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  • De Gaza a Odemira

    De Gaza a Odemira

    Com o 7 de outubro e o genocídio em Gaza, o cessar-fogo urge para, em oposição à guerra, enfraquecer os excessos na­cionalistas e racistas. Em trauma e sob vigilância sionista, as famílias e comunidades israelitas, que fizeram de sua casa o sudoeste alentejano, temem juntar a sua voz na defesa pela vida e com a Palestina. A realidade não pode ser ignorada, e perante a barbárie, o silêncio pode ser ensurdecedor.

    Odemira, primeiro sábado de 2024. Três meses depois do horror da incursão ter­rorista do Hamas de 7 de outubro em Israel e con­tabilizada a perda de cerca de 30.000 vidas palestinianas, entre mortos e sepultados nos escom­bros, depois da resposta do exér­cito israelita em Gaza. Dirijo-me a AlmaOhana, uma pequena comunidade de israelitas e pes­soas de outras nacionalidades, criada em 2021: uma mais das que veio repovoar o sudoeste alente­jano com o sonho de um estilo de vida regenerativo. A fogueira na rua do monte alentejano já aquece do frio invernal quem vai chegando para um «Círculo de Partilha para o Luto, Conforto e Compreensão em relação a Israel e à Palestina».

    Joey, Eva, Noy e Matthias, os anfitriões, juntam pela ter­ceira vez quem procura enten­der «como é que esta guerra está viva na comunidade local e internacional aqui no Alentejo, com o objetivo de fomentar uma nova cultura de apoio e união em pequenas comunidades que enfrentam conflitos globais». Já entre as paredes de taipa, aque­cidas pelas salamandras, a dança fluirá inicialmente por entre os 26 participantes aí reunidos. Confidencialmente, ouço quem toma a voz para expor o que vive e sente. Sobretudo, recolho em mim os medos, angústias, deses­pero e vergonha nas vozes israe­litas. Mais ainda porque, pela pri­meira vez, há duas palestinianas no círculo, cujas vozes, embar­gadas ou iradas, nos atingem em profundidade e sem concessões. A intensidade da dor e da perda, e a incompreensão absoluta da desumanidade em Israel e Gaza, une o círculo numa base comum, resumida ao mais básico: a defesa da vida e da paz.

    Tenho-me cruzado com gente que tem moldado este território, propondo modos de vida alterna­tivos, demonstrando a viabilidade de outras relações com a natureza, e garantindo um futuro saudável aos novos alentejanos, nascidos das mais de oitenta nacionali­dades registadas só no concelho de Odemira. Na última década, nos mercados entre a Aldeia das Amoreiras ou São Luís, o hebreu quase subsituiu o ecoar das vozes em inglês. As famílias e as comu­nidades israelitas chegaram em força aos vales e lugares recôn­ditos que pautam a cartografia hippie do território.

    Construir esta nova comunali­dade, tão empolgada na sua ves­timenta eco-alternativa, solicita aos israelitas, mais do que nunca, uma palavra sobre o drama humano em curso. Porém, o silên­cio imperou desde o 7 de outubro e tornou-se um peso demasiado incómodo face à inominável atro­cidade que fez do horror terro­rista um pretexto para aniquilar o povo palestiniano a uma escala sem precedentes nestes 75 anos de ocupação da Palestina. Nesse silêncio, compreensível na sua dor e trauma, o ódio abria cami­nho, forçando as pessoas a esco­lher lados, como se só pudesse haver dois lados. Sem se ouvir um afirmativo apelo ao cessar­-fogo. E foi deste incómodo que parti para escutar palestinianas, israelitas e quem mais se propôs viver no Alentejo o sonho de outro mundo, fugindo, outra palavra não haverá, da barbárie humana.

    Silêncio quando as crianças dormem, não quando são mortas.

    Eva, com quem falamos antes de nos encontrarmos na AlmaOhana, empenhou-se em criar um espaço de escuta e de fala sobre este tópico. «Como alemã, criticar as políticas de Israel coloca-te muito rapidamente na gaveta do anti-semitismo. As pessoas estão muito assustadas em falar». Cres­ceu com esse desafio e a sua pri­meira viagem fora da europa «foi a Israel, para tentar tirar um sen­tido disso». Aqui, no Alentejo, «vemo-nos uns aos outros na nossa dor, em círculos de partilha e nos mercados», mas «não falar­mos sobre isto não é natural. De que comunidade se trata afinal? Será que quando chegamos ao ponto de a questionar face a con­flitos globais ela simplesmente colapsa, porque apenas se reúne num nível light?». Daí o desafio de abordar em comunidade «tópicos pesados, onde podemos come­çar a construir uma nova cultura de apoio».

    Na busca de um «consenso básico sobre o que se está a pas­sar na nossa comunidade», o pri­meiro círculo de partilha teve lugar três semanas após o início da guerra. «Foi muito agitado, vivo e doloroso». O segundo decorreu mais calmamente, mas em ambos pesava a falta de duas palesti­nianas convidadas, a residir na zona. Não se sentiam à vontade, desde logo, pela diferença numé­rica com israelitas. Joey, nascido em Israel, contou-nos, por isso, que o grupo entendeu tomar uma posição contra o que se está a passar em Gaza, assim como pelo resgate dos reféns: «perce­cionar a dor em ambos os lados». «Por isso gostaria que os israe­litas ouvissem as vozes pales­tinianas, e claro que não estou a falar de todos os israelitas… Há muitos que não querem ouvir o outro lado».

    Estes encontros intimistas não escondem a intenção de se projetar na comunidade local, fortalecendo as iniciativas que, pese tardiamente, saíram à rua como a concentração pelo cessar-fogo que, uma semana antes, na vila de Odemira, a 29 de dezembro, reuniu dezenas de portugueses, israelitas, palestinianos e outras nacionalidades no largo frente à câmara municipal.

    Trauma. Culpa. Solidariedade.

    Essa concentração foi uma demonstração pública há muito aguardada pelas duas palestinianas residentes em Odemira com quem falámos. Aida, uma conhecida ativista pela paz da comunidade Tamera, coletivo que desde a primeira hora veio a público exigindo o cessar-fogo; e Haneen, uma jovem mãe de Gaza, com dois filhos, a residir na zona há cerca de 5 anos.

    Para Haneen «têm sido tempos muitos desafiadores, mas procuro estar rodeada de pessoas com quem posso falar, que compreendam a situação e mostrem solidariedade. Mas não posso mentir, houve muitos momentos em que me desliguei, pois vivi este tipo de atrocidades. Sobrevivi a quatro grandes agressões em Gaza. Estive em várias situações perto da morte, nem me lembro de todas…»

    Não lhe é fácil o exercício de equiparação, na escala dos horrores, entre o 7 de outubro e o genocídio que se passa em Gaza, razão pela qual não consegue lidar com o silêncio à sua volta. «Há pessoas que eu tenho como amigas na comunidade israelita e que não tomaram qualquer posição. A um deles perguntei se podia, ao meu lado, erguer um cartaz de cessar-fogo e respondeu-me que não o podia fazer. Como manténs a solidariedade se não és capaz de um tal ato? Desculpem, mas isto faz-me sentir muitas coisas ao mesmo tempo. Sinto-me desapontada». Esse amigo entende ser importante «querer levar as histórias de Gaza, a minha história pessoal, aos corações da sociedade israelita. E sim, eu quero que isso aconteça, mas ao mesmo tempo vejo que ele está com o medo de ser culpabilizado, de ser atacado». A incompreensão estende-se à comunidade, em particular, «que fala em desenvolver uma consciência, novos valores culturais, uma nova humanidade e trazendo novos modos de vida. E ver que isso não se relaciona com outros lugares no mundo».

    Haneen compreende que «ambos os povos estão a experienciar um trauma. O receio da perda das suas vidas e dos seus entes queridos. A sobrevivência. É algo que vem de um lugar de medo e de proteção, e que o governo israelita ativou nas pessoas para ter permissão de fazer o que quiserem. Mas, ao mesmo tempo, os palestinianos vivem sob ocupação há 75 anos e não podem continuar a viver dessa forma para sempre.

    Não se trata de escolher lados, mas de tomar consciência da realidade tal como ela é. Enquanto estivermos a negar a realidade nunca estaremos num novo caminho para prosseguir. Quando peço que tomem posição, trata-se de reconhecer uma realidade na qual eu sou afetada pela situação mais do que o outro. Há um desequilíbrio, e é isso que tento explicar».

    Aida nota que o perfil da maioria dos israelitas de que aqui falamos é «gente alternativa, com mentalidade de esquerda e um coração aberto». «A maioria deles vive num lugar de culpa pelo que se passa na Palestina» e o acontecimento traumático de 7 de outubro, deu-lhes «a possibilidade de se declararem igualmente vítimas. Isso fornece uma desculpa para se manterem em silêncio, o que é muito perigoso». É algo muito sensível, no qual será sempre «mais fácil ficar nessa resposta traumática, sentido a dor pelo teu próprio povo, sem tomares a responsabilidade de apelar claramente ao cessar-fogo e ao fim do genocídio dos palestinianos».

    «Esse trauma criado, de raiva e ódio, é escolher um lado. Estão a criar uma nova geração de Hamas e de soldados israelitas criminosos».

    A essa resposta traumática somam-se as circunstâncias particulares da condição israelita, bem distinta da palestiniana, o que, para Aida, pode igualmente explicar o silêncio. «Os israelitas que aqui estão, a sua maioria, estão financeiramente bem, com familiares, amigos, projetos e empresas em Israel. Mas Israel enlouqueceu sobre qualquer um que fale contra a guerra em Gaza». «Os israelitas serão culpabilizados se se posicionarem contra a guerra. Por isso, se o teu coração não é verdadeiramente revolucionário e se não está pronto para pagar o preço, e se tens uma bolha para estares no Alentejo, silencioso e bonito, então apenas cultivarás os teus vegetais e não falarás disso, do que se passa em Gaza. E isso é um silêncio de privilégio».

    Para Aida, o facto é que, «apesar da minha dor, eu tenho de me esforçar em pedir cooperação, pois eu sou quem é mais ferido. Por isso dirijo-me aos internacionais e locais que podem fazer algo, abrindo espaços onde palestinianos e israelitas possam falar. Eu acredito que as pessoas judaicas, com boas intenções e com amor, serão os melhores agentes. A sua voz é mais forte que a minha, porque para o povo deles eu ainda sou o inimigo. Mas se um judeu israelita falar com eles com a mesma energia, de amor e justiça, dirá que é tempo de reconciliação. Um judeu a falar disso tem mais valor, pelo que apelemos aos israelitas no Alentejo para criarmos algo fora da zona de conforto».

    odemira
    Fotografia de António Falcão

    Quebra de Confiança

    Alon e Pnina são uma família israelita que, no seu terreno, para os lados dos Lameiros, abre portas à comunidade nos muito concorridos mercados da Azula. O mercadinho de artesanato e afins, comida, música e dança tornou os domingos da Azula um ponto de encontro de referência. Juntámo-nos em dezembro passado no café Nativa, espaço da Regenerativa Cooperativa Integral em São Luís, numa conversa que se estendeu tarde adentro. Era a primeira vez, depois do 7 de outubro, que punham cá para fora as suas impressões e rapidamente o encontro resultou num improvisado círculo de partilha juntando-se à mesa quem mais por ali ansiava ouvir e falar sobre o assunto.

    O trauma do massacre do Hamas e a resposta genocida do exército israelita abalaram-nos visivelmente. Nas gavetas em sua casa ainda estão as t-shirts com Free Palestine estampado, que envergaram tal como muitos outros israelitas de esquerda que apoiaram os palestinianos anos a fio. Saíram de Israel após o conflito Israel-Gaza, de 2014, à data a maior operação militar israelita desde a Guerra de Gaza de 2008 (que contabilizou a morte de 2000 palestinos e 60 militares israelitas, números que ilustram bem a escalada da atual guerra). Haviam chegado a um ponto insuportável. «As nossas duas filhas, então com menos de 2 anos de idade, já aprendiam no jardim infantil em como se baixar e proteger a cabeça. Eu própria olhando para um muçulmano e receando, porque cresci assim, a ver bombas a explodir», conta Pnina. «Não quero que as minhas filhas os julguem assim, mas que deem uma oportunidade como seres humanos. Por isso saímos.»

    Para Pnina, o 7 de outubro «foi o momento mais difícil na minha vida como judia». Mais do que em 4 de novembro de 1995 quando Yitzhak Rabin foi morto. Então foi para matar o sonho da paz, agora foi um “assegura-te de que a paz não vai acontecer”». Desde então muitos mais israelitas vieram para cá e Pnina não precisa dizer o que transparece no seu olhar. «Os israelitas estão em trauma. O que se passou é algo que nenhum ser humano pode compreender. A maioria dos israelitas que foram mortos eram de esquerda, os que acreditavam na paz, voluntários que faziam o transporte de crianças doentes de Gaza para os hospitais em Israel, os únicos em Israel que davam a sua vida pela paz. E agora a confiança quebrou-se, não apenas com os árabes, mas com o governo israelita, pois o sentimento é que o exército do país não veio em seu socorro. Durante 24 horas as pessoas foram queimadas, raptadas, violadas e ninguém do exército israelita veio para os salvar.»

    «Se não está pronto para pagar o preço, e se tens uma bolha para estares no Alentejo, silencioso e bonito, então apenas cultivarás os teus vegetais e não falarás disso, do que se passa em Gaza. E isso é um silêncio de privilégio.»

    Sinto o resultado contraditório desta quebra de confiança. Por um lado, a dor quanto à inumanidade do Hamas sobre os israelitas. Esses, diz Pnina, «que davam a sua vida pela paz. Como é que a partir desse dia podemos olhar para os palestinianos e dizer que continuamos a acreditar na paz? Estou a falar das pessoas que eram muito radicais acerca da paz, os mais radicais em Israel. Viviam aí, havia amizade. E se lhes perguntares hoje, dizem-te: «vão lá e matem-nos!”. Pessoas que nunca na sua vida pensavam em matar palestinianos. Isso vem da dor e parte-se-me parte o coração ouvi-los reagir dessa forma tão adversa. É errado, terrível, mas eu não os consigo julgar. Vieram até às suas casas, às 7 da manhã, violaram as suas mulheres, mataram as suas filhas. Foi tão maldoso. Eu não consigo julgar, apenas dizer-lhes que têm de continuar a acreditar na paz».

    Por outro lado, a certeza das responsabilidades do governo israelita no que se passou. Em ter aberto as portas no dia 7 de outubro. Não hesitam em apelidar de louco e nazi a bibi” Netanyahu. «Foi ele quem matou o processo da paz e pagou ao Hamas, todos os meses, muito dinheiro, para que não houvesse qualquer solução política. Mantendo-lhes o estatuto, pensando que se manteriam quietos». Todo um enredo, criado pelos Estados Unidos e Israel, que potenciou o desfecho do Hamas. Já Aida nos apontara essa premeditação por parte do governo israelita, assim como as acusações de israelitas à inação do exército, que esperou «que matassem as nossas filhas e filhos para que pudessem implementar o planeado projeto económico e político. O projeto para um segundo nakba [êxodo palestino de 1948], de enviar Gaza para o deserto, para o Egipto e Jordânia, e tomar Gaza. Um projeto colonial que se está a expandir», e a que se junta a cooperação dos Estados Unidos e Israel para garantir o monopólio do gás natural do Levante à Europa, ao invés do gás russo ou iraniano.

    Posto isto, para Pnina, o contraditório assola-a naquilo que poderia significar vestir hoje a sua t-shirt free palestine, ou ao ver essas palavras nas paredes do mercado municipal de São Luís. «Free Palestine – eu morreria por uma Palestina livre mas hoje parece tudo misturado, as pessoas e as organizações terroristas». Quando na página da Azula «postei algumas coisas sobre os reféns, sobretudo os bebés raptados», Pnina diz-se surpreendida com as reações: «de como me atrevia a escolher lado pois a Azula é uma espécie de espaço comunitário. Mas nós somos israelitas, não posso bloquear isso. E sim, eu esperava da comunidade alternativa aqui que dissessem de forma muito clara depois do 7 de outubro: tragam de volta os bebés raptados e não apenas Palestina Livre! O 7 de outubro não é acerca de libertar a Palestina, mas acerca de terroristas que trouxeram tamanha dor».

    Por tudo isso Alon e Pnina compreendem o silêncio. «Uma das formas de reação foi fechar-nos em nós mesmos, o que é tomar um lado. O que é compreensível, mas não justificado». Alon não esconde que «é a primeira vez que falo mais do que dois minutos sobre o assunto, pois falei sobre isto toda a minha vida e estou cansado. Por isso decidi ir à minha vida, tratar das minhas crianças e ter uma comunidade aqui à minha volta. Criar o meu mundo e formar parte de um corpo forte juntos». Mas sabe que o que está em causa aqui «não é escolher um lado. O que está em causa aqui não tem a ver com os povos palestinianos ou israelitas». Pnina corrobora: «Isto não é acerca de palestinianos e israelitas, mas acerca do poder». Para Alon, esse «trauma criado, de raiva e ódio, é escolher um lado. Estão a criar uma nova geração de Hamas e de soldados israelitas criminosos».

    Compreender não é justificar

    Este consenso acerca da ilusão dos «dois lados» é algo que surge também na conversa que tive com Aida, na Tamera. «Não se trata de escolher lados, mas sim de tomar uma posição pela vida. Se há dois lados é entre a vida e contra a vida. E é muito fácil ver quem está pela vida e quem não o está. Eu apelo às comunidades israelitas que tomem uma posição pela vida e que façam uso do seu privilégio em falar, não contra Israel, nem contra o povo judeu, mas contra o governo e o exército de Israel». «Há um plano que é contra as pessoas, todas as pessoas. Não nos deixemos prender na posição entre israelitas e palestinianos».

    Não tomar lados começa assim por tomar consciência da realidade tal como ela é e a palavra ocupação vem colada ao estado de Israel. Como me contou Haneen: «eu cresci durante a ocupação. Crescemos todos em diferentes realidades, a minha é a ocupação. A dos tipos do Hamas é ocupação. Quando cresces em tal realidade, cresces sem compreender porque é que estamos a ser controlados, atacados. Lidando com perdas, uma e uma vez mais. Acredito que nós, palestinianos e israelitas, temos muito a desaprender, nomeadamente acerca das nossas histórias pessoais, de forma a alcançar um entendimento. Porque em Gaza, asseguro-te, há estes tipos do Hamas, mas há antes de mais um povo que quer apenas viver pacificamente, que realmente não quer violência, nem qualquer tipo de controle sobre as suas vidas. Eu sou uma simples pessoa de Gaza, uma simples jovem mulher com duas crianças, dizendo: queremos viver em paz. E a sociedade israelita precisa de ver isso. Há muita desaprendizagem e pontes a fazer para acabar com a ocupação e desmantelar este sistema que causa toda esta atrocidades e violência entre ambos os povos, o ódio, as matanças. Trata-se de desmantelar o sistema, pois enquanto este existir, como é que podemos vislumbrar outro caminho? Não sei como explicar, mas olhando para alguém do Hamas, e não estou a defendê-lo, mas a falar da realidade, que cresce, perdendo a sua mãe, as suas irmãs, irmãos, primos, em ataques, não tendo qualquer comida nem controlo sobre a sua vida, sem esperança por um futuro: como é que esperamos que ele venha a ser?».

    Razão pela qual, reitera Aida, «há uma grande diferença entre justificar e compreender». «Para os palestinianos em Gaza que tentaram de tudo, todas as medidas não violentas, pacíficas, culturais, poéticas, todas as formas de resistência, que lhe foram negadas, consigo compreender, no fundo do desespero, que também uses a violência para te libertares. Eu não o justifico, gostaria que não fosse assim, mas consigo compreendê-lo».

    Haneen assinala, à luz do que se está a passar, que Israel «vem de um lugar com um passado de trauma e de ter experienciado ele mesmo o que se passa. Podemos, sim, falar do holocausto, mas ao mesmo tempo do facto de não quererem ver o que se está a passar em Gaza, exatamente aquilo que lhes foi feito».

    Amor antes da Religião

    Alon e Pnina falam-nos, por sua vez, das suas raízes. «O nosso sangue é árabe, somos árabes judeus. A minha família [Pnina] vem da Líbia. Eu não tenho um lugar para voltar, mas eu acredito em Israel, tal como acredito que possamos viver juntos. Porque a minha cultura, a música, a comida, é mais árabe que israelita. Os meus pais falavam árabe e não hebreu, a minha avó não sabia uma palavra em hebreu. Mas depois disto que se passou, se eu disser que sou árabe judeu, olharão para mim como… Põem-me de lado».

    Para Alon, «se houvesse um deus, estas coisas não teriam acontecido, porque todos rezamos ao mesmo deus, somos irmãos, temos sangue vermelho e comemos do mesmo prato. Guardo do meu avô as palavras – amor antes da religião. A casa dele em Jerusalém fora-lhe oferecida por ser uma pessoa muito respeitada e na porta dizia salamalekum [que a paz esteja contigo em árabe]. Tinha amigos árabes que vinham no Shabat, sentados e comendo do mesmo prato. Sem diferenças culturais, mas numa comunidade, Jerusalém, em harmonia antes de Israel ser criada. A partir do momento em que esse nome é inventado pelos europeus, esse é o momento em que o caldo venenoso começou a ser cozinhado».

    «Há uma grande diferença entre justificar e compreender».

    «Por isso “amor antes da religião”. Porque a religião diz não matarás, mas dá-te a permissão para matar». A religião surge como o elefante na sala. No lugar mais religioso do planeta.

    Nessa ténue linha que separa a defesa da vida ou da morte, que a religião encobre, não pude deixar de partilhar a minha incredibilidade quanto à questão dos mártires. Porque é que quando os mortos não são mortos, são mártires? Diz-me Aida que «há que ir ao contexto cultural. Para uma criança que acabou de perder os seus pais, é mais fácil dizer que são mártires em vez de dizer que foram mortos. Sempre que existeuma luta coletiva, como esta que dura há 75 anos, em que lutas e és oprimido, precisas de justificar a vida dos que morrem. A ideia do martírio, que não é apenas árabe, fala de culturas onde a dignidade é mais importante que a vida. A dignidade é extremamente importante para os árabes». «Israel controla tudo à nossa volta. As nossas vidas são tão controladas que temos a convicção que somos esquecidos a não ser que façamos muito barulho; por isso, esta identidade de martírio é equivalente a um desespero profundo, de que a tua vida não tem significado se não viveres com dignidade».

    Aida lidou com a questão muito cedo na sua vida. «Há um slogan que vem da primeira intifada [1987] que dizia quando a violência eclodiu: “nós morreremos e a Palestina viverá livre”. Eu tinha 16 anos nessa altura e desafiei isso. Quando nós todos morrermos, que palestinianos viverão? E como slogan repliquei: “nós vivemos e fazemos a Palestina viver”. Disse-o e logo alguns homens, jovens palestinianos, vieram ter comigo: “como te atreves!! Pedir pela vida e vida pela Palestina”. Mas essa é a minha escolha».

    Como estás na tua comunidade?

    Ao longo destas conversas em Odemira, com origem em Gaza e Israel, fui desafiado em diversas ocasiões em expor e desfazer ideias feitas. Para Aida, a perda de sentido na frase Free Palestine, de que fala Pnina, resulta do erro fatal de misturar Palestina com o Hamas, que ambas concordam ter sido alimentado por Israel. Diz-nos Aida que, contra a OLP (Organização para a Libertação da Palestina), a organização de raiz socialista que defendeu desde 1988 a solução de dois estados, «o Hamas foi criado por Israel para dividir e controlar. E o Hamas fala de uma posição sem horizonte de esperança, onde a religião fala por ti, a extrema-direita fala por ti. O Hamas é a expressão desse desespero. Israel, com ajuda dos Estados Unidos, travou e acabou com qualquer proposta palestiniana liberal, inclusiva. Forçaram as pessoas a eleger pessoas como o Hamas em Gaza».

    Para Aida a questão com o Estado de Israel «é que não se trata da questão de “se estás aí”, mas de “como estás aí”. O governo israelita tornou claro, desde o início, que esse “como” é eliminando outras nações. Por tudo isto, «cabe-nos a nós, israelitas, palestinianos e todos, que criemos instituições e modos de dizer: não em nosso nome.»

    Um caminho que vai sendo trilhado nesta particular geografia humana das comunidades do sudoeste alentejano onde, como Alon nos disse, diferentes pessoas de diversas nacionalidades, israelitas e palestinianos, internacionais e locais, carregam consigo os seus «danos culturais». «Carregamos essa bagagem connosco. Nasci lá, os meus pais criaram-me lá, mas eu posso escolher onde morrer, e foi aqui que eu escolhi. Aqui me sinto em casa, mais do que em Israel. Em vez de termos dois lados, não nos podemos sentar e falar?».

     


    Texto de  Filipe Nunes (com a colaboração de Silvia das Fadas)


    Artigo publicado no Jornal Mapa, edição #40, Janeiro | Março 2024

  • O Gajo e Ricardo Vignini, “Terra Livre”

    O Gajo e Ricardo Vignini, “Terra Livre”

    A viola, quase tão humana como os corpos que a dedilham.

    Concerto de dia 2 de Fevereiro de 2024, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa

    Dois candeeiros e duas mesas pequenas compõem um cenário aconchegante e cinematográfico numa sala no CCB em Lisboa.  Aguardamos a entrada de dois violeiros: O Gajo (João Morais) e Ricardo Vignini que, juntos, fizeram o disco “Terra Livre”.

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    O cenário convida-nos a ver o filme da viagem em que estamos prestes a embarcar. Quem já conhece O Gajo sabe que não é preciso texto para que se possa viajar e imaginar, partindo de alguma história que ele nos conta, mas que cada um de nós também pode ir co-criando ao longo do concerto. Esta viagem em concreto é contada a duas violas, dedilhadas ou rasgadas, que partem de um ponto comum mas oferecem a sua própria voz, o seu próprio ser. A viola, quase tão humana como os corpos que a dedilham.
    Fecho os olhos e deixo-me levar até um lugar novo ou não lugar, onde não há fronteiras e onde só existem pontes que nos levam até aos nossos ancestrais, portugueses e brasileiros. Estes estão presentes ora na viola campaniça de João, ora na viola caipira de Ricardo, que, mesmo misturando as suas influências actuais vindas do metal ou do punk-rock, não perdem a essência dos antigos violeiros rurais. Os dois, talvez sem se aperceberem, encarnam aqueles que eram figuras quase míticas das suas comunidades: “quem faz a festa, quem namora, quem conquista, quem conta a história, quem narra a fé (…) cerimonializa, entretém e distrai” (1), como escreve Lia Marchi sobre os violeiros do Brasil rural. 
    O concerto abre com “Albatroz” que, como diz João Morais, é o pássaro que percorre grandes distâncias, que poderia até atravessar oceanos, como eles o fizeram, para se encontrar. Abro os olhos e, ao ver a simbiose que une estes dois violeiros, sei que não há qualquer distância. Eles encontraram-se, viola caipira, viola campaniça. Portugal e Brasil estão ali, naquele palco, juntos e como os próprios dizem, em estreita afinidade, duas culturas a uma só voz. E sinto que a terra pode mesmo ser livre.

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    A viagem do João e do Ricardo leva-me até uma tarde, corria o ano de 2005, em que tive o privilégio de ouvir Benjamim Pereira afirmar, quando lhe perguntavam sobre o futuro da música tradicional, que do futuro não se deveria ter medo, pois o futuro era maravilhoso. Os mais cépticos, os que têm mais medo de mudanças, esquecem-se que sem transformação não há futuro possível. João Morais toca uma campaniça que é a sua campaniça, mas que nem por isso deixa de ter Portugal lá dentro. Viola que Ernesto Veiga de Oliveira afirmou estar quase extinta em 2000 (2), sem imaginar que nas últimas décadas assistiríamos a uma explosão de novos construtores e tocadores que a revitalizaram e que a fizeram voltar à vida. No Baixo-Alentejo, por exemplo, a viola campaniça tem em Pedro Mestre um dos seus maiores embaixadores. Ele e outros músicos foram beber à tradição e hoje vão mais longe na composição e interpretação; tal como O Gajo, que transformou o instrumento e o toca com as suas próprias influências, tal como Vignini também o faz com a sua viola caipira. E isso é bonito, porque, como sabemos, nada se perde e tudo se transforma. Porque haveríamos de ter medo disso? A transformação só nos enriquece, e aqui sentimos essa riqueza com a viola caipira percebendo, no fundo, que são muito mais as semelhanças entre os povos do que as diferenças. Neste caso, as violas uniram dois músicos de excelência.

    Quem diz que música instrumental é difícil não sabe o que é poder viajar desta forma. E a viagem continua com João e Ricardo, quais “sacerdotes da viola”, para usar uma expressão de Carlos Brandão Rodrigues.
    Passamos por paragens mais obscuras e quase místicas de músicas como “Serpente” ou “Maria da Manta”, em que lendas e seres míticos dos dois lados do Oceano Atlântico também se encontram. Quais feiticeiros, lembram-me outra passagem da obra de Lia Marchi, em que a autora sublinha a importância dos tocadores de viola no lado mais cerimonial das tradições populares: “Comenta-se também que existem violeiros, que por tão bem tocar teriam feito «parte com o diabo»”. Acho que estes violeiros, com alma de metaleiros, a tocar à minha frente, gostariam de saber disto.

    O futuro, aquele que estamos a viver hoje, um que Benjamim Pereira já não viu, é mesmo maravilhoso. Conhecemos a nossa cultura mais a fundo, ouvimos, aprendemos, transformamos sem receios,  essencialmente, transformamos para enriquecer a alma. E é nesta transformação que todos ganhamos, crescemos e evoluímos.

     


    Texto: Joana Negrão (também é A Cantadeira)

    Fotografia: Ana Sofia Carvalho (@anasofiacarvalho_photography)


     

    1- Lia MARCHI em «Tocadores, Portugal-Brasil», Curitiba, Olaria Projetos de Artes e
    Educação, p.55, 2006.
    2- Ernesto VEIGA DE OLIVEIRA, em «Instrumentos Musicais Populares Portugueses»,
    Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2000

  • Circo político madeirense no cabo bambo de um teleférico

    Circo político madeirense no cabo bambo de um teleférico

    No dia 1 de Dezembro, apesar de chuva, vento e frio, realizou-se uma manifestação na Eira do Serrado, um dos icónicos pontos de observação da paisagem madeirense, contra um projecto que promete elevar o investimento turístico na ilha a níveis megalómanos. Promovido na imprensa regional sob o paradoxal título de «teleférico ecológico e “zip line” mais longo da Europa» (1), o projecto «Sistema de Teleféricos e Parque Aventura do Curral das Freiras», cuja implementação rondaria os 47 milhões de euros, inclui uma zona de escalada, pontes suspensas, slides, rapel, um zip line com 2,3 quilómetros de comprimento e duas linhas de teleférico. Um dos teleféricos, que contaria com 15 lugares, ligaria o Montado do Paredão ao Curral das Freiras, enquanto o outro «sobrevoaria» o vale, através de uma cabine de 50 lugares, desde o Montado do Paredão à Boca da Corrida, a mais de 1000 metros de altitude.

     

    Promovido na imprensa regional sob o paradoxal título de «teleférico ecológico e “zip line” mais longo da Europa» (…) inclui uma zona de escalada, pontes suspensas, slides, rapel, um zip line com 2,3 quilómetros de comprimento e duas linhas de teleférico.

    O Movimento «É Possível Impedir a Destruição», que já havia lançado uma Petição Pública em defesa do Montado do Paredão – classificado como Zona Especial de Conservação, o que (supostamente) lhe conferia o estatuto de área protegida – e requerido uma providência cautelar para travar o projecto em causa, alega que este, além de implicar a desfiguração de uma paisagem natural única, representa uma ameaça à nidificação da freira da Madeira – espécie endémica em risco de extinção. Não obstante, em finais de 2021, seria adjudicado um Estudo de Impacto Ambiental, que custaria ao erário público mais de 85 000€. Esse período coincide com o início dos protestos contra o projecto, aquando da emissão da declaração de utilidade pública, que permitiria a expropriação dos terrenos necessários à execução da obra por parte do governo regional, que terá reservado 370 mil euros para esse fim ainda antes da realização do Estudo de Impacto Ambiental (2). Esta agitação popular terá dado lugar a um website (3) e a uma conta de Instagram (4) dedicados a divulgar os desenvolvimentos deste projecto e as acções de protesto contra a sua concretização. Para lá de uma perspectiva ambiental, alguns habitantes do Curral das Freiras, freguesia situada num profundo vale rodeado por montanhas, criticam o facto de se priorizar esta obra turística em detrimento da construção de um acesso alternativo à vila, uma promessa reiterada ao longo dos vários governos social-democratas, visto que o único acesso viário actual é através de um túnel de quase 2,5 quilómetros, cuja circulação fica ocasionalmente condicionada devido à queda de rochas.

    O promotor do «Sistema de Teleféricos e Parque Aventura» é o próprio governo regional, ironicamente, por via do Instituto de Florestas e Conservação da Natureza (IFCN). Este projecto de iniciativa privada fora classificado como «bem de utilidade pública» sob os previsíveis pretextos de valorização (mercantil) da paisagem, de crescimento económico e de criação de postos de trabalho, ao incorporar uma nova atracção turística desse grande parque de diversões em que o governo visa tornar a ilha da Madeira. Argumentos mais cómicos incluem a alusão a «uma gestão sustentável do espaço natural… que assegure às gerações vindouras um património natural biologicamente equilibrado», como se tamanha construção pudesse ser benéfica para o ecossistema; permitir, «quer à população da Região Autónoma da Madeira (RAM), quer a todos quantos a visitam, usufruir de um dos espaços naturais privilegiados da Região, desfrutando momentos aprazíveis de elevada qualidade cénica, de contacto direto com a cultura, com a natureza e com a riqueza florística, faunística e geológica característica daquela zona», enquanto se corrompe esse mesmo cenário com longos cabos e gigantes estruturas de betão; contribuir «para a diminuição de congestionamento automóvel e para uma verdadeira sustentabilidade ambiental» (5), como se se pretendesse fazer dos teleféricos um novo meio de transporte público, à semelhança do que acontece (e bem) na capital boliviana.

    A respectiva consulta pública, aberta entre 28 de Fevereiro e 8 de Abril de 2022, contou com 402 participações individuais, nenhuma das quais positiva (6). Como evidência de que tais consultas públicas servem apenas para forjar uma ilusão democrática, no seu relatório interno todas as participações aparecem classificadas como «não tratadas». Demonstrando um completo desprezo pela opinião popular, a autorização da adjudicação é emitida no dia 20 de Setembro, quatro dias antes das eleições regionais. Na sequência da vitória da coligação PSD-CDS, o contrato de concessão é assinado, a 16 de Outubro, com a Inspira Capital Atlantic, Sociedade de Investimento e Consultoria, LDA. O contrato, que obriga ao pagamento de uma renda mensal de 2 000€ por parte da empresa ao governo regional, tem a duração de 50 anos a contar da data de início de exploração, com possibilidade de renovação por período adicional de dez anos.

    Demonstrando um completo desprezo pela opinião popular [402 pareceres negativos em consulta pública], a autorização da adjudicação é emitida no dia 20 de Setembro, quatro dias antes das eleições regionais.

    Este projecto megalómano segue a linha de sacrifício dos ecossistemas endémicos sob o pretexto da captação turística – ainda que grande parte dos turistas sejam atraídos precisamente pela beleza natural da Madeira. O mesmo sucedeu com a polémica proposta de alcatroar o caminho florestal das Ginjas, em plena Laurissilva (floresta nativa). No entanto, o mais recente artigo do Diário de Notícias sobre o projecto negligencia por completo o seu impacto ambiental, resumindo-se a puro cálculo económico baseado em previsões de lucro. Por outro lado, a oposição a tais atentados ambientais torna-se cada vez mais ténue no seguimento do acordo de incidência parlamentar entre a coligação PSD-CDS e o PAN, após o primeiro não ter conseguido obter maioria absoluta nas eleições regionais (ainda que Miguel Albuquerque, actual presidente da região autónoma, tenha prometido demissão caso não alcançasse maioria absoluta). O PAN, que antes se opunha veementemente à construção dos teleféricos, agora afirma não ter uma posição assumida, passando a liderar o «processo de acompanhamento e avaliação» do projecto. Ou seja, tudo indica que o Partido dos Animais e da Natureza, após ter garantido assento na maioria parlamentar, está preparado para estrear o complexo teleférico do Curral das Freiras. Os madeirenses, por sua vez, estão cada vez mais cientes de que as suas reivindicações ecológicas não podem ser delegadas em representantes partidários.

     


     

    1. «Curral terá teleférico ecológico e “zip line” mais longo da Europa», Jornal da Madeira, 6 de Maio de 2021.
    2. «Madeira: Projecto de teleférico gera protesto e dúvidas», Público, 24 de Dezembro de 2021.
    3. https://bit.ly/3Tyezgy
    4. #contratelefericocurralfreiras
    5. Jornal Oficial – Região Autónoma da Madeira, Série I, Número 202, 11 de Novembro de 2022, 4º suplemento.
    6. https://bit.ly/3TAerx7
    7. «Teleférico vai custar 47 milhões e criar 40 empregos directos», Diário de Notícias, 13 de Dezembro de 2023.

     


    Texto e Imagens: Filipe Olival, filipeolival@jornalmapa.pt

    Notícia publicada no Jornal Mapa, edição #40, Janeiro/Março 2024.

     
  • Já saiu a edição 40 do Jornal MAPA!

    Já saiu a edição 40 do Jornal MAPA!

    E eis-nos chegados ao MAPA #40, no ano em que o 25 de Abril faz 50. Um número que é um grito por um cessar-fogo na Palestina, onde a guerra, como sempre, se assemelha a um investimento. Mas que não esquece que, com a normalização das investidas policiais nas universidades, também por cá os tempos não são os melhores para as liberdades. Visitamos Chiapas – cuja experiência zapatista está, ao fim de 30 anos, em processo de alterar a sua estrutura de autogoverno – e Rojava, esta através dum olhar trans não binário. Em terrenos mais próximos, passamos pela Andaluzia na sua luta pela terra, por Covas do Barroso na sua oposição à mineração, por Contumil (Porto) no seu processo de gentrificação, e por Curral das Freiras (Madeira) no seu combate pelo território. Não faltam ainda entrevistas, incluindo a Solveig Nordlund, cineasta fundamental da filmografia de Abril, ao ressurgido Indymedia e a dois pontos onde podes encontrar o MAPA à venda. Notícias também da Europa-Fortaleza, num tempo de cada vez maior utilização da Inteligência Artificial para fins repressivos que Joseph Weizenbaum parece ter previsto em 1976. Destaque central para o Vale dos Vencidos, livro de José Smith Vargas acabadinho de editar. Tudo isto com paragens para humor, literatura, cinema, poesia, ilustração, BD, ….

    Assina o Jornal MAPA! Ele está mortinho por chegar a tua casa.

     

  • Romper o silêncio Queer na Revolução Curda

    Romper o silêncio Queer na Revolução Curda

    Conversa com uma militante trans não binária, actualmente em Rojava e no seio de um partido marxista-leninista, sobre a visibilidade das pessoas queer e a contradição que existe dentro do movimento curdo.

    Poucos são os que abordam a questão queer na luta pela autodeterminação dos curdos. Mas apesar desse voto de silêncio, a questão continua lá. O movimento de solidariedade com o Curdistão, a nível internacional, é construído por muitas pessoas queer. Em particular, no que toca à promoção da jineoloji, a ciência das mulheres, muito do seu apoio internacional vem de mulheres queer e trans, cuja militância as aproxima da solidariedade curda. Mas, no que toca à questão queer, o movimento curdo mostra-se consistentemente «hesitante», se não «retrógrado». Dentro das regiões libertadas do Curdistão, onde a emancipação das mulheres é prioritária, as pessoas queer mantêm-se tão reprimidas como sempre.

    A justificação «revolucionária» dada para esta contradição é a de que há assuntos mais urgentes para se tratar, numa situação de ataques constantes e de embargos económicos, e de que esta é uma questão muito delicada, devido ao conservadorismo da população. Uma justificação fraca e idêntica à que foi dada, durante décadas, para não se trabalhar na questão da libertação da mulher, uma atitude hoje identificada como tendo sido extremamente contra-produtiva e injusta. Tal como a emancipação da mulher ajudou a libertar um grande potencial criativo e revolucionário dentro do Curdistão, o mesmo aconteceria se a libertação queer fosse trabalhada com tal vigor.

    Z., chamemos-lhe assim por não poder revelar o seu nome, é militante da União das Mulheres Comunistas do Partido Comunista Turco – Marxista-Leninista (TKP-ML), fundado em 1994 na fusão de anteriores organizações comunistas de tendência albanesa, ou seja, de cariz altamente conservador na defesa do estalinismo e contra qualquer reformismo comunista. Razões de sobra para nos surpreender que aqui encontremos um interlocutor com quem discutir a questão queer em Rojava.

    TKP-ML KKB

    «Se és queer, tens de mudar»

    1. apresenta-se: «nasci no Curdistão Turco, no seio de uma família alevi de classe trabalhadora». O alevismo é uma tradição islâmica heterodoxa que existe entre curdos e turcos na Anatólia. Na cultura alevi, as mulheres têm geralmente um maior papel na prática religiosa e na liderança familiar, embora continuem a sofrer, tradicionalmente, da forte violência patriarcal que é comum a toda a sociedade. Nesse contexto, Z. recorda o processo de descoberta da sua identidade. «Nas minhas primeiras experiências com a sexualidade, compreendi que era “diferente”, mas estava a tentar convencer-me de que tinha de ser “normal”. Na minha família, os papéis do trabalho doméstico e do trabalho externo são muito mais democráticos do que na maior parte da Turquia e do Curdistão. Mas continuam a existir papéis masculinos e femininos bem definidos. A minha autoaceitação e a minha politização foram, na realidade, paralelas. Embora o local onde comecei a luta organizada fosse bastante LGBTI+fóbico, as ideias revolucionárias, a luta pela liberdade e a aprendizagem sobre o marxismo ajudaram-me a aceitar a minha identidade sexual. Quando olho para os meus amigos, que se assumiram na mesma altura que eu mas que vieram de círculos que não eram políticos ou organizados, vejo que as nossas posições sobre a luta LGBTI+ divergem muito. Apesar de, nos primeiros anos, termos tido as nossas primeiras experiências juntes, enquanto eu escolhi a luta social, eles escolheram áreas mais individuais e mais restritas. Eu, por outro lado, partindo de um homem gay, tornei-me uma pessoa trans não binária que se foi libertando à medida que se politizava e se ia conhecendo cada vez mais».

    Dentro das regiões libertadas do Curdistão, onde a emancipação das mulheres é prioritária, as pessoas queer mantêm-se tão reprimidas como sempre.

    Assumir a sua identidade trouxe riscos. Z. fala-nos de Ahmet Yıldız, estudante curdo de Física em Istambul, com 26 anos, assassinado pelo seu pai a 15 de julho de 2008, naquele que é conhecido como o primeiro «crime de honra» contra um homem gay na Turquia. «Ter-me assumido perante a minha família foi um pouco contra a minha vontade. O Ahmet Yıldız tinha sido assassinado pelo seu pai. Estávamos a ouvir muitas notícias semelhantes. A minha família também teve problemas, porque eu era politicamente ative. Por isso, embora uma parte de mim quisesse assumir-se, a outra parte tinha medo, e o medo prevaleceu. Mesmo que soubessem ou sentissem que eu era queer desde pequene, este assunto não era falado abertamente. Era implicitamente enfatizado que eu não devia ser assim, que os que eram assim morriam de doença ou eram mortos por alguém, que eram pessoas não fiáveis, mas nada era dito diretamente sobre o facto de eu ser queer. Diziam-me, “se és queer, tens de mudar”, de uma forma subtil. A minha saída do armário não foi consciente e voluntária. Descobriram-no por acaso. Os primeiros anos foram muito dolorosos. Andámos de um lado para o outro entre psicólogos e psiquiatras. Eu tive sorte. Encontrei médicos que não eram maus. Os médicos disseram à minha mãe a verdade e não o que ela queria ouvir. “A sua criança é normal. Ela não está doente. Você tem de mudar de atitude”. Quando olho para o meu passado, quero dizer isto às pessoas que menosprezam a luta LGBTI+:  as lutas reformistas não nos vão trazer liberdade, mas irão facilitar a vida de crianças queer como eu. Não podemos ignorar este facto. Estes médicos, mais jovens e mais conscientes, foram o resultado do ativismo LGBTI+ em organizações como a CETAD», uma associação fundada em 1998 por psiquiatras e psicólogos para o desenvolvimento da saúde sexual.

    «A minha família demorou algum tempo a mudar. No final, embora a minha mãe não aprovasse a minha entrada na luta armada, quando conheceu os meus camaradas disse: “estão a lutar por pessoas oprimidas como eles. Estou orgulhosa da minha criança”. O meu pai teve poucas conversas comigo durante estes 10 anos. Não se envolveu diretamente nos meus problemas, neste ou em qualquer outro assunto, exceto para me apoiar economicamente. O fardo estava nos ombros da minha mãe e o facto de ela ter feito essa afirmação fez com que fosse mais fácil para o meu pai aceitar a situação. Passados 10 anos, foi assim que a minha família aceitou a minha identidade sexual».

    Lubunyas do Curdistão

    «O Curdistão turco, tal como o resto do mundo, está cheio de diversidade sexual. Mas esta diversidade sexual é oprimida pela dominação patriarcal heterossexual. É o que acontece mesmo entre revolucionários. Trata-se, portanto, de uma geografia onde tudo é vivido em segredo. Por um lado, o secretismo garantia a nossa segurança, mas por outro também nos empurrava para contextos perigosos. E tudo era muito mais difícil no triângulo Estado-Polícia-Máfia em que vivíamos. Claro que a vida das pessoas LGBTI+ no resto da Turquia também é difícil, mas o Curdistão é uma geografia muito mais desafiante neste sentido. Especialmente enquanto eu crescia, as coisas eram diferentes. Atualmente, graças à luta pela liberdade das pessoas LGBTI+, algumas coisas foram superadas. Especialmente graças aos Lubunyas [termo turco para pessoas queer, hoje usado pela comunidade LGBTI+] do Curdistão que, apesar de tudo, desafiam tanto o Estado fascista turco como os revolucionários que não aceitam as pessoas LGBTI+, dizendo: “o Curdistão existe, as pessoas LGBTI+ existem!”. Sempre estive em ambientes políticos. Especialmente entre as pessoas LGBTI+ curdas, existe uma grande solidariedade. De facto, a espinha dorsal do movimento LGBTI+ na Turquia é composta por pessoas de movimentos socialistas, comunistas ou anarquistas, tal como em muitas partes do mundo. Isto significa, naturalmente, um número muito reduzido de Lubunya. A maioria das pessoas LGBTI+ não é assim tão política. A maior parte delas nunca se assume. Mas o facto de não se assumirem não significa que não existam».

    «Numa cidade do Curdistão, por exemplo, havia mulheres trans que nós conhecíamos. Nunca vinham aos nossos eventos políticos, mas vinham às nossas festas em casa. Viviam em aldeias diferentes. À noite, uma delas, que tinha carro, ia a outras aldeias e fazia sinal com uma lanterna, e a mulher trans que recebia esse sinal levantava-se calmamente da cama e ia ter ao carro. Assim, juntavam-se algures e divertiam-se e, antes do amanhecer, voltavam novamente para as suas casas. Isto explicava porque é que elas nunca vinham às nossas festas antes das 10 horas, nem iam às festas a seguir».

     

    Do ativismo LGBTI+ à «vida revolucionária»

    «Nasci no seio de uma família democrática e progressista. Embora o sistema educativo turco nos tenha educado como inimigos dos revolucionários, eu não estava assim tão longe deles. Mas, devido a este sistema educativo, continuei sob a influência intensa do kemalismo». Esta é a ideologia oficial do Estado Turco, que deve o seu nome a Mustafa Kemal Ataturk, primeiro Presidente da Turquia. Um nacionalismo acérrimo em combate com os curdos desde o início da República Turca.

    A luta pela liberdade e a aprendizagem sobre o marxismo ajudaram-me a aceitar a minha identidade sexual.

    «O meu percurso do kemalismo a ideias mais revolucionárias é, na verdade, uma história trans. Entrei na luta organizada durante os meus anos de secundário. Comecei a participar em protestos, a distribuir jornais e panfletos sobre as reivindicações democráticas da juventude estudantil, a luta da classe trabalhadora, as reivindicações democráticas dos curdos e dos alevitas. Era uma organização reformista e LGBTI+fóbica, mas só posso afirmar isso hoje. Na altura, era a única e verdadeira organização revolucionária para mim. Passado algum tempo, fui sorrateiramente expulso deste grupo por causa das minhas opiniões diferentes e sob o pretexto da minha identidade sexual. Neste processo, fiz amigos muito valiosos. Nunca me deixaram sozinhe durante o processo em que revelei a minha identidade sexual à minha família, e também depois».

    1. participará no ativismo LGBTI+ e trans+, mas «os limites do reformismo eram demasiado estreitos. Assim, comecei a dar um passo de uma vida política ao nível do ativismo para me tornar um sujeite na vida revolucionária». O contacto com o TKP-ML surgiu ao acompanhar outro «crime de honra». A 2 de julho de 2012, Roşin Çiçek, jovem gay de 17 anos, «foi brutalmente assassinado pelo seu pai e tios em Amed. Como pessoas LGBTI+ do Curdistão, seguimos este caso. Havia muito poucas pessoas connosco. Uma grande parte eram jovens militantes de Amed», cidade histórica no conflito curdo com a Turquia e assumida por muitos curdos como a capital de facto do Curdistão.

    Em Amed, os militantes do TKP-ML «eram muito ignorantes em relação às questões LGBTI+, mas também estavam muito interessados em aprender». Z. toma conhecimento de Ibrahim Kaypakkaya, «o líder imortal dos militantes», o fundador do TKP-ML, executado na prisão em 1973, com 24 anos. «Simpatizei facilmente com o camarada Ibrahim por causa da sua resistência. Também vi sinceridade nos partisans de Amed, uma abordagem honesta. Essa simpatia transformou-se em interesse. Sempre que lá ia por causa do caso de Roşin Çiçek, encontrava-me com mulheres militantes, ficava em casa delas. Nas conversas que tive com elas, aprendi muito sobre o camarada İbrahim. Tudo isto se passava em grande segredo. Na Turquia, as casas dos militantes estão sob vigilância. No Curdistão turco, isso é ainda mais rigoroso. Mas, mesmo assim, continuámos a ter discussões calorosas. Também comecei a visitar militantes durante as minhas visitas a Istambul e Ancara por causa do ativismo LGBTI+.»

    Um batalhão Queer posa para a fotografia

    «Quando a revolução começou, eu não estava organizade no meu partido. Estava a tentar fazer ativismo LGBTI+ no Curdistão. O Movimento Nacional de Libertação do Curdistão ainda hoje se encontra numa posição muito atrasada em termos do movimento LGBTI+, e era ainda mais atrasado quando esta revolução começou, à exceção de algumas deputadas curdas progressistas. Apesar do meu interesse pela revolução e pelos revolucionários, nunca pude fazer parte deste movimento por esta razão, mas isso não significa que não apoiasse a revolução em Rojava. A partir de 2011, participei em todas as manifestações de apoio a Rojava. Estive presente nos funerais dos guerrilheiros. Havia pessoas da minha cidade e da minha escola que se juntaram à guerrilha, foram para Rojava e foram martirizadas. Eu queria muito juntar-me à guerrilha, mas também tinha dezenas de amigos de Amed e Dersim que se juntaram à guerrilha e foram mandados de volta por serem homossexuais ou trans… Apesar da atitude LGBTI+fóbica do Movimento de Libertação Curdo, achei que era necessário apoiar um desenvolvimento progressivo criado por este movimento».

    «Apesar daqueles que declaravam que a era das revoluções tinha terminado, estava em curso uma revolução no Médio Oriente, apesar das suas deficiências e do seu carácter ignorante em certos aspectos. Estava a acontecer, apesar dos ataques de uma organização terrorista como o DAESH, um assassino de pessoas LGBTI+ e de mulheres, e apesar do embargo». Quando Ivana Hoffman, uma internacionalista afro-alemã queer na guerra contra o DAESH perdeu a vida em Rojava, em março de 2015, «um amigo meu do MLKP [Partido Comunista Marxista-Leninista] disse, “não nos deixaram dizer que ela era homossexual”, e chorou. O Movimento de Libertação Curdo estava a discutir a questão LGBTI+ de uma forma em Istambul e de outra em Rojava. De facto, a essência das discussões era a mesma, mas um discurso abertamente LGBTI+fóbico em Istambul era contra os seus interesses políticos. Em Rojava, esse discurso existia. Fiquei muito ofendide. Estávamos a dar mártires LGBTI+. Apesar de termos sido martirizados contra o Estado fascista turco e os seus gangues, não nos deixavam expressar a nossa identidade sexual. Por esta razão, no mesmo ano, entoámos slogans como «Ivana Hoffman é a nossa honra! Ivana Hoffman vive no nosso amor» em muitos locais, especialmente nas Marchas do Orgulho».

    Raqqa, 2017

    O episódio de uma fotografia tirada em 2017 em Raqqa por um autoproclamado batalhão queer, que rapidamente se tornou famosa (e infame), exemplificou a dificuldade de uma relação queer na imagem da revolução. «Embora algumas pessoas tenham interpretado negativamente o facto de esta fotografia ter sido tirada e publicada, tratou-se obviamente de uma ação de flash mob. Naturalmente, incomodou algumas pessoas. E as pessoas que fizeram a ação foram vistas como as culpadas. Este é o resultado da lacuna que existe na luta contra o heterossexismo. Só pode ser uma fonte de honra para aqueles que defendem a liberdade LGBTI+ que os combatentes queer que alcançaram a vitória em Raqqa, a capital dos bandos do ISIS que assassinaram brutalmente milhares de pessoas LGBTI+ na Síria e em Orlando [EUA], tirem e partilhem uma foto destas. Mas estamos a falar de uma visão que critica os camaradas que tiraram esta fotografia em vez de criticar a exibição de uma atitude LGBTI+fóbica, escondendo-se atrás de desculpas como as tribos, a religião e a estrutura patriarcal». A fotografia teve um efeito em Z. – «tenho de fazer parte desta revolução apesar de tudo, tenho de desistir desta vida que consiste apenas em mim próprio».

    Um passo atrás, um salto em frente?

    1. passa assim à condição de militante curde em Rojava. «Foi uma decisão difícil, vir para Rojava. Sabia que estava a deixar tudo para trás, a minha família, os meus amigos, os amantes que tive ao longo dos anos… Mas também sabia que tinha de participar neste processo revolucionário. Não se tratava apenas de Rojava. Não poderia construir a liberdade sozinhe. Ou estava dentro do círculo, ou fora. Quanto tempo poderia me manter no meio? Seria moldade de acordo com as políticas do nosso partido ou preferiria o meu conforto e bem-estar pessoal? O bem-estar pessoal é possível? Porque é que eu deveria ter ficado no sistema enquanto pessoas LGBTI+ morriam em Rojava, enquanto dezenas de pessoas LGBTI+ de Rojava tentavam migrar de barco todos os dias e, ainda por cima, enquanto o TIKKO [o braço armado do TKP-ML] lutava aqui? Vim sabendo das dificuldades. Tive dificuldades, continuo a ter dificuldades. Mas o meu entusiasmo em 2011 deu lugar a uma consciência revolucionária. Talvez não conseguisse fazê-lo só com entusiasmo, mas com a consciência que recebi da União das Mulheres Comunistas e do TKP-ML, esse entusiasmo transformou-se em vontade. Talvez seja esta a resposta para o facto de eu ter aderido muito mais tarde e não em 2011: uma consciência organizada também me permitiu ultrapassar os meus medos e ansiedades».
    2. é acolhido na União de Mulheres Comunistas, «uma organização de mulheres de todas as orientações sexuais e identidades de género e pessoas queer, organizada sob a direção do TKP-ML e com autonomia organizativa. Embora o nosso partido tenha lutado durante mais de 50 anos, foi só muito mais tarde que as mulheres e as pessoas queer conseguiram chegar a ter uma organização tão autónoma. Isto baseia-se certamente no facto de a luta contra o patriarcado e o heterossexismo não ser apenas externa, mas também interna». Z. observa que no partido «permanecem diferentes posições e uma delas é o entendimento que, de uma forma rudimentar, reconhece as pessoas LGBTI+ como identidades doentes ou degeneradas. Hoje estamos a lutar para mandar esta forma de pensar para o caixote do lixo da História». Defendendo «uma posição que vê a luta contra o heterossexismo como parte da luta de classes», refere que o TKP-ML «não nega a luta por reformas, que luta pela ampliação dos direitos democráticos, mas subordina a luta por direitos à luta pelo poder». E reafirmando a subordinação ao poder do «caminho iluminado da ciência do MLM [“maoísmo leninismo marxismo”]» que caracteriza a proposta política desse partido, um das partes da galáxia do Movimento de Libertação do Curdistão.

    «Após a minha participação direta na revolução, também experimentei mudanças intelectuais. Fiz uma transformação, construí-me a mim próprie, mas tive de renunciar a muitas coisas no meu caminho até aqui. O meu cabelo, a minha roupa, a minha maquilhagem, as pessoas que amo muito, o meu estilo de vida… Senti o peso disso por muito tempo, mas a certa altura percebi que ser queer não é apenas uma performance física. Quando aprendi a interpretar o queer de uma perspetiva MLM [“maoísta leninista marxista”], percebi que não me devia limitar fisicamente. Não podemos mudar este sistema apenas construindo os nossos próprios corpos, as nossas próprias vidas, numa performance queer. Podemos aumentar a consciencialização. Mas não se pode mudar um sistema que tem as suas origens nas relações de produção através da consciencialização. Neste sentido, penso que algumas mudanças que fisicamente parecem um passo atrás são, na verdade, um passo atrás para dar um salto maior. Porque graças à determinação da minha organização sobre esta questão, tive a oportunidade de discutir as questões LGBTI+ e o heterossexismo com outras organizações revolucionárias e militantes locais aqui. Estas discussões também contribuem para mudanças a longo prazo. É claro que as nossas discussões nem sempre encontram respostas progressistas. Mas continuamos a colocar na ordem do dia uma questão não falada, apesar de todos os riscos. Porque conhecemos as raízes de classe do heterossexismo e do patriarcado, e levamos a cabo a nossa luta com esta consciência».

    Sobre a sua própria sexualidade, Z. afirma-a «condicionada pelo funcionamento organizacional». «Tendo em conta que somos discriminades, criminalizades e sujeites a violência quando representamos a nossa sexualidade, penso que esta questão não é uma questão trivial. Fala-se da felicidade dos “indivíduos” que vivem a sua sexualidade de uma forma saudável e não violenta. No entanto, a sexualidade nunca é encarada a nível social. O sistema reduz a sexualidade ao indivíduo, como faz com tudo o resto. De facto, é impossível falar de uma sexualidade saudável em geral, quando apenas uma pequena parte da sociedade está suficientemente sensibilizada para esta questão. A luta em que estou envolvide, em que participo, é de facto a luta pela construção de uma sociedade que seja mais saudável, que pense nos seus parceiros, que não aja apenas em função das suas próprias necessidades e que possa ter uma sexualidade saudável. Dentro da guerra revolucionária, é claro que há discussões com avanços e recuos sobre essa questão. No entanto, organizar a sexualidade através de intervenções externas ou de cima para baixo terá consequências pouco saudáveis. Por esta razão, só através de discussões organizadas e de baixo para cima é que lutamos contra os danos do patriarcado e do heterossexismo, incluindo na sexualidade.» Z. fala-nos de «debates especiais entre as pessoas queer locais sobre o conhecimento de si próprias e dos seus direitos, e sobre o aprofundamento da luta. No entanto, estes debates são muito limitados e tentamos organizá-los de forma semi-clandestina.»

    Em suma, «esta é uma questão complicada que levará tempo. Especialmente se tivermos em conta a forma como a sexualidade é tratada no Médio Oriente. No âmbito desta luta, a minha sexualidade pessoal é condicionada pelo funcionamento organizacional. Isto é difícil de compreender para aqueles que dão prioridade ao indivíduo em detrimento da sociedade. Mas se ser militante revolucionárie nesta vida significa sacrificar muitas coisas, também significa sacrificar a vida sexual quando necessário. Então é uma questão de prioridades: as minhas necessidades individuais ou as exigências da luta?».

    TKP-ML KKB

    Que futuro (queer)?

    Sobre a vida das pessoas queer nas zonas do Curdistão, para lá das militâncias, «sabemos que as pessoas queer criam espaços clandestinos onde podem respirar e isto acontece em todos os períodos da história e em todas as geografias». Porém, diz-nos Z., «na nossa posição e no quadro das leis e práticas actuais, é quase impossível comunicar com esse público».

    Vive-se no segredo e no risco. «Existem condições diferentes nas quatro partes do Curdistão. É claro que estas condições não são independentes das políticas de anexação e ocupação. O Curdistão turco, em especial, é muito diferente devido à influência tanto do capitalismo de consumo, como do movimento LGBTI+. No Curdistão iraniano, as práticas são diferentes para as pessoas trans que querem fazer a transição e para quem não quer fazer a transição, a quem  são aplicados diferentes níveis de tortura. Há apenas um ou dois anos, ativistas LGBTI+ foram detidos e torturados no Curdistão iraquiano e as filmagens foram publicadas».

    «Em Rojava, a constituição provisional não inclui qualquer menção à orientação sexual e à identidade de género. Por vezes, são tomadas decisões mais moderadas, de acordo com a iniciativa do juiz. O fator de haver um inimigo tem de estar sempre na nossa agenda. Mas, como sabemos muito bem, na experiência palestiniana, o fator “inimigo” é frequentemente utilizado como uma máscara para a LGBTI+fobia. Além disso, o poder contra o qual estamos a lutar não é um poder como o Estado de Israel, onde a democracia burguesa se desenvolveu ao ponto de poder implementar políticas de Pinkwashing. O Daesh, outros grupos filiados ao Exército Sírio Livre, o Hashd al-Shaabi [o Hezbollah na Síria] ou o Estado Turco e o regime Sírio pensam mais ou menos a mesma coisa em relação às pessoas LGBTI+. Apenas as práticas são ligeiramente diferentes».

    Para Z., ainda que recorde as pessoas LGBTI+ que saíram à rua na Síria durante a primavera árabe, «não é possível falar de um ambiente de liberdade para as pessoas LGBTI+ antes e depois da revolução. Mas os ganhos da Revolução de Rojava para as mulheres existem. Em certa medida, a libertação das mulheres e a mudança revolucionária tiveram um impacto nas vidas de, pelo menos, mulheres não heterossexuais».

    «Se esta revolução não sobreviver, se houver um grande retrocesso, os direitos que foram conquistados até agora desaparecerão. Isto significa que o processo de desenvolvimento será interrompido. Para isso, temos de fazer todo o tipo de sacrifícios que construam a revolução». Por outro lado, «para preparar o caminho para o progresso na vida das pessoas queer que vivem aqui, é importante organizar as pessoas queer de Rojava que vivem no estrangeiro. Elas conhecem melhor a região e as suas condições do que alguém que não é de Rojava. Apoiar esta luta significa produzir políticas LGBTI+ mais corajosas e destemidas nas nossas áreas. Por isso, é necessário desenvolver um estilo que intervenha no problema de forma clara e revolucionária, em vez de um estilo pouco transparente, que serpenteia por caminhos sinuosos e que gira em torno do problema. Ao mesmo tempo, não devemos cair numa intervenção de exterior, de cima, sem compreender e conhecer as condições da região. Desde que consigamos fazer estas duas coisas em conjunto, asseguraremos também que as massas LGBTI+ de Rojava se juntem. Não sacrificaremos a revolução de Rojava ao inimigo».


    Texto: PLATAFORMA DE SOLIDARIEDADE COM OS POVOS DO CURDISTÃO/ TKP-ML KKB

    @plataformasoli_curdistão

    Imagens: PLATAFORMA DE SOLIDARIEDADE COM OS POVOS DO CURDISTÃO/ TKP-ML KKB


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #40, Janeiro|Março 2024.

     
  • Da escola de música à música que nos dão com as escolas

    Da escola de música à música que nos dão com as escolas

    O mesmo Rui Moreira que despeja uma escola indica outra como solução para um centro comercial que também está a tratar de despejar.

    Estamos em outubro de 2017. O céu está coberto de cinza e fuligem. Pedrógão estava a arder, e todos os olhos estavam postos naquele território onde tantas vidas se perderam. Mais a norte, numa qualquer viela do Porto, nascia o sonho de um novo espaço libertado, onde se pudesse sacudir a cinza e a fuligem da vida na cidade.

    Nascia A Travêssa na antiga Escola Básica José Gomes Ferreira, há anos abandonada e vazia de crianças, de gente, de sonhos. Em novembro de 2017 o Jornal MAPA dava conta dessa história, enredada em tantas outras, em tanto semelhantes.

    Naquele espaço lia-se num estandarte, numa frase roubada às Aventuras de João sem Medo, do próprio José Gomes Ferreira, «É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir». Rui Moreira, que pouco se espanta com tudo o que não seja bem embrulhado num papel azul e branco e carimbado com essa «marca» que já tantos prémios terá ganho, e seus subalternos não deixaram sequer a poeira assentar.

    Em menos de 72h, a Polícia de Segurança Pública e a Polícia Municipal restauraram o normal funcionamento das instituições, pela segurança de todos, não fossem esses doidos que andam espantados de existir acharem que aquele deveria ser um espaço devolvido à comunidade. Foram 21 pessoas que foram levadas em tranches para a esquadra da PSP do Heroísmo, acusadas nem elas sabiam muito bem do quê. Talvez de partirem as portas de entrada da escola?

    Ou talvez essas portas tenham sido partidas por funcionários públicos paramilitares vestidos de kevlar da cabeça aos pés com uma marreta nas mãos? (que quem nunca quis partir a porta da escola à marretada atire a primeira pedra, mas ali não foram lançadas pedras, e nem sequer insultos). Talvez tenha sido a concretização de uma fantasia juvenil de Manuel Leitão, Chefe da Polícia Municipal há quase 30 anos, homem-forte de Rui Moreira e de Rui Rio antes dele? O homem à cabeça do despejo da Es.Col.A. da Fontinha, ele próprio a cabeça da instalação de um sistema de CCTV na cidade? Terá sido? Não ouso adivinhar.

    O argumento era de que aquele espaço era arrendado ao Instituto Politécnico do Porto (IPP), que em última análise o transformaria numa alternativa à Fábrica, na Rua da Alegria. E como tal, a permanência da comunidade era um absoluto ultraje aos planos do IPP. Talvez valha a pena acrescentar que quem formalizou queixa contra as pessoas que estavam no espaço à data do despejo, alta funcionária do IPP… era também vereadora sem pelouro na CMP. Há que recompensar quem trabalha bem, certo?
    Não é preciso recuar muito mais para lembrar uma outra escola, também essa abandonada durante anos pelos poderes locais e centrais, e que se transformou num espaço autogestionado durante um longo e intenso ano. Essa história termina em abril de 2012, e deixa a cidade mais vazia, mais fria, mais despida de si própria. A Es.Col.A. da Fontinha foi um momento incontornável da história da nossa cidade, não da cidade deles, e o seu despejo deixa até hoje um sabor amargo na boca de todos os portuenses que não se revêem na marca do porto ponto.

    As portas partidas pela PSP durante o despejo d’A Travêssa.

    Open space em parque de estacionamento

    Avancemos no tempo. Estamos em julho de 2023. O turismo retomou, a cidade está efervescente de vida plástica! Tudo de volta aos conformes da visão de Rui Moreira, autarca esse que queria instalar checkpoints à entrada da cidade durante o primeiro confinamento criado para contenção da pandemia de Covid-19. O caso «Selminho» incomodou-o menos do que os autocolantes que cada duas por três reaparecem nos postes de luz da cidade, que ousam dizer «Morto.» em vez de «Porto.». Que devassa essa à cidade e sua marca.

    O Porto amanhece com uma mensagem alarmante: o Centro Comercial Stop (CC Stop) está a ser despejado, sem qualquer pré-aviso às pessoas que o ocupam. Mas não era bem, bem o CC Stop que estava a ser despejado…

    Era uma morte há muito anunciada, mas sempre protelada. De alguma forma, o CC Stop conseguia permanecer num marasmo cinzento de legalidade. Naquela manhã, os músicos e lojistas e restante Porto perdem acesso a este espaço autocriado e em grande parte autogestionado. Foram vedadas 105 das 126 lojas ocupadas por músicos, lojistas, estúdios de gravação e ateliers de arte.

    À cabeça do ocorrido, surpreendam-se as madames, Manuel Leitão, perpetuamente de rosto sereno e meio sorriso nos lábios. «As lojas não têm licença para operar», argumentava-se. «Mas que licenças são precisas?», perguntava-se. Silêncio, ouvia-se.

    Alguns dos músicos conseguiram, ainda no próprio dia, recuperar o equipamento que mantinham nessas lojas convertidas em estúdios de música e salas de ensaio. Outros, nem por isso. Alguns optaram por deixar algum equipamento para trás, sabendo que lhe iam perder acesso até enviarem um pedido por escrito à PSP para levantamento desse mesmo equipamento.

    Nos gabinetes da autarquia, entre sorrisos amarelos e operações de charme na cidade, Rui Moreira dizia que «os músicos não foram avisados do dia em que a operação iria ocorrer já que a ação da Polícia Municipal não passa pelo autarca, que diz também não ter sido avisado». E é na face de uma revolta popular que nem Rui Moreira nem o seu subalterno Ricardo Valente, atual vereador da Economia da Câmara Municipal do Porto e Administrador da Porto Vivo SRU, esperavam encontrar que começam a surgir alternativas e hipóteses, de forma tão incrivelmente benevolente.

    A primeira hipótese, já antes apresentada à comunidade Stop e peremptoriamente rejeitada, era «um open space nos dois últimos pisos do Silo Auto». Para contexto, para quem não esteja familiarizado com a história, o Stop é há vários anos uma pedra no sapato de verniz de Rui Moreira. Ora que é insalubre, ora que não tem condições, ora que há queixas de ruído. Só que, até aquele dia de julho, ainda não tinham descoberto como deixar cair o machado que há tanto tempo faziam pairar sobre o pescoço do Stop.

    Mas, para salvar a face, claro, a autarquia acabava por sugerir uma alternativa absolutamente viável para os músicos do Stop saírem daquele espaço que tanto incómodo causa. Um parque de estacionamento, em espiral, em cimento. Tiremos um momento para pensar em dezenas de bandas, dos mais variados géneros, a ensaiarem lado a lado, num open space de cimento, em simultâneo. É de aquecer o mais gélido dos corações, e furar o mais resistente dos tímpanos. Naturalmente, a resposta foi tão rápida como o processo de pensamento por trás da ideia: um rotundo não.

    JulianoMattos
    Fotografia de Juliano Mattos [Activismo em Foco]
    Onde há fumo, há especulação

    Começam a surgir burburinhos. Teorias da conspiração. Pontas soltas que se unem e talvez contem uma história um bocadinho mais negra do que aquilo que se esperava.

    Bem atrás do CC Stop, existe o antigo Palácio da Ford. Este complexo industrial do séc. XX está há mais de 30 anos abandonado. Durante vários anos, aquele descampado aos socalcos servia de parque de estacionamento improvisado para os utilizadores do Stop. Nos idos de 2016 (ou 17, ou 18… pré-covid!), o espaço é comprado, e o acesso a esse terreno torna-se limitado. Há uma cancela, e um «securita». Pobre homem, pago para passar os dias dele a olhar para ontem e a impedir as pessoas de estacionarem num terreno onde não se passa rigorosamente nada.

    Sensivelmente ao mesmo tempo, começam as assembleias gerais no Stop, porque há uma ameaça de encerramento iminente. É neste contexto que nasce a Associação Alma Stop, que teve um papel preponderante no que vem a acontecer em 2023. Nessa altura, surge outro «zum-zum» pelos corredores do Stop, desta feita acerca de Mário Ferreira, dono da Douro Azul.

    Mário Ferreira, para além de CEO da Douro Azul, é também proprietário da Pluris Investments, que é a maior acionista da Media Capital. Basta uma leitura na diagonal da página da Wikipedia acerca dele para se perceber o monopólio que tem vindo a construir e a fortuna que tem vindo a acumular.

    Os dois empresários, Rui Moreira e Mário Ferreira, trabalharam de forma próxima na Associação de Turismo do Porto e do Norte (ATP): «Em Setembro de 2017, a ATP anunciava, em comunicado, que nos novos corpos sociais para o triénio 2017/2019 o presidente da direção da ATP seria Rui Moreira, e na vice-presidência estaria Mário Ferreira, empresário do turismo, designadamente na atividade de cruzeiros no rio Douro, e Nuno Botelho, presidente da Associação Comercial do Porto» (fonte: publituris.pt).

    É precisamente quando partilham a alta direção da ATP que surgem os rumores acerca do novo empreendimento de Mário Ferreira – urge esclarecer que isto se trata de especulação, e que prova nenhuma tenho para consolidar esta alegação. Diz-se que Mário Ferreira estará a comprar, ou tentar, uma série de propriedades e terrenos entre o Palácio do Freixo e o Stop. Não se sabe qual o projeto ou plano, mas certo e sabido é que um antigo centro comercial tornado pólo criativo autogestionado não encaixa nesse projeto ou plano.

    Eis que chegamos a julho de 2023. Descobre-se um projeto arquitetónico, imobiliário, turístico, que foi aprovado para o espaço do Palácio Ford. Uma dupla de arquitetos vence o concurso promovido pela empresa detentora do espaço, também proprietária do hotel Eurostars, a paredes-meias com o Stop.

    A 21 de julho, lê-se no Expresso que em julho do ano passado, a IME – Imóveis e Empreendimentos Hoteleiros promoveu um Concurso de Conceção em parceria com a Ordem dos Arquitetos – Secção Regional do Norte, que permitisse «fazer uma reflexão sobre o melhor enquadramento conceptual para um eventual futuro investimento naquela área»”. Vulgo: habitação, turismo, comércio. Mas habitação de tipologia T0 e T1, naturalmente.

    Juram a autarquia e a administração que não há qualquer projeto de hotel para o espaço que o Stop ocupa. Mas facto é que está cada vez mais cercado pelas garras da especulação.

    Na sequência do despejo, houve uma enorme e emocionante mobilização popular.

    Quem não se espante…

    Voltemos então ao momento do despejo, às sugestões, e às negociações.

    Vedadas 105 das 126 lojas do Stop, eis que o gabinete de Rui Moreira apresenta nova ideia, após a rocambolesca sugestão do open space no Silo Auto: a Escola Básica Pires de Lima.

    Noticiava o JN que «de acordo com Rui Moreira, a transformação das salas de aula em salas de música “é relativamente fácil”. A escola é da Câmara e “não vai ser necessária para a educação”, podendo ficar disponível em setembro. O edifício é composto por “seis unidades completamente autónomas” e os custos da adaptação serão assumidos pela autarquia».

    Quanta boa vontade!

    A Escola Pires de Lima chegou a acolher 1500 alunos, e já em 2018 tinha sido desativada por falta de condições para os estudantes. Nas caixas de comentários das redes sociais, liam-se relatos de ex-estudantes da Pires de Lima, que davam conta que «já quando lá estudei chovia nas salas». Parece uma ideia de génio, colocar equipamento elétrico e eletrónico de milhares de euros em salas que não eram adequadas ao ensino básico, e esperar que tudo corra bem.

    Curioso é pensar que, anos antes, um grupo quis devolver uma escola há muito fechada à comunidade, fazer uso daquele espaço, transformá-lo num espaço autogestionado, e esse mesmo grupo só não «sentou o cu no mocho»[ref] assentar o cu no mocho, Responder como réu em tribunal[/ref] porque a modos que se intrometeu uma pandemia global. Grupo esse que entrou na escola pacificamente, e saiu da escola a calcar vidro partido porque o conceito de uma maçaneta numa porta de alumínio destrancada era demasiado alucinante para os polícias encarregues de efetivarem o despejo. E tão somente 6 anos depois, uma escola em condições semelhantes torna-se a alternativa mais viável – e que absurdo seria os músicos rejeitarem-na – para hospedar o Stop! Com as obras, pois claro, à custa da CMP.

    Talvez os nomes de cada um desses espaços tenha tido alguma influência nas decisões do edil. Afinal, deixar José Gomes Ferreira, um desalinhado e provocador com tendências revolucionárias, albergar um grupo de okupas com preocupações e atitudes semelhantes às suas era uma impossibilidade. Já com Pires de Lima, pessoa que sempre se manteve ligado às instituições – à sua época fascistas –, a coisa era coerente à partida, com tudo bem assinado e combinado, numa gestão que fugiria para sempre das mãos de quem lá trabalhe.

    Enfim… foram muitos avanços e recuos, mas a CMP acabou por ceder apenas parcialmente às exigências dos utilizadores do Stop e, apesar de ter sido recuperado o acesso às salas, foi-o apenas de forma parcial e condicionada. Ainda esta história não teve um desfecho, mas já muita música nos foi dada.

    JulianoMattos
    Fotografia de Juliano Mattos [Activismo em Foco]
    Escolas para uns, bailes para outros

    Então, em que ficamos? Não é precisa muita perspicácia para se perceber a ironia de toda esta conjuntura.
    Em 2011, uma escola abandonada é transformada em espaço coletivo e autogestionado. É repetidamente despejada pela autarquia de Rui Rio, com Manuel Leitão à cabeça.

    Em 2017, uma escola abandonada tenta transformar-se em espaço coletivo e autogestionado. Nem 72h depois, é despejada pela autarquia de Rui Moreira, com Manuel Leitão à cabeça.

    Em 2023, uma escola abandonada é proposta pela própria autarquia como solução para espaço coletivo e autogestionado, após um despejo de que a autarquia de Rui Moreira «não tinha como saber», com Manuel Leitão à cabeça.

    Na sequência do despejo, houve uma enorme e emocionante mobilização popular. Não foram só os músicos, os lojistas, e os amigos que saíram à rua pela defesa do Stop. Nas varandas, viam-se os vizinhos do Stop aplaudir e eles próprios tocar instrumentos. A cidade cobriu-se de panos e plásticos onde se lia «Stop». Renasce o «Morto.» que tanto incómodo causou a Rui Moreira no seu advento.

    Os músicos rejeitaram a proposta da Escola Pires de Lima como alternativa ao Stop. É no Stop que querem ficar e que querem manter os seus projetos e a sua comunidade.

    Resta saber se e quando é que surgirá uma comandita de polícias vestidos de kevlar da cabeça aos pés para partirem os vidros de uma porta de alumínio que em nenhum momento esteve trancada.

     


    Texto de  Leonardo Aguiar