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Lendo: Entrevista com Calla La Orden: «[este projeto] surge num contexto de resistência contra a máfia imobiliária de Madrid»

Entrevista com Calla La Orden: «[este projeto] surge num contexto de resistência contra a máfia imobiliária de Madrid»

Entrevista com Calla La Orden: «[este projeto] surge num contexto de resistência contra a máfia imobiliária de Madrid»


Acaba de sair o número #35 do Jornal MAPA, acompanhado da terceira compilação de “Música Sem Filtros”: um conjunto de músicas de combate de diferente artistas que podes ouvir sem pagar no Bandcamp do Jornal MAPA, mas com a opção de fazer um donativo que reverte para o Jornal. Aproveitamos para lançar uma série de entrevistas com as bandas e autores que compõem estas compilações.

Calla La Orden é rap de Burgos e entra no Vol. da “Música Sem Filtros” com o tema “Abuelo Néstor”. Nesta entrevista falam-nos da sua história, inseparável da militância: «Os discos que vendemos foram para projetos e causas, o mesmo com os poucos concertos em que cobrámos bilhete.»

Jornal MAPA: Como definem o vosso projeto musical?

Calla La Orden: No primeiro disco de Calla la Orden decidimos que isto não era um projeto político nem uma banda de hip-hop, mas sim uma expressão direta, RAP. E continua a ser assim. Calla la Orden nasce com dois irmãos a rimar em cima de beats na Calle de la Orden, em Madrid, sem nenhuma pretensão artística nem política, simplesmente pela necessidade de nos expressarmos e pelo gozo de o fazermos por cima de ritmos.

JM: A nosso ver, “Música sem Filtros” é uma compilação de músicas de combate e de intervenção com que nos identificamos, enquanto colectivo. Qual a importância de a música ser uma ferramenta de luta?

CLO: “El arte está hecho para empuñarse”. Para mim a arte, incluindo a música, é uma ferramenta de expressão pessoal e neste sentido sempre pensámos que está errado definir música de acordo com conotações políticas. Explico-me: há pessoas que nos classificam como rap anarquista, e do meu ponto de vista esta é uma má descrição, mas é certo que somos anarquistas que fazem rap. O rap, neste caso, vai mais além do anarquismo, é apenas a ferramenta para expressar as angústias, as saudades, a raiva, as emoções… Deste ponto de vista, acho que fazer qualquer arte com pretensões, ou dito de outro modo, sem sentimento, de forma utilitária, é atirar pedras contra si mesmo. Não gosto de bandas que vão de um lado até ao outro, exploradores de slogans vazios, mas sim de gente autêntica que põe o coração, a força e as ganas nas letras, e acredito que é essa gente que contribui para o crescimento de consciências despertas, vivas, críticas e combativas.

JM: Em que contexto da vossa vida surge este projeto? Há um tema social/político em que sejam mais activ@s?

CLO: Surge num contexto de resistência contra a máfia imobiliária de Madrid, onde tivemos de passar muito tempo barricados em casa a defender o nosso espaço. Surge no meio do desespero de não poder sair de casa por causa do bullying imobiliário (janelas partidas, fechaduras arrombadas, cortes de luz a meio da noite…), e da necessidade de expressar tudo o que sentíamos sobre o que estávamos a passar, e também sobre outras coisas que vivíamos. Também no meio dessa necessidade de nos expressar para não esgotar o ânimo e para poder sacar bons momentos da merda que estávamos a atravessar. Nunca tivemos a intenção de fazê-lo perante um público, mas um vizinho entrou em nossa casa sem bater, viu-nos a rimar, animou-nos com a ideia e arranjou-nos o primeiro concerto. A partir daí seguimos o impulso de o fazer para apoiar causas específicas em concertos solidários.

JM: Porque aceitaram participar neste benefit?

CLO: Sempre participámos em benefits de todo o tipo. Nunca quisemos ganhar dinheiro com a música. O processo é sempre o mesmo: recebemos a proposta, pedimos mais informação (se não conhecermos já) sobre o projeto ou luta, e decidimos. Até hoje nunca dissemos que não a ninguém, mas também porque nunca nos pediram nada com que não estivéssemos alinhados. No caso deste benefit, conhecemos o jornal MAPA desde que nasceu e conhecemos gente envolvida desde o início, gente com quem temos diferentes relações de amizade e que valem o seu peso em ouro. Para além disso, o projeto do MAPA é um projeto brutal de jornalismo crítico, acessível ao público e que luta por chegar ao maior número de gente possível, e que realmente consegue, por isso poder apoiar e participar na sua trajetória é uma honra para nós.

JM: Podemos esperar edições da banda em breve?

CLO: Nunca se sabe, jajajaja. Estamos sempre a trabalhar em algum tema novo ou em alguma colaboração, e quando reunimos suficientes, às vezes sacamos um disco. Não há nada planeado mas há um horizonte de expressão, portanto não descartamos nada. Para ficarem atualizados podem consultar o nosso perfil de FB, e para ouvir podem ir a callalaorden.bandcamp.com.

JM: Os sonhos/utopias em que a banda se alicerçou no início mantêm-se?

CLO: Há anos que eu e o meu irmão nos separámos por via das circunstâncias, fomos viver cada um para um lugar diferente, portanto começámos a ter mais dificuldades em fazer concertos juntos. O meu irmão decidiu deixar de cantar e eu estou com ele, mas essa vontade partilhada deixou de estar, embora continuemos a partilhar outras coisas em conversas e a organizar todo o tipo de coisas. Os nossos sonhos e utopias como pessoas, ainda assim, mantêm-se íntegros, não renunciámos aos nossos ideais e temos inteligência e coração que cheguem para combater diariamente as misérias do mundo em que nos calhou viver, sem forçar a nossa personalidade nem vontade. A luta como conceito tem um amplo alcance e mantemo-nos ativos de múltiplas formas.

JM: A coletânea será editada em regime Creative Commons. A banda está confortável com direitos autorais abertos? Ou seja, qual é a vossa posição quanto aos «direitos» sobre a música que fazem?

CLO: Nós nunca quisemos fazer dinheiro com a música, e até agora conseguimos jajajajajaja. Os discos que vendemos foram para projetos e causas, o mesmo com os poucos concertos em que cobrámos bilhete. A nossa música sempre foi Creative Commons desde o anti-copyright, e ai do imbecil que tentar ganhar com as nossas letras! Jajaja (duvido muito que isto aconteça). Como banda estamos muito longe da indústria musical, uma indústria pestilenta que inunda de música inescutável todos os espaços públicos de rádio e televisão, e que cria «estrelas» através de investimentos milionários, para destruir pessoas e explorar imagens. Para mim é a responsável pela estupidificação acelerada das sociedades pela criação de cânones de beleza e éticos que são deploráveis, que nos empurram para o individualismo, para a superficialidade e para a competição. A juntar-se a isto um ideal de ostentação e luxo, é a abertura de feridas sociais cada vez mais profundas, em vez de ser a construção de uma sociedade justa e igualitária. Gentalha.


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Sandra Faustino

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