Autor: sandrafaustino

  • Puçanga – mel caseiro, dark e bassy

    Puçanga – mel caseiro, dark e bassy

    No Vol. 2 da “Música Sem Filtros” está a “Cantiga da Ceifa”, que Puçanga explora com uma mezinha electrónica.

    Jornal Mapa – Como defines a tua música?
    Puçanga – Puçanga significa remédio caseiro. Uma mezinha electrónica, com tons dark e bassy, com a presença da minha voz potente, frágil e improvisadora. Na Puçanga, sou cantora, song-writer e produtora. As minhas letras exploram questões de justiça social ou derivações emocionais. Também me inspiro na música tradicional e em canções de resistência.

    JM – “Música sem Filtros” é uma compilação de músicas de combate, de intervenção, com que nos identificamos enquanto colectivo. Vês a música como ferramenta de luta?
    P – Acho que a música, como as outras artes, pode ser revolucionária porque tem a capacidade de transformar a nossa forma de ver – com que parâmetros podemos ver o mundo. Isso acontece pelo imaginário que as letras e a presença de quem faz música despertam em nós. E a música naturalmente carrega em si a história de comunidades, subjectividades de pessoas, mundos por construir… É das formas mais ancestrais, e bem recebidas em geral, de ter coragem para revelar emoções e vontade de nos juntarmos em grupos.

    JM – “Cantiga da Ceifa”: porque escolheste esta letra e como foi o processo de adaptação para a música?
    P – Tenho muito interesse em encontrar músicas tradicionais que tenham um conteúdo mais político ou que contextualizem socialmente a vida das pessoas, e é um pouco difícil de encontrá-las em Portugal por causa do branqueamento e censura que aconteceu no Estado Novo. Sinto que a letra da Cantiga da Ceifa tem um conteúdo político, numa forma muito poética e provavelmente não intencional, porque fala de uma luta e angústia muito resistentes e antigas, a da terra, a de quem a trabalha, em contraste com os proprietários e os interesses que os protegem. É uma música tradicional da Beira Baixa e foi descoberta nas recolhas que Michel Giacometti fez pelo país todo, na década de 70, cantada pela maravilhosa Ti Chitas – uma senhora trabalhadora do campo com uns melismas fascinantes na voz. No meu arranjo, quis criar uma canção etérea sem ritmo perceptível, que flutuasse no tempo. Também adicionei o som de golpes da ceifa a diluirem-se em sons metálicos, como se fosse uma luta entre o trabalho manual e o trabalho mecânico.

    Puçanga
    Fotografia de Renaud Ruhlmann.

    JM – Em que contexto da tua vida surge o teu projecto/ letras/ atitude? Há um tema social/político em que procures ser mais activa?
    P – Por acaso o meu projecto surgiu e consolidou-se numa altura dark da minha vida. Parece que as crises geram mudanças. Sempre me interessei muito por pensar e trabalhar colectivamente. Por iniciativas auto-gestivas e de apoio mútuo. Caminhamos para um mundo que deu uma volta muito rápida de um sonho da partilha de recursos entre todes para um individualismo e consumismo e privatização desenfreados. Os valores entre gerações mudam demasiado rápido. Por isso é que me interesso também por projectos de construção de memória histórica, que internalizem na cultura das pessoas o que foi o fascismo, que possamos ver que ele nunca se foi embora. Projectos e iniciativas que tenham na sua atitude o poder da tradição oral. De alguma maneira tento falar sobre isso na minha música. E nos projectos que vou criando, paralelos à música, como o de educação não formal “Histórias Invisíveis”, co-criado com a minha amiga Petra Preta. Ou como o “Vozes Itinerantes”, co-criado com o meu amigo Felipe Augusto.
    Tenho-me interessado muito pelo funcionamento cooperativo, pela partilha de recursos, pela propriedade colectiva, ideias desse tipo. Estamos num época muito agressiva do capitalismo, em que já lhe vemos todas as falhas e contradições, e onde já passa a ser demasiado fácil naturalizá-lo. É preciso remar contra a extração super monopolista que vemos acontecer à nossa volta. Por outro lado, por mais que queiramos que acabem as estruturas de poder que geram desigualdade, existe uma outra camada sobre este tema. Às vezes já somos nós a reproduzir estruturas de poder, a vigiar o outro, a puni-lo. Isso não é mais do que a agenda de direita a acontecer. É o projecto do panopticon a desenhar-se na sociedade.
    Por último, também me interesso em celebrar imaginários de género não binário. Tudo o que falei antes está definhado na prisão que existe dentro dos dois géneros, homem e mulher. Nós não tivémos nem temos que ter uma função definida à nascença. A nossa existência é uma viagem fractal. Como os micróbios ou os cogumelos. Eles são uma boa inspiração.

    JM – Qual o impacto que esperas que a tua música tenha nas pessoas?
    P – Que as emocione. Pela gut. Que haja uma compreensão mútua. E que se percam nas sonoridades das músicas também. Mas não sou eu que posso controlar isso.

    JM – os sonhos/utopias em que te baseaste no início mantêm-se?
    P – Umas utopias foram acontecendo. E outras vão aparecendo para me levar a andar mais longe.

     


    Fotografia [em destaque] de  Mark Angelo Harrison

  • Ângela Polícia – do lado de cá

    Ângela Polícia – do lado de cá

    Ângela Polícia traz “O outro lado” ao Vol. 3 da “Música sem Filtros”, em colaboração com o Colectivo Projectil.

    Jornal Mapa – Como defines a tua música?
    Ângela Polícia – Não há assim nenhum tema em que eu procure estar mais activo. Com Ângela Polícia eu exploro muito o lado psicológico do indivíduo, o lado social, de como ele está inserido na sociedade. Através da observação, às vezes através da intervenção, da provocação… mas não há nada em que eu me foque para tentar combater. Acho que é mais para tentar conhecer-me a mim próprio através da arte. Quando escrevo os temas acabo sempre por investigar um bocadinho mais, aprender e estudar. Então acabo sempre por me conhecer melhor, e conhecer melhor a sociedade.

    JM – Sobre a faixa “O outro lado”, como é que ela surge?
    AP – Na altura devia estar um dia cinzento, muito provavelmente, porque a letra começa com isso. Há muito tempo que andava a absorver muita coisa, há muito tempo que andava entupido, então precisava de deitar cá para fora. Escrevi de uma maneira honesta sobre aquilo que estava a sentir naquele dia, de me sentir impotente. Não quis baixar os braços e a minha forma de não baixar os braços foi escrever, foi escrever essa letra.

    Outros_Ângulos
    Fotografia de Outros Ângulos

    JM – “Música sem Filtros” é uma compilação de músicas de combate, de intervenção, com que nos identificamos enquanto colectivo. Vês a música como ferramenta de luta?
    AP – A música é uma ferramenta que serve para transportar mentes para fora do seu contexto e fazê-las experimentar novas sensações e perspectivas. Como já dizia o outro, a música é a expressão de sentimentos através de sons. Então a música pode servir como banda sonora, ou pano de fundo, daquilo que se esteja a abordar. Seja a opressão, seja a violência, seja o que for. E acho que funciona muito bem: muitas vezes as pessoas têm aversão a certos temas e a música serve de aquecimento, como um cobertor, que permite que as pessoas fiquem mais confortáveis para abordar esse tema. A música cria o clima. As pessoas precisam desse clima para entrar num certo estado de espírito, num certo espaço mental, e conseguir absorver o tema.

    JM – O que esperas do futuro?
    AP – Eu sinceramente…. Eheh, já esperei tanto na vida e já criei tantas expectativas que tento não criar expectativas, não esperar que a minha música tenha impacto nas pessoas. O que eu mais espero é que chegue aos ouvidos das pessoas. E se as pessoas lhe derem atenção suficiente, irão perceber a mensagem e irão perceber o sentimento que está por trás. Mas não caio em muita expectativa, senão acabo por me desiludir! Promovo a minha música cá para fora no sentido de chegar ao correio das pessoas, depois as pessoas decidem se querem ouvir ou não. Ninguém gosta de ser obrigado a ouvir o que quer que seja, muito menos eu, e então o que eu espero é que pelo menos chegue aos ouvidos das pessoas.

    JM – Os sonhos que tinhas quando começaste a escrever mantêm-se, ou mudou alguma coisa?
    AP – Alguns sonhos que tinha quando comecei o projecto mantêm-se. Continuo a ser um ser indignado e atento à realidade contemporânea. Mas o indivíduo já não é o mesmo, já não estou nos mesmos contextos em que estava há uns tempos atrás, já não vivo na mesma cidade, não estou com o mesmo grupo de pessoas… Mas há coisas que eu ainda mantenho, o sentido de comunidade, informação, educação, justiça, igualdade… Há virtudes que tentas potencializar e defeitos que tentas melhorar para te tornar uma pessoa melhor, e com isso tornar-te um melhor guerreiro, um melhor lutador.

     


    Fotografia [em destaque] de  Nuno Braumann

  • Um olival super intensivo e zero infrações à lei: o caso dos Foros de Vale Figueira

    Um olival super intensivo e zero infrações à lei: o caso dos Foros de Vale Figueira

    No dia 1 de outubro de 2021, os vizinhos das Courelas da Caneira, perto da aldeia dos Foros de Vale Figueira, em Montemor-o-Novo, acordaram com movimentações no terreno que os circunda. O terreno, com cerca de 20 hectares, e que está imediatamente ao lado de um conjunto de 20 casas com cerca de 30 habitantes, parecia preparar-se para uma intervenção desproporcional. Os tratoristas, quando questionados, diziam que tinham ordens para não revelar nada. Quatro dias depois estava instalado um olival intensivo com 50 mil árvores.

    Enquanto as máquinas preparavam o terreno para plantação, os vizinhos das Courelas da Caneira dirigiram uma carta à Junta de Freguesia dos Foros de Vale Figueira procurando saber o que estava destinado a acontecer naquele terreno. A carta não teve resposta. No dia 5 de outubro, enviaram nova carta, assinada por 21 vizinhos, desta vez à então presidente da Câmara Municipal de Montemor-o-Novo, procurando saber se existia alguma autorização ou licenciamento para a empreitada. Nesse mesmo dia estava já implantado um olival super intensivo: 2,500 oliveiras por hectare, num total de 50,000 mil oliveiras, plantadas à distância de 1 metro entre elas e de 3 metros entre filas, com rega gota-a-gota. No dia 12 de outubro chega a resposta do Município, que afirma ter apenas conhecimento de um pedido de parecer para o arranque de 1 hectare de olival antigo que antes ocupava parte daquele terreno – ao qual o Município respondeu positivamente. No dia 14 de outubro, os vizinhos respondem à presidente da Câmara, já com o apoio da Associação ZERO, elencando uma série de leis e de decretos que o Município pode mobilizar para intervir. Nessa lista está o Plano Diretor Municipal (PDM) de Montemor-o-Novo, revisto apenas um mês antes, em setembro de 2021, e que passa a considerar interdita a instalação de olivais e pomares super intensivos fora da área de rega da Barragem dos Minutos (artigo 26, alínea c), como é o caso. Esta última carta nunca recebeu resposta e, entretanto, entra em funções o novo executivo camarário, como resultado das eleições autárquicas do mês anterior. A 26 de outubro, os vizinhos dirigem nova carta ao atual Presidente do Município, desta vez assinada por cerca de 30 vizinhos. A resposta, elaborada pelo Engenheiro do Ambiente, afirma que o pedido de parecer sobre o arranque do olival antigo já tinha dado entrada no sistema antes da revisão do PDM e que, portanto, nada a fazer – embora expresse a vontade política do Município de, no futuro, se pronunciar desfavoravelmente nestas situações.

    O terreno, que é propriedade de um particular da aldeia, está alugado a uma empresa – Number Simulation, Lda – sobre a qual ninguém sabe nada, à exceção do NIF e morada que figuram em meia dúzia de diretórios online. Em novembro de 2021, aparece junto ao olival uma placa confirmando o subsídio do Programa de Desenvolvimento Rural 2020 (PDR2020) a um projeto de «investimento em olival e equipamentos», com o objetivo de «dinamizar os territórios rurais». Sem certezas, os vizinhos desconfiam que a Number Simulation, Lda é apenas uma intermediária burocrática.

    o Diretor Regional da DRAP escreve que «esta é a atual dinâmica da agricultura alentejana» e que tudo está regulado pela lei.

    Nos meses que se seguem, os vizinhos contactam a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Alentejo, a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) de Lisboa e de Portalegre e a Direção Regional de Agricultura e Pescas (DRAP) do Alentejo: todas elas respondem que o caso é da exclusiva competência da Câmara Municipal. A APA confirma até que a empresa tem licença para extrair água da charca e para pesquisar águas subterrâneas através de um furo, e o Diretor Regional da DRAP escreve que «esta é a atual dinâmica da agricultura alentejana» e que tudo está regulado pela lei – passando a elencar as várias leis e decretos que enquadram o arranque de árvores, a rega intensiva ou o uso de agroquímicos.

    Enquanto isto, o olival super intensivo passa a acolher também painéis solares e há pulverizações com herbicidas e fertilizantes: as oliveiras, plantadas há menos de 1 ano, já têm um metro de altura. Em abril de 2022, os vizinhos das Courelas da Caneira organizam uma sessão pública na aldeia, tentando chamar a atenção da população para o olival. Um mês mais tarde, organizam novo encontro, desta vez com a mostra do filme «O Lado Negro do Azeite», de Sandra Cóias. Mas, à exceção de quem sente a presença do olival na sua paisagem, a restante população da aldeia não parece querer lutar contra o olival, e a Junta de Freguesia, apesar de demonstrar o seu apoio, não se quer comprometer com qualquer ação que responda ao artigo 26º do PDM.

    Apesar disso, os cerca de 30 vizinhos do olival sabem que esta agricultura é um ícone da destruição do ecossistema alentejano e uma ameaça a todas as formas de vida. Os vizinhos que produzem queijo ou figo da índia arriscam perder a sua certificação de produção biológica se houver contaminação com os agroquímicos usados no olival. Na ribeira que ali passa ainda vivem populações de lontras cujo alimento principal são camarões de água doce, sensíveis à presença de substâncias tóxicas – para não falar na vindoura perda de caudal devido à rega gota-a-gota de 50,000 oliveiras. Esta situação destaca uma contradição grave diante da crise climática: as mesmas autoridades que se dizem empenhadas em implementar medidas de proteção climática e ecológica fazem, na prática, exatamente o contrário. Favorecem um cultivo ávido de água e de agroquímicos numa região de seca e de solos vulneráveis: um exemplo perfeito do aumento dos efeitos das mudanças climáticas, em vez da sua redução.

    Para além disso, há muitas outras propriedades na região, que, sem a resistência da população, serão predadas por empresas que as querem alugar para agricultura intensiva, oferecendo aos proprietários – muitos deles herdeiros que já residem fora – compensação financeira a troco da destruição de uma paisagem que lhes fica longínqua. Não há lei nem instituição que, embalada pela ladainha da transição verde, a promoção do turismo rural ou a preservação da água arregacem mangas contra a «urbanização» da paisagem rural. Até agora, as portas fecham-se e os funcionários públicos encolhem os ombros os perante um crime que é, unanimemente, declarado legal. Mas os vizinhos das Courelas da Caneira mantêm-se ativos e atentos a todas as portas que possam ainda abrir-se em defesa do bem estar de todos.

     


    Fotografia [em destaque] dos  Vizinhos das Courelas da Caneira.


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #35, Setembro|Novembro 2022.

  • Mapeando software livre com o coletivos.org

    Mapeando software livre com o coletivos.org

    Alguém precisa da funcionalidade X? O movimento de software livre, aqui e no resto do mundo, tem várias alternativas aos gigantes tecnológicos. Guarda-as na barra de marcadores (do Firefox!) para estarem à mão.

    O que é o coletivos.org e o que fazem?

    O coletivos.org apoia coletivos a auto-organizar-se na Internet, utilizando ferramentas de software livre, alojadas em servidores mantidos por nós. Tendemos a apoiar projetos com que temos afinidade, estabelecendo redes de solidariedade. Para coletivos, oferecemos o Nextcloud, onde é possível partilhar ficheiros, criar calendários, formulários, notas, gerir passwords e finanças. Também temos e-mail, um fórum privado (Discourse) e espaço de alojamento para websites. Também alojamos a rede social Mastodon, o Peertube (upload de vídeos) e Pads para edição colaborativa de texto online.

    O vosso trabalho começou pela organização de oficinas. É urgente combater o software proprietário?


    É verdade que começámos o coletivos.org depois da organização de uma oficina semanal de computadores, em Lisboa, onde muita gente instalou linux (software livre), além de reparar o seu computador. A nossa dependência do software e hardware proprietário (especialmente dos serviços cloud, propriedade de meia dúzia de empresas gigantes e poderosas) controla a nossa vida de uma maneira nunca antes conseguida pelo capitalismo. Por exemplo, quando crias uma conta num website proprietário, estás preso para sempre a esse serviço. Tens que adaptar a tua criatividade e forma de fazer as coisas às ferramentas, enquanto que no movimento de software livre conseguimos adaptar as ferramentas às nossas necessidades. Alguém precisa da funcionalidade X? Alguém no outro lado do mundo acaba por implementá-la. Nos serviços cloud não podes simplesmente mudar de serviço, eles têm os teus contatos, as tuas fotografias, as tuas memórias. Por outro lado, projetos políticos radicais são constantemente bloqueados destas plataformas (Crimethinc, It’s Going Down, páginas de ação direta anti-racista, páginas de apoio à Palestina…). A comunicação digital pode trazer coisas incríveis e utópicas através da conexão entre humanos, partilha de informação, empoderamento de pessoas marginalizadas, organização à distância, mas nas nossas mãos – não nas dos que propagam e beneficiam do status quo.

    Por um lado somos forçados a usar a Google ou a Microsoft em contextos escolares e de trabalho, por outro há a ideia de que as alternativas livres não são «user-friendly». Mito ou realidade?


    A Google ou a Microsoft gostam muito de entrar nos contextos escolares e de trabalho para nos tornarem dependentes das suas tecnologias, adaptando-nos a elas desde pequenos. Há alguma verdade na ideia (já um pouco antiquada) de que as alternativas não são sempre «user-friendly» – o movimento de software livre não tem os mesmos recursos das grandes corporações. Mas durante anos, através do apoio mútuo e da partilha de conhecimento, tem evoluído muito e já consegue ultrapassar em muitos contextos o software proprietário.

    Para cada ferramenta proprietária existem múltiplas alternativas livres. Aprender sobre elas e partilhar esse conhecimento nos nossos contextos e lutas é indispensável para cultivar uma cultura de segurança e autonomia.

    Quais os primeiros passos para cultivar autonomia digital? Há iniciativas inspiradoras que possamos seguir?

    Gostávamos de responder a esta pergunta com uma frase da declaração de independência do cyberespaço, de 1996: «Nós não temos nenhum governo eleito, nem queremos um (…). O cyberespaço não está dentro das vossas fronteiras. Não pensem que o podem construir, como uma empreitada pública. Não podem. É um ato da natureza, que cresce por si próprio através das nossas ações coletivas». A internet sempre foi um meio de autonomia digital, de liberdade e descentralização, ideia que tem sido atacada constantemente por estados e corporações de forma a tentarem governar, censurar e aumentar os seus lucros. Apesar disso, ainda podemos ter uma internet descentralizada num sistema livre e que nos empodera. Urgimos a coletivos (e indivíduos) que busquem essa autonomia, que mudem, mesmo que gradualmente, as suas formas de comunicação, organização, produção e armazenamento de dados para software livre. Para cada ferramenta proprietária existem múltiplas alternativas livres. Aprender sobre elas e partilhar esse conhecimento nos nossos contextos e lutas é indispensável para cultivar uma cultura de segurança e autonomia. Há muitas iniciativas apoiadas nesta ideia: a Wikipedia, archive.org, Openstreetmaps, Free Software Foundation, Chaos Computer Club… Existem também projetos afins ao nosso, como o disroot.org da Holanda, riseup.net dos E.U.A., framasoft de França, system.li da Alemanha, immerda.ch da Suíça, austiciti da Itália, etc.

    Que softwares livres recomendam para reforçarmos a nossa caixa de ferramentas anti-proprietária?

    Para eliminar a Google na maior parte dos dispositivos android podemos utilizar o LineageOS. Para explorar mapas recomendamos o OsmAnd, que deve ser instalado através do F-Droid – um repositório de aplicações de software livre. Para ver vídeos no Youtube sem anúncios e sem ser rastreado, há o NewPipe. Para chat há muitas soluções, mas nós recomendamos o Conversations (XMPP) e o Element (Matrix), que correm ambos em código livre e fornecem encriptação. No computador, o Linux Mint é um bom sistema operativo para iniciantes (e não só). Para navegar na internet, há o Firefox, ou o Tor para navegar de forma anónima. Podem encontrar mais sugestões em: https://prism-break.org/en/.

  • Entrevista com Calla La Orden: «[este projeto] surge num contexto de resistência contra a máfia imobiliária de Madrid»

    Entrevista com Calla La Orden: «[este projeto] surge num contexto de resistência contra a máfia imobiliária de Madrid»

    Acaba de sair o número #35 do Jornal MAPA, acompanhado da terceira compilação de “Música Sem Filtros”: um conjunto de músicas de combate de diferente artistas que podes ouvir sem pagar no Bandcamp do Jornal MAPA, mas com a opção de fazer um donativo que reverte para o Jornal. Aproveitamos para lançar uma série de entrevistas com as bandas e autores que compõem estas compilações.

    Calla La Orden é rap de Burgos e entra no Vol. da “Música Sem Filtros” com o tema “Abuelo Néstor”. Nesta entrevista falam-nos da sua história, inseparável da militância: «Os discos que vendemos foram para projetos e causas, o mesmo com os poucos concertos em que cobrámos bilhete.»

    Jornal MAPA: Como definem o vosso projeto musical?

    Calla La Orden: No primeiro disco de Calla la Orden decidimos que isto não era um projeto político nem uma banda de hip-hop, mas sim uma expressão direta, RAP. E continua a ser assim. Calla la Orden nasce com dois irmãos a rimar em cima de beats na Calle de la Orden, em Madrid, sem nenhuma pretensão artística nem política, simplesmente pela necessidade de nos expressarmos e pelo gozo de o fazermos por cima de ritmos.

    JM: A nosso ver, “Música sem Filtros” é uma compilação de músicas de combate e de intervenção com que nos identificamos, enquanto colectivo. Qual a importância de a música ser uma ferramenta de luta?

    CLO: “El arte está hecho para empuñarse”. Para mim a arte, incluindo a música, é uma ferramenta de expressão pessoal e neste sentido sempre pensámos que está errado definir música de acordo com conotações políticas. Explico-me: há pessoas que nos classificam como rap anarquista, e do meu ponto de vista esta é uma má descrição, mas é certo que somos anarquistas que fazem rap. O rap, neste caso, vai mais além do anarquismo, é apenas a ferramenta para expressar as angústias, as saudades, a raiva, as emoções… Deste ponto de vista, acho que fazer qualquer arte com pretensões, ou dito de outro modo, sem sentimento, de forma utilitária, é atirar pedras contra si mesmo. Não gosto de bandas que vão de um lado até ao outro, exploradores de slogans vazios, mas sim de gente autêntica que põe o coração, a força e as ganas nas letras, e acredito que é essa gente que contribui para o crescimento de consciências despertas, vivas, críticas e combativas.

    JM: Em que contexto da vossa vida surge este projeto? Há um tema social/político em que sejam mais activ@s?

    CLO: Surge num contexto de resistência contra a máfia imobiliária de Madrid, onde tivemos de passar muito tempo barricados em casa a defender o nosso espaço. Surge no meio do desespero de não poder sair de casa por causa do bullying imobiliário (janelas partidas, fechaduras arrombadas, cortes de luz a meio da noite…), e da necessidade de expressar tudo o que sentíamos sobre o que estávamos a passar, e também sobre outras coisas que vivíamos. Também no meio dessa necessidade de nos expressar para não esgotar o ânimo e para poder sacar bons momentos da merda que estávamos a atravessar. Nunca tivemos a intenção de fazê-lo perante um público, mas um vizinho entrou em nossa casa sem bater, viu-nos a rimar, animou-nos com a ideia e arranjou-nos o primeiro concerto. A partir daí seguimos o impulso de o fazer para apoiar causas específicas em concertos solidários.

    JM: Porque aceitaram participar neste benefit?

    CLO: Sempre participámos em benefits de todo o tipo. Nunca quisemos ganhar dinheiro com a música. O processo é sempre o mesmo: recebemos a proposta, pedimos mais informação (se não conhecermos já) sobre o projeto ou luta, e decidimos. Até hoje nunca dissemos que não a ninguém, mas também porque nunca nos pediram nada com que não estivéssemos alinhados. No caso deste benefit, conhecemos o jornal MAPA desde que nasceu e conhecemos gente envolvida desde o início, gente com quem temos diferentes relações de amizade e que valem o seu peso em ouro. Para além disso, o projeto do MAPA é um projeto brutal de jornalismo crítico, acessível ao público e que luta por chegar ao maior número de gente possível, e que realmente consegue, por isso poder apoiar e participar na sua trajetória é uma honra para nós.

    JM: Podemos esperar edições da banda em breve?

    CLO: Nunca se sabe, jajajaja. Estamos sempre a trabalhar em algum tema novo ou em alguma colaboração, e quando reunimos suficientes, às vezes sacamos um disco. Não há nada planeado mas há um horizonte de expressão, portanto não descartamos nada. Para ficarem atualizados podem consultar o nosso perfil de FB, e para ouvir podem ir a callalaorden.bandcamp.com.

    JM: Os sonhos/utopias em que a banda se alicerçou no início mantêm-se?

    CLO: Há anos que eu e o meu irmão nos separámos por via das circunstâncias, fomos viver cada um para um lugar diferente, portanto começámos a ter mais dificuldades em fazer concertos juntos. O meu irmão decidiu deixar de cantar e eu estou com ele, mas essa vontade partilhada deixou de estar, embora continuemos a partilhar outras coisas em conversas e a organizar todo o tipo de coisas. Os nossos sonhos e utopias como pessoas, ainda assim, mantêm-se íntegros, não renunciámos aos nossos ideais e temos inteligência e coração que cheguem para combater diariamente as misérias do mundo em que nos calhou viver, sem forçar a nossa personalidade nem vontade. A luta como conceito tem um amplo alcance e mantemo-nos ativos de múltiplas formas.

    JM: A coletânea será editada em regime Creative Commons. A banda está confortável com direitos autorais abertos? Ou seja, qual é a vossa posição quanto aos «direitos» sobre a música que fazem?

    CLO: Nós nunca quisemos fazer dinheiro com a música, e até agora conseguimos jajajajajaja. Os discos que vendemos foram para projetos e causas, o mesmo com os poucos concertos em que cobrámos bilhete. A nossa música sempre foi Creative Commons desde o anti-copyright, e ai do imbecil que tentar ganhar com as nossas letras! Jajaja (duvido muito que isto aconteça). Como banda estamos muito longe da indústria musical, uma indústria pestilenta que inunda de música inescutável todos os espaços públicos de rádio e televisão, e que cria «estrelas» através de investimentos milionários, para destruir pessoas e explorar imagens. Para mim é a responsável pela estupidificação acelerada das sociedades pela criação de cânones de beleza e éticos que são deploráveis, que nos empurram para o individualismo, para a superficialidade e para a competição. A juntar-se a isto um ideal de ostentação e luxo, é a abertura de feridas sociais cada vez mais profundas, em vez de ser a construção de uma sociedade justa e igualitária. Gentalha.