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Lendo: Histórias da cadeia

Histórias da cadeia

Histórias da cadeia


O Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) de 2020 refere que no ano passado 75 pessoas morreram nas cadeias portuguesas, 54 por doença e 21 por suicídio. Em relação a 2019, o número de suicídios praticamente duplicou.

A partir da ocasião de nos encontrarmos com homens e mulheres que sobreviveram a períodos de reclusão nestas instituições, ou à reclusão dos seus familiares, decidimos, juntamente com elas/es, começar a recolha e partilha destas histórias da prisão, na esperança de que esses relatos dolorosos possam ajudar a unir todas aquelas pessoas que, ao tomar conhecimento desta realidade, sintam a urgência de se unir à luta contra estes centros de extermínio.

– Histórias da cadeia I –

“Doutor, sonho muito com a liberdade”

Num bar nos arredores de Lisboa encontrámos V.. Tem pouco mais de 40 anos mas já é avô, e diz que adora o bairro «de barracas» onde mora. Fora dali, nos bairros sociais, nas «grutas» onde o Estado realoja as populações despejadas, «as pessoas não têm vida». Fala com tranquilidade da sua experiência na prisão: «A minha cadeia foi normal. Entrava na cela, saía da cela […]. Têm que falar com alguém com uma história mais interessante». Ele teve a «sorte» de estar mais tempo numa prisão-escola, muito diferente do Estabelecimento Prisional de Lisboa. Igualmente, refere, tendo ele mesmo testemunhado mortes violentas, «na prisão sabes que podes morrer cada dia […], é um mundo paralelo […], uma vida a que os que vêm “de baixo” estão sujeitos». «Mas posso encontrar muitas pessoas que têm historias para contar, que aí dentro fizeram motins, que passaram mal. No EPL, por exemplo, existe um grupo de guardas prisionais conhecido como o “grupo aperta o papo”, que frequentemente vão bater nas pessoas nas celas durante a noite».

Fala também da administração de Lagartil ou cloropromazina: um potente anti-psicótico que é muito utilizado nos estabelecimentos prisionais, por pessoas em estado de agitação. Afirma V., «quando uma pessoa sai do padrão… – aquilo tem um padrão, como na tropa, tu tens uma farda: camisa nas calças, deixa os brincos de lado… – Lagartil é veneno», diz, «não é para pessoas, é para cavalos». Sendo este um medicamento que é prescrito em condições bem especificas de psicoses agudas ou crónicas, tentámos perceber como é possível que este fármaco seja dado a muita gente, se estas pessoas tinham consultas com médicos ou como estes diagnósticos eram feitos.

« Os psicólogos, os médicos…» responde, «uma vez um companheiro meu da cadeia disse a um psiquiatra: “Doutor… sonho muito com a liberdade”, e o médico disse-lhe para fazer isto», levanta-se e põe-se de cócoras sobre a cadeira movendo os braços para cima e para baixo como se fossem asas.

 

– Histórias da cadeia II –

“Quem cobre a morte é assassino. São eles os bandidos”.

Encontramos dois jovens num bairro na periferia de Lisboa.

J. esteve um ano no EPL, A. por mais tempo. Ambos transparecem uma revolta e indignação profundas pelas injustiças que sofreram e assistiram outros sofrer. A lucidez de J. leva-nos a entender que a memória do que sofreu é mais recente. Os dois têm muita vontade de falar sobre o que viveram entre grades.

A primeira coisa de que J. se lembra é que pessoas com problemas de saúde não são ouvidas pelos guardas, não recebem consultas médicas enquanto a situação não é muito avançada ou grave. Lembra-se que muitos têm ataques epiléticos e que, durante estes episódios, ficam sozinhos com os companheiros de cela, pedem auxílio e os guardas não chegam, para que os oiçam é necessário que os reclusos de toda a ala façam barulho contra as grades e gritem.

J. conta como ele próprio esteve com febre durante uma semana, depois de quase um ano no EPL. Era tratado somente com paracetamol, sem receber uma consulta. Por sorte sucedeu mesmo quando estava quase a sair, sucessivamente foi de imediato ao hospital e descobriu que era o início de uma pneumonia. Os guardas são poucos, às vezes um para um corredor que contém 300 pessoas. Na opinião dos dois, o EPL tem também um problema estrutural: «é muito frio, sai água das paredes e a humidade é tanta que as pessoas tentam reduzi-la cobrindo as paredes com cobertores, os colchões são extremamente finos e ficam em cima de estruturas de pedra excessivamente frias».

«A comida é péssima, às vezes evidentemente deteriorada e cheira a podre». Dizem os dois.

«E depois aquilo é sujo, aquelas alas são todas indignas, as ratazanas são mais que os presos… Somente uma é limpa, aberta… Aquela que usam para as reportagens, ou para quem “trabalha” com eles (os guardas)». «Aquilo é antigo, acho que antes era um convento».

A. conta: «quando acabei de chegar ao EPL, meteram-me em castigo por ter reclamado da comida. Oito dias fechado na cela por 23 horas».

J. explica como os guardas não te dizem muito durante o dia, mas se não gostam da tua resposta, voltam à tua cela durante a noite. Uma vez encontrou um guarda que estava a revistar o seu armário usando um cassetete e atirava tudo para o chão. Perguntou-lhe apenas por que estava a fazer aquilo assim, «o guarda não disse nada, somente saiu fechando a cela… depois voltou durante a noite e agrediu-me». «Agridem continuamente, porque as celas não têm câmaras, as câmaras estão somente nos corredores». Depois os dois especificam: «a única cela que tem câmara é a 80, porque é a cela que está perto do chefe dos guardas, serve para sair para fora, ir ao hospital por exemplo, mas havia muitas queixas de agressões naquela cela, então puseram uma câmara somente aí».

«Algumas alas são piores. A ala “D”, aquela dos miúdos, é uma selva autêntica».

Os dois explicam-nos que é muito comum a prática de isolar um prisoneiro depois das agressões: «põem-te em castigo, depois de te espancarem… Eles criam a sua burocracia… se estiver muito aleijado, encontram uma maneira de prolongar o castigo para que ninguém veja as marcas».

«O EPL é uma cadeia onde agridem e matam e depois escondem aquilo. Muitas vezes matam sem querer».

J. continua: «uma vez um guarda disse-me: “já não matei poucos”… E a mim próprio aconteceu várias vezes ouvir o rapaz vizinho de cela a ser espancado várias vezes no mesmo dia… Eles falam mal para que a gente depois responda mal… Também porque o Estado os ajuda a esconder o que fazem. Depois, se tu tentas fazer queixas por estas violências, vais ser perseguido… Já presenciei coisas como uma pessoa ir para o castigo várias vezes e há uma que não regressa… Depois sabemos a notícia que “se enforcou”». «Não há forma de defender-se» dizem, abanando a cabeça, «especialmente se sabem que não tens apoio fora ou dentro da prisão. Eles percebem, se não tens ninguém, se não és de um bairro, não tens um grupo ou suporte, para eles é como estar a tratar com um rato». «Por exemplo, tu às vezes tens que falar com um guarda, mesmo se não queres, mas às vezes é preciso… Então se tu falas mais com um e menos com o seu colega, este pode já ver-te mal e pode acontecer-te alguma coisa má somente por não falar-lhe». «É um sistema. Também para eles, não podem estar fora do sistema, se não são colocados de lado».

«A maior parte da malta que são guardas e andam por aí, são assassinos. Porque quem cobre a morte é um assassino. São eles os verdadeiros bandidos».

Falamos também sobre o administração frequente de Lagartil a pessoas que não têm problemas psiquiátricos. A. pergunta qual é a função deste medicamento. Lembram-se como é administrado em comprimidos ou em injeção, e das consequências imediatas e visíveis em companheiros presos, que se tornam incapazes de qualquer ação.

«Já vimos guardas a ser apanhados com sacos de telemóveis ou outros objetos roubados». «A diretora não manda lá. Quem manda lá são os chefes dos guardas». Ambos concordam.

Contam-nos como as violências não são sofridas somente por eles, mas também pelos seus entes queridos. Especialmente contam como as mulheres são ameaçadas, não as fazem entrar se chegam somente com um minuto de atraso e até sofrem revistas íntimas que definem comparáveis com violações. «As nossas “visitas” são agredidas psicologicamente e fisicamente pelos guardas», referem.

Claramente acham que o EPL é pior que outros estabelecimentos prisionais por todas as razões que nos contaram. Afirmam: «todas as cadeias matam, mas não como o EPL».

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Se estiveste preso ou és familiar de alguém preso, e queres partilhar conosco a tua história escreve-nos para historiasdacadeia@riseup.net


Written by

Jornal Mapa

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