estão a resistir à guerra e a responder com solidariedade à destruição causada. Estas ações populares, fora da regulação institucional e das habituais lógicas de poder, são uma inspiração que vem de dentro e contra este conflito entre impérios.

Começando pela Rússia, apesar de assistirmos ao endurecer das leis do Kremlin contra manifestantes e contra meios de comunicação independentes, são vários os relatos de resistência e dissidência. Segundo os números mais recentes avançados pela OVD-Info, russas e russos continuam a manifestar-se nas ruas contra esta “operação militar especial” na Ucrânia, tendo a polícia russa detido cerca de 13915 pessoas até agora em protestos contra a guerra. A censura nos meios de comunicação russos e nas redes sociais tem endurecido, causando o fecho de várias sucursais russas dos principais meios de comunicação mundiais, tais como a CNN, o El País ou a Bloomberg.

Estes e outros meios de comunicação internacionais suspenderam as suas atividades no país, um dia após o regime russo ter imposto uma lei que prevê penas de prisão de até 15 anos a quem publicar “fake news”. Segundo o que se pode ler em vários artigos, usar a palavra “guerra” ou transmitir no país imagens das cidades ucranianas bombardeadas são considerados exemplos de notícias falsas.

Naturalmente, os meios de comunicação russos de oposição ao regime também estão a interromper as suas atividades ou a ser bloqueados. Um dos casos mais difundidos tem sido o fecho da TV Rain, que interrompeu as suas transmissões e cujo website já não é possível visitar, sendo possível ver ainda Youtube a sua última transmissão que termina com toda a equipa no ar, um “no pasarán” e um “não à guerra”.

Consultando canais de informação russos, observa-se que o clima identitário está a tomar proporções históricas e vemos como o símbolo “Z”, marca da propaganda militar nos tanques russos, é agora exibido com orgulho ultra-nacionalista por apoiantes do regime, além de aparecer em propaganda do governo. Mas também sobre este assunto se encontra oposição, havendo denúncias e petições contra o símbolo “Z”, acusando-o de ser propaganda de ódio.

É certo que não sabemos que consequências terá o shock económico que os países do ocidente estão a impor à Rússia, que já fez com que multinacionais como a Visa, o Youtube ou o Google Play tenham interrompido os seus serviços, dificultando assim a vida às populações. Tudo indica que, como na maioria das guerras, os mais vulneráveis já estão a ser os mais atingidos, mas também são elas e eles quem tem reagido e quem continua desobedecer apesar da dureza da repressão e recessão económica. Por isso mesmo, parece-nos que a esperança está nesta oposição interna vinda do povo russo.

Quanto às redes sociais, no dia 10 de março, a Meta, empresa que detém o Facebook, anuncia em newsletter enviada a utilizadores de alguns países que irá permitir discursos de ódio contra a Rússia nas suas plataformas:

“We are issuing a spirit-of-the-policy allowance to allow T1 violent speech that would otherwise be removed under the Hate Speech policy when: (a) targeting Russian soldiers, EXCEPT prisoners of war, or (b) targeting Russians where it’s clear that the context is the Russian invasion of Ukraine (e.g., content mentions the invasion, self-defense, etc.),” (retirado da Reuters)

Depois de ter fechado as suas sucursais na Rússia, a Meta irá também permitir elogios a paramilitares neonazistas da Ucrânia, desde que estes lutem contra a Rússia, segundo um artigo do The intercept- Brasil.

Entretanto, na Ucrânia, são vários os exemplos de resistência popular, com ou sem armas, que se encontram nas redes sociais e nos media ao longo destes 16 dias: centenas de pessoas saem à rua em protesto contra os ocupantes em Kherson, região controlada pelo exército russo; Pelo menos 3 vídeos diferentes mostram agricultores ucranianos a puxarem tanques russos com os seus tratores; multidões desarmadas que tentam impedir o acesso de tropas russas à central nuclear Zaporizhzhia, em Enerhodar; grupos de resistência auto-organizada fora da lógica militar que se defendem do autoritarismo de Putin; Restaurantes em Kiyv abrem para servir comida gratuita a quem precisa… Estes são apenas alguns dos exemplos de organização autónoma que está a marcar o rumo deste conflito.

Não abordaremos aqui as atrocidades em Mariupol ou os cercos criminosos a outras cidades ucranianas, nem os bombardeamentos a todo o tipo de edifícios que o exército russo está a levar a cabo, pois esse não é o intuito desta pequena compilação de notícias. Qualquer pessoa pode aceder aos relatos e imagens e discernir por si o que está a acontecer.

Não sabemos se o regime russo esperava inicialmente ser mais bem recebido nesta ofensiva, tal como afirmam alguns artigos de análise, mas entendemos que os exemplos de determinação e resiliência das pessoas na Ucrânia têm marcado alguma da informação que é difundida nos media e nas redes sociais, deixando bem clara ao mundo a sua vontade.

Residentes tentam bloquear acesso de tropas russas à central nuclear de Enerhodar a 2 de março.

Por último, a auto-organização de base para acolher os refugiados ucranianos é a única anestesia possível para a dor das imagens dos deslocamentos forçados que vemos. Ainda que sintamos a disparidade de tratamento que a Europa mostra a refugiados de outras nações, não esquecemos como no passado as populações no norte da europa se auto-organizaram para apoiar a crise humanitária na Síria. Agora, uma vez mais, as pessoas não esperam que organizações públicas ou privadas façam a gestão desta gigante crise- juntamente com ong’s, apoios governamentais e iniciativas privadas, são os milhares de voluntários civis quem está a garantir bens essenciais às pessoas que chegam a países como a Polónia, Roménia ou Moldávia, mostrando que a solidariedade entre povos é possível.

Mesmo quem está longe tem encontrado soluções para apoiar: o caso da Air b’n’b na Ucrânia é um dos melhores exemplos. Além de a empresa multinacional ter oferecido alojamento gratuito a 100.000 refugiados (não sabemos por quanto tempo), várias pessoas começaram a marcar e pagar alojamentos locais na Ucrânia, não porque vão de férias, mas sim como forma de apoiar financeiramente e mostrar solidariedade aos ucranianos donos daquelas casas.

Outras ações espontâneas semelhantes ocorreram com lojas online de pequenos produtores, como a Etsy, além dos inúmeros eventos de angariação de fundos e grupos informais de recolhas de bens para os centros de refugiados.

E ainda que muita da solidariedade a que assistimos seja só mediática, como os inúmeros posts de personalidades ou de empresas poderosas, os exemplos que aqui deixamos são talvez pequenos-grandes atos de coragem de quem se manifesta contra esta guerra, mostrando que este não vai ser um caso de um conflito longínquo num país de leste entregue à sua sorte. Ainda que o discurso mediático generalizado não o demonstre, vemos que a solidariedade entre povos é a resposta possível aos discursos e guerras que nos pretendem dividir. E quando este conflito afetar a segurança alimentar no Sul Global com a escassez na distribuição de alimentos já prevista, esperemos que a solidariedade popular se continue a estender e que também ninguém possa esquecer.

 

 

Quem andamos a seguir:

No_borders_team: equipas de voluntári@s auto-organizados nas fronteiras. Inclui listas de recursos para pessoas LGBTQ+ e estrangeiros que tenham sido alvo de discriminação e racismo.

The Kyiv Independent: um dos jornais ucranianos mais seguido nestes momentos, publica no Twitter atualizações regulares sobre o que se está a passar nas principais cidades ucranianas.

Максим Кац: canal de Youtube de blogger russo com legendas em inglês cujos vídeos mostram, por exemplo, a destruição causada pelos bombardeamentos na Ucrânia, episódios de protestos em programas de televisão russos e análises sobre os “mitos russos” que a propaganda do regime difunde.

@VagrantJourno: Ativista e jornalista na Ucrânia que publica regularmente informação sobre ações de resistência popular em inglês

 

O que andamos a ler:

“Grappling with environmental risks in the fog of war”, artigo no site Bulletin of the Atomic Scientists sobre os desastres ambientais que os conflitos nestas regiões estão a causar desde 2014 e preocupações com a atual situação nas centrais nucleares ucranianas.

“The War That Russians Do Not See”, artigo de análise do The New Yorker sobre os media e a repressão na Rússia.

O Coletivo Libertário de Évora reuniu várias análises e comunicados que interessam não só a anarquistas, como aquele que fala dos protestos contra a guerra, chamado Rússia: a primavera está a chegar

A Crimethinc compila e traduz para várias línguas textos de grupos de apoio a presos na Rússia, comunicados de grupos de resistência na Ucrânia e informação sobre como ajudar refugiados. Acabam de lançar um podcast com testemunhos das manifestações contra a guerra na Rússia.

(Os recursos aqui partilhados não refletem necessariamente a opinião de quem assina este artigo. Usa a tua discriminação quanto aos conteúdos. Usamos muitas vezes tradutores automáticos para aceder a informação específica, alguma dela citada nas fontes deste artigo. Tendo em conta a importância de boas traduções, fica aqui uma menção ao coletivo Translators Without Borders, cujo trabalho voluntário, tão necessário neste momento, pode ser apoiado de várias maneiras)

 

 

Nota: a imagem de destaque deste artigo é um Graffiti na Holanda em homenagem aos agricultores ucranianos que apreenderam tanques russos.

 


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M. Lima

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