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Lendo: À espera da mãe Rússia

À espera da mãe Rússia

À espera da mãe Rússia


 

Sunday morning on the barricades.

A guerra civil ucraniana e sua contextualização geo-política, vista por um fotojornalista que, no último ano, tem documentado o conflito que conta já com mais de 4300 mortos.

 

kievwild4Há pouco mais de um ano, aterrei em Kiev, juntando-me a dezenas de outros jornalistas que cobriam o levantamento de Maidan. O Inverno tinha chegado e os termómetros desceram muito abaixo dos zero graus. Na praça central da cidade, que dá nome ao movimento de protesto, as babushkas (avós em ucraniano e russo) serviam wurst gratuitamente, uma sopa típica de Inverno, e grupos de cossacos atropelavam-se à volta de pequenas fogueiras onde aqueciam os seus pés. A entrada da sede do Sindicato Nacional fervilhava de actividade, enquanto as pessoas esperavam ser dispensadas pelos trabalhadores corpulentos que, guarnecidos de armaduras, guardavam as portas. Lá dentro, um centro de imprensa tinha sido montado e havia uma farmácia e uma cozinha improvisadas. Lá fora, barricadas de mais de 3 metros de altura protegiam o interior do acampamento. Construídas a partir de carcaças de carros queimados, de sacas cheias de gelo e de distintas peças de metal, eram decoradas com as bandeiras dos diferentes partidos da oposição.

kiel_wild2Na noite que antecedeu a minha chegada, os batalhões da Berkut, a força de operações especiais da polícia, tinham carregado sobre os manifestantes e feito a multidão recuar até às últimas linhas de defesa da praça. Aí, as primeiras unidades de auto-defesa do Maidan, vestidas com armaduras caseiras, resistiram à polícia com pedras e paus. Dezenas de pessoas ficaram feridas e os vídeos pungentes dos ataques tornaram-se virais no youtube. Na manhã seguinte, uma tranquilidade tensa regressou à praça. As pessoas sentiram-se encorajadas pela vitória da noite anterior. A repressão brutal documentada nos vídeos acabou por legitimar involuntariamente o Maidan, fazendo engrossar as fileiras de manifestantes.

Situada no coração do continente europeu, a Ucrânia foi sempre um importante campo de batalha para exércitos estrangeiros rivais. Vikings, góticos, bizantinos, mongóis, polacos, czaristas, nazis e soviéticos, todos eles lutaram e morreram pelo controlo da região. Contudo, com a excepção da ocupação nazi, a Ucrânia manteve-se firme dentro da esfera de influência russa desde o reinado dos primeiros Czars. Hoje, os nacionalistas russos consideram aquela fértil estepe como pátria da sua identidade cultural eslava e da sua herança ortodoxa russa. O russo é a segunda língua na Ucrânia e o ucraniano partilha muito do mesmo alfabeto cirílico. A consanguinidade vai para além da fronteira, cimentando a ligação entre ambos os países. A nostalgia por um passado soviético idealizado continua disseminada. No entanto, é igualmente popular o ressentimento que muitos ucranianos têm pela Rússia.

kiev_wild3A identidade nacional ucraniana está enraizada no nascimento dos cossacos, escravos que escaparam à servidão dos reis polacos e dos czares russos, estabelecendo um povoado livre nas margens do rio Deniépre. Os cossacos são celebrados pelos nacionalistas ucranianos como uma mítica nação guerreira. Enquanto derradeiros oprimidos, estes heróis nacionais lutaram pela independência do seu país através da história. Apesar disso, a expansão soviética iria eventualmente esmagar a orgulhosa identidade cossaca. Entre 1932 e 1933, Stalin é acusado de organizar na Ucrânia o “Holodomor”, uma fome devastadora provocada pelo estado, que matou mais de um milhão e meio de pessoas. Durante a ocupação nazi, muitos ucranianos nacionalistas e tártaros da Crimeia foram colaboracionistas, chegando mesmo a adoptar alguns dos pilares fundamentais do nacional-socialismo alemão. Como resultado, mais de 230 mil tártaros da Crimeia foram deportados para as estepes da Ásia central como forma de castigo colectivo. Foram substituídos por pessoas de etnia russa que tinham sido deslocadas para a Ucrânia soviética para trabalhar nas indústrias florescentes.

Desde a queda do muro de Berlim e do colapso da União Soviética, os políticos ucranianos e a economia nacional foram fortemente influenciados pela ascensão de uma oligarquia regional e nacional. Estes oligarcas beneficiaram amiúde dos laços fortes que tinham com a Rússia, garantindo negócios internacionais opacos e lucrativos que reforçaram o seu poder na Ucrânia. Foi-se tecendo uma vasta rede de nepotismo, corrupção e de intimidação na paisagem política e económica da Ucrânia. Como resultado, muitos ucranianos associam directamente as políticas internacionais russas a uma gestão política e económica má, disfuncional e, frequentemente, criminosa do seu país.

kievwild5Em Janeiro, a cidade-tenda que tinha visitado no Maidan meses antes tinha aumentado até o ponto de se transformar num levantamento nacional. Os edifícios governamentais, tanto municipais como federais, caíram na mãos dos manifestantes do Maidan como dominós. Em Lviv, famílias de soldados barricaram as entradas dos quartéis onde os seus filhos estavam estacionados para impedir que fossem destacados para reprimir os manifestantes. Cada vez mais activistas do Maidan iam desaparecendo, sendo os seus corpos mais tarde encontrados nas florestas à volta de Kiev.

A 19 de Fevereiro de 2014, o governo de Yanukovych deu a ordem para despejar a praça Maidan de Kiev. A acção da polícia rapidamente acabou num massacre, à medida que os atiradores furtivos do governo disparavam sobre a multidão. A sede do Sindicato Nacional, agora a sede não oficial da revolução, foi totalmente queimada. Pelo menos 110 manifestantes do Maidan e 18 polícias morreram durante os combates. A 22 de Fevereiro, o presidente Yanukovych fugiu de Kiev. Só reapareceu uma semana mais tarde em Rostov Von Don, no sul da Rússia.

Desde o Maidan, muitos jornalistas e comentadores políticos no ocidente apontaram a recusa de Yanukovych em assinar um acordo de associação com a União Europeia, que visava encorajar a integração europeia da Ucrânia, como causa para a sua queda. Havia a tendência a recuar para uma lógica de guerra fria, descrevendo a revolução da Maidan como continuação de uma luta épica entre os valores liberais democráticos e o imperialismo soviético. Os manifestantes proeminentes do Maidan e os políticos que disputavam o poder político pós-Yanukovych, eram pintados como Vaclav Havels dos tempos modernos. À medida que as inclinações neo-fascistas dentro dos grupos de auto-defesa mais eficientes eram negligenciadas, a sua significância diminuiu.

O Maidan foi uma resposta popular a anos de má gestão política e administrativa e de corrupção. Era alimentado por sentimentos anti-Kremlin e por uma identidade nacional renovada. Apesar do espírito do Maidan ter sido o de derrubar as estruturas políticas e económicas dominantes e de emancipar a Ucrânia da intervenção Russa, a revolução não podia escapar à importância histórica e geopolítica da Ucrânia.

Durante a revolução, os países ocidentais rapidamente garantiram os seus interesses políticos na Ucrânia. Enviaram políticos e diplomatas ao Maidan que apoiavam abertamente os protestos e acusavam Moscovo de intervir. Após a queda do governo, alguns membros da oligarquia ucraniana renasceram como políticos proeminentes do Maidan, com as suas fervorosas plataformas anti-russas, e alguns nacionalistas ucranianos radicais introduziram-se estrategicamente nos novos aparelhos de segurança do país. Para os falcões do Kremlin, parecia que as suas piores previsões se estavam a concretizar, a Ucrânia estava prestes a tornar-se membro da OTAN.

No Dia da Vitória, um feriado que celebra a capitulação nazi perante o exército Soviético, activistas pró-russos organizaram uma marcha na praça Lenine de Donetsk. Tinham passado meses desde a queda de Yanukovych e tropas não-oficiais russas tinham assegurado a anexação da Crimeia a Moscovo. Para desgosto dos políticos em Kiev, milhares de populares de etnia russa aprovavam a anexação num referendo informal. Em Washington e Bruxelas, haviam rumores de um possível ataque relâmpago russo a Kiev e em Donetsk havia um medo crescente de uma suposta invasão nazi que estaria iminente. Na imprensa internacional, os elementos mais reaccionários do ocidente e de leste, à esquerda e à direita, pareciam definir o discurso público com as suas paranóias de uma terceira guerra mundial.

Donetsk_1Na praça Lenine, jovens mulheres de passa-montanhas agitavam a bandeira da recém-proclamada República de Donetsk, enquanto cantavam canções tradicionais soviéticas. Uma escolta de camiões de transporte chegou e descarregou dezenas de militantes pró-russos. Membros dos batalhões Vostok e Zapad, grupos paramilitares chechenos experientes em combate e que tinham lutado conjuntamente com as forças russas na Chechênia, aceitavam afavelmente flores da multidão. A sua chegada indicava o investimento que Moscovo fez na região ucraniana de Donetsk. Também assinalava um aumento sério da capacidade de luta das forças pró-russas.

O derrube de Yanukovych e a subsequente proibição da língua russa, revigoraram a desconfiança da revolução do Maidan por parte da população de etnia russa. Sentindo-se ameaçada pelo espectro de um conflito étnico, muitos residentes do sul e do este da Ucrânia viraram-se para leste à procura de garantias. Vladimir Putin deixou claro que os seus interesses nacionais incluíam os falantes de russo da Ucrânia e o canal estatal Russia Today e outros meios de comunicação aliados do Kremlin, construíram meticulosamente uma narrativa para justificar a intervenção.

Reafirmar o papel de proeminência da Rússia na economia política internacional foi sempre uma aspiração de Vladimir Putin. Para ele e para outros, o colapso da União Soviética foi uma tragédia que precisava de ser remediada. A crescente influência do Ocidente nas antigas nações soviéticas deixou uma série de guerras congeladas ao logo da fronteira russa. Nas regiões georgianas da Abkházia e da Ossétia do Sul, nos enclaves arménios de Nagorno-Karabakh no Azerbaijão e na Inguchétia na região do Cáucaso Norte, as forças russas reafirmaram-se em conflitos localizados. Com estas intervenções, Putin reinvestiu no aparelho militar do país e os seus comandantes puseram em prática e aperfeiçoaram novas estratégias para subverter os objectivos geopolíticos do Ocidente.

Simplificar a guerra actual na Ucrânia, ou como uma batalha entre os interesses democráticos ocidentais e as aspirações imperiais pós-soviéticas, ou como movimentos políticos neo-fascistas e lutas de libertação nacional, não ajuda à compreensão das verdadeiras causas desta guerra. Embora todas estas tendências e histórias estejam presentes no actual conflito, só através de uma exploração minuciosa das suas inter-relações complexas é que podemos encontrar uma resolução. Como em todos os conflitos, a guerra na Ucrânia tem sido destacada por momentos a preto e branco entre o certo e errado, mas é definida por um confuso e esmagador cinzento. Mais de 4 300 pessoas morreram a lutar desde que o conflito começou e, infelizmente, tudo está muito menos claro agora do que quando cheguei a Kiev há pouco menos de um ano. O que é claro para mim é que são sempre os civis que pagam pelas decisões dos homens armados e de que nesses nunca importa de que lado estás.

William Sands


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Jornal Mapa

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